--Aqui não ha que agradecer. Eu bem sei que a menina lá lhe parece que

eu sou algum unhas... Está enganada de meio a meio. Eu sou sovina com

quem me parece; mas com a que ha de ser minha mulher dou muitas graças a

Deus por ter muito que gastar com ella, assim Deus nos dê saude para o

gosar. Então que me diz?

--Digo que o pente é riquissimo, e que estou muito penhorada dos seus

generosos sentimentos para comigo.

--Não ha de quê. O que eu quero é que a menina se porte bem, e não dê

que murmurar ás linguas damnadas... Eu cá me entendo...

--Farei tudo que em mim caiba por merecer um bom conceito de toda a

gente.

--É o que se quer. Ora diga-me, qual gosta mais, de viver na aldeia ou

na cidade?

--Na cidade. Eu não gosto da aldeia; e v. s.ª gosta?

--Deixemo-nos de _senhorias_; o melhor é _tu_ cá, _tu_ lá, não lhe

parece, menina?

--Eu pedia-lhe licença para por emquanto não tomar a liberdade de lhe

dar tal tratamento. V. s.ª póde tratar-me como lhe aprouver.

--Pois então lá como quizer. Eu cá acho mais não sei que no coração se

lhe dér um _tu_.

--Pois satisfaça o seu coração, que eu tenho muita gloria em merecer-lhe

esse novo signal de estima.

--Pois então ahi vai... Com que então tu não gostas da aldeia? Estás-te

a rir? Pois olha que eu gostava da aldeia, e, desde que me disseste que

não gostavas, a fallar-te a verdadinha pura, tanto se me dá, como se me

deu. Como te vi assim a modo de poeta, pensei que gostavas de ouvir

cantar os passaros, que é a mania dos poetas, que todos fallam em

rouxinoes, e não sei em que outros passarôlos que se chamam graças, ou

garças, e zephyros, e não sei que mais ninhadas e aves, que ninguem

conhece, penso eu. Vós lá sabeis essas cousas... Olha como ella se

ri!... Eu bem sei porque tu te ris, minha cachorrinha!... Eu já sei que

tu botas sonetos...

--Eu?... que graça!... eu não sou poeta.

--Não? antes assim. Isto de ser poeta não é lá grande cousa. Pelos

modos, o miôlo dos taes patavinas não regula bem... Eu sempre tive cá

minha birra com homens que fazem d'isso. Ha de haver nove annos que fui

a Lisboa, e vi lá um poeta, chamado... assim a modo de... era um nome

estrangeirado...

--Bocage?

--Tal e qual; era o tal Bocage; estava no Rocio, á porta d'um

botequineiro, e eu passava, e disse-me um meu amigo: queres vêr o...

o... como era?

--Bocage.

--O Bocage... agora não me ha de esquecer... e vai elle olha para mim,

muito sério, e bota-me um soneto que não sei que diabo dizia, que toda a

gente se riu... Acho que o tal Borrage...

--Bocage.

--Valha a breca o tal nome, que tem que se lhe diga! Acho que elle era

tôlo, e os outros não tem mais juizo que elle... Pois muito folgo saber

que a minha esposa não é poeta... Ora diz-me: tu sabes alguma cousa cá

d'estas cousas do ar?

O senhor Antonio fez, sobre a cabeça, um gesto com as mãos, que poderia

significar uma pergunta de honestidade equivoca.

--Que são cousas do ar?

--Sim... perguntava eu se sabias alguma cousa dos planetas...

--Astronomia? Tenho lido alguma cousa.

--Então has de saber quando está para vir chuva?

--Ainda não estudei essa parte. Eu penso que a chuva vem quando os

vapores condensados na atmosphera...

--É isso mesmo... Ora diz-me uma cousa que me tem dado que pensar. Lá em

cima na lua diz que anda gente como por cá?

--Penso que não ha certeza d'esse phenomeno.

--D'esse?...

--Phenomeno...

--Se te não custa diz-me o que é isso? é algum planeta?

--Nada, não é... Phenomeno é uma maneira de existir na ordem natural das

cousas, manifestada de modo que as leis dos systemas conhecidos não

attingem a lei que rege esses actos...

--Ah! agora entendi... Olha que tu sabes mais do que um frade loio que

ahi ha muito sabio, e que teve o descôco de dizer que a terra anda á

roda!... Que te parece a cavalgadura?

--Eu acho que elle disse scientificamcnte a verdade.

--Essa é boa! Pois se a terra andasse á roda, tambem nós andavamos

sempre com os focinhos pelo chão... Deixa-te d'isso...

--É illusão sua. Ha uma razão que nos sustenta na posição direita em que

estamos.

--Bem sei que são as costas das nossas cadeiras; mas, se a terra andasse

ao redor, cahiam as cadeiras comnosco.

--Não é essa a razão... É que todos os corpos pendem para o centro da

terra... é o que se chama lei da attracção.

--Ah! agora entendi... _todos os corpos sahem do centro da terra_...

--_Sahem_, não: _pendem_.

--Sim, _pendem para a lei da attricção_... Não te rias, que toda a gente

aprende quando não teve lá esses principios o latim, e da grammatica...

Cada qual tem o seu tráfego. Eu cá na minha officina do commercio sei

como os que sabem. Lá de rhetoricas não sei nada, a verdade deve

dizer-se; mas, se Deus quizer, tu has de dizer-me como é isto cá de

cima. Eu ás vezes ponho-me a olhar para esta machina, e fico estarrecido

horas e horas a vêr o que nós somos, e como o Creador fez tudo isto para

nós.

--Para nós? Eu não sei de que nos servem as estrellas...

--Não sabes? A fallar a verdade, eu tambem não; mas ouvi dizer que as

estrellas de alguma cousa servem.

--Tambem creio que sirvam; mas para nós não lhe vejo a utilidade.

--Então os livros não resam d'isso?

--Não achei ainda uma explicação precisa.

--Pois, minha Mariquitas, estão-se fazendo horas de ir ao jantar.

Deixamos isto para outro dia, que não ha de faltar occasião de fallarmos

a respeito da sabedoria. Vê lá se queres alguma cousa...

--Não preciso de nada.

--Ámanhã é a primeira corrida de banhos... De ámanhã a quinze dias

effectua-se o negocio; e ficámos arrumados d'aqui. Adeus, menina, até

ámanhã.

O senhor Antonio sahiu, com o espirito remoçado, e a cabeça aturdida de

ideias novas sobre astronomia. Contente, como nunca, o milagre de vinte

annos de menos não daria ás suas pernas trôpegas a agilidade com que o

viram passar nas Fontainhas.

Mal elle tinha sahido, quando Rosa Guilhermina entrou no pateo, e pediu

á porteira que lhe chamasse Maria Elisa.

A resposta foi que a senhora D. Maria Elisa não recebia a visita da

senhora D. Rosa, porque não queria envergonhal-a com as suas relações.

A filha do arcediago instou, supplicou, fez empenhar a regente para que

a orphã lhe fallasse. A regente, porém, que não queria importunar a

noiva de Antonio José da Silva, antigo mesario da casa, negou-se ás

instancias da lagrimosa menina.

Dera-se um forte motivo para a recusa teimosa de Elisa. Quando ao

despedir-se do negociante, subia para a casa da regente, entregaram-lhe

no caminho um bahú e uma chave. Elisa entendeu que eram os seus

vestidos, que a attribulada amiga lhe mandava. Abriu o bahú para tirar

um chaile, e viu tudo espedaçado. A indignação coincidiu com a vinda de

Rosa, e Rosa, arrependida, correra ao Recolhimento para estorvar a

entrega do bahú.

Era impossivel a reconciliação. Á ultima impertinencia de Rosa

Guilhermina, a orgulhosa respondeu que podia já dar-lhe algum dinheiro

por conta do que lhe devia, e remetteu-lhe a sacca com as cem peças que

lhe deixára o negociante.

A filha de Anna arrojou-as ao chão, e sahiu furiosa, promettendo

vingar-se da nova villania.

Maria Elisa ficou satisfeitissima d'aquelle rasgo, e sentiu, pela

primeira vez na sua vida, que, sem dinheiro, ninguem póde ter rasgos,

nem mesmo póde contar com que romancistas futuros se entretenham da sua

pessoa.

Oh meu caro Antonio José! tu de astronomia não sabias muito; mas tinhas

d'aquella cousa que faz descer os astronomos cá para baixo!

CAPITULO XVII

--Quem é aquelle peralvilho que bate á porta da D. Rosa?

Temos namoro, se dermos ouvidos á tia Bernarda Estanqueira, que mora na

viella do Bomjardim, e que tem um ôlho na balança do simonte, e o outro,

que por signal é vêsgo, na porta da filha do arcediago.

--Que berzabum de escanellado será aquelle, que parece que traz

espartilhos! Valha-o a breca que tão tezo está! Aquillo não me parece

homem cá do Porto! Parece mesmo um comediante d'aquelles que berram umas

cantigas na casa das operas da Batalha... Ó tia Joaquina! (_a tia

Joaquina era uma visinha, que estava dobando ao sol_) vmc.e não vê acolá

aquelle ingarilho que já puxou duas vezes a sineta?

--Já vi.

--Conhece aquella avantesma que me parece mesmo o peccado?

--Conheço... ora se conheço!... Aquelle é o sobrinho do senhor Antonio

da rua das Flores, que me tem dado muito pãosinho. Quando eu ia d'antes

levar-lhe os novellos do algodão, aquelle menino era caixeirinho na

casa; mas pelos modos elle agora estuda para doutor.

--Sim? pois olhe que d'aquelle magricellas não póde sahir grande doutor!

Acho que um homem assim não tem boas as memorias, nem sustancias para

saber lá aquellas cousas da justiça... Elle lá entrou... Quer vmc.e vêr

que a delambida da rapariga anda de namoro com elle!...

--Agora!... Se fosse isso, elle não entrava assim ao pino do meio dia...

acho eu!

--Boa vai ella!... Pois vmc.e pensa que as raparigas d'agora são como as

do nosso tempo? Diz o fr. Manoel do Sancto Lenho, dos carmelitas, que já

não ha vergonha nem temor das penas do inferno!... E quer que lhe diga,

tia Joaquina? Quanto mais fidalgas, mais desavergonhadas!... Inda hontem

a minha Euzebia, que está em casa d'uma certa fidalga que vmc.e sabe tão

bem como eu, me contou que a sua ama estava com um inglez á janella a

dar-lhe beijos, e que elle lhe dava beliscões nas pernas. A minha

Euzebia deu fé d'esta pouca vergonha, sem querer; e a fidalga tambem viu

que a rapariga deu fé; e disse-lhe depois: «Euzebia, nós cá as fidalgas

podemos fazer isto que viste; e vós outras plebeas, não, porque não

tendes nada senão a vossa honrasinha.» Ora que lhe parece isto? dá mesmo

vontade de lhe responder: «Vá-se d'ahi, sua porca; se vossa excellencia

tivesse o miolo no seu logar não consentia que lhe estivesse um herege

lá do fim do mundo a beliscar as pernas, e a pôr-lhe os beiços no

cachaço!» Fora com as libertinas!

--Tem razão, tia Bernarda... a religião é cá só para as pobres. As ricas

o que querem é ir á igreja mostrar os aceios... Disse outro dia um

prégador na Victoria, que a casa de Deus estava sendo uma feira, e que

nosso Senhor pozera as _pelicanas_ fóra do templo... As _pelicanas_ são

as fidalgas... Olhe lá... aquella sumelga, que alli mora, será fidalga?

--Acho que sim. O pae era o senhor arcediago de Barroso, e a mãe ouvi

rosnar que era uma das taes _pelicanas_...

--Consta que tem muito de seu.

--Muitos bragaes, muita prata, não sei quantas moradas de casas, e uma

quinta em Paranhos... Que comer não lhe falta; mas acho que a respeito

disto (_pondo o dêdo na testa_) não regula lá grande cousa... Veio aqui

ha dias á minha loja uma mulher de mantilha, ainda frescalhona, e

perguntou-me muitas cousas a respeito da tal rapariga. Quem entrava,

quem sahia, se ella andava pela rua, se tinha muitos aceios, em fim, eu

fiquei com a pedra no sapato, e cá de mim para mim entendi que aquillo

era uma refinada alcayota. Tambem hei de saber quem tu és--disse cá com

os meus botões--e mandei, assim que ella sahiu, o meu galleguito atraz

d'ella. Veio dizer-me que morava n'um baixo da rua Direita, e que se

chamava Anna do Carmo...

--Eu sou da sua ideia... isso era de alcofeira, que vinha saber se lhe

poderia entregar alguma cartinha d'aquelle fidalgo que mora á Victoria,

e que tem o nariz apurado para as moças como gato para boches. Ha de ser

isso...

--E olhe que não era outra cousa!...

--E eu até me parece que já o vi aqui passar uma noite.

--E eu tambem... Que signaes tem elle?

--É um pacabote baixo, com a carinha côr de cereja...

--É o mesmo, que eu vi, tem carinha côr de cereja, e os olhos a modo

de...

--São azues...

--É verdade, os olhos são azues... Era o mesmo em carne e osso... E

vmc.e viu-o entrar para lá?

--Não o juro; mas acho que entrou...

--Eu tambem não juro, mas parece-me que o vi entrar...

--Então é que entrou... Que horas eram?

--Meia noite, mais quarto, menos quarto.

--Era elle... foi ha de haver quinze dias... tia Bernarda...

--Ha quinze dias... é isso mesmo... por signal...

--Que estava vmc.e no hospital, tia Joaquina, e não podia vêr o que se

passava na rua--interrompeu uma terceira, que estava fiando a um

postigo.

--Quem a chama cá?--disse a velha desmentida.

--Não posso ouvir murmurar com mentira... nem me parece catholica!

--Ora metta lá a sua religião no pucaro e coma d'ella, ouviu, sua

intromettida?

--Quem não quer ouvir não mente descaradamente.

--E que lhe importa a visinhança?

--E vmc.e que lhe importa aquella senhora que está mansa e quêda em sua

casa?

--Se come por ella, ganhe a sua vida lá como podér, e deixe conversar

quem conversa! Que lhe parece, tia Bernarda! sempre ha cada estafermo

n'este mundo!...

--Isso ha!...--disse a tia Bernarda, retirando-se para o estanco a pesar

dez reis de simonte.

--Estafermo será ella!--replicou a honesta fiadeira.

--Cale-se ahi, sua trapalhona!

--E vossê... sua lingua de trapos!

--Desavergonhada!

--Estupor!

--Bebeda!

--Pangaia!

--Feiticeira!

--Ladra!

--Ladra é vossê!

--E vossê come pela filha!

--E vossê quando casou já comia pelas suas, e tem quatro que não

conhecem os paes!

--Ladra, ladra, ladra!

--Bebeda! bebeda! bebeda!

A tia Joaquina rematou a apóstrophe, erguendo-se, e corcovando-se um

pouco com as costas para a visinha, e assentando tres palmadas que

provocaram esta resposta do postigo:

--Fóra porca! regateira! vai vender sardinhas, grandississima beberrona!

Abriu-se uma janella de Rosa, e appareceu a cabeça do sobrinho do senhor

Antonio da rua das Flores, como nol-o denunciou a desbocada Joaquina. Já

não veio a tempo. O dialogo edificante emmudecera, e o observador correu

a vidraça, dizendo:

--Não vi ninguem, minha senhora...

--É uma terrivel visinhança esta!--disse Rosa--estou anciosa pelo S.

Miguel para occupar o meu predio da rua do Almada...

--Tem razão, minha senhora; o bêco é detestavel... Tornando á nossa

conversação, disse-me v. s.ª que não conhecia meio nenhum de obstar ao

casamento d'aquelle reloucado!

--Eu, pelo menos, ignoro os sortilegios que desmancham as loucuras d'um

velho...

--Não ha meio de dissuadir a sua amiga?

--Já lhe disse que não, senhor Augusto, essa pessoa nem é minha amiga,

nem é docil para ceder a instancias de ninguem. O que ella quer é ser

rica, e a occasião que se lhe offerece agora, é a mais propicia ao

complemento das suas ambições.

--É admiravel que ella, habituada com v. s.ª, não aprendesse a nobreza

de caracter, e independencia com que a senhora D. Rosa repelliu a

fortuna de meu louco tio!

--Bem vê v. s.ª que eu, se não sou rica, herdei a independencia, e Maria

Elisa julgou pessimamente a minha alma. Suppoz-me capaz de lhe retirar a

mão generosa que a tirára da servil condição de orphã... Quer tambem ser

rica...

--V. s.ª desde creança mostrou um coração nobre. Lembra-se, ha quatro

annos, quando pedia a meu tio que me deixasse ir para Coimbra estudar?

--Lembro, perfeitamente... e elle enganava-me, dizendo-me que sim, e por

fim...

--Tinha-me traiçoeiramente preparado a minha ida para o Brazil, para se

vêr livre das exigencias de minha pobre mãe, e irmã d'elle, que lhe

pedia um subsidio para a minha formatura.

--E como pôde depois v. s.ª obter os meios para ir estudar, independente

do subsidio de seu tio?

--Com o trabalho. Como sei francez, traduzo novellas, que vendo a um

livreiro de Lisboa, e do escasso producto d'este trabalho fiz a minha

independencia. Algumas dividas contrahi, na esperança de ser um dos

herdeiros da riqueza de meu tio. Quando cheguei ao Porto, e me disseram

que esse homem casava com uma orphã, pensei que era v. s.ª a feliz ou a

infeliz destinada a essa gloria ou a esse sacrificio. Resolvi logo, em

nome de minha mãe, e em nome da nossa amizade de infancia, vir

supplicar-lhe que não tolhesse o nosso futuro, visto que v. s.ª era

rica. E vinha cheio de esperança, na certeza de movel-a em nosso favor.

Desgraçadamente enganei-me; mas, de todo o meu coração lhe digo que

estimo vêl-a livre d'um perigo tal. Com a sua formosura, com a sua

intelligencia, seria barbara a escravidão a tal velho, que o ouro, e só

o ouro fez digno de vincular uma mulher nova áquelle quasi cadaver.

Faz-me lembrar os supplicios de Mezencio!...

D'este arrazoado bem se vê que o senhor Augusto Leite, estudante do 2.º

anno juridico, traduzia novellas, e conservava alguma cousa de memoria.

Rosa, tocada no sentimentalismo, respondeu:

--Commoveu-me a sua narração, senhor Augusto! Espero acredite que me

amarguram os seus padecimentos, e déra quanto possuo para minorar-lh'os.

Eu não me esqueço de que foi v. s.ª a unica pessoa de sua familia, que

me não enjoava com os tregeitos, momices e impertinencias d'uma baixa

educação. Sua mãe, que raras vezes vi, parecia-me uma celeste creatura.

Muitas vezes me disse que tremia de me vêr n'aquella casa, porque eu era

o instrumento com que seu irmão ameaçava destruir os planos de seus

sobrinhos. Ella enganou-se, e elle tambem. Eu só posso ser escrava,

quando a escravidão me fizer rainha. Olhei sempre com enjôo para esse

velho, e por fim detestei-o... Hoje, porém, chego a lamental-o, porque

vai ser um ludibrio de sua mulher. Quem ha de vingal-o, senhor Augusto,

é Maria Elisa. A indole d'ella conheço-a eu perfeitamente. Seu tio vai

ser a fabula do povo, e a sua nova tia ha de deixar nome; mas não

deixará bens de fortuna que tirem da miseria os seus herdeiros...

--Quanto é suave ouvil-a fallar, senhora D. Rosa! Quem diria que o tenro

botão abriria do seu seio uma linda flôr, com taes perfumes!...

--Muito agradecida, senhor Augusto... Eu tenho deixado fallar o coração,

e creio que acreditará na extremosa vontade que tenho de ser

prestavel...

--V. s.ª é uma divindade. Minha mãe virá abraçal-a como abraçaria... uma

filha. Eu retiro-me com o coração embalsamado das suas palavras, e

entrei com elle atravessado de agudos punhaes. As suas expressões são

como a lyra do Orfeu, que adormecem as dôres, ou como a harpa de David

que acalentava as tribulações de Saul! (_extracto da_ LUIZA OU A CABANA

DO DESERTO_, pag. 26._) Ninguem diga que é verdadeiramente infeliz. Ha

anjos, encarregados de cobrirem de flôres os espinhos que nascem sobre a

carreira de alguns mortaes! (_este é de pag. 31, de_ SOPHIA OU A

DONZELLA HOUZARD_, e não presta para nada hoje; mas n'aquelle tempo

tinha novidade._) V. s.ª é um d'esses anjos, e eu sou o mortal que

mereceu á Providencia Divina a benefica assistencia dos seus desvelos!

(OS SYBARITAS OU OS SUBTERRANEOS DE PIOMBINO_, pag. 41._) Se os meus

labios não tem ardentes phrases, o meu coração arde em penas de serem

frios os labios! (O HEROISMO DO AMOR_, pag. 202._) Finalmente, não a

importuno mais. Dê-me v. s.ª as suas ordens. (_Isto agora é d'elle._)

--Espero que me faça muito recommendada a sua mãe, á qual offereço a

minha casa; e v. s.ª, dignando-se honrar-me com a estima que outr'ora

lhe mereci, muito me obsequeia vindo aqui passar alguns instantes de

conversação.

--Eu tenho a honra de offerecer a v. s.ª as novellas que tenho

publicado. Se fossem minhas, não me atreveria a tanto; mas, como são de

bons authores, e apenas tem de meu a incorrecta versão...

--Penhora-me muito com a sua offerta, que acceito, grata á sua mimosa

lembrança. Eu amo a leitura das novellas, e quando, nas que me offerece,

estão vestigios da sua applicação, muito mais grata me será essa

leitura.

--Serei eu o portador, se me der licença.

--Mais valiosa prenda devo reputal-a...

--Ás ordens de v. s.ª

--Muito boas tardes... Joaquim, acompanha este cavalheiro.

--Sem incómmodo, minha senhora.

--Permitta...

--Por quanto ha...

--Eu não consinto que vá só... não sabe as sahidas...

--Oh! minha senhora, é muito desvelo...

--É um dever... oh!...

--Ah! minha senhora... é muito...

--Não consinto...

--Por quem é...

--Muitos recados a sua mãe...

--Ha de presal-os infinitamente...

--Senhor Augusto...

--Senhora D. Rosa Guilhermina...

Emfim, despediram-se! Estavam bonitos! O tio e o sobrinho tocavam-se

pelos extremos.

Rosa Guilhermina olhando-se a um espelho para ajuizar do merito da sua

pessoa, momentos antes, dizia comsigo:

--Eis alli um perfeito mancebo! Ninguem dirá que é sobrinho d'aquelle

bruto! Como é sublime! Aquella linguagem toca!...

Vamos vendo que a filha do arcediago dançava facilmente quando a

linguagem tocava...

Faz ella muito bem. Está na flôr da sua idade, e Deus não lhe deu os

talentos para escondel-os na terra. O seu coração anceia um confidente;

o seu espirito ambiciona applausos, a sua alma não veio tão cheia de luz

para se esconder debaixo do meio alqueire. N'esta especialidade, raras

são as mulheres que não obedecem ao preceito do Evangelho. Se faltam a

muitos outros, é porque o homem divino, que conhecia a fragilidade da

creatura, dissera: «A carne do homem é fraca.» Ora, eu, pelos vastos

conhecimentos que tenho de anatomia, affirmo que a carne da mulher não é

mais forte.

E, por consequencia, se a senhora D. Rosa Guilhermina me dissesse:

--Vmc.e faz favor de me dizer se devo embalsamar com meus perfumes

aquelle gentil moço, que me parece um genio?

--Embalsame-o, minha senhora; perfume-o á sua vontade (lhe responderia

eu), e quando não tiver incenso, nem myrrha, sirva-se d'aquella offerta

dos tres reis, que a historia do tempo pôz em primeiro logar...

CAPITULO XVIII

Se eu bem lh'o dissesse, ella melhor o faria.

A indignação contra Elisa, n'essa tarde, cedeu o logar a novas

sensações. A litterata punha a mão sobre o peito, e dizia: «Eu tenho

aqui alguma cousa nova!»

E parece que tinha!

Lembrava-se de cinco situações, em varios romances, similhantes á sua.

Encontrava-se a cada passo com a imagem de Augusto Leite. Achava

extraordinaria a coincidencia de dous espiritos sublimes. Divinisava

aquelle encontro, lançando ás largas costas da Providencia a

predestinação de se verem creanças, e encontrarem-se na idade em que os

corações não resistem ao superior destino da sua união. Não ha nada como

a mulher espirituosa!

O futuro bacharel da sua parte não era tão metaphysico. Quando procurou

Rosa já trazia na carteira um calculo aproximado do patrimonio da sua

companheira de infancia. E depois que a ouviu, indagou as cousas de modo

que o calculo não lhe falhava em 3$200. Era um poeta da força de quatro

dromedarios em prosa villã. Tirem-lhe o francez, e ponham-lhe dezoito

arrobas de carne, terão o seu digno tio Antonio José da Silva.

Na manhã immediata a senhora D. Custodia Hermenegilda da Silva,

acompanhada de seu filho, e tres novellas vieram visitar a filha do

arcediago. O academico depôz respeitoso a offerta nas mãos (que não

chamo lindas, porque não minto) da agradecida menina.

As mil cousas da conversação, particularmente ácerca de Elisa,

resumil-as-hemos na ultima pergunta, que D. Custodia, passeando no

jardim a sós com D. Rosa, lhe fez emquanto seu filho, de proposito,

folheava os romances da poetisa.

--Porque se não casa, menina? Precisa quem administre a sua riqueza,

quem lhe sirva de companhia, e lhe mereça o seu bom coração. Casar pobre

é uma desgraça; mas na sua situação, o casamento deve ser a felicidade

de toda a vida. A tal não a aconselho eu com um homem estragado. Eu sou

um triste exemplo d'essa leviandade. Meu marido era um letrado, muito

sabio, o melhor advogado do Porto, mas o mais extravagante homem que

imaginar-se póde. Casei contra vontade de minha familia, e por isso,

quando meu marido dissipou a minha legitima e a d'elle, deixando-me por

herança este filho que tanto me tem custado a educar, meu avarento irmão

negou-me um subsidio para ajudar a formatura de seu sobrinho. Nasci em

casa rica, e tenho sempre vivido pobre. Minha irmã Angelica é uma beata

estupida, que nem irmã me quer chamar. Estas e mil outras infelicidades

me tem obrigado a amaldiçoar a hora em que casei: mas... se me lembro de

meu marido, que era um doudo infeliz, não lhe amaldiçôo a memoria.

--E se eu deparasse um homem como seu marido?

--Não dê esse passo cegamente, menina. Estude bem o caracter dos homens,

e, quando encontrar um como meu filho, case-se, que é venturosa, e dá a

ventura a um mancebo digno d'ella... Vejo-a pensativa!... Eu não lhe fiz

pergunta nenhuma, senhora D. Rosa, a que a menina deva responder com a

côr na face... Estou certa que v. s.ª, conhecendo a fundo as virtudes de

meu filho, seria a primeira a chamar-me mãe... e, se as circumstancias a

privaram de conhecer a sua, acharia em mim... Que sobresalto é esse?!

Sente-se opprimida? Foi por lhe fallar em sua mãe?... desculpe-me, que

eu não cuidei que a magoava...

--Não me magôa... Isto são reminiscencias da infancia...

--Conheceu a mãesinha?

--Mal me lembro... vi-a, sendo eu creança de seis ou sete annos...

--Ella já morreu?

--Penso... que sim...

--Que prazer não teria ella em conhecel-a tão linda, tão esperta...

--Talvez me odiasse, como me odiou...

A Filha do Arcediago Terceira Edição · 第 8 / 18 段