O facto é que Sebastião de Carvalho começara pretendendo assellar o seu

predominio pela promoção do bem commum, pelo desenvolvimento moral e

industrial do povo, arrancando á ignorancia e obscurantismo o nervo

principal da republica. Nas circumstancias extraordinarias que

concorreram no principio da sua administração e que deram logar a que

revelasse todo o poder do seu genio, contava com a gratidão de seus

contemporaneos e com o bom senso do rei; que veriam n'elle o ministro

unico capaz de supportar o pesado encargo das consequencias originadas

por essas mesmas circumstancias. Se o direito que exercia podia ser

ligitimo aos olhos do monarcha e do povo, e verdadeiramente--_par droit

de conquete_--a nobreza e o clero não lhe perdoavam a falta de foros e

_o droit de naissance_. O longo reinado de D. João V, destruindo o

espirito aventuroso do antigo Portugal, já bastante affrouxado nos 60

annos de captiveiro, e particularmente n'aquelles em que fôra ministro

omnipotente e fanatico fr. Gaspar da Encarnação, cujo sobrinho era o

mesmo duque d'Aveiro, ducado em que elle o investiu por uma provisão

regia, contra os direitos reconhecidos da marqueza de Unhão, porque o

marquez de Gouvêa se achava em grau mais affastado de D. Maria

Guadalupe; em todo esse periodo a fidalguia e clero tinham ganho

preeminencias que mal se conciliavam com a regra commum, a que o marquez

pretendia que todos se sujeitassem, não havendo senão o rei, por um

lado, e as subditas para outro. O extirpar os abusos foi sempre o

escolho dos grandes reformadores; os possuidores de previlegios não os

abandonam por convencimento, e menos ainda em proveito da

collectividade; o bem commum oppõe-se sempre ás isenções e franquias dos

grandes vassallos e a unidade monarchica jamais pode fundar-se _sem

abater_ violentamente os senhores feudaes, cujas pretensões chegavam a

hombrear com a corôa e a empanar-lhe o brilho. O interesse de classe

levou sempre os previlegiados a colligar-se para manter as excepções ao

direito commum. Muitas vezes por meio de revolta armada, outras pela

traição. D. João II e Luiz XIII eram exemplos que Pombal tinha na

historia. Não podendo impôr-se por uma administração sabia e previdente,

teve, como aquelles, de empregar o terror. As suas execuções são mais o

frio calculo de um estadista consumado, que derruba os obstaculos que se

lhe oppõem, do que o resultado d'uma ferocidade sanguinaria, que mal ia

com os seus antecedentes, com o seu amor de familia, com a educação dada

a seus filhos, e com a amizade que entreteve em todas as suas affeições.

A execução do duque d'Aveiro e seus cumplices produziu o effeito que

antevia, a perseguição contra uma Ordem poderosissima, lisongeava as

outras que viam com inveja os progressos e riquezas da Companhia de

Jesus; a repressão dos furores da inquisição não podia deixar de

satisfazer o povo a quem o tribunal era odioso. A carnificina de Belem

impressionou fortemente naturaes e estranhos. Muitas publicações no

estrangeiro, particularmente em Roma, feitas pelos jesuitas, trataram de

commover os animos em favor das victimas e contra a iniquidade do

ministro. Eram por certo em muito maior numero os detractores do marquez

de que os apologistas; e tão grande foi o effeito, que ainda hoje não

falta quem duvide da justiça do castigo e quem ponha mesmo em duvida a

existencia do crime. Tambem se crê que a sentença foi annullada por D.

Maria I rehabilitando a memoria dos suppliciados. Houve porem

effectivamente tentativa de regicidio. Foram os justiçados, auctor e

cumplices n'essa tentativa? Que parte tomaram os jesuitas no crime visto

que a sentença só falla de dois confessores do Paço e do P. e Malagrida

confessor da marqueza, o que podia ser intervenção individual e não

determinada pelos prelados d'esta ordem? O melhor testemunho em favor da

execução provando a tentativa foi o effeito da descarga do bacamarte,

que causou sete feridas de zagalote desde o hombro até ao cotovello e

peito do rei. Este, mandando voltar atraz, não só temia que outras

embuscadas estivessem preparadas no seguimento, mas queria ir á

Junqueira onde mais depressa seria soccorrido pelo seu ciurgião que alli

morava proximo do marquez d'Angeja, seu amigo, em cuja cama foi tratado.

Os dois assassinos, diz a sentença, retiraram pelo caminho que vai pela

quinta do Meio, donde se dirigiram para a travessa do Guarda mór e

depois para Lisboa.

Este itenerario põe em duvida o que diz a sentença, isto é, que os tiros

fossem disparados no logar em que se levantou o templo, ainda

chamado--_a Memoria_--porque fica já muito perto do Paço d'Ajuda. Os que

combatem tal documento, pretendem que os tiros fossem dados contra Pedro

Teixeira, creado favorito do rei e contra o qual o duque nutria odio

profundo, e que fosse na ponte d'Alcantara, seguindo a sege o caminho

até casa do marquez d'Angeja; mas contra tal argumento oppõe-se o

procedimento do rei, o qual mandou levantar o templo no logar em que

suppôz que o salvara a intervenção de Nossa Senhora, de quem era muito

devoto, mas particularmente por haver pedido a sua filha, mesmo á hora

da morte, que mandasse concluir a _Memoria_ por elle votada em acção de

graças á Virgem que o protegera e salvára. O rei era muito religioso e

não pode suppôr-se, que em artigos de morte fizesse declarações oppostas

á verdade só para ir de accordo com o processo. Alem d'isto, o estado

d'aquelle espirito em occasião tão solemne, deu mostras do seu

convencimento absoluto quando declarou que perdoava aos seus inimigos o

mal que lhe tinham feito, declaração ouvida por toda a sua familia pelo

seu confessor e por quantos lhe cercavam o leito.

Os tres agentes principaes, Aveiro, Tavoras e os jezuitas, tiveram parte

distincta, o que não revela a uniformidade das penas.

O primeiro foi de certo o auctor; ninguem o duvida, nem mesmo a sentença

revisoria. Dos Tavoras não se pode dizer o mesmo tão abertamente, ou,

pelo menos, nem todos entraram na conspiração. Os jezuitas não foram

activos e podiam, alguns, ter alimentado os odios dos conjurados,

ficando ainda a duvida se elles prefeririam a morte de D. José á do

Marquez de Pombal. As desintelligencias d'elles com o duque de Aveiro,

desde o tempo de seu tio fr. Gaspar, as rivalidades dos Tavoras contra o

duque d'Aveiro e a reconciliação posterior d'estes elementos, que se

juntavam diariamente, é indubitavel que foi obra do director espiritual

da Marqueza, o padre Malagrida, que nunca faltou ás reuniões dos

descontentes, que achavam em casa da Marqueza todo o agasalho, e onde

julgavam poder fallar impunemente do rei e do seu governo. As offensas

pessoaes feitas ao marquez, velho, e ao seu herdeiro, pelas relações

occultas do rei com a marqueza, nova, que feriam o orgulho do duque, sem

mesmo exceptuar as que vinham de egual sentimento por diversa causa,

tudo poderia concorrer para o desejo de vingança na pessoa do rei, de

preferencia a um crime contra o seu ministro. Se alguma prevenção ou

duvida podesse haver contra o facto incriminado aos réos, ou antes, a

alguns d'elles, ella desappareceria em quem lesse o livro de Amador

Patricio, que são memorias da epocha, e em que não falta a paixão contra

o marquez e o seu governo. O auctor não encontra um unico merecimento,

uma unica medida, boa em todas as excellentes medidas do grande e sabio

reformador, mas quando chega a fallar no attentado, relata as

circumstancias e acha justo o castigo. A opinião geral de então, sem

exceptuar a de todos os ministros estrangeiros aqui residentes e que

relatam aos seus governos os acontecimentos, são unanimes n'estes

pontos. Salvo na culpabilidade do joven José de Tavora que tambem foi

justiçado, e de alguns mais das familias Tavora e Alvor, que ficaram

tantos annos encarcerados.

Se Pombal quiz atterrar os nobres, conseguiu-o muito além do necessario.

Procurar os criminosos, accusal-os e condemnal-os á morte, era uma

consequencia da legislação, mas accrescentar á perda da vida as

flagellações que antecederam e se succederam ás execuções, em vez de

justiça foi crueldade desnecessaria e condemnavel.

Mas ainda n'este seculo tivemos um triste exemplo de crueldade

similhante, dado pelo grande Napoleão, que prendeu, em paiz estrangeiro,

o duque de Enghien e fez fuzillar em Vincennes a pobre creança, só para

atterrar a nobreza.

Os jezuitas, José Moreira, que fôra confessor do rei; Jacintho da Costa,

que o foi da rainha, e Thimoteo de Oliveira, dos principes,

frequentaram, depois de expulsos do Paço, o palacio dos Tavoras, e foram

por isso encerrados nos carceres por suspeitos; não ha prova, porém, de

que elles incitassem ao crime ou fossem d'elle sabedores; e se o fossem,

o marquez não se limitaria á prisão, e leval-os-hia ao patibulo, como o

fez a Malagrida. D'este foi o conde de Oeiras inimigo implacavel, e se

bem que o padre foi o instigador do crime, compunge-se o coração quando

se examina por que meios se conseguiu uma morte tão violenta e os

pretextos procurados para a praticar. Este padre, que fôra logo preso no

forte da Junqueira e tratado com os maiores rigores, era attentamente

vigiado. Na solidão do carcere, e por não estar ocioso, escreveu a vida

da Senhora Sant'Anna, na qual a sua imaginação febril introduzia coisas

que não resistiam a qualquer exame; aquelle espirito e corpo

enfraquecidos e enferenicos, já pela reclusão, já pelos jejuns, chegou a

disparatar e fez das suas visões de fanatico uma historia da mãe da

Virgem. Esse foi o pretexto. Quando o padre rematava a sua obra, foi-lhe

tirada e submettida ao exame do Santo Officio, onde já era inquisidor

geral o irmão do marquez, Paulo de Carvalho, e esse tribunal o condemnou

a ser garrotado e queimado como hereje impenitente. Foi um verdadeiro

escarneo fazer passar este fanatico por um hereje e condemnal-o como

tal, visto que civilmente este se escapára, pelo fôro ecclesiastico, ao

tribunal especial que julgára os seus cumplices no crime de regicidio.

Foi ainda uma aggressão feita á Companhia de Jesus e á côrte de Roma,

que se oppunha a que os tribunaes ordinarios conhecessem dos crimes

ecclesiasticos. Malagrida era catholico fervente, talvez enthusiasta na

sua fé; teria o espirito pervertido pela leitura dos casuistas da sua

Ordem, e talvez essas doutrinas falsas o fizessem não encarar o

regicidio como crime gravissimo; mas, quando o mataram, era um louco, um

visionario. Aquelle livro em que se baseava a sua condemnação, seria

hoje a sua absolvição, havendo-o como desacizado e irresponsavel; tinha

ensandecido. Os dois bispos de Cochim e Cagranor, tinham ambos vestido a

roupeta da Companhia. A sentença e execução de Malagrida fez tal

impressão no bispo de Cochim, que este escreveu ao outro uma carta em

que declarava que tal sentença não era mais que um libello contra a

Companhia, que Malagrida era um sacerdote de solidas virtudes e que os

factos que lhe attribuiam deviam ser inventados. A India, por distante,

não escapava á vigilancia do Marquez de Pombal. Soube da existencia da

carta e conseguiu obter copia d'ella. Já era o anno de 1774, e ainda o

marquez expediu um despacho á Meza Censoria, no qual se vê que o

antagonismo estava tão vivo como nos primeiros tempos da lucta travada

com a Companhia de Jesus, visto que similhantemente na tal carta, diz o

marquez: «Só havia a _paixão_, a _malicia_, a _calumnia_, a _ignorancia_

e a _temeridade_, e que era um legitimo parto, não de um bispo, mas de

um homem todo possuido dos pessimos e detestaveis espiritos da soberba,

da vingança, e esquecido de Deus, da eternidade e de si mesmo.» A Meza

Censoria não foi menos energica no seu estylo: a carta foi julgada

_mentirosa_, _infame_, _impia_, _blasphema_, _sediciosa_, _escandalosa_

e _heretica_, condemnando-a a ser lacerada e publicamente queimada pela

mão do algoz, na Praça do Commercio, o que se executou.

Quando D. José deixou de existir, sua filha, correspondendo ao perdão

que seu pae dera a todos os seus inimigos, soltou os presos politicos,

que por tantos annos jazeram nas masmorras. Cada um voltava com o desejo

de vingança e com elles todos os parentes e descendentes pediam á rainha

a rehabilitação da memoria d'aquelles que expiraram no cadafalso e a

restituição de bens a seus legitimos herdeiros. D. Maria I, de animo

timorato, e balançando sempre entre a memoria de seu pae e as suggestões

do marido e dos inimigos do marquez, não sabia como haver-se em tal

difficuldade, porém, o conde de Assumar, casado com uma filha dos

Tavoras e que tantos annos estivera preso sem outro delicto que não

fosse esta alliança, reclamou resolutamente a revisão da sentença, e

sendo appoiado pelos novos ministros e pelo confessor da rainha, esta

resolveu-se a submetter a exame a sentença condenmatoria contra a qual

se protestava. Effectivamente essa sentença revisoria tira aos Tavoras e

conde de Attouguia, a responsabilidade no crime de regicidio e

rehabilita a sua memoria. O que n'isto ha de mais estranho é que a

maioria dos desembargadores, que agora absolviam os réos mortos, eram os

mesmos que assignaram a sentença anterior com todos os seus horrores que

ella comprehendia; achavam agora tardiamente que se não havia guardado

as formalidades prescriptas pela lei.

Segundo este documento fica provado á sacciedade a existencia do crime;

que o duque d'Aveiro, querendo vingar-se do rei por este lhe negar o

rendimento de commendas que entravam para a caixa das commendas

extinctas, e por impedir o casamento de seu filho D. Martinho com a rica

herdeira de Cadaval; e além do duque os dois familiares d'elle e o

cunhado de ambos, José Polycarpo. A esta sentença revisoria oppôz o dr.

João Pereira Ramos, procurador da corôa, tres ordens de embargos: uns de

abrecção e sobrecção, e ainda de effeito de integridade do processo,

impugnando a sentença pelos seus mesmos fundamentos. O arrojo d'este

magistrado, que era irmão de D. Francisco de Lemos, bispo de Coimbra

e amigo de Pombal, foi de todos admirado, mas causou na rainha novas

vacillações, deixando-a n'aquelle combate violento entre o dever de

filha respeitosa e a quem cumpria não atacar a memoria da justiça feita

por seu pae, e as diligencias que perante ella empregavam os

interessados e mesmo pessoas de sua familia. N'esse combate e nos

escrupulos de uma consciencia tibia, se lhe passou o tempo e se lhe

esvaeceu a razão. Com aquelle incidente do recurso interposto, nunca a

segunda sentença passou em julgado, ficando por tanto de nenhum effeito,

e de pé, a proferida em 1759. Se quizermos julgar de um rei ou de um

estadista, avaliando os seus actos, praticados em outras epochas, pela

philosophia de um seculo que se avantaja em idéas humanitarias, que não

teve os d'elles, raro será aquelle que não mereça o nome de tyranno; é

necessario examinar os costumes da epocha em que viveram, quaes as idéas

dominantes na sociedade que governaram, qual o estado da sua legislação

penal. Os grandes reformadores tem muitas vezes de fazer calar o coração

para seguir o que lhe aconselha o entendimento. Pedro I, da Russia, não

poupou o proprio filho mas fundou um imperio e a sua memoria é

respeitada, não como sanguinario, mas como fundador de uma

nacionalidade, como um previdente legislador e que introduziu n'um paiz

semi-selvagem, as artes e a civilisação a que estava alheio.

Naturalmente o pae chorou o filho, mas o rei não vacillou. Uma mãe, não

saberia fazel-o. É por isso que as que alimentam a ridicula otupia de

chegar a epocha em que a mulher seja chamada a desempenhar cargos na

republica (que as ha), devem perder essa idéa, que, para ser realisavel,

era necessario que a mulher podesse dominar o coração pelo entendimento,

pois de outro modo não se governam nações. A mulher deve ser o anjo do

lar, é mãe, é mestra, e capaz de tudo quanto dependa de sentimentos

nobres e brandos, mas são raras, e ainda bem, as aberrações que mentindo

ao seu destino doce e nobre, se fazem notar pela crueldade. O homem tem

outra missão; destinado a proteger e a deffender, Deus deu-lhe outra

força de animo; a mulher que se desvia da senda que a Providencia lhe

marcou, torna-se má e cruel, mas nunca chega a ser grande; o homem que

segue o seu caminho, no intuito de bem governar, vê-se muitas vezes

constrangido a calcar todos os sentimentos, por que vê ao longe o

beneficio que tirará.

Os humanitarios de hoje, se tivessem nascido ha um seculo, e tivessem o

talento de Pombal, para chegar aos mesmos fins buscariam naturalmente os

mesmos meios. Não era só em Portugal que se empregava a tortura.

O joven cavalheiro Laborde e alguns rapazes da sua edade, foram

accusados de haverem ultrajado um crucifixo que estava n'uma ponte de

Abberville, foram condemnados a padecerem a amputação da lingua

arrancada por meio de tenazes, e a tortura ordinaria e extraordinaria. A

sentença confirmada pelo parlamento de Paris foi executada por cinco

algozes. O cavalheiro Laborde depois de ter padecido a tortura, foi

executado em Abberville. Este desgraçado rapaz subiu ao cadafalso com

uma coragem tranquilla e padeceu o supplicio sem se queixar. A sua

execução causou tal horror, que se não atreveram a proseguir no processo

dos demais accusados.

Ainda vou reproduzir um outro exemplo, e muitos mais poderia dar se o

caso carecesse de mais exemplos, mas quem ha que não tenha lido mil

casos identicos em documentos, em jornaes, na historia de todos os

paizes, mesmos os mais civilisados?

A tolerancia e os sentimentos de humanidade não eram as qualidades

brilhantes dos seculos anteriores. A crueldade era levada ao requinte, e

quem não tiver lido e desejar convencer-se de que era systema geral, não

tem mais do que ler a historia de Roma e da doce Italia em geral, a de

Hespanha, onde Torquemada dá largo assumpto, e mesmo a da França

republicana.

Se accusamos o ministro, o que diremos do rei? Acaso Pombal fez quanto

se deixa dito sem a sancção regia? Não salpicaria essa monstruosa

execução as capas de arminhos do rei e da rainha? Não seria esse rei

(tão temente a Deus), connivente na barbaridade? foi-o sem duvida, mas

em relação á epocha não poderia obrar de outro modo, e repito, é isso o

que justifica a todos os que cooperaram para essa terrivel carnificina.

Vejamos o outro exemplo: este da-se na Prussia e já sob o governo do

actual monarcha que muitos dizem illustrado e bom mas que se não chama

D. Luiz I: ao nosso bom rei é que ninguem arrancaria a sancção de tão

horrorosa sentença. Leiamos o _Times_, _isto em 1870_!

Execução do assassino do bispo de Emerland.--Rudolpho Hühnapfel, o

alfaiate, que assassinou o bispo Von Hatten e seu mordomo, na sua

residencia episcopal em Franemburg, foi executado na madrugada de 7 do

corrente, no oiteiro, que fica a cerca d'uma milha d'aquella cidade,

proximo á estrada de Elbing. Os juisos pronunciados em ambos os

processos pelos tribunaes do crime foram acordes em condemnal-o á morte

por meio do supplicio da roda, que começaria pelas extremidades

inferiores do corpo acabando nas superiores (_voa unten auf_). A 15 do

mez proximo passado foi a sentença, confirmada pelo assentimento regio,

que tomou uma nova formula.

No reinado anterior custumava correr como se segue: «Lemos a sentença e

ordenamos a sua execução! Hoje adoptou o soberano esta phrase:

«Lemos esta sentença e queremos que se dê livre curso á lei! O preso

houve-se por muito tempo, com bastante presença de espirito, sem

patentear um só indicio de remorso, ou arrependimento até ao momento em

que na ultima audiencia, lhe foi lida a sentença do tribunal;

operando-se então visivel alteração na sua conducta. A 27 do referido

mez quando ouviu a ordem regia para a sua execução, estava tão agitado,

que não podia fallar, pelo que recebeu então o auxilio espiritual do

sacerdote. Na vespera do supplicio foi confessado e recebeu a

communhão.» Outro jornal o _Elbing_ Zeitung diz o seguinte sobre o

mesmo: Ás 4 horas e meia da manhã foi o preso removido de Braunsberg

n'uma carreta bem escoltada, chegando ao logar destinado para a execução

ás 6 horas. Mais de 10:000 pessoas affluiram de toda a diocese áquelle

logar ao romper do dia, sendo digno de notar-se que mais de metade, eram

mulheres. O criminoso desceu da carreta, em deploravel estado de

desalento tomou uma bebida restaurante, que lhe foi administrada, sendo

em seguida conduzido ao cadafalso, onde lhe tiraram as algemas: ajoelhou

com o padre que o acompanhava e orou. O prisidente do tribunal de

Braunsberg, leu a sentença que o condemnava a ser rodado, começando a

tortura pelos pés, e voltando-se para os tres algozes disse-lhe:--E

agora vol-o entrego para o devido cumprimento d'esta sentença.--«Ouvindo

isto o reu, olhou para o padre e tornou a ajoelhar, mermurando breve

oração; levantou-se depois, colocou-se no cadafalso com fria resolução,

e recusando o auxilio dos algozes, pôz elle mesmo os pés e os braços na

posição exigida e exclamou com voz firme:--Deus se compadeça da minha

pobre alma.» O algoz cubriu-lhe o rosto e o terrivel supplicio da roda

começou. Em dez minutos deixou aquelle desgraçado de existir sendo o

cadaver, já reduzido a uma massa informe, mettido em um caixão já para

isso preparado.

«Os espectadores retiraram-se visivel e profundamente commovidos.»

Basta de exemplos revoltantes, para retomar o fio da interrompida

narrativa.

Depois das ultimas cartas de que fallei, os jesuitas contavam com a

elevação ao poder do novo papa, para arranjarem os seus negocios, mas já

iam desanimando quando a nomeação de Rezomnico para confessor de S. S. e

que era jesuita lhe fez renascer novas esperanças.

Clemente 13 foi aclamado, e o Geral dos jesuitas Ricci, não perdeu um

momento em lhe apresentar um memorial para as reformas. Queixava-se de

que os não tinham ouvido quando os accusaram, e de que se attribuiam

a todos os jesuitas residentes em Portugal e suas dependencias, culpas

commettidas por um ou outro, isoladamente. Protestava a innocencia dos

superiores e pedia que fosse revogada em Roma, a reforma principiada em

Lisboa a 12 de maio.

Na congregação as opiniões dividiram-se; uns votaram pela revogação

immediata do breve, que tachavam de offensivo á dignidade do papa:

outros advogaram a causa do rei de Portugal, contra os jesuitas. Depois

de larga discussão, resolveu-se o seguinte: O cardeal Achinto, deveria

entender-se com o nuncio e recommendar-lhe que se entendesse tambem, com

o cardeal visitador, e aconselhar-lhe toda a moderação possivel no

cumprimento do seu encargo.

Isto foi poeira que não cegou os jesuitas que ficaram pouco satisfeitos;

mas não desanimaram, e principiaram a espalhar boatos absurdos a

respeito de Portugal e do seu governo. A morte do patriarcha de Lisboa,

foi attribuida pela Companhia aos remorsos, e julgavam com estas e

outras falsidades excitar o zelo do seu protector, o cardeal Torregnani,

que fôra nomeado secretario d'Estado. Veio a complicação do attentado

contra o rei, tornar mais critica a situação dos jesuitas. Malagrida foi

morto e os outros suspeitos presos, uns no forte da Junqueira, outros na

quinta do duque de Aveiro.

Todos os seus bens foram encorporados nos da corôa como pertencentes a

inimigos do rei, e de seus Estados; assim declarados por decreto do

tribunal.

Todas estas ordens, dizia Carvalho, são indicadas pela economia e pela

necessidade do rei, de deffender a sua real pessoa, e o seu governo, e o

repouso publico de seus subditos, o exige em quanto esperam novos

recursos da Santa Sé. As melhores intenções são muitas vezes

envenenadas. Houve quem dissesse que o motivo que impellia Carvalho, a

fazer sequestro nos bens dos jesuitas, era a ambição de se enriquecer

com os seus despojos.

Foi uma calumnia inventada pelos mesmos padres com o intento de denegrir

o caracter do ministro que em todos esses bens não teve a minima parte.

Depois de prender os padres e sequestrar-lhe os bens, Carvalho

dirigiu-se ao papa para julgar Malagrida e seus cumplices. Estas méras

formalidades em nada diminuiram a energia das suas reclamações. Elle não

julgava necessaria a approvação do papa para punir Malagrida, mas

embaraçava-o d'um lado o rei, que não queria faltar a nenhuma attenção

para com a Santa Sé, do outro, o povo fanatico e cheio de prejuisos.

Dirigiu-se ao papa, como em tempo o fizéra a Benedicto XIV, um dos mais

sabios pontifices, que tem empunhado a theára, mas que não concedeu

mais que a reforma da ordem, golpe que ainda assim foi decisivo, e que

os padres estavam longe de esperar, porque fôra preparado no maior

segredo; pedia a Clemente XIII em nome do procorador geral da corôa,

authorisação para o conselho chamado _Conselho de Consciencia_, poder

relaxar ao braço secular depois da degradação pronunciada conforme os

decretos canonicos todos os ecclesiasticos seculares e regulares

convencidos de conivencia no attentado de 3 de setembro, e os que de

futuro se tornassem réos do mesmo crime. O rei junctou a esta pretenção,

ou supplica do procurador geral da corôa uma carta sua cheia de affecto

e confiança e dizia a S. S. que resolvera expulsar os jesuitas do seu

reino e dependencias, e que era resolução irrevogavel. Uma memoria

minuciosa dos crimes e excessos praticados por esses religiosos,

acompanhava a carta e a supplica e Carvalho fez remetter tudo ao nosso

embaixador em Roma para que este ficasse ao facto do que se desejava,

acompanhando ainda esta remessa de instrucções particulares dadas em

longa carta que termina assim:--«Em fim, caro primo S. Magestade deseja

a paz e quer até á ultima extremidade mostrar ao papa, os sentimentos

affectuosos, e o respeito filial que lhe tributa, ainda que está

persuadido, de que cincoenta annos de guerra com qualquer potencia da

Europa, lhe eram menos nocivas á sua autoridade do que a presença dos

jesuitas no reino e seus dominios. Em conclusão S. M. ordena-me que

previna a V. S.ª de que deve mostrar na côrte de Roma tanta moderação

como firmeza, fallando sempre como um ministro, deve fallar ao Supremo

Pastor ou ao que occupa o seu logar, fugindo principalmente dos dois

maiores peccados politicos que são: recordar faltas passadas e

irremediaveis, o que azeda sempre os animos; o segundo o de ameaçar o

Soberano ou seus ministros. A esse respeito deve imitar o cardeal Dossa

que emprega sempre a terceira pessoa servindo-se de phrases como estas:

crê-se, teme-se receia-se etc.»

Apesar porem de toda a energia que Almada desenvolveu, encontrou a

vontade firme do secretario de Estado o Cardeal Torregiana, que era

primo de Ricci, e amigo dos jesuitas e que não dissimulou a sua opinião

e a sustentou com firmesa. O mesmo papa lhe não era adverso, e Almada,

comprehendeu logo que nada conseguiria. Carvalho publicou então o

decreto de 28 de junho de 1759 pelo qual os jesuitas, eram

desnaturalisados, proscriptos e expulsos, para sempre de Portugal e seus

dominios.

Todos os portuguezes eram obrigados, sob penna de morte, a prohibir-lhe

a entrada no reino, e de ter com elles a minima correspondencia ou

relação. O decreto exceptuava os jesuitas presos, e os que não tendo

ainda pronunciado o quarto voto, quizessem despir o habito; todos os

seus bens foram postos em deposito.[3]

A execução seguiu o decreto, e perto de 600 jesuitas, de todas as idades

foram no meio de soldados, embarcar nas margens do Tejo no _S. Nicolau_

que em sete dias os levou a Civita-Vecchia. A noticia da expulsão dos

jesuitas, só chegou a Roma, a 2 de agosto, depois do papa ter mandado um

correio extraordinario a Portugal com quatro despachos para o nuncio o

cardeal Acciajuoli; o primeiro era dirigido ao presidente do conselho de

Consciencia e das Ordens que permittia a este tribunal o entregar ao

poder secular os jesuitas convencidos de conniventes no attentado, mas

este breve nada dizia com respeito ao futuro, como queria Pombal. O

segundo era uma carta do papa para o rei, na qual appellava para os seus

sentimentos misericordiosos pedindo-lhe a vida d'aquelles ministros do

altar, que eram mais miseraveis do que criminosos.

Factos Notaveis da Historia Portugueza e Biographia do Marquez de Pombal · 第 4 / 5 段