A minha organisação está debaixo da terrivel influencia d'uma zombaria

providencial! Eu era, ha oito dias, o homem morto para o futuro; as

minhas alegrias resuscitava-as do tumulo mudo do passado; a minha vida

era uma saudade que devia cegar-me os olhos da razão com o seu brilho

sinistro, enlouquecendo-me, ou matando-me. Detestava o presente, porque

debaixo dos meus pés estava o ardor do deserto, e nos horisontes da

minha esperança... nem uma gôta d'agua que me apagasse este lume que me

queima, sem o poder de aniquilar-me. Eu era isto! A solidão era-me cara.

O tumulo de Helena povoava-se-me de anjos. A imagem d'ella, esboçada em

cada téla que me rodeia, tinha uns olhos que choravam, mas os seus

labios articulavam não sei que palavras animadoras, que me mandavam

subir com o sorriso da resignação as escadas do meu patibulo.

E esta vida acabou para mim. A imagem de Helena fugiu lagrimosa e

espavorida da solidão do meu quarto. A sepultura d'ella... é uma pedra

êrma de phantasmas para mim. Comecei por descrêr das minhas passadas

visões. Raciocinei friamente sobre a vida e a morte; sobre a belleza que

foi, e o cadaver que é; sobre o coração arquejante de amor, e o coração

minado de vermes.

Que é isto, pois? quem rasgou este véo diante de meus olhos? Que homem

sou eu hoje, ou que homem fui durante dous annos de amargura incuravel?

Entre mim e Helena... está Rosa Guilhermina! Tenho o rubor do pejo na

face, quando estas palavras me fogem do coração! Parece que a vejo

contrahir uma visagem de indignado pasmo por tal mudança! O meu caracter

apresenta-se-lhe uma inconcebivel monstruosidade! Vota-me um legitimo

desprêso, desde este momento?

Primeiro me despresei eu a mim. Primeiro olhei eu, com asco, para a

minha miseria. Antes de v. exc.ª recuar nauseada da baixa condição da

minha alma, entrei eu na minha consciencia, e vi-me torpe, ingrato,

insensivel, perjuro, e vil!

Tenho muito orgulho da minha honra; quero absolver-me d'esta deslealdade

á memoria de Helena, e não posso. Vejo que é necessario ser cynico para

me desculpar, escarnecendo as culpas que a sociedade me imputa. Não

posso, não sei sêl-o, não está na minha mão rasgar o contracto que fiz

com Helena, nos seus ultimos instantes.

Mas eu amo Rosa. Que sentimento é este? Como hei de convencer-me de que

amo esta mulher? Se isto é uma illusão, como é que se dissipam estas

chimeras?

Não sei! Lembra-me que senti uma commoção inexplicavel quando a vi

chorar! Lembra-me que a vi n'um sonho, de que acordei balbuciando o seu

nome com ternura. Lembra-me que desdenhei, acordado, a ternura do

sonho... Mas a minha alma estava inquieta. O meu quarto parecia-me

pequeno: este silencio entristecia-me... Faltava-me não sei que voz, que

som dos anjos que me tinha ferido uma corda no coração!... Ri da minha

fragilidade. Peguei d'um pincel... Disse á minha alma que lhe inspirasse

os traços de Helena... e os olhos amortecidos de Rosa resaltaram-me do

panno com duas lagrimas... Era a imagem d'ella, que se levantava de um

tumulo a dizer-me: «Aqui tens lagrimas minhas; aqui tens um coração, que

renasceu das minhas cinzas; aqui te dou a unica mulher, que póde supprir

a que não terá para ti um sorriso sobre a terra... Vê que os vermes

corroeram a minha face. Não te illuda uma esperança em outros mundos,

porque os limites da vida são a campa... Eterna é só a materia; mas a

materia que te feriu os sentidos, dissolveu-a o sôpro da desgraça...»

Contive-me durante dous dias de tribulação incessante. O coração

dizia-me que Rosa me escreveria. Li a carta que recebera com

indifferença, e passei por a minha alma todas aquellas palavras.

Achei-as sinceras... Acarinhei-as com soffreguidão... Recordei o que

ella me dissera, depois. Accusei-me de ingrato. Tive orgulho do meu

rival. Receei ter parecido um ente indigno de tamanho amor! Senti

ciumes... Queria vêl-a... Precisava de lhe esconder metade de minha

alma, revelando-lhe uma pequena parte dos meus sentimentos...

E procurei-a... Não sei o que lhe disse... Recordo-me que lhe apertei a

mão com ardor; que lhe pedi lagrimas de piedade, e coragem para não

transgredir um juramento... Penso que me não entendeu, porque me

respondeu com um sorriso, e fugiu de ao pé de mim com a face abrazada...

E, desde esse dia, escrevo-lhe a todas as horas. Não lhe mostro as

minhas cartas, porque não posso convencer-me de que o meu coração está

n'ellas... É impossivel!... Aqui ha uma fascinação!... Eu não posso ter

esquecido Helena!...

Preciso hoje da sua companhia, minha querida amiga!... Escrevi o que não

ousaria pronunciar...

De v. exc.ª

Grato amigo,

_Paulo_.

VIII

_25 de outubro_

A ingratidão é punida. Principio a expiar o perjurio. Helena vai ser

vingada por esta mulher, que, traiçoeiramente, me assaltou o coração,

quando eu me julgava de ferro para as paixões.

Rosa Guilhermina vai recuando diante de meus passos. Aproximar-me foi

gelal-a. Da tristeza profunda com que me olhava, antes da vergonhosa

quéda que dei do alto do meu orgulho, transformou-se n'um rosto

folgasão, n'um conversar futil e acreançado, n'um nem eu sei que de

motejo e zombaria que me escandalisa e envergonha.

Esta mulher quiz experimentar-se, experimentando a minha soberba.

Humilhou-se como a vibora, que se enrosca entre as urzes, para se

levantar d'um salto de que eu devia fugir atrozmente ferido no meu amor

proprio. Isto tudo é inexplicavel; mas o facto existe com horrorosa

evidencia! Essa mulher, que me provocou, ha de amanhã despresar-me...

despresa-me já hoje, e ousa dizer-me que me recebe, em attenção á

delicadeza com que a tenho tratado!

Esta fria linguagem é a mascara impostora dos caracteres, que se não

sustentam. Quando a mulher assim falla, é porque o amor, nos labios

d'ella, foi uma expressão mentirosa, que passou por lá, como a palavra

«Deus» que é seguida, na bôca do impio, pela palavra «demonio!»

É isso crivel, minha querida amiga?

Rosa será aquella mulher, que me escreveu? Não a veria eu chorar? As

lagrimas podem assim prestar-se a uma infamia? Ha mulheres que tiram

d'um coração gasto um tal proveito?

Hontem procurei-a com a resolução estupida de convidal-a a ser minha

mulher! Eu não podia já luctar com ella, nem comigo. Um dia antes,

perguntei-lhe a razão da sua frieza; respondeu-me que ella mesmo não

sabia explical-a. Disse-me que Alvaro de Sousa não frequentava a sua

casa, e accrescentou que desejava saber de mim a razão d'este

procedimento.

--De mim?!--perguntei eu.

--Sim... do senhor... Por minha parte não lhe dei a elle motivo algum de

abandonar uma casa, em que entrava como parente... O que fiz foi

interpôr as minhas supplicas com o senhor Paulo e com elle para que não

tivessem desintelligencias em que soffresse a minha reputação.

--A sua reputação é invulneravel...

--Não é tanto assim... A vinda frequente do senhor Paulo, e a ausencia

completa de Alvaro de Sousa, é motivo de murmuração na visinhança.

--Quer com isso dizer que não a sacrifique á murmuração dos visinhos?

--Escuso lembrar á sua honra esse dever. O senhor deve ser o primeiro a

lembrar-se da susceptibilidade em que estou na presença d'um mundo que

não distingue as mais honestas das mais torpes intenções...

--Está raciocinando com admiravel prudencia, senhora D. Rosa!... Quer em

summa dizer que não devo vir a sua casa...

--Não digo tanto; mas devo pedir-lhe que seja menos frequente nas suas

visitas...

Comprehendi-a...

E ergui-me d'um impeto para retirar-me. Parece que o coração se me tinha

despegado no peito. Ouvi um zunido estranho, que me fazia latejar a

cabeça em dolorosas pontadas. Era tudo escuro diante de meus olhos, e

não havia em mim sensação que me não fizesse recear uma demencia.

Sahi, e, só muitos passos longe d'aquella casa fatal, me lembrou a

retirada boçal que fizera. Como foi possivel que eu não respondesse

áquella mulher?! Que indignação, ou que nobreza d'alma foi a minha, que

me não inspirou uma palavra que a fizesse córar?! Será isto uma

devassidão moral, que supporta impassivel todas as offensas? A longa

desgraça petrificou-me? Um amor, todo sancto, todo saudade, o amor de

Helena, dous annos puro no sacrario do meu coração, fez-me cynico?

Tenho-me hoje feito estas perguntas. É um tormento não poder responder.

Não posso. Não sei o que sou, nem o que é aquella mulher!

Seria uma desgraça, um cancro incuravel na minha alma a certeza de que

ella é tão infame como se me ostenta!

Vejamos se posso absolvel-a... Oh! eu queria absolvel-a, sem deshonra

para mim, nem para ella!... De que modo?...

Ha, por ventura, uma intriga? Qual? Por quem? E com que fim?

Não sei, não posso comprehendel-a.

Disse-me ella que nunca me confessou amor! Será isto verdade? Fui eu que

me illudi? Então, aquella carta, aquella livre explicação d'um affecto

repentino... foi tudo um sonho?! Terei eu mentido a v. exc.ª? A cópia da

carta que lhe enviei, foi uma ignobil impostura?...

Como é especialmente horrivel a minha situação! Como eu, d'um lance

d'olhos, vejo todos os casos em que um homem póde suicidar-se na sua

honra cuspindo na face d'uma mulher!...

Esta situação não póde assim durar... Eu preciso ouvil-a... Ella ha de

saber colorir a sua depravação d'outro modo... Eu quero até que ella se

defenda, porque vai ahi n'essa defesa a salvação do meu amor proprio...

Que dirá?... Que terei eu que responder-lhe?

Minha boa amiga, ha uma conspiração sobrenatural contra mim... Eu

receio, hoje mais que nunca, uma demencia. Lamente o seu infeliz amigo

_Paulo_.

IX

_2 de novembro_

Tudo está perdido.

Rosa Guilhermina vai sahir do Porto. D. Anna do Carmo faz parar, ha

quatro dias, a carruagem á porta de sua filha. Alvaro de Sousa

reconciliou-as. Leia v. exc.ª essa carta, que recebo n'este momento:

«Confidente de minha amiga Rosa Guilhermina, devo dizer a v... que as

suas visitas a esta casa, emquanto ella fôr minha hospeda, são bastante

prejudiciaes á futura felicidade d'esta senhora. Sua mãe, informada das

relações que o chamam a minha casa, obriga Rosa a sahir do Porto.

Suspeito que a sua direcção não pare aqui em Portugal.

«Da parte de v..., tanto eu como ella esperamos a cavalheira prudencia,

que o seu bom caracter nos afiança. Se a ama, como devo acreditar das

cartas que lhe escreve, desvele-se em não prejudical-a. Até aqui a sua

união com a filha sem mãe, seria possivel. Hoje que D. Anna do Carmo

reconhece sua filha para eleval-a até onde o dinheiro a collocou,

declaro-lhe, com pesar meu, que serão, além de inuteis, nocivos todos os

seus esforços.

«Com sincera estima

«De V...

«Veneradora affectuosa,

«_Maria Elisa_.»

Ora aqui tem, minha boa amiga, o artista em lucta com a sociedade. Ella

ahi vem pôr-me um pé, segunda vez, no pescoço! Cá sinto já a dôr

vilipendiosa, e nem sequer sei já sorrir-me, quando a soberba me estende

na face uma bofetada! É preciso ser homem, antes de tudo. Quero tirar

nobreza da minha vilania! Esta dôr moral é mais forte que a outra. Sinto

desvanecer-se o amor, e só tenho alma para compulsar as agonias d'uma

paixão incomparavelmente maior. Cerra-se uma ferida; mas creio que me

abriram outra incuravel, rasgando-me a antiga cicatriz.

Hoje preciso da vida, porque é impossivel que eu não tenha a minha hora

de vingança...

Vou sahir de Portugal... não porque me reconheça tão pusillanime que

receie aqui uma consumpção moral... Não é isto... é que debaixo d'este

céo não ha para mim um anjo bom que me auxilie n'esta peleja desigual

com o meu inseparavel demonio.

Tenho dinheiro, que me é inutil aqui. Preciso desperdiçal-o... Quero

tocar a extrema da miseria, para que a necessidade me faça artista, e o

trabalho me salve d'estes ocios despedaçadores. Não sei onde irei... nem

mesmo quero sabel-o... De qualquer parte, minha querida amiga, virá uma

minha carta pedir-lhe uma lagrima. Quando a não receber... quando o

silencio lhe afigurar que a sua amizade fez um ingrato, poderá v. exc.ª

dizer: «Aquelle desgraçado, de quem fui tão amiga, e que tanto deveu ás

minhas consolações, morreu!»

E v. exc.ª poderá então louvar a Deus, que encravou a roda do meu

infortunio. Poderá agradecer-lhe, como unica pessoa que deixarei no

mundo com o meu nome no coração, a graça da morte concedida ao talvez

primeiro homem, que não teve cinco minutos de felicidade na demorada

existencia de vinte e seis annos.

N'este momento ha em mim alguma cousa sobrenatural. Não amo Rosa

Guilhermina; mas tambem a não detesto! O que eu muito queria era o

segredo d'aquella indole, porque eu não seria acreditado se contasse a

transição do amor ao desprêso, a infame mentira que me arrancou aos

braços d'um cadaver para me lançar nos da desesperação.

Deixal-a! Quero até pedir a Deus... _a Deus!_ a desgraça, que é a mãe da

piedade! Sinto-me religioso, porque, acima d'estas torpezas, ha de

necessariamente existir um Creador, que deixou aqui a dilacerarem-se o

mal e o bem. Este Creador deve ser juiz, e eu começo a temêl-o desde

este momento... Quero, pois, pedir a Deus que proteja o futuro de Rosa

Guilhermina. Os anjos vão com ella. Esta expressão do povo é a mais

expansiva e tocante que a minha alma pode dar-lhe. A derradeira

consolação do infeliz é perdoar. Eu perdôo... Offereço o meu coração

para todos os punhaes; curvo a minha cabeça a todas as desgraças; dobro

o meu joelho a todas as violencias, e prometto de nunca mais chamar

infames os instrumentos, que obedecem á vontade superior do grande motor

da vida, e da morte, da honra, e da deshonra.

Não tenho coragem de abraçal-a, minha cara irmã. Adeus.

De v. exc.ª

Amigo de toda a vida,

_Paulo_.

X[5]

_Roma, 4 d'abril de 1825_

Minha prezada amiga

Eu tinha esperanças na minha convalescença moral. O coração, aturdido

por padecimentos tumultuosos, cansado e endurecido por cicatrizes de

golpes sobre golpes, adormecera extenuado... Eu principiava agora uma

nova estação na minha vida. A insensibilidade promettia-me uma

tranquilla vegetação. Adormeceria sem lagrimas; acordaria sem

sobresaltos; veria tudo descórado em redor de mim; abriria para tudo,

que me cerca, estes olhos de estatua, sem culto para o bello, nem asco

para o repugnante.

Este ultimo baluarte sinto-o esboroar-se debaixo dos pés. Á

convalescença da alma segue-se a desorganisação da materia.

Estou doente d'uma enfermidade que eu sentia, ha annos, fermentar-se-me

no coração. Muitas vezes sentia umas palpitações extraordinarias, e

depois dores agudissimas, um suor copioso, um mal-estar physico e moral,

um mixto de aborrecimento e desesperação, que eu attribuia sempre á

inconsolavel viuvez da minha alma.

Este padecimento, nos primeiros mezes da minha viagem, diminuiu até se

extinguir. N'outro tempo, não se me dava sentir aggravar-se o mal; mas,

agora, queria vêr-me livre, queria viver muito n'este marasmo de todos

os sentidos.

Não o quiz a Providencia. Ha quinze dias que soffro muito. Dizem-me que

tenho uma aneurisma. Não sei o que é... É a morte, que me fugiu quando

eu a chamava, e me chama quando eu lhe fujo. Não posso dizer-lhe que bem

vinda seja!

Mandam-me a ares patrios... Eu não sahirei, já agora, d'aqui... Este

conselho da medicina é um futil subterfugio.

A minha doença estudo-a nos livros onde aprendem a cural-a os medicos. É

inevitavel a morte... Póde-se assim viver longos annos; mas eu, assim,

não desejo viver...

É lamuria de mais por uma cousa tão transitoria como a vida!... Eu devo

ser superior a esta pouca materia que se dissolve no dia seguinte

áquelle em que o espírito planisa mil prosperidades. Não me deve ser

penoso morrer, porque eu não tinha previsto felicidade nenhuma. O meu

futuro seria uma atonia glacial, uma sensibilidade de morte no coração,

e vida na apparencia... Viver assim, entre os homens, ou entre

cadaveres, que importa?... Morrerei resignado.

Agora posso fallar-lhe de tudo, porque tudo me é indifferente. Levanto,

hoje, a suspensão que impuz á sua bondade, minha amiga. Póde fallar-me

de Rosa. Que é feito d'essa mulher?

Incommoda-me muito o escrever. Prohibem-m'o; mas a prohibição não seria

obedecida, se a cabeça me deixasse... Sinto um desprazer semelhante á

nausea. É um esvahimento de cabeça, e uma lassidão em todo o corpo, que

só posso attenuar com o uso do opio, que me entorpece completamente.

Adeus.

De v. exc.ª

Amigo do coração,

_Paulo_.

RESPOSTA

_Porto, 6 de maio de 1825_

Meu bom amigo

Eu peço a Deus que lhe sosegue a imaginação. V... suppõe-se mais doente

do que realmente está. O seu ardente espirito engana-o. Não se entregue

ao terror da morte: viva, porque esse medo é signal de que a vida ainda

lhe é cara.

Espero ainda vêl-o em Portugal, esquecido dos seus passados dissabores,

e vivendo para a felicidade de pessoas suas amigas.

Quando v... perder um falso preconceito em que tem a sociedade, verá que

o seu elevado merecimento lhe grangeia estimas, e o seu bom coração

encontrará, por ventura, outro digno d'elle.

Não quero que se lembre da morte!

Dava-me tantas esperanças de o vêr feliz, na sua penultima carta, e

agora parece que capricha em fazer-se desditoso, communicando á sua

extremosa amiga as suas tristes previsões!

Bem sabe com que amizade lhe fallo. Affiz-me a tratal-o como irmão, e

não saberia amar com mais ternura um filho. Quando perdi um esposo, na

flôr dos annos, e uma filha que elle me deixou nos braços, tambem eu,

senhor Paulo, me julguei morta para tudo. Sentei-me no leito d'onde vira

sahir o cadaver de meu marido, e esperei ahi a morte. Abracei-me ao

berço vasio de minha filha, e pedi ao Senhor a esmola de uma mesma

sepultura para tres entes que deviam ajuntar-se.

Encontrei-o ao meu lado, chorando comigo a perda de Helena, senhor

Paulo, e os seus nobres padecimentos vieram minorar os meus. V...

fallou-me do céo, da eternidade, da perpetua união das almas no seio de

Deus, e eu acreditei-o. Como as suas palavras me vinham sanctificar a

minha dôr no coração, gravei-as ahi, e a sua imagem entrou lá com ellas

para sempre.

Não sei se o amei; mas, se o amor não era aquella extremosa amizade, que

lhe consagrei, e consagro, então não sei o que é o amor.

Não era isso o que accende o ciume, porque esse não o senti eu nunca. O

seu triste episodio com Rosa contristou-me, porque desde o principio

prophetisei desventuras. Realisaram-se muito além do meu agouro.

Nunca lhe fallei assim, porque... deixe-me tambem ceder a não sei que

triste e mysteriosa inspiração... parece-me que o não verei mais... isto

é uma loucura, uma allucinação, mas o coração sente-a tão forte, que eu

não posso suspender as lagrimas... Nunca lhe fallei assim, porque v...

tem hoje vinte e sete annos, e eu trinta e sete... As desgraças não me

poderam ainda envelhecer de todo, e eu recearia enganal-o, fazendo-o

nutrir, a respeito da minha amizade, alguma falsa supposição, que me

poderia fazer muito desgraçada, ou muito feliz.

Esses receios passaram. Agora conheço que não ha commum entre nós senão

uma amizade illimitada até á honesta confiança. Nunca podia-lhe ser

outra cousa...

Fallei já muito de mim. Quer que lhe falle de Rosa?

Depois da sua partida, a filha de Anna do Carmo foi viver na companhia

de sua mãe, levando comsigo a viuva do negociante da rua das Flôres.

Encontrei-as em casa do D. Antonio de ***, e achei-as ambas bellas.

Maria Elisa trazia douda a cabeça de S*** C***, Rosa Guilhermina, um

pouco triste, recebia com indifferença o cortejo teimoso de Alvaro de

Sousa. Por causa de Maria Elisa houve pequenas miserias de salão, ciumes

senis, com que os nossos velhos se inculcam rapazes. Felizmente, não

lhes falta zêlo para não deixarem transpirar as fidalgas impudencias,

que sabem occultar nos seus solares.

Agora receba uma novidade, que não deve já ferir a sua vaidade, nem

mesmo alvoroçar o seu coração.

Rosa Guilhermina vai casar-se.

Quer saber com que neto de trinta avós?

É um neto sem avô conhecido.

Não sei se ha seis ou mais annos que Rosa Guilhermina viveu algum tempo

em casa do negociante Silva, da rua das Flôres, com quem seu pae, o

arcediago de Barroso, a quiz casar.

Rosa namorou-se ahi d'um tal José Bento, filho d'um retrozeiro. Este

lôrpa (diz Maria Elisa que o era de grande marca, e eu creio que

continúa a sêl-o) estudava latim em casa do Passos, cujo quintal partia

com o do arcediago, na travessa do Laranjal ou Bomjardim. Por causa

d'ella, e á sua vista, o rapaz foi castigado com uma palmatoria. No dia

seguinte, o mestre que o castigou, appareceu morto, e José Bento

desappareceu.

Foi para o Brazil, onde se demorou alguns annos, vendendo carnes sêccas.

Por fim, morre o patrão, e deixa-o senhor d'uma riqueza que parece

extraordinaria, pelo fausto com que se apresentou no Porto.

Ninguem se lembrava já do filho do retrozeiro, que tinha morrido. José

Bento de Magalhães e Castro, como elle se assigna, occultou algum tempo

o seu nascimento; mas, um dia, apresenta-se em casa de Anna do Carmo,

pedindo licença para vêr Rosa Guilhermina.

A viuva apparece; mas não se recordava já das feições do seu primeiro

namoro. José Bento declara-se, e offerece-se como marido de Rosa.

Não sei o que se seguiu a isto. O boato do proximo casamento correu

logo. O senhor Magalhães e Castro é recebido nas primeiras casas.

Alcançou fôro de fidalgo, e trata de edificar no Reimão um palacete com

as armas dos Castros e Magalhães. Dizem-me, que, dentro de oito dias,

Rosa será senhora de grandes bens de fortuna, e as suas carruagens serão

as melhores.

Eu quizera que v... se risse com a fina ironia de talento, e da

experiencia, como eu realmente me rio d'estas grutescas evoluções do

mundo.

Vai extensa a carta, e parte para Cadiz o hiate que deve leval-a.

Adeus, meu querido amigo. Escreva-me, dizendo que se desvaneceram os

seus terrores. Viva para a sua dedicada irmã.

***

XI

_Roma, 28 d'abril de 1825_

Graças, minha querida amiga! A sua carta é um modelo de que deviam

servir-se os raros anjos, que receberam de Deus a divina missão de

consolar infelizes.

O meu coração sentira uma estranha alegria, duas horas antes de eu abrir

a carta de v. exc.ª Era o presentimento.

Tive uma hora de luz. Respirei o aroma de todas as flôres da vida.

Dilatava-se-me o coração. As palpitações eram impetuosas como as do

sangue, surprendido pela imagem de uma mulher, que se julga morta, e

para sempre perdida.

Era esta justamente a hora em que v. exc.ª devia assim fallar-me. Mezes

antes, esta linguagem faria a sua desgraça, que a minha está fadada

desde o seio de minha mãe.

Foi minha amiga, quanto podia sêl-o. Fui eu quem lhe esposou o seu

coração viuvo d'um esposo e d'uma filha. Eis aqui uma vaidade sancta,

que não deshonra um quasi moribundo. As suas revelações, senhora,

acolhe-as meu coração como um deposito sagrado que brevemente confiarei

ao tumulo.

A minha morte proxima não é uma chimera de imaginação ardente. Já lhe

disse que quero viver e não posso... Desfalleço, porque todos os meus

esforços são impotentes. Cravo as unhas na aresta do abysmo; mas o corpo

resvala, e a queda é infallivel.

Morro aos vinte e sete annos. Vou, envelhecido por toda a sorte de

tribulações. Resta-me saber o que é a indigencia: vai muito adiantada a

noite da vida para que a conheça. O meu dia eterno vai nascer, e a luz

matutina d'esse dia irradiou-se em volta de mim, quando as suas palavras

vieram povoar de bellas visões a solidão do meu quarto.

Foi o amor que me matou! Posso dizel-o com toda a ufania d'uma nobre

amargura: foi o amor que me matou! Esta grande alma não era para esta

sociedade. Offereci-lh'a, despresou-m'a... Lancei-lh'a aos pés...

calcaram-m'a... Fez-se-me uma villania, porque eu era muito nobre...

conheço que o era, porque tenho perdoado a todos aquelles que me

cortaram as carnes até me chegarem ao coração... Não me conheceram, e eu

não os conheci a tempo. Foi muito tarde que o mundo se me ostentou, qual

é. Eu tinha direitos a ser feliz, embora recebesse a felicidade pela

porta da deshonra. Não quiz. A minha pureza custou-me a vida, porque

fugi do mundo para a solidão a digerir o fel que me deram, e protestei

morrer antes de cuspil-o na face da sociedade.

Aconselho a infamia a todos os desgraçados, senão quizerem o martyrio.

Se forem insultados, indemnisem-se. Renunciem educação, honra, pundonor,

e dignidade, todas as vezes que a vingança depender da villania, da

deshonra, da impudencia, e do descaramento.

A Filha do Arcediago Terceira Edição · 第 17 / 18 段