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FACTOS NOTAVEIS
DA
HISTORIA PORTUGUEZA
E
BIOGRAPHIA
DO
MARQUEZ DE POMBAL
POR
JOSEPHINA PINTO CARNEIRO PERESTRELLO
LISBOA
TYPOGRAPHIA DE CHRISTOVÃO AUGUSTO RODRIGUES
104--Rua do Norte--104
1882
A exma. sr.ª D. Josephina Pinto Carneiro Perestrello vae lançar-se na
turbulenta atmosphera da litteratura. S. ex.ª não se estreia com
assumptos banaes. O seu livro é fructo de profundos e aprimorados
estudos. Seduziu-a o grande vulto da actualidade: e s. ex.ª não se
contentou com a apotheose do marquez de Pombal... foi buscar a
justificação dos seus actos nas leis primitivas da monarchia; no
assentimento successivo das testas coroadas; e acompanha o illustre
ministro até ao momento em que, desprendido dos enormes cuidados da sua
vida laboriosissima adormece no duro leito da sepultura; e entra nos
dominios da inexoravel posteridade.
Que os anjos protectores das damas honestas e corajosas cubram com as
suas azas de ouro a intrepida escriptora é o que muito lhe deseja a sua
admiradora e amiga
Lisboa, 1 de maio de 1882.
Maria José da Silva Canuto.
Não é meu intento, nem teria forças para tão levantados vôos, escrever a
historia circunstanciada do grande vulto que se chamou Sebastião José de
Carvalho e Mello depois Conde de Oeiras e mais tarde Marquez de Pombal;
pretendo apenas com os elementos que nos legaram historiadores e
collectores de memorias da epocha, reduzir a breve transunto os traços
principaes da sua, notavel administração, concorrendo assim com uma
pequenina parte, porque pouco posso e sei, para remunerar, por occasião
do seu centenario, factos que teem em si ensinamento, e que podem servir
de estimolo e exemplo.
Procurarei esboçar o perfil d'esse personagem, que dentro em pouco se
tornará quasi legendario, pelo muito que valia, pelo muito que conseguiu
fazer, e porque n'um só homem se reuniu saber, energia, genio,
capacidade, e outros dons que dariam para muitos, mas que reunidas
n'elle foram um conjuncto benefico da prodigalidade divina, pois só um
tal colosso poderia arcar com todos os obstaculos que se lhe oppunham;
com todos os odios, todas as intrigas, todas as calamidades e
catastrophes. Só a energia inquebrantavel de um tal reformador poderia
levar a cabo a grande obra de regeneração, e progresso de que Portugal
foi theatro.
A Providencia amerceando-se d'este paiz que já tivera importancia,
insuflou-lhe no espirito todas as qualidades que fizeram d'elle um
estadista admirado, não só dos seus, mas ainda mais pelos estrangeiros.
Direi pois como diz mr. John Smith nas suas memorias do Marquez de
Pombal d'onde traduzirei e colherei muitos dos traços, com que aqui
procurarei dar ideia do seu caracter e feitos:--
[1] Such men are rised to station and command
When Providence means mercy to a land,
He speaks, and they appear: to Him they owe
Skill to direct, and strengh to strike the blow,
To manage with address to seize with power,
The crisis of a dark decisive hour.
Ainda referindo-se a elle diz o mesmo auctor a Sir Robert Peel--:
Refiro-me á coincidencia que se dá entre a vossa elevada posição, n'este
paiz (Inglaterra) e a que outr'ora occupou o grande ministro em Portugal.
Ambos foram em tempos criticos escolhidos para sustentar a honra e a
força de grandes nações; e de ambos se exigia o delicado discernimento e
a firmeza, que distinguiram o dito Marquez,--qualidades estas que lhe
grangearam a admiração e inteira confiança do seu paiz, etc.
Diz ainda o mesmo com referencia á expulsão dos jesuitas:--Se fosse
possivel anticipar aqui os promenores das _Memorias_ que se seguem, no
meio de todos os successos agitadores do ministerio d'aquelle estadista,
seria custoso descobrir uma medida que na sua concepção exigisse mais
coragem, ou que em seus resultados tivesse mais duravel importancia do
que a expulsão d'aquella seita de Portugal. Este primeiro passo a
principio causou admiração, mas depois foi successivamente imitado pelos
soberanos catholicos de toda a Europa.»--Portugal enfraquecido pelas
muitas guerras que havia sustentado dentro e fóra do paiz, não promettia
vir a ostentar mais a grandeza e prosperidade que fruira na epocha em
que os seus filhos sulcavam os--_mares nunca d'antes navegados_--epocha
em que floresceram os seus mais illustres navegadores, guerreiros,
valentes, insignes escriptores como o nosso immortal cantor dos
_Lusiadas_, poema epico, que alem do seu grande valor real, tem ainda o
merito da prioridade, pois foi o primeiro poema epico que se escreveu
depois do seculo de Augusto. N'essa epocha a que se chamou a _edade de
ouro_--, os portuguezes levavam a cabo emprezas como a de Vasco da Gama;
plantavam o pendão das quinas na Africa, na India, conseguiam
estabelecer-se na China, iam á Ethiopia, estendiam o dominio portuguez
na Asia desde Ormuz até Malaca etc. Não se satisfizeram porem com os
descobrimentos no Oriente e voltaram as suas vistas para o Occidente,
devassa Magalhães o estreito que ainda conserva o seu nome, porem morre
antes de terminar a empresa que se havia proposto. Foi de então para cá
que datam os descobrimentos na America e que Portugal se assenhorea de
vastos dominios n'esse continente, e assim se foi desenvolvendo e
accrescentando a prosperidade e engrandecimento da nação. Uma e outra
haviam sido preparadas e tido principio no reinado de D. João I mestre
de Aviz, rei illustradissimo e que deu á patria os mais brilhantes
principes.
Em 1415 é tomada Ceuta á força de armas; em 1418 descobre Gonçalves
Zarco a ilha de Porto Santo e no anno seguinte a Madeira, já sob os
auspicios do infante D. Henrique, em 1433 morreu D. João mas deixou em
seu filho D. Duarte digno sucessor.
Em 1444 é descoberto o archipelago dos Açores, e no anno immediato o de
Cabo Verde. Reinando já D. Affonso V, tomou este aos Mouros, Alcacer
Seguer, em 1458, treze annos depois, foram tomadas Arzila e Tanger.
Seguia-se o reinado de D. João II principe que alcançou o ser applidado
o _Perfeito_. Era illustrado, com a sua habil, ainda que por vezes
tenebrosa politica, soube abater todos os poderes que o offuscavam
conservando firme e superior a authoridade real.
Collisões terriveis obrigaram-n'o por vezes a lançar mão de meios
extremos, não vacilando em empregar o punhal para fazer justiça por suas
mãos. Foi no seu reinado que em 1482 Diogo d'Azambuja fundou o Castello
de S. Jorge de Mina na Guiné, e dois annos depois descobria Diogo Cão o
Congo e perto de trezentas leguas de costa. Em 1497 reinando já D.
Manuel, primo e herdeiro de D. João II, partia Vasco da Gama a procurar
a India Oriental chegando a Calecut com dez mezes de viagem. Em 1500,
descobre Alvares Cabral o Brazil.
Foi n'este reinado que o Ceu parecia derramar venturas sobre Portugal,
mas foi tambem n'essa epocha que se principiou a elaborar a decadencia
que se lhe seguiu.
A emigração para o Brazil tirava á mãe patria os seus filhos mais uteis,
e mais tarde a ambição do ouro fazia correr para as terras de Santa Cruz
todos que pela industria poderiam colaborar aqui no augmento e
conservação da prosperidade nacional. Alli um clima tão diverso do
nosso, muitas vezes a miseria, a fome, a nudez, consequencias de uma
guerra quasi continua com os indigenas e depois com as hordas de
holandezes, de piratas, de inglezes, de francezes, etc., que quizeram
successivamente despojar-nos, fez do Brazil um sorvedouro onde se
afundavam todos, ou quasi todos os portuguezes que abandonavam a
patria por esse _El-dorado_ que se lhe volvia em sudario. Todos esses
braços não bastavam para lá, que pela falta de exercitos, estavam esses
poucos sendo alvo de ataques e represalias, em que secumbiram, muitos
milhares e faziam falta na metropole.
Á agricultura faltavam braços para se desenvolver; a industria morria de
innanição.
Veio o reinado de D. João III, principe pussilanime enervado pelo
fanatismo e incapaz de corresponder ás exigencias, que aquella
conjunctura impunha ao inoperante.
Este monarcha arrastou o paiz á decadencia e ao abysmo.
Em vez de conquistas, estabeleceu a _Santa Inquisição_ com todos os seus
horrores. Seguia-se-lhe D. Sebastião que mal saía da infancia. Saturado
tambem de edeias falsas, guiado pelo debil braço de sua avó, era quasi
sempre surdo aos conselhos do seu aio e mestre D. Aleixo de Menezes, que
o desviava de entregar todos os poderes em mãos sagradas. Não soube
utilisar em proveito proprio, e no da patria, que n'elle fundava todas
as suas esperanças, as bellas e nobres aspirações que lhe ferviam na
mente. Foi impellido pelo enthusiasmo e pelo seu genio cavalleiroso para
as terras de Africa, com o nobre pensamento, de socorrer um rei
desthronado: mas a fatalidade que viera substituir as nossas passadas
venturas perseguiu o mallogrado mancebo e desditoso monarcha, que
derrotado na refrega de Alcacer Quibir, pereceu com a flor da nobresa de
Portugal e o seu exercito de desesseis mil homens, foi destruido e
desbaratado, deixando nas areas d'Africa o cadaver do rei, que não
poderam reconhecer. Esta calamidade trouxe a Portugal as maiores
complicações. Não havia herdeiro immediato e sete pretendentes se
desputaram a corôa portugueza, e depois de mil intrigas e confusões o
reino caiu em poder de Filippe II, que appoiava as sus pretenções com um
exercito de 36 mil homens. Invadiu Portugal, fazendo assim, ou por falta
de recursos, para se lhe opporem, ou por desanimo, com que os rivaes se
auzentassem, e o deixassem na posse da sua usurpação.
Ficou pois Portugal anexo á Hespanha, em 1580. Ainda assim esse tyrano
que foi appellidado--_O demonio do meio dia_--só logrou subjugar este
povo á custa de milhares de vidas.--A mortandade e a carnificina foram
horriveis. Diz o Conde da Ericeira no seu _Portugal Restaurado_ e
accrescenta «que o mar não querendo occultar tanto delicto, trazia os
corpos ás redes dos pescadores, e retiravam-se d'ellas os peixes
offendidos do insulto, recusando ser alimento de homens que mudando as
disposições de Deus, lhes queriam dar homens por alimento.»
Esta indignação dos peixes durou tanto tempo, que, segundo diz o mesmo
historiador, «foi necessario ir a rogos dos pescadores, o Arcebispo de
Lisboa, em procissão benzer o mar profanado por tantos sacrilegios, para
que elle (como succedeu) tornasse a dar o seu tributo.»
A grande importancia a que Portugal se elevara entre as nações da
Europa, não tardou em diminuir. O seu brilho declinou, em consequencia
de torpe governo de Madrid, mas nem só a sua influencia e riqueza, mas o
seu poder maritimo e colonial, porque as nossas esquadras se perderam
nas costas d'inglaterra, fazendo parte da invensivel armada, e as
melhores das nossas colonias foram atacadas e tomadas pela mesma
Inglaterra e pela Holanda com quem a Hespanha estava em guerra.
O imperio que os portuguezes haviam adquirido na Asia, desapparecia. A
perneciosa influencia de Castella sobre o nosso paiz, n'esses
desgraçados sessenta annos, ainda hoje se sente, e veio cimentar entre
os povos nascidos para serem irmãos, odios que uma desconfiança
constante não deixa apagar. Desconfiança justificada pelo desejo dos
hespanhoes de conseguirem a anexação! esperança que é n'elles uma utopia
inveterada. A fusão das duas nações é repugnante. Opõe-se a ella o amor
inabalavel, que os portuguezes, teem pela sua liberdade e a memoria, que
nunca se apagará das atrocidades soffridas, n'esses terriveis annos de
escravidão; e mais ainda o caracter e indole dos dois povos, que são
completamente oppostas, e que só podem amar-se em quanto durar o
respeito pelos direitos de cada um. Muito se amam entre si, os bons
irmãos; mas cada um governa em sua casa, e ai do amor, se um d'elles, se
lembra de querer governar a do outro.
Era então n'essa epocha em a nossa capital que se concentrava o
monopolio de todo o commercio do Oriente. Aqui se reunia gente de toda a
parte do mundo para o trafico dos productos da Asia. A posição
geographica de Lisboa tornava-a por assim dizer o logar de _rendez-vous_
de todos os estrangeiros curiosos ou commerciantes. Rebentou a guerra da
Hespanha com Hollanda e em consequencia d'ella os hespanhoes expulsaram
d'aqui os hollandezes que em represalia se assenhorearam de algumas das
mais bellas joias da corôa portugueza, avultando entre ellas Ceylão e
Malaca que nunca nos foram restituidas.
A Hespanha principiou então a colher os fructos que semeára. A medida
impolitica e barbara da expulsão dos moiros da Hespanha, condescendencia
do duque de Lerma com os padres, e do rei com o seu ministro
omnipotente, foi-lhe tão fatal como a de D. Manoel de Portugal com a
expulsão dos judeus, mas bem mais tragica. Esse erro politico
cavou-lhe a ruina e preparou-lhe a decadencia, fazendo desconhecer a
Hespanha a quem a comparasse á do tempo de Carlos V. Como nós a Hespanha
tivera tambem um passado gloriosissimo.
N'esses tempos seus filhos pensavam mais no engrandecimento e prestigio
do seu nome, do que em subjugar um povo que pelo seu valor e energia,
pelo muito que tinha feito conquistára o direito de ser respeitado e de
conservar a independencia que sempre soubéra manter.
Como nós, que possuimos Alvares Cabral, Gama e outros, a Hespanha tivera
um Colombo, Cortez e tantos mais. Como nós tivera no Cid Campeador o seu
D. Nuno Alvares Pereira.
Em ambas as nações houve illustres navegadores, valentes guerreiros,
habeis politicos, poetas sublimes, prosadores e dramaturgos
universalmente conhecidos. No seculo XV eram consagrados os nomes de F.
del Pulgar, e Juan de Mena, nós vimos florescer Gil Vicente que morreu
no seculo seguinte no qual avultaram os nomes de Lucena, Bernardes,
Camões, Osorio, Damião de Goes, João de Barros, Sá de Miranda e
Bernardino Ribeiro; a Hespanha não teve que invejar-nos porque viu
brilhar os de Carcilaso, Luiz de Leon, Luiz de Granada, Marianna, Santa
Thereza, Cervantes, Gongora, Juan de la Cruz, Lope de Vega e Quevedo. No
seculo XVII tiveram Calderon de la Barca, Moncada e Solis, e nós vimos
surgir os brilhantes talentos de Fr. Luiz de Sousa, Padre Antonio
Vieira, Sousa de Macedo, Freire de Andrade, Manuel de Mello e varios.
São pois irmãos os dois povos da Peninsula, a Hespanha deve ser a nossa
alliada natural, mas é mister que se conserve intacta a individualidade
nacional de ambas as nações.
O affecto fraternal que deve unir os dois povos, só pode ser verdadeiro
e duradoiro em quanto durar o respeito reciproco pelos direitos de cada
um. Dotados ambos de grandes qualidades a indole dos hespanhoes é
inteiramente diversa da dos portuguezes. As suas tendencias, gostos,
habitos, etc., são outros e por conseguinte impossivel a sonhada e
appetecida união. D. Filippe porém, aproveitando a decadencia a que
tantas catastrophes haviam levado o reino, accentuou o seu direito por
meio da força e de atrocidade em atrocidade elle, e depois os seus
successores opprimiram este pobre povo, até que ao fim de sessenta annos
um punhado de heroes, sem effusão de sangue, sem ferir batalha fez
baquear o odioso dominio de Castella libertando a patria tanto tempo
agrilhoada. Os nomes de Pinto Ribeiro, Castros, Mellos, Almeidas
Athaydes, Telles, Almadas Cunhas, Silvas e outros serão sempre de
gloriosa recordação, e de salutar exemplo.
Parecia que devia renascer com a acclamação de D. João IV a grandeza e
prosperidade da nação, mas foi fogo fatuo que breve se extinguiu. O rei
tornou-se timorato e a rainha pouco podia, apesar da sua energica
vontade. Além d'isso o Conde-duque de Olivares combateu por espaço de
vinte e quatro annos propugnando os portuguezes com heroismo para manter
a sua independencia nas fronteiras e para neutralisar as insidias de
Hespanha junto do rei. Por varias vezes habeis conspirações estiveram a
ponto de inutilisar a prodigiosa victoria dos quarenta bravos conjurados
que appoiados no patriotismo do povo haviam conseguido sacudir o jugo
castelhano.
Muitas tentativas contra a vida do rei foram descobertas. Isto tornava o
rei cada vez mais fraco de animo, e entregou-se inteiramente aos
conselheiros que nem sempre foram o que deviam á patria, ao rei e a si
proprios.
Em 1643 romperam-se definitivamente as hostilidades, que só terminaram
em 1665.
Mathias de Albuquerque desbaratou o exercito sob o commando do barão de
Malingen, general da Estremadura hespanhola; todavia as campanhas que
asseguraram e firmaram a independencia do reino, foram já dadas no
reinado de D. Affonso VI. A batalha das linhas d'Elvas foi ganha pelo
conde de Cantanhede em 1659. O conde de Villa Flor desbaratou no
Ameixial o Archiduque d'Austria, o famigerado D. João d'Austria em 1663.
Em Castello Rodrigo venceu Pedro Jacques de Magalhães em 1664. No anno
seguinte é refreiada totalmente a ardente furia dos hespanhoes, na
batalha de Montes-Claros, ficando prisioneiros do Marquez de Marialva
seis mil hespanhoes. De então para cá, a posse de Portugal tem sido
apenas o sonho de todo o utopista hespanhol, porem a gente de bom senso
reconhece o absurdo da ideia, e pensa com rasão que se n'essa epocha lhe
foi impossivel sustentarem o seu dominio estando Portugal inteiramente
falto de recursos, sangrado pelas continuas guerras tanto aqui como no
Brazil, hoje que dispõe de mais braços e mais elementos de resistencia,
não seria empresa facil. Essa regeneração teve principio nas medidas do
Marquez de Pombal.
Pela morte de D. João IV, Portugal não mudára muito. D. Affonso VI foi
desthronado e morreu preso no Paço de Cintra e sua mulher foi
authorisada a casar com seu cunhado D. Pedro II pelo clero que foi
chamado a representar n'esta escandalosa intriga, que só por si dá a
medida do grau de desmoralisação a que havia chegado tudo n'este
malfadado paiz.
Reuniram-se cortes para legalisar este attentado e fecharam-se para não
tornarem a abrir-se.
O reinado de D. Pedro foi curto e triste. Seguiu-se o reinado faustoso
de D. João V, e este poz cumulo á depravação dos costumes e vicios dos
grandes, cavando assim a decadencia do reino.
O povo soffria toda a sorte de vexames dos nobres que praticavam toda a
casta de violencia e infamia acobertadas pela impunidade que lhe era
concedida.
O rei, ou fosse em espiação de suas culpas ou porque o seu genio
gastador a isso o impedia, D. João V, querendo imitar Luiz XIV gastou
rios de dinheiro na edificação do Convento de Mafra, na Capella de S.
João Baptista e em muitas restaurações de templos; a creação de uma
patriarchal com os seus conegos beneficiados e principaes imitando o
sacro collegio, levou para Roma muitos milhões. N'estas grandezas e
esbanjamentos se sotterraram os productos das uberrimas minas que o
Brazil continha no seu seio e que a industria mineira e o suor do
escravo traziam á superficie da terra. Penalisa ver que tanto dinheiro,
tanto trabalho, e tanta magnificencia não fossem empregadas em coisas de
maior utilidade para o paiz. Ao passo que nos faltavam vias de
communicação para o commercio interior, que não tinhamos fabricas, nem
marinha, de guerra ou mercante, nem exercitos, gastavam-se sommas
fabulosas em edificar um convento pelo theor da basilica de S. Pedro em
Roma, n'uma mesquinha povoação!... Se terminada a obra, vinha d'ella
proveito para a nação, foi coisa que parece não ter preoccupado o
monarcha. Bastava-lhe que fosse lisongeado pelos seus aduladores, que
lhe encareciam a sua piedade. O edificio tem alem do convento e egreja
um palacio soberbo. Tudo foi feito com magnificencia regia; a arte
revela-se em alto grau, e por todos os lados ha que admirar a cooperação
dos melhores artistas que se mandaram vir da Italia.
É grande, é imponente, é sumptuoso e magnifico, mas é triste, sombrio e
pezado. Fui lá uma vez, admirei-o muito, mas quando sahi respirei de
alivio por que me parecia que toda aquella mole de pedra me cahia em
cima e me esmagava com toda a sua grandeza. Impressionou-me bastante, e
vel-o-ia ainda com gosto, se bem que estou certa que me faria a mesma
impressão que me produziu ha vinte annos, apezar de já não ser a creança
que era então. O outro monumento da sua prodigalidade, a capella de S.
João Baptista na egreja de S. Roque, é uma verdadeira joia que não tem
rival no genero, attendendo ao seu tamanho. Tem uns desesete palmos de
comprido por doze de largo; é toda feita de _lapis-lazull_, porphyro,
agatha, amethystas, alabastro, crysolithas, prata e ouro. Diz m. John
Smith que custou 225:000 libras, mas, já tenho visto, não sei onde,
estimar a sua importancia em bem mais elevados algarismos.
A concessão da Curia romana para empregar os thesouros do paiz como
o julgasse conveniente, custou tambem grossas quantias. Seguia-se a
creação de uma dignidade ecclesiastica com o titulo de Patriarcha da
qual depende o collegio sacro formado de vinte e quatro prelados. Para
tornar mais notavel a similhança d'esta corporação com a de Roma, os
paramentos do Patriarcha em dias festivos eram eguaes aos do Papa, e as
dos prelados como as dos Cardeaes. As festas e cerimonias religiosas,
não eram eguaes, mas sim superiores ás de Roma. «Mais de cem clerigos,
diz m. Smith, subsidiarios a quem com profusão se davam honras e
dignidades occupavam logares subordinados a esta nova instituição. Uma
escala infinita de logares inferiores augmentou o pessoal do
Patriarchado a ponto de ser impossivel dizer-se qual a condicção em que
se sumia o ultimo d'esta legião clerical! Esta louca vaidade custou mais
de oitenta mil libras afóra as pasmosas quantias que se despenderam
antes de conseguirem a licença para a incorporação do estabelecimento.
Foi desde então que D. João V alcançou para os reis de Portugal o titulo
de _Fidelissimo_.»
Uma obra porém de grande merito, de reconhecida utilidade, e de grandeza
sem igual foi a que se principiou e concluiu n'este mesmo reinado de
esbanjamentos e desperdicios; só ella confere um titulo de gloria ao rei
que a ordenou e fez levar a cabo. Refiro-me ao aqueducto das aguas
livres de Lisboa, que percorre duas leguas ora subterraneo, ora
elevando-se sobre arcos. Por cima do valle de Alcantara corre sobre
trinta e cinco arcos, sendo a altura do maior 264 pés, e a sua largura
na base de 280. Dois canaes trazem a agua das nascentes, deixando entre
ambos espaço e altura para caminhar de pé. D. João V não morreu sem que
expiasse por espaço de nove annos n'um triste estado de imbecilidade os
passados extravios, e deixou a nação sobrecarregada com uma divida de
mais de tres milhões de libras e o thesouro completamente exaurido. Seu
filho D. José vivera sempre muito arredado dos actos do governo; contava
então 37 annos, e muita gente o retracta de acanhada intelligencia,
irresoluto, timido, fraco e cruel. Nada o comprova, antes maravilha a
firmesa com que sustentou no poder o seu ministro, a despeito da sua
mesma familia, de toda a nobresa e de um clero opulento e dominador,
unico homem capaz de dominar a triste situação em que tantos desvarios
nos lançaram.
Por morte de D. João V não ficara a Portugal nenhum elemento de que se
julgasse dever sair a sua regeneração. Tudo parecia impellir o reino a
uma aniquilação inevitavel, mas foi n'essa occasião que surgiu um
regenerador, um genio benefico, forte, energico, e sabio, que levara os
primeiros annos da sua vida estudando os males e as causas d'elles e
procurando os remedios na sua fecunda imaginação. Foi elle que com
poder quasi sobrehumano veio, inspirado e inviado da Providencia para
desmascarar hypocrisias, para salvar mesmo a religião de todas as
atrocidades que em nome de um Deus todo bondade e misericordia se
praticava impunemente, para destruir esse poder execrando do horrivel
tribunal da Inquisição, do chamado _Santo Officio_, que sequestrava á
sociedade milhares de victimas innocentes, ou culpadas de um crime que a
sã rasão mostra não o ser.
Esse homem a quem tanto se deve, foi quem veio restabelecer a verdadeira
religião, porque é a de Christo, a religião de perdão, caridade, amor e
fraternidade, purgando-a quanto possivel dos abusos que em seu nome se
praticavam; foi elle quem veio introduzir no paiz novos estudos, quem
estendeu o pão do espirito a todas as classes da sociedade creando
escolas, quem promoveu as industrias, sciencias, litteratura, quem veio
animar e desenvolver o commercio e as artes, revindicar o respeito e o
renome ao seu paiz; reanimar o genio, acabar com os abusos dos nobres
dando mesmo terriveis mas salutares exemplos na nobreza, castigando o
crime onde era praticado, fosse plebeu ou nobre, como o fizera tambem
Richelieu, seu modelo, nas pessoas de Marillac e Montmarency, foi emfim
elle que, ora com benevolencia, ora com severidade, ergueu a patria do
abysmo onde filhos degenerados a haviam lançado.
Sebastião José de Carvalho e Mello nascera na capital aos 13 maio de
1699; filho de Manuel de Carvalho e Athayde e de sua mulher D. Thereza
de Mendonça. Seu pae era um cavalleiro de pequinissima fortuna, mas que
vivia independente e pertencia á cathegoria distincta pelo titulo de
fidalgo da provincia. Esta qualidade dava-lhe direito a muitos
privilegios da nobreza, ainda que não considerado grande do reino ao que
só dava direito os titulos de conde, marquez ou duque. Sebastião José de
Carvalho juntou o appelido de Mello; que lhe vinha de seu avô materno,
João de Almeida e Mello; costume muito seguido então, principalmente
quando, como este, vinham de illustre ascendencia. Tinha mais dois
irmãos; Francisco Xavier de Mendonça e Paulo de Carvalho e Mendonça.
Sebastião José de Carvalho entrou na universidade de Coimbra, mas
aquelle regimen pouco lhe agradou; e menos a forma porque alli se
ministrava então o ensino sobre modo differente para uma intelligencia
previligiada como a sua. Descontente deixou os bancos da Universidade
para assentar praça em cadete, a que lhe dava direito a sua nobreza, e
pouco depois fizeram-n'o cabo. Não passou d'esse posto; e elle
desgostoso deixou a cazerna como deixára Coimbra. Viu-se outra vez sem
occupação, o seu genio activo e investigador lançou-o em estudos sobre
economia politica, historia universal, legislação e todos os ramos
em que mais tarde o seu genio sublime devia manifestar-se. Veio então a
Lisboa, chamado por um tio que muito o recommendava ao Cardeal da Motta,
ministro omnipotente n'essa epocha. O Cardeal, homem esclarecido, viu
logo o partido que se podia tirar de tão notavel aptidão e apresentou-o
ao rei, que o tratou como a quem vinha tão bem recommendado. O rei
admirou o talento e variada illustração que em tão verdes annos se
manifestava no mancebo, e pouco depois em 1733 nomeou-o membro da
Academia Real de Historia com a mira em que elle lhe escrevesse a
historia de varios monarchas, cujos reinados fossem mais dignos de tão
habil historiador. Negocios porem importantes e que reclamavam immediato
desempenho, não permittiram que satisfizesse o encargo com que o rei o
distinguira; as vistas da côrte estavam fixas n'elle, o rei distinguia-o
e protegia-o e conseguio attrahir a attenção de uma joven viuva D.
Thereza de Noronha senhora de muitas virtudes e de illustre nascimento
que era sobrinha do Conde dos Arcos. Parece porem que este enlace foi
combatido, e que a despeito de seus merecimentos e da protecção regia,
não foi sem custo que logrou fazer emmudecer os que desaprovavam a
desejada alliança, sob pretexto de quem não tivera nos seus ascendentes
grandes do reino, embora fosse de illustre nascimento. Já então deveu á
sua energia o conseguir a realisação dos mais ardentes votos do seu
coração. Depois as suas ambições voltaram-se para alcançar emprego em que
bem servindo a patria conseguisse posição brilhante, e na qual
utilizasse as suas faculdades e aptidões. O acaso serviu-o a seu
contento com a necessidade que obrigou o rei a mandal-o a Londres como
embaixador. Foi então que se principiou a manifestar a todos a vastidão
dos seus recursos intelectuaes e o muito que havia a esperar de tão
acrisolado amor da patria e de tão grande genio. Todo o tempo que
desempenhou em Londres o cargo de representante de Portugal não cessou
de velar pelos interesses que lhe estavam confiados, alcançando muitos
privilegios para os portuguezes alli residentes, fazendo desapparecer
todos os vexames que antes soffriam, conseguiu para o seu governo o
direito de prender e castigar os delinquentes inglezes em territorio
portuguez, tendo elles de subjeitar-se ás nossas leis. Quando um seu
medico foi preso por um collector, apesar do Acto do Parlamento de 1709,
que prohibia o prender-se nenhum embaixador ou pessoa ao seu serviço,
fez com que lhe fosse dada satisfação d'um insulto feito a um seu
empregado, affirmando assim os direitos que os outros pretendiam
desconhecer, e fazendo respeitar a nação que representava e definindo os
previlegios dos ministros estrangeiros.
Conseguiu para os portuguezes residentes em Londres a reciprocidade na
isenção de impostos.
Em 1739 reclamou queixando-se da penhora feita em generos que pertenciam
a Bento de Magalhães, negociante portuguez, como violação dos tractados
existentes entre as duas nações, tractados que davam tambem aos inglezes
aqui residentes as mesmas regallias. O duque de Newcastle em 20 de
novembro respondeu o que se segue: Sua Magestade Britanica sendo
informado de que os vassallos de S. M. Fidelissima que residem em
Inglaterra teem sido sobrecarregados e obrigados ao pagamento de
impostos publicos e parochiaes, que foram lançados por Acto do
Parlamento a todos os habitantes indistinctamente; ordenou-me que vos
participasse, ainda que em virtude da natureza e forma do nosso governo,
não cabe na alçada do rei isentar ninguem em particular do pagamento dos
impostos lançados por Acto Parlamentar, não só seria nova, mas sujeita a
grande debate e inconveniencia: comtudo, para dar a S. M. Fidellissima
uma prova da amizade e consideração em que a tem S. M. Britanica, e para
que os subditos de Portugal que residem em Inglaterra fiquem descançados
de que não serão incommodados por causa de quasquer impostos parrochiaes
ou outros que, em virtude de Acto Parlamentar, sejam pagos pelos
habitantes em geral, faz saber que todos esses impostos lhes ficarão
descarregados, sem que por causa d'elles soffram multas ou penas
algumas. Mais tarde por occasião de ser queimada nas aguas do Algarve
pelos inglezes uma esquadra franceza, escreve elle a lord Chatam
pedindo-lhe satisfação, as seguintes cartas:
«Eu sei que o vosso Gabinete tem tomado um imperio immenso sobre o
nosso: mas tambem sei que é tempo de acabar com elle. Se meus
predecessores tiveram a fraqueza de vos conceder tudo que quizestes, eu
nunca vos concederei senão o que vos devo. É esta a minha ultima
resolução: regulae-vos por ella.»__
_Conde de Oeiras._
A segunda é como se segue:
«Eu rogo a V. Ex.ª que me não faça lembrar das condescendencias que o
governo Portuguez ha tido com o governo Britanico, ellas são taes, que
não sei que potencia alguma as haja tido similhantes com outra. Era
justo que essa authoridade acabasse alguma vez, e que se fizesse saber á
Europa que tinhamos sacudido um jugo estrangeiro. Não o podemos melhor
provar do que pedindo ao vosso governo uma satisfação que por nenhum
direito nos deve negar. A França nos consideraria no estado de maior
fraqueza se lhe não dessemos alguma razão do estrago que soffreu a sua
esquadra em as nossas costas maritimas, onde por todos os principios se
devia julgar em segurança.»
_Conde de Oeiras._
A terceira carta é tão longa que me não resolvo a copial-a toda, basta
dizer que em resultado de todas as rasões e justas arguições que
terminam assim:
«A satisfação que vos peço é conforme com o direito das gentes. Succede
todos os dias que os officiaes de mar, e terra façam por zelo ou por
ignorancia o que não deviam fazer, é portanto a nós que nos pertence o
puni-los, e fazer emendar e remediar os damnos que elles teem causado.
Nem se deve julgar que estas reparações fiquem mal ao estado que as faz:
ao contrario, sempre é bem mais estimada aquella nação que de boamente
se presta a fazer o que é justo.
«Da bôa opinião dependeu sempre a força das Nações.»
_Conde de Oeiras._
O rei de Inglaterra mandou um Embaixador extraordinario a Lisboa dar as
satisfações pedidas.
Foi tambem Pombal que alcançou pela sua habil diplomacia que os
ministros estrangeiros em Londres podessem importar todos os moveis,
roupas, vinhos etc. sem pagamento de direitos. Durante a sua estada em
Londres estudou constantemente e foi alli que bebeu a longos tragos,
essa sciencia que devia fazer d'elle um modelo. Sully, Colbert e
Richelieu foram as suas fontes e com elles se identificou sendo Sully o
principal objecto, segundo diz mr. Smith, da sua veneração e estudo,
podendo os maiores enthusiastas d'esse grande vulto comparal-o sem
receio ao seu prototypo. Em 1745 voltou Pombal á patria, parece que a
seu pedido, em consequencia do edito promulgado contra os papistas.
Voltando a Portugal não teve logo em que occupar a sua actividade e
voltou as suas vistas pava os abusos que via praticar por toda a parte;
estudou-lhe as causas e foi amadurecendo os seus projectos de futuro,
para destruir o mal que reinava em todos os ramos de administração
publica. Comprehendeu que só medidas sabia e prudentemente empregadas
poderiam levantar a nação da decadencia em que caira; que a falta não
vinha dos povos mas do governo, que só instruindo e não corrompendo,
ensinando e não conservando na inercia e derigindo o povo para a
regeneração pela instrucção e pelo trabalho, poderia conseguir
erguer o reino á grandesa que ambicionava. Era pois myster dar trabalho
a todas as classes, occupar os braços e o espirito do povo, dando a cada
um a protecção a que tinha direito dando assim ao governo cidadãos uteis.
O paiz estava devastado pelos ladrões, as leis eram lettra morta, a
prepotencia espalhada por toda a parte, o povo desmoralisado, o
commercio e a industria aniquilados.
Quando estava absorvido por todas estas idéas, suscitou-se entre
Benedicto XIV e a imperatriz Maria Thereza, senhora tão celebre pelas
suas virtudes como pela variedade da instrucção que lhe adornava o
espirito, uma desintelligencia a respeito da extincção do patriarchado
da Aquileia, desintelligencia que promettia serias consequencias como
quasi todas as que tem havido com a Santa Sé, por tenderem quasi sempre,
não só a separarem-se da egreja, mas ao aniquilamento da fé catholica. A
imperatriz confiava na capacidade de Pombal, e só da sua probidade, são
juizo e penetração, esperava uma solução digna, equitativa e justa.
Conhecida a sua competencia e provavelmente a pedido da imperatriz que
conhecia a sua capacidade, foi Pombal enviado a Vienna como embaixador,
onde conseguiu arranjar tudo a contento de todos, firmando-se na
justiça, equidade e justos direitos de cada um.
Uma carta encontrada em Paris, no archivo da secretaria dos negocios
estrangeiros, dá a medida do apreço em que eram tidas pelos diplomatas
estranhos as eminentes qualidades do illustre estadista; apreciação que
não póde deixar de ser imparcial e justa por que a elevada posição
official do Embaixador em Vienna lhe dava mil occasiões de estar em
contacto com o Marquez de Pombal; transcrevo pois na integra o alludido
documento alli encontrado com o titulo de: _Correspondencias d'Austria,
n.º 244 despacho de M. Blondel, ministro de França em Vienna, dirigido
ao governo austriaco e datado de 10 de janeiro de 1750._--«M. Carvalho
foi por muito tempo Embaixador de Portugal em Londres, d'onde o rei seu
amo o fez sair para o collocar aqui, no intento de que empregasse a sua
influencia para restabelecer a harmonia entre esta côrte e a de Roma. O
ministro foi egualmente encarregado de fazer readquirir ao eleitor de
Mayence as boas graças e a affeição do Papa.
«N'estes dois negocios deu elle provas da sua habilidade, da sua
sabedoria, integridade, moderação e sobretudo de muita paciencia, e
alcançou não só a benevolencia de todos os interessados, mas tambem a de
todos os ministros estrangeiros, e das pessoas de consideração de Vienna.
«M. Carvalho é nobre em tudo, sem ostestação, cordato e prudente;
replecto de principios e sentimentos de honra, não visa senão ao bem
geral; e eu sei que não foi por culpa d'elle que a imperatriz não chegou
mais cedo a sentimentos pacificos. É tão bom cidadão como homem probo, e
a sua partida foi sentida tanto pela côrte como pela cidade. Tem
approximadamente de cincoenta a cincoenta e cinco annos e casou em
Vienna com a filha do General Daun.» Esta é a traducção do despacho
francez, documento insuspeito de parcialidade, por isso que os francezes
não são prodigos de louvores para os estranhos.
Veio pois em 1750 para Lisboa, pouco antes da morte de D. João V. Logo
que subiu ao throno D. José I, Pombal tomou posse da pasta que já lhe
fôra destinada, principiando então a tomar parte no governo com o saber
e energia que só um athleta privilegiado poderia desinvolver. A
restricção dos poderes da Inquisição, o desapparecimento dos ladrões que
infestavam as ruas da capital, a organização interna do servico do paço,
que era uma especie de pinhal D'Azambuja, onde todos roubavam, reduzindo
os empregados de oitenta a vinte, fiscalisando os gastos da ucharia,
descendo a todas as minucias e occupando-se de tudo com egual proficiencia.
Desde que conseguiu organisar a administração interna do reino voltou as
suas vistas para as possessões de Além-mar, onde tudo chegára á ultima
miseria.
Para ligar os interesses dos colonos aos dos indigenas, prohibiu a vinda
das donzellas ricas do Brazil, que para aqui vinham encerrar-se nos
conventos, prejudicando assim o augmento da população; e promoveu
cazamentos com os mancebos do paiz, por meio de dotes e augmento de
interesses de varias especies; promoveu o commercio com a Asia e
particularmente com a China, e aconselhou ao rei a humanitaria medida da
emancipação dos indios das provincias do Pará e Maranhão, tornando-os
livres, subtrahindo-os á exploração dos colonos europeus, e buscando os
meios de os civilisar. Os negros de Africa não obtiveram o mesmo
beneficio, pelo seu abatimento e conveniencias politicas que por então o
impediram. Como já disse, aos portuguezes que casavam com donzellas
indigenas eram concedidas certas franquias. Em seguida ao decreto que
emancipava os indios, assignou o rei outro, fundindo as duas companhias
Maranhão e Grão Pará. Esta medida veio dar novo incremento á classe do
commercio entre Portugal e as colonias da America, tomando estas um novo
aspecto.
A aristocracia tremia de raiva vendo coartarem-lhe a preponderancia de
donatarios: o os jezuitas previam que os seus excessos tinham encontrado
um moderador que lhe refreiasse as demasias. Colligavam-se e conspiravam
com a nobreza vendo n'isto o unico meio de combater o seu commum
inimigo; mas Sebastião José de Carvalho formára os seus projectos
que seguiu sempre com tenacidade indomavel e soube de tal modo captar a
confiança de D. José, que este surdo a todas as insinuações disfarçadas
e a todas as invectivas francas, continuou a sustentar e seu ministro
que em breve tinha de prestar-lhe ainda maiores serviços. No primeiro de
novembro de 1755 soffreu Lisboa o horrivel cataclismo do terramoto. A
capital ficou quasi destruida e, a sua população, parte ficou morta,
outra ferida, e a restante aterrada pela espantosa catastrophe. O mal,
já de si grande, não veio só. Seguiu-o o triste cortejo das suas
inevitaveis consequencias; no meio, porém, de tão grandes horrores, o
Marquez de Pombal impassivel e inalteravel, multiplicava-se, por assim
dizer, apparecendo em toda a parte onde a sua presença fosse necessaria,
soccorrendo por todos os meios possiveis as victimas e prestando auxilio
com disvellada sollicitude. Os decretos, as ordens e as providencias
succediam-se sem interrupção, e todas patenteavam exuberantemente a
aptidão d'esse homem a quem nenhuma desgraça conseguia aterrar, a quem,
por maior que fosse o mal, não faltava a lucidez do espirito para lhe
encontrar o remedio. A catastrophe teve logar ás 9 horas e alguns
minutos da manhã: o dia apparecera risonho e sereno; nunca o ceu se
mostrara tão limpo de nuvens, nunca o Tejo ostentára mais transparentes
as suas aguas que nem uma leve aragem o agitava; a natureza parecia
repousar; tudo respirava socego e confiança; tudo parecia prometter
segurança e tranquilidade. Bastaram porém alguns minutos para
transformar em desesperação, horror, miseria e espanto esse risonho
quadro! Parecia que todas as furias do inferno haviam conseguido
escapar-se e se tinham espalhado sobre a terra pouco antes tão mimosa, e
caído raivosas sobre a desditosa Lisboa, trazendo após si o terramoto, o
roubo, o assassinio, o incendio e toda a sorte de calamidades. Era dia
de Todos os Santos, o povo da capital corria para as egrejas para ouvir
missa. Os templos estavam brilhantemente illuminados e mal poderia
suppôr-se que essa cidade tão casquilha e tão vaidosa da sua belleza,
seria dentro em pouco um montão de ruinas e de cadaveres. O primeiro
abalo foi precedido por um ruido subterraneo por toda a cidade: a
principio debilmente, depois cada vez mais forte e com uma continuidade
medonha. A terra gemia surdamente, e todos escutavam tranzidos do susto
esse desconhecido rumor. De repente, o solo abriu-se, as casas
desappareceram, uma nuvem de pó ergueu-se ao ceu, e um concerto de
gritos e lamentos fez-se ouvir de todos os lados! A dôr e o desespero
foram indiscriptiveis. O Tejo revolto, medonho, crescendo e saindo do
seu leito, parecia ameaçar engulir o que o fogo poupára. De um lado a
destruição pelo incendio, do outro um inimigo não menos terrivel
ameaçando com o diluvio; por toda a parte um espectaculo nunca
visto; horrivel tragedia composta de milhões de tragedias! Diz algures
um escriptor que: «Parecia que Deus quizera vingar n'um só dia os crimes
de muitos seculos.» Por toda a parte se via o restante da população da
capital com lagrimas nos olhos e physionomias onde se pintava o mais
cruel desespero, gritos agudos, de mulheres, de creanças e dos
moribundos, extorcendo-se nas chammas ou sob as minas. Era espantoso! A
tantos males succedeu-se outro, que veio completar a destruição: os que
não tinham ficado sepultados gritavam, impelliam-se, imploravam a
misericordia do ceu recitando orações que novo desabamento vinha cortar,
ou novas fendas abertas sob seus passos faziam calar ingulindo-os. Os
que fugiam para as margens do, antes tão formoso Tejo, esperando achar
alli abrigo, deparavam com um quadro tão medonho como aquelle a que se
esquivavam. Em consequencia dos grandes abalos de terra o rio estava
terrivel, bramindo revolto em violenta agitação; em alguns minutos
tornara-se n'uma corrente furiosa, que subira desmedidamente, e que
arrastava depois comsigo quanto se lhe deparava. Os navios, mesmo os de
grande lotação, submergiam-se; outros, não podendo resistir ao impeto
das vagas alterosas que lhe despedaçavam as amarras, iam desapparecer em
vertiginoso redopio nos medonhos sorvedouros, ou eram arremessados uns
contra os outros pelas iradas ondas e se despedaçavam! Para completar
este quadro estupendo em que todos haviam tido farto quinhão de
desventura e em que se não sabia quem mais se lastimasse, se os que
haviam perdido a vida, se os que tinham perdido quanto lh'a fazia amar.
Começou a apparecer fogo em differentes sitios da cidade e que lavrando
com incrivel rapidez veio completar a obra de destruição. Quantos
horrores aguardavam os que sobreviveram! quantas dôres! quantas mães
loucas sem saber que fôra feito dos filhos que estremeciam! quantos
filhos procuravam anciosos os paes, quantos maridos e esposas procurando
os consortes, quantos pezares, quantos corações despedaçados, quanto
desespero! Entre os magnificos edificios destruidos, conta-se a
magnifica Patriarchal de D. João V, o Paço real, a egreja de Santo
Antonio, os palacios dos tribunaes, ministerios, arsenal, casa da India,
alfandega, a vedoria, a Opera e os palacios de Lafões, Aveiro, Cadaval,
Marialva, Tavora, Fronteira, Valença e Louriçal, as bibliothecas real e
a de Lafões, a do convento de S. Domingos, a do Marquez de Louriçal, a
de Monseigneur Magalhães, e a do Inquisidor Simão José. Não se poude
saber ao certo o numero de mortos, mas foi avaliado em mais de dez mil.
Todavia alli onde tudo tremia e vacilava, via-se um só homem impassivel
e forte, era o Marquez de Pombal.
No meio d'estes horrores as prisões abertas deram saida aos malfeitores
que recuperando a perdida liberdade se lançaram como lobos famintos
sobre a desditosa cidade, levando comsigo a violencia, o roubo, a
embriaguez, cevando emfim a completa satisfação de todos os appetites
brutaes. Diz o sr. Smith no seu livro d'onde tenho extrahido grande
parte do que escrevo:--«Para corroborar os factos de que trato, fiz o
extracto de varias correspondencias do ministro inglez em Lisboa, que
não deixarão de interessar o leitor não só pela incontestavel
authenticidade, mas tambem porque n'elles se encontram circunstancias
que nunca foram publicadas. O seguinte é d'uma correspondencia de 6 de
novembro de 1755, onde se acha uma descripção viva e graphica d'aquelle
infausto successo.--«A perda do meu bom e digno amigo o embaixador
hespanhol, que ficou esmagado á porta de sua casa, quando tentava
escapar-se para a rua, junta á dôr que ha cinco dias me causam as
tristes noticias, que a cada passo nos trazem relativamente á sorte de
uma ou de outra pessoa do nosso conhecimento pertencente á nobreza, a
qual, pela maior parte, se acha inteiramente arruinada, tem-me
seriamente sensibilisado; mas o que sobre tudo me afflige é a sorte dos
desgraçados subditos de S. M. Britannica, da classe inferior, que de
todos os lados affluem a minha casa pedindo-me pão, e andam espalhados
por todo o meu jardim com mulheres e filhos; até agora não tenho deixado
de soccorrer a todos, e continual-o-hei a fazer em quanto me não
faltarem os meios, o que espero não succederá, attendendo ás
convenientes medidas que o sr. Carvalho para isso tem tomado. Tem-se
dado as melhores providencias possiveis para impedir o roubo e o
assassinato de que ha tres dias tem havido frequentes casos, vagueando
pela cidade turbas de desertores hespanhoes que se valem da occasião
para commetterem taes delictos. Tendo-me sido confiadas consideraveis
quantias que alguns inglezes que tiveram a felicidade de salvar parte de
seus bens, depositaram em minha casa, pelo que tive em toda a noite a
casa cercada de ladrões, escrevi esta manhã ao sr. Carvalho pedindo-lhe
uma guarda, o que espero me será concedido.»
Uma outra do mesmo ministro, de 15 do mesmo mez, refere as seguintes
particularidades:--«O primeiro abalo começou pelas dez horas menos um
quarto da manhã, e, tanto quanto pude julgar, durou seis ou sete
minutos; depois succedeu-se um intervallo de cerca de cinco minutos
antes do segundo, que durou uns tres minutos, pouco mais ou menos; de
sorte que n'um quarto de hora foi esta grande cidade convertida em
ruinas. Em seguida rebentaram muitos incendios, que no espaço de cinco
ou seis dias consumiram todos os generos e outras cousas. Parece que a
força do terremoto teve a sua séde mesmo no centro de Lisboa, por
que os prejuizos não são tão consideraveis para qualquer dos lados.
Julga-se que partiu do caes que se estende da alfandega até ao Paço, que
desabou, e se sumiu completamente, submergindo-se alguns barcos tambem
ao mesmo tempo. As aguas subiram de vinte a trinta pés, e desceram outro
tanto com intervallos, segundo me contaram.» (Isto parece dar rasão a
crer-se que no leito do rio se fizeram as mesmas fendas e abysmos, o que
explica as alternativas da agua subindo e baixando repentinamente). «Não
foi só Lisboa que soffreu os estragos do terremoto, por que se
estenderam a outras terras do reino (e tambem da Europa) principalmente
a Setubal e ao Algarve, onde foram bem sensiveis. Calcula-se que só em
Lisboa foram victimas d'aquella calamidade trinta mil pessoas, que
pereceram umas queimadas, outras afogadas, ou sepultadas nas ruinas.»