II

O resto, o peior da empreza, encarregou-se o brigadeiro Margaron de

o concluir por ordem de Junot, etc., pag. 29.

Coimbra sublevou-se contra os francezes no dia 22 de junho, formando

logo para sua defeza a legião academica, composta dos estudantes ás

ordens do vice-reitor. O Porto tinha-se levantado no dia 18, dando o

exemplo a toda a provincia do Minho. O Algarve insurgiu-se a 16. A

provincia da Beira não se demorou tambem. Dentro de poucos dias o

incendio tinha-se extendido a todo o reino, tornando-se geral.

Os francezes conservavam guardas avançadas em Pombal e Leiria. Quinze

estudantes e um cabo conceberam o projecto de desalojar, e sairam com

esse intento de Coimbra no dia 28 de junho. Perto de Leiria foram

accommettidos por vinte e dois dragões de Junot; travou-se a peleja; a

cavallaria inimiga cedeu, e communicou o panico ao resto da força

postada á entrada da ponte. Esta, recuando, dispersou-se, ferida de

terror.

O governo francez, offendido do atrevimento, decidiu dar um exemplo

severo, castigando Leiria. O general Margaron partiu de Lisboa á frente

de dois batalhões, de quatro companhias escolhidas, e de seis peças de

artilheria, incumbido da execução marcial decretada contra a cidade.

A columna provou logo em Alcoentre o seu ardor de vingança. Tomando o

innocente cirio da Ameixieira por um tropel de guerrilhas, Margaron

manda armar uma embuscada por traz de um pinhal, e o chefe de esquadrão

Salm-Salm investe, intrepido e implacavel, os aldeãos devotos, como se

fossem leões embravecidos. Aos primeiros tiros caem por terra banhados

em sangue o gaiteiro e o prégador. Depois são assassinados

indistinctamente homens, mulheres, e crianças. A fuga salva o maior

numero da furia dos vencedores, cujos despojos n'esta batalha incrivel

são duas bandeiras de Nossa Senhora, expostas como tropheus no quartel

general. O boletim de 7 de julho teve a ingenuidade de commemorar como

derrota de um exercito de rebeldes esta carnificina do povo inerme!

No dia 5 uniu-se o general Thomiéres com 800 homens a Margaron, e

marcharam ambos contra Leiria A cidade passou, como é de crer, dos

fogosos arrebatamentos de jubilo patriotico a uma sombria apprehensão

dos males, que a ameaçavam. Não contava para se defender, senão com os

brios já desalentados de algumas companhias de ordenanças, que haviam

principiado a organizar-se sob o commando do coronel de cavallaria

Rodrigo Barba Allardo, alcaide mór. O capitão mór, Manuel Trigueiros,

auxiliava-o com mais zelo, que pericia, e o coronel de milicias Isidoro

dos Santos Ferreira procurava reanimar o esforço de todos com seus

discursos. Era pouco para arrostar em fortificações, nem meios solidos

de resistencia o valor disciplinado dos soldados do exercito da Gironda.

A noite, e a noticia do que occorrêra em Alcoentre, acabaram de

arrefecer o enthusiasmo amortecido dos moradores. Rodrigo Barba, os

magistrados, e o bispo, não julgando prudente, desarmados, como se viam,

affrontar as iras dos inimigos, evadiram-se sem ruido durante a calada

das trevas. Quando rompeu o dia, apenas oitocentos homens da plebe, e

duzentas ordenanças de espingardas e chuços se atreveram com temeridade

louca a disputar sem chefes a entrada da cidade aos francezes. Margaron

deu-lhes as honras de guerreiros consumados, tomando as disposições, que

poderia exigir uma força regular e numerosa. Avançou contra Leiria com

as tropas divididas em duas álas e a artilheria no centro. Disparados os

primeiros canhões, e dadas as primeiras descargas de mosqueteria, o povo

fugiu em confusão, e os francezes apoderaram-se da cidade com perda de

um homem morto e de dois feridos!

Os vencedores despregaram então toda a crueldade contra velhos,

mulheres, e crianças, que imploraram debalde a sua misericordia, e

metteram toda a povoação a ferro e saque. O principe de Salm-Salm

sobresaiu com ferocidade n'esta campanha contra prisioneiros inermes. O

palacio episcopal, a Sé, e os templos foram roubados; as egrejas

desacatadas; as casas particulares invadidas e despojadas. O resultado

foi incenderem-se mais os odios, e recrudescer a resistencia nacional.

(Vid. general Foy tomo II liv. VIII).

A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes · 第 40 / 59 题