eu sou algum unhas... Está enganada de meio a meio. Eu sou sovina com
quem me parece; mas com a que ha de ser minha mulher dou muitas graças a
Deus por ter muito que gastar com ella, assim Deus nos dê saude para o
gosar. Então que me diz?
--Digo que o pente é riquissimo, e que estou muito penhorada dos seus
generosos sentimentos para comigo.
--Não ha de quê. O que eu quero é que a menina se porte bem, e não dê
que murmurar ás linguas damnadas... Eu cá me entendo...
--Farei tudo que em mim caiba por merecer um bom conceito de toda a
gente.
--É o que se quer. Ora diga-me, qual gosta mais, de viver na aldeia ou
na cidade?
--Na cidade. Eu não gosto da aldeia; e v. s.ª gosta?
--Deixemo-nos de _senhorias_; o melhor é _tu_ cá, _tu_ lá, não lhe
parece, menina?
--Eu pedia-lhe licença para por emquanto não tomar a liberdade de lhe
dar tal tratamento. V. s.ª póde tratar-me como lhe aprouver.
--Pois então lá como quizer. Eu cá acho mais não sei que no coração se
lhe dér um _tu_.
--Pois satisfaça o seu coração, que eu tenho muita gloria em merecer-lhe
esse novo signal de estima.
--Pois então ahi vai... Com que então tu não gostas da aldeia? Estás-te
a rir? Pois olha que eu gostava da aldeia, e, desde que me disseste que
não gostavas, a fallar-te a verdadinha pura, tanto se me dá, como se me
deu. Como te vi assim a modo de poeta, pensei que gostavas de ouvir
cantar os passaros, que é a mania dos poetas, que todos fallam em
rouxinoes, e não sei em que outros passarôlos que se chamam graças, ou
garças, e zephyros, e não sei que mais ninhadas e aves, que ninguem
conhece, penso eu. Vós lá sabeis essas cousas... Olha como ella se
ri!... Eu bem sei porque tu te ris, minha cachorrinha!... Eu já sei que
tu botas sonetos...
--Eu?... que graça!... eu não sou poeta.
--Não? antes assim. Isto de ser poeta não é lá grande cousa. Pelos
modos, o miôlo dos taes patavinas não regula bem... Eu sempre tive cá
minha birra com homens que fazem d'isso. Ha de haver nove annos que fui
a Lisboa, e vi lá um poeta, chamado... assim a modo de... era um nome
estrangeirado...
--Bocage?
--Tal e qual; era o tal Bocage; estava no Rocio, á porta d'um
botequineiro, e eu passava, e disse-me um meu amigo: queres vêr o...
o... como era?
--Bocage.
--O Bocage... agora não me ha de esquecer... e vai elle olha para mim,
muito sério, e bota-me um soneto que não sei que diabo dizia, que toda a
gente se riu... Acho que o tal Borrage...
--Bocage.
--Valha a breca o tal nome, que tem que se lhe diga! Acho que elle era
tôlo, e os outros não tem mais juizo que elle... Pois muito folgo saber
que a minha esposa não é poeta... Ora diz-me: tu sabes alguma cousa cá
d'estas cousas do ar?
O senhor Antonio fez, sobre a cabeça, um gesto com as mãos, que poderia
significar uma pergunta de honestidade equivoca.
--Que são cousas do ar?
--Sim... perguntava eu se sabias alguma cousa dos planetas...
--Astronomia? Tenho lido alguma cousa.
--Então has de saber quando está para vir chuva?
--Ainda não estudei essa parte. Eu penso que a chuva vem quando os
vapores condensados na atmosphera...
--É isso mesmo... Ora diz-me uma cousa que me tem dado que pensar. Lá em
cima na lua diz que anda gente como por cá?
--Penso que não ha certeza d'esse phenomeno.
--D'esse?...
--Phenomeno...
--Se te não custa diz-me o que é isso? é algum planeta?
--Nada, não é... Phenomeno é uma maneira de existir na ordem natural das
cousas, manifestada de modo que as leis dos systemas conhecidos não
attingem a lei que rege esses actos...
--Ah! agora entendi... Olha que tu sabes mais do que um frade loio que
ahi ha muito sabio, e que teve o descôco de dizer que a terra anda á
roda!... Que te parece a cavalgadura?
--Eu acho que elle disse scientificamcnte a verdade.
--Essa é boa! Pois se a terra andasse á roda, tambem nós andavamos
sempre com os focinhos pelo chão... Deixa-te d'isso...
--É illusão sua. Ha uma razão que nos sustenta na posição direita em que
estamos.
--Bem sei que são as costas das nossas cadeiras; mas, se a terra andasse
ao redor, cahiam as cadeiras comnosco.
--Não é essa a razão... É que todos os corpos pendem para o centro da
terra... é o que se chama lei da attracção.
--Ah! agora entendi... _todos os corpos sahem do centro da terra_...
--_Sahem_, não: _pendem_.
--Sim, _pendem para a lei da attricção_... Não te rias, que toda a gente
aprende quando não teve lá esses principios o latim, e da grammatica...
Cada qual tem o seu tráfego. Eu cá na minha officina do commercio sei
como os que sabem. Lá de rhetoricas não sei nada, a verdade deve
dizer-se; mas, se Deus quizer, tu has de dizer-me como é isto cá de
cima. Eu ás vezes ponho-me a olhar para esta machina, e fico estarrecido
horas e horas a vêr o que nós somos, e como o Creador fez tudo isto para
nós.
--Para nós? Eu não sei de que nos servem as estrellas...
--Não sabes? A fallar a verdade, eu tambem não; mas ouvi dizer que as
estrellas de alguma cousa servem.
--Tambem creio que sirvam; mas para nós não lhe vejo a utilidade.
--Então os livros não resam d'isso?
--Não achei ainda uma explicação precisa.
--Pois, minha Mariquitas, estão-se fazendo horas de ir ao jantar.
Deixamos isto para outro dia, que não ha de faltar occasião de fallarmos
a respeito da sabedoria. Vê lá se queres alguma cousa...
--Não preciso de nada.
--Ámanhã é a primeira corrida de banhos... De ámanhã a quinze dias
effectua-se o negocio; e ficámos arrumados d'aqui. Adeus, menina, até
ámanhã.
O senhor Antonio sahiu, com o espirito remoçado, e a cabeça aturdida de
ideias novas sobre astronomia. Contente, como nunca, o milagre de vinte
annos de menos não daria ás suas pernas trôpegas a agilidade com que o
viram passar nas Fontainhas.
Mal elle tinha sahido, quando Rosa Guilhermina entrou no pateo, e pediu
á porteira que lhe chamasse Maria Elisa.
A resposta foi que a senhora D. Maria Elisa não recebia a visita da
senhora D. Rosa, porque não queria envergonhal-a com as suas relações.
A filha do arcediago instou, supplicou, fez empenhar a regente para que
a orphã lhe fallasse. A regente, porém, que não queria importunar a
noiva de Antonio José da Silva, antigo mesario da casa, negou-se ás
instancias da lagrimosa menina.
Dera-se um forte motivo para a recusa teimosa de Elisa. Quando ao
despedir-se do negociante, subia para a casa da regente, entregaram-lhe
no caminho um bahú e uma chave. Elisa entendeu que eram os seus
vestidos, que a attribulada amiga lhe mandava. Abriu o bahú para tirar
um chaile, e viu tudo espedaçado. A indignação coincidiu com a vinda de
Rosa, e Rosa, arrependida, correra ao Recolhimento para estorvar a
entrega do bahú.
Era impossivel a reconciliação. Á ultima impertinencia de Rosa
Guilhermina, a orgulhosa respondeu que podia já dar-lhe algum dinheiro
por conta do que lhe devia, e remetteu-lhe a sacca com as cem peças que
lhe deixára o negociante.
A filha de Anna arrojou-as ao chão, e sahiu furiosa, promettendo
vingar-se da nova villania.
Maria Elisa ficou satisfeitissima d'aquelle rasgo, e sentiu, pela
primeira vez na sua vida, que, sem dinheiro, ninguem póde ter rasgos,
nem mesmo póde contar com que romancistas futuros se entretenham da sua
pessoa.
Oh meu caro Antonio José! tu de astronomia não sabias muito; mas tinhas
d'aquella cousa que faz descer os astronomos cá para baixo!
CAPITULO XVII
--Quem é aquelle peralvilho que bate á porta da D. Rosa?
Temos namoro, se dermos ouvidos á tia Bernarda Estanqueira, que mora na
viella do Bomjardim, e que tem um ôlho na balança do simonte, e o outro,
que por signal é vêsgo, na porta da filha do arcediago.
--Que berzabum de escanellado será aquelle, que parece que traz
espartilhos! Valha-o a breca que tão tezo está! Aquillo não me parece
homem cá do Porto! Parece mesmo um comediante d'aquelles que berram umas
cantigas na casa das operas da Batalha... Ó tia Joaquina! (_a tia
Joaquina era uma visinha, que estava dobando ao sol_) vmc.e não vê acolá
aquelle ingarilho que já puxou duas vezes a sineta?
--Já vi.
--Conhece aquella avantesma que me parece mesmo o peccado?
--Conheço... ora se conheço!... Aquelle é o sobrinho do senhor Antonio
da rua das Flores, que me tem dado muito pãosinho. Quando eu ia d'antes
levar-lhe os novellos do algodão, aquelle menino era caixeirinho na
casa; mas pelos modos elle agora estuda para doutor.
--Sim? pois olhe que d'aquelle magricellas não póde sahir grande doutor!
Acho que um homem assim não tem boas as memorias, nem sustancias para
saber lá aquellas cousas da justiça... Elle lá entrou... Quer vmc.e vêr
que a delambida da rapariga anda de namoro com elle!...
--Agora!... Se fosse isso, elle não entrava assim ao pino do meio dia...
acho eu!
--Boa vai ella!... Pois vmc.e pensa que as raparigas d'agora são como as
do nosso tempo? Diz o fr. Manoel do Sancto Lenho, dos carmelitas, que já
não ha vergonha nem temor das penas do inferno!... E quer que lhe diga,
tia Joaquina? Quanto mais fidalgas, mais desavergonhadas!... Inda hontem
a minha Euzebia, que está em casa d'uma certa fidalga que vmc.e sabe tão
bem como eu, me contou que a sua ama estava com um inglez á janella a
dar-lhe beijos, e que elle lhe dava beliscões nas pernas. A minha
Euzebia deu fé d'esta pouca vergonha, sem querer; e a fidalga tambem viu
que a rapariga deu fé; e disse-lhe depois: «Euzebia, nós cá as fidalgas
podemos fazer isto que viste; e vós outras plebeas, não, porque não
tendes nada senão a vossa honrasinha.» Ora que lhe parece isto? dá mesmo
vontade de lhe responder: «Vá-se d'ahi, sua porca; se vossa excellencia
tivesse o miolo no seu logar não consentia que lhe estivesse um herege
lá do fim do mundo a beliscar as pernas, e a pôr-lhe os beiços no
cachaço!» Fora com as libertinas!
--Tem razão, tia Bernarda... a religião é cá só para as pobres. As ricas
o que querem é ir á igreja mostrar os aceios... Disse outro dia um
prégador na Victoria, que a casa de Deus estava sendo uma feira, e que
nosso Senhor pozera as _pelicanas_ fóra do templo... As _pelicanas_ são
as fidalgas... Olhe lá... aquella sumelga, que alli mora, será fidalga?
--Acho que sim. O pae era o senhor arcediago de Barroso, e a mãe ouvi
rosnar que era uma das taes _pelicanas_...
--Consta que tem muito de seu.
--Muitos bragaes, muita prata, não sei quantas moradas de casas, e uma
quinta em Paranhos... Que comer não lhe falta; mas acho que a respeito
disto (_pondo o dêdo na testa_) não regula lá grande cousa... Veio aqui
ha dias á minha loja uma mulher de mantilha, ainda frescalhona, e
perguntou-me muitas cousas a respeito da tal rapariga. Quem entrava,
quem sahia, se ella andava pela rua, se tinha muitos aceios, em fim, eu
fiquei com a pedra no sapato, e cá de mim para mim entendi que aquillo
era uma refinada alcayota. Tambem hei de saber quem tu és--disse cá com
os meus botões--e mandei, assim que ella sahiu, o meu galleguito atraz
d'ella. Veio dizer-me que morava n'um baixo da rua Direita, e que se
chamava Anna do Carmo...
--Eu sou da sua ideia... isso era de alcofeira, que vinha saber se lhe
poderia entregar alguma cartinha d'aquelle fidalgo que mora á Victoria,
e que tem o nariz apurado para as moças como gato para boches. Ha de ser
isso...
--E olhe que não era outra cousa!...
--E eu até me parece que já o vi aqui passar uma noite.
--E eu tambem... Que signaes tem elle?
--É um pacabote baixo, com a carinha côr de cereja...
--É o mesmo, que eu vi, tem carinha côr de cereja, e os olhos a modo
de...
--São azues...
--É verdade, os olhos são azues... Era o mesmo em carne e osso... E
vmc.e viu-o entrar para lá?
--Não o juro; mas acho que entrou...
--Eu tambem não juro, mas parece-me que o vi entrar...
--Então é que entrou... Que horas eram?
--Meia noite, mais quarto, menos quarto.
--Era elle... foi ha de haver quinze dias... tia Bernarda...
--Ha quinze dias... é isso mesmo... por signal...
--Que estava vmc.e no hospital, tia Joaquina, e não podia vêr o que se
passava na rua--interrompeu uma terceira, que estava fiando a um
postigo.
--Quem a chama cá?--disse a velha desmentida.
--Não posso ouvir murmurar com mentira... nem me parece catholica!
--Ora metta lá a sua religião no pucaro e coma d'ella, ouviu, sua
intromettida?
--Quem não quer ouvir não mente descaradamente.
--E que lhe importa a visinhança?
--E vmc.e que lhe importa aquella senhora que está mansa e quêda em sua
casa?
--Se come por ella, ganhe a sua vida lá como podér, e deixe conversar
quem conversa! Que lhe parece, tia Bernarda! sempre ha cada estafermo
n'este mundo!...
--Isso ha!...--disse a tia Bernarda, retirando-se para o estanco a pesar
dez reis de simonte.
--Estafermo será ella!--replicou a honesta fiadeira.
--Cale-se ahi, sua trapalhona!
--E vossê... sua lingua de trapos!
--Desavergonhada!
--Estupor!
--Bebeda!
--Pangaia!
--Feiticeira!
--Ladra!
--Ladra é vossê!
--E vossê come pela filha!
--E vossê quando casou já comia pelas suas, e tem quatro que não
conhecem os paes!
--Ladra, ladra, ladra!
--Bebeda! bebeda! bebeda!
A tia Joaquina rematou a apóstrophe, erguendo-se, e corcovando-se um
pouco com as costas para a visinha, e assentando tres palmadas que
provocaram esta resposta do postigo:
--Fóra porca! regateira! vai vender sardinhas, grandississima beberrona!
Abriu-se uma janella de Rosa, e appareceu a cabeça do sobrinho do senhor
Antonio da rua das Flores, como nol-o denunciou a desbocada Joaquina. Já
não veio a tempo. O dialogo edificante emmudecera, e o observador correu
a vidraça, dizendo:
--Não vi ninguem, minha senhora...
--É uma terrivel visinhança esta!--disse Rosa--estou anciosa pelo S.
Miguel para occupar o meu predio da rua do Almada...
--Tem razão, minha senhora; o bêco é detestavel... Tornando á nossa
conversação, disse-me v. s.ª que não conhecia meio nenhum de obstar ao
casamento d'aquelle reloucado!
--Eu, pelo menos, ignoro os sortilegios que desmancham as loucuras d'um
velho...
--Não ha meio de dissuadir a sua amiga?
--Já lhe disse que não, senhor Augusto, essa pessoa nem é minha amiga,
nem é docil para ceder a instancias de ninguem. O que ella quer é ser
rica, e a occasião que se lhe offerece agora, é a mais propicia ao
complemento das suas ambições.
--É admiravel que ella, habituada com v. s.ª, não aprendesse a nobreza
de caracter, e independencia com que a senhora D. Rosa repelliu a
fortuna de meu louco tio!
--Bem vê v. s.ª que eu, se não sou rica, herdei a independencia, e Maria
Elisa julgou pessimamente a minha alma. Suppoz-me capaz de lhe retirar a
mão generosa que a tirára da servil condição de orphã... Quer tambem ser
rica...
--V. s.ª desde creança mostrou um coração nobre. Lembra-se, ha quatro
annos, quando pedia a meu tio que me deixasse ir para Coimbra estudar?
--Lembro, perfeitamente... e elle enganava-me, dizendo-me que sim, e por
fim...
--Tinha-me traiçoeiramente preparado a minha ida para o Brazil, para se
vêr livre das exigencias de minha pobre mãe, e irmã d'elle, que lhe
pedia um subsidio para a minha formatura.
--E como pôde depois v. s.ª obter os meios para ir estudar, independente
do subsidio de seu tio?
--Com o trabalho. Como sei francez, traduzo novellas, que vendo a um
livreiro de Lisboa, e do escasso producto d'este trabalho fiz a minha
independencia. Algumas dividas contrahi, na esperança de ser um dos
herdeiros da riqueza de meu tio. Quando cheguei ao Porto, e me disseram
que esse homem casava com uma orphã, pensei que era v. s.ª a feliz ou a
infeliz destinada a essa gloria ou a esse sacrificio. Resolvi logo, em
nome de minha mãe, e em nome da nossa amizade de infancia, vir
supplicar-lhe que não tolhesse o nosso futuro, visto que v. s.ª era
rica. E vinha cheio de esperança, na certeza de movel-a em nosso favor.
Desgraçadamente enganei-me; mas, de todo o meu coração lhe digo que
estimo vêl-a livre d'um perigo tal. Com a sua formosura, com a sua
intelligencia, seria barbara a escravidão a tal velho, que o ouro, e só
o ouro fez digno de vincular uma mulher nova áquelle quasi cadaver.
Faz-me lembrar os supplicios de Mezencio!...
D'este arrazoado bem se vê que o senhor Augusto Leite, estudante do 2.º
anno juridico, traduzia novellas, e conservava alguma cousa de memoria.
Rosa, tocada no sentimentalismo, respondeu:
--Commoveu-me a sua narração, senhor Augusto! Espero acredite que me
amarguram os seus padecimentos, e déra quanto possuo para minorar-lh'os.
Eu não me esqueço de que foi v. s.ª a unica pessoa de sua familia, que
me não enjoava com os tregeitos, momices e impertinencias d'uma baixa
educação. Sua mãe, que raras vezes vi, parecia-me uma celeste creatura.
Muitas vezes me disse que tremia de me vêr n'aquella casa, porque eu era
o instrumento com que seu irmão ameaçava destruir os planos de seus
sobrinhos. Ella enganou-se, e elle tambem. Eu só posso ser escrava,
quando a escravidão me fizer rainha. Olhei sempre com enjôo para esse
velho, e por fim detestei-o... Hoje, porém, chego a lamental-o, porque
vai ser um ludibrio de sua mulher. Quem ha de vingal-o, senhor Augusto,
é Maria Elisa. A indole d'ella conheço-a eu perfeitamente. Seu tio vai
ser a fabula do povo, e a sua nova tia ha de deixar nome; mas não
deixará bens de fortuna que tirem da miseria os seus herdeiros...
--Quanto é suave ouvil-a fallar, senhora D. Rosa! Quem diria que o tenro
botão abriria do seu seio uma linda flôr, com taes perfumes!...
--Muito agradecida, senhor Augusto... Eu tenho deixado fallar o coração,
e creio que acreditará na extremosa vontade que tenho de ser
prestavel...
--V. s.ª é uma divindade. Minha mãe virá abraçal-a como abraçaria... uma
filha. Eu retiro-me com o coração embalsamado das suas palavras, e
entrei com elle atravessado de agudos punhaes. As suas expressões são
como a lyra do Orfeu, que adormecem as dôres, ou como a harpa de David
que acalentava as tribulações de Saul! (_extracto da_ LUIZA OU A CABANA
DO DESERTO_, pag. 26._) Ninguem diga que é verdadeiramente infeliz. Ha
anjos, encarregados de cobrirem de flôres os espinhos que nascem sobre a
carreira de alguns mortaes! (_este é de pag. 31, de_ SOPHIA OU A
DONZELLA HOUZARD_, e não presta para nada hoje; mas n'aquelle tempo
tinha novidade._) V. s.ª é um d'esses anjos, e eu sou o mortal que
mereceu á Providencia Divina a benefica assistencia dos seus desvelos!
(OS SYBARITAS OU OS SUBTERRANEOS DE PIOMBINO_, pag. 41._) Se os meus
labios não tem ardentes phrases, o meu coração arde em penas de serem
frios os labios! (O HEROISMO DO AMOR_, pag. 202._) Finalmente, não a
importuno mais. Dê-me v. s.ª as suas ordens. (_Isto agora é d'elle._)
--Espero que me faça muito recommendada a sua mãe, á qual offereço a
minha casa; e v. s.ª, dignando-se honrar-me com a estima que outr'ora
lhe mereci, muito me obsequeia vindo aqui passar alguns instantes de
conversação.
--Eu tenho a honra de offerecer a v. s.ª as novellas que tenho
publicado. Se fossem minhas, não me atreveria a tanto; mas, como são de
bons authores, e apenas tem de meu a incorrecta versão...
--Penhora-me muito com a sua offerta, que acceito, grata á sua mimosa
lembrança. Eu amo a leitura das novellas, e quando, nas que me offerece,
estão vestigios da sua applicação, muito mais grata me será essa
leitura.
--Serei eu o portador, se me der licença.
--Mais valiosa prenda devo reputal-a...
--Ás ordens de v. s.ª
--Muito boas tardes... Joaquim, acompanha este cavalheiro.
--Sem incómmodo, minha senhora.
--Permitta...
--Por quanto ha...
--Eu não consinto que vá só... não sabe as sahidas...
--Oh! minha senhora, é muito desvelo...
--É um dever... oh!...
--Ah! minha senhora... é muito...
--Não consinto...
--Por quem é...
--Muitos recados a sua mãe...
--Ha de presal-os infinitamente...
--Senhor Augusto...
--Senhora D. Rosa Guilhermina...
Emfim, despediram-se! Estavam bonitos! O tio e o sobrinho tocavam-se
pelos extremos.
Rosa Guilhermina olhando-se a um espelho para ajuizar do merito da sua
pessoa, momentos antes, dizia comsigo:
--Eis alli um perfeito mancebo! Ninguem dirá que é sobrinho d'aquelle
bruto! Como é sublime! Aquella linguagem toca!...
Vamos vendo que a filha do arcediago dançava facilmente quando a
linguagem tocava...
Faz ella muito bem. Está na flôr da sua idade, e Deus não lhe deu os
talentos para escondel-os na terra. O seu coração anceia um confidente;
o seu espirito ambiciona applausos, a sua alma não veio tão cheia de luz
para se esconder debaixo do meio alqueire. N'esta especialidade, raras
são as mulheres que não obedecem ao preceito do Evangelho. Se faltam a
muitos outros, é porque o homem divino, que conhecia a fragilidade da
creatura, dissera: «A carne do homem é fraca.» Ora, eu, pelos vastos
conhecimentos que tenho de anatomia, affirmo que a carne da mulher não é
mais forte.
E, por consequencia, se a senhora D. Rosa Guilhermina me dissesse:
--Vmc.e faz favor de me dizer se devo embalsamar com meus perfumes
aquelle gentil moço, que me parece um genio?
--Embalsame-o, minha senhora; perfume-o á sua vontade (lhe responderia
eu), e quando não tiver incenso, nem myrrha, sirva-se d'aquella offerta
dos tres reis, que a historia do tempo pôz em primeiro logar...
CAPITULO XVIII
Se eu bem lh'o dissesse, ella melhor o faria.
A indignação contra Elisa, n'essa tarde, cedeu o logar a novas
sensações. A litterata punha a mão sobre o peito, e dizia: «Eu tenho
aqui alguma cousa nova!»
E parece que tinha!
Lembrava-se de cinco situações, em varios romances, similhantes á sua.
Encontrava-se a cada passo com a imagem de Augusto Leite. Achava
extraordinaria a coincidencia de dous espiritos sublimes. Divinisava
aquelle encontro, lançando ás largas costas da Providencia a
predestinação de se verem creanças, e encontrarem-se na idade em que os
corações não resistem ao superior destino da sua união. Não ha nada como
a mulher espirituosa!
O futuro bacharel da sua parte não era tão metaphysico. Quando procurou
Rosa já trazia na carteira um calculo aproximado do patrimonio da sua
companheira de infancia. E depois que a ouviu, indagou as cousas de modo
que o calculo não lhe falhava em 3$200. Era um poeta da força de quatro
dromedarios em prosa villã. Tirem-lhe o francez, e ponham-lhe dezoito
arrobas de carne, terão o seu digno tio Antonio José da Silva.
Na manhã immediata a senhora D. Custodia Hermenegilda da Silva,
acompanhada de seu filho, e tres novellas vieram visitar a filha do
arcediago. O academico depôz respeitoso a offerta nas mãos (que não
chamo lindas, porque não minto) da agradecida menina.
As mil cousas da conversação, particularmente ácerca de Elisa,
resumil-as-hemos na ultima pergunta, que D. Custodia, passeando no
jardim a sós com D. Rosa, lhe fez emquanto seu filho, de proposito,
folheava os romances da poetisa.
--Porque se não casa, menina? Precisa quem administre a sua riqueza,
quem lhe sirva de companhia, e lhe mereça o seu bom coração. Casar pobre
é uma desgraça; mas na sua situação, o casamento deve ser a felicidade
de toda a vida. A tal não a aconselho eu com um homem estragado. Eu sou
um triste exemplo d'essa leviandade. Meu marido era um letrado, muito
sabio, o melhor advogado do Porto, mas o mais extravagante homem que
imaginar-se póde. Casei contra vontade de minha familia, e por isso,
quando meu marido dissipou a minha legitima e a d'elle, deixando-me por
herança este filho que tanto me tem custado a educar, meu avarento irmão
negou-me um subsidio para ajudar a formatura de seu sobrinho. Nasci em
casa rica, e tenho sempre vivido pobre. Minha irmã Angelica é uma beata
estupida, que nem irmã me quer chamar. Estas e mil outras infelicidades
me tem obrigado a amaldiçoar a hora em que casei: mas... se me lembro de
meu marido, que era um doudo infeliz, não lhe amaldiçôo a memoria.
--E se eu deparasse um homem como seu marido?
--Não dê esse passo cegamente, menina. Estude bem o caracter dos homens,
e, quando encontrar um como meu filho, case-se, que é venturosa, e dá a
ventura a um mancebo digno d'ella... Vejo-a pensativa!... Eu não lhe fiz
pergunta nenhuma, senhora D. Rosa, a que a menina deva responder com a
côr na face... Estou certa que v. s.ª, conhecendo a fundo as virtudes de
meu filho, seria a primeira a chamar-me mãe... e, se as circumstancias a
privaram de conhecer a sua, acharia em mim... Que sobresalto é esse?!
Sente-se opprimida? Foi por lhe fallar em sua mãe?... desculpe-me, que
eu não cuidei que a magoava...
--Não me magôa... Isto são reminiscencias da infancia...
--Conheceu a mãesinha?
--Mal me lembro... vi-a, sendo eu creança de seis ou sete annos...
--Ella já morreu?
--Penso... que sim...
--Que prazer não teria ella em conhecel-a tão linda, tão esperta...
--Talvez me odiasse, como me odiou...