Em outra carta datada de 19 do mesmo mez mr. Castres diz para o seu

governo que D. José tinha ido com toda a sua côrte habitar em barracas

de lona n'uma quinta, e que a malfadada nação estivera em eminente

perigo de ser presa da peste e da fome, e conclue louvando o zeloso

procedimento de Pombal, que de dia e de noute se mostrava infatigavel em

empregar todos os remedios que a miseria geral pedia. Transcrevemos

ainda a seguinte passagem por me parecer de maior interesse:--«Como os

abalos não cessaram inteiramente desde o primeiro dia da nossa

desventura, a côrte com pouco mais de dois terços da sua população

continua ainda a acampar nos campos e quintas d'estas paragens. Os

predios que ainda se vêem de pé, na cidade e na extensão de algumas

leguas nas suas visinhanças, estão realmente, pela sua maior parte, n'um

estado tão deploravel, que será custoso encontrar um entre cincoenta,

que possa resistir ao inverno, ainda que sustentado por espeques.»

Facilmente se deprehende qual seria a continua perplexidade que a todos

dominava, pelo que ainda em 13 de dezembro em outra correspondencia diz

mr. Castres:--«Já lá vão quarenta dias desde que sobreveio o grande

terremoto, e com tudo raro tem sido o dia que se tenha passado sem se

renovarem os nossos sustos, sendo os repetidos tremores quasi sempre

acompanhados de tão fortes abalos de vez em quando, e com especialidade

na noute passada, que obrigaram a fugir, quasi nús, para o descampado,

com grande perigo de vida, n'uma estação tão rigorosa como esta, não só

os que haviam começado a habitar os aposentos inferiores dos predios,

que ainda se achavam de pé, mas aquella gente mesmo que se abrigára em

barracas. Entretanto o sr. Carvalho, que parece possuir a confiança

absoluta do rei seu amo, não descança um instante em dar todas as

providencias para que n'esta cidade de ruinas não escasseem os

mantimentos; para obrigar toda a classe de operarios que affluiram das

terras mais remotas do reino, a voltar ás differentes occupações, e para

pôr cobro aos muitos roubos, que inevitavelmente succedem em epochas de

tanta desordem como esta, principalmente em logar tão exposto como

este.»--Por muito tempo o susto e o terror se conservaram na desditosa

cidade, onde ainda em 16 de janeiro seguinte se sentiu um violento abalo.

A desgraça que ferira Portugal inspirou o mais vivo e caritativo

interesse a toda a Europa, e todos os governos nos mandaram offerecer os

seus bons auxilios. De Inglaterra mandou Jorge II 97:200 libras entre

generos e dinheiro. S. M. Catholica e S. M. Christianissima offereceram

soccorros de toda a especie que o ministro dispensou. O rei de Hespanha

que perdera no terremoto o seu embaixador, não desprezou meio algum para

fazer acceitar o seu auxilio ao governo portuguez, e para isso ordenou á

alfandega de Badajoz, que deixasse passar livre de direitos todos os

generos exportados para Portugal.

Luiz XV tambem foi em extremo delicado comnosco; e não quiz que o conde

de Bachiseu, embaixador em Lisboa, saisse d'aqui em crise tão dolorosa e

na qual, dizia o ministro Rouillé, era necessario patentear a S. M.

Fidelissima por meio da assiduidade e auxilios a parte que o rei de

França tomava nas desgraças que opprimiam Portugal. O rei D. José foi

bastante sensivel a todas estas provas de affeição dos seus alliados,

mas não acceitou as suas offertas. Quando Luiz XV ouviu dizer que se

acceitára o soccorro de Inglaterra encarregou o Embaixador de saber a

verdade, e eis a carta que este diplomata escreveu a Carvalho e Mello:

«_Ce n'est pas le dépit, dit-il, qui me fait demander s'il est vrai que

S. M. Très-Fidèle ait accepté les offres de S. M. Britannique mais

l'esperance que conserve S. M. Très-Christiènne que ses offres pourront

egalement être acceptées._»

Carvalho respondeu que:--«O rei seu amo teria acceitado reconhecido os

offerecimentos generosos dos seus alliados, se tivesse sido necessario,

que as perdas que Portugal acabava de experimentar eram grandes, mas que

em geral só atacavam o luxo. Que no futuro haveria em Lisboa menos

palacios, menos quadros, menos moveis ricos e que isso seria o meio de

fazer voltar a nação á sua antiga simplicidade. Que as terras seriam

agora mais bem agricultadas pelos fidalgos, que Deus seria adorado com

mais fervor nos seus templos despojados das pompas, e que a riqueza

publica se augmentaria, e as finanças melhorariam de situação.» Esta

resposta pareceria um pouco grosseira e vaidosa se nos não

lembrassemos de que a França tinha em vista alcançar em troca dos

seus beneficios a cessão do commercio do Brazil que receiava ver em

poder da Inglaterra. O ministro dos Negocios Estrangeiros em França, mr.

Rouillé, achou esta resposta digna de um philosopho e de um estadista

abalisado, ainda que convencido, dizia elle, de que os factos nunca

realisariam os desejos e previsões de Carvalho.

Se os auxilios de Jorge II foram acceites é porque a Inglaterra em vez

de fazer polidos offerecimentos, votou por unanimidade uma verba de cem

mil libras destinadas a trazer soccorros a Portugal, e em vez de lh'os

oferecerem, mandou-os directamente ao ministro.

Os serviços pois d'este ministro e grande estadista, iam já de foz-em-fora.

O facto é que os prejuisos eram enormes e diz-se que superiores a 7

milhões de libras, apezar de que muita cousa se foi desenterrando e

encontrando graças ás sabias e previdentes medidas tomadas por Pombal.

Das grandes riquezas suterradas na Patriarchal, foi achada a cruz de

prata, estimada em 30:000 libras. D'essas e de outras ruinas

desenterraram-se pelo tempo adiante, 1:500 arrobas de prata. O rei e sua

familia, estava no Paço de Belem, na occasião do terremoto, e felizmente

nada soffreram alem do grande susto, e a dôr de presensiar tanta

desgraça. Quando chegou o ministro para offerecer ao rei, as consolações

e serviços que pedia a situação, achou todos em lagrimas, e o rei

derigindo-se-lhe perguntou-lhe que julgava elle a proposito fazer-se

para minorar e attenuar tanta desventura?--«Meu Senhor, enterrar os

mortos, e cuidar dos vivos.» Foi a resposta concisa, que com toda a

serenidade deu o Marquez de Pombal, resposta que elle mostrou não ser

uma bravata oca, e que executou com extraordinaria energia. Desde então,

D. José que sempre tivera pelo seu ministro sympathia e consideração,

reconheceu n'elle um espirito previlegiado, e superior, e cencedeu-lhe

sempre inalteravel affecto, e até respeito. O ministro saiu de Belem,

correu a Lisboa e aqui partilhando todos os perigos e dando remedio a

tudo que o tinha, não se apeiava da sua sege, dia e noute, apparecia em

toda a parte, e a sua serenidade e coragem, a sua figura nobre e a sua

tranquilidade no meio de tanta tribulação, impunham o respeito e a

admiração, e incutiam animo aos que o observavam. Aonde fosse necessaria

a sua presença, lá estava; mesmo dentro da sua sege, expedia correios

com ordens para toda a parte, em menos tempo do que se emprega, em

elaborar um só decreto, lavrou elle mais de duzentas providencias, umas

para conservação da ordem, outras para a distribuição dos mantimentos,

para enterrar os mortos, para dar casa aos que vagueavam sem tecto,

outras para remover e tratar dos feridos e doentes, outras

finalmente para evitar a saida dos roubos para fóra da cidade onde

seria mais facil rehavelos, prohibindo a saida de qualquer que não fosse

portador de salvo-conducto. Eis as medidas mais notaveis e que na

conjunctura promulgou: A D. Rodrigo Antonio de Noronha.

«Sua Magestade é servido ordenar que V. S.ª mande armar as lanchas,

barcos ou escaleres, que parecerem necessarios, para rondar o rio de

Lisboa, visitando n'elles, todos quantos botes, lanchas, ou barcos,

sairem dos navios estrangeiros, ou para elles forem, por constar que

levam os impios e sacrilegos roubos, que se teem comettido em casas e

Igrejas: e como para ellas pode faltar gente militar, se pode V. S.ª

valer das Ordenanças, e Auxiliares; e da Tenencia que se acha aberta,

poderão ser vistidos com uniformes, e armados as que se embarcarem para

as ditas rondas. E para tudo o que a V. S.ª for preciso a este respeito,

tem ordem do mesmo _Senhor_, o Illmo. e Exmo. Sr. Marquez,

Estribeiro-mór. Aos commandantes das sobreditas rondas determinará V.

S.ª que embarguem todas quantas embarcações, encontrarem de noite no

rio, sem distinção, até amanhecer.

«Deus Guarde a V. S.ª Paço de Belem aos 4 de novembro de

1755.--_Sebastião José de Carvalho e Mello._

«P. S. A referida visita se estenderá tambem aos navios Portuguezes que

não forem de pessoas conhecidas e livres, de suspeitas.»

Outra para o Corregedor da comarca de Coimbra:

«Sendo presente a S. Magestade, que todos os creados de escada a baixo,

gallegos, e homens de trabalho, que serviam na côrte, e suas

visinhanças, tem desertado em tumulto, pela preoccupação, de que não

haverá dinheiro para se lhe pagar, e outros para transportarem os muitos

roubos, que teem feito com impiedade deshumana, abusando da calamidade

que tem ferido a capital do Reino. É servido o mesmo sr. ordenar, que V.

Mce. requerendo por este a todos os Ministros da Justica, e officiaes

dos Auxiliares, e Ordenanças, e communicando-lhe irrimissivel perda dos

seus postos, faça guardar as estradas, e barcas de passagem, de tal

sorte, que nenhuma pessoa de qualquer qualidade e condição que seja,

possa avançar o seu caminho e menos sair do reino, ou ainda d'entro

d'elle, passar de uma a outra provincia, sem levar _Passe_. E sendo

pessoa das profissões acima referidas, serão logo reconduzidas em levas

á sua propria custa, de Villa em Villa, até que sejam entregues n'esta

Côrte á ordem do Duque Regedor das Justiças. O que tudo V. Mce.

executará continua, e successivamente, até que eu o avise de que S.

Magestade revogou esta ordem.--5 de novembro, de 1755. Deus Guarde etc.»

N'esta conformidade se escreveram circulares a todos os Corregedores das

comarcas do reino.--Para o Marquez d'Abrantes:

«--Sua Magestade é servido que V. Ex.ª mande á ordem de D. Rodrigo A. de

Noronha as embarcações que elle pedir, e couberem no aperto do tempo,

para as visitas e transportes dos mantimentos que se acham a bordo dos

navios ancorados n'este Porto; cujas deligencias o mesmo _Senhor_ tem

encarregado ao cuidado do mesmo D. Rodrigo de Noronha.--aos 4 de

novembro de 1755--Deus Guarde a V. Ex.ª etc.--_Sebastião José de

Carvalho e Mello.»_

Dirigidas a D. Rodrigo ha muitos, uns, para lhe ordenar que vá a bordo

dos navios surtos no Tejo e apartar de todos os mantimentos encontrados

a bordo, os indespensaveis para as equipagens, _e fazer transportar e

pôr em arrecadação as restantes com as avaliações dos preços communs, e

ordinarios, que até então valiam. Outros, para que desse livre entrada

ás pescarias, aviso ao Marquez de Alegrete para exercer toda a

vigilancia e mandar fixar editaes para que os padeiros, tendeiros,

artifices e todos os homens de ganhar não podessem vender os seus

generos ou exigir preços superiores aos do mez de outubro antecedente,

isto sob penas gravissimas caso infringissem a lei de 4 de novembro;

aviso ao Duque Regedor ordenando-lhe que os ministros encarregados das

inspecções dos Bairros mandem ao Presidente do Senado da Camara, as

relações de todos os mantimentos, que descobrissem fosse onde fosse; 6

de novembro. Aviso ao Marquez Estribeiro-mór para pôr guardas aos

Erarios Reaes; 2 de novembro. Aviso ao Marquez de Tancos com ordem de

fazer passar á côrte, algumas tropas do Reino, para manter a ordem e

socego publico.--3 de novembro._

Aviso ao Marquez de Alegrete, _para fazer com que os ministros

encarregados da inspeção dos bairros mandassem as relações dos

mantimentos para as participar aos ministros encarregados de, no

Terreiro do Paço e na Ribeira as distribuir ao povo;--12 de novembro_.

Aviso ao Duque _sobre o parecer de recolher os doentes no Hospital

Real:--6 de novembro_.

Aviso ao Estribeiro-mór, _para fazer tirar das minas o corpo do

Embaixador de Hespanha;--7 de novembro_.

Ordem ao Duque Regedor, _para chamar á sua presença os ministros da

inspeção dos bairros, ordenando-lhe a prisão dos authores das

suggestões, com apparencia de profecias, espalhadas por alguns

malfeitores para aproveitarem o terror e cometterem livremente_

_roubos e crimes atrozes vendo a cidade desamparada de seus

moradores;--Não tem data_. Outra ordenando ao mesmo Duque _que empregue

nas obras da cidade os ciganos que a inquietavam_. Officio ao Patriarcha

_pedindo-lhe a necessaria authorisação para que os cadaveres fossem, com

todos os ritos da Igreja, levados em navios até fóra da Barra e alli

deitados ao mar com pesos, a fim de evitar pela decomposição dos mortos

uma ipedemia_. Mandou _tirar uma relação minuciosa dos officios e

rendimentos de toda a gente, empregando-se no desentulho e obras, todos

os que eram vagabundos ou vadios, dando-lhe salario e comer_. Estas não

são nem a decima parte das providencias tomadas pelo illustre ministro,

mas são as que dos tres volumes que aqui tenho, e que contem todas me

pareceram de maior interesse e menos longos. Parece impossivel como um

só homem poude pensar em tanta cousa. Todavia apesar d'estas e todas as

outras providencias com que o ministro procurou atacar e evitar os males

e as suas consequencias, o arrojo era tanto que os malfeitores com

licenciosidade inaudita não recuavam praticando á luz do dia toda a

casta de infamias e levando o roubo, a violação e o assassinio a toda a

parte onde podiam entrar, sendo necessario pôr guardas em todas as casas

que pela sua abastança, e importancia lhe podia servir de alvo. Foi em

consequencia d'este estado de cousas que o ministro fez proclamar a lei

de Lynch. Todo o delinquente apanhado em flagrante era preso, processado

e sentenciado no logar do crime e alli mesmo ficava enforcado para

servir de lição a quem quizesse imital-os. Esta medida energica e

indespensavel no calamitoso estado a que chegára a capital, pôz côbro

nos attentados e os moradores da cidade poderam então dormir socegados

confiando no vigilante cuidado de Carvalho e Mello.

Não eram só estes os negocios que absorviam a fecunda imaginação do

ministro de D. José; tinha que defender-se dos inimigos que tudo

aproveitavam para o atacar; tinha que defender as costas de Portugal,

dos corsarios argelinos, que pretendiam approveitar do terror e da

desordem que uma tal catastrophe espalhára e que não desperdiçavam,

todas as occasiões para desembarcar, espalhando tambem o roubo e o

terror. Em alguns dias, o ministro enterrara mortos, desenterrara vivos;

fizera encher os fossos abertos pelo tremor, enterrando n'elles muitos

cadaveres; mandára transportar os feridos e moribundos, para hospitaes

que fizera preparar em varios sitios da cidade; nada faltava n'estes

hospitaes provisorios; os medicos, os enfermeiros os remedios appareciam

como por encanto ao contacto da varinha magica da sua energia sublime.

No Paço, as princezas e suas criadas não descançavam em preparar

ataduras e fios.

Onde a caridade tanto tinha que fazer, nem todos os padres ficaram

inactivos; muitos d'elles puseram-se ao trabalho com um zelo

verdadeiramente evangelico; levavam aos hombros os mortos para os

cimiterios; conduziam nos braços os feridos para os hospitaes,

encommendavam uns, consolavam outros, e animavam os moribundos com

caridade christã. Foi assim que essa caridade se ligou ao zelo do

ministro activo e resoluto para attenuar tanta miseria. Mas infelizmente

tambem houve alguns que em vez de seguirem o salutar exemplo de seus

irmãos exercendo a sua nobre e caritativa missão, calcaram aos pés

deveres, verdade, humanidade, e fraternidade, e lembraram-se de subir ao

pulpito, a essa cadeira que só deve servir para prégar o amor e

caridade, e atacar o rei e o seu ministro accusando-os a ambos de

impiedade e incutindo no povo a persuasão de «que os peccados do rei e a

heresia do ministro, eram a causa do tremendo castigo que Deus

justamente irado fizera cair sobre o reino; que as desgraças de toda a

sorte não cessariam de sobrevir sobre seus desgraçados povos, em quanto

o rei não fizesse penitencia publica por seus muitos peccados.» A estes,

alcançou-os a justiça: foram perseguidos e severamente castigados pelo

intuito barbaro de quererem augmentar a má ventura da nação com

dissensões intestinas, assim como os outros haviam sido louvados e

premiados. Quanto mais o ministro redobrava de zelo e de actividade,

tantos mais males appareciam reclamando a sua intervenção. Conseguira

por meio de acertadissimas medidas evitar a peste; combateu a fome e

venceu esse inimigo esqualido e medonho; conseguiu libertar a cidade dos

ladrões que a infestavam todavia com quanto tivesse feito muito lhe

faltava ainda que fazer para terminar a sua obra, Lisboa desapparecera,

era necessario fazel-a renascer, como a phenix, das proprias cinzas. Foi

para este lado que se voltaram todas as faculdades da sua provada

intelligencia: fez lavrar um plano sob as suas idéas, corregiu-o, animou

as construcções que principiaram logo, facilitou essas edificações por

todos os meios; fixava prasos para se fazerem sob penna de expropriação:

deixou livre a importação de todos os materiaes necessarios; auxiliou

essas construcções por muitas consessões, garantias e privilegios, etc.,

que instigavam os constructures e capitalistas a empregarem o seu

dinheiro, e assim procurou auxiliar e conseguiu a reedificação da

desmantelada Lisboa.

O ministro de França em despacho, respondendo a pedido de informações

para o seu governo, com respeito ao terramoto e suas consequencias,

dizia: «que apesar de toda a boa vontade e grandes deligencias

empregadas por M. Carvalho, reputava impossivel a ressurreição de

Lisboa».

Tinham de levar um solemne desmentido, felizmente, as previsões do

Embaixador francez e Lisboa não só se ergueu do seu abatimento, mas

ainda ao erguer-se se apresentou muito melhor do que era antes, surgindo

mais formosa do que nunca fôra. Parecia que as chamas do incendio, e as

lagrimas de seus filhos a tinham purificado, embellezado e fecundado o

seu solo.

Para reedificar a capital eram indispensaveis sommas enormes; o ministro

não tardou em encontrar os meios de as obter; fez brotar nos negociantes

de Lisboa o pensamento de offerecer ao rei 4% sobre todas as

mercadorias, offerta que elle tratou de fazer acceitar ao monarcha,

lavrando logo o decreto de 2 de janeiro de 1756. Os consumidores é que

soffreram com este imposto muito mais que os negociantes; isto era um

verdadeiro imposto de consumo sobre os generos de primeira necessidade

mas sem que a maior parte désse por isso elle adquiriu os meios para

reidificar a cidade, infatigavel no seu zelo, e desejo de engrandecer a

nação que lhe fôra berço, Sebastião José de Carvalho depois de

neutralisar e remediar os males devidos ao tremor de terra, procurou

desenvolver os recursos que se podiam tirar do paiz; riquezas não

exploradas, e fontes de rendimento que até então tinham jazido na inercia.

A industria era tão nulla em Portugal como a agricultura, e todo o

empenho do grande ministro era erguel-as do seu abatimento. Seguiu para

a industria o exemplo do que fizera pela agricultura: o monopolio,

privilegios e favores de toda a casta foram os seus agentes. Estabeleceu

grande numero de fabricas ás quaes dispensou toda a sua protecção.

Promovendo a industria julgava poder conservar o ouro que nos vinha das

colonias e obrigar os inglezes a comprarem a dinheiro os nossos vinhos

que então eram trocados pelos seus artefactos. Nada deve admirar que o

ministro illudido pelas ideias geralmente seguidas n'essa epocha em que

se julgava que só o ouro era riqueza, procurasse conservar no paiz a

maior porção possivel d'esse metal. Elle não tinha á sua disposição

outros meios para conseguir desenvolver a industria, e se o decorrer dos

annos tem ensinado outros, n'aquelle tempo não lembraram nem eram

conhecidos, e o conde de Oeiras via-se a braços com mil difficuldades

que elle, só, tinha de applanar, com mil urgencias a que só o seu genio

poderoso podia obviar, e não podia por isso entregar-se a um estudo

unico aturado que o fizesse encontrar a solução de problemas que só

muito mais tarde se foram resolvendo. Muitas das industrias por elle

patrocinadas nem mesmo eram conhecidas no paiz; a educação industrial

não existia, e foi-lhe mister fazer vir alguns estrangeiros, para aqui

estabelecerem fabricas, que seriam uma escola para o povo que ellas

empregassem; e para attrahir aqui, abandonando os seus lares, esses

industriaes, era indispensavel offerecer-lhes interesses e protecção que

os animasse ao sacrificio. Fabricas de sedas, de vidros, de botões,

chapelarias, relojoarias, pannos, estamparias, serralharias, fundições,

varias tecelagens, etc., receberam concessões e subvenções, para se

desenvolverem e aclimatarem no paiz, foi tudo fructo da sua iniciativa e

patriotismo. Imitador de Colbert chegou a ultrapassar o seu modello, e

ninguem com justiça pode accusal-o, como o fazem alguns historiadores de

proteger o monopolio, por isso que lhe não sobravam meios para, sem

elle, conseguir o seu nobre empenho.

O desleixo dos governos occasionou a decadencia da industria,

agricultura e artes a que tinha chegado o paiz.

Muitos accusam os tractados estabelecidos entre a Inglaterra e Portugal

de ter causado essa decadencia, mas mudar-se-ha de opinião logo que se

analyse os resultados que d'esses tractados colheu a agricultura,

principalmente a dos vinhos, que deve aos contractos celebrados pelo

conde d'Oeiras com a Inglaterra, e á creação da Companhia do Alto Douro,

o seu progressivo desenvolvimento. Ha quem ataque rudemente essa medida

do previdente ministro, mas a meu vêr difficil seria na occasião lançar

mão do meio que desse tão proficuos resultados, e se a Inglaterra lucrou

muito com isso não fez mais do que approveitar a inepcia dos nossos

governos, o que poderia ter feito outra qualquer nação e em condições

talvez mais onerosas para nós, e não se obrigando, como elles, a

receberem os nossos productos e a comprarem-nos ou trocarem pelos nossos

vinhos, com exclusão dos de outra qualquer nação, os seus generos e

manufacturas. Apesar da rudeza e altivez com que o sabio ministro

respondeu por vezes ás exigencias do gabinete Britanico, quando sentia

da sua parte a rasão e a justiça nem por isso deixou de empregar todos

os esforços para conservar inalteraveis as relações affectuosas entre os

dois gabinetes. A verdadeira causa depois da decadencia do reino foi a

sua riqueza colonial, a imigração, a sêde do ouro, a falta de braços e a

inacção dos governos e não a Inglaterra em absoluto. Vejamos o que a

esse respeito diz o proprio Marquez:

--«As minas de ouro. Vêde qual é, ha sessenta annos a unica fonte das

riquezas de Portugal. Não é necessario ser politico, basta valer-se da

arithmetica, para mostrar, que um Estado, que inclina toda a sua

administração para as minas deve perecer necessariamente.»

--«Ouro e prata, são uma riqueza de ficção[2].» Já se vê que

a opinião do ministro de D. José baseada na sua muita sabedoria e

aturado estudo se inclinava a ver tambem n'essa grandeza o germen da

nossa decadencia, ainda que tambem fazia aos inglezes sérias e asperas

arguições.

Factos Notaveis da Historia Portugueza e Biographia do Marquez de Pombal · 第 2 / 5 段