ludibrio da morte, porque vivo ainda. Não quero mais reclusão, nem o
convento para mim foi feito. Quero a liberdade, porque o meu coração é
livre. Eu e tu temos bastante philosophia para nos sabermos guiar na
estrada tortuosa do mundo. Conhecemos a sociedade pela leitura;
saberemos evitar os abysmos, renderemos os nossos corações aos ardentes
votos d'algum amor digno de nós, e viveremos juntas pelo espirito, assim
como temos vivido pela intelligencia.
Fallou bem. Tudo, que dissesse depois disto, seria uma redundancia. Não
ha nada a desejar aqui. Optima resolução, exemplar programma, e
invejavel talento!
Nomeado conselho de familia, a orphã foi consultada pelo tutor, homem
probo, escolhido pelo senhor Silva. A menina espivitada respondeu em
alto estylo, e o tutor retirou-se maravilhado da pupilla, e disse em
plena reunião dos membros do conselho de familia que ella era muito
_pronostica_, e que fallava com cabeça. Os outros membros não duvidaram
acredital-o, e consentiram em que a menina fosse entregue dos seus
rendimentos, e vivesse fóra do recolhimento.
Contentes da sua sorte, as duas litteratas, cada vez mais ricas de
sciencia, achavam já que o seu espirito não saboreava a simples nutrição
dos romances, e queriam mergulhar no oceano da sabedoria. Talhavam o seu
plano de instrucção; lastimavam a soledade em que viviam duas almas
devorando-se no proprio fogo, e sentiam a falta de uma sociedade mais
ampla que as admirasse, ou de espiritos illustrados que as conduzissem á
luminosa região das sciencias ignoradas ao seu desherdado sexo.
Tudo isto era muito bonito; a tal respeito diziam-se cousas admiraveis,
quando, no mais acalorado do projecto, D. Rosa Guilhermina Taveira
recebeu a seguinte carta:
_«Minha filha. Ignoras talvez que a morte de teu pae deixou n'este
mundo uma mulher desvalida. Esta mulher é tua mãe, e terá
brevemente necessidade d'um bocado de pão. Quando esse momento
vier, não o negues á infeliz Anna do Carmo, que irá mendigal-o á
tua porta. Vivo na rua Direita n.º 25.»_
Esta carta, lida em sobresalto, produziu em Rosa uma sensação
inqualificavel. Elisa, queria vêr esta carta, e a sua amiga não lh'a
mostrava.
--Será namoro?!--perguntou Elisa com azedume e admiração--Diz, Rosa! tu
não me respondes? Deixa-me vêr essa mysteriosa carta! É epistola
amorosa?
--Não, minha amiga... É uma carta, que não te mostro!... Não devo
mostrar-t'a...
--Oh céos! que estranha carta é esta! Não sou eu, por ventura, a tua
amiga, a confidente dos teus segredos?
--És... mas ha segredos que se não dizem...
--Pois bem: eu calarei a minha ancia, e não farei jámais de amiga para
todos os teus cuidados, Rosa.
O portador esperava a resposta.
A filha de Anna do Carmo sahiu de ao pé da importuna confidente, tirou
da gaveta do seu tocador quatro cruzados novos, embrulhou-os em um
retalho de sêda preta, entregou-os ao portador, sem lhe dizer palavra, e
rasgou a carta.
Quando voltou, chorava Elisa, em ar de arrufada amante. Rosa, mais
tranquilla, se era possivel uma consciencia boa, depois de tão generosa
acção, serenou a susceptibilidade da sua melindrosa amiga com esta
revelação:
--Olha, querida amiga, faz comigo as pazes. Eu te digo o que se passa. A
carta, que recebi e devolvi pelo portador, era uma súpplica de uma pobre
amante de meu pae, que me pedia uma esmola. Fez-me tanta pena, que me
vestiu de luto o coração! Como pensei que era aquelle um deshonroso
segredo para meu pae, nem dizer-t'o a ti, cara amiga, eu julguei que me
era nobre. Ora aqui tens...
--E mandaste-lhe o beneficio supplicado?
--Mandei...
--Fizeste bem... Pobre mulher, abandonada, não devia achar fechadas as
portas da alma que sahiu do peito amante. Perdôa a meu resentimento,
querida Rosinha...
E com estas e outras finezas passaram uma hora, ao fim da qual voltava o
portador, que levára o dinheiro, e entregava á senhora D. Rosa
Guilhermina outra carta, acompanhando os quatro cruzados novos. A carta
dizia assim:
«_Minha filha. A esmola é muito avultada para uma mãe. Quando eu
tiver fome, irei pedir-te um bocadinho de pão._»
Rosa fez-se da côr do lacre, e fugiu de ao pé da sua amiga.
CAPITULO XI
Anna do Carmo, quando pensava em escrever a sua filha, dizia-lhe o
coração que a não procurasse, porque seria recebida com má vontade.
Fallava-lhe assim o coração, porque n'aquelle peito não batia o coração
de mãe.
E não.
A amante do arcediago vira, sem lagrimas, levar aquella menina do seu
ventre para os braços mercenarios de uma ama de expostos. Não estendeu
os seus, supplicando que lhe não roubassem a filha da sua alma, e da sua
deshonra. Não pediu ao pae desnaturado que lh'a désse em compensação da
renuncia, que ella fizera da sua dignidade. Não saltou, esvaída de
sangue, fóra do leito, procurando resgatar a creancinha que deveria
dar-lhe em amor de filha o premio da sua ignominia de amante.
Viu-a ir impassivel! Nunca lhe deu que pensar o destino da creança.
Nunca sentiu o remorso do infanticidio. Nunca se lembrou que a
desgraçada menina, que viu a chorar com frio e fome nas lages da rua,
poderia ser a sua filha.
Os annos correram. O arcediago lançou um olhar melancólico ao futuro.
Ambicionou uma herdeira, que fruisse o grosso cabedal que amontoava. E
lembrou-se de ter assignalado, cinco annos antes, aquella engeitada.
Procurou-a com zêlo de pae; encontrou-a entre as meninas desamparadas,
pallida de fome, e vestida de farrapos, apresentou-a a sua mãe, e sua
mãe encarou-a serenamente, deu-lhe um beijo frio, e aconselhou o pae que
a mandasse para um collegio.
Quando o pae extremoso, cheio de saudades, mandava buscar sua filha de
seis annos, com os seus lindos cabellos louros, e os seus labios
radiosos de innocentes sorrisos de gratidão, Anna do Carmo achava
enfadonhas as repetidas visitas, e zangava-se asperamente se a menina
batia com a faca no prato, ou pedia doces para dar ás suas companheiras.
Espanta-vos esta dureza d'alma? Entrai na enfermaria das que vão ser
mães, debaixo das telhas da Misericordia. Reparai n'esta, que prepara
risonhamente o cueiro e a faxa que ha de levar seu filho ao monturo dos
filhos sem mãe. Olhai aquella que jura que o seu seio não tem nutrição
para que a não obriguem a crear o seu filho. Vêde além outra, que crava
as unhas no menino, que tem ao peito, para que os dolorosos vagidos da
creança accusem a fome, e a seccura d'aquelle seio, que tem dentro morto
o coração.
«Diante d'este quadro hediondo, tenho duvidado do amor materno!
Compungido por esta verdade atroz, tenho collocado a hyena n'um grau de
sensibilidade superior á mulher!» dizia-me um illustrado professor de
medicina[2], que me expunha estes lances com as lagrimas nos olhos.
Não duvideis, pois, mães! Anna do Carmo chegaria sua filha ao seio; mas
aquelle sangue não se alvoroçava nas arterias. Tocar-lhe-ia os labios
com os seus, mas aquelle beijo fôra sempre a banal formalidade, que se
barateia por ahi em cada cara que vos saúda.
Sobejavam-lhe razões para recear o desprêso da filha. A dura experiencia
dissera-lhe que o castigo sobre a terra era infallivel.
Se aquella mulher tivesse sido a mãe d'aquella menina, sentiria um
estimulo superior impellindo-a para ella. Iria, coberta de farrapos,
lançar-se nos braços de sua filha, radiante de velludos e brilhantes.
Iria, sem pejo, na presença de todo o mundo abraçar essa filha, com a
certeza de que Rosa exclamaria na presença de todo o mundo: «Esta
desgraçada mulher é minha mãe!» Pediu que lhe escrevessem uma carta; mas
essas poucas palavras, que parecem o enigma d'uma grande dôr, nem suas
eram. Foi uma cabeça fria, e um coração estranho, que as dictou; porque,
na alma d'ella, estava a irresolução gelada, o presagio do desprêso, o
espinho da consciencia, precursor d'um grande castigo.
Quando recebeu, como resposta á sua carta, o silencio, e quatro cruzados
novos, Anna do Carmo sentiu-se assaltada pelo orgulho que não era
orgulho de mãe. Era um rancor, que reagia ao desprêso, uma altivez que
caracterisa as almas pequenas, e não essa nobre independencia, que nos
manda atirar á cara do falso bemfeitor uma esmola, quando nos não é
delicadamente dada como quitação d'uma divida.
Foi ella quem repelliu a esmola; mas não foi ella quem redigiu o bilhete
que acompanhava a remessa. Por sua vontade, aquelle bilhete devia ser um
insulto e uma ameaça; mas a pessoa que o escrevera previu que a mãe de
Rosa seria brevemente uma mendiga, e precisaria de humilhar-se a
estranhos, por ter sido soberba com sua filha.
Rosa Guilhermina meditou aquelle bilhete, e sentiu em si uma
transformação repentina.
Ha pouco ainda, teve vergonha de declarar á sua amiga que sua mãe
existia, e vinha pedir-lhe uma esmola; e agora é ella que sente a dura
precisão de revelar a Elisa todo o seu segredo.
Elisa ouviu-a, e reprehendeu-a da inconfidencia, que a não lisongeava
nada. Depois, aconselhou-a que desse uma mesada a essa pobre mulher, se
a não queria receber em casa na qualidade de mãe.
Rosa optou pela mesada, e escreveu immediatamente uma carta a sua mãe
com a direcção que lhe fôra indicada. Esta carta chegou nos assomos
freneticos de Anna do Carmo. Sahiu com a carta para que lh'a lêssem:
ouviu-a cada vez mais colerica, supposto que as phrases fossem brandas,
e carinhosas. A offerta da filha era mais uma boa mesada, que
permittisse a decencia de sua mãe. Anna tomou a carta com arremêsso,
rasgou-a, e disse á portadora:
«Diga a essa desavergonhada que não preciso de suas mesadas; e que, se
torna a mandar aqui alguem, que atiro pelas escadas abaixo quem cá
vier... Pegue lá... dê-lhe a carta rasgada.»
D. Rosa, quando ouviu similhante resposta, voltou-se para a sua amiga,
como quem pede um conselho:
--Não tens mais passo algum a dar--disse Elisa.--Mulher que assim
responde não é tua mãe: isso é uma impostora! Faz de conta que este
incidente não veio perturbar a nossa felicidade... Será tua mãe: mas só
te conhece agora, que és rica, e ella pobre. Tal mulher não é digna de
chamar-te filha!... Que lhe deves tu? O nascimento? Grande favor!... Se
teu pae não tivesse esta riqueza, que te deixou, o que serias tu? Uma
filha sem mãe, abandonada de todos, e despresivel aos olhos da propria
que te atirou ao mundo como quem atira ao chão as rosas murchas, que lhe
serviram de prazer e ornato!...
Quer fosse o estylo assoprado de Maria Elisa, quer fosse a negação
completa do coração de Rosa a essa estranha mulher, que lhe chamava
filha, o certo é que os escrupulos e temores desappareceram, e o
importuno successo não impressionou muitos dias o espirito da leviana
moça, que se demorava pouco nas mesquinharias d'este globo.
O rapido desvanecimento das ideias funebres do caso, deve-se á visita da
senhora Angelica que não veio mais cedo por ter estado ás portas da
morte com um catarrho, que lhe cahira nos bofes, como ella se explicava
subindo as escadas.
--A snr.ª D. Angelica por aqui!--disse Rosa descendo a recebel-a.
--Deixemo-nos de _dom_. Cada qual é como cada um. Eu cá sou filha de
negociante, e não quero essas trapalhadas da fidalguia. Então, como
passa a minha menina?
--Muito boa, e a snr.ª Angelica doentinha, não é assim?
--Deus louvado, vou melhor dos bofes, mas, acho que tenho aqui no
costado, salvo tal logar, um lobinho, que hei de queimar com a massa.
Elisa tinha o lenço na bôca, para suffocar o riso.
--Então, esta menina é que é a sua amiga?
--Tenho a gloria de merecer tal nome--respondeu Elisa.
--Por muitos annos e bons... Então vmc.e de quem é filha, ainda que eu
seja confiada?
--Meus paes ceifou-os a dura fouce da parca.
--A Parca? não conheço essa senhora. Sua mãe chama-se a snr.ª Parca?
--Não, senhora--atalhou Rosa, porque a sua amiga não podia responder,
suffocando com uma gargalhada.--A mãe d'esta menina, e tambem o pae,
morreram já.
--Ah! sim? pois Deus lhes falle n'alma, e elles a abençoem no céo, que é
bem galantinha... Porque não vai ser freira, minha menina?
--As almas livres não querem ferros. Umas nascem para o culto dos
templos, outras vêem o altar de Deus na natureza.
--Ella que diz?--perguntou a velha a Rosa.
--Diz que não nasceu para freira.
--Não diga isso, menina, que é peccado. Todos nascemos para o serviço de
Deus, e deve ir para carmelita, que é uma ordem muito apertada, e
ganha-se o céo, com a pobreza, e a paciencia.
--O céo ganha-se com os vôos do espirito.
--Que é? os avôs do esprito? Não creia n'isso; nas carmelitas não ha
espritos ruins... Ri-se? ora queira Deus que não chore ainda... Quem lhe
disse que andavam espritos nas carmelitas? Olha as sanctinhas!
coitadas!... É cousa que não consta é esprito nas carmelitas...
--Isso creio eu; mas por isso mesmo é que a materia me não convida. O
grande espirito é Deus.
--Jesus! que heresia! A menina parece-me douda!...
--Não é, não, snr.ª Angelica... É porque ella falla sempre em alto
estylo...
--_Estylo!_... que é isso de estylo!...
--A sua linguagem é mais sublime que a costumada entre pessoas sem
luzes.
--Sem luzes!... Eu não vos entendo, raparigas! Vmc.es aprenderam o
latim?
--Não, minha senhora--disse Elisa--a nossa lingua é portugueza, e as
nossas phrases tem o toque da superioridade, que nem todos os espiritos
alcançam!...
--E ella a dar-lhe com os espritos!... Parecem-me doudas! Quem vos
ensinou esse palavriado de latinorios e berliques-berloques que ninguem
entende? É isso o que vós aprendeis no recolhimento? Deixai-vos d'essas
tolices, e fallai como a outra gente da nossa laia.
--Da nossa?--disse Elisa--Não lisongeia a miscellanea.
--Miscellanea!... quem é a miscellanea? Eu não a entendo!... Ella que
diz, Rosa?
--Diz que as pessoas instruidas...
--Pessoas estruidas, Deus nos livre d'ellas... Olha como ella se ri!...
Esta rapariga tem aduella de menos, não tem, Rosinha?
--Tem aduella de mais... É uma senhora muito esperta, sabe francez, e
faz poesias.
--Eu a arrenego! pois ella é como os homens, que vão alli berrar debaixo
das janellas das freiras, a botar versos para cima?
--É verdade... Eu faço versos; a musa favorece-me: o Pégaso vôa comigo á
apolinea fonte, e converso com os deuses na Castallia.
--Ella parece lá d'esses reinos estrangeiros!--disse, torcendo o nariz,
a snr.ª Angelica.
--Sou lusitana, não nego a patria. Nasci nas margens do patrio Douro.
--Nasceu no Douro? Então isso como foi? Sua mãe teve-a no rio? Vinha,
talvez no barco... pobre mulhersinha!... E ella a rir-se!... Ella não
está boa!...
--Desaperta-me, Rosa, que eu arrebento--exclamou, suffocada de riso,
Elisa.
--Eu não n'o disse? Eu logo vi que ella não estava boa!... Isto é cousa
má que se lhe metteu no corpo... Dizem que o demonio ás vezes falla de
modo que só o entendem os padres. Quer a menina que eu vá chamar-lhe um
fradinho de muita virtude, para lhe lêr os inzorcismos?
--Minha alma detesta o frade.
--É frade de testa... e de cabeça... é muito sabio... Eu vou buscal-o...
A snr.ª Angelica atirava com a côca da mantilha para a cabeça, e
preparava-se para sahir em cata do frade, quando Rosa, perdida tambem
com riso, lhe acenou que não fosse.
A parvoice sinceramente estupenda estava pintada na indescriptivel
physionomia da velha.
--Sabeis que mais? não me entendo comvosco! Não sei o que pareceis! Ou
vós estaes doudas, ou a graça de Deus vos desamparou!
--Venha cá, snr.ª Angelica, fallemos sérias... Eu sou sua amiga, e Maria
Elisa tambem o é. Nenhuma de nós está vexada do espirito mau... é porque
vmc.e não nos entende, e pensa que a nossa linguagem não é do mundo dos
mortaes. Eu sou a mesma Rosa, muito sua amiga, e sinto immenso prazer em
vêl-a n'esta sua casa, e quero que venha cá muitas vezes.
--Agora já entendo o que me diz... A gente deve fallar como falla todo o
mundo. O latim é lá cousa dos prégadores, e dos doutores. Uma mulher em
sabendo a ladainha e a _Magnifica_, sabe o latim preciso para a
salvação... Com que assim, minha Rosinha... Como se dá por aqui?
--Muito bem.
--E a outra menina?
--Plenamente jubilosa.
--Ella lá torna com o berzabum dos latinorios!... Valha-a Nossa Senhora!
--Ó Maria Elisa, falla em baixo estylo... humanisa-te.
--Repugna-me. Não sei manchar a lingua de iguaria indigna.
--Que diz ella? que eu sou indigna?
--Não, senhora; diz que não póde fallar como nós.
--Pois então que esteja calada... Ó Rosinha, eu queria-lhe uma palavra
em particular.
--Pois sim; iremos para o meu quarto... eu venho já, Elisa.
--Vai... mas guarda-te do filtro da Gorgona fatal.
--Ella lá fica com os gorgues, gorgues!... má mez para ella!--murmurou a
snr.ª Angelica.
CAPITULO XII
--Ora venha cá, Rosinha...--disse a snr.ª Angelica, pendurando a
mantilha na porta, e acocorando-se n'um tapete, que ella suppoz ser
feito para isso--Sente-se ao pé de mim.
--Eu não gosto d'essa posição, que é incommodativa. Sento-me n'esta
cadeirinha.
--Pois sim; mas chegue-se bem para mim, que não quero que nos ouça a sua
amiga. Deus me perdôe, mas não engraço com os modos d'ella... Aquillo
não ha de ter bom fim... Tem muito palavriado... Ora diga-me, de que
presta aquella rapariga?
--De muito; é a minha amiga do coração; conheço-a ha dois annos;
quero-lhe como a ninguem, e basta.
--Está dito... Pelo que vejo, aqui não ha rei nem roque, e quem governa
é vmc.e, não é verdade?
--É, sim, senhora. Quem governa em minha casa sou eu.
--Pois, minha menina, precisa de quem a governe. Os tempos não vão bons
para as donzellas. Deus me perdôe se pecco, mas o diabo anda ás soltas
entre as raparigas desde que os francezes vieram lá do fim do mundo ao
Porto. No meu tempo não se ouvia dizer que uma rapariga namorava este
nem aquelle. Hoje, bem dito seja Deus, quem tiver raparigas em casa,
traga-lhe o ôlho em cima, senão, quando mal se precata, os
peralvilhos... nem pensal-o é bom!... E más linguas? isso então é um
louvar a Deus! Pois aquella grande bebeda da mulher do retrozeiro, que
mora defronte de mim, não foi dizer ao meu Antonio que eu, quando era
moça... em nome do padre, e do filho, e do espirito sancto... Cal-te
bôca... Olhe que sempre! Ninguem diga que está bem! Uma desavergonhada
assim! Estar eu mansa e quêda em minha casa, amando e servindo a Deus
como posso, e nem ja como devo, e vai senão quando aquella lingua
damnada não teve o ousio de fallar da minha conducta, que não teve nunca
tanto como isto que se lhe pozesse (_mostrando-lhe a ponta do dedo_)!
Ahi está por que Deus não manda chuva, e mandou a praga dos francezes
para nosso castigo... é por causa da Anna Canastreira, e outras que
taes... Aquella grande regateira! Atrever-se a pôr a bôca na minha
honra! E ella? A porca, que andou... Cal-te bôca... E tem aquella de
fallar em mim, que fui sempre como as estrellas, e que nunca houve na
rua quem dissesse, com verdade, que me viu piscar o ôlho ao congregado,
nem ao conego Anselmo! Inda a lingua se lhe tolha, e descanso não tenha
ella de dia nem de noite sem me pedir perdão...
--Então é isso o que precisa dizer-me, snr.ª Angelica?
--Inda não chegamos lá, Rosinha. Isto vinha a respeito de dizer que as
donzellas não estão seguras com esses melcatrefes que por ahi andam
d'oculos, e polainas, que me parecem mesmo o demonio tentador!...
--Elles tentam-na, snr.ª Angelica?
--A mim? para cá é que elles vem bem!.. Eu os arrenego! Assim que os
vejo ao longe, rezo o credo em cruz...
--E perseguem-na os peralvilhos?
--Hão de ter bom olho...! Elles só perseguem as que lhe dão trela. A
mim? isso sim... Inda não ha muito que um mariola me puxou pela
mantilha, ao sahir da Capella das Almas, e eu voltei-me para elle... não
lhe digo nada... apenas me viu, aquillo foi como se lhe désse com um
sedeiro na cara, voltou logo o focinho. Está-se a rir, Rosinha? É como
lhe digo. Os homens, em vendo má cara nas mulheres, não tenha medo que
elles se atrevam... E mais eu agora já não sou o que era... estou muito
acabada... estes malditos lobinhos, que me vem todos os annos ao
costado, fazem-me de fel e vinagre. D'antes quando eu era a flor das
donzellas, isso é que se podiam vêr os peraltas com o nariz no ar por
minha causa... Pois, olhe, viam-me com os olhos e comiam-me com a
testa... Uma rapariga quer-se honestinha; e quanto mais vamos inda peor
é. Está dito... agora vamos começar o nosso arranjo.
--O nosso arranjo?! Que arranjo temos nós, snr.ª Angelica?
--Nada de pressa... ha muito tempo para morrer... Ora vamos, Rosinha...
inda está dos mesmos humores de ha dois annos?
--Que humores? não me lembra quaes eram...
--A respeito do seu matrimonio com o meu Antonio.
--Ah! nem me lembrava essa brincadeira... Sim, minha boa senhora, ainda
estou, e estarei, resolvida a não casar com o snr. Antonio.
Maria Elisa, pé ante pé, viera collocar-se atraz de Angelica fazendo-lhe
carantonhas, que obrigaram Rosa a sentar-se de ilharga por não poder
conter o riso.
--Com que então está na mesma!... Ora, se Deus quizer, a sua cabecinha
ha de mudar. Pense bem no caso, Rosinha. Lembre-se que meu irmão não
sabe o que tem de seu. Lá, se é velho, olhe que faz dar a agua pela
barba aos novos. Não vê aquellas côres, que elle tem? Olhe que alli onde
o vê, inda tem muita força. Come-lhe bem, e está gordo como um tanho...
--Bem sei que está gordo; mas que me importa a mim a gordura de seu
irmão? Como não quero vendel-o a pêso...
--Isso não é resposta de menina honesta, Rosinha. Não se ponha a rir...
Acho que já tem as manhas da sua amiga. Foi ella que lhe disse que não
quizesse o meu Antonio? Tomára-o ella.
--Pois offereça-lh'o.
--Que se lave... Olha a labisgoia! Se meu irmão se via com aquella
tartamuda, que ninguem a entende, entisicava, meu querido irmão do meu
peito! E ella tem legitima?
--Quem, a minha amiga? é muito rica, por morte de duas tias, que são
pouco mais ou menos da sua idade, snr.ª Angelica.
--Da minha idade? Então ainda podem viver muito, e tarde virá a
legitima...
--Quantos annos tem, snr.ª Angelica?
--Quem, eu? eu lhe digo... Eu sou mais velha que o meu Antonio, que é da
idade do Joaquim Antunes, casado com a Theresinha dos Loios, e que se
lembra de ouvir dizer a sua mãe que o meu Antonio era da idade do snr.
Joaquim, e eu sou da idade da snr.ª Brizida, que dizia minha tia Aniceta
que nascera ao mesmo tempo, e se baptisára no mesmo dia com o Thimoteo,
que ninguem ha de dizer a idade que tem.
--É o mesmo que acontece a seu respeito, depois da sua conta, snr.ª
Angelica.
--Pois é verdade; eu o que tenho é estar acabada; mas meu irmão está
gordo e fero como sempre o conheci. Quizesse elle casamentos que lhe não
faltavam.
--Pois, snr.ª Angelica, sinto muito dizer-lhe que não me sinto
deliberada a casar com seu irmão, e que provavelmente ficarei solteira,
porque não tenho vocação para o casamento. Acho-me em extremo inclinada
ao celibato.
--Quem é esse Celibato? Olhe lá que não vá ser algum pandilha que lhe
quer pilhar a legitima!... Eu não conheço esse snr. Celibato... é
negociante?
--Nada; é um cadete...--disse Rosa mordendo o riso nos beiços.
--Ah! um cadete, chamado Celibato... Conheço muito bem; ouvi fallar
n'elle... é um grande tratante. Não queira esse bigorrilhas.
--Ah! que malvado! Eu não sabia que o snr. Celibato José...
--É verdade, Celibato José... já me esquecia...
--Da Cunha...
--Sim, sim... da Cunha; é o mesmo, tal e qual! Ora vê como eu lhe vali,
Rosinha?
--Agradecida, minha amiga. Detesto esse tyranno! Guardarei meu coração
para outro esponsalicio...
--Esponsalicio! parece-me que conheço esse snr. Esponsalicio...
--É um rico proprietario...
--Enganaram-na, Rosinha. Esse Esponsalicio...
--Da Costa...
--É o mesmo... louvado seja Deus, que me trouxe aqui!... Esse
Esponsalicio da Costa é um traficante, que enganou a filha d'uma minha
amiga, e que diz á bôca cheia que não quer casar com nenhuma. Não caia
em lhe receber palavra de casamento, Rosa... Deus a guarde d'essa
tentação!...
--Nenhum d'elles, pois, é digno do hymeneu?
--O Hymeneu! Apre! que são muitos. Eu tenho ouvido fallar n'essa
pessoa... Inda outro dia a mulher do João Pereira, que tem chinó, estava
a fallar mal d'elle. Não póde ser grande pessoa, porque anda mettido com
tal mulher...
--Pois bem: farei um juramento. Não casarei com o snr. Celibato!
--Bonita...
--Nem com o snr. Esponsalicio!
--Ora, pois.
--Nem com o snr. Hymeneu!
--Isso é que se chama ter a cabeça no seu logar.
--Nem com o snr. Antonio!
--Valha-a Deus, menina, valha-a Deus, que tem o passaro na mão, e
deixa-o fugir!... Case com o meu Antonio, e verá que pimpona elle a
traz!
--Fiz voto de morrer solteira. Os meus votos são infalliveis. Serei como
as Vestaes.
--As bestiaes! Deus a livre d'isso! A menina tem alma, e não póde ser
bestial...
--O mais que posso é convidar a minha amiga a receber a terna dextra do
ditoso Aonio.
--Que diz, Rosinha? Parecia-me agora a outra! Onde vos ensinaram esses
aranzeis?