--Ouça-me emquanto ella se ri, menina, que o que eu vou dizer-lhe ha de

fazel-a chorar. Conheço muito bem que não tenho direito nenhum a

pedir-lhe o amor, que se deve a uma mãe... Eu quasi que a não reconheci

minha filha. Dei-a ao mundo, e o mundo assim como a fez feliz podia

fazel-a muito mais desgraçada que eu sou... N'este mesmo momento, em que

venho aqui expiar as minhas culpas, confessando-lhe que fui tão

desnaturada mãe, olhe que lhe não tenho amor, nem me offendo com o seu

desprêso. Por força assim devia ser... Se não fosse assim, eu não

acreditava na justiça de Deus!... Se a minha filha me tivesse atirado

com um pontapé á rua, eu havia de levantar-me, se podésse, para lhe

dizer: «eu te perdôo, filha de Leonardo Taveira!» Veja que bom coração

eu poderia ter-lhe dado, se tivesse, quando a expulsei de meus braços,

um presentimento de que viria uma hora em que eu precisava das suas

consolações...

D. Rosa chorava, e a propria criada sentia-se amollecer no coração.

--Entre para esta sala--disse a filha do arcediago commovida.

--Não entro, minha filha, eu vou retirar-me; disse-lhe tudo, levo o

coração mais desabafado, e creio que a não offendi... Se a magoei,

diga-m'o, que lhe quero pedir perdão.

--Entre...--balbuciou Rosa, offerecendo-lhe a mão..

--Não... já lh'o disse... aqui tem os seus dous vintens, molhados de

lagrimas, que são a usura d'este emprestimo... Dentro d'essa sala não

posso entrar como mendiga: se eu podésse visital-a, como senhora, viria

muitas vezes aqui, e talvez lhe podésse fazer serviços que a poupassem a

muitas desgraças no futuro... Assim... adeus!...

--Não consinto que se retire; quero informar-me de quem a senhora é. Se

fôr minha mãe, hei de tratal-a como quem é...

--Por ser sua mãe, não sou ninguem, minha filha... A menina não me

honra, nem me deshonra. Não tenho senão remorsos de a ter dado ao mundo,

como posso eu ter vaidade de ser sua mãe!... Fique com Maria

Sanctissima, e diga á sua criada que não é do agrado de Deus insultar

assim as pessoas infelizes... Chame-a aqui, menina, que me quero

despedir d'ella...

A criada veio, instada por D. Rosa.

--Não se afflija, moça!--disse Anna do Carmo--Não tenha pesar de me ter

offendido, que eu perdôo-lhe de todo o meu coração... Tire d'aqui uma

experiencia para todas as pessoas necessitadas... O seu zêlo por sua ama

é demasiado... Receava que eu lhe pedisse algum vestidinho velho dos que

vmc.e espera que sejam seus? Não vim a isso... E para que se lembre do

que esta velha da mantilha rôta lhe disse, quero deixar-lhe uma

lembrança de mim... Pegue lá...

--O quê?--perguntou a criada, recuando a mão.

--É uma peça de quatro mil reis, com que vmc.e póde comprar umas

arrecadas... Acceite que lh'a dá a pobre mãe de sua ama!... Não quer?...

Ora pois, Deus lhe dê muito que dar...

A ama e a criada ficaram perplexas, encarando-se estupidamente, emquanto

Anna do Carmo sahia. Quando vieram á janella para vêl-a, ia já na

extremidade do bêcco, mas á porta de D. Rosa estavam dous homens, que

conversavam apontando para a mulher da mantilha rôta.

--Não a conheceste?--dizia um.

--Eu não, nem tenho pena--respondeu o outro com desprêso.

--Pois não conheces aquella mulher?

--Não... já t'o disse...

--Pois não conheceste a fidalga, que ha tres mezes comprou a quinta dos

Engenhos, na ponte de Ramalde!

--É aquella?

--É... dou-te a minha palavra d'honra que fui eu o tabellião que lavrei

a escriptura, e contei os doze mil cruzados.

--Mas então que historia é esta!... Ella vai assim rôta!

--Eu sei cá o que é! É o que tu vês...! Eu, logo que a avistei aqui

n'este sitio, conheci-a, e ella puxou para o nariz a côca da mantilha...

--Que celebreira!... eu ainda hontem a encontrei a passear n'um jumento,

com lacaio ao lado; e até me disseram que o fidalgo das Laranjeiras

queria casar com ella.

--Tu não sabes a historia d'esta mulher?

--Eu não... ouvi dizer que fôra casada com um livreiro, aqui no Porto, e

que depois ficára rica...

--É verdade... foi casada com um livreiro; mas o livreiro não deixou

fazer o ninho atraz da orelha, e foi-se embora para a França, onde

morreu. A tal senhora parece que lhe não foi fiel, e, na ausencia do

marido, menos o foi ainda. Viveu na companhia do celebre arcediago de

Barroso, que foi mandado sahir pelo bispo, e morreu na Hespanha. O padre

era muito rico, e por muito tempo ninguem soube que fim levou o grosso

cabedal que elle lá trazia comsigo. A final, ha de haver seis mezes,

morre lá uma freira, que, á hora da morte, declarou que o tal arcediago

lhe deixára em seu poder quarenta mil cruzados em ouro, para ella fazer

entregar a Anna do Carmo, moradora não sei aonde. A freirinha, só á hora

da morte se lembrou de cumprir o legado, e o caso é que não se lembrou

mal, porque a pobre amante do arcediago estava vivendo miseravelmente

ahi na rua Direita, e quando a procuraram para lhe dizer que se

habilitasse para receber a herança, a pobre mulher já se não levantava

da cama com fome. Ora aqui tens a historia da tal riqueza...

--Mas por ahi dizem que ella é fidalga...

--Isso é uma historia á parte. Apenas a mulher appareceu rica, soube que

era fidalga, porque a fizeram fidalga á força, uns taes que moram ahi

atraz da Sé, dizendo que ella era filha bastarda da casa. Começaram a

visital-a, a hospedal-a, a chamar-lhe prima, e tem querido leval-a para

a sua companhia... Ora, ahi tens a historia da mulher da mantilha...

Quem me déra saber o que ella andaria a fazer por aqui... Eu parece-me

que ella sahiu d'esta casa...

O tabellião olhou machinalmente para a janella, e viu esconderem-se duas

cabeças: eram D. Rosa e a sua criada, que se retiravam espantadas do que

tinham ouvido. E tinham razão. Eu, por mim, tenho-me espantado com

cousas muito mais pequenas. Mas o que devéras me espantou, foi

dizerem-me que Anna do Carmo, quinze dias depois, estava casada com o

ex.mo snr. ***, fidalgo, morador atraz da Sé, e fôra, _ipso facto_,

reconhecida prima de todas as familias illustres do norte desde os

Leites até aos Albuquerques, desde os Cogominhos até aos Malafaias!

CAPITULO XXIII

O senhor Antonio José da Silva deve ter movido a compaixão interessante

das damas, e talvez o desprêso dos briosos maridos, que, no logar

d'elle, tinham pelo menos degolado suas mulheres, e lavado a sua nodoa

em sangue.

Eu lhes digo: faziam uma solemne asneira, e arrependiam-se, depois, como

o senhor Antonio (que não era menos brioso que v. exc.as e s.as ) se

arrependeu de ter superficialmente condemnado sua mulher.

D. Maria Elisa convenceu o candido marido de que effectivamente tinha um

primo, filho d'uma irmã de sua mãe, que morrera pobre, e o deixára

abandonado. Que esse infeliz primo se tinha dirigido á sua compaixão,

pedindo-lhe alguns sobejos da sua fortuna para alimentar a penosa

existencia. Que ella, como esposa e dona de casa, responsavel pelos

cabedaes de seu marido, se negára, muito tempo, a dar-lhe os supplicados

recursos; mas, por fim, taes foram as instancias, que a seu pesar, não

pôde deixar de ceder aos impulsos do coração, que lhe mandavam soccorrer

o infeliz com as migalhas da sua mesa.

O senhor Antonio chorava de piedosa ternura, quando sua mulher, cada vez

mais eloquente e philantropa, continuou:

--Com o receio de que a vinda de meu primo a esta casa suscitasse

suspeitas malevolas, disse-lhe que me esperasse algumas vezes na

Ponte-da-Pedra, e eu, indo sósinha a passeio, lhe daria o que podésse

esconder aos olhos de meu marido, sem que elle desse pela falta, que de

certo era um crime...

--Pois não fizeste bem, Mariquinhas! É o que eu te digo, e perdôa... Se

me contas o caso, era eu o primeiro a dizer-te que podias dispôr á tua

vontade do que ha n'esta casa, porque o que é teu é meu, e o que é meu é

teu.

--Pois sim; mas eu não tenho ainda um cabal conhecimento do seu

caracter. Receei que me levasse a mal esta caridade com um meu infeliz

parente, e não ousei manifestar-lhe um desejo, a que o meu bom marido

annuiria mais por delicadeza, que por vontade do coração. Agora, que

tudo se declarou, não quero que o senhor Silva se mortifique por me ter

offendido com as suas imprudentes calumnias. Faça de conta que não houve

entre nós a mais ligeira desintelligencia. Estamos quites: o senhor

fez-me uma injustiça, reputando-me desleal; e eu fiz-lhe outra,

julgando-o sôffrego da sua fortuna, e incapaz de estender a mão

bemfeitora a meu desgraçado primo!...

--Ora, pois, não nos lembremos mais disso... Eu agora o que quero é

saber onde mora esse teu primo, porque sou eu o mesmo que propriamente

lhe quero ir levar os recursos necessarios para a sua subsistencia...

Onde mora elle?

--Onde mora elle?... (Maria Elisa não esperava esta! O improviso não era

o seu forte, e viu-se na mais embaraçosa atrapalhação). Eu, se quer que

lhe diga a verdade, não sei bem onde elle mora... mas deixe passar

alguns dias, e talvez que elle aqui mande algum recado...

--Pois então logo que elle appareça, farás favor de lhe dizer que eu

quero fallar com elle... Mas tu não conheces ninguem (tornou o

suspeitoso marido depois de reflectir um momento) que saiba onde elle

mora?

--Não, senhor.

--Não?... Eu não sei o que me parece isto, a fallar-te a verdade!...

Aqui anda dente de coelho!... Pois ninguem, ninguem?

--Talvez me lembre d'uma mulher que aqui veio trazer-me uma carta

d'elle, e me disse onde elle morava... Deixe-me recordar, e depois lhe

direi...

--Pois olha lá se te lembras... Eu sempre quero vêr os focinhos ao teu

primo... Acho que a cousa assim não vai bem...

--Que é o que não vai bem?!

--Eu cá me entendo...

--Isso que quer dizer? Explique-se, senhor Silva... Nada de mais

palavras... Não está ainda satisfeito com a explicação?...

--Podia estar mais, se queres que te diga cá o que tenho no meu

interior...

--Pois não sei que lhe faça. Creia, se quizer, e, se não quizer não

creia. Vai-me fazendo subir a mostarda ao nariz!... Eu não lhe dou

direito a duvidar da minha palavra. Se cuida que lida com sua irmã,

engana-se. Tenho uma face para o amor, e outra para o odio. Sei amar, e

sei aborrecer... Entende-me, senhor?

--Mas a que vem todo esse farelorio? Que te disse eu para tanta

arrenegação?

--Parece que duvida da explicação que lhe dei do meu comportamento?!

Esse direito só o dou á minha consciencia!

--Tem a menina muita razão; mas, eu, sim, acho que... parecia-me que não

sou mau homem, nem mau marido, se tenho cá minhas comichões de conhecer

seu primo!...

--Se tem comichões, coce-se... é o que eu tenho a dizer-lhe... E de

resto, se quer esperar que meu primo appareça, espere; e se não,

procure-o até encontral-o.

D. Maria Elisa retirou-se enfronhada, e foi feliz n'esta lembrança,

porque o senhor Antonio precisava de similhante reacção para entrar nos

justos limites d'um marido exemplar, como todos os maridos que não tem

pública-fórma.

Que é pública-fórma d'um marido? Eu sei cá... Lembrou-me isto; se me

lembra, em logar de pública-fórma, dizer uma sandice mais compacta,

creiam que não era homem de a deixar no tinteiro, porque, se ha

inviolabilidade n'este mundo, é para todas as sandices que se escrevem.

D'este peccado tenho eu a dar sérias contas a Deus; mas quem de certo

não deu nenhumas, quando d'este mundo se partiu, foi aquella alma gentil

do senhor Antonio, que nunca publicou asneira nenhuma, honra lhe seja

feita! Se vivesse hoje tinha pelo menos escripto para os jornaes uma

carta, renunciando a sua candidatura, ou qualquer outra trapalhice da

barbara linguagem do systema representativo.

N'aquelles felizes tempos, as asneiras desciam á sepultura com o

individuo; e d'essa grande sementeira creio eu que nasceram as muitas

que hoje amadurecem no jornalismo, e entre as quaes peço ao publico

imparcial que classifique a minha da «pública-fórma do marido» pelo que

me declaro já summamente penhorado, como todos aquelles que se retiram

d'um baile ás cinco horas da manhã.

Por não esgotar as frioleiras de que disponho, saberão, estimaveis

leitoras (se me dão a honra de me dirigir a v. ex.as, como quem quer

divertil-as da seriedade austera das suas cogitações) que D. Maria Elisa

entrou no seu quarto, e escreveu uma longa carta ao senhor Fernandes,

contando-lhe miudamente os infaustos successos.

Na manhã do seguinte dia, a anciosa esposa recebeu a seguinte resposta:

«_Não te afflijas. Hoje de tarde ahi vai teu primo. Falla pouco, e

deixa-o fallar a elle._»

CAPITULO XXIV

O senhor Antonio estava sériamente amuado. Atormentava-o a dúvida, e as

suspeitas terriveis principiavam a obra maldita do arrependimento.

Comparando a sua pacifica vida de solteiro com as consequencias da vida

matrimonial, arrependia-se o brioso mercador de pannos, e considerava-se

o bode expiatorio do seu orgulho insultante com o proximo do chinó, em

circumstancias analogas.

Era isto que affligia o coração do marido de Maria Elisa, emquanto ella,

amuada tambem, se fechára no seu quarto, imaginando a comica solução que

o senhor Fernandes daria ao problematico parentesco da Ponte-da-Pedra.

Assim se entretinham aquellas duas creaturas, quando foi dito ao senhor

Antonio que estava alli um sugeito, que queria fallar-lhe, sendo

possivel.

--Que diga quem é.

O criado voltou, dizendo que era um primo da senhora D. Maria Elisa.

--Devéras?!--disse o senhor Antonio, com sobresalto, expandindo as

bochechas em ar de contentamento.

--Sim, senhor, diz que é primo da senhora.

--E quer fallar comigo?

--É o que elle disse.

--E não fallou ainda com a senhora?

--Nada; nem por ella perguntou.

--Pois que suba para a sala.

Em seguida, foi introduzido na presença do senhor Antonio um sugeito de

trinta annos, pouco mais ou menos, com uma cara trivial, um trajo usado,

e maneiras delicadas.

--Tenho a honra de cumprimental-o, senhor Silva.

--E eu a mesma. Com que então o senhor é primo de minha mulher?

--Sim, senhor: filho d'uma irmã de sua mãe.

--Estimo muito conhecel-o.

--Eu devo, sem mais delongas, dizer a v. s.ª o fim que me traz a sua

casa.

--Ora diga lá sem ceremonia, os homens são uns para os outros, e eu

estou prompto a mostrar-lhe que não sou daquelles que... emfim... diga

lá o que quer...

--Quero ser eu o proprio accusador da mão bemfeitora, que tem derramado

sobre mim alguns beneficios. É preciso que v. s.ª saiba que eu sou

pobre, e não tenho podido até hoje agenciar pelo trabalho a minha

independencia. No commercio não me acceitam, porque me acham adiantado

em idade. Emprego não me dão nenhum, porque não tenho protecções. Para

militar não sirvo, porque sou muito doente do peito, e além d'isso muito

curto de vista. Para frade tambem não sirvo, porque não tenho

patrimonio, e de mais a mais não sei latim para poder entrar nas ordens

mendicantes. Sou, pois, vadio por necessidade; não tenho de quem me

valha, a não ser d'esta minha prima, que, pelo facto de casar-se com v.

s.ª, é a unica pessoa do meu parentesco, a quem se póde pedir uma

esmola! Nas minhas tristissimas circumstancias, dirigi-me a ella, e

achei-a fria, dura de coração, e insensivel ás minhas súpplicas. Instei,

segunda e terceira vez, obrigado pela indigencia, e consegui que ella me

mandasse esperal-a, algumas vezes, na Ponte-da-Pedra, onde me daria o

pouco que podésse economisar do que seu marido lhe dava para alfinetes.

Disse-lhe eu que não duvidava fallar pessoalmente a v. s.ª, e ella

tirou-me d'isso, dizendo que não queria ser pesada a seu marido com os

seus parentes pobres. Hontem foi um dos dias em que ella me deu uma

pequena esmola, e me prometteu algum dia empenhar-se com v. s.ª para que

se me désse um logar na alfandega, ou em qualquer repartição da justiça,

em que eu podésse ganhar com honra um bocado de pão. Quando fallavamos

n'isto, ouvimos uma voz, minha prima empallideceu, dizendo-me que

fugisse, porque ouvira fallar seu marido. Eu atrapalhei-me com os sustos

de minha prima, e nem tempo tive de reflectir nas consequencias da minha

fuga. Fugi pelo quintal, e vim de volta para a estrebaria escutar o que

se passava. Quando v. s.ª sahiu com ella, reparei que vinham amuados, e

entendi que eu fôra a causa d'essa desgraçada desintelligencia entre

dous esposos que tanto se amam, segundo ella me tem dito...

--Ella disse-lhe isso?

--Sim, senhor. Quando os vi enfronhados estive por um triz a sahir da

estrebaria, e dizer quem era, porque v. s.ª não seria tão barbaro, que

maltractasse sua mulher, porque tem um primo que necessita das suas

migalhas. O receio fez-me recuar no meu plano, e vim para casa meditar

na minha triste sorte. Resolvi ter animo, e venho eu proprio accusar-me

de ter sido o perseguidor de minha prima. O que ella me tem dado é tão

pouco, senhor Silva, que eu talvez, vendendo este velho casaco e estas

calças, possa embolsal-o. Quero ficar em mangas de camisa, mas não quero

que minha prima soffra por minha causa.

--Com que então o senhor metteu-se-lhe lá na cabeça que eu cá sou homem

capaz de tractar mal minha mulher, porque lhe deu alguma cousa? Ora

adeus!... mudemos de conversa! O senhor como se chama?

--Pedro José Sarmento de Athaide.

--Já que fallou em Sarmento d'Athaide, faz favor de me dizer d'onde é

que herdaram esses appellidos?

--Eu lhe digo... Meu quarto visavô João de Lencastre e Sarmento casou

com minha quarta visavó D. Urraca de Athaide, da casa de Valladares no

Alto-Minho. Tiveram quatro filhos. O morgado casou em Pena-Ventosa com a

herdeira da muito antiga familia dos Pesicatos...

--Dos...?

--Pesicatos e Bemóes.

--Nunca ouvi fallar d'essa linhagem.

--Não admira, porque ficou toda essa familia sepultada em Lisboa, nas

ruinas do terremoto de 1755. Foi uma grande desgraça para a posteridade

do outro ramo d'este tronco illustre. O filho segundo de meu quarto

visavô fez um mau casamento com uma mulher da plebe, e os dous seus

irmãos foram frades; um morreu dom abbade em Tibães, e outro foi bispo

de Constantinopla, e chamava-se fr. Zagallo Sarmento e Athaide.

--Nunca ouvi fallar d'esse senhor bispo de... Castanhóplas!...

--Pois, senhor, eu posso mostrar-lhe que elle era irmão legitimo do meu

terceiro visavô, com documentos que param na Torre do Tombo.

--Não é preciso; eu vejo que v. s.ª falla verdade... Mas como é que o pae

de minha mulher era negociante, e não era dos de primeira ordem?

--Isso explica-se pelos casamentos desiguaes. O vinculo passou para os

parentes que temos em Macau, e já meu avô foi negociante, e teve de

riscar de seu nome os appellidos de nossos avós, porque não podia

sustental-os. Ora aqui está a triste historia dos meus ascendentes, que

mal diriam elles que seu neto Pedro José de Sarmento e Athaide

precisaria de estender a mão á caridade de estranhos!...

--Pois, senhor Pedro, não ha mal que sempre dure. O senhor fez muito mal

em não vir ter comigo logo que soube que era seu parente por infinidade.

Havia de topar um homem como se quer para o seu amigo. Não fez bem...

mas emfim tudo se remedeia... eu vou chamar sua prima, e ella dirá o que

se ha de fazer...

--Perdão... eu acho que não será bom que ella saiba que eu vim aqui,

porque me não levará a bem a liberdade que eu tomei de me dirigir a v.

s.ª, abrindo-lhe francamente o meu coração...

--Qual?... Ora o senhor então não sabe como ella é!... Verá que ha de

estimar que se declarassem d'este modo cá certas suspeitas...

--Suspeitas!... quaes?...

--Eu cá me entendo...

--Mas eu é que não entendo... A minha honra está compromettida n'essas

suspeitas... Sou pobre, mas tenho pundonor; exijo que v. s.ª, em nome da

honra, me declare quaes foram as suspeitas...

--Eu lhe digo, senhor Pedro... Eu não sabia que minha mulher tinha

primos, e, quando me disseram na estalagem que ella estava com um primo,

metteu-se-me cá uma asneira na cabeça...

--Qual asneira?

--Pensei que o tal primo era algum rufião...

--Rufião!... Eu não entendo essa linguagem!

--Quero dizer que pensei que andava por ahi algum farropilhas a

arrastar-lhe a aza!

--Então o senhor não sabe que minha prima pertence á veneranda linhagem

dos Sarmentos e Athaides, e não consta que, na genealogia dos Pesicatos

e Bemóes, se désse uma infidelidade porca e villã!... V. s.ª offendeu as

cinzas de meus avós! Em nome de meu quarto visavô, João de Lencastre e

Sarmento, e de fr. Zagallo, bispo de Constantinopla, exijo que me dê uma

satisfação!...

--Não se arrenegue assim, senhor Pedro... Um marido póde enganar-se

muitas vezes com sua mulher!

--Mas eu, neto de heroes, é que não admitto enganos taes! As suspeitas

são affrontas! V. s.ª affrontou-me na pessoa de minha prima! Insto pela

satisfação! Na França entre cavalheiros é costume disputar-se a honra á

ponta de espada. V. s.ª ha de bater-se comigo!

--Eu!... essa é que é daquella casta!... Pois eu, sem mais nem menos, hei

de agora jogar a tapona com o senhor, porque se me afigurou que minha

mulher não era tão boa como se dizia! Ora, senhor primo, deixe-se

d'isso... Eu não sei cá d'esses costumes dos francezes... Que os leve o

diabo e mais quando elles cá vieram...

--Não me importam os francezes! Importa-me a honra de meus avós,

insultada em minha prima D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide. Senhor

Antonio! Dentro em vinte e quatro horas um de nós estará na eternidade!

--O senhor, por mais que me digam, está a mangar comigo, ou não regula

bem da cabeça!

--Com a honra não se manga, senhor negociante de pannos! Se a sua arma é

o covado, a minha é a espada, que herdei de meu vigesimo-quarto avó D.

Alarico Themudo Pesicato! É forçoso que se bata, ou então que declare á

face do céo e da terra que é um covarde. Dentro de vinte e quatro horas

virei procurar a resposta. Se não quizer bater-se, hei de sacrifical-o

aos manes de meus illustres avoengos, que do Olympo excitam a minha

coragem! Não tenho mais a dizer-lhe, senhor!

--Venha cá... isto não é modo de tractar o homem de sua prima!... Se

quer dinheiro, diga-o, e não esteja ahi a arrotar postas de pescada.

--Com que então chama o senhor a isto arrotar postas de pescada!...

Muito bem! Hei de provar-lhe que as postas do seu corpo tambem se

arrotam!... Passadas vinte e quatro horas, repito, um de nós será

cadaver!

O neto dos Pesicatos sahiu. O senhor Antonio, atordoado com a seriedade

do negocio, entrou no quarto de sua mulher.

--Que diabo de homem é este teu primo, ó Mariquinhas?

--Meu primo!... pois elle esteve cá?!

--Sahiu agora mesmo... O homem parece-me doudo!...

--Pois que fez elle?

--O que fez?... Quer que eu jogue a bordoada com elle!

--Porquê?

--Isso agora é que eu não sei!... Levou-se dos diabos por eu lhe dizer

que tive cá minhas desconfianças a teu respeito... e, ás duas por tres,

põe-se a berregar como um barqueiro, e a dizer que antes de vinte e

quatro horas um de nós havia de morrer!... Que te parece isto?

--Parece-me um sonho!... Porque me não chamou?

--Porque elle não me deu tempo... Começou a desembuchar umas trapalhadas

d'avós, e do bispo, e dos Pesi... Pesi... como se chamavam esses homens

da tua linhagem?

--Quaes homens?

--Uns fidalgos que morreram no terremoto de Lisboa?

--Eu sei cá que homens eram esses!...

--Eram os... os... Pesigatos... De que te ris? O caso não é para isso...

O tal teu primo, se é doudo, o melhor é amarrarem-n'o, e mandem-n'o para

o hospital de S. José...

--Que figura tinha elle?

--Pois tu não sabes que figura tem teu primo?

--Sei... mas... lembro-me se não seria elle...

--Elle não se chama Pedro?

--Sim... elle... chama-se... Pedro.

--Pois então ahi está... É elle mesmo... deu-me todos os signaes certos

da Ponte-da-Pedra.

--E que lhe disse?

--O homem fallou bem, a respeito de não ter meios, e fez-me cá no

coração uma certa aquella; mas, depois, parecia-me um maluco chapado, lá

com as suas valentias. É preciso saber como isto ha de ser; eu não quero

historias com elle. Manda-lhe dizer que se deixe de asneiras, se quer

ter que comer e vestir em minha casa, ouviste, Maricas?

--Pois sim; mas eu ignoro a sua residencia. Quando elle cá tornar,

chame-me, e eu verei como se remedeiam as loucuras do meu primo.

O senhor Antonio, um pouco mais socegado, relatou, pouco mais ou menos,

a sua mulher o dialogo que tivera com o descendente do bispo de

Constantinopla. Maria Elisa ouvira-o, afflicta com vontade de rir-se, e,

ao mesmo tempo, vexada de ter um marido, que se prestava assim ao

ridiculo. Era bem natural esta mortificação do amor proprio.

A conversação foi interrompida pela chegada de dous senhores, que

precisavam immediatamente fallar com o senhor Silva.

--Temos alguma!...--murmurou o negociante, e entrou na sala onde o

esperavam dous officiaes de cavallaria, de grandes bigodes, e caras de

arremetter.

--Quem são v. s.as?--perguntou o assustado dono da casa, apenas os

encarou.

--Somos embaixadores de Pedro José de Sarmento e Athaide!--respondeu um

d'elles, arqueando os braços, e levantando a caneca com orgulhoso

entono.

--Embaixadores!... e que me querem os senhores embaixadores?

A Filha do Arcediago Terceira Edição · 第 12 / 18 段