O senhor Antonio estava diante de sua mulher, solemne e magestoso como

todos os maridos em similhantes apertos. Queria fallar, e parece que a

eloquencia lhe ficava estagnada nos papos do pescoço que oscillavam como

duas bexigas de porco, sopradas pelo vento. Queria profundar o abysmo da

sua situação, e a unica imagem que lhe apparecia aos olhos pávidos era

João Pereira, o do chinó!

Angustias d'estas... não tem nome na terra! Cahiu, como forçado por um

enorme murro, sobre uma cadeira. O urro, que a cadeira gemeu debaixo

d'esta avalanche de carne, acordou os eccos da estalagem.

Maria Elisa, essa, pallida e confusa na surpreza do crime surprendido,

aproximou-se de seu marido, e murmurou com meiguice:

--Que tem?...

--Que tenho?... perguntas-me o que tenho?

--Sim!... pois que fiz eu?!

--O que me fizeste?!

--Sim!... o que lhe fiz?!

--_O que lhe fiz?!_ diz ella.

--Digo... pois que lhe fiz eu para tamanha commoção?

--Tu escarneces de mim!... Que primo é esse que estava comtigo?

--Um primo!?...

--Sim, um primo... quem é esse primo, que nunca me fallaste n'elle?...

Deixa que eu chamo a estalajadeira, e ella te dirá quem é que me disse

que tu estavas aqui com um primo... Espera ahi...

O senhor Antonio dera um pulo, como um tigre, da cadeira para o meio da

sala, e tomava fôlego para chamar a estalajadeira, quando Elisa,

atordoada da surpreza, mas não de todo, correu a elle, embaraçando-o do

vergonhoso proposito.

--Não chame... que é uma vergonha...

--Então sempre é verdade, que me és infiel!... Deshonraste, Maria Elisa,

um homem a quem deves tudo!... É assim que se é mulher honrada!... Foi

para isto que me amaste, e quizeste casar comigo!... Eu endoudeço... Eu

morro!... Que dirá o mundo!...

O senhor Antonio começava-lhe a dar cuidado o que diria o mundo. N'estas

enfermidades, o temor do que o mundo dirá é sempre um symptoma

favoravel; porque o mundo cala-se depressa, e as funcções vitaes do

espirito entram no seu curso regular.

Maria Elisa não era tão esperta como eu suppunha. Ficou estupidamente

surprendida. Não teve nenhuma lembrança feliz, que obrigasse seu marido

a pedir-lhe inclusivamente perdão da calumnia injuriosa! Cahiu com

miseravel imbecilidade n'um torpor moral, indigno da sua experimentada

philosophia. Deu-lhe para amuar, e morder o labio inferior, mas não com

tanta força que espirrasse sangue. Ella sabia fazer as cousas com

prudencia; e, com quanto soffresse bastante na alma, parece que poupava

o corpo como cousa sua, e não lhe quero eu mal por isso. Uma mulher,

como eu seria se o fosse, deve fazer muito por que o corpo se não sinta

das enfermidades da alma. A alma tem muitas primaveras, e por mais

envelhecida que esteja não se vê. O corpo tem só uma, e essa está

sujeita á maldita perfeição das lentes que lhe não deixam uma ruga

precursora de decadencia sem demorada analyse.

Eu, se fosse mulher, tinha enviado para Rilhafolles muitos poetas! Havia

de reduzil-os á quinta essencia do amor, que é a demencia. Com

preferencia a todos os outros, andaria de modo que me tornasse um

curioso estudo dos scepticos. Estas feras é que eu amansaria. Se eu

conseguisse tornar-me objecto dos seus estudos physiologicos,

prometto-vos que a seita ridiculamente comica dos _cansados_, dos

_scepticos_, e dos _não comprehendidos_ acabava como as preciosas

ridiculas de Luiz XIV.

Querem saber o que eu fazia? Ahi vai... É um serviço gratuito que eu

offereço ás mulheres, embora provoque inimizades de homens, que são

realmente os entes que menos me incommodam. N'este mundo ha só duas

cousas que me affligem: são os maus charutos, e madrugadas antes de uma

hora da tarde. No mais entendo que este globo é o melhor de todos para

quem não tiver callos e rheumatismo.

Se eu fosse mulher com uma cara soffrivel, estabelecia para meu uso as

seguintes theorias:

_Solteira_

Tendo de quinze a vinte e cinco annos, dava-me ares de candida

innocencia, e singeleza patriarchal. Olharia este ou aquelle importuno,

mas só com tres partes d'um ôlho, imaginando que elle tinha quatro.

Far-me-ia passar por myope, para que ninguem reparasse no olhar

penetrante com que os myopes costumam encarar os objectos a certa

distancia. Não usaria luneta para mostrar assim que a minha vista era de

sobejo para admirar as poucas maravilhas do mundo. No theatro teria a

barba sempre apoiada na convexidade da mão, e nunca pegaria do binóculo

sem reparar que a luva retezada não tivesse rugas.

Com as lentes attestadas para a segunda ordem deixaria passear a vista,

como dizem os francezes, pelo rebanho de Epycuro, que somos nós os

miseraveis estafermos de calças.

Surprendida, retirava os olhos com indignada commoção, e perguntaria á

mamã se o vestido de D. Efigenia, ou de D. Simplicia não era de pessimo

gosto.

No final de cada acto, sahia a visitar uma amiga, e dava dous saltinhos

quando me erguesse do banco, para que a minha cintura não ficasse sempre

occulta pelo parapeito do camarote.

Acontecendo, porém, que a minha cintura lucrasse com o mysterio, não

sahia nunca sem lançar com languida graça uma pelliça pelos hombros. Nos

bailes não sei o que faria; mas o que devia fazer era não tocar nunca

n'um taboleiro, e acceitar com mostras de grande sacrificio a instada

offerta d'um fôfo, ou d'um rebuçado de chocolate. Liquidos, excepto agua

limpida, nenhum. Nos jantares tomaria duas colheres de sôpa, o pescoço

de uma rôla, ou a aza d'um frango. E isto mesmo seria vagorosamente

triturado pelos dentes preguiçosos, com ar de victima sacrificada ás

conveniencias d'uma sociedade, que tem o prosaismo de comer nas horas

vagas. Fructas, comeria uma laranja, uma amendoa torrada, e o resto do

tempo entretel-o-ia com o palito.

Como é natural que me retirasse com fome, em minha casa, nas horas

silenciosas da noite, quando a natureza já não respira, como se diz nos

primeiros capitulos de quasi todos os romances, comeria de modo que, no

outro dia, me levantasse pallida pelo effeito d'uma indigestão.

Estaria duas horas diante d'um espelho a desalinhar-me, porque o

desalinho é o mais melindroso toucador de uma mulher, que conhece

profundamente as irrisorias pieguices do homem.

Cheguei á especialidade em que eu muito queria ser mulher, pelo menos na

estação do theatro lyrico.

Se vivesse no Porto, colheria as melhores flôres da minha corôa na

estufa do real theatro de S. João, e escolheria de preferencia certos

catos reaes que eu lá conheço. Eu denomino cato real o leitor, qualquer

que elle seja, com tanto que tenha escripto algumas sandices e dito

outras tantas a respeito do scepticismo. É cato, de trapeira pelo menos

(esta classificação não é minha: pertence a um espirituoso folhetinista

que d'antes classificava catos, e actualmente elle proprio se fez cato

politico, e vive nas estufas doentias do jornalismo sério), é cato de

trapeira, dizia eu, todo aquelle que chora o eterno desalento da sua

alma despoetisada, e não desencrava a luneta indecentemente enorme da

primeira mulher, que teve o descuidoso passatempo de reparar cinco

minutos na sua pallida physionomia.

Com estes é que eu me queria encontrar, sendo mulher, e mulher

litterata, porque, do contrario, agradeço á Providencia o favor que me

fez de me atirar qual sou á torrente dos acontecimentos masculinos.

Mulher, e litterata, sacrificaria temporariamente a minha isempção a um

d'esses scepticos desgrenhados, que se balouçam na plateia como se,

insaciaveis de espirito, precisassem dar á materia todos os repellões,

que as turbas comtemplam como terremotos do talento.

Logo que eu conseguisse prender-lhe a attenção, aventuraria um d'esses

sorrisos, que me não custariam nada, sem que por isso me parecesse com

certas mulheres, que se escangalham em risadas alvares e frivolas,

mostrando a profundidade dos engastes mandibulares como quaesquer

cosinheiras nos seus colloquios amorosos com os cosinheiros respectivos.

Eu não me riria nunca; sorriria algumas vezes, e quereria que o meu

sorriso fosse recebido como formalidade da etiqueta para com os ditos

semsabores das pessoas que me rodeassem, que seriam quasi todas d'uma

fabulosa semsaboria.

A fera, domesticada no seu sanguinario scepticismo, procuraria

revelar-me dez paginas intimas da sua agonia dilacerante. Fallar-me-ia

quatro vezes do seu desalento: faria o necrologio da sua alma: citaria

Lazaro, levantando-se do tumulo á voz do Christo: e acabaria por

pedir-me que sentenciasse o seu futuro para optar entre a vida e a

morte.

O que eu faria, então, attenciosas leitoras, não sei se alguma de vós já

teve a condescendencia de o fazer. Mandava-o á meia noite apparecer

debaixo da minha janella; e, sendo no entrudo, atirava-lhe um ovo de

cheiro; sendo na semana sancta, quatro confeitos; e, no Natal, uma

tigelinha de ovos moles.

A humanidade estava vingada.

Ora aqui está o que eu faria, sendo solteira.

_Casada_

Sendo casada, eu era, com grande despeito da mulher d'um certo ministro

da fazenda do Egypto, chamado Putiphar, e da mulher do senhor Antonio

José da Silva, uma honesta mulher, de quem os mestres encartados de

necrologios diriam depois: _Era uma esposa carinhosa, o modelo das mães,

e uma senhora virtuosa a todos os respeitos_. É verdade que não é

necessario ser tanta cousa para, á sahida d'este mundo, deixar os

jornaes encarregados de dizerem ainda mais. Morram quando poderem, que

eu lhes prometto uma boa duzia de epithetos.

Eu seria não só o que me fizessem ser os constructores de necrologios e

epitaphios; mas, por minha parte, exerceria todas as virtudes

conhecidas, e muitas outras que ninguem conhece. Seria, por abreviar

moralidades, que me dão grande trabalho, e aborrecimento aos leitores,

seria tudo menos o que foi D. Maria Elisa.

O que o senhor Antonio seria, isso é que eu não sei; mas o que elle

estava sendo, em verdade vos digo, que não deve ser inveja de ninguem!

A eloquencia dolorosa, que o auxiliou no choque da surpreza, falhou-lhe.

Quiz fulminar a perjura com uma apostrophe corrosiva, e não lhe occorreu

nada a proposito. Um pensamento ignominioso esvoaçára-lhe na cabeça

febril... Teve tentações de esmagal-a contra a parede do quarto em que

esta scena attribulada corria desapercebida!

O negociante, digno de melhor sorte, pagava com usura as affrontas

orgulhosas com que tentára ferir a honra do seu visinho João Pereira.

No auge da desesperação, a sua alma tornou-se esteril, a sua lingua

pegou-se aos gorgomilos, os seus labios resequiram como queimados pelos

suspiros rugidores, que lhe subiam das soturnas catacumbas do peito. Um

tremulo de sezão vibrava-lhe os musculos da face, especialmente os

bussinadores, que a maior parte dos leitores não sabe o que é, mas por

isso mesmo é que tudo o que eu disser tem um cunho de originalidade, que

o senhor Antonio não sabia dar ao seu ciume, nem sua mulher á sua

perfidia.

Esta falsa posição não podia durar muito. Se se prolonga mais cinco

minutos, eu, por mim, declaro que largava a penna, e acabava o conto

aqui. Não ha nada mais semsabor que a situação da mulher desleal

surprendida por um marido, que nem sequer arranca de dentro quatro

gritos, e reteza os braços na arripiadora postura de Orestes, insultando

os deuses! Porque não disse o senhor Antonio alguma cousa fóra do

commum?

Porque não fez estylo de marido, que é o mais mascavado de todos os

estylos? Porque não exclamou: «_Perfida mulher! hei de beber-te o

sangue, e cevar no coração as minhas iras! hei de esfolar-te para

memoria eterna! hei de mandar ao vento as tuas cinzas, e a tua alma a

Satanaz! Oh! Ah! Ah! Oh!_»

Com estas palavras já eu compunha um capitulo, porque as outras tolices

encarregava-me eu de as pôr de minha casa, e juro que um dos maridos

mais venerados e ferozes do seculo, que passa, seria o nosso amigo

Antonio, com grande desfalque de João Pereira, que, no seu genero, não

era mau.

Assim nem eu sei como hei de acabar o capitulo de modo que elle e ella

não pareçam dous volumosos parvos! Se me lembrasse d'algum romance, que

tenho lido, cousa que se parecesse com isto!... Ah!... Achei um bom

desfecho, e que tem o merito de ser o mais natural de todos.

O senhor Antonio desceu solemnemente para a rua a procurar a jumenta,

que tão grata portadora tinha sido do seu anhelante coração. A jumenta

pilhando-se solta, fugira para casa, e não sei que monologo mental ella

faria á sua liberdade.

O senhor Antonio pedira aos eccos a sua jumenta. Os sobreiros da encosta

contemplavam silenciosos a sua dôr. A lympha dos regatos era como um

arremedo cruel aos seus gemidos! Desgraça!

N'este angustioso conflicto appareceu Maria Elisa. A carruagem

aproximou-se.

--O senhor veio a pé?--perguntou ella, vendo seu marido encostado a um

pilar da ramada.

--Que lhe importa?--redarguiu o marido convulso, mettendo as mãos nos

bolsos, e puxando as calças machinalmente para cima, dando-se a grutesca

figura d'uma talha chineza.

--Porque não entra na carruagem?--replicou a carinhosa esposa,

aproximando-se meigamente do marido, que fumegava pelas ventas, como uma

fabrica de fundição.--Venha... eu lhe explicarei tudo... verá que estou

innocente, ha de arrepender-se de me tractar assim...--proseguiu ella,

com o tremor de voz, que precede as lagrimas.

--Como innocente!--murmurou o senhor Antonio, um pouco modificado nas

caretas da sua furia legitima.

--Sim... innocente... Em casa lhe contarei tudo...

--Pois póde lá ser que estejas innocente?... Tu estás a mangar

comigo!...

--Verá que não sou digna da sua cólera, e que os seus ciumes são

injustos... A affronta que fez ao meu caracter de mulher casada, tarde

ou cedo lhe fará remorsos, senhor Antonio José da Silva!...

O tragico entono d'estas palavras acobardára os espiritos briosos do

marido. O senhor Antonio julgou-se algoz d'aquella victima; e, se ella

teima, haviamos de vêl-o ajoelhar aos pés do innocente holocausto do seu

ciume, e pedir-lhe perdão.

Maria Elisa, restituo-te os teus creditos! Andaste perfeitamente, por

fim! Eu, se fosse mulher casada, com os teus costumes, faria o que tu

fizeste.

Em 1819 ninguem faria mais do que tu!

Hoje... serias d'uma simplicidade boçal.

CAPITULO XXII

A seu tempo saberemos até que ponto o senhor Antonio podia ser

civilisado por sua mulher.

Agora vamos procurar Rosa Guilhermina.

Antes de entrarmos, reparemos n'esta mulher que bateu á porta primeiro

que nós.

--Quem é?--perguntou da janella uma criada.

--Faz favor de dizer á senhora D. Rosa que está aqui uma mulher, que lhe

quer fallar.

--Que lhe quer?

--A vmc.e não lhe quero nada, é a sua ama.

--Quer pedir-lhe alguma esmola?

--Sim, senhora, queria pedir-lhe uma esmola.

--Pois para isso escusa de fallar á senhora: pegue lá... Então não

levanta do chão os dez reis?!

--Não levanto, porque lhe não pedi nada a vmc.e Já lhe disse que quero

fallar com a senhora D. Rosa.

--A senhora D. Rosa não falla a mulheres de mantilha rôta... Se quer,

queira, se não quer, ande sempre...

A janella fechou-se e a mulher da mantilha rôta sentou-se no degrau da

porta.

Pouco depois, abre-se outra vez a janella, e apparece D. Rosa!

Vêde-a, já não é a rosa purpurina d'outro tempo!... A pallidez

d'aquellas faces não é natural!... Alli, ha muita saudade do que foi, ou

muito receio do que será! Aquelle desalinho não era d'antes assim...

Rosa tinha tanto brio nos seus longos cabellos negros!... Enfeitava-os

tanto de fitas e flôres!... E agora?... Aquelle lenço branco, que lhe

apanha as tranças desgrenhadas, é tão desairoso!... Aquelle chaile, que

lhe esconde as fórmas do pescoço mais lindo ao pé dos hombros mais

artisticamente torneados, dá-lhe um aspecto tão triste de enfermeira do

hospital... Que mudança!... faz pena!... Cahiu tão depressa da haste

aquella flôr, que tinha tanta vaidade das suas petalas avelludadas, e da

fragancia dos seus aromas!... Minha pobre Rosa, que é da tua

philosophia!... De que te valeram os teus romances, se te devias amoldar

aos typos dolorosos que lá encontraste!... Ai!... porque cheguei eu a

interessar-me na tua sorte, se nunca te conheci!... Porque ha de esta

phantasia pintar-me realidades, que me fazem dôres no coração, quando as

vejo sahirem infelizes dos bicos da minha penna!... Tenho cousas de

muito creança, leitores!... Desculpai-me estas imbecilidades...

Para que vieste tu á janella, Rosa, se quasi me obrigaste com a tua

pallidez a discorrer com ternura sobre cousas que me fazem lembrar mil

outras, e tão tristes são ellas, que nem eu sei se era mais feliz não

vindo ao mundo para recordal-as, ou, ao menos, vêl-as, e esquecel-as

para sempre... Forte puerilidade!... Se me não chamam para jantar,

n'este momento, eu reduzia-me á situação piegas de verter uma lagrima...

por quem?

Uma lagrima!...

Sabeis o que é uma lagrima d'um homem!... É a perdida essencia do sangue

que nos alimentaria a existencia longos annos!....................

........................................................................

A mendiga, ouvindo abrir-se a janella, ergueu-se, voltou a face

macilenta para cima, e cortejou D. Rosa.

--Quer alguma cousa, mulher?

--Queria-lhe dar duas palavras, minha senhora.

--Então diga d'ahi.

--Eu bem queria dizer-lh'as de perto.

Rosa voltou-se para dentro, e mandou abrir a porta. A mulher subiu, e

encontrou a senhora no topo da escada, perguntando-lhe o que queria.

--Venho pedir-lhe uma esmola.

--E para isso era necessario subir? Dissesse-o da rua, que eu

mandava-lh'a lá dar.

--Uma teima assim!...--atalhou a colerica criada--Eu já lhe tinha

deitado á rua dez reis, e ella não levantou do chão a esmola... O que

vossê merecia sei eu...

--Não se zangue tanto, menina... Bem me basta a minha pobreza. Lembre-se

que não está livre de chegar ao estado em que me vê... Outras mais

ricas, e com bem melhores principios que os seus, teem tido este fim...

--De mais a mais quer dar leis!--interrompeu a cosinheira, animada pelo

silencio approvador de sua ama--Sabe que mais, minha senhora? mande-a

pôr no ôlho da rua, que, emquanto a mim, essa mulher não vem para fazer

boa obra... Eu cá vou queimar arruda...

--Tome lá...--disse Rosa Guilhermina, offerecendo-lhe um pataco.

--Seja pelo divino amor de Deus...--disse a mendiga, beijando a esmola.

--Então não se vai embora?

--Ainda não, senhora D. Rosa Guilhermina... Tenho duas palavras a

dizer-lhe muito em particular...

--Que negocios poderei eu ter comsigo?!

--Negocios nenhuns; mas Deus não deu lingua á gente para fallar só em

negocios.

--Diga o que quer mesmo ahi.

--Aqui não, porque a sua criada está ouvindo o que nós dizemos.

--E que tem isso? Eu não tenho segredos de que me esconda á minha

criada.

--Mas vai tel-os agora, e bom é que ella não saiba o que vou

communicar-lhe.

--Fóra com a alcoviteira!--exclamou a criada lá do interior--_Má mez_

para ella!... Olha o estafermo que me apparece em jejum!...

--Esta sua criada, minha senhora, é bem pouco caritativa com os

desgraçados, e v. s.ª não é melhor que ella, pelo que vejo...

--Está bom!--atalhou irada D. Rosa--Eu não admitto reflexões! Saia, que

quero mandar fechar a porta.

--Pois devéras não me quer ouvir?

--Não, já lh'o disse.

--Pois ha de ouvir-me, digo-lh'o eu.

--Se cá tivesse o criado, mandava-a pôr no meio da rua.

--E a senhora para isso precisa d'um criado? Eu sou uma pobre velha sem

forças... qualquer sôpro me faz cahir, e a menina mesma póde empurrar-me

por esta escada abaixo...

--E esta? já se viu um descaramento assim? Vossê parece-me uma mulher

sem vergonha!...

--Pois tenho muita, e principalmente agora. Sabe Deus com quanta

vergonha eu vim pedir-lhe uma esmola.

--Mas, se eu lhe dei a esmola, porque se não retira?

--Não me retiro, porque os desgraçados não se satisfazem só com pão...

precisam d'outras consolações, que a menina póde dar-me.

--Pois que quer?

--Queria que me deixasse sentar um bocadinho nas suas cadeiras... Estou

muito fatigada, falta-me já a força n'estas velhas pernas, que tanto

andam, e tão pouco caminham... Tudo me falta... até a vista; nem já a

menina me parece o que era aqui ha um anno!... Deve ter feito uma grande

mudança a sua vida!... Vejo-a tão coadinha... A menina soffre do corpo,

ou da alma?

--Que lhe importa do que eu soffro? Não soffro d'uma nem d'outra

cousa...

--Pois louvado seja Nosso Senhor!... Felizes aquelles que assim o podem

dizer... Pois veja que differença... Eu soffro de tudo...

--E que culpa tenho eu disso?

--Nenhuma, nem eu a culpo, senhora D. Rosa Guilhermina...

--Faz favor de sahir, que quero recolher-me?

--Está o almoço na mesa--disse a criada.

--Se a menina consentisse que eu tomasse uma chavena de chá comsigo...

--Comigo?... essa é boa!

--Envergonha-se d'isso? Pois olhe que não descia de quem é, porque os

pobres foram sempre os amigos, com quem Jesus Christo repartiu o seu

pão, e os seus peixes.

--Parece-me esperta de mais para pobre...

--Pois é de obrigação que todos os pobres sejam brutos! Então dá uma

chavena de chá... a sua mãe?...

--A...

--A sua mãe!

--A minha mãe!... Quem é minha mãe?

--Falle baixo que a não ouça a sua criada!... Não lhe tinha eu dito que

era bem melhor ouvir-me em particular!... Espanta-se de mais, menina?

Pois não sabia que tinha mãe? Não soube ha um anno, que ella precisava

de recorrer á sua generosidade? Não calculou, que, mais hoje ou mais

ámanhã, a sua desamparada mãe devia cobrir esta mantilha esfarrapada

para vir receber dez reis da mão de sua criada?

--Eu não a reconheço como minha mãe... Eu já colhi informações de que

minha mãe não existia... Meu pae nunca me disse que eu tivesse mãe viva!

--Deus perdôe á alma de seu pae... Não lhe quero por isso amaldiçoar a

memoria... Pois, quer me acredite, quer não, esta desgraçada mulher, que

não conhece, esta velha, que ainda não tem quarenta e quatro annos, é

sua mãe.

--Não acredito, já lh'o disse... Prove-me que é minha mãe, e eu lhe

farei aquillo que já lhe quiz fazer, se vmc.e é uma tal Anna do Carmo,

que morou na rua Direita.

--Sou uma tal Anna do Carmo, que morou na rua Direita, e agora mora no

pateo dos conventos, esperando a tigella de caldo da caridade. Bem vê

que soffri muito antes que viesse importunal-a. Não disse a ninguem que

a menina era minha filha para a não envergonhar. Lembrei-me de que sendo

eu moça e rica do muito que seu pae me dava, não gostei de que minha

pobre mãe viesse um dia procurar-me para me pedir doze vintens para

comprar uma gallinha para minha pobre irmã, que morreu de miseria depois

d'um parto... Lembrou-me o quanto eu me vexei então, e quiz poupar minha

filha a similhantes vergonhas, que só sabe o que ellas são quem passa

por ellas. Agora, se aqui vim, é porque de todo em todo já não podia

levantar-me das palhas para ir de manhã procurar a bemdita esmola no

pateo de S. Bento e de Sancta Clara. Sinto-me quasi sem vida, tenho um

aneurisma no coração, e queria vêr se morria descansada para me

reconciliar com a misericordia divina... Se não fosse isto, minha filha,

eu não vinha de certo aqui, de mais a mais, tão rota, tão magra, indigna

de me chamar sua mãe...

Rosa Guilhermina tinha soffrido um abalo, e parece que as lagrimas iam

saltar-lhe involuntariamente dos olhos. Mas a criada, que viera

collocar-se, sem ser vista, na alcova proxima da sala, adivinhando a

commoção de sua ama, resolveu salval-a das arteirices da velha, e tomou

a palavra, saltando para o meio da sala, com a mão na cintura:

--Pois v. s.ª acredita o que lhe está dizendo essa onzeneira?

--Não... eu não acredito, mas tenho pena d'ella... Coitadinha... é a

necessidade que lhe ensina estas mentiras... Quer vmc.e uma chicara de

chá?

--Não, menina, eu já não quero a sua chicara de chá. Deus Nosso Senhor

dá-me forças para que eu possa viver sem a sua esmola. O que eu queria

era morrer, abraçando-a ao meu coração, e chamando-lhe _filha_...

--Será ella douda!--atalhou a criada.

--Não sou douda, não... Não receie que eu lhe quebre as suas jarras...

Estou no meu perfeito juizo... Estejam descansadas que não farei doudice

nenhuma. Se fosse ha um anno, poderia fazel-as... Hoje, já não... A

desgraça enfraquece a gente, e apura o entendimento... Conheço muito bem

minha filha...

--E ella a dar-lhe com o _minha filha_!...--interrompeu a criada.

A Filha do Arcediago Terceira Edição · 第 11 / 18 段