O academico tinha uma physionomia franca e insinuante. Conversava comigo
sem desdenhosa superioridade. Familiarisamo-nos depressa, como dous
futuros companheiros de casa em Coimbra.
Eu fui um grande fallador, n'aquella idade, em que pensava menos. O meu
recente amigo sympathisou com a minha garrula eloquencia, e dava signaes
de desenfado, quando naturalmente devêra querer dormir, depois de uma
fatigante jornada, em dia de neve.
Eu não era rapaz que, por delicadeza, calasse a minha curiosidade a
respeito de D. Amelia.
--O senhor faz-me o favor de me dizer uma cousa?--disse eu.
--Que é? quantas horas são?... são 10... quer dormir?
--Não, senhor: queria saber quem é esta snr.^a D. Amelia?
--É cunhada do padre, e casada com um sujeito, delegado em * * *.
--Isso já eu sabia... pouco mais ou menos.
--Então sabe tanto como eu...
--Mas é d'aqui d'esta aldêa esta senhora? Creio que ouvi dizer que era
de Lisboa.
--É verdade... nasceu em Lisboa...
--E como veio parar aqui n'este matagal? Naturalmente perdeu-se, como
eu, na serra, por causa da neve, e veio cá bater, e cá ficou! Pois eu
dou-lhe a minha palavra de honra, que apenas vir luzir o buraco,
retiro-me sem mais ceremonias d'este delicioso covil de cabras.
O meu amigo ria-se. Estava disposto a achar-me graça, e o leitor póde
tambem rir-se, se lhe aprouver.
E acrescentou ao sorriso:
--Parece-lhe impossivel que a tal senhora viesse de Lisboa para aqui sem
ser impellida por um acaso?
--De certo... Já não admira que ella tenha tosse de tisica... O que me
espanta é ella viver, se cá está desde hontem!... Quando veio ella?
--Ha dous annos.
--Então é eterna... ou santa. Hei-de dizer que encontrei esta martyr a
uma minha tia, que é capaz de jurar que a viu fazer milagres...
--O menino é sarcastico! Se o não visse tão inclinado a rir-se de cousas
serias, contava-lhe uma historia triste...
--E eu gosto muito de historias tristes... Verá que me não rio, quando
me dizem alguma cousa que me toque o sentimento. A minha familia
chama-me poeta; os visinhos chamam-me tolo; não sei bem o que sou; mas o
que não sou é insensivel... Vê... já não tenho vontade de gracejar...
Conte-me agora a historia, que eu prometto contar-lhe outra que me fez
chorar, porque é uma passagem tão infeliz, que, se eu fizesse novellas,
escrevia uma.
--Talvez as escreva no futuro...
--Eu?... Deixe-se d'isso... O meu mestre de logica diz que eu sou um
alarve, e o de rhetoria já me mandou ser aprendiz de alfaiate... Não
tenho habilidade nenhuma. O meu gosto é lêr os sonetos do abbade de
Jazente, e as quintilhas do Nicolau Tolentino. Não sei mais nada, nem
quero saber... Vamos á historia, sim?
--Então aproxime-se de mim, que eu quero fallar baixo. Mas, antes de
mais nada, promette não contar a ninguem o que vou dizer-lhe?
--Pois é segredo!
--É.
--Prometto...
--Pois ahi vai.