caretas que a sua amiga fazia.
--Então ella ahi vem com os latinorios... Vou-me embora, com a graça de
Deus.
--Espere, senhora D. Angelica--disse Maria Elisa com burlesca
formalidade.--Muito ha, ditosa irmã do mais ditoso Adonis, que eu
suspirava por apascentar meus famintos olhos no manjar succulento das
rosadas faces do snr. Antonio José da Silva, vosso mano, e querido meu.
Vi-o uma vez. Vêl-o e amal-o foi obra d'um momento. Nunca mais meus
olhos tristes provaram os carinhosos afagos de Morpheu. De noite era
elle o meu pensamento; de dia o meu pensamento era elle; elle era de dia
e de noite o sangue das minhas veias, o fogo ardente do meu coração, o
nome mais appetitoso da minha lingua, e a lingua mais eloquente da minha
alma.
--Está douda!... Resmungou a velha, voltando-se para Rosa.
--Douda!--disse Elisa--douda d'amor! Cupido, que me varaste o coração de
ervada setta, porque não feres o coração de Antonio José?
--Está apaixonada por elle...--murmurou Rosa ao ouvido de Angelica, que
principiava a acreditar a naturalidade daquella dôr sublime.
--Será verdade, Rosinha?
--Não vê como ella soluça.
Maria Elisa retirava-se com o lenço nos olhos para esconder o riso, na
janella.
--Ella viu meu irmão?
--Viu, no pateo do recolhimento; e desde esse instante falla
constantemente no objecto dos seus votos, que é seu irmão.
--Coitadinha!... É preciso dizer-lh'o a elle, que não vá a rapariga dar
volta ao miôlo.
--Diga-lhe algumas palavras animadoras, snr.ª Angelica.
--Venha cá, minha menina; a troco d'isso não se afflija, que tudo se ha
de fazer pelo melhor, com o favor de Deus...
--Não me illuda, senhora! Não ponha mel nas bordas da taça, que tem ao
fundo o amargo absyntho! A minha paixão é incuravel como a gôta!
--Coitadinha!... por causa da paixão tem gôta! que pena! tão novinha já
com gôta.
--Com gôta, sim! eu com gôta na primavera dos meus dias!
--Pois ella costuma atacar mais no inverno...
--Com gôta na aurora da infancia, no crepusculo do amor... Com gôta
eu!... por causa de um ingrato Narciso! Miseranda Ecco!
--Então o tal Narciso que lhe fez? O Narciso é algum cirurgião que a não
soube tratar, pelos modos... Pois, minha filha, não chore. Eu vou já
d'aqui fallar com meu irmão, e veremos como se arranja isto do melhor
modo. Ponto é que não esteja cá arrumado para a Rosinha...
--Cruel rival!--disse (á parte) Elisa, com a melhor das caretas
imaginaveis.
--Injusta! Eu cedi-t'o, e os deuses sabem que sacrificio fiz cedendo a
mão do snr. Antonio!
--Bem me parecia a mim, que andava aqui alguma mastigada!... Agora vejo
eu porque não queria casar com meu irmão, snr.ª Rosinha... É uma boa
amiga da sua amiga. Deixe estar, menina, que talvez ainda sejamos
cunhadas... E, com isto, vou-me embora que são horas... adeus...
--Vá, mensageira d'amor!--disse Elisa--Propicios céos meus votos
abençoem, e os seus desvelos galardoem.
Ausente Angelica, seguiu-se uma tremenda gargalhada, em que estalaram os
espartilhos ás duas azougadas moças.
CAPITULO XIII
Dous ou tres dias depois (parece-me que foram tres: aquillo de que eu
não estou bem certo não affirmo), ás onze horas da manhã, mais minuto,
menos minuto, estava á porta da snr.ª D. Rosa Guilhermina Taveira, o
snr. Antonio José da Silva limpando o suor, e puxando para o abdomen o
coz do rebelde collête de velludo preto, que lhe marinhava em rofêgos
pelo estomago.
Arranjadas assim as cousas do seu logar, o negociante puxou a campainha,
e perguntou se podia fallar á snr.ª D. Rosa. Responderam-lhe que a
menina estava na cama curando uma constipação. Disse que queria fallar á
snr.ª D. Maria Elisa, e mandaram-no subir, o que elle fez, puxando, com
ambas as mãos, o indomavel collête, que subia a ponto de descobrir o coz
das ceroulas, as quaes rebentavam comprimidas pela arquejante barriga de
seu dono.
Esperou alguns minutos, que lhe não foram penosos, porque os aproveitou
mirando-se em um espelho de sala pendurado defronte da sua cadeira.
Conversando com a sua imagem, o snr. Antonio perguntou a si proprio se
era elle por ventura o venturoso amado que apaixonára a amiga de Rosa a
tal ponto que a virtuosa Angelica (apesar da lingua damnada da Anna
Canastreira) escrupulisava, não esgotando da sua parte todos os esforços
para que elle Antonio José annuisse, como homem e christão que era, ao
suspirado casamento.
Esta era a primeira parte do monologo do negociante. A segunda, porém,
era mais dramatica. O homem tinha pundonor como outro qualquer.
Despresado pela filha do arcediago (que Deus tenha em sua sancta gloria)
resignára-se, mas não se esquecia do ultraje immerecido. Pensára muito
na vingança; mas não sabia com que armas nobres devia vingar-se. Se elle
quizesse desforrar-se com deshonra para a sua consciencia, não lhe
faltariam occasiões como a que tivera, pouco antes, na qualidade de
amigo intimo do curador dos orphãos. Quizesse elle, e Rosa não sahiria
do recolhimento. Mas o snr. Antonio José da Silva era um homem honrado,
temente a Deus, supposto que peccador, e incapaz de vingar-se vilmente.
O desforço, que elle ambicionava, devia ser cavalheiroso, e digno de
especial menção no romance, que, trinta annos depois, devia occupar-se
da pessoa do snr. Antonio, digna, a todos os respeitos, de fazer gemer
os prélos, e dar consumo ao papel das nossas fabricas, interesse
duvidoso aos editores, e não sei que migalhas a mim, humilde apologista
de todos os Antonios, maiores que o seu seculo, e credores da
immortalidade.
Era chegada, pois, a occasião d'este appetecido desforço. O negociante
era amado, e amado pela intima amiga de Rosa, tão nova e tão gentil como
ella. Antonio José da Silva, dispensador de graças do seu munificente
coração, prodigalisaria extremos á sua amante ditosa, na presença da
despresada ingrata, que se morderia de raiva. Ostentaria caprichosamente
os seus ardores de amante e marido no sumptuoso luxo de sua mulher. Rosa
_ficaria levadinha da breca_ (esta phrase é d'elle genuina) quando não
podesse _hombrear com os calcanhares da outra_. Ora aqui está no que
pensava o snr. Antonio, durante os cinco minutos que esperou na sala,
não lhe esquecendo de conter nos seus justos limites o collête, que
parecia de borracha, porque apenas se via livre dos dedos impertinentes
de seu dono, saltava logo para o pescoço, deixando mal velado o
promontorio das regiões adjacentes, por não dizer sempre barriga, que é
uma palavra que me destôa, e fere os ouvidos pudicos do sexo por
excellencia.
No decurso de cinco minutos, que faziam as duas amigas? Estavam
perturbadas pela surpreza de similhante visita.
Nem se lembravam já da scena burlesca em que a snr.ª Angelica promettera
apiedar seu irmão a favor da delirante Elisa. A vinda inesperada
suscitou-lhes a desconfiança de que o snr. Antonio vinha colerico e
enfurecido, reprehendel-as da galhofa com que receberam sua irmã, e
talvez ameaçal-as de que, por ordem do tutor, Rosa outra vez seria
obrigada a recolher-se, e de mais a mais separar-se da sua amiga.
A filha de Anna do Carmo não estava doente. Aquelle pretexto era o susto
da desconfiança que assaltou a ambas. Ora Maria Elisa, menos timida, ou
mais desenvolta, contra a vontade de sua amiga, não duvidou receber a
visita do snr. Antonio, e preparava-se para chalacear as suas iras, se
elle não viesse ás boas, como era de suppôr, ou ao menos a vaidosa Elisa
tinha a sem-ceremonia de vaticinar.
Depois arrependeu-se de o mandar subir; e perguntava a Rosa a maneira
decente de o despedir, sem ir á sala. N'esta consulta demoraram-se os
cinco minutos, e resolveram, por fim, que seria mais discreto ouvil-o, e
amacial-o, para que o maldito as não indispozesse com o tutor de modo
que as forçassem a uma cruel separação. Elisa, inferior á sua galhofeira
coragem, entrou acanhada na sala, justamente no momento em que o snr.
Antonio dava o ultimo puxão ao collête, e limpava a terceira camada de
suor que lhe envernizava as pandas bochechas.
O negociante ergueu-se, himpando, e levou ambas as mãos ao chapéo, que
apenas levantou da cabeça meio calva.
--Ha de dar licença que me cubra--disse elle--porque venho suado, e sou
atreito a catarrhos... Aqui corre o ar de encontro áquella porta, e não
é lá das melhores cousas para quem traz os póros abertos.
--Esteja a seu bel-prazer, e queira sentar-se--disse Elisa, suspeitando
ainda que, depois do brutal cumprimento, viria a trovoada dos brutaes
insultos.
--Então a Rosinha diz que está constipada?
--Bastante enferma. A minha amiga tem uma compleição melindrosissima.
--E pouco tino tambem. Quando ella esteve comigo era uma desacautelada;
levantava-se do calor da cama, e vinha com o saioto pela cabeça
acocorar-se na varanda a brincar com a gata... Diacho da gata! era tão
amiga d'ella que não viveu muito depois que a não viu em casa! Ha
bichos, que só lhe falta a razão, que no mais parecem mais amoraveis que
as proprias creaturas com alma! A boa da gata ia-se pôr á porta do
quarto d'ella a miar _miau_, _miau_, _miau_, e, a final de contas, não
queria comer, nem beber, até que appareceu morta no telhado do
visinho...
--Misera gata! que infeliz morte!
--Pois é verdade. Isto veio a respeito de dizer que a Rosinha está
constipada. Aquillo a respeito de cabeça não regula lá grande cousa, a
fallarmos a verdade.
--É uma excellente menina, cheia de virtudes...
--Eu não digo menos d'isso; mas de cá se vai a lá. Deixe-a ter mais dous
annos, e verá onde vai dar comsigo...
--Eu creio que ella saberá conter-se nos honestos limites que lhe são
demarcados pela honra, e pelo dever.
--Pois Deus a ouça; mas duvido. Pelo que me disse minha irmã, ella traz
na cabeça umas tolices que não hão de ter boa sahida. Inda não ha tres
mezes que sahiu do recolhimento, e já conhece não sei quantos namoros.
--Isso é uma injustiça, snr. Silva. A minha amiga Rosa Guilhermina não
tem namoro algum.
--Deixe-se d'isso, não a defenda, que eu cá sei tudo. Minha irmã
fallou-me n'um tal cadete chamado Liberato, ou Celibato, ou não sei que,
e um proprietario que tem o nome arrevezado assim a modo de Apparicio...
ou Sponselicio... uma cousa assim... finalmente, oxalá que eu me engane,
mas não lhe agouro bem... Emfim, quem mal fizer a cama, mal ha de
dormir. A pena que eu tenho é ser ella filha do meu amigo arcediago, que
Deus tenha na sua presença, que já lá sabe o bem e o mal que fez... Do
mais, deixal-a lá, que o mal se o fizer, para si o faz...
--Não se afflija. A minha amiga será digna do bom pae que a morte lhe
roubou, e não deshonrará jamais as cinzas paternas.
--Pois assim seja. Ora, menina, eu não sou d'esses bigorrilhas que dizem
palavras de mel, e sabem d'esses _circumloquios_ de trapalhadas com que
enganam as moças, e, a final de contas, não dizem nada. Eu sou um homem
chão... pau é pau, e pedra é pedra. O que sente o coração a bôca o diz,
e o que a bôca não diz não sente o coração. Ora aqui está. Os homens
entendem-se pelas palavras, e eu gosto de quem não está a fazer uma
grande mastigada de palavras bonitas para dizer o que se diz em duas
palavras. Eu venho aqui de proposito fallar com a menina, porque minha
irmã Angelica foi d'aqui, ha tres dias, e disse-me certas cousas que me
buliram no coração. Pelos modos a menina disse-lhe que se lhe não dava
de casar comigo...
--Eu?!
--Não se envergonhe de ter confessado os seus affectos. Eu gosto da
franqueza, e a gente muitas vezes perde por fallar de mais e fallar de
menos. Á menina bem sei que lhe ha de custar esta conversa; mas,
deixemo-nos d'essas _bijutarias_ do costume, eu estimei muito saber que
a menina gostára de mim...
--Eu... não disse que...
--Bem sei que não disse a cousa assim... Eu sei muito bem que a menina
tem uma maneira de dizer as cousas com outras palavras mais discretas;
mas o que é verdade diz-se com clareza, e eu sei entender as cousas.
Maria Elisa não previa similhante desfecho! A surpreza annullára-lhe por
momentos o sestro chocarreiro, e a confusa moça não sabia qual dos
partidos devia adoptar, se o da seriedade, se a brincadeira. De mais a
mais, a cabeça de Rosa apparecera-lhe n'este momento, entre as duas
portadas mal cerradas, e o riso, sua feição caracteristica, luctou
cruelmente com a seriedade zombeteira, que ella queria sustentar.
--Eu, a fallar-lhe a verdade--continuou o snr. Antonio, persuadido que o
silencio de Elisa era o natural pudor dos dezesete annos--a fallar-lhe a
verdade, pela terceira vez que a vejo, não desgosto da sua pessoa.
Quando a vi na grade do recolhimento fiquei sympathisando muito com as
suas maneiras, e gostei de a ouvir fallar, porque eu não sou homem de
estudos, mas sei dar valor ás cousas, e gosto de quem saiba dizer duas
palavras.
--Ditosa mulher aquella que viver sujeita ao seu dominio! Os vôos do seu
espirito não acharão fechados os vastos horisontes do talento, nos
penosos dissabores domesticos.
--Que é? agora não percebi bem...
--Dizia eu que será uma felicidade pertencer a v. s.ª
--Felicidade... isso vai da maneira de vêr as cousas cada um. O que lhe
posso desde já prometter é que não hei de dar-lhe penas.
--A mim?... Creio que não dará...
--Póde estar certa d'isso. Eu sei como se tratam as pessoas. A gente
póde gosar a sua riqueza sem andar á compita com as grandezas dos
fidalgos. Isso é que é asneira. Os fidalgos arruinam-se, e vivem por ahi
sabe Deus como, atraz de mim e dos outros, que lhes damos a juro o nosso
dinheiro, para as mulheres gastarem em velludos, assembleias, e
theatros. Dizia o meu amigo arcediago, que quem sahe fóra da sua classe
não tem classe nenhuma. É cá uma ideia que eu aprendi de cabeça, e acho
isto bem dito: _quem sahe fóra da sua classe não tem classe nenhuma_.
--É um axioma.
--Que é?
--É um axioma, uma maxima, uma eterna verdade.
--Isso é. Um negociante é um negociante, e um fidalgo é um fidalgo.
Andam ahi de carruagens uns tres cá da minha classe, que querem hombrear
com os fidalgos, e mais hoje ou mais amanhã verão onde vai parar o
negocio.
--Pois v. s.ª abomina a carruagem?
--É cousa em que nunca andei. Parece-me que aquillo não ha de dar grande
saude ao estomago! Tombo para aqui, tombo para acolá, quem fôr nutrido
como eu ha de por força soffrer dos bofes.
--Engana-se... A agitação, causada pelo balanço da carruagem, é
saudavel.
--Devéras?! acho que não!
--Queira acreditar-me. Eu tenho lido varios authores de medicina, que
recommendam o uso da carruagem ás pessoas nutridas, como meio de evitar
as apoplexias.
--Ah! a menina leu isso nos livros?
--Sim, senhor, e como pessoa que se interessa no seu bem-estar,
recommendo-lhe o uso da carruagem.
--E o carroção não fará o mesmo effeito?
--Creio que não: o carroção é mais moroso, menos agitado, mais
impertinente nos solavancos.
--Pois eu estava resolvido a mandar fazer um carroção, porque tenho uma
junta de bois na minha quinta de Lordello, e, visto o que me diz...
--Parecia-me que v. s.ª deveria possuir carruagem, já que os bens da
fortuna lh'o permittem.
--Lá isso tenho eu para mais; mas que diriam os meus visinhos se me
vissem de carruagem? Eram capazes de me apupar os tratantes!
--Deixe-se d'isso, senhor Silva. As suas commodidades são mais
attendiveis que a critica estupida dos seus visinhos. Ora diga-me: se
casasse com uma senhora debil, que precisasse de passear de carruagem
para entreter o espirito nas delicias do campo, v. s.ª não lh'a
compraria?
--Isso comprava; ponto é que minha mulher me fosse leal, e precisasse
d'ella, porque lá, por luxo, acho que era uma asneira sustentar uma
parelha de machos, e dois criados. E não será melhor uma cadeirinha, ou
uma liteira?
--Isso é antiquissimo!... De que serve o dinheiro, se o não fazemos
servir aos nossos prazeres?
--Diz bem; mas sempre é bom a gente gastar menos do que lhe rende o
negocio.
--Concordo; mas acho justo que se engrandeça a gente tanto quanto é
possivel.
--Pois a tal respeito fallaremos mais devagar. Agora é necessario que
tratemos da nossa união. Eu estou disposto a casar com a menina, já que
sympathisamos um com outro, segundo me disse minha irmã. A menina
faz-lhe conta casar comigo?
--Acha-me digna de si?
--Eu que lhe pergunto se quer casar é porque sympathiso com a menina.
--Sabe que eu não sou rica?
--Sei que não tem nada de seu. Conheci muito bem seu pae, que era
negociante, e quebrou com honra. Eu não lhe pergunto se é rica. Rico sou
eu, e tenho de sobra para que nos não falte nada. O que eu quero é quem
governe a minha casa, e herde os meus bens por minha vontade, porque o
que tenho não quero que vá parar a sobrinhos. Se lhe serve, o que ha de
fazer-se ao tarde faça-se ao cedo. Não tenho mais nada a dizer-lhe;
pense no negocio, e responda-me breve...
--Eu responderei...
--Está dito tudo. Dê cá recados á doente, e saiba que fico sendo seu
amigo.
........................................................................
O rico mercador de pannos retirou-se. D. Rosa veio a rir-se, ao encontro
de Elisa, e, vendo-a séria, perguntou-lhe:
--Tu não te ris, Elisa?
A litterata respondeu com o silencio e a seriedade.
--Em que pensas tão trombuda?--replicou Rosa.
--Em que penso?... eu sei cá em que penso!... Acho que não penso!...
--Aposto que te serve o noivo?!
--Estás a caçoar, Rosa!
ENTRE-PARENTHESIS
Oh benemerita philosophia! quão sublimes effeitos a humanidade
experimenta da tua sisuda influencia!
Oh candida filha do talento, irmã gemea da independencia, neta de Catão,
e parenta proxima dos Catões da minha terra, oh patusca philosophia, que
sancto prestigio tu exerces nas almas, desde que Diogenes arremessou a
escudela que lhe não servia de nada!
Oh philosophia das mulheres, tu és sobre todas a melhor das
philosophias! A teu respeito poderia eu escrever este capitulo XIII, que
ficaria sendo um capitulo de abalo no espirito publico, mas, não tenho
agora vagar, nem me lembra nada que se tenha escripto a respeito da
philosophia das mulheres.
Apesar da minha ignorancia n'este ramo (unico em que não sou profundo)
tentarei, indulgentes leitores, iniciar-vos na philosophia de Maria
Elisa, que foi, honra lhe seja, a mais fervorosa sacerdotisa do culto.
Nada mais boçal, mais rude, mais soez, mais detestavel que a figura, o
abdomen, o palavriado, o suor, e o collete, do senhor Antonio José da
Silva.
D'accordo.
Nada mais repulsivo que os seus tres papos, que as compressas dos
colleirinhos reduziam a seis rofêgos, parecidos com o intestino
mesenterio do cevado, que é a mais saborosa das tripas do tal animal
(seja dito de passagem).
Nada mais displicente que os seus olhos azues, abertos a canivete, na
franja d'uma pequena testa quadrada.
Nada mais abominavel que os seus quatro dentes em anarchia, impellindo,
emparceirados com a lingua, perdigotos ás legiões, que orvalhavam, a
quatro palmos de distancia, a physionomia dos circumstantes.
Nada mais irrisorio que a supina ignorancia das suas sandices amorosas,
á mistura com anexins fastidiosamente vulgares, e momices mais ou menos
grutescas, mas sempre ridiculas ou nauseabundas. E os callos, e os
joanetes? tudo horrivel!
D'accordo.
Mas o dinheiro do senhor Antonio José da Silva! o dinheiro, atilados
leitores, vêde bem que se trata de dinheiro, dinheiro em abundancia,
placas de ouro e prata, cousas torpes e vis, confessemos que sim, mas
cousas com que se compram as carruagens, os velludos, os setins, os
jantares, os bailes, a consideração, os ouvidos, os olhos, as linguas,
as pennas, as eloquencias, com que tudo se compra inclusivamente os
romances, illustradas leitoras, e intelligentes bachareis!
O DINHEIRO!
Vós não sabeis o que são essas oito letras, que só ellas valem as vinte
e cinco do alphabeto! Vós não sabeis que eu conheço quatro, dez, trinta
alarves d'uma estupidez fabulosa que escondem n'uma luva branca a mão,
que deveria aguçar brochas, e palmilhar sapatos; que encostam aos coxins
das carruagens os lombos musculosos que a natureza affeiçoára para as
asperezas do costal; que mascaram a hediondez do vicio ignaro, o peor de
todos, com o riso alvarmente cynico de todos os homens endinheirados,
que é um riso particular.
Esses taes são tudo isso e mais alguma cousa; e eu sou o primeiro a
sorrir-lhes urbanamente, com meiguice, com mimo até, folgo que me
apertem a mão, que me chamem amigo, embora depois se riam de mim, folgo
e ennobreço-me d'essa esmola de consideração, porque, se, em minha
consciencia, reconheço que são elles os devassos, os torpes, os
ignorantes, os incorrigiveis, a minha illustrada cabeça diz-me que eu
ámanhã serei apedrejado, na praça publica, se esses taes passarem por
mim sem me cortejarem, e retirarem a sua mão da minha.
O DINHEIRO, amigos! Eu nunca me cansarei de vos lembrar esta palavra,
tres syllabas distinctas que fazem o unico deus verdadeiro d'este
paganismo ignominioso em que medram os vicios da sociedade. Tres
syllabas! trindade veneranda que representa o mytho de todas as
religiões, em cada uma das quaes o profundissimo Dupuis achou uma
trindade, e não descobriu esta, que eu tenho a honra de evangelisar-vos.
O DINHEIRO, emfim, foi o dinheiro, representado em Antonio José da Silva
que perturbou a tranquillidade descuidosa de Maria Elisa, desde o
momento fatal que a serpente, na feia figura do negociante, veio tentar
a Eva da viella do Laranjal.
CAPITULO XIV
A pobre orphã do Recolhimento, antes de conhecer Rosa Guilhermina,
enraivecia-se de não ser pensionista para compartir das regalias das
ricas, que tinham o direito de responder com altivez ás reflexões das
mestras, e ás rabugices da velha regente.
Reprimida pela necessidade de obedecer, phantasiava extravagantes
futuros d'onde a felicidade poderia vir resgatal-a á humilhante condição
de orphã, dependente da caridade publica. Moça ainda de treze annos,
lembrava-se de muitos casamentos ricos com meninas pobres d'aquella
casa, e botava sortes e adivinhas, que todas lhe annunciavam o suspirado
casamento. Uma velha, que sabia lançar as cartas, e com a qual havia
muita fé ao recolhimento, tres vezes lhe vaticinou um vantajoso
casamento.
Relacionada com Rosa Guilhermina, a ambiciosa orphã esqueceu-se um pouco
das suas queridas esperanças, porque, desde o momento em que ganhou a
intimidade da sua amiga, dispensou a ração da casa, e viveu,
independente da misericordia, como irmã com a pensionista.
Se algumas vezes contou á companheira os seus passados sonhos de
casamento, Rosa ouviu-lh'os rindo, e pediu-lhe que nunca se lembrasse de
tal emquanto ella fosse viva, e tivesse um bocado de pão que repartir
com ella.
Ainda assim, Maria Elisa tinha assaltos de vaidade, e soffria,
lembrando-se que não podia indemnisar alguma vez as liberalidades que
recebia de Rosa.
Quando se installaram, senhoras suas, na casa do Laranjal, Elisa pensou
no seu futuro, e lembrou-se que viria tempo em que Rosa trocaria por
outros affectos os carinhos d'ella, e acharia pesado o encargo de
sustentar com tantas regalias uma estranha.
Este reservado pensamento, que ella, eminentemente philosopha, sabia
calar, dominou-a muito tempo, com bem pouco elogio para a sua idade e
para o seu caracter.
Quando veio á sala zombar de Angelica não havia n'essa caricatura de
rapariga apaixonada intenção séria, nem podia havel-a.
Quando o senhor Antonio principiou a franca exposição dos seus
sentimentos, que elle significava na melodiosa palavra «sympathia»,
Maria Elisa zombava ainda, e respondia com caretas ás caretas de Rosa.
Quando, porém, o capitalista fallou em luxo, em carruagens, em fidalgas,
e, sobre tudo, na necessidade de deixar uma herança, que não queria
deixar aos sobrinhos, a moça pobre lembrou-se das suas esperanças
desvanecidas, e dos prognosticos da velha do recolhimento, que lançava
as cartas.
E, portanto, Maria Elisa, a seu pesar, recahiu de repente na gravidade
do assumpto, e ouviu as ultimas palavras do ingenuo negociante, com a
discrição, que o caso pedia.
Aqui o que temos a admirar, se alguma cousa vale a pena da admiração, é
a philosophia tão saturada aos dezeseis annos!