No principio, a regente era instada para augmentar as privações da

educanda; mas as privações não podiam ser dadas como supplicio a uma

menina que vivia contente, e cumpria com regularidade e promptidão as

poucas obrigações de pensionista.

O zêlo pharisaico do arcediago afrouxou, porém, com a frieza do senhor

Antonio José da Silva. A catastrophe ridicula, de que fôra victima o

esmurrado negociante em casa do João retrozeiro, modificou-lhe

consideravelmente o coração, a respeito de Rosa Guilhermina, pomo de

discordia, e causa desastrada de similhante conflicto.

O senhor Antonio soffreu, pela primeira vez, uma decepção nas suas

crenças senis. O pugilato com a senhora Anna Canastreira chamou-o á

razão, e, se não é profanar a ideia, diremos que a poesia matrimonial do

senhor Antonio fôra dilacerada pelas unhas felinas da visinha.

O pobre homem tinha vergonha do successo. Na rua das Flores não se

fallava em outra cousa. O seu visinho João Pereira, o do chinó, ria-se á

sucapa com o visinho da loja immediata, emquanto sua mulher contava á

visinha, com grande hilaridade, os famosos murros, que o ciumoso Antonio

jogára com a mãe de José, por causa da Rosa. O que ella não dizia, por

não escandalisar, e todos o sabiam, era que um seu amante fôra a forçada

testemunha do apaixonado dialogo, que os leitores, sem serem os amantes

da mulher do senhor João Pereira (se é que alguns o não foram), tambem

ouviram.

O rico negociante tinha inimigos, émulos de negocio, os peiores de

todos, que espreitavam o primeiro ensejo de o apoquentarem. Não podia

ser melhor o motivo. Algum mais odiento levou a sua vingança ao extremo

de fazer quadras ao desventurado negociante. Algumas d'essas quadras, em

verdade chistosas, chegaram á minha mão. Se não fosse o medo de aggravar

a indigestão de versos em que imagino encruado o estomago do publico,

podéra dar-lhe quatrocentos e tantos versos consagrados ao senhor

Antonio José da Silva, debaixo do titulo: CUPIDO DESDENTADO. Sem

embargo, porém, da christã generosidade que tenho com o leitor, não o

poupo ao flagello de lêr um fragmento d'esse poema, que devia ser a

causa principal do abandono a que o infeliz heroe votou a filha do

arcediago.

O dito poema é de author incognito, e o fragmento não vol-o dou como

primor de arte; é crivel, porem, que o author tivesse filhos, e os

filhos do author, apurados em raça, serão talvez os genios que hoje

prendem a nossa admiração, e engrandecem as letras patrias.

Elle ahi vai:

Dom Cupido desdentado,

Despresado em seus desvelos,

Jurou, sobre os seus chinelos,

Guerra eterna ao seu rival!

Fumegando pelas ventas

As tormentas do ciume,

Todo elle é fogo, é lume,

No solar do Retrozeiro.

Dom Cupido desdentado,

Desarmado, vai sem frecha

Quer abrir, a murro, a brecha

Do rival no coração.

Torce os olhos, solta um urro,

Préga um murro na maçã

Da fanhosa castellã,

Que se atira a elle á unha.

Dom Cupido desdentado,

Não vingado, cahe de chofre,

E tal pêso a velha soffre,

Que estourou! ó vista horrivel!

Pobre Aonio, pobre Aonio,

Que demonio te tentou!?

Antes dentes ter, Antonio,

Que não ter, e ser Cupido!

Dom Cupido desdentado,

Quer o fado que eu te diga,

Que não pódes ter barriga

Mais mal feita para Rosa!

Come bem, morre a comer,

Que, a meu vêr, é grande asneira

Ter inveja do João Pereira,

Teu visinho, ao tal chinó!

..........................

Et cetera.

O chinó de João Pereira fôra sempre o pensamento negro da victima do

poeta! Este sarcasmo ferira atrozmente o infeliz! A reacção devia ser

dolorosa, mas, passada a crise, o senhor Antonio sentia-se bom, porque

ao pino do meio-dia, horas de jantar, a sua paixão dominante era o

melhor dos appetites. Não tinha havido poesia, que tão util fosse ao

genero humano, até então, porque só depois vieram as poesias hygienicas,

ás quaes a humanidade está muito agradecida, principalmente a humanidade

atacada de vigilias. Afóra estas, foi aquella a poesia que melhor fructo

colheu. O senhor Antonio, desde esse dia, comeu como sempre, e dormiu

como nunca. Ao mesmo tempo que era açoutado em effigie no quarto de

Maria Elisa, o razoavel negociante apertava os vinculos, meio lassos,

que o prendiam á Thereza, com barraca de fructa na Ribeira, e entendia

de si para si que a mulher que lhe convinha era aquella.

E, tão de maus humores o encontrava o arcediago, que nem ousava

fallar-lhe em Rosa, nem, o que mais era, o convidou para o vinho verde

de Campanhã nos domingos de tarde.

Data d'ahi, portanto, a tolerancia do padre com os divertimentos da

filha. Visitava-a com melhores maneiras. Festejava Maria Elisa, que lhe

chamava padrinho, presenteava-a com vestidos similhantes aos de sua

filha, e redobrava de contentamento, sabendo que o filho do retrozeiro

era uma cousa sem importancia no voluvel coração da pequena.

Tudo corria maravilhosamente para todos, quando Rosa Guilhermina, dia de

entrudo, atirava cantaros de agua, e recebia-os agradavelmente pela

cabeça. O resultado, porém, foi uma constipação despresada, uma tosse

continuada, febre, e, na primavera seguinte, foi julgada no principio

d'uma phtysica.

O arcediago resolveu levar sua filha a ares para uma sua quinta de

Ramalde, e alcançou licença a Maria Elisa para acompanhar a sua amiga.

Sahiram, e desde esse dia, a regente, a sacristã, e todas as velhas,

especialmente as Limas, agradeciam, todas as manhãs, á Providencia o

favor de lhes afastar de casa similhante flagello.

Rosa melhorou apenas se viu em boa harmonia com seu pae, livre do

pavoroso negociante, senhora da sua vontade, rindo e brincando com a sua

amiga, amimada pelas duas criadas que o arcediago lhe dera, e decorando

cada vez melhor o romance predilecto de Maria Elisa.

No inverno proximo, as meninas vieram para a cidade, e encontraram uma

casa bem mobilada, apetrechada de tudo que mais lisongeava duas amigas

inseparaveis. Esta casa, situada á entrada da viella do Cirne, com

frente para a rua do Laranjal, ainda hoje conserva um ar campestre, que,

ha quarenta annos, era muito mais agradavel, porque a não assombravam

então os edificios do largo da Trindade.

O quintal d'esta casa communicava com o do defunto Rodrigues Passos,

professor de latim, e o leitor, se tem prestado alguma attenção ao que

se lhe diz, deve lembrar-se que José Bento, no extremoso colloquio com a

sua visinha, annunciou a sua ida para o collegio de Passos.

Rosa nem de tal se lembrava já, quando encontrou os olhos piscos do

esquecido amante espetados nos seus. Elisa, que reparou na surpreza da

sua amiga, perguntou:

--Aquelle mono conhece-te?

--Conhece... Aquelle é o filho do retrozeiro... Agora me lembro que elle

disse que vinha para a Cancella-Velha!...

--Vamos nós namoral-o?

--Deus me livre!... Tomára eu que elle me não dissesse nada... Olha o

tôlo!...

--O que nós queremos é rir-nos... Pergunta-lhe se está melhor das dôres

de barriga.

--Eu não... Deixa o pobre rapaz... Vamos embora.

O estudante, cada vez mais pasmado do silencio de Rosa, é natural que

meditasse na razão d'aquelle inesperado encontro, quando Maria Elisa,

com a maior naturalidade, lhe perguntou:

--Como está da sua barriga, senhor José?

O rapaz fez-se muito vermelho, e não respondeu palavra.

--Cala-te, Maria!--murmurou Rosa, puxando-a pelo vestido.

--Não quero calar-me. Pois eu não hei de saber como está a barriga do

teu namoro? Então vmc.e não me responde? Olhe que eu sou sua amiga, e

faço esta pergunta, porque a Rosinha tem vergonha, e pediu-me que lhe

perguntasse se está melhor.

--É mentira!--atalhou Rosa, córando--eu não disse tal... Não digas o que

não é, Mariquinhas...

--Pois então, não dirias; mas eu quero que aquelle senhor me responda.

Vmc.e é mudo?

--Não sou mudo--disse o estudante embezerrado.

--Então, falle á gente.

--E se eu não quizer?

--Se não quizer, não falle; mas é má creação tratar assim quem lhe

pergunta se está melhor da sua barriga.

--A minha barriga, graças a Deus, está boa, e vmc.e que lhe quer?

--Não quero nada... eu já lh'a pedi?

--Pensei que lhe queria alguma cousa... Eu não sou boneco de palha para

caçoadas.

--Vmc.e parece-me um mau rapaz! Quem é que o caçôa? Nem me parece um

estudante! Valha-o Deus! eu, se fosse Rosinha, não lhe tinha amor...

--Cala-te, Maria!.., Tu pareces-me tôla! Deixa o rapaz!--disse baixinho

a Elisa, forçando-a a retirar-se d'alli.

--Deixa-me caçoar com elle... Eu não te disse que lhe havia de pôr um

_rabo-leva_ de papel? Já que não posso, deixa-me rir com este gêbo, e tu

ri-te tambem.

José Bento, favorecido pelo dialogo, ia-se escapando surrateiramente,

quando Elisa o chamou:

--Psiu!... psiu!... Olhe cá!...

--Que me quer?

--Vmc.e estuda para frade?

--Que lhe importa se estudo para frade?

--É que se vmc.e fosse frade, eu queria ser frada, e haviamos de ter uma

casinha ambos e um quintalinho, e as nossas gallinhinhas, que nos haviam

de pôr os seus ovinhos, que nós haviamos de cosinhar ambinhos na nossa

cosinhinha, e depois a gente dizia a sua missinha... e depois a gente

vinha tomar o sol no seu quintalinho... e depois...

Rosa ria-se como uma perdida, quando o filho da senhora Anna

Canastreira, alongando a tromba, e franzindo o nariz, resmungou:

--Sabem que mais? vão bugiar! O meu regalo era...

--Qual era o seu regalo, ó senhor José?

--Se não fosse estar em casa do mestre... eu lhe responderia...

--Ora diga lá baixinho a sua resposta, que eu não digo nada ao mestre.

--Vá...

--Que vá, aonde? Não seja tão mausinho, senhor Josésinho do meu coração.

Vmc.e ha de ser um fradinho de pau de sabugo muito bonito... Já tem

corôa?

--Tenho um dardo que a parta.

--Olha que mau!... Senhor José, não seja assim... Tome lá uma beijoca.

O corrido estudante tinha desapparecido, não só porque se via embaraçado

em responder ás zombarias da importuna rapariga, mas porque o mestre,

ouvindo-o fallar, vinha de manso espreitar com quem era. O zeloso

professor appareceu no muro, e ainda viu as duas meninas, que se

retiravam em grandes gargalhadas. Enfurecido com a audacia do lôrpa,

como elle generosamente o intitulava, foi ter com elle explicações

acerca de tal conversa.

--Que dizias tu áquellas meninas?

--Eu, nada... Eram ellas que...

--Que... o que? que te diziam ellas?

--Ellas diziam que...

--Acaba d'ahi selvagem!

--Eu estava alli a estudar a selecta primeira, e ellas disseram-me

que...

--Estás zombando comigo?

--Perguntaram-me se eu era...

--Um burro? e tu disseste-lhe que sim.

--Não foi isso... perguntaram-me se...

--És um asno quadrado! Ouviste, lôrpa? Se te vir outra vez a fallar com

as visinhas, escangalho-te as mãos! Não tens habilidade para traduzir

_mundus á domino constitutus est_, e sabes dar tréla ás raparigas!? Ora

deixa estar que te farei a cama!...

A crise passou, e José Bento n'esse dia apenas teve, como era de

costume, um bofetão e um puxão de orelhas, por causa do imperativo

_laudandum_.

No dia immediato, as meninas não o viram; mas, no outro, Rosinha viera

adiante esperar a sua amiga para colherem rosas do Japão, quando ouviu o

som roufenho da voz conhecida de José Bento:

--Senhora Rosinha, assim é que vmc.e se porta comigo?

--Ah!... estava ahi?!...

--Pois então! cuida que eu me esqueci de si? Ficou de me escrever, e foi

como se nada!... Olhe lá como vmc.e é!

--Não pude, senhor José... e tenho a dizer-lhe que é melhor não me

fallar, que meu pae ralha-me. Faça de conta que nunca nos vimos. Aquillo

que nós dissemos foi uma brincadeira de creanças. Trate do seu estudo, e

não se embarace comigo, porque eu tenho muito medo a meu pae...

--Sempre vmc.e é... d'aquella casta! E eu a pensar em si todos os dias,

e sempre a esperar noticias suas, ha quasi um anno!... Então eu já não

sou o mesmo?

José Bento proseguia n'uma tirada eloquente contra a perfidia de Rosa,

quando o vulto austero do mestre de latim surgiu de improviso ao lado do

pallido estudante. Ao mesmo tempo, chegava Elisa, rindo muito da

surpreza, e Rosa punha os olhos no chão, e cortava machinalmente uma

rosa menos purpurina que ella.

--Chegue-se aqui!--disse o mestre ao rapaz aproximando-o do muro, que

dividia os dous quintaes--Ó meninas!

--Que quer?-perguntou Elisa.

--Os meus discipulos ensinam-se assim. Dê cá a mão, seu lôrpa!

José Bento, córado como um mólho de malaguetas, recuou diante da

palmatoria, cuja cabeça o espreitava por debaixo do capote de saragoça.

--Dê cá a mão! Vossê não obedece? Olhe que o mando pendurar n'aquella

figueira.

--Como Judas Iscariote--atalhou Elisa, fungando, e esfregando as mãos.

O infeliz déra a mão, e quatro sonoras palmatoadas lhe estouraram na

epiderme. A dôr moral devia ser grande! Rosa estava pallida, e Elisa, de

repente, séria, disse ao professor:

--Se eu fosse elle...

--Que diz lá a senhora?

--Digo que, se fosse elle...

--Que faria?

--Dava-lhe um murro no nariz.

--Em quem?

--Em vmc.e ...

--Se é senhora, não o parece...--disse o professor, encarando-a com

desprêso--Eu tratarei de saber quem é seu pae, e, se seu pae lhe não

der com umas disciplinas...

--Que me ha de fazer? dá-me palmatoadas?

--Hei de lhe mandar dar com um chinelo...

--Fóra casmurro!... Venha para cá, que lhe hei de dar um docinho...

O infiado mestre foi cevar as iras impotentes no pobre moço, que levou a

ponta-pés para o quarto.

José Bento recahiu n'uma profunda concentração. Durante o dia não comeu,

nem bebeu, nem estudou. Á meia noite ergueu-se d'um impeto similhante a

um ataque repentino de demencia. Abriu uma gaveta, e tirou um garfo. Ás

apalpadellas atravessou um corredor, e, na extremidade, abriu de

mansinho uma porta. Aproximou-se do leito onde resonava um homem, e

cravou-lhe tres vezes o garfo no pescoço. O agonisante soltou um rugido,

que só o assassino ouviu, e expirou.

Pela manhã encontraram morto o velho Manoel José d'Almeida, professor de

latim, com um garfo tinto de sangue sobre a dobra do lençol.

--José Bento desapparecera. Foi procurado em casa do João Retrozeiro, e

não o encontraram.

Horrivel acontecimento!

A lingua latina perdeu um dos seus melhores interpretes. O senhor Manoel

José de Almeida poderia ser um temperamento colerico com os seus

discipulos, mas a sciencia devia-lhe muito. Escreveu largamente sobre a

genuina interpretação do _tam libet hirsutam tibi fulci recidere

barbam_, de Ovidio. Deixou ineditos tres volumes sobre a conjuncção

copulativa, e preciosos manuscriptos sobre o adverbio _quotiesqumque_.

Era um bom catholico, e amigo dos pobres, que lhe chamavam pae. Era bom

esposo, bom pae e bom irmão; e, se não era bom cidadão, é porque os

cidadãos inventaram-se depois.

_A terra lhe seja leve!_

CAPITULO VIII

O tragico successo inquietou um pouco o espirito de Rosa; mas a sua

amiga convenceu-a de que não devia dar-se por achada em similhante

cousa. O director do collegio ignorava a causa do inaudito crime,

presenciara a sóva de pontapés com que José Bento se recolhera ao

quarto; mas suppoz que a justificada razão d'aquelle castigo fôra

qualquer asneira do rapaz na impossivel conjugação do verbo _Laudo_,

especialmente no imperativo _laudandum_.

Por conseguinte, as pequenas não tiveram de responder como causas

involuntarias daquelle sinistro, e continuaram no gôso da sua

felicidade.

O arcediago, supposto não vivesse com ellas, almoçava, e jantava com sua

filha, ceava com uma senhora viuva que lhe administrava a casa; e,

depois de ceia...

Depois de ceia, ha muita cousa a dizer a este respeito.

É sabido que Rosa Guilhermina era filha de uma tal Anna do Carmo, velha

predilecção do padre Leonardo, e por elle dotada para o honesto fim de

casar-se com um tal francez, com loja de livros na rua das Flores.

O padre não andou com toda a generosidade n'este negocio. Dado o

dinheiro, se quizesse ser honrado, devia renunciar inteiramente, a

beneficio do livreiro, a mulher de que se descartára. Magôa-nos, porém,

ter de annunciar que o arcediago era um agiota no seu genero, e pensamos

que a senhora Anna do Carmo não era mau genero para agiotagem.

A verdade é que o pae de Rosa continuava a visitar de dia o

estabelecimento do livreiro, comprava algum livro que ajuntava, na

estante, aos seus virgens irmãos, e predispunha favoravelmente com as

visitas diurnas a confiança do marido, que tinha lido Molière, e não

queria incorrer no defeito do _Cocu imaginaire_, que o leitor póde lêr,

se a consciencia o não incommóda.

A honesta esposa repellia as seducções do padre, esquivando-se a

encontros em que o usurario amante parecia convidal-a a pagar-lhe um

juro avaro do capital recebido. Dissertava-lhe amplamente sobre a

verdadeira virtude, pintava-lhe a ingratidão o mais feio dos crimes,

dissuadia-a de temores piegas que não tinham nada com a verdadeira

religião, e queria convencel-a de peneira nos olhos a respeito do

matrimonio e de muitas outras cousas.

O francez não sabia que fôra elle o amante de sua mulher.

Movido pelo interesse que as frequentes visitas do amador dos bons

livros lhe dava,--e, de mais a mais, convencido da honestidade de sua

mulher, se o padre, feio e velho, tentasse seduzil-a,--o senhor Hemerin

Pierrote (Deus lhe falle n'alma) acolheu agradavelmente o seu bom amigo,

e honrou-se muito, não só das suas visitas, mas do interesse que o

generoso padre tomava em ser o padrinho do primeiro filho de tão feliz

matrimonio.

Madama Anna Pierrote recebia com repugnancia as pontuaes visitas do

arcediago, e esta repugnancia, que seu marido lhe censurava como

inconveniente aos interesses de ambos, era uma nova razão para que o

espirito do francez estivesse tranquillo, e as suas portas sempre

francas para o generoso compadre.

Este parentesco fôra contrahido muito contra vontade da senhora Anna.

Seu marido, porém que recebera de antemão o enxoval do recem-nascido,

perguntou cheio de cólera a sua mulher, se queria algum _garçon de bone

mine_ (rapaz esbelto) para compadre. Accrescentou que, se ella fosse

fina, devia ameigar constantemente o arcediago, que era rico, e poderia

fazer o afilhado seu herdeiro. Resumiu, emfim, o seu discurso,

declarando, pelo _sacre nom de Dieu_, que o arcediago de Barroso seria

seu compadre, e mandaria n'aquella casa como na sua.

A senhora Anna, coma boa esposa, resignou-se; padre Leonardo, como bom

compadre, vinha duas vezes ao dia fazer caretas e botar a lingua de

fóra, com o pequeno nos braços; e o risonho marido, como habil e

francezissimo logrador, deixava o padre em cima ensinando a creança a

dizer papá, e vinha para a loja fazer negocio e trautear a

_Marseillese_.

A creancinha, habituada com o arcediago, apenas o via, estrebuxava no

collo da mãe, batendo as palmas, e articulando--_papá_, _papá_. O

livreiro ria-se muito contente da esperteza do pequeno, e ensinava-o a

dizer _padrinho_; e a creança, que não sabia ainda ajuntar tres

syllabas, teimava em dizer _papá_.

Mr. Hemerin estava contentissimo do filho, e da mulher tambem, porque a

repugnancia em receber o arcediago desapparecera desde certo tempo, e

sua mulher, emfim, sabia viver perfeitamente com o compadre, e já se lhe

não dava de jogar com elle a _bisca de nove_, e o _trinta-e-um_.

Correram dois annos n'esta perfeita harmonia. Os visinhos riam-se do

francez, mas a razão do riso devia ser elle o ultimo que a soubesse.

Eram notorios, na rua das Flores, os precedentes de Anna do Carmo; os

maledicentes sabiam que ella fôra amante do arcediago; o livreiro

visinho contava aos seus freguezes a immoralidade do jacobino (que

vendia melhores obras, e sortira a sua loja de tudo que se procurava) e

lamentava a queda da religião, se o senhor bispo não pozesse côbro

áquelle grande escandalo.

O demonio da intriga viera perturbar a felicidade domestica d'aquella

familia.

O pequeno Leonardo, já de dous annos, continuava a chamar papá ao padre,

com grande aprazimento do pae matrimonial. A senhora Anna mostrava a seu

marido as prendas que o compadre lhe dava. O marido mostrava a sua

mulher o córte de velludo vermelho que o compadre lhe déra. Tudo isto ia

_le mieux qui se peut_, como dizia o jubiloso livreiro, quando, abrindo

de manhã a porta, encontrou uma carta em que um seu _amigo intimo_, como

todos os amigos das cartas anonymas, lhe dizia o que se passava em sua

casa, as antigas relações de sua mulher com o padre, e o descredito

geral em que a sua honra andava nas praças publicas. Como seu _amigo

intimo_, e zeloso do seu bom nome, aconselhava o generoso espião que

pozesse o padre fóra de casa, e que mettesse a mulher no Ferro, para

assim dar uma plena satisfação ao publico escandalisado.

O discreto marido leu a carta, e vendeu com a maior presença de espirito

um _Flos-Sanctorum_ a um padre da aldeia, que se apeára d'uma égoa, no

momento em que a porta se abrira.

--Estas obras de sanctidade--disse o padre--creio eu que se vendem

pouco... A religião está por terra... Já lá vai o tempo em que os frades

escreviam obras de substancia... Os de hoje criam muito cachaço, e os

seculares são uns libertinos, que o mais que fazem é apanhar as

prebendas, os canonicatos, e os beneficios para viverem á regalada. O

exemplo devemol-o dar nós, como diz o apostolo: _Ante eas vadit, et oves

eum secuntur_... Já lá vai esse tempo. Os bons padres, e que sabem do

seu officio, vivem obscuros na aldeia, e ninguem os chama para as

dignidades da igreja; os que arruinam com a sua má vida e mau exemplo o

edificio da religião, a casa de Deus, _ædes Domini_, esses são chamados

a lamber as chagas do corpo putrido da humanidade; _canes veniebant, et

lingebant ulcera_, como diz S. Lucas no capitulo XVI.

--Então o senhor padre veio requerer algum beneficio, que lhe não deram?

--Vim, sim, senhor, vim pedir ao senhor bispo uma igreja apresentada

pela Mitra, e estou aqui ha um mez a gastar n'uma estalagem, e vou-me

embora sem ella. O bispo é... o que Deus sabe... Dizem que é um sancto,

mas barata virtude é a sua... Quando o rebanho anda tresviado, o pastor

não é lá grande cousa, como diz o livro sancto: _Nam quod ab ovibus

erratur, negligentie pastoris adscribitur_.

--Quer o senhor padre uma cousa?

--Nada, não, senhor, não quero mais livro nenhum; precisava d'este para

tirar uma duvida sobre se o apostolo Sant'Thiago veio ou não a Portugal,

e se S. Martinho de Dume foi arcebispo primaz...

--Eu não lhe perguntei se queria mais livros; disse-lhe que me lembrava

um meio de v. s.ª...

--Alto lá! Nada de _vossa senhoria_... Eu não sou d'esses modernos, que

se esquecem da humildade do divino Mestre, e querem as honras que, ha

trezentos annos, se davam ao rei... Trate-me por vmc.e

--Pois bem; se vmc.e quizesse, eu poderia arranjar-lhe um bom empenho

para o bispo.

--Sim? então quem é elle?

--Isso agora é um segredo... Veja lá vmc.e quanto dá...

--Quanto dou? isso é symonia, reprovada e condemnada com graves penas

pelo concilio tridentino. Se eu quizesse servir-me d'esse infernal

recurso, bem sei a que porta devia bater. Conheço como as minhas mãos um

vendilhão d'esses favores, que não tem vergonha nem temor de Deus, e ha

muitos annos que trafica descaradamente com os objectos sagrados da

sancta religião de Nosso Senhor Jesus Christo. É um symoniaco, um

libertino, indigno de se sentar no cabido...

--Quem é elle?

--Quem ha de ser? é o arcediago de Barroso, um homem sem religião, de

pessimos costumes, que tem vivido amancebado toda a sua vida, e que, de

mais a mais, tem o desaforo de casar uma das suas concubinas ahi não sei

com quem, e disseram-me que continua a viver adulterinamente com ella...

Fóra o adultero! Não lhe faltava senão esta!...

--E vmc.e conhece-o?

--Conheço muito bem, oxalá que não. Fomos companheiros no seminario, e

já lá prophetisei a rôlha, que viria a ser o senhor Leonardo Taveira...

Depois, via-o pelo Porto, e fui jantar a casa d'elle, e sahi

escandalisado porque teve o desavergonhamento de sentar comnosco á mesa

uma rapariga que tinha em casa...

--Sabe como ella se chamava?

--Sei, sim, senhor. Chamava-se Anna do Carmo...

--Anna do Carmo!...

--Vmc.e espanta-se? É o que eu lhe digo...

--Que figura tinha ella?

--Era uma mocetona tirada das canellas, branca, cheia do peito, com os

olhos mesmo concupiscentes como os do proprio demonio, e fallava sem

vergonha diante de mim.

--E sabe se foi essa a que elle casou?

--Dizem-me que sim, até o homem é estrangeiro, por signal, e tem não

sei que officio. Se vmc.e quizer, eu volto cá qualquer dia, e posso

saber-lhe tudo isso a preceito.

--Muito obrigado... eu não tenho interesse n'isso...

A Filha do Arcediago Terceira Edição · 第 3 / 18 段