--Pois ella...

--Não vê que me abandonou?

--Talvez violentada por circumstancias...

--Muito por sua livre vontade...

--Sim?! então era uma indigna mãe... e desculpe-me...

--De certo era... uma indigna mãe... meu pae nunca me fallou d'ella...

--Tal era a differença que elle conhecera entre mãe e filha... Ora,

pois; não soffra por tal motivo, minha menina... Quer-me para sua

mãe?...

--De certo... queria.

--Eu estou-me a rir... Esta pergunta não devia fazer-lh'a, sem que a

menina tivesse do caracter do meu Augusto um seguro conhecimento... Isso

ha de vir com o tempo; e, se o coração lhe não repugnar, acceite-o como

marido... Não é rico; mas o seu patrimonio é o amor que elle tem ao

trabalho, e o seu talento que lhe promette creditos similhantes aos de

seu pae, que tratava pouco dos seus interesses. De pae a filho vai

grande differença. Um pensava no dia presente; o outro pensa no dia

futuro... Tem sido bem grande a minha impertinencia, não é verdade?

--Pelo contrario, deleita-me a sua conversação, e captivo-me dos

carinhosos desvelos que emprega na minha ventura... Oxalá que eu nunca

desmereça no conceito da minha amiga...

--Espero que assim seja... Diz-me o coração que teremos de ser muito,

muito amigas, que viveremos unidas muitos annos, e que fallaremos com

prazer do bello dia que temos passado... Ahi vem o Augusto!... sempre

com os livros de volta...

--São as _Cartas a Sophia_ por Mirabeau... Não pensei que a senhora D.

Rosa conheceria esta obra...

--Porquê?

--Não é muito propria para leitura de meninas.

--Que tem? Se eu entendo as ideias d'esses livros, é que elles não me

dizem nada novo; e se as não entendo, nada perco da minha innocencia.

--Acaba v. s.ª de apresentar uma ideia que opéra uma completa revolução

na minha maneira de encarar as novellas! Tem razão!... Vejo que é não só

sublime, mas até rasoavel no seu systema!

--Creia que disse a verdade; e, senão, despersuada-me que eu serei

docil...

--Não a contradigo, minha senhora. Pelo contrario, sou da sua opinião.

Minha mãe, esta menina é um anjo, e tem um talento extraordinario...

--Não o creia, minha senhora.

--Não preciso que m'o diga. Meu marido soube dar-me o gosto para

apreciar o merito das pessoas. Se fiquei pobre de bens, posso

afoutamente dizer que o não fiquei de intelligencia. A senhora D. Rosa

Guilhermina é um portento. Ninguem dirá o que aqui está, sem se lhe

importar com o mundo, onde as tôlas, com algum palavriado, recebem

acclamações de espertas.

--Ai! eu não ambiciono lisonjas do mundo!... Gosto de saber, porque o

meu espirito precisa d'este alimento.

--E o seu coração?--perguntou Augusto.

Rosa baixou os olhos, e a sua linda face, côr de cereja, fez-se mais

linda.

--São horas de nos retirarmos--atalhou a irmã do negociante, que resumia

em si a finura que a natureza caprichosa não quiz regularmente

distribuir na sua numerosa e estupida familia.--Menina, dê-me um abraço.

Augusto apertou a mão de Rosa, que hesitava, não obstante as _Cartas a

Sophia_... Despediram-se com requebros e olhaduras de varios modos, e

feitiços, de parte a parte.

Seguiram-se as visitas regularmente. D. Custodia Hermenegilda acompanhava

sempre seu filho. (Seja dito para socego da opinião publica.) A

estanqueira reformou a sua opinião a favor de Rosa, e vingou-se em pedir

trinta reis de divida de simonte, que a fiadeira intromettida lhe devia.

A outra, que dobava, e cujo nome não me lembra, vingou-se da visinha,

batendo-lhe á porta alta noite. Tantas vezes repetiu a graça, que se

constipou, e constipação foi esta que a pobre mulher morreu no hospital,

declarando, á hora da morte, que nunca vira entrar de noite homem nenhum

em casa de Rosa, e que fôra a estanqueira que a mettera n'aquella

alhada: declaração que fazia para que Deus não condemnasse a sua alma,

traste, realmente, de que Deus, de bom grado, se dispensaria, e nós

tambem.

As mulheres dos meus romances quasi todas são honestas pessoas, que se

casam. Só quando de todo em todo não posso falsificar a tradição em

honra das minhas heroinas é que as sacrifico ao nariz-torto das mães de

familia, que, quasi sempre, exprimem com o nariz a sua justa indignação

contra os romances em que os amantes não casam por fim.

Benignas senhoras, exultai, que a moral triumpha em todas as minhas

obras. D. Rosa Guilhermina resolve casar-se na fórma do sagrado concilio

tridentino e constituição d'este bispado com o senhor Augusto Leite. O

juiz dos orphãos concedeu a licença, e o senhor Antonio José da Silva,

embriagado da ventura propria, estimou que seu sobrinho arranjasse

mulher com dinheiro, unica esperança, que elle negociante tinha de

evitar as mendicantes perseguições de sua irmã.

Se imaginam que os noivos deviam dizer muito bonitas phrases,

enganam-se. Namoraram-se pelas novellas, e liam ambos a pergunta e a

resposta dos dialogos mais apaixonados. A senhora D. Custodia assistia a

estas leituras, e lagrimejava de ternura.

A constante presença d'esta senhora ao lado d'elles, authorisa-me a

dizer-vos que nunca as duas creaturinhas do Senhor tiveram occasião de

adiantar-se um beijo por conta do matrimonio. Eu não sei que se tenha

feito um namoro mais honesto que aquelle! É um gosto a gente

encarregar-se de archivar estes casamentos que fazem honra ao genero

humano! A intelligencia gosa, o coração consola-se, a virtude dança a

polka, e o vicio envolve a cara hedionda no seu _cache-nez_!

Oh! Bemaventurados, em duplicado, aquelles que me lerem! O futuro fará

justiça á candura das minhas intenções!

CAPITULO XIX

O NOIVADO

DRAMA EM UM ACTO

PERSONAGENS

_D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide._

_Antonio José da Silva._

_D. Angelica Athanasia da Silva._

_João Alves Rodrigues_ }

_Manoel José Fernandes_} Convidados.

_Joaquim João Baptista_}

_O snr. João Pereira_, o do chinó.

_Um encapotado._

A scena passa-se na rua das Flores, em casa do senhor Silva. Vista de

sala decorada, segundo a época.

D. Maria Elisa, e seu marido estão sentados no canapé. Á esquerda do

senhor Antonio está sua irmã. Os convidados estão em frente do canapé,

com as costas voltadas para nós.

O relogio de S. Domingos dá meio dia. Ouvem-se as regateiras que

apregoam robalinhos na rua.

SCENA I

O SENHOR ANTONIO

(_batendo na respectiva perna_)

Meus amigos, mal diriam vmc.es que eu viesse por fim de contas a casar!

Ninguem diga d'esta agua não beberei! Um homem, emquanto anda n'este

mundo, não sabe para que veio...

O SENHOR FERNANDES

(_á parte_)

Ella t'o dirá...

O SENHOR ANTONIO

Eu não tinha, até ha pouco, na cabeça... (_sensação nos espectadores

emquanto o orador se assôa_) não tinha na cabeça a ideia de me casar,

porque, emfim, os tempos não vão muito bons para alguns maridos que eu

conheço... O nosso visinho João Pereira, do chinó, que o diga...

D. MARIA ELISA

Que historia é essa do João Pereira, em que o senhor Silva já me fallou

de passagem duas vezes?

D. ANGELICA

Ora o que ha de ser? Os nossos peccados, cunhada... É uma mulher que o

demonio tentou, Deus me perdôe, se pecco... Não gosto de murmurar... É

mesmo uma vergonha... Está vestida e calçada no inferno...

D. MARIA ELISA

Quem? Não comprehendo...

D. ANGELICA

Quem ha de ser? Ella, a birbantona, que deu a mão de esposa a um, e anda

por ahi sempre... como se diz, Antonio?

O SENHOR ANTONIO

Como se diz o quê?

D. ANGELICA

Como é que dizem os prégadores d'esse peccado?

O SENHOR ANTONIO

Não são os prégadores, é o nono mandamento.

D. ANGELICA

Pois sim; mas os prégadores chamam a essas mulheres... _indultas_...

_adultas_, ou não sei que...

O SENHOR FERNANDES

Adulteras?

D. ANGELICA

Isso mesmo... Eu uma cousa assim nunca vi na minha vida!... Em nome do

Padre, e do Filho, e do Espirito Sancto... Assim que vê um homem na rua

a olhar para ella, ás duas por tres, faz-lhe gaifonas com a gata...

D. MARIA ELISA

Com a gata?

D. ANGELICA

(_remedando com a manga do capote de castorina amellada_)

Põe-se assim com a gata no collo a bulir-lhe na cabeça...

D. MARIA ELISA

E isso que quer dizer?

D. ANGELICA

Eu sei cá? é o peccado... Acho que a gata lá tem cousa de feitiçaria,

porque os homens ficam de bôca aberta para ella!

O SENHOR FERNANDES

Acho que não é para a gata...

O SENHOR BAPTISTA

Eu tambem sou da mesma opinião... A gata não é má...

O SENHOR RODRIGUES

O peor é o gato, que a gata boa é, que caça ratos...

D. MARIA ELISA

(_á parte_)

Que cacafonias! _que a gata! que caça!_... Apre, que são muito

alarves!

O SENHOR ANTONIO

Deixemos lá isso... ella lá sabe o que faz, e cada qual guarde bem a sua

cabeça do mau pensamento de casar-se com doudas... Eu bem lh'o disse a

elle... «Olha que essa mulher não te serve... tem má pinta, e não sei,

mas ha de te dar que fazer...»

SCENA II

OS MESMOS E O SENHOR JOÃO PEREIRA

O SENHOR PEREIRA

(_entrando, sem pedir licença_)

Deus aqui, e o diabo em casa dos frades...

D. ANGELICA

(_á parte_)

Olha o inimigo!... quem o chamou cá?!

O SENHOR ANTONIO

Ora viva o meu amigo e visinho! Esteja bom, passasse muito bem, é o que

eu mais estimo. Puxe cadeira e sente-se, sem ceremonia.

O SENHOR PEREIRA

A bôda e a baptisado, diz lá o outro, não vás sem ser convidado. Eu não

estive pelas contas. Somos visinhos ha cincoenta e dous annos, e rapazes

da mesma creação. Cá entre nós não ha ceremonias. Vim dar os parabens ao

meu amigo e senhor Antonio, e vêr-lhe a sua noiva, que emquanto a mim é

esta menina...

D. MARIA ELISA

Uma sua criada.

O SENHOR PEREIRA

Criada dos anjos. Pois, minha visinha, a minha casa é logo adiante

d'esta; mettem-se duas portas de permeio; se precisar d'alguma cousa, de

mim ou da minha companheira, não tem mais que mandar.

D. MARIA ELISA

Muito agradecida ao seu favor... Queira sentar-se.

O SENHOR PEREIRA

Estou bem assim: farto de estar sentado estou eu atraz do mostrador. Com

que sim, senhor Antonio, está vmc.e cá no rol dos homens de bem...

O SENHOR ANTONIO

(_com intenção_)

É verdade... cá estou no rol dos homens de bem...

O SENHOR PEREIRA

Fez vmc.e o que devia. Não ha vida melhor que a de casado. Eu cá de mim

não tenho razão de queixa. Estou casado ha dez annos, tres mezes, e

vinte e quatro dias, e, graças a Deus, não tive ainda um desgosto!

O SENHOR FERNANDES

(_á parte_)

Este é dos taes que o sabem no fim.

O SENHOR PEREIRA

A minha sancta companheira é propriamente uma mulher de casa, e minha

amiga, que é mesmo uma cousa! Lá por eu ter mais vinte annos que ella,

isso não tira, nem põe. Não é como algumas cá da nossa rua... nós bem

sabemos quem ellas são...

O SENHOR FERNANDES

(_á parte_)

Eu só conheço a d'elle...

O SENHOR PEREIRA

Lá porque os maridos não andam espartilhados a dar, com licença... nas

canellas com as abas da casaca, gostam mais de peralvilhos!...

Arreda com ellas! Eu, se tivesse assim uma, eu não seja João, se lhe não

arrebentasse a propria barriga!... A minha Marcellina é uma rapariga,

que, se me vir afflicto, vem prantar-se ao pé de mim, e não sahe d'alli

sem que eu lhe diga que estou bom. Quando me cahiu o cabello foi ella

que me pôz este chinó na cabeça, e por ahi os tratantes metteram-me

sonetos ao chinó por debaixo da porta! Valha-os o diabo!...

D. ANGELICA

Credo! Anjo bento! vmc.e falla tantas vezes no inimigo! Não diga essa

palavra que faz arripios no costado!

O SENHOR PEREIRA

Ahi está a nossa beata com as suas _escrupulisações_. A gente não sabe

como ha de fallar diante de vmc.e A minha Marcellina, ás duas por tres,

é diabo para aqui, diabo para acolá; e, se eu lhe digo que não é bom

chamar quem está manso e quedo, ella diz que o diabo se chama diabo!...

D. ANGELICA

(_persignando-se_)

Sancto breve da marca! Cale-se lá com essas blasphemias! Sua mulher, se

tivesse juizo, não dizia isso!... Se vmc.e lhe désse com o covado pela

rabada, ella se calaria...

D. MARIA ELISA

(_á parte_)

São indecentes!... Se algum futuro author de novellas quizesse descrever

fielmente esta scena, teria de ser indecente como elles! Tomára-me eu

sósinha!

O SENHOR ANTONIO

Em que pensas tu, Mariquinhas?

D. MARIA ELISA

Ah!... eu?... não pensava em nada...

O SENHOR ANTONIO

A modo que estás triste! Aposto que estás a pensar lá n'essas cousas dos

astros?

D. MARIA ELISA

Dos astros? não... pensava... na minha sorte... (_com ironia_) que é

realmente invejavel. Estou satisfeitissima da deleitosa conversação

d'estes senhores, que são sobremaneira recreativos.

OS SENHORES BAPTISTA E RODRIGUES

Pela parte que me toca... muito obrigado...

O SENHOR FERNANDES

(_á parte_)

Pobre mulher!... e pobre homem!...

O SENHOR ANTONIO

Então, Fernandes, estás ahi tão calado!...

O SENHOR FERNANDES

Que quer que eu lhe diga?

O SENHOR ANTONIO

Quando te casas?

O SENHOR FERNANDES

Quando tiver mulher. Ainda não é tarde.

O SENHOR ANTONIO

Isso não; mas o casamento faz arranjo... Ella tem cincoenta e quatro,

mas olha que é um anno para cada conto; e tu tens os teus trinta e seis,

mas cá, segundo os meus calculos, por morte de teu pae não tens nem

trinta e seis moedas, porque elle é um gastador, e deixa-te viver lá

mettido no quarto a lêr o Carlos Magno, sem te importares do negocio...

Teu pae parece-me que não virá... vai-se demorando.

O SENHOR FERNANDES

Já lhe disse que o meu pae pede desculpa de não vir, porque se sente

incommodado da gôta... Eu vim da sua parte dar ao senhor Antonio os

parabens, e comprimentar a sua esposa a quem desejamos, tanto eu como

elle, largos annos de felicidade.

D. MARIA ELISA

Muito agradecida! (_á parte_) Este falla melhor que os outros...

O SENHOR ANTONIO

Tu sabes fazer a preceito esses discursos! Sempre é bom a gente lêr o

Carlos Magno... Eu era pequeno quando o li, e ainda me lembra esta

passagem da formosa Floripes a Roldão: «Senhor par de França! Os vossos

olhos são dous sóes que derramam raios que matam como os lampejos da

vossa durindana. Senhor cavalheiro, eu vos digo que o vosso affecto é

mais doce que o mel, e mais abrazador que as ardentes _fragas_.»

O SENHOR FERNANDES

(_sorrindo_)

Essas fragas deviam de ser boas para assar bacalhau.

D. MARIA ELISA

(_sorrindo_)

De certo...

O SENHOR ANTONIO

E outras muitas cousas que me não lembram agora.

O SENHOR FERNANDES

(_com ar sarcastico_)

É pena que vmc.e se esqueça dos bocadinhos de ouro do Carlos Magno!

O SENHOR ANTONIO

Ora diz lá tu algumas passagens...

O SENHOR FERNANDES

É impossivel, porque nunca li o Carlos Magno; mas, á falta d'essa

preciosidade litteraria, posso dizer outra qualquer passagem bonita.

O SENHOR ANTONIO

A apostar que tu não sabes orthographia?

O SENHOR FERNANDES

(_sorrindo_)

Nada, não sei.

O SENHOR ANTONIO

Pois então diz alli a minha mulher que t'a ensine...

O SENHOR FERNANDES

Far-me-ia muito particular favor.

D. MARIA ELISA

Eu?!

O SENHOR ANTONIO

Sim, tu, Mariquinhas. Ensina-lhe aquellas cousas que fazem com que a

gente não caia quando a terra anda de redor.

O SENHOR FERNANDES

E é isso que se chama orthographia?

O SENHOR ANTONIO

(_meio irritado_)

É, sim, senhor. Olha lá se queres saber mais d'essas cousas que minha

mulher!

O SENHOR FERNANDES

Deus me livre d'isso... (_sorrindo a Maria Elisa que abaixa,

envergonhada, o rosto_) Eu nem sequer sei escrever com astronomia, como

hei de saber essas leis com que se regem os astros!...

O SENHOR ANTONIO

Chama-se _lei d'attrição_... Não te rias... é o que te digo, e, senão,

ouve: ó Maricas, como se chama isto que nos faz estar de pé, assim

direitos? (_erguendo-se._)

D. MARIA ELISA

Salvo erro, creio que são as pernas.

O SENHOR ANTONIO

(_sériamente_)

Isso é verdade; mas, se a terra andasse á roda, a gente cahia para o

lado...

O SENHOR FERNANDES

Não é forçoso que caia para o lado; póde cahir para traz, ou para

diante. (_Maria Elisa ri-se._)

O SENHOR ANTONIO

Tambem não vou contra isso; mas minha mulher sabe d'uma cousa que faz

com que a gente não caia, porque todos os corpos sahem do centro da

terra... Olha ella a rir-se! Então enganavas-me, cachorra?... Ah

ruimzinha!... (_puxando-lhe uma orelha._)

O SENHOR FERNANDES

Sua senhora tem razão... Os corpos, não digo que saiam do centro da

terra, mas tendem para lá; e esta tendencia faz que não possam, embora a

terra se mova, cahir no espaço.

O SENHOR ANTONIO

Tu não sabes d'essas cousas...

O SENHOR PEREIRA, _do chinó_

Os diabos me levem se eu sei o que vossês estão a dizer!

D. ANGELICA

S. Bento! Elle ahi torna com o berzabum do inimigo ás voltas! Não se

póde estar ao pé de vmc.e !... Credo!

O SENHOR PEREIRA

Ó mulher! deixe fallar a gente!... Eu queria saber como é lá isso de

andar o mundo ao redor como se fosse uma bola! Esta gente moderna sempre

diz cousas! Eu nunca tal ouvi aos velhos! Já a minha Marcellina se mette

tambem a fallar d'essas cousas lá dos livros com o doutor Miranda, e,

pelos modos, a rapariga não é tôla de todo. Agora anda ella a congeminar

nos planetas, e levanta-se algumas vezes de noite, e vem á janella...

O SENHOR FERNANDES

Observar os astros?

O SNR. PEREIRA

Acho que sim! A mulher lá tem aquella pancada na mola, e eu deixo-a

estudar a natureza, como ella diz...

O SENHOR FERNANDES

Isso é justo. Não me sabe dizer que planeta estuda sua mulher?

O SENHOR PEREIRA

Acho que é o sete-estrello.

O SENHOR FERNANDES

Ah! sim? E que diz ella a respeito d'esse «planeta?»

O SENHOR PEREIRA

Eu sei cá o que ella diz? Está alli á janella duas horas a olhar lá para

cima, e quando se deita está fria de neve. Eu já lhe disse: ó mulher!

deixa lá essas cousas celestes aos homens que sabem da póda! Tanto faz

como nada; ella diz-me não sei que da abobada, e das _mariadas_ de

estrellas... Apostar que o senhor Fernandes não sabe que ha uma estrella

chamada _vespa_, e outra _saturnea_?

O SENHOR FERNANDES

Nada, não sabia, mas ainda venho a tempo de saber. Sua senhora é que lhe

ensina essas cousas?

O SENHOR PEREIRA

E muitas outras, que me esquecem, porque não tenho as memorias affeitas

a esses nomes inglezes e gregos. Se vmc.e quizer vêr o que é uma

cabecinha ha de fallar com minha mulher...

O SENHOR FERNANDES

Estou convencido... não é preciso mais nada... Vejo que sua senhora

estuda perfeitamente a natureza, e compensa bem a pena deitar-se fria de

neve, quando a intelligencia vai quente do fogo da sciencia. Não

concorda, senhora D. Elisa?

D. MARIA ELISA

Eu?!... não sei se...

O SENHOR FERNANDES

Pois não é da minha opinião?

D. ANGELICA

(_rabugenta_)

Não é, não, senhor! Qual natureza, nem meia natureza! Uma mulher não se

deve metter lá n'essas trampolinices! Do que ella deve tratar é de

governar a sua casa, de tratar do seu marido, e dos seus filhos, e de

encommendar a sua alminha a Deus. Nossa Senhora era a propria mãe de

Deus, e não sabia lá das sciencias, nem dos planetas! Uma mulher honrada

não vai de noite vêr á janella o sete-estrello, nem a vespa, ou o

bisouro... mau bisouro é o demonio... Deus me perdoe...

O SENHOR PEREIRA

(_pundonoroso_)

Com que vmc.e , lá porque não tem cabeça para estas cousas, quer que as

outras sejam tapadas como vmc.e ? Não é má esta! Cada qual trata de si,

e Deus de todos. Minha mulher gosta de estudar a natureza, e vmc.e gosta

de resar novenas. Quem vai contra isso?

D. ANGELICA

E ella porque não resa novenas? Acha que lhe não são precisas? Pois olhe

que... eu já vi quem precisasse de resar menos... Melhor lhe fôra

governar a sua casa, e remendar a sua roupa, e não deixar ir tudo como

vai de portas a dentro...

O SENHOR PEREIRA

Sabe que mais? trate cá do que lhe pertence, e deixe as outras! Vmc.e é

muito murmuradeira...

D. ANGELICA

Eu! murmuradeira!... Ó meu Menino Jesus! inda mais ouvirei! Ó Antonio,

já viste uma cousa assim?

O SENHOR ANTONIO

Está bom... calem-se lá com essas questões. Cada qual vive como o seu

genio lhe pede; mas olha cá, visinho, eu sempre fui teu amigo, e não

tenho papas na lingua, quando é necessario. Cá a minha opinião é que não

deves deixar vir tua mulher para a janella de noite...

O SENHOR FERNANDES

(_com ironia_)

Porque se póde constipar...

O SENHOR ANTONIO

Não é isso... é que das más linguas ninguem se livra... Se quer estudar

a natureza, ou lá o sete-estrello, ou o que é como se chama, que o faça

de dia.

O SENHOR PEREIRA

Tu és tôlo, Antonio! Pois os planetas apparecem lá de dia?! Já vejo que

não te chama Deus para este caminho!...

O SENHOR FERNANDES

O senhor João Pereira tem razão. De dia não se descobrem planetas. O

padre Theodoro d'Almeida, que escreveu muito sobre os astros, diz-me meu

pae que o vira muitas noites na trapeira dos Congregados a contemplar a

natureza.

O SENHOR PEREIRA

Vmc.e é que sabe responder, senhor Fernandes... E, de mais d'isso, eu

estou muito contente com minha mulher. Antes quero que ella se

entretenha com os planetas lá de cima, do que com certos planetas que

andam por ahi a olhar para as janellas, e que não são das melhores

cousas para viver em paz cada qual com a sua mulher. Eu não tenho até

hoje razão de queixa; oxalá que tua mulher te dê a boa vida que a minha

me tem dado...

O SENHOR ANTONIO

(_enfurecido_)

Isso agora!... salvo tal logar!...

D. ANGELICA

Longe vá o agouro, e mais não diga a bôca que tal diz...

O SENHOR ANTONIO

(_para os circumstantes_)

Que lhes parece esta?! (_para elle_) Meu amigo, sabes que mais?... Vai

muito de cá a lá...

D. ANGELICA

Ó menina, Deus a livre de tal... Minha querida nossa Senhora dos

Remedios, não permittaes que tal aconteça...

O SENHOR PEREIRA

(_formalisado_)

Que diabo dizem ahi? Se eu os percebo, sêbo! Parece que já

jantaram!--Pois minha mulher... sim, pergunto eu... minha mulher... se

faz favor de me dizer... com que então a minha Marcellina... digam para

ahi o que sabem, linguas damnadas!... Eu queria saber o que vem a ser

estas benzedellas da nossa sanctinha, e lá esses arrufos teus,

Antonio!...

O SENHOR FERNANDES

Não se irrite, senhor Pereira, que não tem razão. Vmc.e entendeu mal os

reparos da senhora D. Angelica e seu irmão. É porque o senhor Antonio

não quer que sua senhora se constipe no estudo da natureza...

O SENHOR PEREIRA

Isso agora é outra cousa... Cada qual tem o seu genio; mas vir cá

dizer-me que vai muito de cá a lá, isso tem que se lhe diga. Tanto é a

minha Marcellina como a tua companheira. Somos todos do negocio, e

deixemo-nos de fidalguias, porque todos nos conhecemos. E quem fôr mais

rico, coma duas vezes, mas não desdenhe dos outros. O que eu queria

dizer-te a respeito da conducta das mulheres é que sou teu amigo, e que

oxalá a tua mulher seja como tem sido a minha.

O SENHOR ANTONIO

(_desesperado; com as belfas tremulas_)

Isso é que eu não quero!... já te disse que não quero e que não ha de

ser!...

D. ANGELICA

E elle a dar-lhe! _má mez_ para elle!... Valha-o uma figa! Não faça

caso, cunhada...

D. MARIA ELISA

Eu sinceramente lhes digo que não sei o motivo d'esta disputa! Se me não

engano, a esposa do senhor Pereira tem vocação para a astronomia. É

louvavel esse gosto da sciencia. São raras as senhoras que se dedicam ao

trabalhoso estudo da natureza...

O SENHOR PEREIRA

(_interrompendo_)

É como diz, e viva quem sabe fallar!

D. MARIA ELISA

O senhor Antonio José da Silva diz que...

O SENHOR ANTONIO

Ó Mariquinhas, é melhor dizeres _meu marido_.

D. MARIA ELISA

Meu marido diz que não quer que eu imite a senhora D. Marcellina.

O SENHOR ANTONIO

Não quero, é tal e qual o que eu disse. Minha mulher entendeu-me logo.

D. MARIA ELISA

Pois bem, eu não a imitarei; não me levantarei de noite a observar a

atmosphera, porque realmente não quero ser martyr da sciencia. D'este

modo, está acabada a questão. O senhor Pereira consentirá, porque assim

lhe apraz, que sua senhora se levante para os seus estudos; e meu marido

usará do direito, que eu lhe concedo, de me privar que eu estude os

astros de noite.

O SENHOR PEREIRA

Fallou bem como quem é; parece mesmo a minha Marcellina que sabe dizer

cousas que é mesmo da gente ficar encantado; mas eu tenho a dizer que cá

quanto ao que eu quiz dizer, a minha birra é que se a senhora D.

Mariquinhas fôr honrada como a minha Marcellina, não precisa ser mais.

O SENHOR ANTONIO

És teimoso como um jumento! Já te disse que a minha mulher tem outros

brios, e que sabe as obrigações de mulher casada!

D. ANGELICA

E não ha de dar que fallar como algumas... emfim... cada qual metta a

mão na sua consciencia...

O SENHOR PEREIRA

(_solemne_)

Que quer dizer isso? Então vmc.e acha que minha mulher... Ora tenha

juizo, que já é bem tempo de perder o sestro da má lingua... D'estas

beatas... Deus me livre d'ellas...

D. ANGELICA

(_aguçando o queixo inferior_)

Vmc.e está mesmo a inquietar a gente... Olhe que eu!... não me puxe pela

lingua, que eu não sou boa...

O SENHOR PEREIRA

Isso sei eu... que vmc.e é levadinha de todos os diabos... diga-m'o a

mim...

D. ANGELICA

(_enfurecida_)

A Filha do Arcediago Terceira Edição · 第 9 / 18 段