de vêr do Conde de Oeiras, muito pernecioso á nação, e n'essa
conformidade procurou o meio de os arredar do seu caminho. Os filhos de
Layola tinham por meio do confessionario e do ensino adquirido uma
preponderancia grave e quasi absoluta, e o ministro não poupou
diligencia e habilidade para conseguir annullar esse poder. Os jesuitas
que tinham alistados nas suas bandeiras homens de grande intelligencia
defenderam-se com vehemencia, vigor e finura. Esta guerra foi bem
prejudicial, pois já custava a Portugal tres milhões de libras; os
negocios caminhavam vagarosamente e a morosidade não se cuadunava com a
força intelleclual e temperamento energico de Pombal, que, impaciente
pela reluctancia dos jesuitas resolveu tomar medidas positivas e
indeclinaveis. Não era empresa facil: os padres tinham á sua disposição
poder e influencia, não lhe faltavam armas para combater. Eram jesuitas
os directores espirituaes de toda a familia real. Moreira era o
confessor de El-Rei, e estes eram outros tantos instrumentos que era
necessario frustrar. O ministro não desanimou. O rei estava ao facto das
intrigas em que andavam envolvidos os padres da Companhia, e
comprehendeu que só tinha dois caminhos a seguir: se não sustentava o
ministro seria elle proprio derrubado pelos seus poderosos inimigos, que
lhe não perdoariam, e perdia o ensejo de regenerar a nação como tanto
ambicionava; não vacilou e a 19 de setembro de 1757 demittiu o seu
confessor e os de sua familia prohibindo-lhe até a entrada no Paço sem
expressa licença sua. Este golpe foi decisivo, e o ministro não perdeu
tempo, e escreveu logo a Francisco de Almada ministro portuguez em Roma
para que «pedindo e obtendo do Santissimo Padre uma audiencia particular
e secretissima» lhe referisse tudo o que havia com relação aos jesuitas
e que elle lhe dizia n'essas instrucções ás quaes diz o ministro: «Se
omittiam n'ellas muitos e mui aggravantes escandalos, que se não podiam
referir sem maior indecencia, e pejo de quem as escrevesse e ouvisse.»
Ordena-lhe que faça saber ao Papa: «que os jesuitas haviam sacrificado
todas as obrigações christãs, religiosas, naturaes e politicas a uma
cega, insolita e interminavel ambição de governos politicos e temporaes;
de acquisições e conquistas de fazendas alheias, e até de usurpações de
Estados, e dizia mais, que toda a demora que houvesse em obviar a tão
grandes desordens, teria a consequencia de as fazer irremediaveis;
accrescentava que El-Rei mandára recolher ás respectivas casas e
suas filiações todos os confessores da familia real, que eram jesuitas;
e que Sua Magestade supplicava ao mesmo tempo a Sua Santidade, que se
servisse de dar sobre esta importante materia tão efficazes
providencias, que os abusos, excessos e transgressões dos jesuitas
cessassem por uma vez, esperando o mesmo Senhor que á paternal, e
apostolica providencia de Sua Santidade não faltasse a menor parte do
que se fazia preciso em tão notorias urgencias, para que uma religião,
que havia feito tantos serviços á Igreja de Deus, não cabe n'estes
reinos e seus dominios, pela corrupção dos costumes de seus religiosos,
e pelo geral escandalo que tinham causado com tão successivos e
extranhos abusos.» Queixava-se mais ainda de «que os padres, mesmo
depois de serem despedidos do Paço, ahi levavam a desordem e a intriga,
que buscando por todos os modos impedir a fundação da Companhia dos
vinhos do Porto, dos aggravos que faziam procurando oppôr-se á
organização da Companhia do Grão Pará, dizendo até o padre Ballestes do
pulpito, que quem entrasse n'essa Companhia não entraria na de Jesus
Christo.»
As provas d'estes e de outros attentados foram juntas á mesma carta de
instrucções. Não as vi nem sei de que especie eram mas deviam ser
concludentes. A consequencia d'estas queixas acompanhadas dos
documentos, para não admittirem evasivas ou delongas, foi Benedicto XIV
por meio de um breve de 1 de abril de 1758 nomear ao Cardeal Saldanha
reformador e visitador da Companhia de Jesus, tanto em Portugal como em
todas as suas colonias.
Logo que de Roma chegaram as credenciaes, o vigario apostolico fez um
edital declarando: «que os jesuitas portuguezes mesmo contra as leis de
Deus e das nações, dirigiam um commercio illicito, e que por isso o
prohibia e que se d'aquella data em diante, o continuassem ficariam
sujeitos ás penas estabelecidas pelas leis.» Por bula do Benedicto XVI
de 1741 foi prohibido a todas as ordens religiosas (sem especificar
nenhuma) toda e qualquer transacção, trafico ou commercio e toda a casta
de poder temporal, e que podessem comprar ou vender os pobres indios,
empregando-se só em convertel-os e civilisal-os. Foi a primeira bula
pontificia com o intuito de evitar o pessimo procedimento dos religiosos
e missionarios na Asia, Africa e America e prohibia sob pena de
excommunhão a quem quer que fossem de se atrever a reduzir á escravidão,
os indigenas ou a vendel-os, compral-os, trocal-os, dal-os ou separal-os
de suas mulheres e filhos; roubar-lhe seus haveres leval-os para outras
terras, ou prival-os fosse por que meio fosse, da sua inteira liberdade.
Ninguem poderá accusar Benedicto XIV de injusto, antes é isto uma prova
da excellencia do seu caracter. Pouco depois foi publicado um edital
em 7 de junho de 1758 concebido n'estes termos: «Por justos motivos que
nos foram presentes e muito do serviço de Deus e do publico, havemos por
suspensos dos exercicios de confessar e pregar em todo o nosso
patriarchado os padres da Companhia de Jesus, por ora e emquanto não
ordenarmos o contrario.» Ao passo que estas medidas devolviam ao rei a
plenitude da sua authoridade, e o prestigio que lhe haviam usurpado, um
monstruoso attentado punha em eminente risco a vida do mesmo monarcha.
Tramou-se uma conspiração para o matar e tanto a opinião publica como a
devassa a que se procedeu foram unanimes em accusar os padres da
Companhia e os nobres, que bem largamente expiaram o seu horrendo crime,
se o praticaram. O extracto do officio de mr. Hay de 10 de outubro de
1759, em que o ministro inglez refere ao seu governo os ultimos
acontecimentos, darão ao leitor uma ideia da opinião geral, eis o
officio: «Como a Companhia de Jesus é muito poderosa n'este paiz está
por isso eminente a sua queda: para o que concorrem os grandes
fundamentos que ha para acreditar, que os obstaculos que se teem opposto
ás expedições das forças unidas (na America meridional) tem sido
principalmente fomentadas por elles.» Não é mister transcrever mais
correspondencias dos ministros estrangeiros pois todos são unamimes em
affirmar a sabedoria e justeza das ideias e actos do ministro D. José.
Emquanto a mim, comquanto respeite muito as opiniões de pessoas a quem
venero e que lhe são contrarias, e mesmo a opinião geral que lhe é
adversa, não creio em que todos, ou mesmo a generalidade fossem maus.
Convencida de que, como em todas as classes, ha maus, entre elles, não
posso acreditar em que uma corporação inteira fosse má. Isto porém não
importa uma duvida, e creio piamente que muitos dos jesuitas d'aquella,
e de todas as epochas, foram os culpados da expulsão que soffreram então
e da geral reprovação que todos soffrem.
O nosso padre Antonio Vieira era bom, muito bom mesmo; S. Francisco
Xavier e tantos outros que honraram a Companhia; não faltavam tambem os
que tinham a ambição do mundo e das riquezas e o desejo de exercer
influencia na governação do estado, na direcção dos estudos, na
consciencia dos particulares. Nem isto é para admirar, quando entre
elles haviam homens douctos, capacidades, engenhos, e quando taes cousas
se dão, não falta uma voz intima que assegure que a taes dons cabe o
dominio. Esse brado intimo que Pombal sentia em si mesmo, era aquelle
que muitos jesuitas sentiriam quando no silencio da clausura a
consciencia os advertia de quanto excediam aos que dirigiam e dominavam
a sociedade civil.
Essas ambições e intentos foi o que lhe fez perder a todos o
conceito e consideração de que já tinham gosado. Como já disse, um
terrivel crime veio lançar o terror e a indignação em todos os animos.
Os inimigos do ministro que se encontravam em todas as classes visto que
os nobres lhe não perdoavam a sua preponderancia, o clero as suas
medidas que lhe aniquilavam as ambições, a sociedade civil e o povo que
era o instrumento d'essas duas poderosas classes, queriam a todo o custo
derrubar esse obstaculo tremendo e como o rei se obstinava em
sustental-o determinaram destruir o rei para facilmente conseguirem os
seus intentos. O golpe era certeiro, se lograssem o desejado exito, mas
Deus não quiz e talvez muitos innocentes pagassem sem culpa o execrando
crime.
Os inimigos eram pois muitos e terriveis: o auctor d'esta terrivel
conspiração era o proprio mordomo-mór de El-Rei, o duque de Aveiro,
caracter ambicioso, avarento, falso e orgulhoso, e que não possuia
qualidade alguma que o tornasse agradavel, ou que justificasse o
valimento que o rei lhe dispensava. Parece que o ressentimento por
alguma offensa imaginaria que suppoz ter recebido do rei ou do seu
ministro, ressentimento alimentado por muito tempo pelos padres segundo
dizem varios historiadores foi a causa que o impelliu ao crime.
Se isto não explica a adhesão do duque a essa conspiração contra a vida
do rei, então só se pode julgar que fosse a mira em novos interesses e
riquezas, que lhe adviriam se o rei tivesse consentido no casamento de
seu filho D. Martinho com a opulenta herdeira de Cadaval. O segundo
conjurado era o marquez de Tavora destituido de saber e de
intelligencia, mas que talvez fosse levado ao crime para vingar uma
affronta; a opinião geral porém não lhe dá esta causa e dizem que o
despeito de não ter obtido o titulo de duque, da mesma sorte que o
marquez de Gouvêa, e tendo ficado sem recompensa do seu governo na
India, lhe insuflou no espirito o desejo de vingar com um regicidio a
negada elevação; instigado por sua mulher para entrar na conspiração de
que ella se fez a alma, graças ao seu caracter arrojado e intrepido. A
sua posição social, nobresa e riqueza eram outros tantos auxiliares para
o seu talento. A estes chefes da conspiração juntavam-se os dois filhos
do marquez de Tavora, um ambicioso como sua mãe e particularmente
offendido, o outro de um caracter maliavel como seu pae e que como elle
se deixou arrastar ao crime. O terceiro era o Conde de Attouguia genro
da marqueza, todos arrastados por ella como se vê da sentença e o narra
o sr. Francisco Luiz Gomes na sua obra--_Le Marquis de Pombal. Esquisse
de sa vie Publique_--da qual traduzirei o que diz respeito a este
attentado e ás consequencias d'elle bem como quanto se seguiu
relativamente aos jesuitas: «Os cumplices eram marquezes de Tavora, seus
dois filhos e seu genro. A marqueza foi a principal cabeça, auxiliada
pelo padre Malagrida, que ella fazia julgar santo, José Romero cabo de
cavallaria e que acompanhára seu marido á India, Antonio Alvares
Ferreira creado grave do duque de Aveiro, Manuel Alvares Ferreira seu
irmão, José Polycarpo seu cunhado, e José Miguel lacaio do duque.» O
caso dera-se assim: «A 4 de setembro de 1758, as portas do palacio do
rei fecharam-se repentinamente e o rei deixou de apparecer em publico. O
governo socegou o corpo diplomatico e o povo, dizendo-lhe que o rei
estava de cama em consequencia d'uma sangria que soffrera por ter dado
uma pequena queda. O ministro de França, Saint-Julien, apressou-se em
participar a noticia ao seu governo, mas alguns dias depois em carta
particular e escripta em cifra, disse que a verdadeira doença do rei era
uma ferida no hombro direito, occasionada por dois tiros que lhe haviam
sido disparados na estrada de Belem; que os assassinos eram seis, ainda
que só munidos de tres espingardas uma das quaes não dera fogo, e que as
duas outras tinham crivado de ballas a caixa do trem.
«O povo de Lisboa não foi tão feliz como o ministro francez, que foi o
primeiro a ter noticia tão circumstanciada do acontecimento. Em todo o
reino se acreditava no que Carvalho fizera espalhar. Só a 15 de dezembro
é que D. Luiz da Cunha, ministro dos Negocios Estrangeiros, revelou ao
corpo diplomatico o attentado que tivera logar a 3 de setembro. Carvalho
aconselhára ao rei que fingisse uma quéda para melhor se assegurar dos
criminosos. Preparou tudo com prudencia e mysterio a fim de que o golpe
que queria vibrar fosse mais seguro. As suas investigações foram de tal
modo secretas que aquelles que elle soppunha chefes da conspiração nem
deixaram de frequentar o Paço.
«Um d'entre elles, o duque de Aveiro, mordomo-mór, ali dessempenhou as
suas funcções até ao momento em que foi preso. A 12 de dezembro, então,
quando todos já tinham esquecido a quéda do rei, Carvalho fez fechar na
torre de Belem o duque d'Aveiro, o marquez de Tavora, seus filhos Luiz e
José, seu genro conde de Athouguia, o cabo Braz José Romero, ligado á
casa de Tavora, Antonio Alvares Ferreira, criado grave, Manoel Alvares
Ferreira e seu irmão João Miguel, lacaio do duque. Fez ao mesmo tempo
conduzir com boa escolta e fechar no segredo do convento das Grillas a
marqueza de Tavora. Todos os conventos dos jesuitas foram cercados de
tropas e ordens secretas foram dadas para serem presos Manuel e Nunes de
Tavora, irmãos do marquez do mesmo titulo, e os marquezes de Alorna e de
Gouveia.
«Um rumor principiou então a espalhar-se na cidade: dizia-se que os
assassinos se haviam dividido em tres bandos, que o duque de Aveiro
acompanhado do seu lacaio e de um outro, formava a primeira emboscada e
havia atirado sobre o cocheiro um tiro de espingarda, que falhou; que o
bolieiro, dando por isso, se poz, sem prevenir o rei, a esporear as
mullas para evitar novos tiros; que por este motivo os que faziam parte
da segunda emboscada vendo a sege a gallope se viram obrigados a atirar
com precipitação sobre o vehicolo; que estes dois tiros fizeram ao rei
crueis ferimentos desde o hombro direito até ao cotovelo, em fim que o
attentado tivera logar pelas onze e meia da noite na estrada de Belem.
«Carvalho não mandou todos estes accusados de tão diversas cathegorias
para os tribunaes ordinarios. Foram levados ante um tribunal
extraordinario chamado _Tribunal da inconfidencia_, presidido pelos
ministros e composto de juizes escolhidos pelo rei entre os magistrados
de sua confiança. O crime julgado por este tribunal era simples e
espedito. Os accusados não podiam defender-se pela voz de um unico
defensor; para accumular provas contra elles Carvalho publicou um edital
promettendo áquelles que as podessem e quizessem fornecer, grandes
vantagens, como a de elevação á nobreza, o titulo de _moço fidalgo_, e
de cavalleiro áquelles que já fossem nobres; o titulo de _viscondes_ aos
_moços fidalgos_, ou o titulo immediatamente superior aos que já
tivessem algum; isto sem detrimento de outras recompensas de dinheiro ou
empregos nas justiças ou finanças ou commendas. Aproveitou tambem
perdoar aos cumplices que se resolvessem a declarar tudo o que soubessem
da conspiração; assegurava que a infamia ligada ao nome de delator, não
tinha rasão de ser logo que se tratasse de um crime contra o rei. Em
quanto o Tribunal tinha as suas cessões no maior segredo, Carvalho
povoava as prisões de suspeitos. Muitos fidalgos para lá foram. A espada
de Democles estava suspensa sobre a cabeça dos fidalgos portuguezes. O
julgamento não se fez esperar. Foi assignado a 12 de janeiro pelos tres
ministros, Carvalho, D. Luiz da Cunha e Thomé da Costa, e pelos juizes
Cordeiro, Bacalhau, Santos Barbosa, Leiria, Oliveira Machado e pelo
promotor fiscal. Eis as sentenças:
«O primeiro chefe (duque d'Aveiro) foi condemnado a ser esquartejado
vivo, a serem-lhe quebradas pernas e braços e afinal queimado e as suas
cinzas espalhadas no mar. As suas armas despedaçadas, casas e palacios
arrasados e seus bens confiscados. O marquez de Tavora foi condemnado ao
mesmo supplicio. Ninguem mais poderia usar do seu nome sob pena de
confiscação de bens. Antonio Alvares Ferreira e José Polycarpo
condemnados a darem a volta da praça de Belem de baraço ao pescoço
precedidos de um pregoeiro e depois ligados a postes elevados e
queimados vivos e as suas cinzas deitadas ao mar. José Polycarpo fugira,
no julgamento offereciam-se grandes premios a quem o prendesse. Luiz
Bernardo Jeronymo de Athaide, conde de Athouguia, José Braz Romero,
Manuel Alvares e João Miguel foram condemnados a perecerem n'um mesmo
cadafalso, serem alli estrangulados, depois do que se lhe quebrariam
pernas e braços, depois queimados e as suas cinzas deitadas ao mar.
Quanto á ré D. Leonor, marqueza de Tavora, por algumas justas
considerações, foi exceptuada das penas mais severas, que merecia a
enormidade de seus crimes, e só a condemnou a ser conduzida com baraço
ao pescoço, precedida do pregoeiro publico, sobre o dito cadafalso, onde
soffreria a pena de morte, cortando-lhe a cabeça e sendo depois queimada
e as cinzas deitadas ao mar.» Nem uma palavra a respeito dos jesuitas! A
execução seguiu o julgamento. Foi no dia 13 de fevereiro de 1759 ás 8
horas da manhã. O aspecto da cidade era sinistro e ameaçador. Via-se na
praça de Belem fronteira ao Tejo, um cadafalso de dezoito pés de altura.
A praça estava cheia de tropa, o rio mesmo estava coalhado de
espectadores. Não se ouvia senão o ruido surdo da multidão que queria
presencear a morte d'esses grandes senhores. De repente dois homens
trazendo uma cadeirinha, e precedidos de um pregoeiro, atravessaram a
multidão. Era a marqueza de Tavora que chegava. Tinha a corda no pescoço
e um crucifixo na mão. Uma capa escura a envolvia e algumas fitas
brancas lhe fluctuavam na cabeça. Dois padres a acompanhavam e lhe
inspiravam essa fé ardente que fortalece a alma, com que a fazem
sobrepujar a fraqueza da materia e que é uma luz contra as trevas da
agonia. A marqueza subiu o cadafalso com passo firme; não estava abatida
pelo crime, nem intimidada pelo espectaculo, com o horror da morte que
ella parecia affrontar com serenidade de espirito e por um sorriso de
paz. Logo que chegou ao cadafalso o algoz mostrou-lhe as barras e os
outros instrumentos de tortura que bem depressa deviam arrancar a vida a
seu marido e filhos queridos. Então a mulher que até alli mostrára rara
firmeza, aquella que não tinha patenteado a minima fraqueza feminina,
nenhum desfallecimento de espirito e cujo semblante nem empallidecera,
não pôde resistir ao golpe dirigido ao coração de mãe e de esposa. A
natureza roubou-lhe a sua resignação christã, e a marqueza chorou. O
algoz fel-a então sentar n'uma cadeira, vendou-lhe os olhos, e querendo
amarrar-lhe os pés levantou-lhe um pouco o vestido; «não me toque»
gritou-lhe ella, indicando assim que a sua dignidade de mulher estava
ainda acima do seu titulo de marqueza e do poder dos seus inimigos.
Um segundo depois a cabeça rolava no cadafalso cortada por um só golpe.
A multidão tornou ainda a afastar-se para deixar passar a cadeirinha que
d'esta vez trazia José Maria de Tavora, o filho mais novo do marquez. O
mancebo tinha apenas 21 annos, coração bravo e um semblante esplendido
de juventude e belleza. Os seus longos cabellos louros deitados para
traz deixavam ver a sua fronte nobre e pura. Á commiseração que
inspirava a sua bella juventude, juntava-se o pesar de o ver perecer tão
miseravelmente. Durante o captiveiro o mancebo déra as mais claras
provas de rara firmeza; nem ameaças, nem torturas poderam arrancar-lhe
uma confissão; permaneceu sempre encerrado em obstinado silencio, ou
(quem sabe) na sua innocencia. Todos os juizos humanos podem enganar-se;
por mais douto que seja o homem não póde ser infallivel, pois que essa
qualidade só é attributo de Deus. Acareado com seu pae, disse: que se
cingia unicamente ao que elle confessasse, por que preferia partilhar a
sua sorte a contradizel-o. O desgraçado mancebo soffreu o supplicio com
santa resignação. O conde de Athouguia e Luiz de Tavora seguiram o
mancebo ao cadafalso. Ambos haviam confessado que eram culpados e que
toda a sua familia era cumplice na conspiração. Os criados do duque de
Aveiro foram queimados vivos, soffrendo horriveis torturas. O pregoeiro
annunciou outra execução: era o marquez de Tavora. Vinha este vestido
com o mesmo fato com que fôra preso. Tudo n'elle indicava coragem e
dignidade; parecia que a misericordia divina descera sobre elle para o
confortar no momento em que elle e toda a sua raça iam extinguir-se.
Soffreu o supplicio com tanta coragem e resignação como sua mulher e seu
filho José. O duque d'Aveiro foi o ultimo. Vinha descalço e de cabeça
descoberta, tremulo e abatido. Prenderam-n'o á roda, com as pernas e
braços nús. Foi despedaçado vivo atroando a praça com dilacerantes
queixumes. Depois, roda, cadafalso e cadaveres tudo foi queimado e as
cinzas lançadas ao Tejo.» Seria justo? quem o póde affirmar?
Com justiça ou sem ella isto tudo foi horrivel, mas se considerarmos que
tudo se passou em epocha em que os castigos eram todos de refinada
crueldade não nos admiraremos de que assim se praticasse com reus
convictos de regicidio, e nas condições em que se deu o crime. A tortura
era empregada em toda a parte principiando pela inquisição que se
constituia tribunal de um Deus de vinganças em vez de insinuar-se pela
caridade e pelo amor.