de Barroso tem muito dinheiro em casa d'um negociante da rua das Flores,
mas esse dinheiro é o preço por que elle comprou o inferno... ganhou-o
nas symonias... Lá está em cima quem o ha de julgar... E, com isto,
adeusinho até outra vez. Fique na graça de Maria Sanctissima, e passe
por cá muito bem até outra occasião, se Deus nos dér vida. Adeusinho,
sem mais.
O padre abria o alforge para metter o _Flos-Sanctorum_, quando o
arcediago lhe dava uma palmada no hombro.
--Tu por aqui, padre João Pires?
--É verdade... Então que é feito, Leonardo?
--Vamos vivendo... Já te não vejo ha muito!...
--Não ha dinheiro para vir á cidade... Os padres de _requiem_ não comem
do cabido... Lá nas aldeias o mais que se pilha é a missinha de tostão,
que não dá para hostias. Isto cá é outra cousa. Os padres do Porto são
cardeaes, menos na sabedoria, que no mais tem tudo...
--Não é tanto assim, padre João... Deus sabe como cada qual se arranja.
Então vieste comprar o teu livrinho?
--É verdade; comprei o _Flos-Sanctorum_, e sabe Deus o que me tem
custado a arranjar os tres mil e duzentos.
--Se queres mais algum, e não tens dinheiro, eu fico por ti, e tu
pagarás depois ao senhor Hemerin, que me faz o favor de ser meu amigo.
O arcediago piscou o ôlho para o livreiro, que estava encostado ao
mostrador, e o livreiro, sorriu-se d'um modo que era novo para o
arcediago.
--Nada, muito obrigado--disse o padre João Pires--eu não gosto de fazer
dividas, porque não tenho esperanças de ser conego para pagal-as
depois... Com que sim, meu caro Leonardo... Os bons tempos que nós
passamos no seminario... lembras-te?
--Se lembro!...
--Eras um bom tratante!... fugias de noite, e vinhas de madrugada
pedir-me que te ensinasse o Larraga... Boas as fizeste!... Que é feito
d'aquella rapariga do vendeiro de Campanhã que tu tiraste de casa?
--Não fallemos n'isso... Como tu te lembras d'essas rapaziadas... Esse
tempo passou...
--Pois era uma rapariga perfeita!
--E aquell'outra das Fontainhas, que tinha um pae levadinho da breca,
que te fez fugir em camisa para o seminario?
--Cala-te lá com essas cousas, João!... Isso foram bambochatas de
estudante...
--Está feito, está feito... Tu tens pago um bom tributo á mocidade... Já
tu eras padre ha muitos annos, e ainda fazias das tuas de estudante...
--Olha lá, meu caro João, se quizeres alguma cousa de mim...
--Obrigado... Eu gosto de fallar nos tempos da mocidade...
--Pois sim; mas eu tenho de estar nos Congregados ás oito horas...
Estimarei que passes muito bem.
--Olha cá, padre Leonardo... ha ahi um sugeito que te quer fallar a
respeito d'uma dispensa para casamento entre primos em segundo grau. O
pretendente dá boas luvas a quem lh'a arranjar depressa...
--Sim!... pois eu conheço um banqueiro, que vence todas as
difficuldades; mas... aqui entre nós... é preciso untar-lhe as unhas...
--Ah! maganão!... o banqueiro és tu em carne e osso!...
--Não sou, João. Acredita que não sou...
--_In verbo sacerdotis!_
--_In verbo sacerdotis_... N'essas materias melindrosas não escrupulisa
a minha consciencia. Terei algumas fraquezas, de que me accuse, do tempo
de rapaz, mas em cousas de religião o caso é muito sério.
--Com que tu tens muitos escrupulos das tuas rapaziadas, heim?
--Alguns; mas em certas idades tudo se desculpa, e Deus bem sabe que a
razão não tem a força necessaria para conter os impetos d'aquelle
novissimo do homem...
--Que não é do mundo, nem do diabo! Ora pois, Deus te conserve no sancto
arrependimento...
--Então quem é o pretendente da dispensa?...
--Isso fallaremos outra vez... Ora olha, meu querido Leonardo, não sei
se sabes que tenho cá na Sé requerimento para uma igreja.
--Nada, não sei.
--Poderás fazer com que o senhor bispo me despache?
--Homem, isso é um caso difficil... Se queres que te falle a verdade, no
paço tudo se move por dinheiro...
--E tu dás á manivella nas rodas da machina, não é assim, meu Leonardo?
--Estás a rir, João...
--Pois eu podéra chorar!... Tudo isto leva-se a rir, senão endoudecia a
gente... Ora anda lá que tu não deves só ter escrupulos das tuas
rapaziadas... A proposito de rapaziadas, que é feito da Anna do Carmo?
--Da...?
--Sim... da Anna do Carmo... aquella mocetona que morava comtigo na rua
Direita, aqui ha dez annos...
--Não sei... não me recordo... não sei de quem me fallas... adeus... até
outro dia...
--Espera homem--disse o padre inexoravel ao confuso arcediago que suava
em janeiro como o seu amigo Silva no mez de agosto, por vêr alli tão
perto o francez, que não perdia uma palavra do dialogo.--Espera... não
te confundas, que eu não quero confundir-te. Isto é conversar como
amigos... Eu já sabia que foste honrado com a rapariga, e que a casaste
com um bom dote... Uma fraqueza não desacredita ninguem... David tambem
peccou, e S. Pedro negou o mestre.
--Dizes bem, João, adeus, até outra vez...
--Então... até outra vez.
Padre João não comprehendeu a afflicção do arcediago. A ultima despedida
disse-lh'a, quando elle de repente lhe voltou as costas, por não poder
conservar-se com a cara voltada para o francez que lhe não desviava os
olhos d'ella.
Já escanchado commodamente sobre o albardão da égoa somnambula, o antigo
conhecido de Anna do Carmo, voltando-se para o livreiro, disse,
sorrindo:
--Vê que tal é o amigo? Olhe como elle se atrapalhou quando eu lhe
fallei na moça...! reparou?
--Reparei... reparei...
--O que ella merecia é que o marido d'ella lhe quebrasse o espinhaço com
uma tranca... Mas os maridos ás vezes, são tão bons como ellas...
Adeusinho...
--Passe muito bem.
Mr. Hemerin leu, segunda vez, a carta anonyma, e sahiu.
Esperem asneira. Quando mal nos percatamos, temos pela prôa um marido
brioso!
Safa!...
_Rara avis in terris_...
CAPITULO IX
O arcediago, quando fugiu bruscamente ás impertinencias vingativas do
padre João Pires, ia perdido, e não atinava com o refugio mais azado no
embaraço em que se via.
Na rua das Hortas, quando voltava do campo de Sancto Ovidio, até onde
fôra machinalmente, encontrou o marido de Anna do Carmo, que o
comprimentou com a graça costumada, e nem de leve lhe tocou nas
escandalosas revelações do profundo investigador de Sant'Thiago, e S.
Martinho de Dume.
Padre Leonardo, admirado da singeleza do francez, entendeu que as cousas
estavam no pé em que as deixára na vespera, e tranquillisou o tumulto de
vergonhas e receios que lhe traziam o coração em dolorosas piruetas.
Convencido do inesperado quão feliz resultado da extravagante scena,
veio á rua das Flores, e encontrou Anna do Carmo, ao mostrador,
espantada de que seu marido sahisse sem dar parte, nem chamal-a a ella
para a loja.
Isto fez impressão no arcediago, que teve a prudencia de calar á mãe dos
seus filhos o desgraçado encontro com o amaldiçoado padre de
Ponte-Ferreira.
Todavia, a sahida rapida do francez alguma cousa queria dizer. O atilado
arcediago reflectiu no que poderia resultar d'alli; lembrou-se, um
momento, que a sua organisação physica poderia soffrer algum abalo menos
agradavel, e, finalmente, appellando para o futuro com a intrepidez de
philosopho, esperou as consequencias.
Acabava o velho amigo de padre João Pires de fazer os seus juizos,
quando o livreiro entrou com a mesma affabilidade, com o inalteravel
sorriso d'um esposo feliz.
--Sahiste sem dizer nada?!--disse a senhora Anna.
--Foi-me necessario sahir com tal precipitação, que nem me lembrou
chamar-te.
--Pois que foi, Hemerin?
--Que havia de ser? Um engano... Vieram-me aqui dizer que o regedor das
justiças me queria mandar prender, porque eu vendia clandestinamente na
minha loja livros protestantes, e folhetos escriptos contra a religião.
Corri immediatamente a casa do regedor, e tive a fortuna de encontrar,
quando lá cheguei, o desmentido da calumnia que forjaram contra mim os
meus inimigos.
--Inda bem!...--disse a mulher.
--E se não acontecesse assim--accrescentou o arcediago com o
contentamento da boa fé--eu ainda tenho amigos para desmanchar as
traições dos seus inimigos.
--Muito obrigado, senhor compadre. Tudo está arranjado, d'esta vez. Se
elles continuarem, v. s.ª será o nosso protector, como tem sido sempre.
O arcediago almoçou com elles, e não podia deixar de felicitar-se por
ter casado a mãe de Rosa com tão boa pessoa, alma tão singela, e genio
tão estimavel a todos os respeitos. Fez muitas festas á creancinha, que
dava biscoutos ao livreiro para que os désse ao _papá_, o que o
livreiro, com paternal meiguice, cumpria, rindo-se muito da galanteria
do pequeno.
Correu o dia regularmente. O arcediago despediu-se á meia noite,
promettendo na noite seguinte pagar quatro partidas de bisca, que
perdera jogando com a senhora Anna, emquanto seu marido sahira a
encommendar de Paris a nova edição de Bossuet e Bourdaloue.
Na madrugada do seguinte dia, Hemerin levantou-se mais cedo que o
costume, e disse a sua mulher que lhe désse a chave da commoda em que
estava a sua roupa branca.
Anna quiz erguer-se para dar uma camisa a seu marido, e elle mandou-a
ficar. A mulher instou, e o francez intimou-a imperiosamente que não
sahisse.
Momentos depois, a mãe de Rosa sentiu fechar-se por fóra a porta da rua!
Ergueu-se, foi á commoda, e achou-a vasia da roupa de seu marido. Desceu
á loja, tudo estava fechado. Tornou ao seu quarto e viu um bilhete sobre
o lavatorio, com estas poucas palavras: «_És uma boa mulher, mas não me
serves. Eu não sou mau homem, mas não te sirvo. Sejamos francos, e bons
amigos. Tu ficas, e eu vou. Regala-te com o padre, e faz-lhe visitas
minhas. Se me quizeres alguma cousa e elle tambem, escrevam-me para
Paris. Adeus._»
A senhora Anna do Carmo ficou aturdida. Queria fazer alguma cousa
n'aquelle conflicto; mas que poderia ella fazer? A porta da rua, de mais
a mais, estava fechada! Se o arcediago viesse... mas o arcediago não
vinha antes das oito horas! Se arrombava as portas, o barulho dava que
fallar aos visinhos, e o escandalo era certo! Mas, se o escandalo era
certo, inevitavel, a pobre mulher lembrou-se de arrombar a porta, e
procurar seu marido; mas aonde?
N'esta irresolução, a senhora Anna ouviu as oito horas. Correu á
janella, e viu á sua porta alguns homens, um dos quaes abria a porta.
Desceu abaixo, e perguntou quem eram:
--Sou um escrivão, com os meus meirinhos.
--Que querem?
--Fazer penhora nos objectos conteúdos n'esta casa.
--Devo alguma cousa a alguem?
--Deve.
--O quê?
--O conteúdo n'esta petição, a que está junto um titulo de divida
authentico, assignado por seu marido o senhor Hemerin Pierrote.
--Mas eu não assignei.
--Vmc.e sabe escrever?
--Não, senhor.
--Por isso mesmo é que não assignou. Seu marido assignou por ambos.
--Isso é uma ladroeira! Eu grito aqui d'elrei, se me levam alguma cousa
de minha casa.
--Pois grite, que arranja com isso a ser levada tambem.
--Para onde?
--Para a cadeia, ou para o hospital de S. José.
--Que é dos louvados, senhor meirinho geral?
--Estão aqui os ensambladores.
--Pois que subam a avaliar os moveis, e chame ahi dois livreiros para
louvarem os livros.
--É um roubo que me fazem!--exclamou Anna, collocando-se adiante dos
livreiros, que vieram d'um pulo.
--Retire-se, mulher, se não mando autual-a!
--Mas quero saber a quem é que devo...
--Ao vice-consul da França.
--Eu não conheço esse homem.
--Tambem não é preciso, nem deve ter muita pena d'isso. É um homem como
os outros, pouco mais ou menos.
Entrava o arcediago com os olhos espantados, e o queixo pávidamente
descahido.
--Senhor compadre!--exclamou Anna--querem-me roubar!...
--Roubar!... Como se entende isto?!
--Deixe-a fallar--disse o escrivão.--É um mandado de penhora.
--Á ordem de quem?
--Do juiz de fóra.
--Mas quem é o credor?
--Senhor arcediago, não nos importune com as suas perguntas. Vá lá
sabel-o, se quizer. Nós cumprimos a lei, e não temos obrigação de dar
explicações a quantos passarem na rua.
--Onde está seu marido?--perguntou o padre.
--Não sei... Olhe aqui.
A senhora Anna chamou-o de parte, e contou-lhe o succedido. O arcediago
ficou tranzido.
--Que hei de eu fazer, Leonardo? Não me dirás?
--Põe a tua mantilha, pega no pequeno, e vai com a criada para minha
casa.
--E os meus arranjos?...
--Que arranjos?
--Os meus vestidos?
--Deixa os vestidos... Faz o que te digo. Não te afflijas... Has de ter
sempre que comer. Nem mais uma palavra, que não quero escandalos.
Anna do Carmo sahiu com a criada e o pequeno, que grunhia por ter sido
tirado a dormir do berço. O escrivão achou-se sósinho com os aguazis e
louvados. A livraria foi logo comprada pelo livreiro da loja visinha. Os
moveis arrematados, e ficou o escrivão com elles. As roupas comprou-as
uma adeleira. E a chave da casa foi entregue ao senhorio. Foi um dia
cheio para os visinhos!
A vingança do francez fôra uma vingança franceza; mas, de parte a parte,
concordemos em que a honra orçava os mesmos quilates. Parece que eram
dignos um do outro, e o arcediago digno de ambos, como vai vêr-se.
A mãe de Rosa vivia com o arcediago; mas tão cauta e escondida que se
não deixava vêr. Era um cuidado inutil; porque ninguem duvidava que os
braços do padre eram o refugio nato da esposa abandonada.
A immoralidade chegára aos ouvidos do bispo, que empregou os meios
brandos para chamar ao caminho da bem-aventurança aquelle Lovelace de
murça e meias vermelhas. O arcediago defendia-se como podia, e citava os
seus traiçoeiros denunciantes para que lhe provassem a calumnia infame.
Se fosse hoje, o senhor padre Leonardo Taveira teria escripto quatro
correspondencias para os periodicos, em que provocaria os maledicentes a
tirarem a mascara, ou serem convencidos de infamadores da honra alheia,
e vis calumniadores, como é do estylo.
N'aquelle tempo, porém, o infamado não tinha o respiradouro da gazeta, e
não podia andar de casa em casa apregoando a sua innocencia. Razão
porque a detracção se incorporava pouco e pouco, até ser recebida como
facto consummado.
Os conegos, que não eram mais virtuosos que elle, mostravam-se
escandalisados das torpezas do seu collega, e queriam que o prelado os
desultrajasse do odioso que reflectia na corporação. O bispo via-se
entalado entre certos compromissos que o prendiam ao arcediago, e as
instancias reiteradas do chantre, e do deão, que eram mais discretos nas
suas torpezas, porque nunca tinham cahido na immoralidade de dotar as
mães dos seus filhos para casarem.
A indignação pública urrou no paço episcopal; e o principe da igreja
receou que a mitra lhe cahisse com deshonra da cabeça, e metteu o
arcediago em processo.
Estas deploraveis scenas passavam-se, mezes depois que Rosa Guilhermina
e a sua amiga vieram de Ramalde para o Porto. Rosa observava a
inquietação de seu pae nas poucas horas que se demorava em casa.
Interrogaram-no ambas muitas vezes, e não poderam saber nunca a
afflicção que o atormentava.
O processo corria, quando o bispo deu uma audiencia secreta ao
arcediago. O fim d'essa prática d'amigo, e não de juiz, era
aconselhal-o, que fugisse immediatamente de Portugal, e que esperasse lá
fóra que a borrasca serenasse, e depois viria.
O arcediago annuiu.
Com as lagrimas nos olhos, e sua filha nos braços, revelou-lhe que uma
grande desgraça o obrigava a sahir da patria. Mandou-a entrar outra vez
no recolhimento. Estabeleceu uma pensão a Maria Elisa. Deixou outra a
Anna do Carmo, e partiu para Hespanha com todos os seus cabedaes,
excepto as quantias que o honrado negociante Antonio José da Silva
mensalmente devia repartir pelas tres, se eram só tres as pensionadas da
illustre victima de padre João Pires.
Anna do Carmo sabia que sua filha existia no convento; mas, por ordem
expressa do pae, não a procurava. Vivia com honra, e recebia
pontualmente a sua mesada.
Rosa ignorava a existencia de sua mãe, tinha de longe a longe saudades
do pae; mas isso não era forte razão para que deixasse de comprar a
melhor edição do Cavalheiro de Faublás, que traduzia perfeitamente com a
sua amiga, graças aos cuidados do pae em mandal-a aprender o francez
durante um anno que esteve na casa do Laranjal.
Mr. Hemerin vivia em Paris, e vivia perfeitamente da quantia que lhe
fora dada com a condição de cohonestar as relações da mulher com o
padre: missão aliás christã que o maldito não quiz desempenhar
christãmente, e encarou com a melhor philosophia do mundo.
O arcediago vivia em Madrid, e gastava o seu tempo n'um convento de
Therezinhas, onde lhe não faltavam delicias para o espirito, e parece
que as melhores esperanças para tudo que os philosophos teimam em dizer
que não é espirito.
Padre João Pires, esse, contentissimo de ter resolvido o problema de
Sant'Thiago, veio um dia procurar o livreiro para comprar-lhe--_El sabio
instruido de la naturaleza_,--e soube, no livreiro visinho, a
catastrophe do arcediago.
Citou quatro textos em latim ácerca da obscenidade, disse tudo o que
sabia a tal respeito, confirmou minuciosamente todos os escandalos da
vida de padre Leonardo, e foi dizer missa á Misericordia, e ouvir de
confissão a senhora Angelica, que, por um triz, ia ficando sem
absolvição, por ter murmurado da senhora Anna Canastreira, e da mulher
do João Pereira, do chinó.
O senhor Antonio José da Silva, recobrado dos dissabores por que
passára, restaurava as banhas perdidas do seu lustroso cachaço, e
continuava a suar copiosamente.
E o senhor João Retrozeiro, finalmente, lia com o maior prazer a sua
mulher as cartas de seu filho José Bento, que estava no Rio de Janeiro
ganhando duzentos mil reis como segundo caixeiro de um armazem de
molhados, onde o não forçavam a conjugar o atrocissimo verbo _laudo_.
CAPITULO X
Corria tudo fastidiosamente regular e monótono, menos para o espirito
das duas amigas, que progrediam d'um modo admiravel na sciencia das
cousas, e na theoria do mundo estudada nos livros. Todas as suas
economias de tempo e dinheiro, que lhe sobejavam á farta, empregavam-nas
em novellas francezas, que uma criada, das que serviam cá fóra, lhes
introduzia no recolhimento, com pequena commissão.
Maria Elisa se dissermos que era uma litterata, não nos fica o remorso
de ter mentido. A prova de que o era dá-se com bem pouco: basta dizer
que duvidava da efficacia da reza, e dos preceitos mais fundamentaes da
sua religião da infancia. Fallava na religião natural, e sabia de cór a
_Voz da Razão_, e a _Pavorosa illusão da Eternidade_.
Rosa Guilhermina era litterata metade e mais um terço. Não acreditava na
reza, nem nos sanctos da regente: mas tinha fé na existencia de Deus!
Não era consummada como a sua amiga, que punha todo o desvelo em
instruil-a e aperfeiçoal-a.
Era corrido um anno. As meninas entravam nos dezesete, e já não eram as
creanças zombeteiras que traquinavam na cêrca, e irritavam as velhas da
casa com travessuras.
Convencidas de que eram senhoras, revestiram-se da dignidade propria,
deram-se um ar de pensadoras, mediam as suas palavras sentenciosas,
olhavam com desdenhosa insolencia a ignorancia das companheiras,
desdenhavam o beaterio de muitas que lhes não mereciam o favor das suas
reflexões, e, com algumas, dignaram-se descer até lhes confiarem o
segredo da philosophia, o dogma sublime da razão. Se quereis em duas
palavras comprehender a illustrada extravagancia das duas meninas, sabei
que o seu quarto era intitulado por ellas: _hotel de Rembouillet_.[1]
D. Rosa recebia regularmente extremosas cartas de seu pae, que não tinha
expressões com que podésse encarecer o talento de sua filha, manifestado
nas apparatosas cartas, que lhe enviava.
A ultima, que elle lhe escrevera de Madrid, annunciava a sua proxima
vinda para Portugal. Bem informado, o arcediago sabia que as linguas
mordentes dos seus inimigos estavam cansadas, e que o processo, ao cabo
d'um anno, estava esquecido.
Depois da carta, que promettia a sua vinda, que devia abrir outra vez as
portas da clausura ás litteratas, as anciosas meninas receberam outra em
que o padre lhes dizia que, em determinado dia, viria abraçal-as, e que
fossem dispondo a sua immediata sahida para Lisboa, onde elle tencionava
estabelecer casa.
De igual theor recebeu a mãe de Rosa a fausta noticia, e cada qual não
tinha socego em preparar as suas cousas de modo que se não fizessem
esperar.
Era chegado o festivo dia. D. Rosa com a sua amiga, para não perderem
tempo, já tinham feito as suas despedidas; Anna do Carmo tinha fóra dos
bahús o indispensavel para as poucas horas de existencia no Porto; umas
e outras não sahiam da portaria ou da janella para felicitarem o amante
e o pae e o carinhoso protector, quando o senhor Antonio José da Silva
rolou a sua rotunda personagem no pateo do recolhimento.
Rosa, ao vêl-o pelo raro, recuou assustada da inesperada visita. O
negociante perguntou pela filha do arcediago de Barroso, e a porteira,
industriada pela menina, perguntou-lhe se o senhor arcediago tinha
vindo.
--O senhor arcediago--respondeu o negociante com a commoção de que era
susceptivel--o senhor arcediago... está na presença de Deus...
--Morreu?!--exclamaram as meninas.
--É verdade... Faz favor de me chamar a menina.
--Estou aqui, senhor Silva... Pois é verdade que morreu meu pae?
--Desgraçadamente... Acabo de receber um portador de Madrid... As suas
ultimas palavras, foram estas: «Eu morro... vão dizel-o á rua das
Flores, no Porto, a um negociante chamado Antonio José da Silva. Morreu
de uma apoplexia... Deus tenha a sua alma na bemaventurança...
--Isso é impossivel!...--atalhou Rosa, soluçando e chorando.
--Pois é tão certo como estarmos aqui, senhora D. Rosa... O peor é que o
grosso dinheiro que seu pae levou, sabe Deus porque mãos andará a estas
horas!...
--E eu fiquei pobre, não é assim?--atalhou a litterata, que considerava
a riqueza como o primeiro dogma dos sublimes dogmas da razão.
--Pobre... não, senhora--respondeu o negociante, enxugando uma lagrima
importuna.--A menina está perfilhada. Eu tenho a perfilhação em meu
poder. Ainda mesmo que não appareça o dinheiro, que elle levou, o seu
patrimonio vale bem quarenta a cincoenta mil cruzados. É a quinta de
Ramalde, são dous predios na cidade, e as pratas de seu pae, que estão
em minha casa, só essas valem bem seis mil cruzados, a olhos fechados. O
que é necessario é fazer-se um conselho de familia, e bom será que a
menina sáia do recolhimento para tomar conta da casa de seu pae.
Pergunta d'aqui, resposta d'acolá, convieram em que a menina sahisse,
passados tres dias, durante os quaes recebeu visitas no seu quarto, e
chorou alguns instantes sinceramente.
Maria Elisa, como philosopha e boa amiga, animou-a a resignar-se,
convencendo-a de que a morte era a condição da vida, e que as lagrimas
não resuscitavam ninguem. Rosa conveio n'isso em nome da illustração do
seu elevado espirito, e assentou em mostrar-se intrepida na dôr.
Portador da infausta nova, o negociante foi dar o tremendo golpe na
pobre esposa sem marido, e na amante sem amparo, que devia sentil-o mais
profundo. Ahi, sim: havia uma verdadeira dôr, a consciencia de
desamparo, a invalidez na quasi velhice sem refugio. Restava-lhe uma
esperança: era sua filha; mas essa filha não lhe bebera o leite, não lhe
sentira os beijos, não lhe vira as lagrimas, nunca lhe chamára mãe.
Por encurtar razões, o franco negociante foi-lhe dizendo que em seu
poder não estava dinheiro algum, e que tractasse ella de procurar o
amparo de sua filha que era a herdeira do arcediago.
Ao quarto dia, D. Rosa Guilhermina com a sua amiga occupavam a casa do
Laranjal, tomavam as antigas criadas, e consultavam-se no que deviam
fazer, ou se acceitariam as condições que algum impertinente tutor lhes
impozesse.
--Eu não posso dizer nada em tal assumpto--respondeu Elisa.--Sou
absolutamente estranha n'este objecto; não obstante, como tua amiga
intima, entendo que não deves sujeitar o teu coração ás barbaras leis
d'algum barbaro tutor.
Já vêem como era o estylo de Elisa; agora admirem o de Rosa: