--Eu nunca fiz tagatés ás filhas, nem ás irmãs dos meus visinhos.

Ninguem dirá que me viu espetar os olhos nas familias alheias. Sou um

homem honrado.

--Quem nega tudo isso, senhor Antonio?

--Tanto se me dá que vmc.e tenha cá uma mulher como duas...

--Isso não é verdade, e perdoará, visinho. Eu não tenha cá em casa senão

a minha mulher... Quem lhe disse que eu tinha cá duas mulheres?

--Não sei se tem duas, nem quatro. O que sei é que vmc.e tem um filho

muito mariola.

--Vmc.e está enganado! O meu filho é um rapaz muito accommodado que

estuda para loio, e não tem nada que lhe digam.

--O seu filho é um mariola, já lh'o disse.

--Pois o meu José que lhe fez?

--O seu José anda-me cá a fazer gatimanhos á filha do senhor arcediago,

que por amor d'elle vai ser posta fóra da minha casa. Não quero poucas

vergonhas de portas a dentro, é o meu systema.

--Que me diz, senhor Antonio? Pois o meu José...

--É o que lhe digo, senhor João. Eu sou um homem honrado, e dos annos

que tenho ninguem me viu desinquietar as minhas visinhas. Vmc.e não é

bom pae. Um logista que tem filhos, fal-os ir trabalhar na loja.

--O meu José estuda para frade, por isso é que não vem para aqui...

--Qual frade, nem meio frade!... Deixemo-nos de frades. Ponha-o a

sapateiro, ou alfaiate, que é o mais proprio. Eu tenho sobrinhos, e não

os mando aprender latim; e vcm.e, que tem aqui dous arrateis de retroz,

e quatro varas de mastro, já quer ordenar um filho...

--Que lhe importa a vmc.e a minha vida?

--E o seu filho que lhe importa as pessoas de minha casa? Se eu fosse

outro homem, mandava-lhe estender as orelhas por um caixeiro...

--Isso lá mais devagar, senhor Antonio! Quem castiga o meu rapaz sou

eu... Se o seu caixeiro lhe puxasse as orelhas, não havia de ter frio

nas d'elle. É o que lhe digo! Eu sou pacifico, e cortez com quem é

cortez. Eu chamo o meu filho, e veremos como é essa pendencia, que vmc.e

traz.

O senhor João, já com a mostarda no nariz, chamou José, que vinha

descendo, e resmungando: _imperativo do verbo laudo, as, are,

laudabundum, ou laudatote_. _Presente do indicativo, Laudaturus._

Contentíssimo das suas reminiscencias, e livre da dôr de barriga, José

Bento ficou surprezo na presença do rival, e enfiou de susto. A edição

da cara paterna não era mais nitida que a do negociante.

--Vem cá, José. O senhor Antonio queixa-se de que tu fazes tregeitos

para a menina do senhor arcediago, isto é verdade?

José, chofrado pelo improviso, gaguejou a resposta, que mais tarde sahiu

energica, e eloquente.

--É verdade, ou não?--replicou o pae.

--Ágora é...

--É, sim, senhor. Não me desminta, seu estudante de borra!--trovejou o

negociante, formando instinctivamente com as mãos dous gordos murros.

--Não é preciso berrar tanto, senhor Antonio!... A minha casa não é

pateo de convento. Se quer que fallemos, vamos lá para dentro.

--Faz favor de entrar.

Antonio José acceitou o convite, e proseguiu na apostrophe:

--Eu que lh'o digo, é porque o sei. Vossê esteve esta noite fallando com

Rosa! Esteve ou não esteve?

--Estiveste, rapaz?

--Eu, não, senhor.

--Como é isso?--continuou o pae--se o meu filho esteve toda a noite a

gritar com dôres de barriga, e por signal que a minha Anna andou toda a

noite na cosinha a aquecer agua para banhos? Quer que eu chame a minha

Anna, senhor Antonio?

--Não me importa o que diz a sua Anna.

--Isso... mais devagar! A minha Anna é tão honrada e verdadeira como a

senhora Angelica, e póde pedir messas ás mais honradas.

--Que tens tu, Joãosinho?--grasniu de cima a senhora Anna, mettendo a

cabeça pelo alçapão.

--Olha lá, mulher... O nosso rapaz que teve a noite passada?

--Dôres de barriga.

--Vê, senhor Antonio!... Tudo que me veio dizer é mentira...

--Não se diz isso a um homem honrado, como eu!... O seu filho esteve ás

dez horas a conversar com Rosa; eu que lh'o digo, é porque o sei de bom

canal...

--Quem lh'o disse? onde está esse canal?

--Quer sabel-o? Foi certa pessoa que á mesma hora estava para conversar

com essa indigna mulher do João Pereira.

--De qual João Pereira? Aqui ha dous na visinhança.

--Do João Pereira, calvo, que traz chinó.

--Que dizes tu a isto, José?

--Digo que estive com dôres de barriga, e por signal que tomei chá

d'herva cidreira.

--Vê, senhor Antonio? Vmc.e é um homem honrado, mas enganaram-n'o.

--Não me enganaram. Eu de portas a dentro não quero poucas vergonhas: é

o meu systema.

--Enganaram, sim, senhor--chiou de cima a senhora Anna.

--Quer apostar uma moeda contra dez?

--Aposto o que vmc.e quizer! O meu filho é um exemplo dos bons rapazes.

É filho d'um bom pae.

--E d'uma boa mãe--accrescêntou a senhora Anna.

--Não tem a quem sahir mau--confirmou o retrozeiro.

--Pois eu digo-lhe--exclamou o mercador de pannos com grande chuveiro de

perdigotos--digo-lhe eu que seu filho é um tratante, e que vmc.e é

outro, se o não castigar.

--Olhe lá como falla, ouviu?--disse a mãe do futuro loio, já perfilada,

em baixo, ao lado de seu marido, que era a carne da sua carne, e o osso

do seu osso.

--É isto que lhe digo. Pela arvore se conhece o fructo. Se vmc.e fosse

um homem de conhecimentos, e não viesse aqui para esta rua de tamancos e

barrete vermelho daria outra educação aos seus filhos.

--E vmc.e d'onde veio?--interpellou a senhora Anna, fechando os punhos

na cintura, e dando-se, pelo vermelhão da cólera, a figura d'uma bilha

de barro--Não me dirá a sua linhagem, senhor Antonio da tia Catharina,

que eu conheci na Ponte-Nova fazendo camizas de estôpa para os

embarcadiços! Olhe o fidalgo, que nos vem fallar em tamancos! Que me

dizem a isto? Lembre-se que sua avó vendeu tripas na viella da

Madeira...

--Cale-se ahi que vossê é uma regateira; eu não fallo comsigo.

--A minha mulher, regateira?

--Eu, regateira?

--Ponha côbro na lingua.

--Se não, topa com a fôrma do seu pé...

--Sahe a racha ao pau--interrompeu o rival de José Bento, que não dizia

palavra--vmc.e ha de sempre mostrar que vendeu hortaliça no largo das

Freiras. É a filha da Canastreira, e basta.

--E sua irmã, a beata que traz cilicios depois de velha, quem é, não me

dirá?

--Não falle em minha irmã, ouviu?

--E vmc.e para que falla em minha mãe?

--Porque, se vossê tivesse vergonha não estava aqui a crear este

mandrião...

--Faço eu muito bem, que é meu filho, e filho do meu marido, com quem

sou casada á face de Deus e do altar, na igreja da Victoria... E sua

irmã porque não cria os d'ella?

--Qual minha irmã?

--Sua irmã Angelica.

--Vossê está bebeda logo de manhã?

--Bebedo será elle, e mais quem o veste. Pois que cuida? Acha que a

gente se calava por não ter tanto? Se tem muito, coma duas vezes, nós

comeremos uma, porque não desfructamos os rendimentos da legitima das

filhas dos padres.

--Cale-se ahi, sua desbocada! Vossê tem alguma cousa a dizer a minha

irmã? Encontrou-a lá por casa dos Amorins da Praça-Nova, onde vossê

arranjou com boas bullas o dote do seu casamento?

--Vmc.e é um patife--atalhou o retrozeiro, sériamente envinagrado--e se

não sahe de minha casa...

--Deixa-me responder-lhe, João... com que então eu ganhei o meu dote em

casa dos Amorins, heim! E sua irmã? e a sua irmã que reza a via-sacra, e

anda por casa das benzedeiras? Que fez ella tres mezes mettida na cella

do congregado?

--Que congregado diz vossê, sua regateirona?

--E aquelle filho do conego Silvestre, que caminho levou?

--Desavergonhada que vossê é!...

--Sou? e a sua irmã que é? uma _hypolita_... uma benzedeira, que dá pelo

amor de Deus o que não póde dar ao diabo! É uma bebeda que nunca ha de

chegar aos meus calcanhares.

Palavras não eram ditas, a senhora Anna Canastreira levava um grande

murro no alto da cabeça; murro não era dado, e o senhor Antonio sentia,

nas almofadas carnosas do cachaço, o pezo d'uma tranqueta, que o fez ir

de chofre sobre a mulher do retrozeiro, que, atordoada do murro,

resvalou por debaixo do globoso negociante, que soltou um bramido de

rhinoceronte na queda desamparada.

A detractora da senhora Angelica sentiu-se escorchar debaixo do monstro,

e cravou-lhe as unhas nas forçuras tremulas do pescoço. O retrozeiro,

para salvar a mulher asphixiada, puxava a perna homerica do negociante;

o negociante distribuia couces tão a proposito que uma canella do senhor

João recuou mal ferida da empreza arriscada. Indignado pela dôr fina do

canellão, o marido da pobre mulher atufada, com a perna disponivel,

imprimiu tres valentes ponta-pés na orbita mais a geito e provocante do

senhor Antonio, que esperneava, grunhindo como um cevado. José Bento,

como bom filho, tentava alliviar o fardo, que ameaçava o arcaboiço

descarnado de sua mãe, puxando, em vão, o despresado amante de Rosa

pelas portinholas da jaqueta de linho crú.

A salvação, porém, da senhora Anna Canastreira deve-se ás suas unhas. O

papo balôfo do senhor Antonio soffrera graves arranhaduras. Em

compensação, o ôlho direito da infamadora de sua irmã inutilisara-lh'o

elle com o cotovello perfurante.

Este conflicto durou quatro minutos, e ao quinto a senhora Anna não

tinha fôlego. A pressão que soffrera na cavidade intestinal, e na

thoracica tambem, podia ter mui funestas consequencias, se o nosso

presado amigo, o senhor Antonio José da Silva se não levantasse,

lazarado do pescoço para cima, supposto que, no vermelhão natural da sua

cara veneranda, o sangue das arranhaduras não se destacava.

A senhora Anna, continuando a infiada de epithetos, consagrados á

senhora Angelica, estava ainda sentada compondo as rêpas da desalinhada

cabeça, quando o offegante mercador de pannos, impellido pelo derradeiro

empurrão do retrozeiro, se achou na rua, onde o povo principiava a

juntar-se, chamado pelos gritos confusos dos gladiadores.

O senhor Antonio entrou no seu quarto a lavar a cara com agua e vinagre.

Perguntou por sua irmã, e o caixeiro respondeu-lhe que fôra acompanhar

Rosinha. Pensados os ferimentos, o infeliz rival de José Bento mediu em

toda a profundidade a extensão da sua dôr, e comeu dous pasteis de

Sancta Clara, que eram a vanguarda d'um copo de vinho.

CAPITULO VI

Rosa Guilhermina foi recebida com carinho pela regente, senhora de boa

educação, e incapaz de satisfazer as rigorosas recommendações do

arcediago. A pensionista era tão meiga, tão sympathica, e tão linda, que

prendeu o interesse das suas companheiras, e a amizade da regente.

Padre Leonardo recommendára que a deixassem sósinha, e a não recreassem

de modo que ella saboreasse a vida nova, que lhe era dada como castigo.

Ainda assim, as commodidades do quarto não lh'as negára elle. Rosa

encontrou aceio, suppondo que acharia um escuro cubiculo, e uma enxerga

por cama. Encontrou raparigas folgazãs, onde esperava achar velhas

rabugentas. Achou comida bem feita e abundante, onde lhe tinha dito D.

Eugenia que se jejuava todos os dias, e o melhor manjar eram papas de

farinha milha. Se não via a rua, que tinha, n'esse tempo, pouco que vêr,

a cêrca era espaçosa para brincar, e, a certas horas, as garrulas

meninas saltavam como cabras, e rasgavam os sapatos e os vestidos á sua

vontade.

Basta dizer-vos, leitoras compadecidas da namorada de José Bento, basta

dizer-vos que a reclusa não tinha tempo para pensar sériamente no

aprendiz de loio, nem, ainda no senhor Antonio José, nem na senhora

Angelica. É verdade que uma saudade dolorosa lhe assomára aos olhos em

lagrimas, que as pensionistas tractaram de enxugar-lhe com brinquedos.

Era uma saudade, que lhe aguava os prazeres inesperados do recolhimento:

era, em fim, a saudade pungentissima da sua gata malteza.

Entre todas as meninas, havia uma sua predilecta, inseparavel, visinha

de quarto, e da sua idade. Esta não era pensionista. Orphã de pae e mãe,

fôra adoptada pela Misericordia. Galhofeira por indole, tinha momentos

de entristecer-se da sua condição parasita, e custava-lhe soffrer

encargos que as pensionistas não tinham. Lembrava-se de ter sido, até

aos oito annos, educada com mimo, revoltava-se contra a religião, que

mandava resar de madrugada, e muitas vezes disse ás mestras que sua mãe

sahiria da sepultura, se soubesse que creava uma filha para viver

sujeita ás migalhas da Sancta Casa da Misericordia, que não tinha muita.

Felizmente para o senhor Diogo Leite, provedor da Sancta Casa, a mãe de

Maria Elisa, por ignorancia talvez do mau humor de sua filha, não consta

que sahisse da sepultura. E a prova é que a orphã resignou-se á sua

sorte, e parecia mais feliz desde que Rosa a preferiu como amiga ás

ricas pensionistas, que desdenhavam da preferencia pouco nobre e

desairosa para ellas.

Maria Elisa entrára para o recolhimento aos oito annos. Aos quatorze

estava mulher, e não sei por que phenomeno do instincto sabia, pouco

mais ou menos, qual era a vida cá de fóra! Se não é phenomeno, devemos

acceitar a explicação natural do facto, como nol-a dão hoje as sinceras

mães de familia, que alli foram educadas. D'antes (e agora é o mesmo) um

pae que receiava os resultados da indiscreta inclinação de sua filha já

adulta, e emancipada, pegava da filha desobediente, e fazia o que fez o

arcediago á sua. Acontecia, porém, que nem todas eram innocentes como a

filha do arcediago. As que entravam apaixonadas, o desafogo que tinham

era fallar da sua paixão em geral, e das particularidades a alguma amiga

intima, que se entretinha a scismar nos pesares da sua amiga, e achava

que os homens, se fossem cousa má, não eram chorados pelas pobres

meninas, victimas d'um deshumano pae, ou d'um barbaro tutor, como ellas

diziam em estylo da tragedia velha. N'aquella casa correu occulto o

desenvolvimento de dramas atrozes. Presenciaram-se alli despotismos,

cuja historia espanta o coração. Os que hoje encaram aquellas paredes de

branco, com persianas verdes, não imaginam que alli dentro, ha menos de

trinta annos, se bebeu um calix de fel, cujo segredo uma sepultura

lacrou. E quantos calices! quantos segredos! que revoltantes infamias á

sombra da misericordia dos homens, que se diz a expressão da

misericordia divina!...

E essas scenas presenciavam-nas meninas, que não recebiam o exemplo como

admoestação, mas arrefeciam de terror quando ouviam os gritos inuteis,

as supplicas escarnecidas, e os gemidos suffocados na garganta das que

alli morreram abafadas.

Olhai, leitores: quando assim se falla, quando não ha receio de formular

d'este modo as affirmativas, crêde que o escriptor tem as provas debaixo

dos olhos. Hei de contar-vos um segredo, que vos ha de merecer

lagrimas... Ha de ser um dia, quando um homem vivo acabar de cerrar os

olhos, que já vêem pouco n'este mundo. Escuso dizer-vos que eu poderei

cerrar primeiro os meus. N'esse caso, desde já me desobrigo da minha

promessa.

Vinha eu fallando da innocencia das meninas, e especialmente de Maria

Elisa, amiga intima de Rosa Guilhermina. Sinto dizer-vos que não era,

espiritualmente fallando, mais innocente que eu e tu, leitor desempoado,

que frequentas o theatro italiano, e bebes o teu _punch_, e fumas o teu

charuto, e consomes a tua resma de papel, mensalmente, fallando da tua

innocencia á visinha.

O que ella tinha mais que eu, e tu, leitor, era uma galante cara.

O cabello negro, em ondas, cerceado pelas pequeninas orelhas, era d'um

effeito satanico. Olhos rasgados, e negros, como as espessas pestanas;

trigueira; com todo aquelle fogo vertiginoso das mulheres trigueiras;

labios sedentos de beijos, sorrindo para o amor e para a zombaria com o

mesmo sorriso; e, mais que tudo isto, um buço, tão igual, tão

caprichosamente graduado até aos cantos dos labios, em que o maldito

seductor parecia colher um beijo para atormentar os Tantalos d'esta

iguaria...

Creio que não fazem ideia nenhuma da pequena pelo retrato que lhes dei.

Eu tambem não. Quando me pintaram a physionomia d'ella, não fiz ideia

nenhuma, e prometti desde logo communical-a ao publico tão fielmente

como eu a concebera.

Se tendes senso-commum, basta dizer-vos que Maria Elisa era trigueira

para m'a receberdes como linda, porque as não ha lindas se não são

amoldadas por aquella outra trigueirinha que o sancto rei de Jerusalem

celebrisou nos seus cantares. Olhai lá se elle, entre mil queridas que

lhe rodeavam a existencia de portas a dentro, cantou alguma outra! Pela

trigueira, mas formosa, _nigra sum sed formosa_, o sabio elanguescia

d'amor, _amore langueo_. Em nenhuma outra viu olhos de pomba, _oculi tui

columbarum_; só a ella concedeu nos seios mais limpidez que no vinho,

_pulchriora sunt ubera tua vino_, e o _pat-chouli_ da trigueirinha era

superior a todos os aromas, _et odor unguentorum tuorum super omnia

aromata_.

E como creio que nenhum de nós tenha a ridicula vaidade de ser mais

sabio que Salomão, concordemos em que o typo, que mereceu a especial

sympathia do sabio por excellencia, deve ser o eterno typo do bello.

Toda esta erudição vem confirmar que Maria Elisa era bella, porque era

trigueira. A julgal-as exteriormente, as duas meninas deviam ser dois

temperamentos oppostos. Rosa denunciava uma d'estas mulheres eternamente

cansadas, apparentemente somnambulas, arfando a cada palavra de tres

syllabas que dizem, olhando para si com ar de piedade e para os outros

com aborrecimento, rindo-se com a bôca toda, e mastigando pausadamente

uma resposta dependente d'um _sim_ ou _não_. Elisa colleava-se,

requebrava-se, desconjunctava-se, trepava ás arvores, fazia discursos

sobre a inconveniencia das mulheres velhas, sobre o despotismo da

regente, tudo em linguagem muito caracteristica, e acabava por

entristecer-se, dizendo que se sua mãe soubesse o que ella penava,

partiria a pedra do tumulo para galardoar a regente e a sub-regente cada

uma com dois sopapos.

Parece impossivel que estas duas organisações sympathisassem! Pois eram

amicissimas, viviam juntas de dia, illudiam as vigilancias dos guardas

para pernoitarem juntas, e chegaram, por estranho milagre de infusão, a

neutralisarem os temperamentos de modo que se pareciam muito uma com a

outra.

Elisa arrancára á sua amiga a revelação do motivo por que a

encarceravam. Ouviu-lhe, com seriedade comica, a odienta impertinencia

do senhor Antonio José da Silva, monstruoso amante, e n'essa noite

improvisou, no seu quarto, com o travesseiro e chapéo e jaqueta do

hortelão um Antonio José da Silva, e convidou Rosa para assistir a um

castigo exemplar. O castigo era uma carga de vassoura no mono, até se

despegar a aba esquerda do chapéo do hortelão: tudo isto com estridolas

gargalhadas de ambas, que pozeram em alarma o dormitorio.

A respeito do senhor José Bento, cuja derradeira entrevista, Rosa

fielmente contára, não nutria Elisa sentimentos mais sérios. Achava-o

tôlo, estupido, achavascado, e promettia pôr-lhe um rabo de papel, se

algum dia tivesse a fortuna de encontral-o.

E a filha do arcediago achava que a sua amiga tinha razão, porque as

historias de amores, que ella lhe contava, eram cousa mais sublime, mais

deslumbrantes, que os seus miseraveis dialogos com o filho do

retrozeiro, a quem Elisa denominava _patego_, _parrano_, _gebo_, e

outras amabilidades, como _lapardão_.

--Olha, Rosa, não contes a ninguem que foste namorada d'esse

_pazbobis_--dizia Elisa, passeando na cêrca com o braço botado por sobre

o hombro da sua amiga.--Eu tenho ouvido contar muita historia ás

raparigas que vem obrigadas para aqui. Umas são fidalgas que quizeram

casar com homens ordinarios, e outras são raparigas como eu com quem os

fidalgos não querem casar. Todas ellas contam á gente as conversas que

tinham com os namoros, e dizem cousas muito bonitas, que fazem chorar,

como as novellas da Maria Peixoto, que eu li.

--Quem é a Maria Peixoto?

--Era uma rapariga que já sahiu. Queres saber o que ella fez? Eu te

digo. Um tio metteu-a cá, porque ella queria casar-se com um plebeu,

sendo fidalga dos quatro costados, como diz a regente, que tem mais dois

costados que as outras. A Maria Peixoto quando entrou, faz agora um anno

chorou muito, e esteve á morte. Quando se levantou da doença, estava

alegre, e diziam as velhas que fôra milagre de Nossa Senhora do Rosario.

Eu estava admirada de a vêr tão contente, quando me ella disse que

queria fugir do recolhimento, e precisava fingir-se para a não vigiarem.

Um dia entrou um carro de lenha por aquella porta, e ella andava por

aqui disfarçada, e quando pilhou a porta aberta, ó pernas, p'ra que vos

quero!... A tôla, se havia de procurar o namoro, foi metter-se em casa

d'uma tia, que era tão boa como o tio, e n'esse mesmo dia trouxeram-na

cá outra vez.

--Coitadinha!... e depois? trataram-na muito mal?

--Isso sim!... Se a visses, fugias-lhe! Parecia o demonio! Com a faca da

cosinha na mão, correu atraz da regente, que se alapou no quarto, e

gritou por soccorro. Procurou todas as velhas, deu um pontapé na

sacristã, atirou de cangalhas a Lima velha, foi á porteira, e disse que

lhe cravava a faca no peito se ella lhe não abrisse a porta. A porteira

gritava como uma perúa, emquanto a Maria Peixoto lhe tirava a chave, e

abria a porta. Não te digo nada, Rosinha! Nunca mais lhe pozeram ôlho...

Da segunda vez foi mais fina. Casou-se com o tal rapaz, e mandou cá

buscar os bahus, e muitas recommendações á regente, que ainda se benze

quando se falla em Maria Peixoto... Aquillo era levadinha! E esperta?

Traduzia novellas francezas ás raparigas, e leu-me uma que fazia doer a

barriga com riso... era o _Cavalheiro de Faublás_, já lêste?

--Eu não tenho lido nada... Em casa do tal amigo de meu pae não havia

livro nenhum. O que me lá deram foram as _Horas Mariannas_ e a _Alma

Convertida_.

--Olha que brutos!... Deixa estar que te hei de contar a historia do

Cavalheiro Faublás, que é de morrer a gente com riso. A senhora regente

pôz-se um dia á escuta, quando a Maria Peixoto lia uma passagem, e disse

uma rapariga que ella estava a rir-se; mas, depois, entrou com as

cangalhas espetadas no grande nariz, perguntando que livro era aquelle.

A Peixoto disse-lhe que era a vida da Gloriosa Sancta Maria Magdalena

Virgem, e a regente disse que Sancta Maria Magdalena não era virgem.

«Então é martyr»--teimou a Peixoto--«nem martyr, nem confessora»

replicou a regente, e levou-nos o livro, que, pelos modos, lhe traduz

hoje o padre capellão, valha a verdade.

--Recolham-se, meninas, que é noite--resmungou fanhosa a regente de uma

janella.

As meninas subiram, praguejando a superiora, especialmente Maria Elisa

que recitou uma ladainha de titulos em que os menos insolentes eram

_camafeu_, _trôxa de ovos_ e _santopêa_.

Quando passavam no dormitorio, espreitaram pela fechadura de uma porta,

e fungaram com riso.

--Deixa-me vêr a mim--disse Elisa.

--Agora eu.

--Um bocadinho a mim.

--Que vês?

--É a Clemencia Lima que salta por cima d'uma fogueira de alecrim.

--E que diz ella?

--Não ouço: vê tu se ouves... Que diz ella?

--Dá um saltinho, e diz: _em louvor de Sancto Antoninho_. Agora é a

outra que salta, e diz: _em louvor de Sancto Athanazio_, e _da senhora

regente_.

--Diacho das velhas estão doudas!--segredou Maria Elisa--Vamos nós

assustal-as?

--Como?

--Assim...

O _assim_ era um empurrão na sua companheira. A porta, mal fechada, não

susteve o impeto, e Rosa foi de encontro á velha Clemencia, que dava um

terceiro pulinho em louvor de Sancta Quiteria, e do provedor da Sancta

Casa. O choque foi desastrado! Aterradas as duas irmãs, que não podiam

sustentar-se sobre a esboroada peanha de oitenta annos cada uma,

cambalearam e cahiram, guinchando de modo que a turba das raparigas

alvoroçadas veio, por assim dizer, peorar a sua situação.

Entre as que vieram estava Maria Elisa, perguntando ás pobres velhas

quem as atormentava.

--Era o demonio!--disse Clemencia.

--Em corpo e alma!--accrescentou Rita.

--Tragam agua benta, e a regra do patriarcha S. Bento--disse a regente.

--Emquanto as abluções demonifigas se faziam na cella endemoninhada,

Maria Elisa contava a Rosa o primeiro capitulo do Cavalheiro de Faublás.

CAPITULO VII

Os planos, que o arcediago incubára no seu profundo saber do coração

humano, abortaram. Sahia-lhe tudo ao envez das suas esperanças. Previra

a humildade de Rosa, depois das mortificações da reclusão; e Rosa cada

vez mais contente, agradecia ao pae, que a procurava todas as semanas, a

lembrança de a castigar com o recolhimento.

A Filha do Arcediago Terceira Edição · 第 2 / 18 段