mesada que me arbitraram... Não posso conseguir nada... Emprega tu os
meios, que eu concedo-te tudo; e, se não podéres alcançar mais do que
eu, desde já te cedo toda a minha mesada, e eu e minha filha
recorreremos á caridade da minha amiga Maria Elisa.
--Não quero caridades de ninguem: quero aquillo que é meu, quando não
enterro uma faca no coração do tutor...
--Cala-te, Augusto, que me pareces demente!
--É porque eu realmente estou louco... Preciso sahir d'esta desgraçada
vida em que me vejo... Quero dinheiro, Rosa, quando não vou com um
bacamarte para as estradas...
--Augusto!--exclamou ella, tirando-lhe a mão do cabo do punhal, que
empunhára instinctivamente no bolso interior do casaco.
--Tu não sabes onde a desgraça é capaz de me levar... A sociedade fez-me
assim... Se perdi muito dinheiro, perdi o que era meu; não roubei nada a
ninguem; e a sociedade infame despresou-me, chamou-me homem perdido, e
cuspiu-me na cara, porque eu empobreci... Vi-me abandonado, e tornei-me
criminoso... Estou cumplice n'um roubo, e, se dentro de tres dias, não
dér um conto de reis, sou prêso, e degradado, ou pendurado n'uma forca.
--Oh meu Deus, que vergonha!...--disse Rosa, cahindo n'uma cadeira, e
escondendo o rosto entre as mãos.
--Nada de exclamações... Esse remedio não me presta de nada... Visto que
tens uma amiga rica do que era de meu tio, pede-lhe este dinheiro, se me
queres salvar... Não me respondes?
--Augusto!... eu não posso responder-te já... Deixa-me possuir bastante
do meu infortunio, para perder a vergonha...
--Isto não soffre delongas... Quero a resposta já...
--A resposta dou-lh'a eu--disse Maria Elisa, que apparecera de
improviso.
Augusto cortejou-a ligeiramente, e Rosa ergueu-se tremula, e sentou-se
logo, porque lhe faltavam forças para acolher-se ao seio da sua amiga.
Maria Elisa veio ter com ella, abraçou-a, deu-lhe um beijo, e levou-a
comsigo para dentro. Voltando-se para Augusto, disse:
--Queira demorar-se, que eu volto já.
Augusto Leite sentiu um abalo que faria parecel-o louco a alguem que o
visse. Não era loucura. Era o contentamento de se vêr possuidor d'um
conto de reis, com o qual contava já. Era a esperança de transportar-se
com elle a Hespanha a tentar a fortuna, visto que não poderia tornar a
Lisboa, onde o perseguiam por crime de roubo de uns brilhantes, cujo
valor perdera em menos de tres horas. Esta ideia salvadora produziu-lhe
uma febre de loucura passageira. Encarou-se n'um espelho, e viu-se como
um idiota, penteando as barbas com os dedos. Retesou os braços,
espreguiçando-se, e murmurou por entre os dentes quasi cerrados: «ha um
demonio, que me protege! Respeito-o mais que os sanctos, e hei de
mostrar-lhe que sou agradecido...»
Maria Elisa voltou. Sentou-se no canapé, e fez signal a Augusto,
offerecendo-lhe uma cadeira:
--Senhor Augusto, v. s.ª vai receber da minha mão uma quantia de
dinheiro, que me não pertence, nem a sua mulher. É uma generosidade de
sua filha, de que eu sou interprete...
--De minha filha?!
--Sim, senhor. Eu dei a quantia que vou confiar-lhe a sua filha, e
fiquei sendo sua administradora. Quando ella estiver em estado de
recebel-a, v. s.ª lh'a entregará. São tres contos de reis em notas. É um
deposito sagrado que lhe confio. Espero que v. s.ª procure reconquistar
a sua honra, e não lhe faltarão recursos para um dia entregar a sua
filha esta quantia augmentada...
Augusto, balbuciante de prazer, não avistando d'um relance toda a
extensão do seu futuro, murmurou:
--Eu farei por ser um digno depositario do dinheiro de minha familia.
--Agora, senhor, tenho a pedir-lhe um favor em nome d'ella.
--Qual?... a viuva de meu tio manda, não pede...
--A viuva de seu tio nem manda, nem pede nada. Repito-lhe que sou
absolutamente estranha a esta troca de favores que faz o pae com sua
filha. O que em nome d'essa menina lhe peço, é que consinta que ella e
sua mãe vivam na minha companhia.
--É muita honra para mim, minha senhora. Eu vou fazer uma pequena viagem
por causa de certos interesses, e durante a minha ausencia não posso
confiar a mais valiosa protecção minha mulher e minha filha.
--Vai viajar?... Sua senhora já o sabe?
--Ainda lh'o não disse.
--Pois então... não lh'o diga... Salvo se tem motivos fortes para
dizer-lh'o...
--Não tenho alguns... Era simplesmente despedir-me...
--N'esse caso, eu encarrego-me de fazel-a sciente do seu adeus, e v. s.ª
de qualquer paiz lhe escreverá...
--Minha senhora... dispõe do meu quasi inutil prestimo?
--Empregue-o, que tem muito, em ser um digno marido da minha amiga, e um
digno pae da menina que adopto como minha sobrinha. Além dos vinculos de
parentesco que o prendiam a meu marido, ha outros mais consistentes que
são os da amizade, que consagro a sua mãe.
........................................................................
Augusto Leite retirou-se. Maria Elisa, com o coração alvoroçado de
prazer, foi abraçar Rosa, e exclamou, com quanto amor podia empregar na
soffreguidão d'um beijo: «És minha para toda a vida!»
CAPITULO XXVII
Sigamos Augusto Leite, emquanto sua mulher e filha dão a Maria Elisa a
felicidade, que ella lhes remunera com afagos.
O jogador, febril de contentamento, entrou em sua casa, no Laranjal,
disse algumas palavras a sua mãe, e mandou preparar a inseparavel
moçoila, que o acompanhava, na boa e má fortuna, havia quatro annos.
Sahiu, e comprou uma jaqueta de pelles, uma faxa de sêda escarlate,
chapéo de guizos, um par de pistolas, um cobrejão, e dous cavallos de
baixo preço.
Duas horas depois, a rapariga, encadernada n'umas andilhas, passava na
Ramada-Alta, estrada de Vianna, e Augusto Leite, com pau de chôpa
debaixo da perna, esporeando o cavallo, á laia de cigano, caminhava a
par com ella.
N'esse dia foram dormir a Casal de Pedro, e viram lá umas pulgas, cujas
netas eu encontrei trinta annos depois, pulgas enormes e ferozes, que
arrastam as meias dos passageiros, depois que lhes exhaurem as arterias
d'um sangue azedado pelo maldito vinho, que a estalajadeira vos
ministra, perguntando-vos se sabeis alguma mézinha para matar as
_bichas_ dos pequenos.
Pernoitei ahi uma vez na minha vida. Comprehendi, no quarto que me
deram, os supplicios do christão primitivo atirado ao circo. «Christão
ás pulgas!» deveria ser, no imperio romano, um grito de prazer para o
paganismo sanguinario, como o fatal «Christão ás feras!»
Era alta noite, e eu não podia transigir, dormindo, amigavelmente com a
ferocidade dos insectos, se é que não podemos chamar cetaceos áquellas
pulgas, de horrivel recordação. No sobrado immediato ao da possilga em
que eu me contorcia nas vascas d'uma agonia de novo genero, rosnavam uma
boa duzia de gallegas, que vinham da terra a visitarem os respectivos
gallegos residentes no Porto.
Descompunham-se em raivosas apostrophes por causa das mantas, que
algumas d'ellas monopolisavam com grave escandalo e frialdade das
outras. Dos improperios passaram a vias de facto. Socaram-se,
esgadanharam-se, revolveram-se, creio eu, como uma matilha de cadellas,
e vieram de encontrão á porta do meu quarto, que não resistiu ao choque,
e deixou entrar aquelle embrulho indecifravel de gorgonas em fralda de
camisa, que me pareciam, á luz mortiça da véla, executarem uma dança
macabra, uma mazurka de demonios!
Eu levantei-me em pé sobre o catre de pau castanho, pintado de amarello,
e presenciei com os cabellos erriçados o desfecho d'aquella tremenda
lucta. O dono da estalagem, e o meu criado vieram protocolisar a
desordem, distribuindo alguns murros indistinctamente, de que resultou a
fuga desordenada das gallegas, para o seu arraial, ficando considerado o
meu quarto campo neutro.
N'esse mesmo quarto, ás duas horas da noite, tambem o senhor Augusto
Leite recebeu uma inesperada visita; mas não de gallegas em guerra crua.
Eram oito soldados de cavallaria, commandados por aquelle esturdio
cadete, que o leitor conhece, e reforçados por alguns meirinhos do
corregedor, e um especial enviado do regedor das justiças.
Já soubemos que Augusto Leite roubára em Lisboa uns brilhantes. A razão
por que os roubara deu-a Prudon depois: os brilhantes eram propriedade
da condessa de ***, e a propriedade era um roubo.
Como se introduziu Augusto Leite em casa da condessa de ***? Não é bem
liquido, e eu não quero inventar, porque não tenho necessidade de
deslustrar a veracidade do meu conto por amor d'um incidente de pouca
monta. Disseram uns que Augusto Leite era amante da condessa; outros
affirmam que o academico, expulso da universidade, se valera d'um seu
condiscipulo, primo d'essa senhora, para ser protegido por ella na sua
admissão á academia. Eu, de mim, para não duvidar de nenhuma das
explicações, acredito-as ambas, e não offendo os diversos opinantes.
O que devem todos acreditar é que Augusto Leite dispensou á condessa o
trabalho de pôr o seu collar e pulseiras de brilhantes em um dia d'annos
d'uma sua prima. As suspeitas recahiram em todos os domesticos, menos em
Augusto Leite. No dia seguinte corria em Lisboa, que um academico,
visita frequente da condessa de ***, tinha perdido, em menos de tres
horas, trinta mil cruzados em casa do barão de Quintella. Os curiosos
averiguaram o manancial possivel d'este dinheiro, e souberam que um
judeu na rua dos Fanqueiros comprára na vespera por trinta mil cruzados
uns brilhantes. A condessa, com authoridade judicial, fez que o judeu
apresentasse os brilhantes comprados. Reconhecidos, apossou-se d'elles
sem mais formalidade. O judeu gritou contra a extorsão, perguntando se
reviviam os tempos nefastos de D. João III; offereceu-se voluntariamente
para a fogueira; e a tudo isto, que realmente era pathetico, o
procurador da condessa respondeu: _res ubicumque est sui domini est_.
O judeu não ficou sabendo latim, mas conheceu varios artigos da nossa
legislação, e aproveitou-se d'aquelle que o authorisava a perseguir o
ladrão.
Augusto Leite entrou em casa da condessa, quando ella voltava de
reconhecer os seus diamantes. Um criado presenciou que ella algumas
palavras lhe dissera, e o seu protegido respondeu a ellas, voltando as
costas para nunca mais tornar. Os maledicentes quizeram inferir da
generosidade da condessa, que o avisou, consequencias desfavoraveis para
a honra d'ella. Como quer que fosse, Augusto fugiu de Lisboa, a pé, sem
dinheiro, sem bagagem, com uma mulher ao lado, e assim vagou quatro
mezes, não sabemos por onde, até que o vimos entrar em casa da viuva de
Antonio José da Silva.
Tornemos agora a Casal de Pedro.
O enviado do regedor das justiças bateu á porta da estalagem, e
perguntou que passageiros pernoitavam alli.
--Dous almocreves, o recoveiro de Vianna, um passageiro do Porto, com
sua mulher, e um criado.
--Abra lá a porta--disse com a costumada intimativa o executor da lei.
Abertas as portas, os meirinhos encaminharam-se para o quarto do
passageiro. Augusto Leite ouvira as perguntas. Saltára fóra da cama para
fugir, mas não conhecia um palmo da casa fóra do seu quarto. Antonia
Brites, companheira dos seus trabalhos, lembrou-se d'alguns sanctos, que
conhecera na infancia, e incommodou-os com as suas orações. O antigo
traductor de novellas não lêra cousa que lhe servisse de modelo para
similhante conflicto. Quiz precipitar-se da janella, mas viu na rua os
cavallos em linha. Recuou diante d'um sacrificio inutil, e appellou para
os extremos.
Os meirinhos entraram, e viram uma mulher de joelhos com as mãos
erguidas, e um homem de semblante feroz com duas pistolas aperradas.
O estalajadeiro, que caminhava na frente com a candeia, fez dous passos
á rectaguarda, e declarou-se neutral. Os meirinhos, que tinham á vida o
amor suficiente para viverem oitenta annos mais, não foram mais adiante
que o prudente estalajadeiro. Augusto conservou-se na postura
ameaçadora, fuzilando dos olhos um clarão mais vivido que a candeia
tremula do petrificado taverneiro.
Um dos meirinhos, emquanto os outros voltavam as costas, veio á rua, e
disse que o homem não era para graças. O cadete apeou, e subiu com dous
soldados. Foi á porta do quarto, e encontrou o athleta na sua
immobilidade sinistra. Deu-lhe voz de prêso, e viu que o ladrão era
surdo, ou rebelde á lei.
--O melhor é botar-lhe as unhas--murmurou um soldado.
--Agarra-o, _trinta e quatro_!--disse o cadete.
O _trinta e quatro_ entrou no quarto, e, quando lançava mão aos copos da
espada, sentiu um corpo duro bater-lhe na testa. Descarregou ainda um
golpe, e foi de bruços atraz da espada que bateu no sobrado. Estava
morto.
O camarada do _trinta e quatro_ correu em defeza do seu companheiro.
Descarregou duas cutiladas na cabeça de Augusto; mas, á terceira, sentiu
fraquear-lhe o braço, e veio recuando, cahir, com uma bala no coração,
aos pés do cadete.
Os outros soldados tinham subido, e atropellavam-se á entrada do quarto.
Augusto Leite, coberto de sangue, defendia-se debilmente com a chôpa,
que vencia o alcance das espadas. Os soldados, arrefecidos pelo aspecto
dos dous camaradas mortos, não ousavam affrontar o aço da chôpa, que
algumas vezes sentiram resvalar-lhe na farda, deixando-lhe na pelle um
ligeiro ardor, que depois se exacerbava com a humidade do sangue.
O cadete, envergonhado da cobardia dos seus, diante d'um só homem,
entendeu que salvava a sua honra, desfechando uma clavina no peito de
Augusto Leite. Ao desfechal-a viu interpôr-se-lhe um vulto. Era Antonia
Brites, que vinha pedir-lhe de joelhos que não matasse Augusto. Não
chegou a pronunciar a primeira palavra. Recebeu a bala, que havia de
matar o marido de Rosa, e cahiu pedindo confissão. Deus lhe levaria em
desconto das suas culpas o bom desejo de reconciliar-se com o céo,
porque fechou os olhos antes de vêr o padre.
Augusto, impellido pelo instincto da vida, saltou da janella ao
quinteiro com tal destreza, que as espadas não poderam tocar-lhe. O
quinteiro estava deserto de homens, e os cavallos soltos entretinham a
fome no tojo. A comitiva correu atropelladamente a impedir a fuga.
Quando chegaram ao quinteiro, meirinhos e soldados, qual d'elles mais
corajoso, o que viram foi um cavallo de menos, e na calçada fronteira as
faiscas das ferraduras do que fugia. Alguns soldados quizeram montar;
mas os cavallos assustados pelo salto de Augusto ao meio d'elles, não
deixavam estribar, e jogavam de garupa com mau resultado para o meirinho
geral, que perdeu ahi os tres unicos dentes que possuia.
--Já se não pilha!...--disse o cadete.
--Agora é vêl-o ir--accrescentou um soldado.
--Vamos ao quarto tomar-lhe conta das malas--disse o enviado do regedor
das justiças.
Entraram no quarto. Abriram uma pequena mala de couro, e umas bolsas de
hollandilha onde encontraram alguma roupa branca. Dinheiro, nem cinco
reis. A volumosa carteira com tres contos menos duzentos mil reis, que o
sobrinho do senhor Antonio José da Silva gastara em cavallos e pistolas,
e fato, levava-a elle no bolso da jaqueta de pelles.
De madrugada os executores da lei voltavam para o Porto, com os dous
cavallos de Augusto Leite.
Os tres cadaveres foram enterrados no adro da igreja parochial, porque o
vigario duvidou sepultal-os em sagrado, visto que não traziam signal de
christãos, como cruz, nominas, bentinhos, veronicas ou outro qualquer
distinctivo da fé catholica.
_Relação das pessoas que já morreram n'este romance_
O mestre de latim 1
A senhora Escolastica 1
O arcediago 1
Uma velha da viella do Cirne, cujo nome me não lembra 1
O senhor Antonio José da Silva 1
Antonia Brites, amante de Augusto Leite 1
Dous soldados de cavallaria 2
Somma total 8
Continuarão a morrer convenientemente.
CAPITULO XXVIII
Augusto Leite quando chegou á Barca do Lago ia a pé. O cavallo cahira
rebentado, e o cavalleiro desviou-se da estrada para curar os ferimentos
que recebera na cabeça. Não lhe era difficil viver seguro em casa d'um
lavrador, que foi largamente indemnisado do hospitaleiro acolhimento que
deu ao passageiro, que, segundo elle, tinha cara de pessoa de bem.
Vendeu-lhe a sua egua, encaminhou-o por atalhos seguros da vigilancia
dos aguazis, e levou-o á fronteira de Hespanha, curado das feridas, e
salvo de encontros importunos. Ahi, foi facil ao foragido comprar um
passaporte, que o levou a Madrid com o pseudonimo de D. Fernando Godinho
Pereira Forjaz.
Chegado a Madrid, cortou as barbas, vestiu-se de trajes sérios,
apresentou-se como viajante, relacionou-se com a facilidade habitual em
Hespanha, e entrou como portuguez distincto nas primeiras casas da
capital. Encontrou ahi fidalgos portuguezes, que o não conheciam; mas
respeitavam-no pelos appellidos, e não se recusavam a chamar-lhe primo,
visto que os Pereiras Forjazes eram ramificação do heraldico tronco dos
condes da Feira.
Augusto Leite jogou, e augmentou consideravelmente os seus haveres. Em
alguns mezes alcançára uma publicidade que lhe não convinha. O seu nome
era repetido de mais nos salões. As suas conquistas amorosas excitavam
invejas e reservas vingativas que poderiam perdel-o. Augusto resolveu
abandonar Hespanha, e procurar na sociedade mais ampla de Paris viver
bem, sem excitar curiosidades funestas.
Em Paris deu-se como hespanhol, e era conhecido por D. Affonso Vilhegas.
Fallava correntemente o hespanhol, associára-se a uma partida de
jogadores da sua patria adoptiva, e engrandecera o seu peculio, que já
subia a vinte contos de reis. O dinheiro de Maria Elisa fôra abençoado!
Não tivera, até então, alguma noticia de sua mulher. Não lhe convinha
solicital-a, porque podia ser descoberta a sua residencia. O coração
tambem lh'a não pedia.
Passeava uma tarde nos _boulevards_, e viu um homem, que lhe não era de
todo estranho, e reparava muito n'elle. Perguntou-lhe, em francez, se
era hespanhol.
--Sou portuguez--respondeu o cavalheiro.
--Estimo muito... Eu gosto dos portuguezes. Viajei alguns mezes na sua
terra, e sympathisei com as mulheres, que são quasi todas gordas e
vermelhas. Eu gosto muito das mulheres vermelhas e gordas.
--Tem razão... mas, pela pronuncia, parece-me hespanhol, e as mulheres
da Hespanha não são inferiores ás de Portugal. Não tem razão de invejar
a minha patria... Que cidades conhece em Portugal?
--Conheço as que lá ha que mereçam esse nome... Lisboa e Porto.
--Esteve no Porto? É uma bonita cidade, não é?
--É muito interessante. A gente de dia faz horas para se deitar ao
escurecer. Não ha nada melhor. Come-se e dorme-se com a mais perfeita
tranquillidade de espirito. E na semana sancta vêem-se as mulheres,
quando passam as procissões.
--Conheceu alguma no Porto?
--Apenas uma. Como fui recommendado a um negociante chamado Antonio José
da Silva, tive occasião de vêr de passagem uma bonita rapariga, que
fallava em estylo de Corneille.
--Pois conheceu essa senhora?!
--Perfeitamente. Que é feito d'ella? É feliz?
--Penso que não. A sua fortuna está perdida. É por causa d'ella que eu
vim a França.
--Sim? é notavel a coincidencia!... Pois senhor, veja se eu posso
servir-lhe de alguma cousa com o meu pouco valimento... Que desastre foi
esse! O tal negociante passava por ser um homem rico...
--E era. O negociante morreu ha dez mezes. A viuva liquidou a sua
fortuna, que valia bem duzentos mil cruzados. Entrou com ella em uma
casa commercial franceza, que tinha representantes em Lisboa. Esta casa
acaba de fallir, e o dinheiro de Maria Elisa está perdido, segundo
creio.
--Coitada...! fica pobre por consequencia...
--Pobrissima...
--E tem filhos?
--Não, senhor.
--Nem familia?
--Tem em sua companhia uma amiga e a filha d'essa desgraçada senhora,
que tambem foi rica, e está reduzida a nada...
--Tambem tinha os seus bens de fortuna na casa commercial que falliu?
--Não, senhor... foi o marido que a reduziu a esse estado deploravel...
--Pobres senhoras!... Estou-me interessando em que não sejam tão
infelizes como o senhor as pinta...
--Pois não digo metade das desgraças que as esperam.
--E o marido d'essa amiga da viuva... naturalmente é um perdido que lhes
não póde valer de nada?...
--Esse homem morreu... ou ha todas as probabilidades para o julgar
morto... Parece que o mataram, quando o prendiam por ladrão...
--Era ladrão? Oh diabo! então foi bem feito matarem-no!
--Roubára em Lisboa uns brilhantes que vendera a um judeu. O judeu
perseguiu-o, e quando soube que sua mulher possuia algumas propriedades,
de que fruia os rendimentos, provou o roubo, e penhorou-lh'as todas... A
viuva do negociante, que o senhor conheceu, não lhe dava tempo a scismar
nos seus infortunios; mas agora a situação d'ambas é desgraçadamente
igual.
--E o seu procedimento?
--O mais exemplar. Maria Elisa vai retirar-se a um convento, e é natural
que a outra viuva a acompanhe.
--Então o senhor que veio fazer a Paris?
--Vim tentar o ultimo esforço; mas inutilisei despezas e trabalho. Pedi
que se indemnisasse a viuva da massa fallida; mas o tribunal do
commercio não deferiu ao meu requerimento.
--Quando parte o senhor para o Porto?
--Ámanhã deixo Paris, e vou embarcar a Toulon.
--Póde ser portador d'uma encommenda para a viuva de Antonio José da
Silva?
--Com muito boa vontade.
--Tenha a bondade de acompanhar-me.
Augusto Leite subiu ao hotel, onde residia, emquanto o procurador de D.
Maria Elisa o esperava. Demorou-se alguns minutos, e entraram juntos em
uma casa commercial ingleza. Sacou uma ordem de mil e quinhentas libras
sobre o Porto, entregues á ordem de D. Maria Elisa, e entregou-a com uma
carta ao procurador, accrescentando:
--Diga a essa senhora, que não desça da sua dignidade, nem abandone as
pessoas que levantou da miseria. Eu terei cuidado de velar pela sua
sorte.
O procurador, aturdido como é natural, desejou n'aquelle momento vencer
como n'um vôo de espirito a distancia, que o separava de Maria Elisa.
Aventurou algumas perguntas ao generoso hespanhol; mas não conseguiu
elucidar-se mais do que tinha sido.
Augusto Leite entrou no seu quarto, e disse á sua imagem representada no
espelho: «Meu amigo, quando te vi, ha oito mezes, rir de contentamento
no espelho de Maria Elisa, tinhas um riso bem differente d'esse que te
vejo agora. Acredito que o prazer de uma boa acção é o unico prazer sem
mistura de dôr. É a primeira acção boa que praticas, meu caro Augusto!
Se te habituasses a ser honrado assim muitas vezes, naturalmente cahias
desamparado na rua. Esconde agora a face da honra, e faz uso da outra,
porque uma só cara não presta para nada. Visto que tomas a teu cargo
aquellas mulheres, precisas de ser pessoa de bem uma vez cada anno. A
virtude, nos homens da tua fortuna, deve ser como os intervallos lucidos
da loucura. Se vaes dizer á sociedade que te dê os meios para
sustentares tua pobre mulher e tua filha, a sociedade manda-te
trabalhar. Pois então, D. Affonso Vilhegas, trabalha antes que ella te
mande. Dos trabalhos procura o mais rendoso. Como não tens grande força
muscular, faz que o teu officio esteja mais dependente do espirito.»
Este dialogo, com o seu _unico amigo_, foi interrompido por uma
personagem, que apeára d'uma sege e mandára adiante o seu nome: era o
visconde de Bellarmin.
--Meu caro visconde, vieste encontrar-me a conversar comigo.
--É necessario que te retires de Paris immediatamente.
--Porquê?
--O governo suspeita que tu és um enviado do partido monachal de
Hespanha, que combinas com o de França uma reacção. Ha ordem de prisão
para ti.
--Não julguei que era uma pessoa tão importante. Tenho gloria de ser
prêso como homem temivel a duas nações. Ainda agora me lembro que posso
ser um grande homem. Quem sabe se me está reservada a corôa de Fernando
VII!
--Não zombes, Vilhegas... Foge, quanto antes, de Paris. Aqui tens
passaporte para Portugal.
--Não vou para Portugal. Alcança-me um passaporte para Hespanha, e
perdôo-te as mil libras que hontem perdeste. Olha lá... Dou-te outras
mil se dizes no passaporte, que eu sou um missionario hespanhol, que
volto do Japão. Acceitas?
--Acceito... Vou buscar-t'o. Mas tu não tens cara de missionario.
--Eu respondo pela cara, e, se não, sabes quem venda uma? Os vossos
ministros devem ter algumas disponiveis!... Vês como eu já vou pendendo
para a linguagem dos estadistas?... Nunca me lembrou, que podia ser o
grande homem, que vou ser!... Onde quer está um Napoleão incubado!...
Avia-te...