O duque de Abrantes mostrou-se digno dos feitos heroicos, que
ennobreceram a sua carreira etc. pag. 68.
A vida de Junot comporia quasi um romance.
Nascido em 23 de outubro de 1771 contava trinta e sete annos em 1808.
Estudante do collegio de Châtillon, quando rebentou a revolução, alistou
se como voluntario em uma companhia de granadeiros, e combateu com
denodo em defeza da patria. O valor temerario e arrebatado grangeou-lhe
no quartel a alcunha do _Tempestade_; mas a sua elevação começa em
Toulon. Bonaparte conheceu-o e apreciou-o alli, e nunca mais deixou de o
proteger.
As proezas com que sobresaiu nas campanhas de Italia e do Egypto, e a
dedicação pessoal, que sempre votou a Napoleão I, apressaram a sua
carreira. Nomeado governador de Paris depois do dia IX thermidor, e
casado com Mademoiselle Permon, cuja casa frequentára com Bonaparte em
dias menos felizes, subiu rapidamente os postos. Em 1804 achava-se
coronel general dos hussards. Embaixador em Lisboa e condecorado por D.
João, principe regente com a gran-cruz de Christo, saiu da côrte
portugueza em outubro de 1805 sem licença, e veiu apresentar-se a
Bonaparte nas vesperas da batalha de Austerlitz, aonde realçou a antiga
valentia em mais de um rasgo brilhante.
Em julho de 1806 foi nomeado governador de Paris e commandante da
primeira divisão militar. Prodigo e singular nos appetites, não havia
ouro que o saciasse. Os excessos repentinos e fulminantes da sua ira
assustavam até os amigos mais intimos. Napoleão escolheu-o para
capitanear o exercito, que invadiu Portugal em 1807, e a principio não
teve rasão de se arrepender. A sua marcha rapida sobre Lisboa pelas
montanhas da Beira mereceu os louvores dos militares, e justificou o
titulo de duque de Abrantes, com que o imperador o recompensou.
A convenção de Cintra não interrompeu a carreira de Junot. Na Hespanha,
na Allemanha, e outra vez em Portugal, mas ás ordens de Massena, a sua
espada não ficou ociosa. Ferido gravemente no rosto durante a guerra da
Peninsula recolheu-se a Paris. Depois da campanha de 1812, em que o
imperador o censurou de irresoluto em um dos seus boletins, a rasão do
duque de Abrantes principiou a vacillar, e em Veneza acabou de se
abysmar nas sombras da demencia. Transportado para casa de seu pae, em
Montbard, falleceu a 22 de julho de 1813 de um accesso violento de febre
depois de uma dolorosa amputação.
Junot não era soldado rude e grosseiro. Gentil e urbano, sabia attrahir
pelas maneiras, e era susceptivel de sentimentos elevados e de acções
nobres. Intrepido e intelligente, se os perigos e a morte o não faziam
recuar, o pezo das responsabilidades acurvando-lhe com frequencia o
animo, tornava-o inferior a si proprio nas posições eminentes. Nascêra
para ser o segundo e nunca para ser o primeiro nas arriscadas funcções
do governo. Os erros, que lhe estranham mais, derivaram-se todos d'esta
incapacidade natural. Cultor das boas artes, e dotado de gosto e critica
judiciosa, a sua bibliotheca encerrava os mais bellos exemplares das
edições de Bodoni e Didot impressas em velino. Em Lisboa, entre as
cousas raras, que tomou para si, figuravam a famosa Biblia ornada das
miniaturas de Julio Clovio e alguns quadros preciosos.
Junot morreu aos quarenta e dois annos, tendo vivido por seus vicios e
fadigas quasi tres edades de homem. Os costumes dissolutos, que, longe
de encobrir, parecia alardear, a avidez pouco escrupulosa, com que se
maculou em diversos lances, o fausto e as prodigalidades, de que se
rodeava, e as furias momentaneas de um genio assomado, raiando quasi em
demencia empanaram e diminuiram a gloria conquistada pelo seu valor de
paladino em campos de batalha memoraveis.
Sua mulher, a duqueza de Abrantes, não foi menos celebre como escritora
e como dama espirituosa.