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*A deputação portuguesa enviada junto a sua magestade o imperador dos

franceses e rei da Italia, protector da confederação do Rheno, aos

compatriotas*

A confiança que depositastes no grande principe, junto ao qual temos a

honra de ser interpretes dos vossos sentimentos, e dos vossos votos, foi

inspirada, menos pelo conhecimento dos interesses da patria, do que pelo

desejo de confiar a decisão da nossa sorte ao poderoso genio, que, tendo

restaurado o seu paiz, deu uma nova constituição á Europa.

O tempo que nos demorámos na fronteira do imperio francez, e que

precedeu a chegada de sua magestade imperial e real, cabalmente nos

mostrou o imperio, que o grande monarcha exerce nos corações de todos.

As acclamações cada vez mais vivas de seus subditos nos annunciaram o

momento, em que devia completar-se a felicidade d'elles e começar a

nossa.

Sua magestade imperial e real concedeu o primeiro dia da sua chegada a

Bayona aos seus subditos (este é o tributo ordinario do seu desvelo para

com elles), e dignou-se conceder-nos o segundo. Sua magestade imperial e

real conhecia, ainda mesmo antes de lh'as expormos, a vossa posição, as

vossas necessidades e tudo quanto vos interessa. Se alguma cousa póde

egualar o seu genio, é a elevação da sua alma e a generosidade dos seus

principios.

Ao passo, que sua magestade imperial e real se dignava falar-nos das

nossas circumstancias politicas com affabilidade verdadeiramente

paternal, fazia as reflexões mais interessantes ácerca da nossa

felicidade, e manifestava os principios mais elevados a respeito do uso

dos direitos que as circumstancias lhe deram. Não foi como conquistador

que sua magestade imperial e real entrou no nosso territorio, nem como

tal quer que o seu exercito ahi permaneça. O imperador sabe que nunca

tivemos guerra com sua magestade imperial e real. Pela grande distancia,

que separa a nossa patria do seu imperio, não póde sua magestade

imperial e real vigiar sobre ella com a mesma attenção, com que vigia os

outros Estados seus, e com que, satisfazendo a todas as necessidades

d'elles satisfaz tambem o amor que sua magestade imperial e real

consagra aos que têem a fortuna de ser seus subditos: seguem-se muitos

inconvenientes da delegação de uma grande auctoridade em paizes mui

distantes. Sua magestade imperial e real não nutre desejo algum de

vingança, nem mostra rancor ao principe, que, nos governava, nem á sua

real familia. Sua magestade imperial e real occupa-se de objectos mais

nobres, e não tracta senão de nos ligar com as outras partes da Europa

ao grande systema continental, do qual devemos fechar o ultimo annel:

tracta de nos livrar da influencia estrangeira que nos dominou tantos

annos: o imperador não póde consentir uma colonia ingleza no continente:

o imperador não póde nem quer deixar aportar a Portugal o principe, que

o deixou, confiando-se na protecção de navios inglezes.

Sua magestade imperial e real, considerando a vossa situação, houve por

bem declarar-nos que a nossa sorte dependia de nós; isto é, do espirito

publico que mostrassemos, com o qual nos unissemos ao systema geral do

continente, e concorressemos para os acontecimentos já preparados, assim

como da nossa vigilancia e da firmeza, com que repellissemos as

sugestões e intrigas que são de esperar, e que, sem proveito real para

os que forem auctores, ou objectos d'ellas só pódem causar a nossa

desgraça. Estes são os signaes por onde sua magestade imperial e real

quer julgar se somos ainda dignos de formar uma nação capaz de sustentar

no throno o principe, que nos governar, e de occupar entre as nações o

logar que nos compete, ou se, devemos ser confundidos com aquella, cuja

posição mais se approxima de nós mas de quem tão grandes motivos nos

afastam. Vereis com reconhecimento e admiração nestas sabias disposições

os profundos conhecimentos de sua magestade imperial e real, que não

quer decidir a sorte de um Estado, senão conforme os seus desejos

manifestados por factos. Cumpre aos magistrados e ás pessoas mais

auctorizadas que existem entre vós, cumpre a vós todos dar a maior

publicidade ás beneficas intenções de sua magestade imperial e real.

Esperâmos pois que confirmareis os protestos que lhe fizemos em vosso

nome.

Quando um grito unanime, arrancado no fundo dos nossos corações, mostrou

o desejo que tinhamos de ser uma nação, então mais do que nunca nos

julgámos dignos interpretes dos vossos sentimentos. O imperador, que

depois de tantas tempestades soube fazer da sua patria o primeiro paiz

do mundo, deverá conhecer que a nossa não merece ser o ultimo.

Sua magestade imperial e real conhece as privações que a interrupção

momentanea do commercio vos faz supportar: vosso estado a este respeito

é o mesmo que o do resto da Europa e que o da America; é consequencia de

uma lucta, cujo futuro resultado vos póde compensar os trabalhos do

tempo actual; tambem não esqueceu a sua magestade imperial e real a

coacção, em que vos poz a entrada de um exercito estrangeiro. O

imperador deseja ardentemente prevenir que esta desgraça se renove.

Affigiu assáz seu coração o pezo da contribuição que opprime Portugal: a

sua bondade lhe dictou a promessa de a reduzir conforme fosse compativel

com os nossos haveres. Os portuguezes, que estavam prisioneiros em

França, graças á clemencia do imperador, gozam já da liberdade.

Sua magestade imperial e real nos auctoriza para que vos participemos as

suas intenções, certos que ellas excitarão em vós a maior gratidão e o

mais sincero desejo de lhe corresponderdes.

Continuaremos a preencher junto a sua magestade imperial e real, e

conforme suas ordens, uma missão que não tem difficuldades, pois que a

bondade do imperador se une á sua sabedoria para simplificar os nossos

maiores interesses.

Bayona, 27 da Abril de 1808==(_assignados_) marquez de Penalva==marquez

de Marialva==D. Nuno Caetano Alvares Pereira de Mello==marquez de

Valença ==marquez de Abrantes==marquez de Abrantes, D. José==conde do

Sabugal==Francisco, bispo de Coimbra==conde de Arganil==José, bispo,

inquisidor geral==visconde de Barbacena==D. Lourenço de Lima==D. José,

prior mór da ordem militar de S. Bento de Aviz==Joaquim Alberto

Jorge==Antonio Thomaz da Silva Leitão.

A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes · 第 53 / 59 题