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*Representação feita em Lisboa na junta dos tres Estados pelos

pseu-deputados de todas as classes*

Ordenando o general Junot que na junta dos tres Estados se ajuntassem os

deputados de todas as ordens civis para expressarem o voto geral da

nação, em consequencia do que a deputação portugueza havia communicado

na sua carta escrita do Bayonna em 27 de abril de 1808, foram nomeados

por esta conferencia secreta os seguintes:

_Pelo clero_. O principal Miranda, decano. O principal Noronha, seu

immediato.

_Pela nobreza_. O conde de Peniche, que presidia no conselho de fazenda.

D. Francisco Xavier de Noronha, presidente da meza da consciencia e

ordens.

_Pela municipalidade e povo_. O desembargador João José de Faria da

Costa Abreu Guião, que presidia no senado da camara. O desembargador

Luiz Coelho Ferreira Faria, seu immediato. O juiz do povo. O escrivão do

povo.

_Pela ordem da magistratura_. O desembargador Nicolau Esteves Negrão,

chanceller mór do reino. O desembargador Lucas de Seabra da Silva,

chanceller da caza da supplicação.

Estes dez deputados, juntando-se aos da junta dos tres Estados, que

então eram o conde da Ega, que presidia por ser titulo mais antigo, o

conde de Almada, e o conde de Castro Marim filho, todos elles assim

reunidos, formularam de commum accordo a seguinte representação:

Senhor:--Os representantes da nação portugueza, conhecida nos annaes do

mundo, e celebre, atrevemo-nos a dizêl-o, pelas suas conquistas e pela

sua fidelidade, teem a honra de apresentar-se ao throno augusto de vossa

magestade imperial e real.

Os acontecimentos extraordinarios, senhor, que agitaram a Europa toda

comprehenderam Portugal: uma politica mal entendida fez a esta nação

victima innocente dos males que tem experimentado. A consideração dos

interesses e relações que formam o presente systema federativo da

Europa, e as disposições beneficas de vossa magestade para com Portugal,

nos fazem conceber as mais lisongeiras esperanças de futura felicidade,

accolhendo-nos debaixo da magnifica protecção do heroe do mundo, do

arbitro dos reis e dos povos, que só póde cicatrizar as feridas da

patria, defendel-a do perigo da escravidão, e dar-lhe, entre as

potencias da Europa, aquelle logar distincto, que as profundas vistas

politicas de vossa magestade lhe tem desde já, como esperâmos,

designado. As circumstancias do tempo presente e a probabilidade do que

ha de vir nos faz conceber a causa dos males que temos soffrido e o

unico remedio a que devemos recorrer.

Interpretes e depositarios dos votos da nação, em nome de toda ella

rogâmos e aspirâmos a formar um dia parte da grande familia, de que

vossa magestade é pae benefico e soberano poderoso, e nos lisongeâmos,

senhor, que ella merece tal graça. Ninguem melhor do que o representante

de vossa magestade, o general em chefe do exercito de Portugal, e com

elle todo o seu exercito, póde dar maiores testemunhos do espirito

publico, que anima uma nação, que apezar dos maiores sacrificios e

privações, que as actuaes circumstancias lhe têem feito experimentar,

nada foi capaz de a fazer afrouxar em os sentimentos de admiração, de

respeito e de gratidão que todos nós professâmos a vossa magestade,

antes pelo contrario a intriga, as insinuações d'aquelles que se oppõem

ao nosso socego, e o pessimo exemplo dos nossos visinhos não fizeram

mais do que augmentar estes mesmos sentimentos, desenvolvendo aquelle

antigo germen de affeição, que sempre subsistiu entre estas duas nações,

lembrando-se os portuguezes de que o seu primeiro soberano fôra o conde

D. Henrique, principe francez.

Achâmo-nos, pois, plenamente convencidos de que Portugal não póde

conservar a sua independencia, animar a sua energia e o caracter de sua

propria dignidade, sem recorrer ás benevolas disposições de vossa

magestade. Ditosos seremos se vossa magestade nos considerar dignos de

ser contados no numero de seus fieis vassallos; e quando pela nossa

situação geographica, ou por outra qualquer razão, que a alta

consideração de vossa magestade tenha concebido não possamos lograr esta

felicidade, seja vossa magestade quem nos dê um principe da sua escolha,

ao qual entregaremos, com inteira e respeitosa confiança, a defeza das

nossas leis, dos nossos direitos, da nossa religião e de todos os mais

sagrados interesses da patria.

Debaixo dos auspicios da Providencia, debaixo da gloriosa protecção de

vossa magestade e do governo tutelar, que respeitosa e unanimemente

supplicâmos, nos lisongeâmos esperar, senhor, que Portugal assegurado

para sempre da affeição do maior dos monarchas, e unido por uma mesma

constituição politica aos destinos da França, verá renascer os ditosos

dias da sua antiga grandeza; a sua prosperidade será solida como a vossa

gloria, eterna como o vosso nome.

Lisboa, 24 de maio de 1808.

_Copiada do Correio Braziliense_--Vol. 13.^o fl. 738.

_N. B._ Foi esta mensagem assignada pelo conde da Ega, como presidente

d'aquella commissão secreta, e bem assim por todos os titulares e mais

fidalgos que se achavam em Lisboa, á excepção do marquez das Minas, o

unico que a isso se recusou. Os signatarios de modo algum representavam

a nação, com cujos interesses pouco se importavam; tinham apenas em mira

obter de Napoleão a conservação das regalias e privilegios que Filippe

II e D. João IV haviam confirmado a seus antepassados. A _Junta dos Tres

Estados_, de que era presidente o conde da Ega, só tinha attribuições

administrativas, não se parecendo em cousa alguma com as antigas côrtes

do reino. O juiz do povo foi obrigado a assignar esta representação

contra a qual havia a principio protestado.

A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes · 第 54 / 59 题