A festa do Corpo de Deus, instituida em 1264 pelo Papa Urbano IV, para
dar a Jesus Christo culto particular, era solemnizada nas villas e
cidades principaes do reino com exquisitas invenções de figuras, danças,
e folias. A procissão saía na primeira quinta-feira, depois da festa da
Santissima Trindade, attraindo os olhos, e enlevando a imaginação do
povo pelo esplendor e pompa, de que se rodeava.
As noticias impressas mais antigas, que sobrevivem ácerca d'ella,
encontram-se nas _Dissertações Chronologicas_ de João Pedro Ribeiro, e
no _Novo Regimento para o governo da mesa da bandeira de S. Jorge,
fundada nas cartas, alvarás e lembranças do antigo regimento, que se
queimou pelo terremoto de 1755_, publicado pelos habeis archivistas da
camara municipal de Lisboa, em cujo cartorio se guarda.
No seu romance intitulado o _Monge de Cister_, com tanta rasão admirado
como primoroso modelo da novella historica, descreve o sr. A. Herculano
(tomo II e pag. XVII) a procissão de corpus referida ao anno de 1384;
reinado de D. João I; e o quadro do poeta, desenhado do natural, é tão
perfeito e verdadeiro, que vemos resuscitadas e vivas n'elle as feições
do grande espectaculo religioso da meia edade n'este dia.
João Pedro Ribeiro, no tomo III das _Dissertações Chronologicas_, doc.
LII pag. 153, insere um alvará datado de 16 de agosto de 1630, pelo qual
o rei ordena, que os tribunaes do Porto acompanhem de futuro a procissão
do Corpo de Deus da mesma fórma, que a tinham acompanhado n'este anno.
No tomo IV das _Dissertações_ (doc. XIII a XVI.) publica duas cartas da
rainha regente D. Catharina, uma datada de 30 de maio de 1560, e a outra
de 13 de maio de 1561, nas quaes dicta alguns preceitos ácerca do modo e
fórma de reger a procissão na cidade do Porto, e de cohibir as
representações deshonestas e escandalosas, introduzidas n'ella.
Outras duas cartas, uma de el rei D. Filippe III, escripta em Aranjuez
em 15 de maio de 1607, outra dirigida ao juiz, vereadores e procurador
da camara da cidade do Porto, pelo marquez de Castello Rodrigo em 18 de
maio de 1608, (doc. XV e XVI), tractando do mesmo assumpto, respondem ás
queixas do bispo D. Fr. Gonçalo de Moraes, e providenceiam ácerca
d'ellas. Finalmente o _Regimento feito pelos officiaes da camara da
cidade do Porto para a procissão de corpus com o parecer do Dr. Antonio
de Cabral, chanceller da Relação_, regimento approvado pelo alvará de 15
de julho de 1621, encerra o plano de distribuição das figuras, córos,
danças, folias, monstros, chacotas, imagens, anjos, demonios, andores,
charolas, communidades, clero, e tribunaes, que haviam de acompanhar o
prestito, determinando o logar, que lhes cabia n'elle, e a ordem em que
tinham de caminhar.
No _Regimento Novo_ de Lisboa, que já citámos, diz-se que a primeira
vez, que o sr. S. Jorge saiu com o seu estado na procissão foi no anno
de 1387 por ordem expressa de D. João I. No reinado de D. João III, em
1538, o prestito era tão vistoso e variado pela singularidade e
invenções das figuras, e pela opulencia e riqueza que ostentavam as
corporações mechanicas, que não admirava que se despovoassem os
arrabaldes e até as provincias para assistir a tão sumptuosa festa. Em
tempos mais proximos havia toirada no dia da procissão.
D. João V, instituindo a Patriarcal em 1717, decretou nova fórma á
procissão de corpus, tornada menos profana e mais devota. A grande pompa
e o immenso cortejo, que a ennobreceu no anno de 1719, proporcionou
fecundo thema á eloquencia do incansavel irmão Barbosa Machado, auctor
da obra a que se refere o texto.