--Ora, deixem-se d'isso!...--interrompeu o senhor Antonio, fingindo que
recebia a intimação com gracejo--V. s.as estão a brincar... Queiram
mandar-se sentar.
--A nossa missão cumpre-se de pé... e v. s.ª ha de responder-nos tambem
de pé! Queira tirar o seu barrete, por que nós tambem estamos
descobertos. As formaes solemnidades d'este acto não permittem
distincções de cavalheiro para cavalheiro. Repito, senhor! Queira
descobrir-se!
--Eu estou em minha casa, posso estar como quizer.
--N'este momento a sua posição é outra. O homem desafiado não se
considera em sua casa, emquanto a sua honra não está illibada, porque o
homem deshonrado não tem casa, nem propriedade, nem direito!
Descubra-se!
O senhor Antonio tirou o barrete, e emmudeceu na presença de similhante
insolencia.
--Muito bem... Responda agora: quer bater-se em leal duello com o senhor
Pedro José de Sarmento e Athaide Pesicato?
--Não quero lá saber d'essas cousas, já lh'o disse a elle, e não me
façam azedar o estomago, senão eu mando chamar o meirinho geral, e os
senhores são catrafiados e mais elle na Relação.
--O senhor insulta-nos! Se não tivessemos piedade da sua barriga... essa
lingua seria cortada pelo gume d'esta espada!...
--Os senhores vem insultar-me a minha casa! Já no meio da rua, quando
não chamo os visinhos.
--Cale-se, monstro! quando não...
Os esturdios desembainhavam as espadas quando Maria Elisa entrou na
sala, e parou diante de seu marido, que recuava espavorido.
--Isto que quer dizer?--perguntou ella--Não respondem?... Que infamia é
esta de entrarem n'uma casa estranha insultando o dono d'ella?
Os embaixadores do imaginario primo arrefeceram nas suas comicas furias,
e não ousaram responder.
--Retirem-se d'esta casa!--disse Maria Elisa apontando-lhes a porta da
sahida.
--Minha senhora...--balbuciou um d'elles--nós somos enviados por...
--Seja por quem fôr. Vão dizer a quem os enviou, que Maria Elisa lhe
manda dizer que o seu procedimento é muito infame, e que eu muito sinto
não ser homem para poder dar a v. s.as uma resposta cabal!
Retirem-se!...
Os officiaes sahiram vexados, e o senhor Antonio estava espantado da
coragem de sua mulher.
CAPITULO XXV
O senhor Fernandes quando respondeu, em duas linhas, á carta que Maria
Elisa lhe enviara, contando-lhe os successos occorridos desde a fatal
surpreza da Ponte-da-Pedra, procurou um seu amigo, cadete de cavallaria,
e convidou-o a representar de primo para poder salvar a sua amante do
risco.
O cadete, mancebo de maus costumes, e votado engenhosamente a toda a
casta de maroteira, acceitou o papel e estudou-o com muita habilidade.
Era necessario que D. Maria Elisa o não visse para obviar aos embaraços
muito naturaes em tal surpreza. Fernandes inventára o desafio, e o
cadete inventára de improviso a historia genealogica dos Pesicatos e
Bemóes, que encaminhou ás mil maravilhas a historia do duello.
O comico, retirando contentissimo do bom exito da sua travessura, antes
de procurar Fernandes, fez obra por sua conta, divulgou a brincadeira
aos seus camaradas, que eram o tenente e alferes da companhia, e achou
n'elles dous optimos bargantes para continuarem a caricatura.
Quando a ultima scena se passava no Serio, o senhor Fernandes, na rua
das Flores, estava desesperado, porque previra que Maria Elisa levaria a
mal este excesso de escarneo a seu marido. Elle bem sabia que nenhuma
mulher consente que a desgraçada condição do marido ultrajado seja um
brinquedo para o ludibrio do homem, que fatalmente a levou a uma
fraqueza de coração.
Era tarde para remediar a imprudencia. Esperou, inventando pretextos que
o reconciliassem com Maria Elisa, no caso possivel de ter ella sido
testemunha da zombaria feita a seu marido.
Não se enganára. O cadete fora o portador da resposta enviada pelos
officiaes. Fernandes, reprovando o procedimento do seu amigo, que dava
grandes gargalhadas, e promettia contar o caso a toda a gente, escreveu
a Maria Elisa historiando o acontecimento. Era impossivel salvar-se!
Embora não tivesse elle sido o inventor do escandalo, quem expozera
Antonio José da Silva fôra de certo elle, e Maria Elisa leu a carta,
rasgou-a, e devolveu-lh'a.
Seguiram-se novas remessas de cartas, que ella nunca abriu. Deixou de
sahir de casa, para não ser encontrada. Soffreu quanto póde soffrer o
amor proprio. Não sentiu, por isso, mais interesse por seu marido;
todavia córava, muitas vezes, diante d'elle, lembrando-se que o fizera
descer tanto. Comprehendam-na, se podem! A sua consciencia estivera
tranquilla até ao momento em que foi surprendida na Ponte da Pedra! O
que lhe pesava não era a infidelidade; era o ultraje, que lhe fizeram a
ella, escarnecendo um traste de sua casa, uma cousa que a sociedade
chamava o «seu marido»!
Eu, se fosse mulher, seria isto, pouco mais ou menos, e levaria o meu
nobre resentimento ao extremo de abominar o vaidoso amante que
estabelecesse termos de comparação com meu marido.
A situação de Maria Elisa era muito especial. O senhor Antonio estava
assustado, e dava como certa a sua morte, logo que os officiaes de
cavallaria o encontrassem a geito. Ao anoitecer mandou trancar as
portas, e armar os criados, emquanto, confiado na coragem de sua mulher,
consultava os meios, que devia empregar, para judicialmente defender da
sua arriscada corpulencia os golpes de espada d'aquelle par de Damocles
que o neto de D. Alarico Themudo Pesicato lhe enviava a casa.
Maria Elisa queria serenar os sustos de seu marido; mas de que modo? Se
lhe dizia que tudo aquillo fôra uma phantasmagoria, ficava a sua honra
muito duvidosa para seu marido. Se deixava medrar o terror do infeliz, o
pobre homem succumbiria de medo, se visse em sonhos o lampejo da espada
nas proximidades da barriga provocante.
Os palliativos não valiam nada para a cura. O senhor Antonio, no auge do
medo, chegou a censurar sua mulher por ter usado palavras fortes de
mais, quando deu ordem de despejo aos militares.
Maria Elisa quando viu, ao cabo de tres dias, que seu marido tinha febre
e tremia ao menor ruido que se fazia nas escadas, sentiu escrupulos, e
accusou-se de ter concorrido para os soffrimentos do pobre homem.
Fernandes teimava em escrever-lhe, e não conseguia que as suas cartas
fossem, ao menos, abertas. O seu tormento inspirou-lhe um recurso
extremo. Pediu ao cadete que se apresentasse humildemente em casa do
negociante, pedindo-lhe perdão das asperezas do seu caracter, e
affiançando-lhe que nada viria perturbar-lhe a sua tranquillidade.
Maria Elisa estimaria este acontecimento; mas não queria lembral-o ao
seu indigno amante, porque jurára acabar taes relações.
O cadete foi representar, de boa vontade, a segunda parte da farça. O
senhor Antonio não quiz ouvil-o, sem que sua mulher estivesse escondida
no quarto proximo, para intervir, sendo necessario.
--Eu venho--disse o cadete--desarmar a sua justa indignação, senhor
Silva. Foi de mais o meu brio. Minha prima é sua mulher, e v. s.ª não
tem obrigação de responder-me pelo mau conceito que fez d'ella.
Desafiei-o: fui imprudente; mas espero merecer-lhe um generoso perdão,
visto que as minhas demasias são filhas do nobre sangue que me gira nas
veias. Retiro-me na certeza de que v. s.ª, de hora em diante, não se
lembrará mais do passado, e terá por mim a estima que se deve a qualquer
individuo, que zela a honra de nossas mulheres, tanto como nós.
O senhor Antonio ouviu-o primeiro com sobresalto, e depois com
satisfação. Tinham-lhe alliviado do coração o pêso de quatro quintaes. O
sangue girava-lhe de novo em toda a extensão do systema circulatorio; e
os frouxos, que lhe accommetteram as pernas, desappareciam, á maneira
que o primo de sua mulher lhe garantia a inviolabilidade do seu abdomen.
O senhor Antonio tinha um excellente fundo. Não era valente, mas odiento
tambem não. Deu um abraço no estroina, que recuou dous passos para o
receber com todas as formalidades d'um habil comico, e pareceu-lhe até
que o primo de sua mulher (valha a verdade) lhe déra um beijo na
bochecha direita. Não affianço isto; mas o que posso, debaixo da palavra
de honra dos meus amigos, affiançar, é que um beijo na face do senhor
Antonio, se se deu, revela um gosto estragado, um paladar torpe, e
alguma cousa de indecencia atroz na pessoa do cadete.
A verdade é que o tranquillo marido recobrou a felicidade inquietada, e
restituiu a sua mulher a plena confiança retirada por uma fatal
intermittente de ciume. Desfazia-se em satisfações, acarinhava-a a seu
modo o melhor que podia e sabia, comprou-lhe duas pulseiras de grande
custo, e uma fivela de cintura, cravejada de diamantes. Maria Elisa
acceitava os carinhos, a fivela, e as pulseiras com a mesma
indifferença.
Não era, porém, filho do estudo este desdem. A chistosa amiga de Rosa
Guilhermina vivia triste, porque vivia só. Desde que se entregára
apparentemente ao extremoso negociante, as suas horas unicas de
passageira felicidade eram as da Ponte-da-Pedra. Fernandes era um homem
de não sei que perverso talento que seduz, capacita; e chega a victimar
as proprias mulheres que teem a consciencia de que são victimas. Talento
e corrupção eram já n'aquelle tempo uma espada de dous gumes com que se
cortam os nós gordios do coração de certas mulheres. E Maria Elisa era
uma d'essas certas.
O que ella teve de mais, entre as da sua escóla, foi uma caprichosa
dignidade, que a fez esquecer num momento o amor d'um anno. Recordava-se
de Fernandes com pesar, e odio; saudade, nunca. Quando se deixara cahir
nas astuciosas ciladas, que elle lhe preparara, com o animo frio da
experiencia das Marcellinas (que pelos modos eram muitas n'esse tempo,
apesar dos frades, e da suspirada virtude de outras eras) tirára ella,
como condição, um eterno silencio a respeito de seu marido. Parece que o
galhofeiro amante epigrammou, uma vez, o abdomen do senhor Antonio, e
teve, em vez de sorriso approvador, um gesto de desprêso, que elle
reconciliou lá como pôde. O caso é que nunca mais cahiu na leviandade de
ferir a susceptibilidade de Elisa, lembrando-lhe a monstruosidade moral
e physica de seu marido.
Foi pessima lembrança aquella de enviar o cadete a representar de primo!
Maria Elisa quereria antes ser julgada, qual era, por seu marido, porque
a deshonra seria um segredo domestico, e a hilaridade publica não viria
aggravar a vergonha de ambos. Mas o remedio comico e inesperado, que o
inconsiderado Fernandes deu ao mal, era exacerbar a ferida, expondo-se
ao ar da publicidade, e ao fel do ridiculo, prompto sempre a flagellar
os maridos da escóla do senhor Antonio, que não são muitos, mas
satisfazem as necessidades de alguns celibatarios que vieram ao mundo
para chronistas dos infortunios alheios. Eu, que sou um dos que se
honram d'essa missão, não posso deixar de confessar publicamente a minha
admiração por esta senhora, digna (a todos os respeitos não direi, mas a
alguns, de certo) d'outro marido, ou d'outro amante. Qualquer que tenha
sido o seu peccado, a gente de bom coração tem pena d'ella, vendo-a,
depois dos tristes acontecimentos que historiei com sincero dó, sósinha,
entregue á escuridão da sua vida sem amor, sem luz, sem ar, alli sempre
na presença do senhor Antonio, carinhoso até á desesperação, terno até
ao aborrecimento, desvelado em extremos de meiguice tôla até dar vontade
de o mandar comer e dormir.
Isso foi que elle nunca deixou de fazer. O estomago era uma cousa á
parte na sua organisação. Eram dous Antonios n'um. O Antonio do ciume
morreria de paixão: mas o António do estomago só uma indigestão poderia
matal-o.
Sempre ao lado de sua mulher, inerte, sedentario, bufando, arquejando,
impando, o nosso amigo sentia-se cada vez mais pesado. A medicina
mandava-o passear a pé, e elle sem Maria Elisa, não dava um passo. Já
não eram suspeitas. Era a tenacidade do amor, a reloucura da velhice que
o prendia áquella mulher, como se prende a creança timida ao seio de sua
mãe.
Correram assim tres mezes. Maria Elisa, cada vez mais triste, cahiu
n'uma especie de doloroso somnambulismo. As janellas do seu quarto não
se abriam nunca. Passava as longas horas do dia e da noite, lendo sem
reflexão, e escrevendo cousas que o seu marido não entendia, mas gostava
d'ouvil-as. Eram «melancolias surdas» como ella intitulara os trinta
cadernos de papel em que as escrevera. Disseram-me que essas paginas
perdidas continham cousas bonitas, pensamentos que não pareciam de
mulher, energia de phrase, conhecimento do coração, e toque real d'uma
verdadeira dôr. O que não viram n'ellas as pessoas, que me informaram,
foi o nome de Fernandes. Parece que a imagem d'este homem fôra para
sempre banida das saudades de Maria Elisa.
Constrangida pela soledade, a antiga orphã de S. Lazaro lembrou-se com
amor da sua amiga de infancia. Queria revocal-a ao seu coração, d'onde
nunca sahira, mas seu marido odiava Rosa, fazia-se côr de carmim quando
lhe fallavam n'ella, e repetira muitas vezes que, emquanto elle fosse
vivo, a filha do arcediago não entraria em sua casa.
Maria Elisa não replicava a este odio inveterado. Tinha compaixão do
pobre homem que, desde certo tempo, vaticinava a morte. Já não comia com
o mesmo appetite. Já não accumulava com prazer as sopas na tigella do
caldo de gallinha. Sentia precisão de sentar-se, apenas se erguia, e
acordava muitas vezes de noite com os pés frios e a cabeça em braza.
A senhora Angelica, sempre a mesma devota, depois das desordens, por
causa do neto dos Pesicatos, metteu-se no seu quarto, em oração
permanente, e apenas sahia tres vezes em cada doze horas para comer,
visto que era necessario dividir a sua extatica existencia entre o
oratorio e a cosinha. Quiz, algumas vezes, intrometter-se na vida de seu
irmão, censurando a frieza de sua cunhada; mas não obstante a seriedade
do assumpto, a senhora Angelica, se fallava só dizia asneiras, o que não
succede sómente á senhora Angelica.
Consta que ella fôra uma vez ainda consultar a senhora Escolastica, a
Massarellos; mas esta mulher tinha morrido de fome, não obstante
predizer o futuro, que, parece, á primeira vista, um bom modo de vida,
depois de jornalista, que são as Escolasticas de calças e paletó do
nosso tempo.
Eu vou dizer-vos cousas pungentissimas. É com pena, realmente vos digo,
que me vejo obrigado a deixar morrer uma das creaturas mais notaveis
d'este romance. Accuso a medicina d'aquelles tempos por não ter salvado
d'um ataque apopletico o senhor Antonio José da Silva. Se fosse hoje,
este homem não teria morrido, sem que ao menos o esfolassem com quatro
duzias de ventosas, e cento e tantos causticos. Tel-o-iam salvado com
alguma d'essas medicinas, que disputam entre si a vida dos cidadãos, ao
passo que as camaras municipaes mandam alargar os cemiterios. Felizes os
que morrem hoje, que, se morrem, é porque não podiam viver mais.
O senhor Antonio deitou-se uma tarde, queixando-se de dôres de cabeça.
Metteu os pés n'um banho de mostarda; mandou pedir a sua mulher que
viesse fazer-lhe companhia, e recebeu-a morto, quando ella entrou. O
facultativo chamado sangrou-o. A veia verteu algumas gotas de sangue
negro, e fechou-se, porque as valvulas do coração estavam fechadas para
sempre.
Maria Elisa tomou a mão do cadaver, e beijou-a sem lagrimas. A senhora
Angelica veio ao quarto de seu irmão, e chorou muito, grunhiu
desentoadamente, e atordoou a visinhança com gritos. Feita esta berraria
de duas horas, comeu alguma cousa sem appetite; mas podia dizer que
tinha fome que ninguem duvidaria da sua palavra. Ao mesmo tempo, Maria
Elisa, que não gritára, nem chorára, fugindo do quarto de seu marido,
fechára-se no seu, escondera a face nas mãos, e murmurou: «Perdi um pae!
Sou orphã outra vez!»
CAPITULO XXVI
A viuva do honrado negociante, que passou da terra sem um necrologio,
escreveu a Rosa Guilhermina uma carta que era um grito supplicante á sua
amiga d'outro tempo. Pedia-lhe que viesse, porque a chamava de ao pé
d'um cadaver. Só, sem amigos, e rodeada de riquezas inuteis, appellava
para a unica pessoa capaz de avaliar a sua orphandade.
Rosa Guilhermina entrou com o portador da carta. Abraçaram-se, chorando.
Fecharam-se, para se furtarem ás formalidades estupidas das visitas
funebres, que nos vem dizer: «sinto muito» e nos obrigam a responder:
«muito obrigado.» Dous dias e duas noites quasi não tiveram um
intervallo de silencio. Soffriam ambas, soffriam muito, e já não sabiam
adubar as conversações d'aquella fina especiaria de risos, que tanto
promettiam, e em tantas lagrimas deviam converter-se depois.
--Já não somos as mesmas, Maria Elisa!--disse Rosa, abraçando a sua
amiga, que lhe inclinava o rosto pallido no hombro.
--Já não... A nossa mocidade foi um dia... Parece-me que vivo ha
muito... Tem-me lembrado a morte, como o maior beneficio que posso
esperar do céo...
--E eu tenho-a pedido tantas vezes!...
--Tambem soffres, Rosa?! Não tens um esposo amado?
--Não.
--Como não? pois não casaste por paixão?
--Casei... e depois, vi que me tinha perdido...
--Pois que? elle não te estima?
--Não... arrasta-me na sua desgraça... Meu marido é um homem perdido...
um ente sem honra, nem futuro, nem presente.
--Pois teu marido não está a formar-se em Coimbra?
--Já não trata d'isso... Meu marido é um jogador.
--Jogador!
--Sim, jogador de profissão... Gastou quanto podia gastar do meu
patrimonio... O pouco que possuo para a minha subsistencia e de minha
filha, tira-m'o com violencia. Foi riscado da universidade, veio ao
Porto vender aquella prata, que tu déste a minha filha, depois de a
comprares a meu marido, e foi para Lisboa, sempre acompanhado d'uma
mulher ordinaria, que viveu na minha companhia quinze dias, e ousou dar
ordens das minhas portas a dentro. Ha cinco mezes que não tenho,
noticias d'elle. Nem ao menos me pergunta por sua filha. Sei que vive,
porque, no fim de cada mez, se apresenta em minha casa uma ordem
assignada por elle para eu pagar quasi tudo que o juiz dos orphãos
arbitrou para o sustento da minha familia... Aqui tens a minha vida...
Estou pobre... Maria Elisa!...
--Tu não estás pobre, Rosa! Não me falles assim, que me fazes chorar! Tu
não estás pobre... Eu preciso que te esqueças de todo o nosso passado,
para entrares de novo no coração de Elisa... Queres ser minha? Eu estou
viuva, e viuva tambem tu estás... O teu coração não é já d'esse homem...
É da tua filha, e meu; a tua filha é minha e tua, sim?... Não chores...
Troquemos entre tres as nossas affeições todas... Vivamos n'uma só
vontade... Foge para os meus braços, que não tem no mundo ninguem que os
queira, a não seres tu... Faz-me outra vez sorrir para a vida, que
n'estes ultimos dous annos me tem sido tão negra... tão negra... Rosa!
Faz que a minha riqueza me seja uma cousa agradavel... Dá-lhe algum
prestimo... Só tu podes, se vieres ser outra vez minha irmã, explicar-me
a razão por que eu queria ser rica... Era para isto, era, minha querida
amiga, era para nos fazermos felizes tres creaturas... eu, tu, e a nossa
menina... Vai buscal-a... Vai... Não me digas que não... que me matas...
Essa mesada que tens dá-a a teu marido... Que jogue, que se deshonre,
mas foge-lhe tu, que não tens ainda uma nódoa na tua vida... Vem
ensinar-me a ser boa, e honrada, porque eu tenho sido...
--O quê?... que tens tu sido?...
--Uma desgraçada...
--Tambem eu... que culpa temos nós?!
--Eu?... muita!... Calemo-nos, Rosa... Olha aquelles sinos pezam-me
sobre o coração... Tenho mêdo d'aquelles sons... Se meu marido tivesse
sido n'esta vida um homem, como eu deveria ter encontrado um, eu
pensaria que aquelle dobre era a voz d'elle que me accusava da
eternidade... Ai!... tu ignoras a minha vida? Parece impossivel!...
Nunca ouviste fallar de mim como se falla d'uma infame mulher?
--Nunca...
--Pois pergunta ao mundo o que eu fui... Não, não perguntes nada...
Ignora tudo. O meu coração para ti está puro... Restituo-t'o como t'o
roubei, ou tu o lançaste de ti para fóra... Não te importem os meus
defeitos... Foi um sonho horrivel! Acordei nos teus braços... quero aqui
viver... Deixas-me esquecer aqui do muito que tenho soffrido?...........
........................................................................
Rosa Guilhermina recebia com lagrimas as meias confidencias de D. Maria
Elisa, quando lhe disseram que seu marido a procurava, por saber que
ella estava alli.
A surpreza brutificou-a.
Maria Elisa mandou subir Augusto Leite, e reanimou a sua amiga do
lethargo em que a deixou esta apparição tão pouco desejada. Fôra preciso
muito para que a pobre senhora aborrecesse seu marido.
Não bastariam para isso as dissipações que elle fizera do seu
patrimonio. A mulher perdôa sempre os desperdicios de seu marido, com
tanto que elles não envolvam uma affronta ao seu amor proprio, servindo
de preço aos amores alheios que se vendem.
Não fôra, pois, o jogo que arruinara a felicidade de Rosa. Foi o descaro
insultuoso com que Augusto, na sua penultima vinda ao Porto, lhe
introduzira em casa a tricana das chinelas amarellas, mulher insolente
que, authorisada pelo amante, ousara esbulhar os bragaes da casa,
deixando a sua dona só os indispensaveis.
Estes vexames nunca se perdôam. A esposa, assim ultrajada, póde
soffrel-os calada como martyr, mas não poderá nunca reservar um resto de
affeição ao homem, que a humilhou assim.
Rosa entrou na sala em que era esperada. Quando deu de face com seu
marido, que não vira nos ultimos seis mezes, desconheceu-o e recuou.
Trazia a barba toda, que lhe augmentava a magreza cadaverica do rosto.
Vestia uma velha sobre-casaca, de panno desbotado, encodeada na golla, e
farpáda na botoadura. Os seus olhos pisados, mas ainda penetrantes do
brilho da desesperação, fixavam Rosa com ar ameaçador.
Cruzando os braços com a importancia tragica d'um marido de tragedia,
que vem, de longes terras, pedir contas a sua mulher, Augusto Leite
disse, aproximando-se:
--Parece que me não conheces, Rosa?
--Vens tão mudado do que eras!... não admira que te não conhecesse,
Augusto!
--Pois sou eu mesmo... Vejo que não sentes grande prazer com a minha
visita...
--Não te esperava... Como ha seis mezes me não escreves...
--Entendeste que não havia nada commum entre nós... Pois, minha amiga,
sou teu marido, apesar de ambos nós...
--Sinto muito que o sejas a teu pesar... Eramos ambos bem mais felizes,
se o não fosses.
--Parece-te? a mim tambem; mas já agora o remedio é seres minha mulher,
e eu teu marido...
--Fallas-me d'um modo que me fazes gelar o coração!... Que te fiz eu
para me tratares assim?
--Eu sei cá o que me fizeste!... não me fizeste nada... Penso que me
tornaste mais desgraçado do que eu era...
--Vejo que sim; mas não era essa a minha intenção.. Eu quiz fazer-te
feliz; se o não consegui, é porque não pude, nem tu me disseste o que eu
devia fazer para a tua felicidade...
--O que me perdeu foi o teu dinheiro...
--Não tive culpa, Augusto...
--Eu, se fosse sempre pobre, não me illudia com as esperanças do teu
patrimonio, e trabalharia, estudaria para chegar a ser homem...
--Que hei de eu fazer-te, Augusto!... Eu nunca te aconselhei que
arruinasses o que te dei; se soubesse que o meu dinheiro te fazia
infeliz, lançal-o-ia ao mar para me casar pobre comtigo... Mas, se eu
fosse pobre, de certo me não quererias...
--Não sei, não me importa saber, todas as conjecturas agora são
estupidas...
--Perdôa as minhas conjecturas... Eu d'antes era espirituosa, segundo tu
dizias, que eu nunca o acreditei... Agora sou estupida, é porque a
desgraça embrutece...
--Nada de ironias... Sabes que estou pobrissimo?
--Não sabia; mas acredito que o estás.
--Pódes avaliar a minha situação?
--Posso; porque eu tambem estou pobrissima.
--Menos que eu...
--Mais que tu... Tenho uma filha que sustento, e cheguei á extrema dôr
de querer comprar-lhe um vestido, e tive de vender um meu, para que a
minha filha te não envergonhasse... Avalias tu agora a minha situação?
--Diz ao teu tutor que te entregue o que tens, e tu administrarás...