Desculpe-me v. exc.ª... Esqueci-me que estava escrevendo a uma senhora,

que não resolveu ainda os asquerosos problemas da infamia. A minha

cabeça é um vulcão. Não é ainda a demencia que me desvaira, mas póde

sêl-o a febre.

Ha tres dias que me não levanto. Estou quasi só. Tenho um medico alguns

minutos no dia, um frade portuguez que por aqui anda atraz da salvação

eterna, e um criado, que me serve um caldo, e não entende o que lhe

digo.

Eis-aqui a minha familia na vespera d'uma viagem infinita... Falta-me

aqui uma mulher, que me fosse esposa, mãe, ou irmã. Em Portugal, quando

estes ataques me annunciavam a morte, lembrei-me, muitas vezes, que o

meu derradeiro olhar encontraria os olhos de v. exc.ª

Aqui, será a sua imagem, o seu retrato, que me sorri, aquelle retrato

que v. exc.ª me concedeu a pedido da nossa pobre Helena...

Não posso...

Ah!... esquecia-me dizer-lhe que a historia de Rosa Guilhermina é uma

bonita farça... Fez-me sorrir; mas, no coração, lamento-a!... É uma

mulher bem trivial!...

Adeus, minha querida irmã... Será o ultimo?...

_Paulo._

«--Eis-aqui a ultima carta, que eu recebi de Paulo--disse a senhora,

que me confiou a leitura, e as cópias de todas.

«--Que sentia v. exc.ª depois que a leu?

«--O que eu senti?... Nem já me recordo... Isto passou-se ha trinta

annos; e a memoria do coração, aos sessenta e seis, está embotada; mas,

se quer um facto que lhe exprima melhor que todas as palavras o que eu

senti, bastará dizer-lhe que, dous dias depois, parti para Roma...

«--Para Roma!...

«--Admira-se!?

«--Então v. exc.ª amava Paulo...

«--Se o amava!... Não se fazem essas perguntas a uma velha. O senhor ri

de mim, se eu deixar fallar o coração, como elle, ainda ha trinta annos,

lhe responderia.

«--Eu não posso rir do que a vida tem mais grave e triste...

«--O amor!... diz bem... É bem triste recordal-o; mas o ridiculo manda

suffocar as expansões d'um coração, que não envelheceu ainda. Dizem que

os cabellos brancos são veneraveis. Se o são, e só nos patriarchas, nos

prophetas, e nos apostolos... Quer que lhe diga que amei Paulo? Pois

sim... Amei-o muito... Conheci-o, já casada; mas eu fui uma esposa com

todas as virtudes, e com a resignação para todos os sacrificios.

A filha do general *** amava Paulo.

A minha casa era o unico local onde se reuniam. Impuz-me esta violencia,

e prestei-me ao doloroso serviço de os approximar, porque precisava

matar um veneno com outro veneno.

Helena morreu, e Paulo refugiou-se a chorar comigo. Eu e o tumulo d'ella

eramos o unico passatempo da sua atormentada existencia.

Enviuvei. Encontrei-o sempre a meu lado. Sondei com muita delicadeza a

sua alma, e achei-a fria. Reconheci que era meu amigo, porque eu lhe

fallava muito de Helena. Um homem assim não podia amar-me...

«--Porque não lhe revelou a sua alma?

«--Uma mulher, se não está gasta pela libertinagem, ou não é

prodigiosamente estupida, nunca faz semelhantes revelações. Se elle me

perguntasse se eu o amava, responder-lhe-ia que não, e córaria pela

vergonha da mentira, ou pelo remorso da offensa... Dizem-me que as

mulheres de hoje são faceis n'essas delações da sua alma. Se não é a

moda que as absolve, o pudor de certo não é... Emfim, eu nunca lhe disse

que o amava, nem elle me proporcionou occasiões de dizer-lh'o.

Um anno antes de conhecer essa mulher fatal...

«--Quem? Rosa Guilhermina?

«--Sim... Um anno antes de conhecel-a, raras vezes vinha a minha casa.

Vivia muito só: dizia-me nas suas frequentes cartas, que vivia namorado

da arte, que tinha muitos retratos de Helena, e que roubava á pintura o

tempo apenas necessario para visitar-lhe, em S. Francisco, a sepultura.

Relacionado com Rosa, Paulo, sem o pensar, ultrajou-me quanto era

possivel!... O ciume devorou-me alguns dias, e eu tive momentos de

detestar o infame caracter do infeliz moço... Habituada, porém, a

dominar-me, afivelei outra vez a mascara, e recebi-o com a mesma graça

em minha casa para ouvir-lhe as expansivas apologias de Rosa

Guilhermina.

Tenho remorsos de ter sentido uma cruel alegria, quando essa mulher o

despresou...

«--Naturalmente... alguma intriga...

«--Urdida por mim?...

«--O amor, muitas vezes, obriga...

«--A praticar villezas? O amor nobre, não... Eu não urdi intrigas...

Rosa despresou-o; porque o seu caracter era o caracter de sua mãe...

Anna do Carmo nascera nas palhas, fôra amante d'um padre, fôra adultera

mulher d'um livreiro, fôra repellida de casa de sua filha, e recebera-a

por fim, nos seus salões, sem vergonha do seu passado, nem resentimento

da sua dignidade. Filha de tal mãe, não podia apreciar o amor de Paulo,

que amára uma mulher, que morrera por elle.

Ia-me esquecendo o conto... Fui a Roma; cheguei lá vinte dias depois que

recebi a carta.

«--Encontrou-o?

«--Sepultado... Morrera seis dias antes... Ao lado da sua cabeceira

estava o meu retrato... É aquelle que alli se vê.»

Reparei... Ninguem diria que esta senhora podia ter sido tão bella!

Cahiam-lhe duas a duas as lagrimas... Eu quiz divertil-a d'esta dolorosa

situação, perguntando-lhe:

«--Demorou-se em Roma?

«--Tres dias... Voltei a Portugal, depois... Deixe-me chorar, porque ha

muitos annos que não fallei a ninguem n'este homem... Quer saber o resto

d'esta historia, que faz o seu romance?... Essa senhora de que faz

menção no seu prologo, póde contar-lh'a.

«--Com menos graça que v. exc.ª...

«--Pois eu lhe digo: Rosa Guilhermina morreu, ha seis annos em Lisboa,

com o titulo de viscondessa de ***. Seu marido ainda vive... É um dos

mais ricos proprietarios do paiz...

«--E Maria Elisa?

«--Essa mulher perdeu-se... Foi amante de S*** C***, que deu escandalo

no Porto, e perturbou a tranquillidade da sua casa, e da casa das suas

amantes, que eram quasi todas casadas. Depois, como elle morresse, Maria

Elisa, que vivera na companhia de Rosa, reagiu contra os conselhos de

José Bento, e abandonou a amiga para entregar-se a uma vida dissipada

sem ao menos a colorir com as variadas tinturas da hypocrisia. Tocou o

extremo grau de miseria; mas d'esta miseria prosaica e villã, e que não

póde ser historiada n'um romance. Não era fome nem nudez. Era a negação

para todos os sentimentos d'honra. Quando desceu tão abaixo recebeu uma

boa mesada de Rosa; mas dissipou-a com amantes. Por fim envelheceu. Rosa

tinha morrido, e o visconde de ***, que a soccorrera estimulado por sua

mulher, abandonou-a inteiramente.

«--E ainda vive?

«--Morreu já depois que o senhor principiou o seu romance. Foi

justamente no dia em que sahiu o quinto folhetim na _Concordia_.

«--Morreu miseravelmente?

«--Não, senhor. Quem lhe prestou os ultimos soccorros fui eu. Não lhe

faltou uma cama, um medico, uma enfermeira, e um padre até ao seu ultimo

momento.

«--Devia ser terrivel, nos ultimos dias, o olhar d'essa mulher para o

passado!...

«--Creio que não... A desgraça desmemoria... Por não sei que favor da

Providencia, a mulher que se degrada não tem já o senso intimo da sua

dignidade perdida. Cahiu, do leito á sepultura, impassivel como a pedra

que tomba insensivelmente do alto da serra ao fundo do abysmo...

«--Esqueceu-me perguntar-lhe como viveu Rosa com José Bento...

«--Honradamente, e parece que feliz.

«--Deixou filhos?

«--Do segundo marido nenhum.

«--E aquella Assucena, que tão linda me pintaram? Deve hoje ter trinta

annos...

«--Morreu ha dous... Quer saber a vida d'essa mulher?

«--Desejava...

«--Mas tem de fazer outro volume.

«--Pois a vida de Assucena dá para tanto?

«--É um triste romance... Ha de escrevel-o, e intitulal-o: A NETA DO

ARCEDIAGO.

FIM

[1] Foi assim chamada a assembleia de illustrações scientificas na

França, em que avultavam a marqueza de Lafayette, Lacralpenede, M.me

de Sevigné, Jullie de Angennes, e outras que se davam o titulo de

_preciosas_, baptisando-se com nomenclaturas gregas, e praticando em

linguagem privativa d'ellas. Molière, o grande espirito, que

espancou da França o _ridiculo_ com o _ridiculo_, pôz esta gente em

scena, nas comedias--_As Preciosas Ridiculas_, e _As Mulheres

Sabias_. O hotel de Rembouillet não resistiu a Molière.

[2] O já morto Joseph Gregorio Lopes da Camara Sinval.

(_Nota da 2.ª edição._)

[3] No Porto, onde nasceu Garrett, invocaram-se todos os Antonios

Josés coevos para idearem um monumento a Garrett!... Não se fez o

monumento; mas ficou um de vergonha na memoria dos vivos, e bom é

que passe além. (_Nota da 2.ª edição._)

[4] _A Neta do Arcediago_, já publicada.

(_Nota da 2.ª edição._)

[5] Não interessam no romance algumas cartas, que se não publicam.

Escriptas de Lisboa, Cadiz, Barcellona, Paris, Genova, e Milão,

quasi todas são descripções locaes. Vê-se que Paulo, em todas ellas,

só muito de relance, falla em, cousas passadas. Se é acinte, se

naturalidade, não o sabemos nós. A sua amiga do Porto, diz-nos que

tambem muito de proposito, se lhe escrevia, nem ligeiramente lhe

fallava de Rosa. A carta, que publicamos, é a vigesima da collecção,

escripta, segundo se vê da data, cinco mezes depois da sahida de

Paulo.

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A Filha do Arcediago Terceira Edição · 第 18 / 18 段