Na segunda carta o papa manifestava ao rei a dôr do seu coração

despedaçado e inquieto rogando-lhe que não expulsasse os jesuitas e de

fazer continuar a visita e reforma ordenada por Benedicto 14; são estes

os sentimentos, dizia elle, que me dicta o meu amor pela justiça e pela

verdadeira gloria de V. Magestade. O quarto despacho era uma memoria do

papa para Carvalho; sustentava n'ella os termos da primeira dizendo que

toda a ampliação dada a esta consecção seria considerada contraria ás

immunidades eclesiasticas e attentatorias ás suas prerogativas. Estas

foram as causas determinativas da ruptura com a côrte de Roma, porque

Carvalho sem mais demora tomou a resolução definitiva. Vendo-se livre da

pressão da S. Sé poz em pratica todas as medidas que tanto o

preoccupavam. Conseguiu que a França e Hespanha se lhe ligassem pedindo

a extincção da Companhia. Foi então que a fecunda imaginação de Pombal

se desentranhou em medidas sem numero. Por toda a parte se estabeleceram

escolas em boas condições, tanto primarias como secundarias. A elle se

deve a organisação séria e util da Universidade, prohibiu os compendios

em uso, por nocivos, e substituiu-os por outros convenientes; creou a

escola do Commercio, fundou o Collegio dos Nobres, decretou a liberdade

para todos os escravos que pisassem o solo de Portugal, complemento

precioso das sabias medidas contra a escravidão das colonias como que se

tornára celebre logo no principio da sua elevação ao poder. Todos os

grandes estadistas, sob qualquer forma de governo que seja, se sentem

arrastados por impulso irresistivel a introduzir nas suas leis a

philosophia, a religião, e a liberdade. O marquez de Pombal foi quem

apesar de governar pelo systema absoluto implantou a liberdade no nosso

paiz.

Foi elle que creou o _Conselho de fazenda_ fazendo convergir ao thesouro

publico todos os impostos. Um acontecimento que Pombal não esperava veio

crear-lhe novas complicações. A 16 de março de 1762 o enviado de França

Jacob O. Dune e o de Hespanha Torrero com ordens e instrucção da côrte

de Madrid, apresentaram ao ministro dos Negocios Estrangeiros de

Portugal, o _memorandum_ que principiava pedindo a alliança offensiva e

deffensiva do nosso rei contra os inglezes; Pombal fez responder que so

poderia guardar a neutralidade, por que sendo nós alliados da Inglaterra

com quem mantinhamos relações estreitas e amigaveis, não podiamos sem

ter recebido offensa, fazer-lhe guerra, que mesmo Portugal enfraquecido

pelas adversidades por que passára, não devia expôr seus filhos a

soffrer consequencias que não poderiam supportar, mas que o rei

offerecia a sua mediação para o restabelecimento da paz. A resposta a

esta, foi impolitica e grosseira e declararam as duas potencias que bom,

ou mau grado do rei de Portugal, as tropas hespanholas aqui entrariam e

que ao rei ficava o direito de as considerar como amigas ou inimigas.

Indignado com esta conclusão que nem era justa nem acceitavel, Pombal

insistiu na sua primeira resposta accrescentando que _S. M. Fidelissima

gastaria até a ultima telha_ do seu palacio para se deffender e que os

seus subditos derramariam até a ultima gota do seu sangue, mas que não

sacrificavam a honra da corôa e da nação. Foi declarada a guerra e

pedidos os passaportes que Carvalho lhe promptificou dizendo-lhe que

logo comprehendera que as côrtes de Madrid e Versailles ao assignarem o

_Pacto de Familia_ era já com tenção de fazer de Portugal theatro da

guerra caso se recusasse entrar no accordo. De facto a 30 de abril

entraram os hespanhoes, a França declarou-nos tambem a guerra e a

despeito do _artigo VI_ do tractado de Vienna d'Austria os portuguezes

residentes em França foram mandados sair em 15 dias perdendo os seus

bens a favor da corôa.

O exercito, que não chegava a 8:000 homens, estava em pessimas

condições, não tinham nem munições, nem fardamentos, as praças estavam

desmanteladas e desguarnecidas.

O Marquez com pasmosa tranquilidade fez desapparecer todas as

difficuldades. Com incrivel rapidez organisou um exercito de 50:000

homens, e appareceram uniformes e munições em abundancia. Para

governador d'Elvas foi o conde de Unhão, D. João de Lencastre para o

Minho, Marquez de Louriçal para o Algarve, e D. Rodrigo de Noronha,

irmão do marquez de Marialva, e grande militar, foi chamado á capital e

nomeado tenente general. Os hespanhoes traziam 40:000 homens que

foram derrotados e em 1763 concluiu-se finalmente a paz em Fontainebleau

declarando o art.º 21 do mesmo tratado o que se segue: As tropas

Francezas e Hespanholas evacuarão sem reserva alguma todos os

territorios, campos, cidades, praças e castellos de S. M. F. na Europa

que possam ter sido conquistadas, com a mesma artilheria e munições de

guerra que n'ellas acharam; quanto ás colonias, se tiver havido alguma

mudança na America, Africa ou India todas as cousas serão postas como

estavam na conformidade dos tratados que existiam entre as côrtes de

França, Hespanha, e de Portugal antes da guerra.

A este tempo chegaram seis mil homens d'Inglaterra que se juntaram aos

nossos 50 mil. Foi restabelecida a paz. Como Richelieu, o ministro

procurou sempre devolver ao rei toda a força que tirava ao clero.

Portugal deve a Pombal medidas que lhe dão direito á gratidão e

admiração de todos os portuguezes, taes como as de 20 de julho de 66, de

9 de setembro de 69 e a de 3 de abril de 1770, a primeira sobre

testamentos. A morte do rei em 1777 veio por fim á sua carreira

brilhante. Durante a doença do rei a regente D. Marianna senhora tão boa

como sagaz nada alterou apesar da boa vontade dos inimigos do Marquez

principalmente o cardeal Cunha a quem o ministro protegêra sempre. Aos

20 de fevereiro depois de longo soffrimento a vida do rei extinguiu-se

tendo sessenta e dois annos. N'esse dia o ministro foi como costumava

informar-se do estado do rei, e o Cardeal adiantando-se deu-lhe a fatal

nova com sinistra alegria e ajuntou: «Nada mais aqui tendes que fazer;

as vossas funcções terminaram.»

O marquez só lhe respondeu com um olhar de profundo desprezo. O seu

espirito esclarecido de ha muito previra a sorte que o esperava. O rei

nascera com as qualidades de coração e de espirito que fazem os

monarchas independentes. Tinha a intelligencia clara e era justo, mas a

sua principal gloria vem-lhe de ter sido o rei de um tal ministro. A

rainha principiou o seu governo pelos actos que são mais gratos ao

coração. Principiou perdoando, em nome de seu pae. O marquez continuou a

ser ministro apesar de não gosar da confiança da rainha. Comprehendendo

a sua falsa posição instou muito tempo pela sua demissão, allegando os

seus longos serviços, avançada edade e enfermidades. Afinal conseguiu

que a rainha julgasse a proposito dar-lh'a, e a primeira pasta que se

lhe tirou foi a das finanças em que mais serviços prestara, deixando no

thesouro que encontrara vasio, 80 milhões de cruzados, eloquente cifra

que attesta a excellencia da sua administração. Eis o decreto:--«Em

consideração da alta e singular estima que o rei meu pae (que Deus tenha

em gloria) teve sempre pela pessoa do marquez de Pombal e a pedido

do dito ministro que me pede a permissão de se demittir de todas as

funcções com que está sobrecarregado, allegando que a sua edade e muitas

enfermidades lhe não permittem continuar ao meu real serviço; em

attenção ao seu pedido lhe concedo a dita permissão, mas conservando-lhe

em quanto viver o direito ao rendimento que lhe competia como Secretario

de Estado dos Negocios do reino, ajuntando a isso por graça especial os

rendimentos das commendas de S. Thiago de Braga e da de Christo que se

acha vaga por morte de Francisco de Mello e Castro. Feito no paço da

Ajuda 14 de março 1777.» Os termos lisongeiros e a graça que as

acompanhou foi derradeira homenagem da rainha ao ministro e amigo de seu

pae. O marquez retirou-se para Pombal e ahi ficou depois desterrado por

ordem da mesma rainha, soffrendo por todos os modos e fallecendo depois

minado de desgostos pela ingratidão; eis o seu epitaphio:

AQUI JAZ

SEBASTIÃO JOSÉ DE CARVALHO E MELLO,

MARQUEZ DE POMBAL, MINISTRO E SECRETARIO DE ESTADO

DE D. JOSÉ I

REI DE PORTUGAL;

O QUAL REEDIFICOU LISBOA,

ANIMOU A AGRICULTURA,

ESTABLECEU AS FABRICAS,

RESTAUROU AS SCIENCIAS,

ESTABLECEU AS LEIS,

REPRIMIU O VICIO,

RECOMPENSOU A VIRTUDE,

DESMASCAROU A HYPOCRISIA,

DESTERROU O FANATISMO,

REGULOU O THESOURO REAL,

FEZ RESPEITADA A SOBERANA AUTHORIDADE;

CHEIO DE GLORIA

COROADO DE LOUROS

OPPRIMIDO PELA CALUMNIA,

LOUVADO PELAS NAÇÕES ESTRANGEIRAS:

COMO RICHELIEU

SUBLIME EM PROJECTOS,

IGUAL A SULLY NA VIDA, E NA MORTE:

GRANDE NA PROSPERIDADE,

SUPERIOR NA ADVERSIDADE,

COMO FILOSOPHO,

COMO HEROE,

COMO CHRISTÃO,

PASSOU Á ETERNIDADE.

NO ANNO DE 1782

AOS 83 ANNOS DE IDADE

E NO 27.º DA SUA ADMINISTRAÇÃO.

[1] «Homens assim são elevados ao poder e a mandar, quando a

Providencia tem em vista beneficiar uma nação. Á sua voz surgem: a

Ella devem a habilidade de bem dirigirem o golpe, o vigor para o

vibrar, a pericia para exercer a autoridade, e o poder com que

vencem uma crise em hora de decissivas trevas.»

[2] _Montesquiou._

[3] Arch. dos Negocios Estrangeiros de França, v. LLXXXVI fl. 164.

Factos Notaveis da Historia Portugueza e Biographia do Marquez de Pombal · 第 5 / 5 段