Duas horas depois, Augusto Leite, com uma pequena trouxa, um habito

franciscano, a face amarellecida por não sabemos que tinturas

finissimas, caminhava a pé para um porto de mar, onde devia embarcar

para Cadiz.

Vai-se tornando interessante o romance. Já era tempo!

O frade franciscano Benito das Cinco Chagas, dias depois, desembarcava

em Cadiz, onde as côrtes se refugiaram com Fernando VII, que estava

prêso, a pretexto de demencia, por não ter sanccionado a constituição.

Augusto Leite apresentou-se nos congressos monachaes, e offereceu, como

fanatico pelas prerogativas reaes, e inimigo encarniçado da França, o

seu apoio, e o seu braço, sendo necessario.

Tal fôra a sua enthusiasta eloquencia, que os chefes da reacção, sem

discutirem a pessoa, abraçaram-no, victoriaram-no, e confiaram-lhe o

segredo dos seus planos, acclamando-o unanimemente seu secretario.

Era necessario fallar ao rei, que os liberaes retinham com sentinella á

vista. Empreza difficilima! Foi pedido o parecer do frade missionario,

em quem os fanaticos reconheciam o providencial redemptor de Hespanha.

Antes que elle abrisse a bôca, já todos sabiam que a sua palavra seria a

salvação, e as suas ordens immediatamente executadas.

Augusto entrou no congresso, envolto no seu habito. Não respiravam os

circumstantes. Fixavam-se todos os olhos nos labios do moço frade,

quando elle, antes de pronunciar uma palavra, deixou cahir o habito, e

deixou vêr um fardamento completo de general francez.

As escarlates physionomias dos conspiradores empallideceram, murmurando

um prolongado _ah_!

--Não me julguem algum magico--disse Augusto Leite, sorrindo

bondosamente.--Sou um frade, que renega por momentos o seu habito, para

vestil-o um dia, com a consciencia de ter servido a Hespanha,

fortalecendo-lhe a sua independencia, e defendendo-a das impias

aggressões da França. É necessario fallar a Fernando VII. Eu irei

apresentar-me ás côrtes, e direi que sou um enviado do duque de

Angouleme, que, a estas horas, bate ás portas de Madrid. Direi que o meu

fim é capacitar o rei a acceitar a constituição, e serei conduzido pelos

interessados ao pé do monarcha.

--E depois?--exclamaram algumas vozes.

--Depois da minha conferencia a sós com o rei, retirar-me-hei dizendo ás

côrtes que Fernando VII está doudo, e não concebeu as minhas razões. As

côrtes, que por força precisam que o seu rei seja doudo, reputar-me-hão

d'uma intelligencia muito fina, ou d'uma astucia tão cavillosa como a

sua. Fernando VII, uma hora depois que eu me retire, dirá ao seu medico

que sente uma forte dôr de cabeça; duas horas depois sentirá uma

convulsão, e cahirá...

--Morto?!

--Apparentemente morto. O medico virá dizer ás côrtes que o rei morreu

d'uma apoplexia fulminante. Far-se-hão os funeraes. O cadaver será

transportado para o palacio municipal. Tres horas depois que o julgarem

morto, o rei resuscitará, e, á frente do exercito fiel, dirá: «A

Providencia restituiu ao povo hespanhol o seu monarcha!»

Os venerandos frades sacudiram a cabeça em ar de pasmo. A alguns

afigurou-se-lhes que o seu irmão era o proprio diabo, que vestira o

habito do serafico S. Francisco, sobre a farda de jacobino, que elle

era, desde que o Senhor o expulsou do céo. Os mais circumspectos,

encarando-o com o respeito da superstição, por isso que o reputavam

embaixador d'um poder sobrenatural, não ousaram interrompel-o no extenso

discurso, que não publicamos na sua integra, porque na sala do

conciliabulo não estiveram tachigraphos, que nos transmittissem o

discurso completo.

O que sabemos é que Augusto Leite n'esse dia apresentou-se ás côrtes,

pedindo consentimento para fallar ao rei como enviado do duque de

Angouleme, commandante do exercito francez.

Perguntado pelos meios que empregára para chegar desconhecido até Cadiz,

respondeu que embarcára n'um porto da França, com passaporte que

apresentou, passado a frei Benito das Cinco Chagas. As côrtes

acreditaram o enviado, e permittiram-lhe a entrada no carcere de

Fernando VII.

O rei, quando lhe foi annunciado um emissario francez, declarou que o

não recebia, sem ter ao seu lado uma peça de calibre 40, com morrão

accêso. Esta dificuldade é que o marido de Rosa Guilhermina não previra.

Redobraram as instancias inutilmente durante tres dias, ao cabo dos

quaes o duque de Angouleme, defronte de Cadiz, bombardeava a cidade.

Augusto Leite, empregando a corrupção por meio do ouro, fez saber ao rei

que o enviado francez era um partidario do congresso sacerdotal, que

vinha offerecer á Sua Magestade valiosos serviços para a sua fuga do

poder das côrtes.

O rei recebeu-o perplexo; mas brevemente se confiou aos planos do futuro

arcebispo de Toledo, graça que desde logo lhe confirmou com a sua real

palavra.

Augusto Leite agradeceu com reverente effusão a graça, e offerecia ao

rei a beberagem que devia paralysar-lhe a vida apparentemente, quando se

ouviram exteriormente gritos que annunciavam a fuga do exercito

hespanhol, e o desembarque do duque de Angouleme.

O populacho dava _morras_ aos membros das côrtes; e os partidarios da

constituição, que não sabiam as intenções pacificas da França, luctavam

desesperadamente contra o povo, e contra o exercito victorioso.

Augusto Leite, persuadido de que era já desnecessaria a realisação dos

seus planos para a soltura do rei, não lhe ministrou o liquido, e dava

graças á estupida fortuna que o collocára ao lado de Fernando VII, no

momento da sua liberdade.

Um membro das côrtes, que odiava o rei, e julgava perdida a causa, e

cortada infallivelmente a sua cabeça um momento depois, resolveu um

d'esses attentados sanguinarios, que são o caracter do povo hespanhol

nas crises revolucionarias, resolveu o regicidio.

Entrou no carcere, armado d'um punhal. Foi direito á camara do rei. O

primeiro que se lhe antepôz foi o supposto official francez. Recuou

diante de duas pistolas; mas um instante. Refez-se da coragem da

desesperação, e aggrediu o timido rei, que se refugiara atraz de

Augusto. O bem provado athleta de Casal de Pedro desfechou-lhe uma

pistola no peito: mas não pôde esquivar-se a uma punhalada no coração.

Travaram por alguns minutos uma lucta feroz, e cahiram ambos estendidos.

O que recebera uma bala no peito podia viver ainda hoje, se, no dia

immediato, não fosse arrancado á enfermaria militar para padecer morte

de garrotilho, com alguns dos seus collegas. Mas, ao mesmo tempo,

Augusto Leite, que sentira mais dentro a ponta do punhal, era enterrado

com grandes honras por ter defendido, á custa da propria, a vida do seu

rei.

O que ninguem sabia dizer ao certo era a naturalidade do corajoso

defensor de Fernando VII. Os frades queriam-no para o catalogo dos

martyres franciscanos; mas um francez do estado maior do duque de

Angouleme dizia que aquelle homem vivera algum tempo em Paris, onde se

intitulava D. Affonso Vilhegas. O que tal disse, tinha razão sobeja para

sabel-o, porque era o visconde de Bellarmin, que vendera o passaporte de

frade ao seu amigo por mil libras.

Ora pois, d'este sugeito estamos nós livres. Podemos dizer que morreu

bem. Espero que este meu romance, só de per si, conduza á eternidade

individuos sufficientes para chamarem a attenção devota dos pios

leitores em dia de fieis, defuntos.

CAPITULO XXIX

Maria Elisa, com Rosa Guilhermina, e a filha viviam na casa do Sério,

unica propriedade que poderam salvar da fatal quebra do negociante

francez e do sequestro do judeu. O dinheiro, que lhes fôra enviado de

Paris, melhorára a condição precaria das afflictas senhoras, que se viam

na dura precisão de entrarem n'um convento como criadas de freiras.

Calcularam d'onde poderia vir-lhe aquelle dinheiro, e abençoaram Augusto

Leite, que parecia entrar, ao cabo de tantos desatinos, na estrada da

honra. Calaram o segredo, receando que perseguissem o assassino dos dous

soldados em Casal de Pedro, e esperaram que o tempo o rehabilitasse para

tornar a Portugal.

Passou um anno, sem novas de Augusto. Resolveram mandar a Paris o

procurador que fallára com o generoso hespanhol. Foi. Procurou-o na

mesma casa, e soube que esse homem se retirára de França um anno antes.

Disseram-lhe que existia em Paris um general, que conhecera muito D.

Affonso Vilhegas. O procurador encontrou esse general que era o visconde

de Bellarmin, e soube que o supposto hespanhol morrera em Cadiz.

Esta nova matou todas as esperanças das pobres senhoras. Pobres outra

vez! Choraram muito, como é natural, e resolveram abraçar a baixa

profissão de criadas de convento.

Mas eram bellas ainda. A desgraça, ao passar por ellas, nem lhes

desbotára o viço da formosura, nem lhes arrefecera de todo o coração.

Viuvas ambas, embora pobres, quantos anciariam por esposal-as, se ellas

viessem ao mundo com o seu sorriso de seducção?

Rosa tinha visto, em cinco mezes successivos, todos os dias, á mesma

hora, um cavalleiro que passava, com os olhos pregados na janella do seu

quarto, onde ella, na hora das saudades, á luz crepuscular, costumava

sentar-se com sua filha nos braços.

Em uma d'essas tardes, vira que o cavalleiro parava, e dissera para cima

palavras que ella não entendeu, nem quiz entender. Restirára-se a contar

á sua amiga a aventura estranha, e promettera nunca mais, a tal hora,

dar azo aos atrevimentos do senhor Alvaro de Sousa, que assim se chamava

o fidalgo enamorado.

No dia seguinte, é certo que não veio á janella; mas, por entre as

cortinas mal cerradas, teve a fraqueza de espreital-o. O fidalgo, que

não deu por isso, parou um momento, e disse ella á sua amiga que o vira

suspirar. Se isto é verdade, o senhor Alvaro de Sousa, emquanto a mim,

era poeta. Os poetas fazem monopolio dos suspiros, mas, honra lhes seja

feita, não encarecem o genero; barateiam-no de modo que não ha

consumidora que tenha razão de queixa.

E eu creio sinceramente que Rosa Guilhermina, se lhe não dava em troca

um suspiro, nem por isso se affligia da violencia com que o illustre

representante dos Sousas lhe remettia os seus anhelitos amorosos.

Hão de acreditar-me que o mancebo era um bello mancebo. Ainda hoje me

fallam d'elle como a joia das formosuras masculinas do Porto. Era uma

dama, segundo me dizem as senhoras de cincoenta annos. Tinha

intelligencia, qualidade que o exceptuava da regra geral que regulava o

entendimento opaco de seus nobres primos. Era filho segundo; mas rico, e

generoso, e dado a prazeres que lhe não arruinavam a bolsa nem a saude.

Vinha a ser, emfim, um perfeito homem o que se apaixonára sériamente

pela esquiva viuva de Augusto Leite.

Alvaro de Sousa, contrariado pela apparente frieza de Rosa, sentiu-se

vexado no seu amor proprio, e impoz-se orgulhosamente um fidalgo

desprêso por tal mulher, indigna de honrar-se com o seu amor. Isto foi

ao meio dia; mas, ás quatro horas, o soberbo moço anafava cuidadosamente

os cabellos, para não ser suprendido, em desalinho, no Sério.

N'essa tarde encontrou Rosa Guilhermina passeando, na alameda da Lapa,

com a amiga, e a filhinha que brincava com um cão de regaço. O cãosinho,

que não estava para brinquedos, encolheu a cauda, e fugiu á ama, na

direcção da casa. As senhoras chamavam-lhe _Joli_, que era, por esse

tempo, o nome favorito de todos os cães; mas o rebelde quadrupede não

olhava para traz.

Alvaro esporeou o cavallo, cortou a vanguarda do cão, apeou-se

gentilmente, apanhou o bichinho, que se agachava com medo, tomou-o no

collo, e foi conduzil-o ás damas, que receberam a attenciosa delicadeza

com o rubor na face.

O leitor deve ter observado que estas damas perderam o antigo estylo. Já

não fallam a guindada linguagem das novellas, nem curam de aprimorar as

ideias, enfeitando-as d'aquelles arrebiques e galanterias que eu espero

ainda encontrar na mulher, que Deus me destina, e que ha de fazer de mim

um respeitavel marido.

N'outro tempo, Alvaro de Sousa seria recebido com quatro metáphoras, e

vêr-se-ia na precisão de incommodar a mythologia para responder-lhes.

Agora, já não. A idade, o soffrimento, a experiencia, e o temor do

futuro abatera no raso da linguagem humana aquellas almas perdidas nas

maravilhas aereas. Fallavam como nós, importavam-se pouco dos livros,

sentiam-se muito decahidas no espirito, e concordavam conscienciosamente

que tinham sido embrutecidas pela desgraça.

E se não vejam:

--Agradecemos muito a sua delicadeza--disse Maria Elisa, recebendo o

cãosinho (não tenho a certeza se era cadelinha) das mãos de Alvaro.

--Só este irracional--disse Alvaro, mastigando a fineza--deixaria de

obedecer ás ordens de suas amas. Assim mesmo peço que não seja

castigado... Se elle tivesse entendimento, o remorso de ter sido

desobediente seria bastante castigo.

--Muito agradecidas ás lisonjas de v. exc.ª--atalhou Maria Elisa,

emquanto Rosa se fingia distrahida sacudindo a terra das saias da

menina.

--Não é lisonja, minhas senhoras. O que eu digo é o menos que se póde

dizer, e espero acreditem que não sei dizer tudo que sinto. Aquella

senhora parece aborrecer-se da minha presença...

--Não, senhor--disse Rosa.--A presença de v. exc.ª não aborrece... É

porque estava sacudindo a terra dos vestidos de minha filha...

--Que é linda como sua mãe... Que annos tem?

--Quasi cinco.

--Em tão tenra idade é admiravel a esperteza d'esta creança!... Venha

cá, minha menina... como se chama?

--Assucena--disse a creança.

--Que lindo nome!... Uma _rosa_ devia produzir uma _assucena_... É minha

amiga?

--Sou.

--É? Já tenho uma pessoa que seja minha amiga!... Sou mais feliz do que

pensava... Quer ir a minha casa?

--Quero.

--Pois hei de mandal-a buscar um dia. Minha mãe gosta muito de

creanças... V. exc.ª dá-me licença que ella vá?

--Pois não! É muita honra...

--N'esse caso, amanhã, se me permitte...

--Quando aprouver a v. exc.ª

Ora aqui está como começou o namoro. No dia seguinte, Alvaro de Sousa

veio de carruagem buscar a menina, subiu á sala, como era natural, e não

viu Rosa que se fechára no seu quarto banhada em lagrimas. Quiz saber a

causa de tal soffrimento, e disse Maria Elisa que a sua amiga tivera

noticia de estar viuva.

--Viuva a reputava eu, ha muito!--atalhou Alvaro.

--Não o era... Convinha que esse boato corresse...

O fidalgo deu a entender que sabia a razão d'esse boato, e retirou-se

sem _Assucena_, que não podia, durante o lucto, sahir de ao pé de sua

mãe. Á tarde, Alvaro veio fazer a D. Rosa a visita de pezames, e

offerecer o seu prestimo.

Na tarde do dia seguinte repetiu a visita, e passou a noite.

Nos dias immediatos entrava com familiaridade. O ferreiro que morava

defronte disse ao sapateiro visinho que o tal fidalgo não se lhe dava de

recolher as duas frangas perdidas do rebanho. Este ferreiro tinha algum

espirito. Se vivesse hoje, de certo não era ferreiro; escreveria

folhetins, ao passo que o seu visinho sapateiro, homem lido no Bandarra

e Carlos-Magno, amanharia substanciosos artigos de fundo. O fidalgo,

esse, se vivesse hoje, faria o mesmo que fez então, e que ha de fazer-se

no seculo XX. Eu, por mim, se fosse contemporaneo do mestre ferreiro,

não escrevia romances. A estas horas (são sete e meia da tarde) estava

eu rezando vesperas em algum côro de frades carmelitas, para que tenho

uma vocação imperiosa.

Agora, leitores, o meu trabalho termina aqui. As cartas, que ides lêr,

confiou-m'as a pessoa, que me contou esta historia. São textuaes. Podem

vêr-se em minha casa, desde o meio dia até ás quatro horas da tarde.

Quem as escreve é um pintor, que teve nome no Porto, e pouco tempo

furtou á desgraça para cultivar a arte. Quem as recebe é uma senhora,

que ainda vive.

CARTA I

_22 de setembro de 1824_

Minha estimavel amiga:

Não posso ser indiferente ao interesse, que v. exc.ª tem na minha

felicidade. Na soledade em que me vejo, as suas cartas são a unica

indemnisação que tenho das compridas horas de uma vida sósinha, escura,

e despovoada de todas as bellezas, se é que algumas a existencia póde

ter para mim.

Votei-me ao amor da arte, porque eu tinha precisão de viver para alguma

cousa; mas a arte não me galardôa a minha dedicação. Do seio da tela

tenho arrancado imagens, que são a reminiscencia d'aquella mulher que me

fugiu dos braços para os braços do tumulo.

Aqui tem, minha amiga, como a arte recompensa os meus desvelos! Pede-me

lagrimas, e não m'as paga com a esperança de crear por ella um nome,

como o de muitos desgraçados que se immortalisaram nos quadros, em que

verteram muitas.

Eu não sou egoista dos meus padecimentos. Tenho querido encontrar a

felicidade que a minha extremosa amiga me vaticina. Tenho procurado essa

segunda mulher com o reflexo luminoso da primeira, que me deixou rodeado

de trevas, e saudades. Alguma vez, abandono o meu quarto, e corro,

anhelante de não sei que esperança embriagadora, atraz d'essa visão

impossivel. Sabe o que eu encontro sempre? A fachada do templo de S.

Francisco. Lá dentro dorme o somno eterno a nossa amiga, sempre chorada!

Se posso entrar, ajoelho, chamo-a a testemunhar as minhas ancias, e

retiro-me d'alli gelado pela dúvida, gelado como a pedra que a separa

dos vivos, gelado como o cadaver, que se move impellido por não sei que

mão fatal que me não deixa resvalar no meu abysmo!

Sou bem desgraçado, não é assim? Muito! Este meu viver é alguma cousa

mais dilacerante que a dôr. Não tenho a esperança consoladora, que a

Providencia manda sentar-se no limiar de todos os infelizes. Vejo d'aqui

todos os pontos em que devo passar na minha longa viagem para o nada. O

presente conta-me o futuro. O que vem não receio que seja peor que o que

é. Ha uma cruel monotonia n'esta angustia de todas as horas!

V. exc.ª comprehende-me? Creio que sim! O infortunio illumina o

entendimento. Para o que soffreu não ha mysterios de dôr no coração do

estranho. A minha amiga tem soffrido muito. Perdeu, ha pouco, um esposo

querido. Já depois beijou os labios frios d'uma unica filha que ficára

fallando com a innocencia da saudade a linguagem singela e carinhosa de

seu pae. Ainda assim, invejo-lhe o poder que tem de prestar consolações

á amargura dos outros. Eu, hoje, não saberia consolar ninguem.

Minha amiga, dê-me a sua estima, que eu não tenho mais nada. Em

remuneração, dou-lhe a verdade da minha alma, que é um thesouro, raras

vezes, concedido.

De v. exc.ª

Verdadeiro amigo,

_Paulo_.

II

_30 de setembro_

Palpita-me com sobresalto o coração. Preciso escrever-lhe emquanto me

dura esta febre, que está sendo a minha felicidade! _Felicidade_! com

que ousadia pueril escrevi semelhante palavra! Já é desejar muito

possuil-a! Bem se vê que sou um homem sem presentimento nenhum alegre,

sem nenhum direito á felicidade. Um pequeno lance na minha vida

transtorna-me a cabeça; e, comtudo, estes lances, creio eu que são

frequentes, e desapercebidos, na vida de qualquer outro, mediocremente

feliz.

Hontem fui procurado por Alvaro de Sousa, que uma vez encontrei em casa

de v. exc.ª Impressionou-me um ente estranho, no meu quarto, fechado

para todo o mundo. Chamou-me «amigo» e esta palavra banal fez-me sorrir,

pronunciada por um homem, que eu apenas conhecia, e que tão distante

está da minha obscura classe!...

Disse-me que possuia um quadro meu, era que uma virgem, mais formosa que

as de Raphael, era pintada no extasis de responder a sua mãe que a

chamava do céo. Eu já sabia que v. exc.ª lhe tinha dado este quadro.

Entendi, quando o soube, que não devia magoar-me; mas quizera, antes,

que os profanos na religião do martyrio ignorassem o author daquella

pintura. Não me receba isto como queixume. É a innocente sensibilidade

de quem, pelo muito soffrimento, chegou talvez aos escrupulos

injustos...

Perguntou-me se eu continuava a pintar. Respondi-lhe a verdade, que

nunca veio desfigurada do meu coração. Disse-lhe que sim. Pediu-me, como

especial favor, que retratasse uma mulher. Hesitei um momento; mas tive

pejo de me negar. Annui, e na tarde de hontem, acompanhei-o ao Sério, a

casa da viuva d'um negociante que, penso eu, se chamou Antonio José da

Silva, e creio mesmo que v. exc.ª me fallou, ha tempos, n'esse homem,

contando-me as aventuras d'uma tal Anna do Carmo, casada com seu primo

de traz da Sé.

Em casa d'essa viuva está uma senhora, viuva tambem. Ha tres annos que a

vi casada com um tal Augusto Leite, que deixou uma triste celebridade. A

nossa chorada amiga fôra companheira d'ella nas orphãs em S. Lazaro, e

contou-me cousas que lhe não eram muito favoraveis á sua indole de

menina.

Quando a vi casada com um homem perdido, imaginei que a semelhança dos

genios aproximára dous entes, que deviam encontrar-se. Comtudo, a

Rosinha, como lhe chamava Helena, pareceu-me triste. Soube depois que

era realmente infeliz, e nunca mais tornei a vêl-a.

Vi-a hontem, sentada diante de mim, com o sereno aspecto do prazer no

rosto, um pouco macerado, mas radiante ainda d'aquelle brilho de certas

bellezas que não se apaga nunca. Quiz adivinhar-lhe o coração nos olhos,

e estes olhos, languidos de ternura, vi que se fechavam n'um espasmo

delicioso a cada olhar de Alvaro de Sousa. Entristeci-me daquillo,

porque me lembraram as mulheres do grande mundo, os typos de magestosa

immoralidade, que dificultosamente se aclimatam em Portugal, onde não

chegou ainda a cultura e o despejo da França

Eu disse-lhe que não podia prescindir dos seus olhos por algumas horas.

Sentia-me com disposição para zombar da belleza, que tinha a vaidade de

reproduzir-se para, dez annos depois, encontrar, no logar das rosas, as

rugas da velhice, no vívido scintillar dos olhos o amortecimento do

cansaço.

Principiei o retrato. Alvaro de Sousa entretinha nos braços uma pequena

creança a quem chamavam Assucena. É filha de Rosa. Conheci-a pela

semelhança com sua mãe; mas não sei o que ha na physionomia da pequena,

que prophetisa fatalidades! Serei eu supersticioso?

Emquanto esboçava os contornos, perguntei-lhe se conhecera Helena

Christina, nas orphãs. Disse-me que sim, e que chorára, quando teve a

noticia da sua morte, por causa d'uma paixão que cegamente tributára a

um homem, que não era da sua condição.

Que homem era esse?--perguntei-lhe eu--Era o filho d'um

advogado.--Pensei que a condição do advogado era nobre, repliquei eu.--É

nobre; mas a d'um general é muito mais nobre, e Helena era filha d'um

general.

Não pude continuar o retrato. A palheta tremia-me no braço, e o pincel

traçava linhas confusas. Pedi licença para retirar-me, e deixei Alvaro

enleado da minha improvisada sahida.

Passei uma noite cruelissima. Levantei-me para escrever a v. exc.ª

Cuidei que esta carta me seria um desabafo; mas a suffocação augmenta.

Para que me disse aquella mulher que eu fui a causa da morte de Helena?

Penso que o fui. Accuso-me d'esse crime; porque não posso accusar meu

pae, que devera ser general, e não advogado.

Como é a sociedade, senhora! É impossivel que a Providencia não

abandonasse o homem, depois de o ter creado! Se o espirito de Deus

presidisse á organisação do genero humano, ninguem viria dizer-me: «A

tua condição social collocou um tumulo entre ti e a filha de um

general!»

E é a isto que eu chamei _a minha felicidade_! É um novo crime! Aquella

mulher confirmou a certeza que eu tinha de ter sido amado por Helena até

lhe merecer o sacrificio da vida. Será isto um egoismo barbaro?

Adeus, minha boa amiga.

De v. exc.ª

Amigo do coração,

_Paulo_.

III

_12 d'outubro_

Tive hontem o desgosto de não encontrar em casa v. exc.ª Procurei-a

porque tinha muitas ideias a revelar-lhe, mas tão desordenadas, que

receei não poder escrevel-as. A bondade, com que a minha paciente amiga

costuma attender os desvarios d'este forte coração e d'esta debil

cabeça, seria mais uma vez tolerante comigo.

Não a encontrando, resolvo escrever-lhe, e v. exc.ª verá n'esta carta o

tumulto de sensações que se me atropellam na alma, ha dez dias.

Instado por Alvaro de Sousa, fui recomeçar o retrato da viuva. Era-me

preciso, para não passar por doudo, remediar de qualquer maneira a

precipitação com que sahi d'aquella casa. Não me occorreu algum

pretexto. Adoptei o silencio como explicação, e não dei uma palavra que

suscitasse recordações do dia anterior.

A Filha do Arcediago Terceira Edição · 第 15 / 18 段