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*Projecto para a constituição de Portugal*

Lembrando-se os portuguezes, de que são de raça franceza, como

descendentes dos que conquistaram este bello paiz aos mouros em 1147, e

que devem á França, sua mãe patria, o beneficio da independencia que

recobraram como nação em 1640, solicitos recorrem cheios de respeito e

gratidão á paternal protecção que o maior dos monarchas ha por bem

outorgar-lhes. Dignando se o immortal Napoleão patentear-nos a sua

vontade por orgão de nossos deputados, quer que sejamos livres, e que

nos liguemos com indissoluveis laços ao systema continental da familia

europea, quer as nações, que compõem esta grande familia vivam unidas, e

que prestes possam gosar das delicias de uma prolongada paz, á sombra

dos sabios governos fundados nas grandes bazes da legislação e da

liberdade maritima e commercial. É portanto do nosso peculiar interesse,

assim como dos outros povos confederados, que a nossa deputação continue

a ser junto a sua magestade imperial e real a interprete de nossos

unanimes votos e que lhe diga:

Senhor! desejamos ser ainda mais do que eramos quando abrimos o Oceano a

todo o universo;

Pedimos uma constituição e um rei constitucional, que seja principe de

sangue de vossa imperial familia;

Dar-nos-hemos por felizes se tivermos uma constituição em tudo

similhante á que vossa magestade imperial e real houve por bem outorgar

ao grão-ducado de Varsovia, com a unica differença de que os

representantes da nação, sejam eleitos pelas camaras municipaes, a fim

de nos conformarmos com nossos antigos usos;

Queremos uma constituição, na qual, á similhança de Varsovia, a religião

catholica, apostolica, romana seja a religião do Estado; em que sejam

admittidos os principios da ultima concordata entre o imperio francez e

a santa sede; pela qual sejam livres todos os cultos e gozem da

tolerancia civil e de exercicio publico; em que todos os cidadãos sejam

eguaes perante a lei; em que o nosso territorio europeu seja dividido em

oito provincias, assim a respeito da jurisdicção ecclesiastica, como da

civil, de maneira que só fique havendo um arcebispo e sete bispos; em

que as nossas colonias, fundadas por nossos avós, e com o seu sangue

banhadas, sejam consideradas como provincias, ou districtos, fazendo

parte intregante do reino, para que seus representantes, desde já

designados, achem em a nossa organização social os logares que lhes

pertencem, logo que venham, ou possam vir occupal-os; em que haja um

ministerio especial para dirigir e inspeccionar a instrucção publica; em

que seja livre a imprensa, por quanto a ignorancia e o erro tem

originado a nossa decadencia; em que o poder executivo seja assistido

nas luzes de um conselho d'Estado, e não possa obrar senão por meio de

ministros responsaveis; em que o poder legislativo seja exercido por

duas camaras com a concorrencia da auctoridade executiva; em que o poder

judicial seja independente, o codigo de Napoleão posto em vigor, e as

sentenças proferidas com justiça, publicidade e promptidão; em que os

empregos publicos sejam exclusivamente exercidos por nacionaes que

melhor os merecerem, conforme o que se acha determinado no artigo 2.^o

da constituição polaca; em que os bens de mão morta sejam postos em

circulação; em que os impostos sejam repartidos segundo as posses e

fortuna de cada um sem excepção alguma de pessoa ou classe e da maneira

que mais facil e menos oppressiva fôr para os contribuintes; em que toda

a divida publica se consolide e garanta completamente visto, haver

recursos para lhe fazer face.

Queremos egualmente que a organização pessoal da administração civil,

fiscal e judicial, seja conforme o systema francez, e por conseguinte se

reduza o numero immenso de nossos funccionarios; mas desejâmos e pedimos

que todos os empregados que ficarem fóra dos quadros recebam sempre os

ordenados, ou pelo menos uma proporcionada pensão, _e que nas vacaturas

tenham preferencia a outros quaesquer_.

Era sem duvida inutil lembrar esta medida de equidade ao grande

Napoleão; mas como sua magestade imperial e real quer conhecer a nossa

opinião em tudo o que nos convem, evidentemente nos prova que é mais pae

do que soberano nosso, dignando-se consultar seus filhos, e prestar-lhes

os meios de serem felizes. _Viva o imperador!_

A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes · 第 55 / 59 题