annos em Lisboa nos estaos na casa do despacho da Santa Inquisiçam
estando hi os senhores jnquisidores perante elles pareceo Pero Alberto,
flamengo de naçam, natural de Envres de jdade que dise ser de vimte e
dous pera vimte e tres annos e dise que hee jmpremidor e trabalha na
jmpresã de Marcos Borjes ao Arco de Cramgejo e pera em todo dizer
verdade lhe deu juramento dos Santos Evangelhos e prometeu de a dizer e
denunciando dise que elle vinha a este Santo Officio pera desencarregar
sua consciencia e dizer o que sabja o qual hee que avera oito annos que
elle partio desta cidade pera Arrochella com hum João de Leam, frances
lyurejro o qual lhe disseram em Castella que estava nesta cidade e que
fora ja preso pollo Santo Officio e jsto de preso lhe diseram aquj em
Lisboa e tambem ffoj com elles hum cornelio flamengo de naçam, naturall
de Olanda que tambem hee jmprimidor e trabalhava en casa da viuva de
Germam Galhardo e asj foj com elles hum frances por nome Pierres
d'Alltabel casado nesta cidade com hua criada ou paremta de Njcolao
Botardo que viuja na rua noua e vende papel e tambem era jmpresor ajnda
que o nam usaua muito os quaes todos quatro hiam determjnados pera
jmpremjr huas horas de Nosa Senhora em portugues e o João de Leam fazia
o gasto e o Pierres e elle confesante e outro hiam por obrejros e
chegando Arrochella por lhe nam quererem dar licença pera as jmprjmjr as
não jmprimjram e jmprimjram em lugar das oras ha gramatica de Joannes
Espauterio e dizendo elle denunciante ao Cornelio em hum domjnguo se
jriam ouvir mjssa e ouvindo jsto João de Leam perguntou ao Cornelio que
era o que elle denunciante dezja e o Cornelio lhe respondeo que elle
denunciante querja jr ouvjr mjssa ao que respondeo o dito João de Leam
dizendo que senam podia ouvir mjssa na Arrochella porem queriam a
pregaçam e dizendo jsto antes de jamtar ás oito ou noue horas o dito
Joam de Leam os leuou todos tres a hua casa grande onde estaua muita
gente e muitos banquuos e começarão a camtar por huns libros que tinham
nas mãos e dezião Joam de Leam e Cornelio que aquillo que cantavam eram
Salmos mas elle denunciante nam entendeo a linguoa e despois se pos hum
homem em hua cadejra alta a ler por hum liuro em frances espaço de hua
hora e o que leo elle denunciante nam entendeo e acabado de ler se
sajram todos da dita casa e se foram a jamtar e dahj a tres ou quatro
dias elle denunciante, dejxou a dita companhia na Arrochella e se foj
pera Leam de França, perguntado que gente era aquela que estaua na casa
da Arrochella onde elle denunciante foj com ho dito Joam de Leam e
Cornelio e Pierres ouvjr cantar os salmos, disse que eram lutheranos,
perguntado que doutrjna era a que se lia na dita casa ou se lho diseram,
dise que Joam de Leam lhe disera que aquela era doutrjna e lej de
Christo e toda aquela gente se chamavam ugunotes, perguntado se era
aquella doutrjna que aly se jnsinaua a gente a jgreja catholica Romana
disse que aquella doutrjna nam era da jgreja Romana porque nem a casa
onde se lia era jgreja se nam hua casa sem santos como cavalaryza,
perguntado se allgua pesoa o presuadio ou lhe dise que crese aquella
doutrjna que alj ensinavã, dise que nam, perguntado com quem entrara na
dita casa e onde estiveram sentados dise que com Joam de Leam e Cornelio
e o Pierres e todos quatro se sentaram juntos em hum banquo e estiueram
todos asj atee o cabo da predica que se sajram perguntado se sabe que
allgua pesoa aprouaua a dita doutrjna que se lia na dita casa disse que
soomente Joam de Leam lhe disse que aquella doutrjna era muito boa e lej
de Christo e que os papistas chamavam aquella gente ugunotes e o mesmo
lhe dise Pierres d'Alltabel perguntado quãntas vezes foram a dita casa
onde se lia a dita doutrjna dise que hua soo vez foj la com os que dito
tem, perguntado se vira jr allgua pesoa aos ditos ajuntamentos majs
vezes, dise que nam, que os companhejros nam sabe se tornaram laa majs
vezes porque elle se partio como dito tem pera Leam de França e dispois
destar seis ou sete meses em Leam de França se tornou a Espanha onde foj
preso pollo Santo Officio de Toledo e saio reconciliado com habito que
lhe tiraram loguo no cadafalso e lhe deram em pena que estivesse alj em
Toledo hun anno o qual esteue e despois pedio licença pera jr trabalhar
a Salamanqua e outras partes e lhe diserã que podia andar por toda
Espanha e porem que se nam embarcasse pera outro reyno sem sua licença e
que ho principall intento que o trouxe a esta casa ffoj por lhe parecer
que se podia saber nella que elle foj, estando na Arrochella aquela casa
com ho dito Joam de Leam e os companhejros ouvir a doutrjna dos
lutheranos por quãoto hum Alexandre Lopez christão novo e outros que a
ese tempo la estavam lhe diseram que elle denunciante fora ouvir a dita
doutrjna e que se vem dasemto pera trabalhar aquj em seu officio e que
ja isto confesou em Toledo com ho majs hall nam dise e do costume dise
estava bem com todos e lhe ffoj mandado ter segredo no caso e elle o
prometeo sob carguo do dito juramento e por o promottor fiscal requerer
a elles senhores inquisidores que por ser o dito denunciante estrangeiro
e se poder absentar pera lugar nam certo lhe reteficasemos em fforma
elles senhores mandaram chamar os muito reverendos padres frej Belchior
de Sam Mjguel e frej Estevam Caveira, ambos da ordem do bem aventurado
Sam Domingos e pregadores perante os quaes despois de tomarem juramento
de ter segredo em forma o dito denunciante disse que o dito contheudo em
esta sua denunciaçam que eu notario lhe li toda de verbo ad verbum e
lida e por elle entendida disse que asj o disera e estava escripto na
verdade e afirma e ratefica e de nouo torna a dizer e asjnou com os
ditos senhores inquisidores e os ditos padres que estiveram presentes
por honestas e religiosas pesoas e eu Joam Velho notario appostolico o
sprevi, diz no riscado Symam de Saa Pereira e declarou sendo perguntado
que na dita casa onde estava o dito ajuntamento de gente segundo seu
parecer, Pierres tinha hum liuro na mam e que todos os ditos seus
companhejros a saber Joam de Leam e Pierres e Cornelio cantavam com ha
majs gente os ditos Sallmos em frances que elle denunciante nam entendia
e asynou com elles Senhores padres e eu Joam Velho notario appostolico o
sprevi (aa.) _Jorge Gonsallvez Ribeiro_--_Pedro Alberto_--_Simão de Saa
Pereira_--_Frej Belchior de São Miguel_--_Frej Estevão Caveira_».
_Livro de Denuncias do Santo Officio_ (n.^o 106).
Notas:
[1] O _Livro do Lançamento e Serviço que a Cidade de Lisboa fez a El-Rei
Nosso Senhor_, de que démos abreviada noticia no jornal _Novidades_, de
9 de junho de 1897, tendo começado em 15 de abril de 1565, e terminado
em 6 de setembro de 1567 as operações da cobrança, de que o alludido
_Livro_ é muito curioso registo.
[2] «_T.^o da fr. Da Madalena--Rua Nova dos feros Danbas as bandas_»
f.^o 44, V.
[3] João de Borgonha era proprietario de umas casas na «rua da
Gibetaria», que tinham 5 inquilinos. Tinha outras casas na «rua do
Terreiro da Portagem», onde eram seus inquilinos um Pedro de Sousa,
ourives de ouro, e um João Fernandes, mercador, recem-chegado do Peru.
Os outros dois inquilinos, dos 4 que o predio tinha, não são de
importancia.
Finalmente, este abastado livreiro-editor ainda possuia umas «tendas»
nas costas do Terreiro do Trigo.
[4] Ás vezes, tambem não eram de todo bem succedidos em suas um tanto
arriscadas especulações; testemunha, Alonso de Leon, que, em 1575, foi
denunciado á Inquisição por um tal Raphael Perestrello, porque entre os
livros de que era mercador, em Lisbôa, vendia alguns, impressos em
Flandres ou em França, «_e falavam contra o officio divino e contra a
missa_».
_Arch. Histor. Portug._ fasc. n.^{os} 75 e 76, pag. 153.
[5] «It Migel darenas liureiro seu obreiro......... avaliado [~e] cinquo
mil rs...» (fol. 45 do cit. codice).
Ácerca deste Miguel de Arenas e de seu parceiro João de Molina, assim
como de João de Borgonha, e outros livreiros e impressores de que esta
Noticia se occupa, leem-se com fructo os artigos que lhes respeitem _in
Docum. para a Hist. da Typogr. Portug. &_, de Venancio Deslandes,
Lisboa, Imp. Nac., 1888.
[6] A _Recopilaçam_ tivera, segundo as primordiaes informações de
Barbosa Machado, posteriormente ampliadas por Innocencio, duas edições;
uma, de Coimbra, por Antonio de Maris, 1569, outra, de Lisbôa, por
Marcos Borges, 158O. Nem de uma, nem de outra apparece, desde muito,
exemplar algum.
De uma terceira edição,--aquella a que o texto se refere--apenas existia
um exemplar na copiosa livraria do convento de S. Francisco da Cidade.
Delle se serviu Alexandre das Neves Portugal, para ajuntar á 2.^a ed.
das _Advertencias dos meios que os particulares podem usar para
preservar-se da peste, &_, por aquelle naturalista redigidas, e mandadas
publicar pela Academia, em 1797 (?)
Exhausta, com effeito, esta 1.^a ed., voltou a douta corporação a fazer
reimprimir 2.^a, em 1801, ajuntando-lhe, porém, agora, mas com rosto e
paginação especial, o opusculo dos dois medicos sevilhanos, o qual na
1.^a apenas fôra objecto de simples referencia, impressa no Prologo. O
formato das duas edições das _Advertencias_ é de 12.^o
Ficou, pois, a _Recopilaçam_ em 4.^a ed., copiada da de 1598, conforme
se vê na folha do rosto.
[7] Parece ser esta a 3.^a edição, havendo entre esta e a de Ferrara,
1554, uma de Evora, 1557-58. Nas edições de Ferrara, e de Colonia
chama-se á novella: _Hystoria de Menina e Moça_. Veja-se no pref. de
_Menina e Moça_, ed. do Porto, 1891, a Nota ^1 de pag. LXXVIII, do punho
do nosso consocio, sr. D. José Pessanha. Innocencio não mencionou a ed.
de Ferrara, por onde entende ser 2.^a esta de Colonia.
[8] _A Imprensa Portugueza no Seculo XVI_, cap. 4.^o--Livreiros. No
Archivo da Camara desta capital ha uma carta de venda, em que interessa
a corporação dos livreiros da Irmandade de Santa Catharina, datada de 11
de maio de 1557, e na qual Salvador Martel assigna como testemunha de
certas diligencias. Vid. _Elem. para a Hist. do Mun. de Lisboa_, Tom.
II, 584, nota da pag. anter.
[9] «_T.^o da freguezia da See_», fol. 9.
[10] A «rua da Costa», da relação de Christovão, na freguezia da
Magdalena. Nesta freguezia dá a mesma relação «Duas travessas que não
tem nome». Uma destas poderá ser aquella onde estavam estabelecidos os
dois livreiros.
[11] Como se vê por este exemplo e o outro supra, Bastião de Lucena,
escrivão deste recenceamento, obrigava a syllaba «gi» a soar como «gui»,
o que não é peregrino entre a gente menos letrada deste seculo.
A Fonte da Preguiça ficava «além da Porta do Mar», para oeste das casas
de Affonso de Albuquerque «que tem as pontas de diamantes», e logo a
seguir a outras que pertenciam á Cidade, segundo o que se lê no _L.^o
1.^o do Tombo das propriedades foreiras á Camara_, codice do Archivo
Municipal.
Sobre a fonte erguiam-se umas casas, onde, na occasião deste arrolamento
(1565), morava um tal Francisco d'Arruda, de quem, infelizmente, Bastião
de Lucena não mencionou a occupação.
[12] Temos a opinião de que o _Summario_ não sahiu a lume antes de 1554,
embora se haja inferido das expressões de seu antes compilador, do que
auctor, a data de 1551.
[13] É forçoso confessar que Bastião de Lucena, o escrivão deste
recenseamento, teria feito, se de tal se lhe quizesse suppôr o
proposito, quanto houvera sido preciso para negar á posteridade a
existencia do velho Johanes Blavius, tão mal affirmada nas folhas
amarelladas do codice, onde lhe foi desfigurado o nome.
O respectivo lançamento diz, com effeito, e em verdade, o seguinte:
«It cladio colon Inprimidor em cassas de bento giz av^{do} [~e] tres
mill rs paguara xxj rs»
Ora, não só não houve nenhum impressor estabelecido, deste tempo, que se
chamasse Claudio, querendo ver a falta de um «u» no nome proprio escrito
por Lucena, nem o «imprimidor» arrolado era simples «obreyro»; isto é,
official typographo, para nós desconhecido, porque, nesse caso, o
escrivão do recenseamento o declararia tal, como o fizera a respeito de
Miguel de Arenas, e o fez, referindo-se a Marcos Borges, segundo adiante
veremos.
O presumivel, pois, será que Bastião de Lucena haja desfigurado o nome
de João Blavio, reunindo em dois inintelligiveis vocabulos o appelido do
impressor, e a indicação da sua terra natal.
[14] De certeza, temos que a «_Primeira Parte da Chronica dos Menores_»,
de Fr. Marcos de Lisboa, que João Blavio imprimira em 1557, editada por
João de Borgonha, foi reimpressa por Manoel João, em 1566. Pareceria
curial que o impressor da 1.^a edição, estando ainda vivo, e
estabelecido, como o vemos pelo texto, fosse o encarregado da
reimpressão, tanto mais que foi o mesmo João Blavio que em 1562
imprimiu, por conta daquelle opulento editor, a _Segunda Parte_ da
indicada _Chronica_.
Pelo numero de obras, de que ha noticia terem existido, sem que
chegassem até nós, se póde fazer idéa de quantas se terão perdido, em
edições que se não repetiram, e não conheceremos jamais.
Não anda liquido qual fôsse a 1.^a ed. do _Palmeirim_, em linguagem
portuguêsa, sendo certo que, se o conselheiro Macedo teve a que dizia
ser 3.^a ed., impressa em 1564, outras duas anteriores houvera já, que
assim como esta, se não conhecem.
Tampouco se conhece a 1.^a ed. da _Aulegraphia_, de Jorge Ferreira de
Vasconcellos, deduzindo-se apenas pelo titulo da de 1561 dever ser esta
a 2.^a, pelo menos.
Da _Comedia Ulysipo_, do mesmo Jorge Ferreira, tambem se não conhece a
1.^a ed., muito anterior, por certo, á que seu genro D. Antonio de
Noronha emprehendeu em 1619. Quanto aos _Triumphos de Sagramor_, do
mesmo Ferreira, resta saber se as conjecturas de Innocencio, ácerca da
existencia desta obra prevalecerão, ou não.
Enfim, uma prova, ainda que indirecta, de que se imprimiram no seculo
XVI^o. obras, de que nenhuma noticia resta, é que ha, applicados a
outras obras conhecidas, frontispicios que decerto não foram feitos para
ellas, senão para outras, em que pela primeira vez appareceriam, sem se
saber quaes fossem, e quem hajam sido seus autores.
[15] Obras do Poeta Chiado, colligidas, &, por Alberto Pimentel.
[16] «_T^o Da freguesia De San Nicoláo_», fol. 176.
«It Marcos Borjes Inprimidor obreyro em cassas da molher do doutor ant^o
medis/Bracal paguara x b j i rs»
[17] Eis o texto completo do rosto desta obra:
«_Paradoxo ou sentença philosophica contra a opinião do vulgo: Que a
natureza não fez o homem senão a industria. Dirigido ao muy alto &
inuictissimo Rey de Portugal dom Sebastião Primeyr_ (sic) _deste nome.
Por Jo Cointha Senhor des Boulez Fidalgo frances... Agora nouamente,
feyto & impresso nesta cidade de Lixboa em casa de Marcos Borges
empressor del Rey nosso senhor. Ao primeyr_ (sic) _de Janeyro de 1566.
Vede se na empressão detras de nossa senhora da Palma_».
Em 29 quartos de papel, sem numeração. Innocencio descreve o exemplar
deste raro opusculo pertencente a Figanière.
[18] «Arcos por traz da Ermida da Palma.» Lado de L. 4 propriedades;
lado do S. outras 4. _Tombo do Bairro do Rocio, fls. 156 e 156 v.^o_
Como simples esclarecimento, que facilite o ajuisar da situação desta
ermida, diremos que ficava por muito proximo do pequeno largo ainda
agora conhecido por largo dos Torneiros, rasgando-se na rua dos
Fanqueiros, na extrema L. da rua de S. Nicolau.
[19] «_A Imprensa em Portugal no seculo XVI_», artigo de Sousa Viterbo
_in Diario de Noticias_, de 5 de setembro de 1898.
[20] O segundo destes valiosos estudos foi dado a lume na _Archeologia
Artistica_, 1.^o anno, vol. I, fasc. II, publicada pelo sr. Joaquim de
Vasconcellos--Porto, 1873.
[21] Manoel João rubricou os fêchos do 1.^o e do 2.^o Livros desta
compilação, imprimindo «Manoel», empregando, comtudo, o «u» nos tres
ultimos. Notemos que Tito de Noronha é tambem um de nossos diversos
auctores modernos que seguem o exemplo dos que, nomeadamente no seculo
XVII.^o, adoptaram o «o» na graphia do nome proprio «Manoel»,
distinguindo-o assim, e crêmos que bem, do seu igual castelhano.
Francisco Manoel, Bocage, que adoptou para distinctivo academico o
anagrama do seu baptismal: _Elmano_, e já bem proximo a nós o estadista
Manoel da Silva Passos, ortographaram com «o» o seu nome proprio. A
mesma pratica se observa entre as familias nobres que usam deste nome
proprio, por appellido ou sobre-nome.
[22] Uma anterior edição deste _Regimento_, datada de 1542, sahira dos
prélos de Germão Galharde. Innocencio cita-a na letra A (Artigos), e
Tito igualmente se lhe refere na monographia _Ordenações do Reino_, pag.
82.
[23] O pobre do guarda-roupa, improvisado pregoeiro das grandezas de
Lisbôa, não attendendo a mais nada, sommou os «roles» das vias públicas
das 23 freguezias que os tiveram (porque S. Martinho não teve «role»), e
achou o total das 521, das tres categorias, que pormenorisou quasi no
final do livro, sem contar as 2 calçadas e alguns «adros» que elle, ou
outrem, fez entrar na especial dos «62 Postos», a que no texto se fez
referencia.
Não attentou, porém, o diligente chronista lisbonense na _compartilha
parochial_, e sommando, sem mais exame, as 23 relações de vias públicas
que os priores e curas da cidade lhe facilitaram, por ordem do
Arcebispo, não deu porque 38 destas, obedecendo áquelle sistema, se
apresentam _80 vezes_ repetidas por 2 e 3 freguezias, o que reduziu, por
conseguinte, a 479 o numero verdadeiro das vias públicas constantes do
_Summario_.
Deve porém advertir-se que na Lisbôa do tempo deste livro havia já muito
antigas vias públicas que, por qualquer circumstancia, nelle não
figuram. Daremos para exemplo, por ter adquirido a particular
notoriedade que lhe vem de figurar no _Monge de Cister_, a celebre «rua
de D. Mafalda», que os lançadores de 1565 arrolaram, «com suas travessas
e hospital» (o dos Palmeiros), na freguezia da «Madanela».
[24] Já deixámos explicado como o vocabulo «congro» traduz, neste caso,
um acentuado barbarismo. Ao vulgo, é mais que certo, escapou
naturalmente o termo letrado «combro», de que poucos estariam, neste
tempo; como ainda agora, no caso de alcançar o significado. A ignorancia
dos letreireiros que, ao alvorejar o seculo transcurso, foram
encarregados pela Administração Geral dos Correios de appôr os disticos
nas vias públicas da nossa capital, foi origem a muitos desconcertos
desta ordem. Assim, o Pateo do «Porcili», appelido italiano, foi
convertido em Pateo do «Pocildes», o beco dos «Beguinos» ficou-se
chamando beco dos «Biguinhos»; outro beco, o da «Calheta»,
transformou-se em beco da «Galheta», a Praça dos «Remolares» foi muito
tempo conhecida por Praça dos «Romulares», &. Infelizmente, não occorreu
verificar se a graphia dos _artistas_ saíra triumphante da prova, e por
isso, ainda agora se andam remediando estas aberrações ortographicas
municipaes.
[25] Este _Conde_ era um Domingos Fernandes, que tinha por alcunha «_o
conde_». Era «porteiro do concelho», e morava na rua a que déra a
alcunha, em casas suas.
Pela coincidencia, notaremos que, ha quarenta e tantos annos,
estacionava na então denominada Rua de S. Francisco, um moço de fretes,
chamado tambem Domingos Fernandes, e que tendo sido criado de Almeida
Garrett, era conhecido pela alcunha: _o visconde_, do titulo daquelle
que fôra seu patrão.
[26] Não se nos afigura fóra de proposito esclarecer que o Chão
d'Alcamim («Alcamim, hortaliça sêcca», segundo Fr. João de Sousa, _in
Vestigios da Lingua Arabica_), antigo cemiterio mourisco, e
posteriormente provavel cemiterio da freguezia de S. Mamede, formava a
divisoria territorial das duas freguezias, esta, e a de S. Christovão,
uma das suas convisinhas. Ficava sobranceiro ao modesto mas antiquissimo
edificio parochial daquella invocação; isto é, occupava o terreno por
onde agora discorre a calçada do conde de Penafiel, e ligava-se á Costa
do Castello, tal qual esta calçada se liga á juncção da extrema da rua
do Milagre de Santo Antonio com o principio da sobredita Costa. A igreja
parochial de S. Mamede assentava no sitio da meia laranja, denominada
Largo do Correio-Mor.
Ainda em principios da segunda metade do seculo passado, o terreno
montuoso onde fôra o Chão d'Alcamim era vulgarmente conhecido pela
denominação de _Entulhos da rua de S. Mamede_. No alto da rampa que se
rasga sobre a Costa, e no rez-do-chão do predio que para ella faz
esquina, á esquerda de quem sobe, estava estabelecida, na face de leste,
sob o n.^o 5, a tipographia de Luis Correia da Cunha, onde se imprimia,
em 1860, a edição em 16.^o dos Lusiadas, de Luis de Camões, adoptada
para texto poetico nos Institutos de ensino livre, daquella época. Esta
edição foi repetida pelo mesmo tipographo, em 1864, em formato igual, e
igual numero de paginas.
[27] Como estamos no terreno resvaladio das supposições e das
probabilidades, seja-nos permittido aventurar a supposição de que este
dr. João de Barros possa ser o proprio homonymo do auctor das _Decadas_,
com quem alguma vez foi confundido, e que em 1540 deu a lume na cidade
do Porto o _Espelho de Casados_, impresso por Vasco Dias Tanco de
Frexenal. Dr. João de Barros ou nasceu no Porto ou em Braga, e vivia
ainda em 1553, mas, se como informa Barbosa Machado, elle foi do
Desembargo do rei D. João III, e seu escrivão da camara, não sería
impossivel que, fixando residencia, por tal facto, era Lisbôa,
adquirisse para sua habitação a casa onde Manoel João estabeleceu a sua
officina.
[28] É patente que todo aquelle plaino, aquella _achada_ de que ahi
perto se perpetúa a secular recordação (largo e rua assim denominados)
passou, e por mais de uma vez, por grande transformação, depois do
terremoto de 1755. Os antigos paços de S. Christovão, que occupavam na
parte posterior muito maior area, do que a do actual palacio que foi dos
Vagos, ficaram circumscriptos ao que ahi vemos. O lado esquerdo das ruas
do Regedor e de S. Christovão foi refeito. O proprio adro da parochia,
onde havia _dois_ cruzeiros, foi modificado. A medieval «travessa do
monturo do benete» converteu-se, se não no todo, em parte ao menos, nas
Escadinhas de S. Christovão; o «arco de João Corrêa», que se encostava á
esquina dos velhos paços, donde a gentil princeza, irmã de Affonso V,
sahiu desposada para Allemanha, refeito com o palacio novo, desappareceu
posteriormente, deixando por testemunha da sua existencia ali o grande
chanfro que modificou o cunhal do palacio, tal qual o lá vemos.
[29] Esta noticia, transcripta como no texto advertimos, do livro
opportunissimo de Venancio Deslandes, e se lê a pag. 42, nota 1,
conjugada com os largos esclarecimentos da pag. 63 e seg. nota 1, da
mesma obra, ácerca do rarissimo _Tratado_ de Bento Fernandes, vem
esclarecer o intrincado caso a que Innocencio se refere, ao registar
este auctor, no vol. II do seu _Diccionario_.
Após ter inscripto a obra, sob o n.^o 1858, seguindo a indicação de
Antonio Ribeiro dos Santos, que em suas _Memorias_, a pag. 108, déra
noticia della, como impressa no Porto, em 1541, por Vasco Dias Tanco de
Frexenal, parecendo, todavia, não a ter visto, nota, com effeito, o
experiente bibliographo que Barbosa já se referira a esta mesma obra,
como impressa em 1555. Innocencio fecha a sua noticia, confessando que
tambem nunca vira o _Tratado_, nem sabia onde existisse.
Agora se concilia, pois, tudo. Bento Fernandes terá, com effeito, dada
uma 1.^a edição em 1541, tirada dos prélos de Vasco Dias Tanco,
repetindo 2.^a no proprio anno em que parece ter fallecido, a julgar
pelo que escreveu o auctor da _Descripção Topographica do Porto_; isto
é, em 1555, utilisando agora os serviços de Francisco Corrêa.
Accrescente se que Noronha, no final das _Tabellas_ da _Imprensa
Portugueza no Seculo XVI_, pag. 29, assigna a Vasco Dias Tanco os annos
de 1540 1541, como os da sua permanencia no Porto, onde teria impresso 3
obras. Do mesmo modo, na Introdução do _Espelho de Casados_, do dr. João
de Barros, fol. 7, v.^o, regista a presença de Francisco Corrêa naquella
cidade em 1555.
Vê-se, pois, que os dois auctores estão perfeitamente concordes, no
tocante a cada uma das phases da vida dos dois tipographos, supra
alludidas.
[30] «T.^o da fr. da Magdalena», f.^o 82 v.^o
[31] Aliás _Lisarte_, de que, definitivamente, veíu a formar-se
_Lisardo_, por ex. «_Silvya de Lysardo_» (1597), passando assim o que
parece ter sido nome proprio a appelido, como o seu consimilhante
_Jusarte_, que de ambos os modos foi, de frequencia, empregado.
A Jusarte Pacheco, morto no accomettimento de Calecut, filho do grande
Duarte Pacheco, chama Gaspar Corrêa «Lisuarte Pacheco», segundo se lê na
_Lenda de Affonso de Albuquerque_, pag. 19. Na descendencia do genovês
«Salvago», naturalisado pelo rei D. Manoel, anda um Jusarte Salvago, a
quem D. João III nomeou Almoxarife dos Armazens de Lisboa.
De Jusarte, appellido, se deriva Zuzarte, e assim o nota o sr. Anselmo
Braamcamp Freire, descrevendo o Brasão dos Jusartes na _Armaria
Portuguesa_, pag. 284, da folha appensa ao Arch. Hist. Port., vol. VIII,
fasc. 87 e 88.
Ao passo, porém, que Jusarte alterna com Lisuarte ou Lisarte, como nomes
proprios, vêmos Jusarte empregado n'este mesmo seculo, e muito proximo
aos tempos dos Pachecos, na India, como appelido.
Assim, o proprio Gaspar Corrêa, além de outros de menos nomeada, se
occupa extensamente na _Lenda_ do 5.^o Governador D. Duarte de Meneses,
de Martim Affonso de Mello Jusarte, capitão de Ormuz, cujos trabalhos em
Malaca e outras partes narra com individuação.
Este appelido, revivescendo no seculo XVII na pessoa do escriptor Fr.
Pedro da Cruz Jusarte, vem até nossos dias ligado a uma das familias
mais consideradas do Alemtejo; a dos Condes de Avillez, cujos
antepassados e descendentes o empregam logo a seguir ao sobrenome--p.
ex.: «Jorge d'Avillez Jusarte de Sousa Tavares de Campos».
Quanto ao ramo dos Zuzartes, vemos, ainda no _Tombo Pombalino_ D.
Marianna da Silva Zuzarte, proprietaria em 1755 de casas no beco do
Bugio. Quando, posteriormente, se formou a rua da Saúdade, derrubada a
parte do beco onde taes casas eram, foi-lhes marcado terreno e
alinhamento na nova rua, para a reconstrucção, que veiu a receber o
numero de policia 8. Em nossos dias, era proprietario d'estas casas um
cavalheiro Araujo Zuzarte, antigo administrador de um dos Bairros d'esta
Cidade.
[32] Isto é: 455 réis.
[33] Este «Ilusuarte Peris», cujo nome e appelido parecem ter soffrido a
truculenta sorte de João Blavio de Agripina Colonia, sob a pena barbara
de Bastião de Lucena, era proprietario na rua que tinha o seu nome,
sendo elle que, provavelmente, a _fundou_, á semelhança de outros muitos
exemplos mais, quer por aforamentos feitos á corôa dos terrenos onde se
edificavam as primeiras casas, quer por qualquer outro modo que
attribuísse aos _fundadores_ um tal qual direito de propriedade no
denominar das vias públicas.
As casas de Ilusuarte Peris constam dos lançamentos 27 a 29 do grupo
comprehendido no titulo expresso no texto, e tinham por inquilinos:
«Margaida Ribeyra, Francisca Anriquez, molher cortezan e Eytor
Fernandes, Indio».
O mesmo Ilusuarte Peris tinha tambem outras casas na «rua das
Cristaleyras» e ahi eram seus inquilinos uma viuva e um tintureiro. Esta
rua apparece já nos roes de Christovão (1554?). A de «Ilusuarte Peris»
deve ter-se formado nos annos que separam a obra do guarda-roupa do
Arcebispo lisbonense do recenseamento que estamos examinando.
[34] Em qualquer das duas edições da _Pratica Darismetyca_ (1519 e
1530), impressas por Galharde, se declara este «_frãcez_», passando a
primeira por ter sido a sua estreia, como chefe de officina. Por igual
lhe declara a nacionalidade a subscripção do Livro 2.^o das
_Ordenações_, bem como a do 3.^o, e ainda a dos _Statutos da Ordem de
Santiago_, não sendo difficil que se registem mais exemplos.
Tambem no _Memorial de Pecados_, de Garcia de Resende, impresso em 1521,
apparece o appelido d'este impressor composto, em parte, á
francesa;--«_Gaillarde_», e nas _Ordenações_, «_Galhard_». Além d'estas,
ha outras variantes, taes como, a da _Cronica llamada el triunfo, &_,
onde parece que se lê «_Gallarde_», e a do _Cerimonial da missa_, que
imprime «_Gallardo_». Na _Cartilha que cont[~e] breuem[~e]te_ é que o
appelido do celebre impressor apparece como veiu a ficar:--«_Galhardo_».
Na diplomatica de D. João III chama se-lhe: «_Germão Galharte_».
[35] Affirma-o, como facto por elle proprio verificado, o conspicuo
bibliographo Tito de Noronha, _in_ Ordenações do Reino--Seculo XVI,
_apud_ Archeologia Artistica, _1.^o anno, vol. 1, fasc. II, cap. XI_,
pag. 76 (1873).
Repetiu a affirmativa _in_ A Primeira Edição dos Lusiadas, Porto, 1880,
a pag. 80, nota (68), _in fine_.
[36] _Jornal do Commercio_, de 2 de maio do 1871.
[37] Mais outra vez vem a lume o titulo d'este livro quasi quatro vezes
secular. É como segue:
«Missale secumdum consuetudinem Elborensis ecclesiae noviter impressum».
Na subscripção final lê-se:
«Impressum Ulixipone expensis magistri Antonii Lermet Elborensis
civitatis librarius per Germanus Galhardum. Anno salutis nostre
millessimo _quingentessimo nono_. Pridie Kalendas martii. Deo Gratias».
Assim, pelo plausivel alvitre de Tito de Noronha, entre
«_quingentessimo_» e «_nono_» devia ter-se composto _vigesimo_, falta
que só quem não sabe quanto é facil de escapar, ainda ao mais attento
revisor, o salto da composição de um vocabulo entalado entre outros, e
n'uma data, principalmente, não comprehenderá. No texto se exemplifica
um curioso similhante caso de nossos dias.
[38] Em sua Bibliographia Historica Portugueza consigna Figanière ter
visto em um exemplar da terceira Decada da *Asia*, de João de Barros,
impresso por João de Barreira em 1563, a omissão typographica M. D.
LIII.
[39] Isto é, em 1513-«Ordenações do Reino--Seculo XVI», pag. 31.
Adiante veremos que a conjectura não se confirma.