A ideia philosophica, em uma mulher, começa aos vinte e cinco annos, e

acaba aos quarenta e cinco. Até aos vinte e cinco, domina a poesia, dos

quarenta e cinco para diante, se não domina a theologia, ha de

forçosamente dominar a toleima, que os vocabularios definem «tolice

grande». Isto não é maxima, que valha as de _Larochefoucauld_; mas é, no

seu tanto ou quanto, uma maxima que deve aproveitar a muita gente.

Maria Elisa, porém, fôra demasiado temporã na razão da philosophia.

Anticipou-se, é verdade; mas veremos que não abortou por vir cedo de

mais. Os grandes pensamentos tem cincoenta annos de incubação nas

entranhas da sociedade. Terão: não duvido nada; mas o maior pensamento,

que se conhece, é o de Elisa em casar com o senhor Antonio, e vingou em

cincoenta minutos.

As perguntas de Rosa mortificavam-na.

A ciumosa amiga custava-lhe a crêr similhante extravagancia; mas a

importancia grave que Maria Elisa estava dando ás perguntas zombeteiras,

que lhe eram feitas, aggravou a desconfiança de sua amiga.

Por esquivar-se ás impertinentes instancias da arrufada Rosa, a noiva,

em perspectiva, refugiou-se nas chufas ao promettido esposo, e conseguiu

dissuadir a amiga, que foi tão facil em descrêr como tinha sido em

irritar-se por um ciume extravagante.

Quando emprégo a palavra «ciume» não se persuadam que a filha do

defuncto arcediago era rival d'Elisa. Justiça lhe seja feita: D. Rosa

era rival do senhor Antonio. Como estas cousas são, não me importa a mim

sabel-o. Ha no coração de duas mulheres muito amigas puerilidades assim,

segundo me consta.

Maria Elisa pensou na aventura toda a noite.

Para neutralisar a cubiça do luxo, e da independencia, a ambiciosa

pequena afigurava-se ligada ao senhor Antonio, carnal e positivamente

como Deus o atirára a este mundo. Punha de parte o dinheiro, afastava o

crepe dourado, para vêr o cadaver em todo o horror das ulceras; mas o

demonio tentador não lhe pintava uma cousa sem lhe pintar a outra. Pelo

habito de imaginal-o familiarisou-se com elle, e já lhe não parecia tão

repulsivo. E, se declinava os lindos olhos do homem para a opulencia

embrionaria no ouro d'elle, a philosophica menina via cousas

lindissimas, e deslumbrava o coração esquivo com as liberalidades que a

cabeça lhe promettia.

E, no mais caloroso do seu delirio, via um marido velho, e uma riqueza

pósthuma a gosar, e um coração, cheio de vida, a offerecer.

Foi esta a final conclusão dos seus raciocinios, que ella não deixou

escriptos em compendio para uso dos collegios de meninas; mas que,

depois d'ella, temos visto que foram adoptados, e que fazem hoje as

delicias das educandas. Os bons príncipios teem isso comsigo.

O dia seguinte correu sem novidade.

O outro foi um dia triste para ambas as meninas.

Elisa parece que se esquivava á sua amiga. Rosa ensaiou uma pergunta

definitiva; mas não ousou proferil-a.

Ao terceiro dia, uma carta do senhor Antonio José da Silva foi causa de

grandes dissabores. O conteúdo era assim:

«_Senhora D. Maria Elisa._

_Porto, 24 de abril de 1818._

_«Minha senhora do meu coração e da minha particular estima. Faz hoje

tres dias que fallamos em certo negocio a respeito da nossa união. Muito

desejava eu saber, para meu governo, se v. s.ª está resolvida a dar-me a

sua mão de esposa. Estes negocios não devem demorar-se. Eu já lhe disse

o que lhe tinha a dizer. Por motivos, que á vista lhe direi, estou

deliberado a casar-me o mais breve. Soube que v. s.ª sympathisava

comigo, e eu da minha parte não desgosto da sua pessoa. Por isso, se

houver de se fazer este casamento, ha de ser já, quando não com bem

desgosto do meu coração procurarei outra que tenha as boas qualidades da

menina. Peço-lhe que responda com brevidade. Mande no seu serviço este

que é e será até á morte_

_De v. s.ª_

_Attento venerador e criado obrigado,_

_Antonio José da Silva._»

Está conforme o original, excepto a grammatica, a pontuação, e a

orthographia.

Maria Elisa, não podendo illudir as instancias de Rosa, sem lêr a carta,

ralatou a seu modo o conteúdo. Vejam que a vaidade não a deixava já

expor ao escarneo da sua amiga a redacção do capitalista! Por mais que a

curiosa teimasse, não conseguiu julgar do coração do seu antigo amante

pela eloquencia da carta!

Perseguida, cansada de fingir, exhausta de pretextos, Elisa disse á sua

companheira de dous annos:

--Eu amo-te muito, minha querida amiga. És a primeira e a unica pessoa a

quem consagrei a minha alma, e todos os instantes da minha existencia,

que não será longa, longe de ti; mas não posso contar com o teu apoio

toda a vida. Preciso de ser independente, como tu és, para bem avaliar

as tuas generosidades. A verdadeira e duradoira amizade firma-se na

independencia...

--Olha que me ultrajas, Elisa! Eu fiz-te nunca sentir a tua dependencia?

--Fizeste.

--Fiz! isso é uma mentira, que me escandalisa!

--Fizeste com os teus carinhos. Quanto mais procuravas esconder aos meus

proprios olhos os beneficios, que me fazias, mais os olhos do meu

coração se abriam, para vêl-os, e mais devedora me considerava aos teus

extremos. Quer Deus que eu seja o que não poderei ser de outra maneira.

Serei rica. Não digo que seja feliz; porque a ventura não a dá o ouro,

nem as lagrimas da saudade se enxugam com o dinheiro. Mas eu sou sempre

a tua amiga. Serás sempre a minha confidente. Serão reciprocas as nossas

casas, e as nossas riquezas. Viveremos tão juntas como até aqui. Terás,

mais ditosa que eu, um marido da eleição da alma. Serás venturosa, com

elle, e eu um dia... talvez... bem cedo... viuva, e rica... serei outra

vez a tua irmã, debaixo das mesmas telhas...

--Isso nunca!

--Nunca!... porquê?...

--Nunca!... Quem me não amou até hoje, virá depois offerecer-me riquezas

que despréso, e não preciso.

--Eu não virei offerecer-te riquezas, porque rica és tu. Virei outra vez

atar o fio que se vai quebrar entre os nossos corações, se é que a

separação de instantes é um laço de dous corações que se desata! Rosa,

não chores, que me comprimes o seio... Dá-me a tua mão... não sentes que

estas palpitações só tuas podem ser? Apraz-te martyrisar a tua amiga?

--Impostora!

--Impostora, eu, Rosa, e tens alma de me dizer tal? Não sentes o

remorso de tamanha offensa?

--Não! És uma ingrata, que me trocas pelo dinheiro d'um homem que eu

despréso.

--Porque és rica.

--D'um homem a quem chamavas os mais despresiveis nomes.

--Que hoje outra vez lhe dou.

--Então como podes tu sacrificar a tua vida a um ente abominavel?

--Porque não tenciono sacrificar-me... O escravo ha de ser elle.

--Não te entendo! O escravo ha de ser elle!... de que modo?

--Obrigal-o-hei a servir os meus caprichos.

--Quaes caprichos?

--Todos.

--Vaes ser uma esposa infiel?

--Não.

--Vaes ter carruagem, e vestidos ricos?

--Vou.

--E se te não dér carruagem, nem vestidos?

--Ha de dal-os.

--E se não dér?

--Divorcio-me... metade da sua riqueza é minha.

--E queres dar escandalo?

--Escandalo é ser pobre. Vejo-te hoje muito moralista.

--E tu pareces-me philosopha de mais.

--Antes isso.

--Que maneira de responder!

--É como a tua de perguntar... Não nos zanguemos, Rosinha. Sejamos boas

amigas. Aconselha-me que me case, que é a maior prova que pódes dar-me

da tua estima.

--Faz o que quizeres... és livre... Enganei-me comtigo... creei uma

vibora no meu seio.

--Isso é d'uma novella que nós lêmos ha dias. Nada de arrufos... Vamos

cear?

CAPITULO XV

RESPOSTA Á CARTA DO SENHOR ANTONIO JOSÉ DA SILVA

«_Ill.mo snr._

«_Hontem recebi a sua preciosa carta. O meu coração delirou de

contentamento, e a minha penna não póde fielmente interpretar os jubilos

do espirito._

«_Não se resiste aos seus carinhos. É-se arrastada involuntariamente para

a fascinação dos seus affectos. Deslumbra-se o entendimento, e

humilda-se o amor proprio na presença de v. s.ª_

«_Sim. Eu serei sua esposa, e satisfarei assim a mais incendiaria ambição

da minha alma. O matrimonio, porém, é de todos os passos o mais sério

passo da vida. Se resvala o pé, o casamento é o desfiladeiro, que conduz

ao tumulo. Eu mando calar a minha paixão. Faço que o cego amor emmudeça

para que a razão falle. Raciocinemos, pois, que assim é preciso._

«_V. s.ª já conhece bem o meu caracter? Creio que não. Eu não sou uma

mulher trivial. Tenho um grande coração para amar; mas o amor não é

suficiente alimento para elle. Sou ambiciosa de brilho, de ostentação,

de gloria, e não poderia fazer feliz um homem pobre, porque preciso

resplandecer aos olhos de meu marido e aos dos estranhos._

«_Este brilho, que ambiciono, não é um instrumento com que eu queira

ferir a minha honra, ou a honra de meu marido. Pelo contrario, humilde

para elle a quem devo tudo serei soberba da minha grandeza para todos os

outros. Se me quer para esposa, se me quer para dominar o seu

coração, e ser dominada no meu, é preciso que v. s.ª se comprometta, por

sua palavra de honra, a não embaraçar-me no livre gôso da riqueza que me

transmitte, desde o instante em que um eterno vinculo nos prender._

«_Eu sei que v. s.ª vive acostumado a uma mediania que não enquadra no

meu grande espirito. Não vá esse fatal habito, no futuro, transtornar a

nossa tranquillidade. Reflexione, senhor Silva, emquanto é tempo; e

responda-me quando o coração concordar com as meditadas reflexões que

tem a honra de fazer-lhe esta que é_

«_De v. s.ª_

«_Muito affectuosa amante, e attenta veneradora,_

«_Maria Elisa Sarmento de Athaide.»_

O senhor Antonio leu tres vezes a carta e entendeu o essencial. Uma das

maiores difficuldades que zombaram da sua intelligencia foi a mais

simples das cousas: a assignatura.

--Como é (dizia elle) que ella se chama _Sarmento de Athaide_, se seu

pae era Joaquim Nunes, e sua mãe Michaela Felisberta? Isto, pelos modos,

cada qual assigna-se como quer! Pois eu hei de morrer, como nasci...

Estas sensatas reflexões foram interrompidas pela senhora Angelica.

--Já recebeste resposta, Antonio?

--Agora mesmo.

--Ora lê lá isso.

O noivo leu a carta, que sua irmã ouviu com a bôca aberta, franzindo a

testa a cada palavrão, que seu mano não entendia melhor que ella.

--Está uma carta d'uma vez!--disse a senhora Angelica, abrindo os olhos

para o lado da testa, e apanhando com os seus tres dentes, resto de

maior quantia, o beiço inferior, em signal de admiração--Isso é que é

fallar! O diacho da rapariga parece que tem cousa má! Aquillo é que é

uma cabecinha! Diz que bota sonetos, e lê pelos livros grandes dos

doutores! Ora vejam lá como a boa da pequena, sabe estas palavras, e diz

tudo que faz mesmo pasmar!... É um regalo ouvir essa carta... Ora lê lá

outra vez, meu querido Antoninho, que tens uma noiva de toda a

sabedoria!

O senhor Antonio leu quinta vez a sublime carta.

--Com effeito!--tornou a senhora Angelica--eu aposto se um doutor a

fazia melhor! A pequena parece que veio ensinada da barriga da mãe...

Cousa assim não consta!... Nunca vi nada mais bonito! Então isso que

quer dizer?

--Pois tu não entendeste?

--Assim me Deus salve que não.

--Isto quer dizer, sim... quer dizer que... é verdade, isto quer dizer,

que me tem uma grande affeição da sua alma, e que está prompta a ser

minha esposa...

--Coitadinha!... Isso já eu sabia... eu não t'o disse? Ora vê lá como as

cartas fallam verdade! Bem dizia a Escolastica de Miragaya que a igreja

te sahia brevemente... E não diz mais nada a minha cunhadinha?

--Diz que quer muito vestido, e muita... sim, diz que quer muita

grandeza para metter figas nos olhos...

--Á Rosa? bem haja ella! Eu cá tambem fazia o mesmo!... Pois olha,

Antonio, por ser cousa tua hei de dar-lhe o meu vestido de vareja branca

com lentejoulas para o casamento, e as plumas que minha madrinha me deu,

que lhe hão de ficar ás mil maravilhas. O vestido não tem mais que

pôr-lhe meias mangas, e subir a cintura para cima, que no mais está na

moda, custou-me a quatro mil reis a vara... daquella fazenda ha mais de

trinta annos que cá não vem tão boa... E que mais diz a carta? não me

manda visitas?

--Não... esqueceu-se...

--Pois, se lhe escreveres, diz-lhe da minha parte que muito estimo que

seja minha cunhada, e que havemos de ir ambas visitar o Senhor, e resar

a novena do menino Jesus dos attribulados, e muitas devoções. Diz-lhe

mais que faça por ter saude, e que peça a nossa Senhora que lhe dê muita

juizo e graça para servir a Deus... Ouviste?

--Ouvi, sim, vai pôr o jantar na mesa.

Entretanto, o senhor Antonio ficou sósinho passeando, e traduzindo para

vulgar a carta de Maria Elisa. O seu espirito, posto que d'uma

parcimonia admiravel no entendimento das cousas, custava-lhe a combinar

a cega paixão de Elisa com as calculadas condições que lhe eram

estipuladas em contracto de casamento. Todavia o negociante combinava a

carta com o que ella pessoalmente lhe fizera sentir acerca de carruagens

e assembleias, e deduzia de tudo que a rapariga queria figurar.

O senhor Antonio era rico, muito rico, mas avarento não. Nunca lhe

occorrera a ideia de gastar dinheiro em competencia com alguns seus

collegas que figuravam na roda dos fidalgos. Se desejasse deslumbral-os,

não olharia a despezas. Mas o coração não lhe pedia essas cousas, e

muito menos a carruagem, cujo balanço (dizia elle) não podia dar grande

saude aos bofes d'um homem gordo. O orgão que o senhor Antonio

respeitava mais na sua economia eram os bofes, de que se queixava pondo

a mão no estomago. Naturalmente suppunha que tinha o figado no peito.

Era um erro de anatomia desculpavel. Eu proprio, que já tive a honra de

vos dizer que sei tudo e mais alguma cousa, não tenho absoluta certeza

da collocação do figado, supposto que fui em anatomia estudante

profundo, a ponto de querer provar que o duodeno (tripa de doze

pollegadas) tinha, pelo menos, trinta e duas braças. E ainda hoje estou

n'isto, diga lá o que disser Bichat, e Soares Franco. Em consequencia do

que, tinha muita razão o senhor Antonio em recear que o balanço da

carruagem lhe prejudicasse os bofes situados no estomago. Mas a senhora

D. Maria Elisa de Sarmento Athaide lêra nos livros que a carruagem era

hygienica, e o senhor Antonio renunciára, como vimos, o pensamento do

carroção.

O jantar do senhor Antonio, n'este dia, foi rapido e pequeno, porque ao

coração refluira-lhe quasi toda a sensibilidade do estomago. O senhor

Antonio limitou-se a comer obra de arratel e meio de cozido da perna,

uma travessa de arroz com rodellas de linguiça, uma concava pelangana de

carneiro ensopado com batatas, uma tigela de chorudo caldo com sôpas que

se levantavam entumecidas quatro pollegadas acima do nivel da tigela, um

quarto de ceira de figos de comadre, alguns copos de vinho á proporção,

e mais nada. A senhora Angelica, assustada do fastio de seu irmão, pouco

mais comeu. O amor espiritualisára a organisação do nosso amigo o senhor

Antonio José. Mais tres dias d'esta quasi abstinencia de anachoreta, e o

sensivel negociante, um pouco pallido, e outro pouco meditabundo,

poderia sem favor, ser tido e havido como a preexistencia d'estes

rapazes, que nós conhecemos, e lamentamos na sua desesperação de amantes

não comprehendidos na face da terra!

--Ai! quem me dera poder-vos dizer que o senhor Antonio, á hora

melancólica do crepusculo, fixava o ôlho lagrimoso na amplidão dos céos,

espreitando o fulgor da estrellinha que o enamorava de lá!

Eu daria de graça este meu romance, se podésse, em estylo scintillante

umas vezes, e outras morbido, afiançar-vos que o senhor Antonio José da

Silva fôra poisar a sua redonda pessoa na fraga de-á-beira-mar, e ahi

com os olhos no horisonte, e os bofes arquejantes, perguntára á gaivota

gemebunda o segredo dos seus gemidos!

Não é possivel, leitores. O senhor Antonio o mais que pôde fazer, no

auge da paixão, foi comer assim. Não exijam mais d'aquelle homem, porque

d'ahi ao suicidio vai só um passo.

Antonio José da Silva, meu sympathico heroe, tu passaste sobre a terra,

e a tua geração não te comprehendeu!

Tu nasceste para estes nossos dias de angustiosa provação, de sentimento

fino, de doloroso trespasse d'uma civilisação material para o reinado do

espirito.

Se vivesses hoje, serias ordeiro, e visconde; terias ido ás camaras

fallar na cultura da cebola-albarrã, e na estrada concelheira de

Guinfões e Terras de Bouro; comerias biscoutos na assembleia portuense,

e pedirias a palavra na associação commercial, para dizeres que eras um

honrado negociante. E não ficaria aqui a tua missão grandiosa. Se

morresse algum homem, rei do talento, e creador d'uma litteratura,

serias tu o encarregado de dar a tua ideia para um monumento que

perpetuasse a gloria d'essa illustração![3]

Antonio José, vieste cedo de mais! Eu lembro-me de ti com saudades (e

mais não tive a honra de conhecer-te) todas as vezes que vejo a tua alma

cavalgando o nariz dos meus contemporaneos!

Lembro-me de ti, especialmente, quando me vejo a braços com uma paixão

séria, e não sinto cá dentro ferir-me o toque inspirador com que tu,

depois de jantar, respondias assim á carta de Maria Elisa Sarmento de

Athaide:

«_Ill.ma snr.ª_

«_Porto, 27 de abril de 1818._

«_Sem tempo para mais, recebi a sua estimada cartinha, que veio muito a

proposito, porque eu já não estava bom. Vejo o que me diz, e a respeito

de tudo não tenho nada a dizer contra. Eu não sou d'esses sovinas que

são capazes de engulir, á hora da morte, o dinheiro, como certos

avarentos que eu conheço. A menina não ha de ter falta de cousa nenhuma;

ponto é que tenha juizo, e que saiba conduzir-se. O que eu tenho seu é,

e de mais ninguem. Gostei muito de a ouvir discorrer na sua carta, e

fallou bem a respeito do matrimonio. Eu gosto de quem me entenda, e, a

respeito do mais, deixe o negocio por minha conta. Logo que esteja

resolvida, botam-se os banhos, e faz-se isto depressa, que é o melhor.

Sem mais, sou_

«_De v. s.ª_

«_Vosso amante do coração_,

«_Antonio José da Silva._»

Maria Elisa leu sósinha, com frouxos de riso, esta carta. O estimulo do

riso cedeu ao da meditação. Momentaneamente, a melancolia ennuviou o

semblante da pensativa menina. Parece que estava sentindo vergonha ou

piedade de si. O pensamento de quebrar com uma gargalhada aquellas

relações, assaltou-a duas vezes; mas o pensamento de ter carruagem e um

bello futuro por detraz da campa de seu marido, assaltou-a tres vezes, e

venceu por um assalto, posta a sua alma a votos.

Rosa Guilhermina, desde o dia anterior, não lhe fallava. Esta demazia de

aspereza concorreu muito para a definitiva resolução do casamento,

porque o seu orgulho dizia-lhe que os amuos de Rosa eram o effeito da

dependencia. De mais a mais a colerica filha da Anna do Carmo tinha-lhe

dito que tal casamento não seria feito em sua casa. Que sahisse ella

para onde quizesse, porque, no momento em que annuisse a tal infamia,

terminavam de todo em todo as suas antigas relações. Isto foi de mais:

mas a filha da Anna do Carmo tinha uma costella de sua mãe, e essa

costella vencera, na questão, as vinte e tres de seu pae.

O portador da carta esperava a resposta.

Maria Elisa, passada uma hora de lucta, dolorosa talvez, respondeu

assim:

«_Não tenho nada que esperar. Póde dar como resolvido o nosso casamento.

Cumprirei a minha palavra, quando v. s.ª quizer. Eu recolho-me hoje

mesmo ás orphãs._»

Depois, entrou no quarto de Elisa, com os olhos rasos de lagrimas,

talvez as menos inteligiveis de todas as lagrimas de que tenho fallado:

--Rosa, acabo de decidir definitivamente o meu casamento. Cumprindo as

tuas ordens, venho despedir-me de ti.

--Estimarei que sejas feliz.

--Devo considerar acabadas as nossas relações de amizade?

--Deves.

--Menos as da gratidão, porque te sou muito devedora.

--Dou-te paga e quitação d'essa divida. Não quero mesmo ser tua credora,

porque me envergonho.

--E eu tambem... e cada vez mais. Hei de avaliar a dinheiro os teus

favores, e darei á Sancta Casa da Misericordia esse dinheiro, por tua

tenção.

--Basta! Eu não admitto escarneos! Basta de affrontas!

--Cada vez agradeço mais á Providencia a inspiração de me casar...

adeus...

Rosa Guilhermina pensou alguns minutos, arrependeu-se, e correu a

procurar a sua amiga para pedir-lhe perdão d'um accesso de cólera, filho

do amor. Já a não viu. Tinha sahido com a sua criada, e deixára um

bilhete com estas linhas:

«_Não levo os vestidos de meu uso, porque não são meus. Comprou-os com o

seu dinheiro a senhora D. Rosa Guilhermina. Deixo-os para serem

avaliados, e descontados depois no saldo das nossas contas._»

A filha de Anna do Carmo, outra vez atacada de raiva, foi aos vestidos,

e rasgou-os com mãos e dentes, praguejando.

Que taes eram as bichas!

CAPITULO XVI

Não conheço palavra que vos dê uma cabal ideia da sensação suavissima

que atravessou até ao coração os tecidos adiposos do senhor Antonio,

quando os seus olhos peccadores leram o bilhete de Maria Elisa. A ultima

linha, porém, essa que declara a entrada da noiva no recolhimento,

fendeu no peito do alvoroçado negociante um vesuvio d'amor, misturado de

orgulho, por se vêr amado d'uma donzella, que tão nobre amostra dava da

sua virtude.

Cinco minutos depois que Elisa entrára, com grande pasmo e má vontade da

regente, era procurada na portaria pelo rico negociante, muito conhecido

n'aquella casa, em virtude dos cargos importantes que tivera na Sancta

Casa da Misericordia. A pedido do senhor Antonio, a regente acompanhou a

menina á grade em que era esperada pelo mais ditoso dos mortaes.

Trocados de parte a parte os cumprimentos, o festival Antonio José da

Silva abriu assim a questão do momento:

--Senhora regente, não sei se essa menina já lhe disse que será

brevemente minha esposa.

--Nada, ainda não... E estava calada com isso? Receba os meus parabens,

minha ruimzinha, que me fez cabellos brancos com as suas travessuras...

Elisa sorriu-se, e o noivo atalhou:

--Creancices... tudo tem o seu logar. Agora ahi onde a vê é uma mulher

de tino, que sabe o que lhe convém, e não dá ouvidos a tôlas... Eu cá me

entendo... Pois, senhora, como lhe vinha dizendo, trata-se o nosso

casamento, que ha de fazer-se, querendo Deus, o mais tardar quinze

dias... Esta menina veio outra vez para aqui lá por cousas que ella

sabe, e fez ella muito bem... Com doudos nem para o céo... Eu cá me

entendo... Acho que por poucos dias não será necessario arranjar casa cá

dentro, e eu venho pedir á senhora regente o favor e obsequio de m'a ter

na sua companhia, que eu hei de saber-lhe agradecer de modo que...

--Pois não, senhor Silva!? Não só isso, mas tudo o mais que estiver ao

meu alcance... O que eu sinto é não ter um palacio para lhe offerecer;

mas a boa vontade supprirá as faltas.

--Muito agradecida, senhora regente--disse Elisa, entristecendo-se a

ponto de lhe tremerem as lagrimas nos olhos.

--Que tem, minha menina, chora, quando vai ser tão feliz?

--Nada... eu não choro...

--São saudades da sua amiga Rosa?

--Não, minha senhora... eu não tenho saudades de amiga nenhuma.

--Diz muito bem...--acudiu o jucundo negociante--Saudades são

seccuras... ora adeus! Saudades de quê? A menina, não precisa de

ninguem... Eu vou ser seu marido, e seu pae, e seu amigo. Não lhe ha de

faltar nada, e não ha de faltar quem se morda de inveja... eu cá me

entendo... Então fiquemos certos no pedido que lhe fiz?

--Já disse, e repito, senhor Silva; na minha companhia só não prometto a

esta menina o impossivel de fazer-se n'estas casas para estar bem...

Ella já sabe como é o recolhimento, e não estranhará as faltas...

--De certo não estranho, minha senhora; isto hoje parece-me mais bello

que nunca. Hei de gosar, na sua preciosa companhia, deliciosos

momentos...

--Mais deliciosos ha de ir gosal-os depois na companhia do senhor Silva,

que é um homem honrado, e que sabe dar valor ao merecimento da menina.

--Isso póde ella estar certa, que se a não tratar melhor é porque não

sei... Ora pois, senhora regente, eu queria fallar em particular com a

minha futura esposa.

--Eu retiro-me, senhor Silva. Fique na certeza de que serei como tia

d'esta menina.

--Ora, minha cara menina--disse o negociante logo que a regente sahiu--é

necessario preparar os seus arranjos para o casamento. Eu não sei lá

d'esses enfeites de noiva, senão eu seria o proprio comprador. A menina

mande chamar costureiras, e ourives, e lá essa gente que vende as

trapalhadas. Aqui deixo cem peças; sendo necessario mais, não tem senão

escrever-me um bilhete... Tambem lhe quero offerecer uma prenda, que me

não pareceu fóra de proposito: é um pente de diamantes, que lhe ha de

dizer bem com o cabello, acho eu.

--Agradecida.

A Filha do Arcediago Terceira Edição · 第 7 / 18 段