Sabe que mais? ninguem o cá chamou... Deixe-nos em paz...

O SENHOR PEREIRA

Vmc.e é muito mal creada... O que merecia... sei eu...

O SENHOR ANTONIO

Está bom, Angelica! cala-te, João Pereira!... Se não estás bem, vai-te

embora; eu não te chamei cá...

O SENHOR PEREIRA

O asno sou eu em vir cá fazer de homem que sabe a cortezia quando é

preciso. Olha, meu amigo, emquanto tiveres cá em casa esta senhora

Angelica, não has de ter amigo nenhum...

D. ANGELICA

Vá importar-se lá com a que tem em casa, que não tem pouco que guardar.

O SENHOR PEREIRA

A que eu lá tenho em casa tem mais honra nos calcanhares, que vmc.e na

cara. O que vmc.e queria era que eu casasse comsigo, quando casei com

ella. Como eu não estive para isso, vinga-se a fallar mal de minha

mulher.

D. ANGELICA

Olha o bezuntão!... Eu quiz lá nunca casar com elle!...

O SENHOR ANTONIO

Accommodem-se!

D. ANGELICA

Sevandija! Más maleitas te colham!

O SENHOR ANTONIO

Angelica, tapa a bôca.

D. ANGELICA

Não quero!... Pois este desavergonhado não diz que eu quiz casar com

elle! Mariola! Sempre é bem _coitadinho_!...

O SENHOR PEREIRA

D'uma pandorca assim não ha nada a estranhar. Eu tenho vergonha, sua

truquilheira, quando não havia dizer aqui quem vmc.e é...

O SENHOR ANTONIO

Quem manda aqui sou eu! Já d'aqui para fóra, João Pereira!

(_João Pereira, irritado como Ajax, leva as mãos indignadas á cabeça e

maquinalmente desloca o chinó. Ouvem-se fungadellas de sorrisos, que

exacerbam a cólera do calvo que se retira. Angelica tem o queixo n'uma

attitude perfurante. O senhor Antonio transpira na abundancia do

costume. Á lucta succede um profundo silencio, quebrado apenas pelos

gemidos convulsos da beata offendida na sua isempção de setenta annos._)

SCENA ULTIMA

OS MESMOS E UM ENCAPOTADO

ENCAPOTADO

(_no limiar da porta que communica para o interior_)

Senhora Angelica!

D. ANGELICA

Que queres tu, rapaz?

O SENHOR ANTONIO

Pois tu levantaste-te da cama a tremer maleitas, Joaquim? (_para Maria

Elisa_) Aquelle é o rapaz da loja que tem maleitas.

D. ANGELICA

Que queres tu?

O ENCAPOTADO

Eu estava a tremer as maleitas, e ouvi um grande restolho debaixo da

cama.

D. ANGELICA

Credo! que seria?

O ENCAPOTADO

Resei o credo em cruz, e fui vêr o que era...

D. ANGELICA

E que viste?!

O ENCAPOTADO

Era a gata que comia uma gallinha assada, que trago aqui, menos o

pescoço que lh'o tinha ella já comido.

(_O encapotado afasta as bandas do capote, e mostra a gallinha

effectivamente degolada!... A senhora Angelica recebe a victima da gata,

e pede a seu irmão poderes discricionarios para vingar a affronta._)

UMA VOZ

Está o jantar na mesa.

CAPITULO XX

Está, portanto, casada a senhora D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide.

Temol-a na rua das Flores, e deixal-a lá estar. Que se embriague dos

carinhos do nosso bom amigo Antonio José. Se a riqueza satisfaz

plenamente as suas ambições, é muito rica, póde cortar por largo, tem á

sua disposição um homem capaz de tudo, menos de resignar-se com a

felicidade do seu visinho João Pereira, que Deus tenha na bemaventurança

dos pobres de espirito, que são quasi sempre os ricos de materia.

Vamos encontrar Rosa Guilhermina tambem casada com Augusto Leite. Sou o

primeiro a confessar que o meu romance está cahindo muito! Um casamento

ainda póde aturar-se no fim do romance. A gente gosta de vêr

recompensados os tormentos de dous amantes com o prosaico destino de

todos os tôlos e espertos. Ha casos, porém em que o casamento, em vez de

ser o ultimo, deve ser o primeiro martyrio das personagens de uma

novella. Quantas vezes eu leio uma, em que se me arrancam lagrimas de

compaixão por dous entes que se adoram, a despeito de mil estorvos que

lhes diluem em lagrimas os bellos olhos! Consterno-me; anceio a ultima

pagina em que vão ser coroadas por um gôso duradouro as suas agonias...

E essa ultima pagina diz-me que se casaram! «Faltava-lhes esta!» digo eu

então, arremessando com piedosa indignação o livro!

Ainda um casamento... passe! Mas dous casamentos!... É abusar dos dons

da igreja, ou romantisar o facto mais prosaico d'esta vida! Isto em mim

creio que é falta de imaginação, ou demasiado servilismo á verdade!

Se Deus me chamasse para este caminho, como dizia, a respeito do estudo

da natureza, o senhor João Pereira ao seu visinho, de certo não casava

estas mulheres, tão depressa. Acho que o melhor era trazel-as por ahi um

pouco de tempo a dar escandalos. Rosa deveria apaixonar-se por um major

de cavallaria que lhe faria o favor de a inscrever no productivo

catálogo das mães de familia. Depois o major era promovido a tenente

coronel, e ia commandar dragões de Chaves, do que resultava (que

palpitante não seria isto!) a boa da rapariga tomar duas onças de

verdete n'um copo d'agua, e morrer amaldiçoando o perfido! Que cousa tão

bonita! Hei de aproveital-a no primeiro romance que escrever, e que

desde já se assigna nas lojas do costume.

Ora, Maria Elisa, essa... que havia de ser essa?... Eu entendo que Maria

Elisa devia namorar-se d'um marquez. E vai depois este marquez tinha

casado clandestinamente com Joanna Fagundes, criada da casa. E vai

depois, constando á dita Fagundes que seu marido namorava Maria Elisa, a

espadauda moçoila n'uma bella tarde, procura-a em casa, e mette-lhe os

tampos dentro com uma cadeira. Elisa expira nos braços d'um sargento de

policia, e Joanna Fagundes deixa cahir a mantilha, exclamando:

«Eu sou a marqueza de tal!»

O leitor ficava maravilhado do successo, e contava á familia a passagem

com as lagrimas nos olhos.

Espero tambem não perder esta ideia, e o leitor terá occasião de avaliar

duas obras primas. Por emquanto, peço ao respeitavel publico que

suspenda o juizo a respeito da minha capacidade inventiva.

Já agora, porém, atemos o fio d'esta fastidiosa historia, e vejamos

quantas moralidades podem produzir dous casamentos honestos.

O secundanista de direito casou oito dias depois de seu tio, e tomou

conta da administração da casa, que recebeu do tutor de sua mulher.

Nos primeiros dias parece que leram muitos romances, e aligeiraram as

horas em deliciosas palestras sobre a _Experiencia amorosa_, e _Sophia

ou o Consorcio violentado_, romances muito lidos n'aquelle tempo.

Ao cabo de quinze dias, Augusto Leite não era certo á hora da leitura, e

vinha, meia hora depois, pretextando negocios da casa.

Ao cabo de um mez, o extremoso marido deixava sua mulher a lêr as

_Viagens de Gulliver_ a sua sogra, e elle sahia a negocios domesticos,

que lhe empatavam o tempo até ás 11 horas da noite.

Ao cabo de dous mezes, o digno apreciador da litterata, se sua mulher

lhe perguntava a razão da demora, encarregava sua mãe de responder

suavemente, porque a paciencia já lhe não dava azo para tantas

satisfações.

Findo o prazo de dous mezes, Augusto foi para Coimbra continuar a sua

formatura, e convenceu sua mulher de que não era costume as mulheres

acompanharem seus maridos ao fóco da immoralidade. Rosa ficou, portanto,

na companhia de sua sogra, que lhe enxugava as lagrimas saudosas,

pedindo-lhe que lêsse a _Joaninha, ou a Engeitada generosa_. Seu marido

escrevia-lhe todas as semanas poucas linhas, mas essas eram calidamente

amorosas. Rosa indemnisava-lh'as com longas cartas, bonitas de

linguagem, com muita meiguice em phrase pomposa, e muitas outras

galanterias a que o academico, diga-se a verdade, não dava a maior

importancia.

E vejamos porquê:

Augusto Leite tinha uma paixão unica: era o jogo; mas o jogo fôra o seu

inferno, obrigára-o a fazer uma triste figura, como hoje se diz, porque

perdia sempre. A sorte que o perseguira em solteiro não lhe era mais

propicia em casado. O estudante continuava a jogar, e a perder; mas as

perdas agora avultavam mais, e ateavam-lhe a paixão com mais ardor.

Depois do jogo, o pensamento subalterno do marido de Rosa Guilhermina

era uma tricana, rapariga do campo, fresca e rosada, que vivia com elle,

desde o primeiro anno, e que viera ao Porto durante as ferias grandes,

em que se realisára o casamento do nosso traductor de novellas. Augusto

transigiu amigavelmente com a rapariga, promettendo-lhe um cordão de

ouro de vinte mil reis, uns brincos de sete mil e duzentos, dous pares

de chinelas, umas côr de gemma d'ovo, e outras verde-gaio, afóra um

capote de castorina côr de mel. De mais a mais, obrigára-se elle a tel-a

em sua companhia, com tanto que ella não fizesse barulho.

As condições estipuladas, de parte a parte, foram cumpridas. Benedicta

vivia, sem fazer barulho, na rua do Coruche com o seu academico, e

conseguira, além dos dous pares de chinelas, um terceiro par de sapatos

de cordovão com fitas, e uma mantilha de durante com aquelle bico

escandaloso que usam as mulheres de Coimbra, que são as mulheres mais

feias que Deus nosso Senhor depositou na face da terra.

Nas ferias do Natal, Augusto Leite veio consoar com sua familia. Houve

muito beijo, muita saudade, foram á missa do gallo á Sé, comeram muitos

confeitos de chocolate, e não tiveram tempo de lêr romances. Os outros

dias correram rapidos para a carinhosa esposa. No ultimo fez certa

revelação a seu marido, com a qual elle se mostrou contentissimo, e

sentiu a innocente vaidade de ser pae.

O academico partiu, e d'aqui até aos Carvalhos foi imaginando o systema

de banca-portugueza que lhe desse a desforra de seiscentos mil reis,

perdidos até ao Natal. E tal era a certeza da desforra, que não duvidou

contrahir o emprestimo d'um conto de reis, por isso que o patrimonio de

sua mulher eram só propriedades.

O imaginado systema falhou, ou pelo menos não tinha vingado ainda,

quando o imaginoso jogador perdeu o ultimo real do conto de reis.

Revoltado contra o traiçoeiro systema, seguiu o contrario, e perdeu

tambem. As meditações incessantes no methodo de ganhar, absorveram-lhe o

espirito de modo que o estudante foi reprovado, e retirou de Coimbra,

onde dissipára seis mil cruzados, e ficára devendo dous.

No Porto eram geralmente sabidas as dissipações de Augusto Leite. Sua

mulher fôra avisada por cartas anonymas, mas o seu espirito era altivo

de mais para rastejar nas mesquinharias do dinheiro. O juiz dos orphãos

é que não era tão sublime; e, instigado por o senhor Antonio José da

Silva, resolveu intervir na ruina do patrimonio de Rosa, sujeitando-a a

uma tutela, visto que seu marido era incapaz de administrar. Augusto

Leite quiz provar que tinha muito juizo, mas parece que provou de mais,

e peccou pelo excesso. As testemunhas disseram que nunca o tinham visto

atirar pedras. Isto que devia convencer o juiz dos orphãos, o mais que

fez foi tranquillisar-lhe o espirito dos receios de ser apedrejados pelo

dissipador. Tenho á vista os autos d'este processo, e sou obrigado a

confessar que o juiz julgou em boa harmonia com Pegas, e Carvalho, e

Pereira de Mello.

Era um magistrado probo. Permittam este _entre-parenthesis_, porque o

meu fraco é chamar probos a todos os magistrados, que recebem peitas,

porque os ordenados não chegam a nada. N'este paiz, um magistrado probo

já deu esta razão em pleno parlamento, e desde esse dia todos os

magistrados são probos, e a probidade e a beca e os sapatos de fivela e

as meias de seda, a rectidão e os bofes da camisa ficam sendo insignias

de todos os magistrados.

Que é o que eu vinha dizendo? Não ha nada que me incommode tanto como

ter de lêr o que escrevo... Acho que fallava no nascimento d'uma filha

de Rosa Guilhermina... Ha de ser isso... Pois é verdade: nasceu a tal

menina, e foi baptisada com o nome de _Assucena_, da qual se ha de fazer

larga e pungentissima chronica.[4] Era uma linda creancinha, que a mãe

offerecia ao pae, mas o fraco de Augusto não eram as creanças. Apenas a

tomava dos braços de Rosa, douda de contentamento, passava-a aos braços

da avó, que, por força, queria que a pequena se parecesse com ella.

Augusto vivia triste. Os carinhos de sua mulher não bastavam a

desenrugar-lhe a testa, sempre carregada para os afagos da pobre

senhora. Passeava sósinho no quintal, e, quando a timida mulher se

aproximasse, retirava-se elle a meditar no seu quarto.

--Eu desconheço-te!...--dizia Rosa, tomando-lhe meigamente a mão

insensivel--Que tens tu, Augusto?... já me não adoras com aquelles

extremos de ha um anno? Que te fiz? Não tenho eu sido tão igual para ti?

--Tens, Rosa... Não repares na minha tristeza... Isto é organisação...

--Pois assim variam as organisações!... Grande mudança transfigurou o

teu genio!...

--Que queres!... Eu não me fiz...

--Pois sim; mas porque soffres?!

--Porque não sou um homem vil, a quem se tire infamemente a administração

d'uma casa...

--Mas tenho eu culpa de tal infamia!... Não fui eu propria fallar com o

juiz?! Não empreguei os rogos, e as lagrimas com esse barbaro que quer

governar o que é nosso?! Serei eu culpada n'essa fatalidade!...

--Não és... eu não te accuso... mas deixa-me, se não pódes remediar esta

punhalada que se deu na minha honra! Foi um ultraje cobarde, forjado nas

trevas, á sombra da lei!... Despotas!... Eu hei de vingar-me de vós, ou

a minha dignidade nunca mais erguerá a fronte diante dos homens!

(_Reminiscencias d'um romance intitulado: EMILIA DE TOURVILLE, OU OS

MEUS SETE ANNOS DE PERSEGUIÇÃO._) Feriram-me na corda mais sensivel da

minha honra! Exauthoram-me dos direitos communs, a mim, que conheço,

profundamente, as raias, que separam a demencia irresponsavel das

operações do intellecto são! (_Ideias pilhadas a dente na SCIENCIA DOS

COSTUMES._) Fallarem-me no jogo!... Privarem-me do uso da minha

fortuna, por que jogo!... Quem póde privar-me de abrir com uma alavanca

de ouro a minha propria sepultura! (_Pensamento soffrivel, roubado ao

JOGADOR, comedia de Regnard._)

--E gostas assim de jogar, meu querido Augusto? Achas prazer no jogo?

--Acho... preciso d'esta distracção; fóra do jogo não vivo...

--Pois joga...

--E o dinheiro?... que é do dinheiro? Não vês que nos dão para a nossa

subsistencia quarenta mil reis cada mez?

--Mas temos outros recursos...

--Quaes?!

--A nossa prata, que está avaliada em cinco mil cruzados... vende-a.

--Não te zangas por isso?

--Não, filho!... Eu dera a vida pela tua tranquillidade... Não é ella

tua? Se o desejavas fazer, porque o não tens feito?...

........................................................................

Dias depois, Augusto Leite vendia a prata, que tinha sido o thesouro

mais querido do arcediago de Barroso, e partira para Coimbra, combinando

as fórmas d'um novo systema de jogo.

No dia seguinte ao da sua partida, Rosa Guilhermina recebia a sua prata,

e este bilhete:

_«Não desdenhes uma lembrança da tua velha amiga. Comprei essa prata, e

quiz presentear tua filha com ella._

«_Maria Elisa._»

A prata fôra comprada pelo senhor Antonio José da Silva.

CAPITULO XXI

Já não viviam na rua das Flores os disparatados conjuges.

O senhor Antonio José, quinze dias depois de casado, fechou a sua loja

de pannos e algodões, traspassando-a. Fôra esta a primeira exigencia de

sua mulher. Tanto elle como Angelica resistiram um pouco ás razões

frivolas de Maria Elisa; mas o amor vencera, e o covado e as balanças

foram offerecidas em holocausto a hymeneu, como dizia a mulher de João

Pereira, rindo-se muito da aristocracia balôfa da sua visinha, que lhe

não dava tréla.

Fechada a loja, e liquidados os lucros, o senhor Antonio, por escolha de

sua mulher, foi viver na ultima casa que o leitor encontra na rua da

Rainha, que n'esse tempo não tinha nome. Era uma casa de quinta, com

ares apalaçados, onde a senhora Angelica se dava pessimamente com os

ratos enormes que tiveram o barbaro appetite de lhe comer a manga

esquerda do seu capote, na primeira noite, e tentaram a temeridade de

lhe roer a unha d'um dedo do pé! Inscrevemos aqui as amarguras da

senhora Angelica, porque nos impozemos a obrigação de commemorar todas

as lagrimas d'este desventurado enredo.

O senhor Antonio José da Silva comprou carruagem. Esta immoralidade

custou muitos _padre-nossos_ a sua irmã, que esperava todos os dias um

raio fulminante sobre os cavallos, que conduziam sua cunhada a passeio

pelas estradas de Braga e Guimarães, que eram n'esse tempo um pouco

melhores que hoje, porque eram de pedra, e a civilisação não tinha ainda

inventado o cascalho.

O senhor Antonio cahira na imprudencia de entrar, uma vez, na carruagem,

e viu desgraçadamente realisadas as suas previsões! Foram taes os

solavancos que soffreu aquelle globo de carne, taes entaladelas

flagellaram os seus rofêgos esponjosos, que, tres dias de cama, o nosso

bom amigo difficilmente digeria a mesquinha refeição do costume.

Maria Elisa nunca mais o convidou para o martyrio da carruagem. Era uma

excellente esposa! Conhecera profundamente que as dimensões abdominosas

de seu marido não comportavam a agitação febril do seu espirito. Ia,

portanto sósinha, emquanto seu marido cultivava uns repolhos e umas

melancias que plantára e semeára para ter em que exercitar as suas

forças musculares.

A Providencia nem sempre é justa para os bons cultores da hortaliça!

Emquanto o senhor Antonio estudava a maneira de salvar do bicho a folha

exterior do repolho; emquanto o bom cidadão classificava methodicamente

a natureza do estrume, com que deviam adubar-se os terrenos de melancia;

emquanto, finalmente, o negociante retirado legava á humanidade um

prestante serviço em horticultura, sua mulher andava por lá fazendo

cousas, que aqui vamos escrever para caução de todos os maridos, que

espreitam a toupeira no cebolinho, emquanto suas amaveis mulheres vão

comprar tarlatanas, e rendas.

O leitor, se tem attendido á melhor historia que se tem escripto n'estes

ultimos annos, ha de lembrar-se de um senhor Fernandes, que assistiu ás

bodas do senhor Antonio, e que tinha uma linguagem distincta, e umas

ironias salgadas a sabor de D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide.

O senhor Fernandes, de trinta e tantos annos, aspecto agradavel, com

algum espirito, com muita pouca materia, amigo de livros, e mais ainda

das boas mulheres, era o maior peccador que produziu a rua das Flores.

Contra todas as leis da honra, contra o mais respeitavel dos preceitos

do decálogo, o senhor Fernandes tinha uma diabolica vocação para a

mulher do seu proximo! Cahe-me da mão a penna indignada por se vêr na

dura precisão de archivar este escandalo! Lucto, ha oito dias, com a

veracidade do ignominioso facto, que vou enunciar com as lagrimas nos

olhos, e o pudor na face. Quizera cobrir com o véo da caridade esta

ulcera; porque antevejo o doloroso vexame que involuntariamente vou

inflingir ao leitor pudibundo! Não é possivel. Sou muito amigo do

publico; esforço-me por manter a moral na temperatura em que a

encontrei; mas, como o amigo de Platão, sou mais amigo da verdade. É

necessario dizer-se ao menos metade do que sei. Benzamo-nos, pois,

primeiramente, para que Deus nos livre de maus pensamentos, e das

tentações hediondas d'este grande peccador, que a estas horas já sabe o

bem ou mal que fez!...

Fernandes (_proh pudor!_) entendeu que devia namorar Maria Elisa, a

esposa do seu visinho, a mulher do seu proximo, que é sempre um sugeito

respeitavel, ainda que seja um grande tôlo; ou um grande maroto!

Ouseiro e veseiro de similhantes impudicicias, este monstro fôra o

primeiro immoral que tentára a honestidade da senhora D. Marcellina,

esposa muito querida do senhor João Pereira, e, pelos modos, assidua

cultora dos estudos da natureza. Esses estudos quem lh'os fez appetecer

foi elle! Não queremos fazer pêso aos seus enormes peccados, mas

releve-nos a sua alma o encargo que lhe fazemos de ter sido elle o

mestre de astronomia de Marcellina. Sem os prelogomenos, que elle lhe

ensinou, nunca ella viria, alta noite, estudar o «planeta

sete-estrello»! Á sombra da sciencia, deu-se ahi uma grande immoralidade

na face da terra! O crime infando, que hoje felizmente não tem

sectarios, graças á civilisação que vai ensinando os limites dos

deveres, não só internacionaes, mas tambem inter-visinhos, o crime

infando (repetimos com os calafrios do terror na espinha dorsal); o

crime infando, finalmente, consubstanciou-se de tal arte no sangue

d'aquelle homem, que (_vox faucibus hæsit!_) não havia mulher casada,

com um palmo de cara soffrivel, que o réprobo de Deus e dos maridos não

tentasse abysmar nas profundezas do báratro perpetuo!

Mas pela litteratura tinha vindo um grande mal á senhora Marcellina, que

não é digna do _dom_, attendendo á villã fraqueza com que se deixou

embair das astucias d'aquelle grande velhaco, que já me fez suar tres

vezes, desde que estou fallando nas suas impudencias!

De mais a mais, Fernandes era inconstante nas suas affeições, e cynico

na maneira de se desquitar das fastidiosas mulheres, que o fatigavam

depressa. Esta segunda immoralidade é uma questão á parte. A nossa

missão, aliás repugnante (nunca cessaremos de lembrar ao leitor que nos

parece impossivel este crime, como o parricido aos legisladores de

Athenas!) a nossa missão é contar que o dito Fernandes tentou seduzir

Maria Elisa!

O peor não é isto! A maior das vergonhas é ter eu de dizer que Maria

Elisa, legitima representante de nossa avó, que comeu maçãs no paraizo,

cedeu á tentação, e só torceu o pudibundo nariz duas vezes (ou tres, não

me recordo bem) ás calidas manifestações d'aquelle grande desaforado,

perverso, dissoluto, scelerado, e não sei mesmo se concussionario!

Quem soubesse isto, entrava no segredo dos constantes passeios de Maria

Elisa. A sua habitual direcção era á Ponte-da-Pedra, a uma legua do

Porto, na estrada de Braga.

Ahi apeava-se da carruagem, a pretexto de descansar. Subia para a sala

da estalagem, que já n'esse tempo era as delicias dos honrados amadores

de peixe frito, e azeitona. E n'essa sala... (_digitis callemus et

aure!_... Soccorre-me, meu velho Horacio!) encontrava sempre esse homem

para o qual o meu vocabulario de indignação não tem um nome adequado! E

isto aconteceu muitas vezes, emquanto o senhor Antonio sachava os

repolhos, e mondava a hervagem das melancias, sabe Deus com que

dificuldades na curvatura da columna vertebral!

Tres mezes, seis, nove, um anno esta pouca vergonha! E o céo não tinha

raios para o impio, e o senhor Antonio não tinha n'aquelle coração um

presagio, que lhe dissesse que entre o repolho e a melancia ha alguma

cousa que deve occupar a cabeça d'um homem sensato!

A Providencia, algumas vezes, parece-se com Homero; dormita, e consente

que os Antonios Josés levem no somno a palma ao cantor de Ulysses, que

tambem dormitou emquanto Penélope fazia muitas cousas, em que se parecia

com Maria Elisa. Ora já não é pequena gloria para o senhor Antonio José

collocar-se a par de Ulysses!

Era em uma bella tarde de agosto.

Maria Elisa sahira para a Ponte-da-Pedra. O senhor Antonio ficára n'um

banho de tina, chafurdando como o proprio tubarão de barbatanas. Quando

sahiu do banho, achou-se fresco, como é natural, e resolveu dar um

passeio, e, o que mais é, surprender sua mulher, que devia ficar

contentíssima de tal surpreza.

Ao pensamento seguiu-se a execução. O senhor Antonio repartiu as suas

duas pernas-pleonasmos sobre o dorso de uma pacifica jumenta, e com a

ponta da bengala estimulou-lhe a anca de modo que era um raio por

aquella estrada fóra! E era um grupo bonito! A pequena jumenta, debaixo

do vulto magestoso do senhor Antonio, parecia consubstanciada na

organisação do seu dono! Iam contentíssimos!

--Lá está a carruagem!--disse elle, exultando, á sua jumenta, com a qual

tivera um longo colloquio, em que a submissa interlocutora não fôra

menos eloquente com o seu silencio, nem lhe quizera conceder honras de

Balaam.

Pararam á porta da estalagem. O senhor Antonio não queria fazer ruido, e

perguntou baixinho:

--Onde está a dona da carruagem?

--Está lá em cima com o primo.

--Com o primo!--exclamou elle com um som de ventriculo.

--Sim, senhor, o primo...

--Quero vêl-a...

E subia as ingremes escadas, agarrado ao corrimão.

Maria Elisa conhecera a voz. Fernandes fugira para o quintalejo

immediato, e escapára-se pelos pinhaes visinhos, sem ser visto.

A Filha do Arcediago Terceira Edição · 第 10 / 18 段