Minutos depois, achava-me n'uma povoação, onde nunca estivera. Encontrei
uma velha que castigava um porco, rebelde á invocação de sua ama, com
uma roca.
Perguntei-lhe que povo era aquelle.
--Alpedrinha--disse ella.
Ora, Alpedrinha distava duas leguas e meia de minha casa. Era necessario
pernoitar alli. Perguntei á dita velha onde morava o parocho. Mostrou-me
a casa. Pedi gasalhado ao reverendo, que n'esse momento voltava da
igreja. Disse-me que subisse. Quiz saber quem eu era, e tratou-me
delicadamente, quando lhe citei um medico, pessoa de minha familia.
O snr. padre Joaquim era um padre admiravel. Tinha maneiras da côrte.
Vestia com muita limpeza. Fallava com prodigiosa correcção, e offerecia
aos seus hospedes aguardente e biscoutos, tudo do melhor, e servido em
bons crystaes e polida salva de prata.
Momentos depois que eu chegára, apeou á porta do meu sympathico
sacerdote um cavalleiro, ainda moço, muito pallido e magro, com chapéo
hespanhol, faxa vermelha, e botas d'agua.
Era um estudante de Coimbra, que voltava doente para sua casa, e
costumava pernoitar em Alpedrinha, com aquella familia.
A primeira pergunta do academico foi esta:
--Como está a snr.^a D. Amelia?
--O mesmo...--respondeu padre Joaquim.
--E seu mano? Tem vindo a casa?
--Não senhor: desde que foi delegado para * * *, ha tres mezes, não
voltou....
Eu estava ancioso por conhecer a snr.^a D. Amelia, porque até ao momento
em que o estudante chegou, suppunha eu que toda a familia do parocho se
limitaria a alguma ama, e alguns pequenitos, que, de ordinario, são
afilhados do padre. Depois das perguntas do meu illustre companheiro de
hospedagem, fiquei sabendo que n'aquella casa existia uma snr.^a D.
Amelia, e um senhor delegado de * * *.
Padre Joaquim contou ao academico as minhas aventuras de caçador;
disse-lhe que me tinha achado muito fino (referia-se naturalmente á
magresa), e fez a apologia dos meus olhos, que, naturalmente, revelavam
uma extraordinaria esperteza, espiritualisados pelo espirito de vinho,
que o sacerdote me injectou nas veias marasmadas pelo frio.
Conversei com o academico. Perguntei-lhe muitas cousas de Coimbra:
quantos canellões soffria um calouro; o calculo aproximado dos puxões de
orelhas; a solemnidade indecente de certo vaso na cabeça.... &c. &c.
O academico respondia-me com muito agrado, e offerecia-se para meu
protector em Coimbra, no anno seguinte, que devia ser o da minha
partida.