Esse homem a quem tanto se deve, foi quem veio restabelecer

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FACTOS NOTAVEIS

DA

HISTORIA PORTUGUEZA

E

BIOGRAPHIA

DO

MARQUEZ DE POMBAL

POR

JOSEPHINA PINTO CARNEIRO PERESTRELLO

LISBOA

TYPOGRAPHIA DE CHRISTOVÃO AUGUSTO RODRIGUES

104--Rua do Norte--104

1882

A exma. sr.ª D. Josephina Pinto Carneiro Perestrello vae lançar-se na

turbulenta atmosphera da litteratura. S. ex.ª não se estreia com

assumptos banaes. O seu livro é fructo de profundos e aprimorados

estudos. Seduziu-a o grande vulto da actualidade: e s. ex.ª não se

contentou com a apotheose do marquez de Pombal... foi buscar a

justificação dos seus actos nas leis primitivas da monarchia; no

assentimento successivo das testas coroadas; e acompanha o illustre

ministro até ao momento em que, desprendido dos enormes cuidados da sua

vida laboriosissima adormece no duro leito da sepultura; e entra nos

dominios da inexoravel posteridade.

Que os anjos protectores das damas honestas e corajosas cubram com as

suas azas de ouro a intrepida escriptora é o que muito lhe deseja a sua

admiradora e amiga

Lisboa, 1 de maio de 1882.

Maria José da Silva Canuto.

Não é meu intento, nem teria forças para tão levantados vôos, escrever a

historia circunstanciada do grande vulto que se chamou Sebastião José de

Carvalho e Mello depois Conde de Oeiras e mais tarde Marquez de Pombal;

pretendo apenas com os elementos que nos legaram historiadores e

collectores de memorias da epocha, reduzir a breve transunto os traços

principaes da sua, notavel administração, concorrendo assim com uma

pequenina parte, porque pouco posso e sei, para remunerar, por occasião

do seu centenario, factos que teem em si ensinamento, e que podem servir

de estimolo e exemplo.

Procurarei esboçar o perfil d'esse personagem, que dentro em pouco se

tornará quasi legendario, pelo muito que valia, pelo muito que conseguiu

fazer, e porque n'um só homem se reuniu saber, energia, genio,

capacidade, e outros dons que dariam para muitos, mas que reunidas

n'elle foram um conjuncto benefico da prodigalidade divina, pois só um

tal colosso poderia arcar com todos os obstaculos que se lhe oppunham;

com todos os odios, todas as intrigas, todas as calamidades e

catastrophes. Só a energia inquebrantavel de um tal reformador poderia

levar a cabo a grande obra de regeneração, e progresso de que Portugal

foi theatro.

A Providencia amerceando-se d'este paiz que já tivera importancia,

insuflou-lhe no espirito todas as qualidades que fizeram d'elle um

estadista admirado, não só dos seus, mas ainda mais pelos estrangeiros.

Direi pois como diz mr. John Smith nas suas memorias do Marquez de

Pombal d'onde traduzirei e colherei muitos dos traços, com que aqui

procurarei dar ideia do seu caracter e feitos:--

[1] Such men are rised to station and command

When Providence means mercy to a land,

He speaks, and they appear: to Him they owe

Skill to direct, and strengh to strike the blow,

To manage with address to seize with power,

The crisis of a dark decisive hour.

Ainda referindo-se a elle diz o mesmo auctor a Sir Robert Peel--:

Refiro-me á coincidencia que se dá entre a vossa elevada posição, n'este

paiz (Inglaterra) e a que outr'ora occupou o grande ministro em Portugal.

Ambos foram em tempos criticos escolhidos para sustentar a honra e a

força de grandes nações; e de ambos se exigia o delicado discernimento e

a firmeza, que distinguiram o dito Marquez,--qualidades estas que lhe

grangearam a admiração e inteira confiança do seu paiz, etc.

Diz ainda o mesmo com referencia á expulsão dos jesuitas:--Se fosse

possivel anticipar aqui os promenores das _Memorias_ que se seguem, no

meio de todos os successos agitadores do ministerio d'aquelle estadista,

seria custoso descobrir uma medida que na sua concepção exigisse mais

coragem, ou que em seus resultados tivesse mais duravel importancia do

que a expulsão d'aquella seita de Portugal. Este primeiro passo a

principio causou admiração, mas depois foi successivamente imitado pelos

soberanos catholicos de toda a Europa.»--Portugal enfraquecido pelas

muitas guerras que havia sustentado dentro e fóra do paiz, não promettia

vir a ostentar mais a grandeza e prosperidade que fruira na epocha em

que os seus filhos sulcavam os--_mares nunca d'antes navegados_--epocha

em que floresceram os seus mais illustres navegadores, guerreiros,

valentes, insignes escriptores como o nosso immortal cantor dos

_Lusiadas_, poema epico, que alem do seu grande valor real, tem ainda o

merito da prioridade, pois foi o primeiro poema epico que se escreveu

depois do seculo de Augusto. N'essa epocha a que se chamou a _edade de

ouro_--, os portuguezes levavam a cabo emprezas como a de Vasco da Gama;

plantavam o pendão das quinas na Africa, na India, conseguiam

estabelecer-se na China, iam á Ethiopia, estendiam o dominio portuguez

na Asia desde Ormuz até Malaca etc. Não se satisfizeram porem com os

descobrimentos no Oriente e voltaram as suas vistas para o Occidente,

devassa Magalhães o estreito que ainda conserva o seu nome, porem morre

antes de terminar a empresa que se havia proposto. Foi de então para cá

que datam os descobrimentos na America e que Portugal se assenhorea de

vastos dominios n'esse continente, e assim se foi desenvolvendo e

accrescentando a prosperidade e engrandecimento da nação. Uma e outra

haviam sido preparadas e tido principio no reinado de D. João I mestre

de Aviz, rei illustradissimo e que deu á patria os mais brilhantes

principes.

Em 1415 é tomada Ceuta á força de armas; em 1418 descobre Gonçalves

Zarco a ilha de Porto Santo e no anno seguinte a Madeira, já sob os

auspicios do infante D. Henrique, em 1433 morreu D. João mas deixou em

seu filho D. Duarte digno sucessor.

Em 1444 é descoberto o archipelago dos Açores, e no anno immediato o de

Cabo Verde. Reinando já D. Affonso V, tomou este aos Mouros, Alcacer

Seguer, em 1458, treze annos depois, foram tomadas Arzila e Tanger.

Seguia-se o reinado de D. João II principe que alcançou o ser applidado

o _Perfeito_. Era illustrado, com a sua habil, ainda que por vezes

tenebrosa politica, soube abater todos os poderes que o offuscavam

conservando firme e superior a authoridade real.

Collisões terriveis obrigaram-n'o por vezes a lançar mão de meios

extremos, não vacilando em empregar o punhal para fazer justiça por suas

mãos. Foi no seu reinado que em 1482 Diogo d'Azambuja fundou o Castello

de S. Jorge de Mina na Guiné, e dois annos depois descobria Diogo Cão o

Congo e perto de trezentas leguas de costa. Em 1497 reinando já D.

Manuel, primo e herdeiro de D. João II, partia Vasco da Gama a procurar

a India Oriental chegando a Calecut com dez mezes de viagem. Em 1500,

descobre Alvares Cabral o Brazil.

Foi n'este reinado que o Ceu parecia derramar venturas sobre Portugal,

mas foi tambem n'essa epocha que se principiou a elaborar a decadencia

que se lhe seguiu.

A emigração para o Brazil tirava á mãe patria os seus filhos mais uteis,

e mais tarde a ambição do ouro fazia correr para as terras de Santa Cruz

todos que pela industria poderiam colaborar aqui no augmento e

conservação da prosperidade nacional. Alli um clima tão diverso do

nosso, muitas vezes a miseria, a fome, a nudez, consequencias de uma

guerra quasi continua com os indigenas e depois com as hordas de

holandezes, de piratas, de inglezes, de francezes, etc., que quizeram

successivamente despojar-nos, fez do Brazil um sorvedouro onde se

afundavam todos, ou quasi todos os portuguezes que abandonavam a

patria por esse _El-dorado_ que se lhe volvia em sudario. Todos esses

braços não bastavam para lá, que pela falta de exercitos, estavam esses

poucos sendo alvo de ataques e represalias, em que secumbiram, muitos

milhares e faziam falta na metropole.

Á agricultura faltavam braços para se desenvolver; a industria morria de

innanição.

Veio o reinado de D. João III, principe pussilanime enervado pelo

fanatismo e incapaz de corresponder ás exigencias, que aquella

conjunctura impunha ao inoperante.

Este monarcha arrastou o paiz á decadencia e ao abysmo.

Em vez de conquistas, estabeleceu a _Santa Inquisição_ com todos os seus

horrores. Seguia-se-lhe D. Sebastião que mal saía da infancia. Saturado

tambem de edeias falsas, guiado pelo debil braço de sua avó, era quasi

sempre surdo aos conselhos do seu aio e mestre D. Aleixo de Menezes, que

o desviava de entregar todos os poderes em mãos sagradas. Não soube

utilisar em proveito proprio, e no da patria, que n'elle fundava todas

as suas esperanças, as bellas e nobres aspirações que lhe ferviam na

mente. Foi impellido pelo enthusiasmo e pelo seu genio cavalleiroso para

as terras de Africa, com o nobre pensamento, de socorrer um rei

desthronado: mas a fatalidade que viera substituir as nossas passadas

venturas perseguiu o mallogrado mancebo e desditoso monarcha, que

derrotado na refrega de Alcacer Quibir, pereceu com a flor da nobresa de

Portugal e o seu exercito de desesseis mil homens, foi destruido e

desbaratado, deixando nas areas d'Africa o cadaver do rei, que não

poderam reconhecer. Esta calamidade trouxe a Portugal as maiores

complicações. Não havia herdeiro immediato e sete pretendentes se

desputaram a corôa portugueza, e depois de mil intrigas e confusões o

reino caiu em poder de Filippe II, que appoiava as sus pretenções com um

exercito de 36 mil homens. Invadiu Portugal, fazendo assim, ou por falta

de recursos, para se lhe opporem, ou por desanimo, com que os rivaes se

auzentassem, e o deixassem na posse da sua usurpação.

Ficou pois Portugal anexo á Hespanha, em 1580. Ainda assim esse tyrano

que foi appellidado--_O demonio do meio dia_--só logrou subjugar este

povo á custa de milhares de vidas.--A mortandade e a carnificina foram

horriveis. Diz o Conde da Ericeira no seu _Portugal Restaurado_ e

accrescenta «que o mar não querendo occultar tanto delicto, trazia os

corpos ás redes dos pescadores, e retiravam-se d'ellas os peixes

offendidos do insulto, recusando ser alimento de homens que mudando as

disposições de Deus, lhes queriam dar homens por alimento.»

Esta indignação dos peixes durou tanto tempo, que, segundo diz o mesmo

historiador, «foi necessario ir a rogos dos pescadores, o Arcebispo de

Lisboa, em procissão benzer o mar profanado por tantos sacrilegios, para

que elle (como succedeu) tornasse a dar o seu tributo.»

A grande importancia a que Portugal se elevara entre as nações da

Europa, não tardou em diminuir. O seu brilho declinou, em consequencia

de torpe governo de Madrid, mas nem só a sua influencia e riqueza, mas o

seu poder maritimo e colonial, porque as nossas esquadras se perderam

nas costas d'inglaterra, fazendo parte da invensivel armada, e as

melhores das nossas colonias foram atacadas e tomadas pela mesma

Inglaterra e pela Holanda com quem a Hespanha estava em guerra.

O imperio que os portuguezes haviam adquirido na Asia, desapparecia. A

perneciosa influencia de Castella sobre o nosso paiz, n'esses

desgraçados sessenta annos, ainda hoje se sente, e veio cimentar entre

os povos nascidos para serem irmãos, odios que uma desconfiança

constante não deixa apagar. Desconfiança justificada pelo desejo dos

hespanhoes de conseguirem a anexação! esperança que é n'elles uma utopia

inveterada. A fusão das duas nações é repugnante. Opõe-se a ella o amor

inabalavel, que os portuguezes, teem pela sua liberdade e a memoria, que

nunca se apagará das atrocidades soffridas, n'esses terriveis annos de

escravidão; e mais ainda o caracter e indole dos dois povos, que são

completamente oppostas, e que só podem amar-se em quanto durar o

respeito pelos direitos de cada um. Muito se amam entre si, os bons

irmãos; mas cada um governa em sua casa, e ai do amor, se um d'elles, se

lembra de querer governar a do outro.

Era então n'essa epocha em a nossa capital que se concentrava o

monopolio de todo o commercio do Oriente. Aqui se reunia gente de toda a

parte do mundo para o trafico dos productos da Asia. A posição

geographica de Lisboa tornava-a por assim dizer o logar de _rendez-vous_

de todos os estrangeiros curiosos ou commerciantes. Rebentou a guerra da

Hespanha com Hollanda e em consequencia d'ella os hespanhoes expulsaram

d'aqui os hollandezes que em represalia se assenhorearam de algumas das

mais bellas joias da corôa portugueza, avultando entre ellas Ceylão e

Malaca que nunca nos foram restituidas.

A Hespanha principiou então a colher os fructos que semeára. A medida

impolitica e barbara da expulsão dos moiros da Hespanha, condescendencia

do duque de Lerma com os padres, e do rei com o seu ministro

omnipotente, foi-lhe tão fatal como a de D. Manoel de Portugal com a

expulsão dos judeus, mas bem mais tragica. Esse erro politico

cavou-lhe a ruina e preparou-lhe a decadencia, fazendo desconhecer a

Hespanha a quem a comparasse á do tempo de Carlos V. Como nós a Hespanha

tivera tambem um passado gloriosissimo.

N'esses tempos seus filhos pensavam mais no engrandecimento e prestigio

do seu nome, do que em subjugar um povo que pelo seu valor e energia,

pelo muito que tinha feito conquistára o direito de ser respeitado e de

conservar a independencia que sempre soubéra manter.

Como nós, que possuimos Alvares Cabral, Gama e outros, a Hespanha tivera

um Colombo, Cortez e tantos mais. Como nós tivera no Cid Campeador o seu

D. Nuno Alvares Pereira.

Em ambas as nações houve illustres navegadores, valentes guerreiros,

habeis politicos, poetas sublimes, prosadores e dramaturgos

universalmente conhecidos. No seculo XV eram consagrados os nomes de F.

del Pulgar, e Juan de Mena, nós vimos florescer Gil Vicente que morreu

no seculo seguinte no qual avultaram os nomes de Lucena, Bernardes,

Camões, Osorio, Damião de Goes, João de Barros, Sá de Miranda e

Bernardino Ribeiro; a Hespanha não teve que invejar-nos porque viu

brilhar os de Carcilaso, Luiz de Leon, Luiz de Granada, Marianna, Santa

Thereza, Cervantes, Gongora, Juan de la Cruz, Lope de Vega e Quevedo. No

seculo XVII tiveram Calderon de la Barca, Moncada e Solis, e nós vimos

surgir os brilhantes talentos de Fr. Luiz de Sousa, Padre Antonio

Vieira, Sousa de Macedo, Freire de Andrade, Manuel de Mello e varios.

São pois irmãos os dois povos da Peninsula, a Hespanha deve ser a nossa

alliada natural, mas é mister que se conserve intacta a individualidade

nacional de ambas as nações.

O affecto fraternal que deve unir os dois povos, só pode ser verdadeiro

e duradoiro em quanto durar o respeito reciproco pelos direitos de cada

um. Dotados ambos de grandes qualidades a indole dos hespanhoes é

inteiramente diversa da dos portuguezes. As suas tendencias, gostos,

habitos, etc., são outros e por conseguinte impossivel a sonhada e

appetecida união. D. Filippe porém, aproveitando a decadencia a que

tantas catastrophes haviam levado o reino, accentuou o seu direito por

meio da força e de atrocidade em atrocidade elle, e depois os seus

successores opprimiram este pobre povo, até que ao fim de sessenta annos

um punhado de heroes, sem effusão de sangue, sem ferir batalha fez

baquear o odioso dominio de Castella libertando a patria tanto tempo

agrilhoada. Os nomes de Pinto Ribeiro, Castros, Mellos, Almeidas

Athaydes, Telles, Almadas Cunhas, Silvas e outros serão sempre de

gloriosa recordação, e de salutar exemplo.

Parecia que devia renascer com a acclamação de D. João IV a grandeza e

prosperidade da nação, mas foi fogo fatuo que breve se extinguiu. O rei

tornou-se timorato e a rainha pouco podia, apesar da sua energica

vontade. Além d'isso o Conde-duque de Olivares combateu por espaço de

vinte e quatro annos propugnando os portuguezes com heroismo para manter

a sua independencia nas fronteiras e para neutralisar as insidias de

Hespanha junto do rei. Por varias vezes habeis conspirações estiveram a

ponto de inutilisar a prodigiosa victoria dos quarenta bravos conjurados

que appoiados no patriotismo do povo haviam conseguido sacudir o jugo

castelhano.

Muitas tentativas contra a vida do rei foram descobertas. Isto tornava o

rei cada vez mais fraco de animo, e entregou-se inteiramente aos

conselheiros que nem sempre foram o que deviam á patria, ao rei e a si

proprios.

Em 1643 romperam-se definitivamente as hostilidades, que só terminaram

em 1665.

Mathias de Albuquerque desbaratou o exercito sob o commando do barão de

Malingen, general da Estremadura hespanhola; todavia as campanhas que

asseguraram e firmaram a independencia do reino, foram já dadas no

reinado de D. Affonso VI. A batalha das linhas d'Elvas foi ganha pelo

conde de Cantanhede em 1659. O conde de Villa Flor desbaratou no

Ameixial o Archiduque d'Austria, o famigerado D. João d'Austria em 1663.

Em Castello Rodrigo venceu Pedro Jacques de Magalhães em 1664. No anno

seguinte é refreiada totalmente a ardente furia dos hespanhoes, na

batalha de Montes-Claros, ficando prisioneiros do Marquez de Marialva

seis mil hespanhoes. De então para cá, a posse de Portugal tem sido

apenas o sonho de todo o utopista hespanhol, porem a gente de bom senso

reconhece o absurdo da ideia, e pensa com rasão que se n'essa epocha lhe

foi impossivel sustentarem o seu dominio estando Portugal inteiramente

falto de recursos, sangrado pelas continuas guerras tanto aqui como no

Brazil, hoje que dispõe de mais braços e mais elementos de resistencia,

não seria empresa facil. Essa regeneração teve principio nas medidas do

Marquez de Pombal.

Pela morte de D. João IV, Portugal não mudára muito. D. Affonso VI foi

desthronado e morreu preso no Paço de Cintra e sua mulher foi

authorisada a casar com seu cunhado D. Pedro II pelo clero que foi

chamado a representar n'esta escandalosa intriga, que só por si dá a

medida do grau de desmoralisação a que havia chegado tudo n'este

malfadado paiz.

Reuniram-se cortes para legalisar este attentado e fecharam-se para não

tornarem a abrir-se.

O reinado de D. Pedro foi curto e triste. Seguiu-se o reinado faustoso

de D. João V, e este poz cumulo á depravação dos costumes e vicios dos

grandes, cavando assim a decadencia do reino.

O povo soffria toda a sorte de vexames dos nobres que praticavam toda a

casta de violencia e infamia acobertadas pela impunidade que lhe era

concedida.

O rei, ou fosse em espiação de suas culpas ou porque o seu genio

gastador a isso o impedia, D. João V, querendo imitar Luiz XIV gastou

rios de dinheiro na edificação do Convento de Mafra, na Capella de S.

João Baptista e em muitas restaurações de templos; a creação de uma

patriarchal com os seus conegos beneficiados e principaes imitando o

sacro collegio, levou para Roma muitos milhões. N'estas grandezas e

esbanjamentos se sotterraram os productos das uberrimas minas que o

Brazil continha no seu seio e que a industria mineira e o suor do

escravo traziam á superficie da terra. Penalisa ver que tanto dinheiro,

tanto trabalho, e tanta magnificencia não fossem empregadas em coisas de

maior utilidade para o paiz. Ao passo que nos faltavam vias de

communicação para o commercio interior, que não tinhamos fabricas, nem

marinha, de guerra ou mercante, nem exercitos, gastavam-se sommas

fabulosas em edificar um convento pelo theor da basilica de S. Pedro em

Roma, n'uma mesquinha povoação!... Se terminada a obra, vinha d'ella

proveito para a nação, foi coisa que parece não ter preoccupado o

monarcha. Bastava-lhe que fosse lisongeado pelos seus aduladores, que

lhe encareciam a sua piedade. O edificio tem alem do convento e egreja

um palacio soberbo. Tudo foi feito com magnificencia regia; a arte

revela-se em alto grau, e por todos os lados ha que admirar a cooperação

dos melhores artistas que se mandaram vir da Italia.

É grande, é imponente, é sumptuoso e magnifico, mas é triste, sombrio e

pezado. Fui lá uma vez, admirei-o muito, mas quando sahi respirei de

alivio por que me parecia que toda aquella mole de pedra me cahia em

cima e me esmagava com toda a sua grandeza. Impressionou-me bastante, e

vel-o-ia ainda com gosto, se bem que estou certa que me faria a mesma

impressão que me produziu ha vinte annos, apezar de já não ser a creança

que era então. O outro monumento da sua prodigalidade, a capella de S.

João Baptista na egreja de S. Roque, é uma verdadeira joia que não tem

rival no genero, attendendo ao seu tamanho. Tem uns desesete palmos de

comprido por doze de largo; é toda feita de _lapis-lazull_, porphyro,

agatha, amethystas, alabastro, crysolithas, prata e ouro. Diz m. John

Smith que custou 225:000 libras, mas, já tenho visto, não sei onde,

estimar a sua importancia em bem mais elevados algarismos.

A concessão da Curia romana para empregar os thesouros do paiz como

o julgasse conveniente, custou tambem grossas quantias. Seguia-se a

creação de uma dignidade ecclesiastica com o titulo de Patriarcha da

qual depende o collegio sacro formado de vinte e quatro prelados. Para

tornar mais notavel a similhança d'esta corporação com a de Roma, os

paramentos do Patriarcha em dias festivos eram eguaes aos do Papa, e as

dos prelados como as dos Cardeaes. As festas e cerimonias religiosas,

não eram eguaes, mas sim superiores ás de Roma. «Mais de cem clerigos,

diz m. Smith, subsidiarios a quem com profusão se davam honras e

dignidades occupavam logares subordinados a esta nova instituição. Uma

escala infinita de logares inferiores augmentou o pessoal do

Patriarchado a ponto de ser impossivel dizer-se qual a condicção em que

se sumia o ultimo d'esta legião clerical! Esta louca vaidade custou mais

de oitenta mil libras afóra as pasmosas quantias que se despenderam

antes de conseguirem a licença para a incorporação do estabelecimento.

Foi desde então que D. João V alcançou para os reis de Portugal o titulo

de _Fidelissimo_.»

Uma obra porém de grande merito, de reconhecida utilidade, e de grandeza

sem igual foi a que se principiou e concluiu n'este mesmo reinado de

esbanjamentos e desperdicios; só ella confere um titulo de gloria ao rei

que a ordenou e fez levar a cabo. Refiro-me ao aqueducto das aguas

livres de Lisboa, que percorre duas leguas ora subterraneo, ora

elevando-se sobre arcos. Por cima do valle de Alcantara corre sobre

trinta e cinco arcos, sendo a altura do maior 264 pés, e a sua largura

na base de 280. Dois canaes trazem a agua das nascentes, deixando entre

ambos espaço e altura para caminhar de pé. D. João V não morreu sem que

expiasse por espaço de nove annos n'um triste estado de imbecilidade os

passados extravios, e deixou a nação sobrecarregada com uma divida de

mais de tres milhões de libras e o thesouro completamente exaurido. Seu

filho D. José vivera sempre muito arredado dos actos do governo; contava

então 37 annos, e muita gente o retracta de acanhada intelligencia,

irresoluto, timido, fraco e cruel. Nada o comprova, antes maravilha a

firmesa com que sustentou no poder o seu ministro, a despeito da sua

mesma familia, de toda a nobresa e de um clero opulento e dominador,

unico homem capaz de dominar a triste situação em que tantos desvarios

nos lançaram.

Por morte de D. João V não ficara a Portugal nenhum elemento de que se

julgasse dever sair a sua regeneração. Tudo parecia impellir o reino a

uma aniquilação inevitavel, mas foi n'essa occasião que surgiu um

regenerador, um genio benefico, forte, energico, e sabio, que levara os

primeiros annos da sua vida estudando os males e as causas d'elles e

procurando os remedios na sua fecunda imaginação. Foi elle que com

poder quasi sobrehumano veio, inspirado e inviado da Providencia para

desmascarar hypocrisias, para salvar mesmo a religião de todas as

atrocidades que em nome de um Deus todo bondade e misericordia se

praticava impunemente, para destruir esse poder execrando do horrivel

tribunal da Inquisição, do chamado _Santo Officio_, que sequestrava á

sociedade milhares de victimas innocentes, ou culpadas de um crime que a

sã rasão mostra não o ser.

Esse homem a quem tanto se deve, foi quem veio restabelecer a verdadeira

religião, porque é a de Christo, a religião de perdão, caridade, amor e

fraternidade, purgando-a quanto possivel dos abusos que em seu nome se

praticavam; foi elle quem veio introduzir no paiz novos estudos, quem

estendeu o pão do espirito a todas as classes da sociedade creando

escolas, quem promoveu as industrias, sciencias, litteratura, quem veio

animar e desenvolver o commercio e as artes, revindicar o respeito e o

renome ao seu paiz; reanimar o genio, acabar com os abusos dos nobres

dando mesmo terriveis mas salutares exemplos na nobreza, castigando o

crime onde era praticado, fosse plebeu ou nobre, como o fizera tambem

Richelieu, seu modelo, nas pessoas de Marillac e Montmarency, foi emfim

elle que, ora com benevolencia, ora com severidade, ergueu a patria do

abysmo onde filhos degenerados a haviam lançado.

Sebastião José de Carvalho e Mello nascera na capital aos 13 maio de

1699; filho de Manuel de Carvalho e Athayde e de sua mulher D. Thereza

de Mendonça. Seu pae era um cavalleiro de pequinissima fortuna, mas que

vivia independente e pertencia á cathegoria distincta pelo titulo de

fidalgo da provincia. Esta qualidade dava-lhe direito a muitos

privilegios da nobreza, ainda que não considerado grande do reino ao que

só dava direito os titulos de conde, marquez ou duque. Sebastião José de

Carvalho juntou o appelido de Mello; que lhe vinha de seu avô materno,

João de Almeida e Mello; costume muito seguido então, principalmente

quando, como este, vinham de illustre ascendencia. Tinha mais dois

irmãos; Francisco Xavier de Mendonça e Paulo de Carvalho e Mendonça.

Sebastião José de Carvalho entrou na universidade de Coimbra, mas

aquelle regimen pouco lhe agradou; e menos a forma porque alli se

ministrava então o ensino sobre modo differente para uma intelligencia

previligiada como a sua. Descontente deixou os bancos da Universidade

para assentar praça em cadete, a que lhe dava direito a sua nobreza, e

pouco depois fizeram-n'o cabo. Não passou d'esse posto; e elle

desgostoso deixou a cazerna como deixára Coimbra. Viu-se outra vez sem

occupação, o seu genio activo e investigador lançou-o em estudos sobre

economia politica, historia universal, legislação e todos os ramos

em que mais tarde o seu genio sublime devia manifestar-se. Veio então a

Lisboa, chamado por um tio que muito o recommendava ao Cardeal da Motta,

ministro omnipotente n'essa epocha. O Cardeal, homem esclarecido, viu

logo o partido que se podia tirar de tão notavel aptidão e apresentou-o

ao rei, que o tratou como a quem vinha tão bem recommendado. O rei

admirou o talento e variada illustração que em tão verdes annos se

manifestava no mancebo, e pouco depois em 1733 nomeou-o membro da

Academia Real de Historia com a mira em que elle lhe escrevesse a

historia de varios monarchas, cujos reinados fossem mais dignos de tão

habil historiador. Negocios porem importantes e que reclamavam immediato

desempenho, não permittiram que satisfizesse o encargo com que o rei o

distinguira; as vistas da côrte estavam fixas n'elle, o rei distinguia-o

e protegia-o e conseguio attrahir a attenção de uma joven viuva D.

Thereza de Noronha senhora de muitas virtudes e de illustre nascimento

que era sobrinha do Conde dos Arcos. Parece porem que este enlace foi

combatido, e que a despeito de seus merecimentos e da protecção regia,

não foi sem custo que logrou fazer emmudecer os que desaprovavam a

desejada alliança, sob pretexto de quem não tivera nos seus ascendentes

grandes do reino, embora fosse de illustre nascimento. Já então deveu á

sua energia o conseguir a realisação dos mais ardentes votos do seu

coração. Depois as suas ambições voltaram-se para alcançar emprego em que

bem servindo a patria conseguisse posição brilhante, e na qual

utilizasse as suas faculdades e aptidões. O acaso serviu-o a seu

contento com a necessidade que obrigou o rei a mandal-o a Londres como

embaixador. Foi então que se principiou a manifestar a todos a vastidão

dos seus recursos intelectuaes e o muito que havia a esperar de tão

acrisolado amor da patria e de tão grande genio. Todo o tempo que

desempenhou em Londres o cargo de representante de Portugal não cessou

de velar pelos interesses que lhe estavam confiados, alcançando muitos

privilegios para os portuguezes alli residentes, fazendo desapparecer

todos os vexames que antes soffriam, conseguiu para o seu governo o

direito de prender e castigar os delinquentes inglezes em territorio

portuguez, tendo elles de subjeitar-se ás nossas leis. Quando um seu

medico foi preso por um collector, apesar do Acto do Parlamento de 1709,

que prohibia o prender-se nenhum embaixador ou pessoa ao seu serviço,

fez com que lhe fosse dada satisfação d'um insulto feito a um seu

empregado, affirmando assim os direitos que os outros pretendiam

desconhecer, e fazendo respeitar a nação que representava e definindo os

previlegios dos ministros estrangeiros.

Conseguiu para os portuguezes residentes em Londres a reciprocidade na

isenção de impostos.

Em 1739 reclamou queixando-se da penhora feita em generos que pertenciam

a Bento de Magalhães, negociante portuguez, como violação dos tractados

existentes entre as duas nações, tractados que davam tambem aos inglezes

aqui residentes as mesmas regallias. O duque de Newcastle em 20 de

novembro respondeu o que se segue: Sua Magestade Britanica sendo

informado de que os vassallos de S. M. Fidelissima que residem em

Inglaterra teem sido sobrecarregados e obrigados ao pagamento de

impostos publicos e parochiaes, que foram lançados por Acto do

Parlamento a todos os habitantes indistinctamente; ordenou-me que vos

participasse, ainda que em virtude da natureza e forma do nosso governo,

não cabe na alçada do rei isentar ninguem em particular do pagamento dos

impostos lançados por Acto Parlamentar, não só seria nova, mas sujeita a

grande debate e inconveniencia: comtudo, para dar a S. M. Fidellissima

uma prova da amizade e consideração em que a tem S. M. Britanica, e para

que os subditos de Portugal que residem em Inglaterra fiquem descançados

de que não serão incommodados por causa de quasquer impostos parrochiaes

ou outros que, em virtude de Acto Parlamentar, sejam pagos pelos

habitantes em geral, faz saber que todos esses impostos lhes ficarão

descarregados, sem que por causa d'elles soffram multas ou penas

algumas. Mais tarde por occasião de ser queimada nas aguas do Algarve

pelos inglezes uma esquadra franceza, escreve elle a lord Chatam

pedindo-lhe satisfação, as seguintes cartas:

«Eu sei que o vosso Gabinete tem tomado um imperio immenso sobre o

nosso: mas tambem sei que é tempo de acabar com elle. Se meus

predecessores tiveram a fraqueza de vos conceder tudo que quizestes, eu

nunca vos concederei senão o que vos devo. É esta a minha ultima

resolução: regulae-vos por ella.»__

_Conde de Oeiras._

A segunda é como se segue:

«Eu rogo a V. Ex.ª que me não faça lembrar das condescendencias que o

governo Portuguez ha tido com o governo Britanico, ellas são taes, que

não sei que potencia alguma as haja tido similhantes com outra. Era

justo que essa authoridade acabasse alguma vez, e que se fizesse saber á

Europa que tinhamos sacudido um jugo estrangeiro. Não o podemos melhor

provar do que pedindo ao vosso governo uma satisfação que por nenhum

direito nos deve negar. A França nos consideraria no estado de maior

fraqueza se lhe não dessemos alguma razão do estrago que soffreu a sua

esquadra em as nossas costas maritimas, onde por todos os principios se

devia julgar em segurança.»

_Conde de Oeiras._

A terceira carta é tão longa que me não resolvo a copial-a toda, basta

dizer que em resultado de todas as rasões e justas arguições que

terminam assim:

«A satisfação que vos peço é conforme com o direito das gentes. Succede

todos os dias que os officiaes de mar, e terra façam por zelo ou por

ignorancia o que não deviam fazer, é portanto a nós que nos pertence o

puni-los, e fazer emendar e remediar os damnos que elles teem causado.

Nem se deve julgar que estas reparações fiquem mal ao estado que as faz:

ao contrario, sempre é bem mais estimada aquella nação que de boamente

se presta a fazer o que é justo.

«Da bôa opinião dependeu sempre a força das Nações.»

_Conde de Oeiras._

O rei de Inglaterra mandou um Embaixador extraordinario a Lisboa dar as

satisfações pedidas.

Foi tambem Pombal que alcançou pela sua habil diplomacia que os

ministros estrangeiros em Londres podessem importar todos os moveis,

roupas, vinhos etc. sem pagamento de direitos. Durante a sua estada em

Londres estudou constantemente e foi alli que bebeu a longos tragos,

essa sciencia que devia fazer d'elle um modelo. Sully, Colbert e

Richelieu foram as suas fontes e com elles se identificou sendo Sully o

principal objecto, segundo diz mr. Smith, da sua veneração e estudo,

podendo os maiores enthusiastas d'esse grande vulto comparal-o sem

receio ao seu prototypo. Em 1745 voltou Pombal á patria, parece que a

seu pedido, em consequencia do edito promulgado contra os papistas.

Voltando a Portugal não teve logo em que occupar a sua actividade e

voltou as suas vistas pava os abusos que via praticar por toda a parte;

estudou-lhe as causas e foi amadurecendo os seus projectos de futuro,

para destruir o mal que reinava em todos os ramos de administração

publica. Comprehendeu que só medidas sabia e prudentemente empregadas

poderiam levantar a nação da decadencia em que caira; que a falta não

vinha dos povos mas do governo, que só instruindo e não corrompendo,

ensinando e não conservando na inercia e derigindo o povo para a

regeneração pela instrucção e pelo trabalho, poderia conseguir

erguer o reino á grandesa que ambicionava. Era pois myster dar trabalho

a todas as classes, occupar os braços e o espirito do povo, dando a cada

um a protecção a que tinha direito dando assim ao governo cidadãos uteis.

O paiz estava devastado pelos ladrões, as leis eram lettra morta, a

prepotencia espalhada por toda a parte, o povo desmoralisado, o

commercio e a industria aniquilados.

Quando estava absorvido por todas estas idéas, suscitou-se entre

Benedicto XIV e a imperatriz Maria Thereza, senhora tão celebre pelas

suas virtudes como pela variedade da instrucção que lhe adornava o

espirito, uma desintelligencia a respeito da extincção do patriarchado

da Aquileia, desintelligencia que promettia serias consequencias como

quasi todas as que tem havido com a Santa Sé, por tenderem quasi sempre,

não só a separarem-se da egreja, mas ao aniquilamento da fé catholica. A

imperatriz confiava na capacidade de Pombal, e só da sua probidade, são

juizo e penetração, esperava uma solução digna, equitativa e justa.

Conhecida a sua competencia e provavelmente a pedido da imperatriz que

conhecia a sua capacidade, foi Pombal enviado a Vienna como embaixador,

onde conseguiu arranjar tudo a contento de todos, firmando-se na

justiça, equidade e justos direitos de cada um.

Uma carta encontrada em Paris, no archivo da secretaria dos negocios

estrangeiros, dá a medida do apreço em que eram tidas pelos diplomatas

estranhos as eminentes qualidades do illustre estadista; apreciação que

não póde deixar de ser imparcial e justa por que a elevada posição

official do Embaixador em Vienna lhe dava mil occasiões de estar em

contacto com o Marquez de Pombal; transcrevo pois na integra o alludido

documento alli encontrado com o titulo de: _Correspondencias d'Austria,

n.º 244 despacho de M. Blondel, ministro de França em Vienna, dirigido

ao governo austriaco e datado de 10 de janeiro de 1750._--«M. Carvalho

foi por muito tempo Embaixador de Portugal em Londres, d'onde o rei seu

amo o fez sair para o collocar aqui, no intento de que empregasse a sua

influencia para restabelecer a harmonia entre esta côrte e a de Roma. O

ministro foi egualmente encarregado de fazer readquirir ao eleitor de

Mayence as boas graças e a affeição do Papa.

«N'estes dois negocios deu elle provas da sua habilidade, da sua

sabedoria, integridade, moderação e sobretudo de muita paciencia, e

alcançou não só a benevolencia de todos os interessados, mas tambem a de

todos os ministros estrangeiros, e das pessoas de consideração de Vienna.

«M. Carvalho é nobre em tudo, sem ostestação, cordato e prudente;

replecto de principios e sentimentos de honra, não visa senão ao bem

geral; e eu sei que não foi por culpa d'elle que a imperatriz não chegou

mais cedo a sentimentos pacificos. É tão bom cidadão como homem probo, e

a sua partida foi sentida tanto pela côrte como pela cidade. Tem

approximadamente de cincoenta a cincoenta e cinco annos e casou em

Vienna com a filha do General Daun.» Esta é a traducção do despacho

francez, documento insuspeito de parcialidade, por isso que os francezes

não são prodigos de louvores para os estranhos.

Veio pois em 1750 para Lisboa, pouco antes da morte de D. João V. Logo

que subiu ao throno D. José I, Pombal tomou posse da pasta que já lhe

fôra destinada, principiando então a tomar parte no governo com o saber

e energia que só um athleta privilegiado poderia desinvolver. A

restricção dos poderes da Inquisição, o desapparecimento dos ladrões que

infestavam as ruas da capital, a organização interna do servico do paço,

que era uma especie de pinhal D'Azambuja, onde todos roubavam, reduzindo

os empregados de oitenta a vinte, fiscalisando os gastos da ucharia,

descendo a todas as minucias e occupando-se de tudo com egual proficiencia.

Desde que conseguiu organisar a administração interna do reino voltou as

suas vistas para as possessões de Além-mar, onde tudo chegára á ultima

miseria.

Para ligar os interesses dos colonos aos dos indigenas, prohibiu a vinda

das donzellas ricas do Brazil, que para aqui vinham encerrar-se nos

conventos, prejudicando assim o augmento da população; e promoveu

cazamentos com os mancebos do paiz, por meio de dotes e augmento de

interesses de varias especies; promoveu o commercio com a Asia e

particularmente com a China, e aconselhou ao rei a humanitaria medida da

emancipação dos indios das provincias do Pará e Maranhão, tornando-os

livres, subtrahindo-os á exploração dos colonos europeus, e buscando os

meios de os civilisar. Os negros de Africa não obtiveram o mesmo

beneficio, pelo seu abatimento e conveniencias politicas que por então o

impediram. Como já disse, aos portuguezes que casavam com donzellas

indigenas eram concedidas certas franquias. Em seguida ao decreto que

emancipava os indios, assignou o rei outro, fundindo as duas companhias

Maranhão e Grão Pará. Esta medida veio dar novo incremento á classe do

commercio entre Portugal e as colonias da America, tomando estas um novo

aspecto.

A aristocracia tremia de raiva vendo coartarem-lhe a preponderancia de

donatarios: o os jezuitas previam que os seus excessos tinham encontrado

um moderador que lhe refreiasse as demasias. Colligavam-se e conspiravam

com a nobreza vendo n'isto o unico meio de combater o seu commum

inimigo; mas Sebastião José de Carvalho formára os seus projectos

que seguiu sempre com tenacidade indomavel e soube de tal modo captar a

confiança de D. José, que este surdo a todas as insinuações disfarçadas

e a todas as invectivas francas, continuou a sustentar e seu ministro

que em breve tinha de prestar-lhe ainda maiores serviços. No primeiro de

novembro de 1755 soffreu Lisboa o horrivel cataclismo do terramoto. A

capital ficou quasi destruida e, a sua população, parte ficou morta,

outra ferida, e a restante aterrada pela espantosa catastrophe. O mal,

já de si grande, não veio só. Seguiu-o o triste cortejo das suas

inevitaveis consequencias; no meio, porém, de tão grandes horrores, o

Marquez de Pombal impassivel e inalteravel, multiplicava-se, por assim

dizer, apparecendo em toda a parte onde a sua presença fosse necessaria,

soccorrendo por todos os meios possiveis as victimas e prestando auxilio

com disvellada sollicitude. Os decretos, as ordens e as providencias

succediam-se sem interrupção, e todas patenteavam exuberantemente a

aptidão d'esse homem a quem nenhuma desgraça conseguia aterrar, a quem,

por maior que fosse o mal, não faltava a lucidez do espirito para lhe

encontrar o remedio. A catastrophe teve logar ás 9 horas e alguns

minutos da manhã: o dia apparecera risonho e sereno; nunca o ceu se

mostrara tão limpo de nuvens, nunca o Tejo ostentára mais transparentes

as suas aguas que nem uma leve aragem o agitava; a natureza parecia

repousar; tudo respirava socego e confiança; tudo parecia prometter

segurança e tranquilidade. Bastaram porém alguns minutos para

transformar em desesperação, horror, miseria e espanto esse risonho

quadro! Parecia que todas as furias do inferno haviam conseguido

escapar-se e se tinham espalhado sobre a terra pouco antes tão mimosa, e

caído raivosas sobre a desditosa Lisboa, trazendo após si o terramoto, o

roubo, o assassinio, o incendio e toda a sorte de calamidades. Era dia

de Todos os Santos, o povo da capital corria para as egrejas para ouvir

missa. Os templos estavam brilhantemente illuminados e mal poderia

suppôr-se que essa cidade tão casquilha e tão vaidosa da sua belleza,

seria dentro em pouco um montão de ruinas e de cadaveres. O primeiro

abalo foi precedido por um ruido subterraneo por toda a cidade: a

principio debilmente, depois cada vez mais forte e com uma continuidade

medonha. A terra gemia surdamente, e todos escutavam tranzidos do susto

esse desconhecido rumor. De repente, o solo abriu-se, as casas

desappareceram, uma nuvem de pó ergueu-se ao ceu, e um concerto de

gritos e lamentos fez-se ouvir de todos os lados! A dôr e o desespero

foram indiscriptiveis. O Tejo revolto, medonho, crescendo e saindo do

seu leito, parecia ameaçar engulir o que o fogo poupára. De um lado a

destruição pelo incendio, do outro um inimigo não menos terrivel

ameaçando com o diluvio; por toda a parte um espectaculo nunca

visto; horrivel tragedia composta de milhões de tragedias! Diz algures

um escriptor que: «Parecia que Deus quizera vingar n'um só dia os crimes

de muitos seculos.» Por toda a parte se via o restante da população da

capital com lagrimas nos olhos e physionomias onde se pintava o mais

cruel desespero, gritos agudos, de mulheres, de creanças e dos

moribundos, extorcendo-se nas chammas ou sob as minas. Era espantoso! A

tantos males succedeu-se outro, que veio completar a destruição: os que

não tinham ficado sepultados gritavam, impelliam-se, imploravam a

misericordia do ceu recitando orações que novo desabamento vinha cortar,

ou novas fendas abertas sob seus passos faziam calar ingulindo-os. Os

que fugiam para as margens do, antes tão formoso Tejo, esperando achar

alli abrigo, deparavam com um quadro tão medonho como aquelle a que se

esquivavam. Em consequencia dos grandes abalos de terra o rio estava

terrivel, bramindo revolto em violenta agitação; em alguns minutos

tornara-se n'uma corrente furiosa, que subira desmedidamente, e que

arrastava depois comsigo quanto se lhe deparava. Os navios, mesmo os de

grande lotação, submergiam-se; outros, não podendo resistir ao impeto

das vagas alterosas que lhe despedaçavam as amarras, iam desapparecer em

vertiginoso redopio nos medonhos sorvedouros, ou eram arremessados uns

contra os outros pelas iradas ondas e se despedaçavam! Para completar

este quadro estupendo em que todos haviam tido farto quinhão de

desventura e em que se não sabia quem mais se lastimasse, se os que

haviam perdido a vida, se os que tinham perdido quanto lh'a fazia amar.

Começou a apparecer fogo em differentes sitios da cidade e que lavrando

com incrivel rapidez veio completar a obra de destruição. Quantos

horrores aguardavam os que sobreviveram! quantas dôres! quantas mães

loucas sem saber que fôra feito dos filhos que estremeciam! quantos

filhos procuravam anciosos os paes, quantos maridos e esposas procurando

os consortes, quantos pezares, quantos corações despedaçados, quanto

desespero! Entre os magnificos edificios destruidos, conta-se a

magnifica Patriarchal de D. João V, o Paço real, a egreja de Santo

Antonio, os palacios dos tribunaes, ministerios, arsenal, casa da India,

alfandega, a vedoria, a Opera e os palacios de Lafões, Aveiro, Cadaval,

Marialva, Tavora, Fronteira, Valença e Louriçal, as bibliothecas real e

a de Lafões, a do convento de S. Domingos, a do Marquez de Louriçal, a

de Monseigneur Magalhães, e a do Inquisidor Simão José. Não se poude

saber ao certo o numero de mortos, mas foi avaliado em mais de dez mil.

Todavia alli onde tudo tremia e vacilava, via-se um só homem impassivel

e forte, era o Marquez de Pombal.

No meio d'estes horrores as prisões abertas deram saida aos malfeitores

que recuperando a perdida liberdade se lançaram como lobos famintos

sobre a desditosa cidade, levando comsigo a violencia, o roubo, a

embriaguez, cevando emfim a completa satisfação de todos os appetites

brutaes. Diz o sr. Smith no seu livro d'onde tenho extrahido grande

parte do que escrevo:--«Para corroborar os factos de que trato, fiz o

extracto de varias correspondencias do ministro inglez em Lisboa, que

não deixarão de interessar o leitor não só pela incontestavel

authenticidade, mas tambem porque n'elles se encontram circunstancias

que nunca foram publicadas. O seguinte é d'uma correspondencia de 6 de

novembro de 1755, onde se acha uma descripção viva e graphica d'aquelle

infausto successo.--«A perda do meu bom e digno amigo o embaixador

hespanhol, que ficou esmagado á porta de sua casa, quando tentava

escapar-se para a rua, junta á dôr que ha cinco dias me causam as

tristes noticias, que a cada passo nos trazem relativamente á sorte de

uma ou de outra pessoa do nosso conhecimento pertencente á nobreza, a

qual, pela maior parte, se acha inteiramente arruinada, tem-me

seriamente sensibilisado; mas o que sobre tudo me afflige é a sorte dos

desgraçados subditos de S. M. Britannica, da classe inferior, que de

todos os lados affluem a minha casa pedindo-me pão, e andam espalhados

por todo o meu jardim com mulheres e filhos; até agora não tenho deixado

de soccorrer a todos, e continual-o-hei a fazer em quanto me não

faltarem os meios, o que espero não succederá, attendendo ás

convenientes medidas que o sr. Carvalho para isso tem tomado. Tem-se

dado as melhores providencias possiveis para impedir o roubo e o

assassinato de que ha tres dias tem havido frequentes casos, vagueando

pela cidade turbas de desertores hespanhoes que se valem da occasião

para commetterem taes delictos. Tendo-me sido confiadas consideraveis

quantias que alguns inglezes que tiveram a felicidade de salvar parte de

seus bens, depositaram em minha casa, pelo que tive em toda a noite a

casa cercada de ladrões, escrevi esta manhã ao sr. Carvalho pedindo-lhe

uma guarda, o que espero me será concedido.»

Uma outra do mesmo ministro, de 15 do mesmo mez, refere as seguintes

particularidades:--«O primeiro abalo começou pelas dez horas menos um

quarto da manhã, e, tanto quanto pude julgar, durou seis ou sete

minutos; depois succedeu-se um intervallo de cerca de cinco minutos

antes do segundo, que durou uns tres minutos, pouco mais ou menos; de

sorte que n'um quarto de hora foi esta grande cidade convertida em

ruinas. Em seguida rebentaram muitos incendios, que no espaço de cinco

ou seis dias consumiram todos os generos e outras cousas. Parece que a

força do terremoto teve a sua séde mesmo no centro de Lisboa, por

que os prejuizos não são tão consideraveis para qualquer dos lados.

Julga-se que partiu do caes que se estende da alfandega até ao Paço, que

desabou, e se sumiu completamente, submergindo-se alguns barcos tambem

ao mesmo tempo. As aguas subiram de vinte a trinta pés, e desceram outro

tanto com intervallos, segundo me contaram.» (Isto parece dar rasão a

crer-se que no leito do rio se fizeram as mesmas fendas e abysmos, o que

explica as alternativas da agua subindo e baixando repentinamente). «Não

foi só Lisboa que soffreu os estragos do terremoto, por que se

estenderam a outras terras do reino (e tambem da Europa) principalmente

a Setubal e ao Algarve, onde foram bem sensiveis. Calcula-se que só em

Lisboa foram victimas d'aquella calamidade trinta mil pessoas, que

pereceram umas queimadas, outras afogadas, ou sepultadas nas ruinas.»

Factos Notaveis da Historia Portugueza e Biographia do Marquez de Pombal · 第 1 / 5 段