Reparei com animo frio na physionomia de Rosa. É uma d'estas mulheres

que o mundo chama bellas, e eu creio que o são. Sem uns traços de

soffrimento, que lhe assombram os olhos, não seria tão bella. Tem um

olhar humilde, como quem pede compaixão. Não sei que transparente brilho

de lagrimas lhe empana os olhos. As palpebras, como cansadas de se

abrirem diante do infortunio, pendem amortecidas. Se não ha estudo

n'esta attitude caracteristica, o olhar de Rosa póde exprimir muito

amor, ou muito fastio.

Muito amor, talvez... é mais natural. Alvaro de Sousa, constantemente

embebido na contemplação d'esta mulher, não a deixa um instante sósinha.

Muitas vezes a viuva do negociante vem á sala trocar algumas palavras

com Alvaro, e não consegue divertir-lhe os olhos da sua amiga. Não pude

comprehendel-os. Achei demasiada precaução no amante, e alguma frieza,

se não era pudor, em Rosa. As perguntas carinhosas, que elle lhe faz,

são correspondidas com meiguice nos labios; mas a phrase vem sêcca do

coração. Reparei n'isto, e parece que o pincel, que traçava as feições

de Rosa, copiava tambem a physionomia moral de ambos.

Á primeira secção vieram ao panno os traços formosos da viuva. Alvaro

abraçou-me com frenesi; e ella parece que encarou tristemente aquelle

jubilo, que me pareceu pueril. É que aos vinte annos é assim o amor. A

felicidade embriaga os que não provam o fel nas primeiras libações da

infancia.

No dia seguinte fui continuar o retrato.

Alvaro de Sousa não tinha chegado ainda. Rosa pareceu-me mais alegre, e

recebeu-me com um sorriso de graça e confiança. Antes de sentar-se

perguntou-me que razão tivera eu para retirar-me, na primeira vez que

alli fôra, d'um modo que a deixára cuidadosa. Pedi-lhe que me não

interrogasse. Rosa, sem offensa ao meu pedido, fallou de Helena,

recordando a conversa que precedera a minha sahida. Era uma delicada

maneira de interrogar-me. Eu creio que me desfigurei. Reparou ella que

eu estava pallido e tremulo. Assucena, que por não sei que infantil

capricho me subira para o collo, disse que eu tinha uma lagrima nos

olhos. Rosa aproximou-se, e, apertando-me a mão, com um ar de bondade, e

um desembaraço de que eu não seria capaz, disse que me conhecia, e

pediu-me perdão de ter ferido o filho do advogado, que adorára a filha

do general.

Não respondi a este lance affectuoso. Pedi-lhe que se sentasse para

continuar o retrato. Rosa parecia mais commovida que eu. Sentou-se.

N'este momento entrou Alvaro. Cortejaram-se com algumas perguntas e

respostas triviaes, e eu, com os olhos do coração no tumulo de Helena, e

os da face na physionomia da sua companheira de recolhimento, continuei,

sem vontade nem attenção, o retrato.

No dia immediato fui concluir a obra. Rosa recebeu-me com estranha

affabilidade. Perguntou-me quantas secções faltavam. Respondi que era

aquella a ultima.

--E, depois--proseguiu ella, titubeando--não torna a esta casa?

--Tornarei todas as vezes que v. exc.ª se dignar occupar-me no seu

serviço.

--Eu desejava possuir o retrato de minha filha.

--Enviarei a v. exc.ª um habil pintor.

--Pois não quer encarregar-se d'este trabalho que eu tanto queria que

fosse seu?

--Agradeço a lisongeira fineza... Se eu tivesse o amor artistico, não

teria mais incensos a desejar para o seu culto; mas eu não posso, sem

grande sacrificio, fazer retratos. Fui surprendido, quando me prestei a

este serviço; agora, se v. exc.ª me concede recusar um sacrificio que

não é necessario ao seu bem, eu declino de mim esse trabalho, e, repito,

enviarei a v. exc.ª um retratista, que de certo não posso substituir.

--N'esse caso, prescindo do seu favor... agradecendo-lh'o muito... Não

será retratada minha filha.

--Eu receio ter sido grosseiro, minha senhora... Se v. exc.ª determina

que seja eu o retratista d'esta linda menina, recebo a sua vontade como

ordem...

--Deus me livre de sacrifical-o... Pensei que lhe não seria penoso

conversar com uma companheira de Helena, alguns instantes no dia.

--É muito penoso...

--Muito?... é admiravel!... E porquê?... Mereço-lhe a confiança de me

dizer que motivos lhe dou para não ser digna testemunha de suas

lagrimas?

--Nenhuns motivos, senhora D. Rosa... É que eu não tenho a

tranquillidade de espirito precisa para receber como um prazer as

recordações d'essa mulher que amei como não posso tornar a amar... Já vê

que deve ser-me bastante amarga a convivencia com uma pessoa, que

promette fallar-me de Helena...

--Não lhe fallarei n'ella...

--Então seria eu quem fallaria, senhora D. Rosa... Tenho-a sempre

adiante dos olhos... Não posso mandal-a afastar da minha alma, para

entreter-me em cousas futeis...

--Nem tudo é futil, senhor Paulo...

--Para mim... é. Não tenho vida que não seja uma insoffrivel saudade;

mas acho esta dôr mais nobre que tudo que me rodeia... Por ella, troco

de boamente todas as felicidades que o mundo possa traiçoeiramente

offertar-me...

--Traiçoeiramente...

--Sim... Creio que o mundo não póde offerecel-as d'outro modo... Tomára

eu ser esquecido para todos, assim como o meu nome o foi para v.

exc.ª... Preciso que me deixem, porque eu não procuro alguem. Será

forçarem-me a soffrimentos com que não posso, e contra os quaes

empregarei toda a minha coragem, chamarem-me para um mundo, onde serei

como o homem sem patria, nem affeições, nem amigos.

--Não crê na amizade?

--Não, minha senhora... Eu tinha uma grande alma, cheia de todos os

sentimentos bons; essa alma foi como um raio de luz amortecida no

prestito funebre da filha do general... Apagou-se ao pé da sepultura...

Não tinha senão essa alma...

--Nem espera resuscitar d'esse lethargo?

--Nunca mais.

--Nem emprega diligencias para isso?

--Nenhumas. Eu sei que o mundo não tem nada para mim...

--Nem o senhor Paulo tem nada que dê ao mundo?

--A compaixão para os desgraçados como eu, um sorriso de escarneo para

as felicidades d'um dia, e um adeus invejoso áquelles que morrem... Bem

vê que ainda sinto impulsos nobres no coração...

--Deseja a morte?...

--Procuro-a; mas entendo que é debil o poder das paixões nas

organisações fortes... Eu lucto, ha dous annos, face a face, com uma

dôr, que me não deixa cinco minutos de descanso, e vivo... vivo assim

com o aspecto da serenidade, e talvez com o rosado juvenil d'uma saude

perfeita... Não se morre de paixão...

--E que importaria morrer?

--Importava não sentir...

--Pois o senhor não crê n'outra vida?

--Não creio n'outra vida. Procurei acredital-a. Li tudo, estudei tudo,

porque me disseram que a incredulidade era a estupidez. A cada oraculo

da immortalidade, que consultava, a minha alma, além de incredula,

sentia a cruel precisão de escarnecer a fé dos que nos mandaram crêr.

Disseram-me que eu não cria, porque a fé era uma graça especial do

Senhor. Isto fez-me rir amargamente; mas, supersticioso pela desgraça,

pedi, invoquei, suppliquei com fervor a fé. Esperei-a. Deixe-me rir,

senhora, que este riso é um insulto bem merecido às minhas crenças... O

homem é um verme. Deus não tem nada com este grão de areia, que lançou

no oceano, a turbilhões, com a ponta d'um pé...

--Deve ser muito desgraçado...

--Não sou mais do que seria: creio, pelo contrario, que sou menos. A

immortalidade de que me servia?

--De encontrar essa mulher, que tanto amou n'este mundo...

--Isso é falso... Essa mulher, que muito amei n'este mundo, antes de

entrar no esquife, principiou a desorganisar-se. As pessoas, que estavam

em redor, diziam que era insupportavel o cheiro do cadaver... A

putrefacção, a estas horas, deve tel-a consummido... De que me servia a

immortalidade a mim, se os vermes me não restituissem a mulher que teve

um dobre a finados, uma oração mercenaria, uma lagrima do costume, e a

eternidade do _nada_, que é a verdadeira eternidade?...

--Com uma razão tão forte é impossivel que não possa vencer os seus

soffrimentos.

--Chama v. exc.ª a isto _razão forte_? É uma debilidade, minha

senhora... Forte é a razão do homem que se dá voluntariamente a

esperanças chimericas, e crenças sem critica... O forte é esse, que

vence a propria razão... Fraco sou eu, que não posso subjugar o

espirito...

--Nem com as consolações d'uma verdadeira amiga?

--O que é uma verdadeira amiga?

Fomos surprendidos por Alvaro de Sousa. Reparou no embaraço de Rosa, com

ares desconfiados. Eu recebi-lhe os cumprimentos com a frieza não

calculada dos meus habitos ordinarios. Continuei o retrato, com não sei

que placidez incomprehensivel! Senti-me melhor do coração...

Agora é que eu me sinto incapaz de continuar esta longa carta... Creio

que é longa e fastidiosa... Soffra, e tolere-m'a, minha querida senhora.

Até ámanhã.

De v. exc.ª

Dedicado amigo,

_Paulo_.

VI

_14 de outubro_

O retrato de Rosa estava concluido. Na tarde d'esse dia, Alvaro de Sousa

procurou-me, agradeceu-me o emprego que eu fizera de todos os recursos

da minha arte divina, e delicadamente deixou sobre a minha mesa um

cartuxo de dinheiro. Não sei o que continha; porque, apenas o encontrei,

depois que Alvaro se despedira, mandei entregal-o em sua casa.

Alvaro voltou no dia immediato, e instou pela razão de semelhante

precedimento. Respondi-lhe, depois de importunado, que me dispensasse s.

exc.ª de dar uma categorica explicação das minhas acções. Vi-lhe um

sorriso de desconfiança, que me fez piedade. Estive quasi a pedir-lhe a

definição do sorriso; mas não quiz culpar-me no erro, que lhe censurava

a elle. Todo o homem póde chorar ou rir quando quizer.

Decorreram tres dias, sem o menor incidente, com referencia ao retrato

da viuva. Hontem, porém, recebi a carta, que remetto a v. exc.ª, já que

me impôz a obrigação de lhe não esconder os mais secretos incidentes

d'esta minha attribulada existencia, que v. exc.ª segue, desde o berço,

minuto por minuto. Communicando-lhe essa carta, entendo que não me

deshonro. A mulher, que a escreveu, ou está deshonrada de mais para não

soffrer nos seus creditos com semelhante revelação, ou está bastante

pura para não soffrer no seu pudor, confiando-se á minha discrição, e á

de v. exc.ª

«Já não sou de mim propria quando commetto a estranha temeridade de

escrever-lhe. Separo-me das leis do meu sexo, e declaro-me muito forte

na minha fraqueza para me abandonar loucamente á vontade caprichosa d'um

sentimento, que póde deshonrar-me, mas que me absolve na consciencia.

«Escrevo-lhe, Paulo, porque não tenho esperanças de encontral-o n'esta

casa. Quero deixar cahir este véo, com que me viu, porque tenho vergonha

de parecer-lhe o que a minha razão me diz que não sou.

«Que julga de mim? Como tem avaliado o meu procedimento? Reputa-me

amante de Alvaro de Sousa? Não quero essa consideração; renuncio a tal

gloria, porque eu não sou amante de Alvaro de Sousa. Este homem entra na

minha casa, e denomina-me prima. Intitula-me prima, porque dizem que

minha mãe é casada com não sei quem que pertence á alta nobreza. Vi esta

mulher; não pude amal-a; não pude reconhecel-a; e fui com ella rude como

seria com uma pessoa estranha.

«Soube que a fortuna de meu pae a fizera elevar-se até ao ponto de

nobilitar-se. Não me fez uma ligeira impressão esta mudança. Não a

procurei nunca, e morrerei de indigencia antes de pedir-lhe uma dobra de

seus velhos tapetes para resguardar do frio minha filha.

«Alvaro de Sousa tem-se-me offerecido para estabelecer entre mim e D.

Anna do Carmo uma alliança filial. Revela um interesse extraordinario

pelo meu futuro. Dedica-me extremos de irmão e encobre com muito fina

astucia as suas intenções, se ellas são más.

«Não me importa saber quaes ellas sejam. Nada ha commum entre mim e este

cavalheiro, senão uma amizade sem consequencias, e um commercio de

frivolidades como é a troca de retratos, a que eu não ligo importancia

alguma.

«Aqui tem o que eu sou para aquelle homem. Precisava abrir-lhe assim a

minha alma, Paulo. O resto do mundo deixo-o julgar a seu bel-prazer; não

me canso até em sondar a indifferente opinião da sociedade a meu

respeito.

«A sua preciso d'ella; porque preciso da sua estima, como d'um amparo

que me anime a esperar sobre a terra a felicidade, que, em poucos dias,

vi fugir diante de meus olhos, como um sonho ditoso.

«A sympathia entre dous desgraçados deve ser abençoada por Deus. Não

fuja d'uma mulher que póde, se não dar-lhe consolações, recebel-as ao

menos. Seja meu amigo, não como foi de Helena, mas como póde sêl-o d'uma

pessoa, que desejára n'este instante ter uma sepultura ao lado d'ella.

«Não ouso pedir-lhe nada, não tenho sequer coragem de implorar-lhe duas

linhas em resposta a esta carta, que me sahiu tão ingenua do coração,

que nem quero tornar a vêl-a, para que o artificio da fria cabeça não vá

manchar a pureza natural com que a escrevi.

«Adeus, Paulo. Não desdenhe a inutil estima, que lhe offerece

_Rosa Guilhermina._»

Esta carta não me impressionou. Quasi que me não occupei senão do estylo

em que era escripta! Encontrou-me n'um momento de gélida atonia.

Tenho-os assim, e então a minha alma é dura, o meu coração paralysa, os

meus labios sorriem-se machinalmente, e eu escondo a face nas mãos para

contemplar este mysterioso mixto de sensibilidade e cynismo que

caracterisa as feições da minha indole.

O portador d'esta carta esperava uma resposta, duas horas depois. Eu não

pensei que devia responder; por isso não tive o cuidado de saber se

alguem esperava resposta. Quando me annunciaram o portador, mandei-o

subir. Perguntei-lhe se era forçoso responder; disse-me que tinha ordem

de esperar até que eu lhe désse resposta, ou dissesse que a não tinha.

Escrevi...

Não me lembra bem o quê. Penso que eram estas as ideias:

Que eu não mostrára o menor interesse em conhecer indiscretamente a

natureza das ligações que prendiam D. Rosa Guilhermina a Alvaro de

Sousa;

Que me eram tão indifferentes depois como antes, mas que muito

ingenuamente estimava que ellas fossem taes, que nunca a excellente

senhora tivesse de soffrer por ellas;

Que acceitava a offerta da sua estima, porque já não podia aspirar a

outros triumphos no coração das mulheres, que sabiam separar a amizade

do outro sentimento que a hypocrisia vestiu com os arminhos emprestados

d'uma affeição nobre;

Que, na minha posição, não podia dar-lhe mais consolações do que as

muito poucas que um homem qualquer póde offerecer no serviço de qualquer

senhora, que precisa d'um criado.

Penso que foi isto, pouco mais ou menos, o que eu escrevi. São passadas

vinte e quatro horas. Não tenho nada a accrescentar a este episodio, e

creio que terminará aqui.

Não concebo bem o que esta senhora quer de mim! Não creio n'estas

fascinações momentaneas, porque as não entendo, ou o meu coração está

muito abaixo d'esses vôos.

O que em verdade lhe digo, minha boa amiga, é que não preciso recordar

os juramentos que fiz a Helena, dous dias antes da sua morte, para

vencer a impressão que Rosa Guilhermina me poderá ter feito. É nenhuma.

Posso esperar com firmeza e animo frio a perseguição. Nem, ao menos, a

lastimo, porque a febre da imaginação ha de mitigar-se, e, quinze dias

depois, esta mulher terá por mim um sentimento de resentido orgulho que

ha de salval-a. Entende-o assim?

De v. exc.ª

Grato amigo,

_Paulo_.

V

_19 de outubro_

Retirou-se, n'este momento, de minha humilde casa o senhor Alvaro de

Sousa.

S. exc.ª é um lastimavel mancebo! Como seu primo, minha boa amiga, sinto

que elle seja o incentivo irrisorio d'esta carta.

Entrou de chapéo na cabeça na minha officina.

Vou tentar recordar o dialogo, que tivemos.

«--Venho exigir do senhor uma prompta resposta--disse elle, dobrando o

punho d'uma bengalinha com a ponta.

«--Tenha a bondade de fazer a pergunta--respondi-lhe eu, convidando-o a

assentar-se no canapé, inutilmente.

«--O senhor tem algumas intelligencias com D. Rosa Guilhermina?

«--Não respondo.

«--Quer dizer que tem?

«--Não quero dizer nada. Digo que não respondo.

«--Mas eu preciso que responda sim, ou não.

«--Pois por satisfazer ás suas exigencias imperiosas, senhor Alvaro de

Sousa, respondo ambas as palavras: _sim_ e _não_.

«--Não comprehendo...

«--Tanto peor para v. exc.ª que não póde esperar de mim outras

explicações.

«--O senhor parece ignorar a qualidade de pessoa com quem falla...

«--Poder-me-hei ter enganado, mas creio que fallo com um dos mais

distinctos cavalheiros do Porto... O senhor Alvaro de Sousa é muito

conhecido, para que eu não conheça a qualidade da sua pessoa, até pela

libré dos seus lacaios.

«--É preciso que nos entendamos.

«--Desejo-o de todo o meu coração...

«--O senhor tem algumas relações com D. Rosa?

«--Continuemos na mesma desintelligencia, senhor Alvaro... Essa pergunta

já foi respondida.

«--Mas a resposta não me satisfaz.

«--Não tenho outra, e falta-me até a paciencia para lhe offerecer, outra

vez, a que v. exc.ª não acceita.

«--Eu sinto que o senhor não seja um cavalheiro da minha classe para

responder-me á ponta da espada.

«--Dou, portanto, louvores á Providencia por me ter feito d'uma classe

diversa da dos heroes, que teem ponta de espada para os que não tem

ponta de lingua...

«--O senhor zomba de mim?!

«--Zombo.

«--E não receia as consequencias d'essa affronta á minha honra?

«--Não, senhor.

«--Estou em sua casa...

«--Que quer dizer com isso?

«--Não quero dizer nada... Encontrar-nos-hemos...

«--Senhor Alvaro de Sousa, eu tenho épocas em que difficilmente sou

encontrado, e esta parece-me que é uma. Se v. exc.ª tem urgencia de

encontrar-se comigo, sahirei hoje.»

Não me respondeu, e sahiu.

São tres horas da tarde. Vou dar um passeio.

V. exc.ª ha de permittir-me que, invocando o sagrado testemunho da nossa

amizade, eu lhe imponha o preceito de não fazer transpirar uma palavra

d'esta minha carta, a não desejar um completo rompimento nas nossas

relações.

De v. exc.ª

Humilde criado,

_Paulo_.

VI

_20 de outubro_

A carta de v. exc.ª, cheia de benevolos conselhos, e prudentes reflexões

a respeito do meu conflicto com o senhor Alvaro de Sousa, é uma nova

força que v. exc.ª quer dar ás minhas convicções na sua amizade.

Felizmente, o primo de v. exc.ª, sentindo por ventura que lhe não era

glorioso um desforço com o pintor, já teve a summa discrição e bondade

de encontrar-se comigo tres vezes, e deixar-me seguir pacificamente o

meu caminho.

Sinceramente lhe digo, minha nobre amiga, que o menos interessado,

n'esta ridicula lucta com um moço digno d'outro competidor, era de certo

eu.

Não me levava para este acto de suprema vaidade o coração. O meu mal

pensado cavalheirismo era todo da cabeça, que tenho cheia de

loucuras, e refractaria a tudo que é submissão a classes, cuja

superioridade--desculpe-me v. exc.ª--não reconheço debaixo do céo.

D'este orgulho, que eu supponho não existirá d'hoje a cem annos, porque

então os homens serão todos iguaes perante a lei, e irmãos perante Deus,

d'este orgulho resultou a facilidade com que fui hontem procurar D.

Rosa, que me pedia anciosamente uma entrevista.

Encontrei-a assustada, confiando de mais na superioridade de Alvaro, e

avaliando em menos que o seu valor real a minha frieza de animo para

arrostar as furias do seu fidalgo amante.

Sorri piedosamente para aquelles receios, aliás naturaes no coração

d'uma mulher.

Aquietei-lhe quanto pude o seu sobresalto, e acabei por pedir-lhe que

fosse grata aos extremos do gentil moço, que, por ella, se arriscava a

um encontro, cujas consequencias eram imprevistas para ambos nós. N'este

sentido, aconselhei-a com uma generosidade digna d'outros tempos.

Encareci o merecimento do senhor Alvaro, advoguei a causa d'elle com o

fervor d'amigo, estabeleci comparações entre nós que redundavam em

grandes vantagens para elle, e terminei este difficil papel, salvando a

minha posição falsa, com lhe offerecer a sincera estima de irmão.

Rosa Guilhermina não me quer para irmão. Achei-a de marmore para este

sentimento que seria em mim o mais vital de todos, o que eu hoje mais

lhe agradeceria, e o primeiro e derradeiro que eu posso offerecer a uma

mulher. Ella, não. Fallou-me do seu amor com estranho desembaraço.

Explicou-me os effeitos d'uma impressão violenta. Disse-me que só um

prompto desprêso poderia salval-a, porque tinha o amor proprio

necessario para não succumbir sem gloria, humilhando-se a um homem que a

não comprehendia. Empregou, na exposição eloquente da sua sympathia, as

melhores palavras da novella, e concluiu o seu não interrompido discurso

com lagrimas, que me pareceram mais eloquentes que a fecundidade

palavrosa.

Eu não sei o que ha de sublime, e mavioso nas lagrimas d'uma mulher.

Como se Deus lhe désse a humildade por instrumento de triumpho, eu

senti-me enfraquecer, ao mesmo tempo que recobrava toda a minha coragem,

pedindo-a á saudade de Helena, como se pede uma alegria ás recordações

do passado, que se nos foi com todas ellas.

Eu creio já ter dito a v. exc.ª que D. Rosa é uma linda mulher. Quando a

retratei, havia alli n'aquella physionomia um colorido de felicidade, um

sangue agitado que lhe vinha em estos ardentes do coração, uma viveza

robusta, que denunciava um feliz descuido de pezares.

Hontem não era assim. Rosa estava livida. Orlavam-lhe os olhos umas

manchas azuladas, que marcavam talvez a passagem de muitas lagrimas

escondidas, em longas noites de desesperação. Posto que vaidoso, eu não

me felicitei, minha cara amiga, por ter sido a causa d'esses

padecimentos. Se é por mim que elles existem, não se me dá da gloria

inutil que elles possam dar-me. Não tenho nenhuma: não me prestam de

balsamo para o coração; não me aquecem esta cabeça de gêlo; não me

deixam roubar ao passado um instante para com elle idear futuros de

impossivel felicidade.

Poderei amar esta mulher repetindo as minhas visitas? Não. A aproximação

é o divorcio das grandes paixões, que a distancia esposára. Aos pés do

homem cahe partido o prisma, quando o hálito da mulher é tão de perto

que lhe empana as côres.

E eu, de mais a mais, não desejei aproximar-me, quando a vi de longe.

Não senti este toque inesperado, esta surpreza electrica, uma só vez

recebida na existencia de cada homem.

Poderá o tempo fazer o que não fez um instante?

Não.

Dizem que existe um amor lentamente creado pelo habito, emanação da

amizade contrahida pela semelhança de vontades, resultado d'uma demorada

elaboração de dous espiritos que se consagram no mutuo sacrificio de

propensões e desejos. Não sei o que seja isto. A razão rejeita essas

candidas theorias.

Eu só creio no amor não esperado, não grangeado por sacrificios, não

calculado de dia para dia.

Se me dizem que essas paixões improvisadas n'um olhar, e n'um sorriso, e

n'um córar, são instantaneas, e ephemeras como o féto arrancado ao

embrião, com violencia, antes de tempo, eu direi que sim... que morrem

essas paixões na vida, porque ha a pedra do tumulo que desce quando Deus

a manda, mas ha a eterna saudade que nem a Providencia póde desvanecel-a

no coração, que se envolve n'um pedaço da mortalha, roubada a outro

coração, que o deixou viuvo de todas as esperanças, e gélido para todos

os confortos.

Minha paciente amiga, eu sou fastidioso com as minhas choradeiras.

Acolha-m'as com amor, que eu não tenho, sequer, em galardão de tantos

soffrimentos, o poder de as lançar ao papel de modo que consternem a

compaixão da unica pessoa que póde sentir comigo.

Estou pintando. É o meu sonho de ha dias. É Helena, quando me deu uma

rosa murcha, e me disse: «Ahi tens o meu amor: a rosa cahirá desfeita em

pó; mas a saudade ficará perpetuamente entre os vivos, como o germen

d'essa flôr.» Estas palavras repetiu-m'as no sonho. Vi-a tal qual era,

n'esse primeiro dia em que os medicos lhe disseram que désse um passeio

recreativo á ilha da Madeira. N'esse dia começou ella o seu curto

passeio em redor da sepultura!...

Adeus, minha estimavel senhora.

De v. exc.ª

Amigo dedicado,

_Paulo_.

VII

_29 de Outubro_

Tem decorrido sete dias, depois que lhe escrevi, minha boa amiga. V.

exc.ª não calculava a razão do meu silencio, quando na sua queixosa

carta de hontem arguia a minha reserva, ou indolencia.

Eu indolente, senhora! Eu que não tenho cinco minutos de repouso desde o

dia á noite! Eu, que conto os longos instantes do escurecer ao dia!

Não lhe escrevi... por vergonha!... Ha de crêr-me, senhora! não tenho

tido animo de ser eu o proprio accusador das minhas fraquezas

incomprehensiveis! Tenho esperado o intervallo lucido d'esta demencia de

seis dias, e as trevas cerram-se cada vez mais.

Que é o que se passa em minha alma? Que transfiguração se operou na

minha vida? Que brinquedo cruel é este que vem ludibriar-me no canto

esquecido em que me refugiei com as minhas desgraças?

A Filha do Arcediago Terceira Edição · 第 16 / 18 段