Nestas quatro, e mais horas, que o sumo da Canna, liquido mui composto,
se deixa em repouso, fermenta; o que deprava o liquor, e diminue a
quantidade de Assucar, e sua qualidade.
Se o parol he de madeira, conserva sempre em si hum fermento, que ajuda
extraordinariamente esta deterioração. Quando o caldo da Canna passa do
parol para a caldeira, vai frio; esta, que he de ferro coado, e está
muito quente, recebendo repentinamente huma impressão tão estranha, póde
rachar, o que muitas vezes succede. Hum calor moderado, que faz subir á
superficie do liquor, as partes impuras, a que se chama cachassa, não
dura o tempo que he preciso; logo que a caldeira levanta fervura, todas
as partes são confundidas: a decoada, que se lhe lança, tem a
propriedade de se combinar com as partes oleosas, e acidas, e de nenhuma
sorte com este gusmo, que incorporando-se com o Assucar, o faz
trigueiro, e perder a qualidade. O obreiro, que governa esta caldeira,
ainda que o descachassalla não dure meia hora, faz hum trabalho
fatigante, pela postura curva, em que he preciso estar; e mais se fatiga
ainda, quando, julgando-a limpa, lança o liquido a braço com a pomba, no
parol de caldo quente. Os parois de caldo quente, tem o mesmo defeito,
que os de caldo frio, se são de madeira; e se o liquido, que nelles se
deposita, chega a esfriar, o que quasi sempre succede. O bangué, he
proporcionado ao pouco, que se trabalha.
A construcção desta fornalha, he positivamente má, o fogo faz o seu
effeito inversamente. A tacha, chamada de receber, que póde com mais
calor, por ser o liquido que contém, menos denso, he a ultima proxima á
chaminé; a de cozer, está no meio, a de bater, e apurar o Assucar, he
junto á boca da fornalha.
Para que a tacha de receber tenha maior calor, descobrem-lhe mais o
fundo, menos a de cozer, e muito pouco á de bater. Ainda que o liquido,
que contém estas tachas, esteja a ferver, a voz do Mestre de Assucar não
cessa de dizer: _Fornalheiro, deita lenha_.
Este fogo demasiado decompõem o Assucar, transforma-o em mel, ou Assucar
queimado. Em algumas fábricas há já bangués, em que quatro, e cinco
tachas recebem o fogo directamente; porém os obreiros, que as fazem,
gente material, e sem principios; os Mestres de Assucar, tirados do seu
trilho, sem capacidade para moderar o fogo, que pela fornalha direta, se
augmenta muito; huma boca mui pequena, que nellas se pôz, e faz precisar
o rachar-se lenha, ou servir-se só de lenha miuda; hum crivo
desproporcionado, a boca da fornalha aberta, todas estas cousas fazem,
com que a maior parte use das antigas.
A bacia, ou esfriadeira, he inutil. As fôrmas de barro tem pequena base,
e muita altura; ainda que estes defeitos não fossem bastantes, a sua
fragilidade devia fazellas desprezar. A decoada, e fórma de a fazer, não
póde ser mais defeituosa; as hervas acres, só servem de a tingir, e a
côr, que lhe communicão, se incorpora com o Assucar. Tenho visto parar
engenhos, e bem notaveis, por falta de decoada; ainda que haja cinza,
são precisos dois, e tres dias para se fazer; não há regra, humas vezes
he forte, outras fraca.
A massa de Mamono, quasi sempre he podre, ao menos conserva hum cheiro
detestavel. Não há escolha no barro para clarificar o Assucar; qualquer
serve, he sempre de hum cinzento escuro, e quando, depois de sêcco, se
tira de cima da fôrma, deixa encostrado sobre o Assucar, hum sedimento
negro. A fórma de seccar o Assucar no terreiro, he pessima; além de ser
preciso ter sentinela, ainda que quem o vigia, seja hum Argos, não
impede, que se furte muita parte; a formiga, a galinha, o cão, o porco,
todos o comem; o vento faz depositar nelle mil impuresas; se há chuvas
continuadas, o que succede muitas vezes, não podendo as fôrmas sahir da
casa de purgar, mélla o Assucar nellas; a estufa salta aos olhos, porém
ninguem a pôz ainda em prática. O bater a calda, levantando-a da tacha
na batedeira, com inclinação sobre huma parede, onde cahe muita parte
della, não sei que isto possa servir para fazer Assucar, vejo que se faz
hum encostramento na parede, que he preciso fação para o arrancar; esta
especie de Assucar encostrado, a que se chama rapadura, para ter algum
valor, he preciso tornar á primeira tacha, e antes que a ella vá, tem
mil descaminhos. O tanque do mel, além de ser huma verdadeira sentina,
hum aggregado de mil imundicias, o mel faz apodrecer o tijolo, a que faz
perder pela terra muita parte, que bem acondicionada, se aproveitaria em
aguardente.
_Principios, que devem conduzir o fabricante de Assucar._
Quando de hum todo, ou composto, se quer extrahir huma parte, he preciso
conhecer esta parte, e as mais, que com ella fazem o mesmo todo, e saber
a fórma de as separar. O Assucar purificado, segundo _Cartheuser_, he
hum corpo concreto, salino, formado de huma terra soluvel, de hum acido
subtil (de que huma parte he intimamente unida a huma base alcalina, e
calcarea) e de huma substancia oleosa inflammavel.
O sumo, ou caldo de Canna, que contém este sal delicioso, he hum
composto de agua, mel, oleo, e acido; e das materias extractivas, da
casca, dos nós, e das fibras longitudinaes da mesma Canna.
Deve-se buscar na fábrica do Assucar, o separar estas tres especies de
materias extractivas, rezinosas, ou feculas (que fazem o que se chama
cachassa) o oleo, e acido superabundantes, e evaporar a agua.
Estas operações, que são chymicas, sendo bem feitas, constituem o bom
Mestre de Assucar.
O unico meio, até agora conhecido, para separar as tres feculas, que
fazem a cachassa, he hum calor, que a mão não possa supportar, porém que
de nenhuma fórma chegue ao gráo de fervura. Para separar o oleo, e acido
superabundantes, não se sabe de outro meio mais, que os alcalis,
vegetal, e calcareo, quero dizer, as decoadas de cinza, e de cal,
combinadas.
Qualquer destas duas decoadas por si, tem a propriedade de se unir aos
oleos, e acidos, e fazer com elles hum sabão, que se mostra na fórma de
espuma; porém Bergman observou, que o alcali calcareo prefere o acido, e
o alcali vegetal o oleo; o que faz precisar a combinação destas duas
especies da alcalis, para a depuração do Assucar. Se o sumo, ou caldo de
Canna he muito aquoso, oleoso, acido, pouco assucarado, quero dizer,
produzido por huma Canna taióba, ou selvagem, deve ser servida a
caldeira com decoada pura, no ponto, em que fica, segundo a fórma de a
fazer, que logo direi.
Se, pelo contrario, he rico em sal, pouco aquoso, muito denso, produzido
por huma Canna de boa qualidade, deve a decoada ser enfraquecida com
agua pura. Esta maior, ou menor força da decoada, he relativa ao sumo,
ou caldo de Canna, por ser preciso ter, onde se empregue, para
deteriorar o Assucar, e communicar-lhe hum gosto lexivial.
A evaporação da agua deve ser feita por hum fogo graduado, e poupado;
por ser fysicamente demonstrado, que qualquer liquido, chegando a
levantar fervura, tem alcançado o maior gráo de calor, de que he capaz,
e que he em pura-perda, toda a mais lenha, que se lança na fornalha.
Este calor demasiado, perdido para a evaporação, decompõem o Assucar, e
o reduz a mel, ou Assucar queimado. A evaporação de qualquer liquido, he
em rasão da sua superficie; para esta se augmentar, he preciso levantar
o liquido, e deixallo cahir em columna; tanta he a superficie desta,
quanta a augmentação da evaporação, respeito á que tinha na tacha
simplesmente fervendo.
Todo o liquido mucoso, doce, tendo fluidez sufficiente, ajudado pelo
calor, e influxo do ár, entra promptamente em fermentação. Esta
fermentação decompõem o Assucar, que tranforma em espirito, de sorte,
que certa quantidade de liquido, que produziria vinte, se chega a
fermentar, póde dar sómente quinze, dez, e mesmo nada, e esse menos que
se fizer, ha de ser de má qualidade. O gráo de frio, que géla a agua,
impede a fermentação, porém este meio só a natureza o póde dar, e no
Brasil he impossivel; o que temos na nossa mão, e facil, he darmos, e
conservarmos hum calor ao liquido, que quasi o faça ferver. A rasão
porque se diz, ser bom trabalhar em quente, e muito máo em frio, he por
este frio ser o do ár, que no Brasil ajuda prodigiosamente a
fermentação, e o quente, he o liquido quasi fervendo, que a impede.
Ora, sahindo o caldo quasi fervendo da caldeira, e passando ás tachas
quasi com esta quentura, trabalha-se bem, e apura-se o mais possivel;
esfriando no parol, assim que alcança o calor, que favorece a
fermentação, entra logo nella, porque a natureza não pára; e quanto mais
tempo assim se conserva, tanto mais se deteriora, perde o rendimento, e
custa a trabalhar.
_Preparo para manufacturar o Assucar._
Dois parois de cobre bem estanhados, que não tenhão mais de dois palmos
de altura, com sufficiente largura, e comprimento, para conter cada hum
tanto liquido, quanto caiba na caldeira, sem sobejar. Devem ser cubertos
de taboas, para impedir o mui livre contacto do ár; com hum furo na
tampa, para dar entrada a hum grosso, e comprido funil, que recebe da
calha o sumo da Canna, e o deposita no fundo do parol.
Devem ter na parte mais commoda do fundo hum grosso furo, onde he
soldado, hum curto tubo, que hum comprido torno tapa, para, quando for
tempo, dar sahida ao liquido, que huma calha conduz á caldeira. Devem
ter sua fornalha, que póde ser commua a ambos, e serem assentados nella
com huma pequena inclinação, para facilitar a sahida do liquido.
Duas caldeiras, cada huma com sua fornalha; assentadas o mais alto
possivel, bordadas de ladrilho, com sua cochinha para receber sómente
espumas. Dois funis grandes de folha de flandres, com altura, que possão
chegar ao fundo das caldeiras. Hum bangué de tres tachas, cuja
proporção, e fórma adiante descreverei. Quatro esfriadores. O esfriador,
he huma especie de caixão, com dois palmos de altura, oito de comprido,
e tres de largo, feito de cossueiras de boa madeira, bem aplainadas.
Cem fôrmas. A fôrma tem a figura de prisma triangular, deve ser feita de
cossueiras de boa madeira, bem aplainadas, de quatro palmos de comprido,
dois, ou mais de largura, fazendo huma abertura de dois palmos, fechando
em baxo, e deixando aberta huma fenda de duas linhas; aplainadas no
fundo, para fazerem hum assento de tres a quatro pollegadas; as cabeças
hão de ser malhetadas, e feitas com toda a solidez.
A _Figura II._ da _Estampa VII._, mostra a fôrma vista com a boca para
cima; e a _Figura III._ mostra a mesma fôrma com o fundo para cima, e a
fenda aberta para escôo do mel.
Tres baldes de valvula em polé, hum para servir as caldeiras, outro as
duas primeiras tachas, e o terceiro he para servir sómente a tacha,
chamada de bater. Estes baldes devem ser de estanho, a valvula, do mesmo
metal, assentada em boa solla; a ponta desta valvula deve conter hum
pequeno aro, onde jogue hum arame grosso de dois palmos, e meio de
comprido; neste arame, que acaba tambem em aro, prende huma delgada
corda, que, passando na polé, chegando á mão do obreiro, facilita-lhe o
levantar a valvula, e deixar cahir o liquido em columna, ou sobre huma
calha, segundo a necessidade. O balde tem dois palmos de altura, e palmo
e meio por cada face, e póde conter noventa libras de agua; a valvula
tem pouco mais de hum palmo quadrado, e a columna de liquido, que
descarrega, he de hum palmo. O apoio da polé está em tres palmos, a
alavanca he de seis, e como pésa mais, o obreiro balanceia o pêso do
balde cheio, com trinta e tantas libras. A _Estampa VI._ mostra o
trabalho do balde. Huma estufa. Esta casa tão util, absolutamente
precisa, que a negligencia, a ignorancia, a falta de economia tem
despresado, deve ter até vinte palmos em quadro, feita de paredes
mestras, cuberta de abobada reforçada; com duas aberturas da altura de
hum homem, e cada huma com duas portas, feitas de cossueiras; huma
destas aberturas communica com a casa de purgar, e a outra com a casa de
encaixe. Deve ter tambem huma janella alta com dobradas portas, para se
abrirem defóra, quando for preciso refrescar o ár da estufa. Todas estas
portas devem ter boas chaves. Dentro desta casa, sobre pontaletes, se
fazem tres taboleiros, com taboas bem sêccas, bem desempenadas, bem
lisas, unidas com meio fio, que fiquem acima huns dos outros, de seis a
oito palmos. O soalho desta casa, deve ser feito sobre abobada, ou
aterrado sobre ella. Na parte exterior, que communica com a varanda, tem
esta abobada huma abertura, que dá passagem ao calor, communicado por
huma fornalha, a huma chapa de cobre circular bem grossa, de tres palmos
de diametro. Esta fornalha tem seu cinzeiro, e he servida com lenha pelo
fornalheiro do Bangué. Quatro ensinhos para os esfriadores. Este ensinho
tem vinte dentes, dezoito em prisma quadrangular, e os dois dos lados,
em prisma triangular, afastados huns dos outros, duas linhas, e cada
dente tem dois palmos de altura. A _Figura II._ da _Estampa V._, mostra
os dentes vistos de topo, com a disposição, figura, e distancia, que
devem ter no seu estado natural; o escuro da Figura, he a espiga, que se
introduz no taboão, onde se firma o cabo porque puxa o obreiro.
Alguns pannos, para servir de coadores. Espumadeiras, Rominhois,
Repartideiras, Manteiga de cacáo, ou qualquer oleo doce, para impedir a
sublevação do liquido. Vasilhas de barro para decoada, porque as de
madeira communicão-lhe côr. Quatro raspas de ferro, que tenhão a fórma
de enchós de martello.
_Fórma de fazer a decoada._
Peneira-se meio alqueire de cal, para separar todas as partes não
calcinadas; deita-se em huma fôrma, ou qualquer vasilha de bom barro,
eleva-se a hum forno de telha, ou tijolo, ou a qualquer parte, onde
receba grande fogo; o calor, que aqui recebe, faz evaporar a agua da sua
extincção, e a reduz a cal viva, ou virgem.
Deita-se esta cal virgem n'huma caldeira, que contenha doze vezes o seu
volume de agua; depois de se demorar hum quarto de hora, tira-se esta
agua com hum rominhol, e se côa para outra caldeira. Tomão-se duas
partes de cinza, que he hum alqueire (porque a cinza deve ter dobrada
porção da cal) e deita-se tambem n'huma caldeira, que contenha doze
vezes o seu volume de agua, mexe-se bem com huma espatula, deixa-se
assentar, tira-se esta agua impregnada do sal da cinza, e côa-se para a
mesma caldeira, onde está a agua de cal. Faz-se fogo a esta agua; a
evaporação concentra os alcalis da cinza, e cal, faz-se de vez em quando
a prova, tirando n'hum rominhol huma pouca desta decoada, deitando-lhe
hum ovo fresco em cima; quando este ovo não vai ao fundo, que sobrenada
huma parte delle, e descobre meia pollegada, pouco mais, ou menos, está
feita a decoada no seu ponto. A cinza que ficou, tambem não he perdida;
deitada, e espalhada debaxo de hum alpendre, ou telheiro, o ár, em
poucos mezes, communica-lhe novos saes, e queimada de novo, produz mais
alcali.
_Descripção, e proporções do Bangué._
O Bangue deve conter tres tachas, a primeira, a que chamão de receber,
tem quatro palmos de diametro na boca, a segunda tres e meio, e a
terceira tres. A primeira tacha, tem a boca quatro palmos acima da
superficie da casa, chamada de caldeiras; a segunda tacha, seis palmos,
e meio, e a terceira oito palmos, e meio; o que faz precisar haver
degráos da primeira para a segunda, e desta para a terceira; e huma
rampa da ultima, para a conducção da calda. A disposição das tachas
desta fórma, he para a columna do fogo arrastar pelo seu fundo, por huma
linha de trinta gráos. A boca da fornalha tem palmo, e meio, ou hum pé
quadrado, deve ser feita de ferro vergalháo bem grosso, e ter huma porta
de ferro, que só deve abrir-se, quando se servir com lenha. Da porta
desta fornalha, pela abobada, que cobre o cinzeiro, se descreve huma
linha de quinze gráos, até dez palmos do interior della, onde fórma hum
resalto de dois palmos, e dahi se descreve outra linha de trinta e cinco
gráos, que tambem tem dez palmos de comprido, e acaba na parede, que
fórma a chaminé. Esta chaminé he hum quadrado de oito pollegadas por
cada face, que corresponde ao centro da fornalha.
Na abobada, que cobre o cinzeiro, há hum buraco de seis pollegadas em
quadro, que corresponde ao centro do fundo da primeira tacha, e deve ser
formado por huma barra de ferro vergalháo grosso, quadrilaterado.
A boca deste cinzeiro, deve ter dois palmos quadrados, e elle ser
ladrilhado. A _Estampa V. Fig. I._ mostra o bangué com as paredes dos
lados abatidas, para se ver facilmente todo o seu interior, e
proporções.
Num. 1, 2, e 3, as tres tachas; 4, a boca da fornalha; 5, o vão da
fornalha; 6, o resalto de dois palmos; 7, a boca da chaminé; 8, a boca
do cinzeiro; 9, o vão do cinzeiro; 10, a communicação do cinzeiro, com a
fornalha.
A linha de 4 a 7, he de 30 gráos: A linha de 6 a 7, he de 35 gráos: A
linha de 4 a 6, he de 15 gráos: O cheio, são paredes de tijolo: O
ponteado he o aterro.
Esta fornalha he a de Macquer, adoptada no modo possivel á fábrica do
Assucar. Servida com lenha, o fogo accêso, a boca tapada, o ár
rarificado dentro pelo calor, com tão prompta sahida pela chaminé,
absorve, pelo canal do cinzeiro, huma columna de ár, com maior, ou menor
rapidez, segundo a sahida que tem.
Este ár, alimentando o fogo, o faz subir tambem em columna ao centro do
fundo da primeira tacha, e daqui corre, arrastando o fundo da segunda, e
terceira, para sahir pela chaminé. Esta sahida, que he de sessenta e
quatro pollegadas quadradas, respeito á da entrada, pelo cinzeiro, que
he de trinta e seis, augmenta extraordinariamente o movimento, e por
consequencia, a intensidade do calor. Este calor, com dois tijolos na
boca da chaminé, modera-se, segundo a precisão. Estando todo o vacuo da
chaminé aberto, e a fornalha com lenha sufficiente, he o maior calor
possivel; e com a mesma quantidade de lenha, tapando-se mais, ou menos,
a boca da chaminé, diminue proporcionalmente. A fórma de alimentar o
fogo desta fornalha, he lançar-lhe dentro hum páo, que tenha até seis
pollegadas de diametro, pouco mais, ou menos, com oito palmos de
comprido, cuja ponta se faz chegar até ao resalto, e alguns feixes de
bagaço; este páo se puxa com hum gancho de ferro, a chegar a ponta a
cobrir a communicação do cinzeiro, com a fornalha, á proporção, que o
fogo a devora; e assim se continua, A Estampa mostra tambem o fogo.
_Preparo do barro para clarificar o Assucar._
O tanque de preparar o lodo, com que se ha de clarificar o Assucar, he o
actualmente praticado; porém em lugar de barro cinzento escuro, deve,
usar-se de barro branco, de que há abundancia em todas as partes, com o
cuidado de o depurar da arêa, e pirites. Piza-se, que fique em pó, huma
porção de barro branco bem sêcco, deita-se este pó n'hum cocho cheio de
agua, agita-se com hum rodo, e dá-se tempo a que as pirites, e arêas
como mais pesadas, se precipitem ao fundo. Esta agua impregnada das
particulas barrentas, tira-se com hum rominhol para o tanque de preparar
o lodo. Continua-se o mesmo serviço, torna-se a passar a agua impregnada
do barro; e quando há sufficiente quantidade, deixa-se assentar, e
tira-se a agua superabundante; e deste barro assim purificado, he que se
fórma o lodo, para clarificar o Assucar. Se a agua, depois de
precipitado o barro, conserva alguma côr, deve-se tirar, e lançar outra,
e agitar com o barro precipitado, até que fique cristallina, para que
não vá incorporar, com o Assucar, a côr, que o barro póde
communicar-lhe. Isto he trabalho, que se faz por huma vez, porque este
barro póde durar sempre.
_Methodo para trabalhar na fábrica do Assucar._
Assim que o caldo da Canna espremida nas moendas cahe da bica no funil,
que o conduz ao fundo do parol, accende-se logo fogo na sua fornalha,
cujo fogo se entretem gradualmente, de sorte, que o liquido nunca chegue
a levantar fervura; porém que a mão não possa supportar o seu calor, o
qual se conserva, em quanto os parois contiverem liquido. Quando, depois
de cheio o primeiro, passa a bica para encher o segundo, trata-se este
segundo da mesma sorte que o primeiro. Cheio o segundo parol, passa o
liquido para a primeira caldeira, por huma calha, que se ajusta ao seu
fundo, na parte, onde está o tubo de descarga; e antes do torno se
tirar, põem-se hum coador sobre a calha, para não passar á caldeira mais
que o liquido; devendo haver o maior cuidado, quando se aproximar ao
fundo o gusmo, a que se chama cachassa, que o calor fez subir á
superficie, de tapar logo, para que á caldeira não vá parte alguma
delle. Deita-se então agua neste parol, e lava-se, cuja agua se mistura
com o gusmo, e o ajuda a correr por huma calha, ao seu receptaculo, na
casa da aguardente. Depois de cheio segunda vez o primeiro parol, passa
o liquido do segundo para a segunda caldeira, com as mesmas precauções
do primeiro, e assim continua o trabalho, não se despejando nunca hum,
sem que o outro esteja cheio. Ficando a caldeira quasi hum palmo por
encher, lança-se fogo na fornalha, para fazer ferver o liquido, havendo
sempre a lembrança, que, chegando a levantar fervura, he escusado deitar
mais lenha, porque he perdida; porém esta fervura deve-se entreter.
Principia agora o uso da decoada. Introduz-se na caldeira hum dos dois
grandes funis, e por elle he que se lança a decoada, para os alcalis
fazerem subir do fundo á superficie, o oleo, e acido superabundantes, em
fórma de espuma, que se separa, assim que aparece. Quando se não vem
mais espumas escuras, julga-se limpa a caldeira, e principia a simples
evaporação; porém o liquido desta caldeira não passa ás tachas, sem que
a outra caldeira esteja tambem com o seu liquido depurado. Estando o
liquido de ambas as caldeiras prompto, passa ás tachas o da primeira,
para renovar o trabalho com o segundo liquido do primeiro parol, e assim
vai continuando; de sorte, que as caldeiras tem tres usos: são vasos
depuratorios, vasos evaporatorios, e parois de caldo quente. O liquido
da caldeira, sobe no balde de valvula, que por huma calha o conduz á
primeira, e segunda tacha; este balde serve tambem de augmentar a
evaporação, levantando o liquido, e deixando-o cahir em columna, se há
necessidade de accelerar este serviço nas caldeiras. As tres tachas do
Bangué, devem ser consideradas, como vasos evaporatorios. A primeira,
chamada de receber, e a segunda de coser, recebem o liquido da caldeira;
depois de engrossar nellas hum pouco, passa para a tacha, chamada de
bater; nesta ultima he, que o liquor alcança a sua perfeição; para o
concentrar, deve ser levantado no balde muitas vezes, e deixallo cahir
em columna.
Quando desta fórma tem alcançado o ponto, passa para o esfriador. Estas
tres tachas podem ser todas, de receber, de coser, e de bater, tendo
cada huma seu balde, e passar a calda de cada huma dellas para o
esfriador; porém, como a primeira tacha recebe mais fogo, que a segunda,
e esta, que a terceira, e o fogo, se he violento, queima o Assucar, que
reduz a mel, he melhor fazer a concentração na terceira tacha, sempre
com o cuidado, de que a fornalha não tenha mais fogo, que o preciso para
levantar fervura.
Distingue-se o ponto da calda de Assucar em tres estados, que são ponto
fraco, ponte forte, e ponto muito forte. Conhece-se o ponto fraco,
quando, tomando huma pouca de calda com o dedo indes, e unindo esta
calda ao pollegar, e apartando estes dedos, a calda não faz fios.
O ponto muito forte he, quando, tomando a calda da mesma sorte, e ella
se estende em fios por todo o apartamento dos dedos, sem quebrar.
O ponto forte, ou bom ponto he, quando se fórmão estes fios, e, antes de
chegarem a todo o apartamento dos dedos, quebrão a duas, tres, ou quatro
pollegadas. A grossura dos olhos, que fórma a calda, fervendo na tacha,
mais, ou menos grossos, indica a sufficiente concentração. Isto he huma
cousa conhecida, e facil, porém que o uso ensina mais, que todos os
discursos. Estando a calda no ponto forte, passa em repartideiras para o
esfriador.
O ár, que bate na superficie desta calda, e refresca continuadamente as
paredes do esfriador, faz coalhar o Assucar n'huma especie de costra, a
qual se engrossa cada vez mais, até incorporar tudo o que he Assucar,
deixando apartada a parte melosa; porém este Assucar, coalhado tão
promptamente, alcança tanta dureza, e a sua gran he tão unida á outra,
que faz impossivel a passagem da agua para a sua clarificação. A
espatula, de que se usa, para o remexer nas fôrmas conicas, não sendo
sufficiente, he indispensavel o uso do ensinho já descripto; hum obreiro
com este util instrumento, em huma das cabaças do esfriador, puxando-o a
si, e impulsando-o para a outra cabeça; encostando-o no puxar, a huma
das paredes, no impulsar á outra, impede a aggregação mui prompta da
gran do Assucar, para a agua, que o barro largar, fazer o seu effeito.
Este esfriador, segundo a sua grandeza, não póde encher-se com o
primeiro cosimento, e carece, que se lhe ajuntem outros; porém o uso do
ensinho principia desde o primeiro, até se encher, e sahir o Assucar
para as fôrmas. Não há necessidade, de que o obreiro esteja sempre com o
ensinho na mão; deve trabalhar de vez em quando, porém sem descuido. He
essencial, que o Assucar não vá para as fôrmas frio, e sim n'hum gráo de
quentura, que permitta o meter-lhe o dedo.
As fôrmas molhadas, assentadas n'huma taboa desempenada, podem receber o
Assucar, sem que pela fenda de duas linhas, que tem no seu fundo, elle
possa cahir. O Assucar deve ser deitado nellas com espumadeiras grandes;
esta operação deve ser prompta, e ao mesmo tempo vagarosa; prompta, em
que he preciso varias espumadeiras, sem descuido no trabalho; e
vagarosa, porque tirando as espumadeiras o Assucar, carece demorado
algum tempo sobre o esfriador, para deixar cahir dentro muita parte do
mel, de sorte que para as fôrmas vá o menos possivel.
A fôrma deve ficar meia pollegada, por encher, e depois de esfriar nella
o Assucar, tirada da sua taboa, e esgotado o mel, que ajuntou no seu
fundo, passa para a casa de purgar, em paviola. Esta casa basta que
tenha quarenta e dois palmos de largura, e sessenta de comprido; o seu
sobrado na altura de doze palmos; as vigas de hum palmo de grossura,
afastadas humas das outras, quatro palmos, e meio; as taboas do soalho,
da largura de dois palmos, ou mais, com o vão entre taboa, e taboa, de
duas pollegadas.
A coxia desta casa póde ser ladrilhada, para mais aceio. Se parecer
fraco o vigamento, pontaletes o fazem firme. Esta coxia deve estar bem
munida de calhas, para cahir o mel das fôrmas.
As calhas são mui simples, e podem ser feitas de taboas de seis
pollegadas de largura, e duas de grossura, cavado o centro na profundeza
de huma pollegada a diminuir para os lados; são firmadas na viga,
defronte da abertura de duas pollegadas do apartamento das taboas do
soalho, com declivio a acabar na altura de hum barril, que recebe o mel
que nellas cahe, e o leva a huma pipa, que o guarda.
Cada barril, que deve ter seu funil de folha com rallo, recebe o de duas
calhas, e estas, o de muitas fôrmas.
As calhas assim dispostas, fazem a vista de zigzag vertical. Chegando a
fôrma á casa de purgar, he assentada entre viga, e viga, que fique a
fenda de duas linhas do seu fundo, no meio do apartamento de duas
pollegadas, que tem as taboas do soalho.
Raspa-se a superficie desta fôrma, para igualar o Assucar; enche-se do
lodo branco, que está preparado; e quando este lodo sécca, tira-se, para
diluido tornar a servir. Com huma raspa se tira desta fôrma o Assucar
embranquecido, e quando vai ficando trigueiro, sobre este mais escuro se
lança novo lodo; raspa-se outra vez, e torna-se a lançar mais lodo, e
assim até ficar o Assucar desta fórma todo branco.
O fim desta operação he impedir, que ao Assucar já branco não passe mais
agua; porque, não tendo partes melosas, que precipitar, dissolve o
Assucar, que confunde com o mel, e o faz esvaido, ou sem força, e ainda
que fique muito alvo, não indemniza a perda.
O Assucar raspado passa á estufa, e he lançado nos taboleiros della,
para seccar. O calor desta estufa deve ser mais forte que, o que
communica o Sol, que não excede a quarenta e cinco gráos do thermometro
de Reaumur; e na estufa se póde levar até sessenta gráos, porém não
mais, porque então o fará trigueiro. Se não houver thermometro, deve
regular, o poder-se entrar dentro, e demorar algum tempo; porém se não
se puder entrar, ou parar, he preciso moderar o calor, porque he forte.
Quando o Assucar está sêcco, o que succede em oito a doze horas, segundo
o calor que recebeo, cessa o fogo; abre-se a janella, tira-se para a
casa de encaixe, sóca-se, etc.
_Como se trabalha na fábrica da aguardente._
Todos os Mestres de aguardente sabem, que hum liquido doce fermenta, que
esta fermentação o faz vinhoso, e que este vinho destilado, produz
aguardente, em maior, ou menor quantidade, segundo o gráo de doçura, que
em si contém este liquido. Segundo este principio, a cachassa, ou fezes
do caldo da Canna; as espumas da caldeira, e tachas, que são materias
por si bastantemente doces, são recebidas em parois; e como levão
comsigo muito caldo de Canna puro, tem bastante fluidez, para que, cheio
o parol, entre logo em fermentação.
Estes parois, ou especies de tanques são cavados n'hum grosso madeiro, e
ficão quasi hum, palmo por encher.
Geralmente são descubertos; e alguma excepção que há, com esteiras he,
que lhe tirão a maior communicação com o ár. Assim que a fermentação se
estabelece, o movimento, que em si faz o liquido, com hum certo zunido,
faz subir á superficie, huma côdea de materias impuras, que vai
engrossando cada vez mais; porém abre-se de vez em quando, para dar
passagem ao gás, ou ár fixo, que se desprende, e foge do mesmo liquido
em fermentação. Quando o zunido cessa, e que a costra se desfaz, e
mistura com o vinho, que neste estado toma o nome de guarápa, he o
ponto, para passar ao alambique.
Alguns esperão ainda, que huma luz se não apague no vão, que occupa o
gás, da superficie do liquido á borda do parol. Não havendo mais
cachassa, misturão huma terça parte de mel com duas de agua, para se
seguir o mesmo effeito; ou misturão mel, cachassa, e agua, porque estas
cousas em si são indifferentes, e seguem-se os mesmos effeitos. Se
succede algumas vezes estar a guarápa em ponto, e o alambique occupado,
deitão agua na guarápa, para não passar, segundo dizem, e quando há
occasião, vai para o alambique.
Nestes alambiques não há regra, cada hum tem os seus; porém nas fábricas
mais modernas, o commum he, sèrem os chamados, _tromba de elephante_.
Recebem o fogo pelo fundo, até huma terça parte da altura da cucurbita,
ou caldeira; outros recebem pelo fundo, e pelas paredes, onde se pratica
huma espiral, que acaba na chaminé. Todos tem serpentina de cobre, e já
vi alguma de estanho, e nada de refrigerante. O primeiro liquido, que
sahe pela serpentina, que he fleuma, he lançado fóra; e assim que
principia a correr o espirito, vai para o recipiente, a que chamão
balsa; esta cheia, he levada para a pipa, ou tonel.
A serpentina, que he huma espiral de quatro, cinco voltas, está firme
n'huma grande tina cheia de agua, sempre quente, devendo ser bem fria.
Todo este trabalho he feito sem principios; se alguns se gabão de fazer
muita aguardente, não he, porque saibão aproveitar, sim porque he feita
á custa do Assucar.
_Principios, que devem conduzir o Mestre Aguardenteiro._
He efficazmente demonstrado, que só a parte doce, ou assucarada de
qualquer liquido, he que pela fermentação se póde mudar em vinho, de que
se tira o espirito ardente. Esta mudança, que a fermentação faz, he em
mais, ou menos tempo, segundo a densidade do liquido, quero dizer mais,
ou menos assucarado.
Se he pouco doce, fermenta mais depréssa, e assim relativamente; de
sorte que se chega a ter a consistencia de mel, não há fermentação, ou
ao menos não he sensivel. Há tres especies de fermentação; fermentação
espirituosa, fermentação acida, e fermentação podre, ou alcalina; ou
antes, só há a fermentação podre, que passa pelos dois primeiros
estados, de espirituosa, e acida. Quando hum liquido mucoso doce, pela
fermentação se faz vinhoso, toda a parte assucarada he decomposta, e
mudada em espirito.
Se não se aproveita no alambique, e passa á fermentação acida, he
decomposto este vinho, e mudado em vinagre; se então vai ao alambique,
sahe hum acido.
Se se deixa continuar a fermentação, e passa á alcalina, alcança o
liquido hum cheiro detestavel, e pelo alambique sahe sómente alcali
volatil, ou o producto das materias podres. Estas mudanças, ou
decomposições, accelerão-se, ou retardão-se, segundo o maior, ou menor
calor do ár, que he o principal agente da fermentação.
No gráo de frio, que géla a agua, não há fermentação, ou ao menos não he
sensivel; e o mesmo succede n'hum gráo de calor de sessenta gráos para
cima, do thermometro de Reaumur, quero dizer, que a mão não póde
supportar. Quando o calor da atmosphera, ou do lugar, onde se faz a
fermentação, chega a dez gráos do mesmo thermometro, ella se estabelece,
e se augmenta cada vez mais até aos trinta e cinco, que he o maximum; de
trinta e cinco para cima, entra a enfraquecer proporcionalmente, até aos
sessenta em que pára. Estes sessenta gráos para a fermentação são iguaes
ao zero, ou gèlo de Reaumur. Nunca o gráo do frio no Rio de Janeiro póde
impedir a fermentação, por ser o calor da atmosphera, de vinte a trinta
gráos; e são raros os dias no Inverno, onde chega a quatorze, e nunca
menos. Quando hum liquido entra em fermentação espirituosa, não a soffre
ao mesmo tempo em toda a sua massa; já algumas partes tem fermentado, e
vão passando a acidas, quando outras ainda não principiárão; o que faz
precisar hum fermento, que excite o movimento em todas as suas partes,
ao mesmo tempo.
Este fermento, a natureza o dá na espuma, e costra, que se fórma sobre
hum primeiro liquido, que fermentou, que mesmo se póde desseccar para o
uso.
Ajudando o calor da atmosphera tão poderosamente a fermentação, deve o
Mestre Aguardenteiro impedir, quanto lhe for possivel, que com o gás,
que se desprende do liquido, se não dissipem partes espirituosas; para o
que ha de conservar os vasos, onde ella se faz, com pouca communicação
com o ár; e em lugar de cochos, e abertos, sirva-se de pipas, e ainda
melhor de dornas, com o fundo largo, a boca estreita, com sua tampa, e
nella hum pequeno furo, e de grandeza proporcionada aos alambiques. Deve
ter tambem o maior cuidado, em determinar o seu trabalho de sorte, que
não tenha mais guarápa que destilar, que os alambiques não possão
vencer; e que he melhor, que estes esperem, que aquella, por não haver
meio de impedir a sua depravação.
O ponto principal, donde depende toda a felicidade, ou o maior producto
possivel da fermentação espirituosa, he, o saber conhecer precisamente o
instante, em que a guarápa deve passar ao alambique. O signal
infallivel, que designa este instante, foi descuberto por M. Gentil,
Prior de Fontenet, e membro de muitas Academias, «O sabor, diz este
grande homem, he huma qualidade, que he o objecto do gosto, e este
sentido não póde enganar-se entre o sabor vinhoso, e o sabor assucarado;
e como o cheiro vinhoso acompanha sempre o sabor vinhoso, he impossivel
errar sobre a relação destes dois sentidos. Não he preciso suppôr estes
sentidos bem delicados, e bem exquisitos, nem hum grande discernimento
para fazer a distincção; todo o homem organisado, como o commum dos
homens, distinguirá o sabor vinhoso, do sabor assucarado, com tanta
facilidade, quanta poderia distinguir a côr vermelha, da côr verde.... O
signal determinado, e infallivel, que designa de huma maneira
invariavel, o momento, em o qual, a fermentação tem chegado ao gráo
preciso, e a que he unida a maior perfeição de vinho; o momento, no qual
o vinho não he assàs feito, e depois do qual vem a ser aspero,
grosseiro; he o momento mesmo, onde, depois de muitas degustações
successivas, nas quaes temos sentido a diminuição do sabor assucarado.
Este sabor, depois de se ter enfraquecido gradualmente, desaparece
subitamente; então he o signal preciso, fixo, e seguro para se tirar o
vinho da dorna: isto he huma ordem irrevogavel, que a natureza prescreve
á arte, e que signala o momento fatal, a que he unida a perfeição deste
liquor.... Fura-se a dorna no meio da altura, que occupa o liquor, e
tapa-se com hum pequeno torno; logo, que a fermentação se estabelece,
tira-se o torno, e deixa-se correr o liquor n'hum pequeno copo para o
provar. Assim, que se percebe huma diminuição, marcada no sabor
assucarado, e huma augmentação no sabor vinhoso, que são inseparaveis,
deve haver cuidado na dorna, fazer a prova com frequencia, ter os vasos
promptos para receber o liquor; e se o signal aparece no meio da noite,
não differir para o outro dia o aproveitallo; esta noite segura huma
recompensa, que deve fazer esquecer a necessidade do repouso. Este
signal commum, he proporcionado á intelligencia de todos; he ainda
identico, e invariavel, para hum mosto de excellente qualidade, como da
mais mediocre; para huma grande quantidade de liquido, como para huma
pequena; para huma fermentação viva, forte, tumultuosa, e prompta, como
para huma fraca, lenta, etc. Ou seja o calor do ár proporcionado, ou
intenso, sempre he o mesmo; he preciso sómente, se a fermentação tem
sido mui rapida, ter mais cuidado na dorna, porque chega mais depréssa
ao ponto, e he de maior prejuiso á passagem.»
Até aqui M. Gentil. Quando a guarápa indica este ponto, a costra, que a
fermentação produzio, está sobre ella; no tempo que gasta a desfazer-se,
misturar-se com o vinho, dissipar-se o gás, que a sobrenadava para não
apagar a luz, tem-se evaporado muito espirito, e outro tem passado a
acido, pela fermentação acetosa, que immediatamente segue a espirituosa,
porque a natureza não pára hum instante; e daqui se póde inferir, o
quanto se perde, pela fórma de tomar o ponto, no estado actual.
Depois da boa fermentação com o seu ponto tomado a tempo, nada concorre
tanto para huma boa distilação, como a abundancia de agua, na casa
d'aguardente.
Se no refrigerante não corre sempre agua fria, para a condensação do
vapor, e na tina da serpentina, para fazer cahir frio o liquor no
recipiente, há huma diminuição incalculavel, na quantidade, e qualidade
d'aguardente.
A falta de principios, nos fabricantes deste genero, não lhe deixa
conhecer esta perda, porque lhe não he sensivel á simples vista. Olha-se
com tanta indifferença para este objecto, que eu já vi n'huma fábrica,
cujo dono não passa por ignorante, querer hum individuo tomar banho com
a agua da tina da serpentina, suppondo-a fria, ou ao menos tepida; e,
tirando a torneira, para lhe cahir no corpo, estava tão quente, que
quasi levantou vessiculas. Considere-se, quanto espirito se dissiparia,
sendo refrescado com agua neste estado.
Se o engenho he de agua, tem a tina da serpentina sua bica, porém tão
pequena, que eu nunca vi, que a aguardente deixasse de correr com
quentura. Á excepção de alguns engenhos, que tem ao pé huma pequena
fonte, o commum he, o ser a agua carregada ás costas, e ás vezes de bem
longe. Era natural a lembrança de mandar abrir hum pôço, e com huma
bomba tirar a agua que se precisasse, principalmente neste paiz, onde em
menos de vinte palmos se acha a quantidade que se quer, porém só tenho
visto hum; quando a despesa, que com elle se fizesse, bem paga ficava na
primeira safra.
O que se vai dizer sobre o gráo de calor para a distilação, he theoria
de Macquer, sobre a dos espiritos ardentes.
He huma verdade chymica, que a quantidade de fogo para a distilação,
deve ser em razão da coherencia, ou apêgo das partes, que se querem
fazer evaporar, aquellas, que são compostas de principios mais fixos.
Se se expõem á acção do fogo, compostos, que contenhão principios
volateis, e principios fixos; os primeiros, rarificados pelo calor,
procurárão separar-se dos segundos; e se o esforço que para isto
fizerem, for superior ao seu apêgo, a separação terá lugar, e a
evaporação se fará. Se se querem distilar substancias mui compostas, mui
capazes de ser alteradas pelo calor, e que contenhão principios da maior
volatilidade, taes como são muitas plantas cheirosas, os liquores
espirituosos, e outros desta natureza, he preciso usar do alambique
guarnecido de hum banho de maria, quero dizer, que o alambique não
receba mais calor, que o que póde communicar-lhe hum vaso com agua
fervendo, sobre a qual se assenta o mesmo alambique. Como na distilação
que se faz no alambique, os vapores dos corpos volateis sobem
verticalmente, e se condensão na sua parte superior, ou capello, esta
sorte de distilação tem sido chamada _per ascensum_. Podem fazer-se
distilar mui commodamente desta sorte, todas as materias bem volateis,
que possão subir ao gráo de calor, que não exceda o da agua fervendo;
taes são os espiritos rectores, o espirito ardente, a agua, e todos os
oleos essenciaes, etc.
O que se passa na distilação em geral, he mui simples, e mui facil de
conceber. As substancias volateis, se fazem especificamente mais
ligeiras, quando soffrem hum gráo de calor conveniente, reduzem-se em
vapores, e se dissiparião debaxo desta fórma, se não fossem retidas, e
determinadas a passar a lugares mais frios, onde se condensão, e tomão a
fórma de liquores, se são dessa natureza. Como a distilação se faz
sempre em vasos fechados, falta o concurso do ár exterior ás materias,
que se levantão nesta operação, o qual he com tudo muito proprio para
augmentar, e accelerar a subida dos corpos volateis. Mas póde-se dizer,
que esta lentura, occasionada pelo defeito do ár, he antes util, que
desavantajosa; porque em geral, quanto mais huma substancia volatil, que
se separa da outra substancia mais fixa, se separa com lentura, tanto
mais esta separação he exacta.
Por esta razão, quando se quer distilar, segundo as regras d'Arte, se he
obrigado a conduzir a distilação de sorte, que a substancia volatil
soffra só o gráo de calor necessario para a separar; e isto he sobre
tudo indispensavel; quando não há grande differença no gráo de
volatilidade dos principios dos corpos, que se querem decompôr pela
distilação. Póde-se estabelecer, como regras geraes, e essenciaes á
distilação; que se deve sómente applicar o gráo de calor necessario,
para fazer subir as substancias, que se devem destilar; e que a lentura
he tão vantajosa, quanto a precipitação he prejudicial nesta operação,
etc.
Comparando o que diz este grande Chymico, com a quantidade de fogo, que
se atêa na fornalha do alambique, para distilar aguardente, parece
impossivel, que entre tantos distiladores no Brasil, não houvesse ainda
hum, que, abrindo os olhos da rasão, e guiando-se por ella, se afastasse
da trilha dos mais, o que augmentaria consideravelmente a quantidade, e
qualidade deste genero, sem ser á custa do Assucar, nem com a perda de
huma immensidade de lenha. A fornalha, que se propõem desenhada na
_Estampa VII._, he a do mesmo Macquer, adoptada a esta manufactura.
Communica-se ao cinzeiro, por hum buraco de seis pollegadas de comprido,
e duas de largo. O vão da chaminé, he de quatro pollegadas em quadro; a
boca da fornalha tem hum palmo em quadro, e sua porta de ferro.
Na Estampa tem as paredes dos lados abatidas, para se ver a construcção
por dentro, e o petipé faz conhecer as suas dimensões. O fogo se
entretem, e modera da mesma sorte, que no bangué do Assucar.
_Discurso sobre o alambique_
Naõ há instrumento chymico, em que se tenha tanto trabalhado, como no
alambique. Grandes homens tem buscado em todos os tempos a sua
perfeição, e continuar-se ainda hoje este trabalho, prova que ainda não
se achou. Parecerá temeridade, o arriscar eu as minhas idéas, depois dos
maiores Chymicos terem fallado; porém lembra-me, que hum grande homem
póde procurar huma cousa, e não a achar, e hum rustico, ou outro de
intelligencia mui limitada, vêla. Tem-se usado de refrigerantes, e
vio-se, que quando a agua desta bacia era fria, parava a distilação, e
que só se restabelecia, quando alcançava huma certa quentura.
A rasão convincente deste facto he, que os vapores subindo á superficie
interna do capello, e condensando-se repentinamente pela frieza,
engrossavão muito, e pelo seu pêso cahião em gottas na superficie do
liquido; e que a agua hum tanto quente, impedindo esta condensação tão
prompta, permittia, que os vapores menos engrossados, se encaminhassem
ao canal praticado na circumferencia do mesmo capello, para sahirem pelo
seu bico.
Daqui se concluio, que os refrigerantes erão inuteis. Entrão agora as
theorias. Huns, crendo, que a condensação se fazia na serpentina, fazem
subir a ella o vapor por hum gargalo, em fórma de _tromba de elephante_;
outros modificão esta especie de tromba, e dão hum grande diametro á
caldeira do alambique, com mui pouca altura; e fazem principiar a
serpentina com hum grande diametro, e acabar n'hum mui pequeno; outros,
em fim, augmentão a superficie do capello; porém he geral em todos, o
fazerem hum pescoço á caldeira, maior, ou menor, segundo a sua fantazia,
e só Chaptal quer, que a caldeira seja hum cilindro perfeito, porém nada
de refrigerante. Todos estes alambiques obrão com maior, ou menor
proveito; e eu tenho visto distilar sem refrigerante, nem serpentina, o
que me prova, que o contacto do ár no capello do alambique, tem bastante
força para condensar o vapor; não se aproveita tanto, como com a
serpentina, porém he pela dissipação do liquor, por sahir mui quente do
bico do alambique. Sendo a evaporação em razão da superficie, e subindo
os vapores perpendiculares, de que ninguem duvida, só Chaptal acertou,
tirando o pescoço á sua caldeira, e fazendo-a cilindrica; porque a
abobada abatida, que nasce das paredes da caldeira, até onde fórma o
pescoço, exposta ao contacto do ár, condensa o vapor que nella toca, e a
unica sahida que tem, he tornar para a caldeira; he por consequencia
preciso mais tempo, e maior fogo, para que o vapor se enfie por este
pescoço, segundo a maior, ou menor superficie que o ár toca, e o maior,
ou menor diametro do pescoço, mais, ou menos longitude da superficie,
onde se faz a evaporação, á parte onde, condensando-se, póde
encaminhar-se á serpentina. O refrigerante he preciso, e indispensavel
para huma boa distilação. Se a frieza da agua condensa mui promptamente
o vapor, e as gôttas engrossadas são precipitadas na caldeira pelo seu
pêso, he porque a abobada do capello, sendo muito abatida, não lhe dá
huma facil correntesa; a que eu tenho visto mais levantada, he a do
capello de Baumé, que faz hum angulo de cincoenta gráos; ora hum angulo
de cincoenta gráos facilita tanto a cahida, como a correntesa; ha de
correr, e cahir indistinctamente; porém se este angulo for de sessenta e
cinco gráos, por mais grossas que sejão as gôttas, tem mais facilidade
para correr, que para cahir, e por consequencia, quanto vapor subir,
tanto se aproveitará.
A caldeira do alambique, que se propoem, he hum cilindro de quatro
palmos de altura, e quatro de diametro. O capello, que he de figura
conica, deve ter de altura o diametro da sua base, tirado da superficie
externa do canal, ou goteira, que acaba no bico, para fazer hum angulo
de sessenta e cinco gráos.
Este capello deve ser de estanho puro, porque o espirito come o cobre; e
para ficar mais barato, e mais duravel, póde ser o estanho ligado em
partes iguaes com o zinco. Proximo á sua base, tem hum tubo de pollegada
e meia de diametro, que huma tampa do mesmo metal fecha em rosca, pelo
qual se introduz na caldeira o vinho para distilar; e he cercado de huma
chapa de cobre, soldada na circumferencia, na parte, onde principia o
calor, que se ha de introduzir na caldeira; cuja chapa fórma hum
cilindro da altura do cone, e serve de bacia, para conter a agua que
esfria o capello, onde se condensa o vapor, e o canal, que o conduz ao
bico. Esta bacia, ou refrigerante, tem n'huma das paredes, proximo á sua
base, hum pequeno tubo de pollegada de diametro, para dar sahida á agua,
que continuadamente deve correr sobre a ponta do cone; e tambem dá
passagem ao tubo, por onde se carrega de vinho a caldeira do alambique.
A caldeira tem seu tubo de descarga, para sahirem as fézes depois da
distilação, cujo tubo deve fechar em rosca na caldeira, para, no caso de
ser preciso tiralla, não desmanchar a parede da fornalha; porém que o
tape hum simples torno. A. _Veja-se a Estampa VII. Fig. I._ A serpentina
de oito linhas de diametro, em espiral de oito voltas. Eu não posso
comprehender as rasões que se dão, para ella principiar com hum grande
diametro, e acabar n'hum tão pequeno; creio, que a condensação do vapor
se faz no capello, que a frieza d'agua, batendo nelle, a favorece
prodigiosamente, e que a serpentina serve só de refrescar o liquor, para
cahir frio no recipiente; ora este effeito consegue-se melhor com o
pequeno, que com o grande diametro; porque a agua tem huma pequena
columna de ár que esfriar, e toca o liquor de mais perto em todas as
partes do canal. Se dou quatro palmos de diametro á caldeira do
alambique, he para que o seu fundo seja de huma chapa de cobre inteira,
e sem emendas; a altura, qualquer que seja o diametro, nunca deve passar
de quatro palmos. Tambem, se o diametro for muito grande, fica incommodo
o capello, por ser preciso levantar o cone em proporção: e eu não
conheço fábrica, que, trabalhando bem, possa occupar sempre dois
alambiques assim construidos.
Os alambiques, que contém pipa e meia, e duas pipas de guarápa, servem
mais de ostentação, que de utilidade; o seu rendimento em espirito, não
equivale, proporção guardada, ao dos mais pequenos. A materia da
serpentina, merece a maior attenção, não deve ser de cobre, nem de metal
com elle ligado; o espirito corroe o cobre, dissolve o zinabre, e com a
aguardente se engole hum veneno; eu bem sei, que o espirito o disfarça
alguma cousa, e que he em pequena quantidade respeito á sua massa; porém
o ser pouco, e sem os terriveis effeitos, que causa dissolvido pelos
acidos, não impede, que ataque a economia animal, e pouco a pouco a
destrua. Desejava que fosse de prata pura, sem liga alguma de cobre.
Os Artistas, que trabalhão em prata, tem mais pericia que os
caldeireiros; podem fazer as chapas de prata com a grossura da folha de
Flandres, reforçada; e, se lhe for mais cómodo, formar a espiral em
poligono de cinco, ou mais angulos; o effeito he o mesmo. Esta despesa
não he tão grande, que qualquer Senhor de engenho não possa com ella, e
a duração excederá á da sua vida. Talvez haverá, quem tenha esta idéa
por extravagancia, que a escarneça, e teime em usar de serpentina de
cobre; porém o miseravel que isto fizer, se não for por ignorancia,
merece a maior compaixão, por ter huma alma gangrenada pela avareza, que
lhe faz olhar com despreso, para a saude, e vida dos homens. Quizera
tambem, que o recipiente fosse hum garrafão, e nada de complicações, nem
torneiras de chave, faceis de desmanchar, e difficultosas de concertar,
porque me lembro das pessoas, que lidão nestas fábricas.
_Ordem do trabalho para fazer aguardente._
Tres quartas partes de agua, huma quarta parte de mel, são lançados na
dórna, a qual deve conter sómente, tanto desta especie de mosto, quanto
caiba em dois alambiques, ficando elles hum palmo por encher. Deita-se
neste mosto bastantes fézes de huma fermentação antecedente, que se
mistura bem com todo o liquido; tapa-se a dorna, deixando aberto o
pequeno furo da tampa, para a communicação do ár, e que a mesma dórna
fique ao menos dois palmos por encher. Assim que principia a
fermentação, prova-se o liquor, e continua-se a prova, até chegar ao
ponto determinado por M. Gentil.
Ainda que o vinho neste ponto se considere claro, e se tire por huma
torneira, que a dorna tem no fundo, não deve passar ao alambique, sem
que seja por hum coador, para que não vão nelle partes grosseiras;
porque estas, hindo ao fundo da caldeira, e recebendo o fogo
immediatamente, queimão-se, e communicão ao espirito, o empireuma, ou
gosto de queimado, que he indistructivel. Já se vê, que esta dorna deve
estar n'huma altura tal, que o seu vinho possa correr por huma calha,
que o lança no alambique pelo tubo da sua carga; em cujo tubo está hum
funil de folha proporcionado, e neste funil he, que se deve pôr o
coador. Como a fermentação se fez com pouca communicação com o ár, e o
gás, que se soltou, e fugio do mosto, se conserva na mesma dorna, e
causa promptamente a morte a todo o animal, que o inspirar, não, porque
elle em si seja veneno, mas porque, sendo incompressivel, e inelastico,
o afoga, assim como a agua; deve haver todo o cuidado, para prevenir
qualquer funesto effeito. Antes do vinho hir para o alambique, já o
refrigerante deste está cheio de agua, assim como a tina da serpentina;
cuja agua continúa sempre a correr n'huma, e outra parte, e a sahir
pelos seus respectivos tubos, em quanto dura a distilação. Principia
esta, lançando logo bastante fogo debaxo do alambique, para sahir a
fleuma, que se despreza; e assim que entra a correr o espirito,
modera-se o fogo, e entretem-se sòmente o que he preciso; havendo sempre
a lembrança de perder antes por menos, que por mais, e que a lentura he
tão proveitosa para a quantidade, e qualidade, quanto a precipitação he
prejudicial. Assim que cessa de correr o espirito, ou corre sòmente, o
que se chama agua fraca, tira-se o fogo ao alambique, e descarrega-se
das suas fézes pelo tubo de descarga; muda-se a bica do refrigerante, e
a da tina para cahirem dentro delle, e desta sorte ser lavado; e de dia,
tira-se-lhe o capello, para se fazer este beneficio mais
individualmente. Não fallo nas qualidades, que deve ter a aguardente
para ser perfeita, porque he desconhecido neste paiz o areometro.
A forma de a escolher, he agitalla n'hum pequeno copo, e a maior, ou
menor demora da espuma, que faz, he, o que lhe mostra a bondade; e
qualquer que ella seja, toda tem sahida.
_Sobre o tratamento do gado, e bestas._
Todos os animaes de serviço no Brasil comem no pasto; ainda se tivessem
pastos abundantes, como há muito gado, e bestas baratos (porque estas
nunca excedem a dezaseis, e os bois a oito mil reis) poderia supprir a
quantidade, á qualidade, e força; porém não succede assim. Qualquer
engenho tem cem bois, e quarenta bestas; como a moagem he no tempo da
secca, e não há divisão de pastos, e estes forão feitos á trinta,
cincoenta, e mais annos, e nunca renovados, a herva, ou capim, que
nelles nasce, não tem substancia, o Sol a dessécca; e os animaes
cançados, e inanidos vão aos brejos, onde vem alguma verdura, e com o
capim, que póde ser-lhe util, engolem plantas venenosas, que os matão.
Dizem que isto he peste, porém a fome he, que lhe faz comer, o que lhe
he nocivo. Há annos, em que a mortandade he tal, que parão engenhos de
moer. A este respeito, assim como de outros, a abundancia he que faz a
miseria. Se hum boi custasse cincoenta mil reis, huma besta oitenta;
vinte de huns, doze de outras, farião melhor serviço, sustentados com o
cará, batata, mandioca, guandu, abobora, e outras muitas cousas, de que
com curiosidade póde haver abundancia, sem contar a mansidão, que
alcanção estes animaes assim tratados, podendo-se fazer delles, o que se
quizer a qualquer hora. Ainda não vi hum curral calçado, nem cuberto;
enterrados os bois até á barriga he o commum. Depois de passarem assim a
noite, vão para o carro em jejum; trabalhão muitas horas, sahem
esfalfados, e a fome faz-lhe devorar o que encontrão. Tenho visto gastar
horas a meter bois em carros, e bestas nas almanjarras dos engenhos; se
estes animaes sahissem da estrebaria com a barriga cheia, hirião para o
serviço mansamente, não haverião marradas, nem coices, o que evitaria
accidentes que sempre há, além do adiantamento do trabalho, que a sua
braveza estorva. Ao menos devera ser o campo dividido em quatro partes,
passando o gado de humas para outras, não se demorar mais de dez dias em
cada huma, e não entrar na ultima, de que sahio, senão depois de trinta,
ou mais dias. Desta sorte teria tempo de crescer a herva, seria o seu
succo melhor digerido, e por consequencia mais nutritivo para o animal.
Se em lugar do pasto estar dividido em quatro, fosse dividido em oito
partes, e que o gado se demorasse em cada huma só quatro, ou cinco dias,
ainda seria melhor.
Talvez parecerá, á simples vista, esta multiplicidade de pastos
divididos, superfluidade, porém he hum ganho real, porque, além de
prosperar o gado extraordinariamente assim tratado, sendo as divisões
com cèrcas vivas, podem servir os seus galhos para o fogo das fornalhas;
e os mesmos pequenos pastos, reduzidos a terras lavradas, plantar-se
nelles Canna. Os curraes serem calçados, e cubertos, e recolhidos nelles
os animaes, que devessem trabalhar de noite, ou de madrugada, os quaes
terião sua ração, não de olhos de Canna, sim dos fructos acima
mencionados.
_Cêrcas vivas, e mortas._
He notavel o serviço, que se perde em cêrcas, quasi continuado, e sempre
insufficiente. Os moirões são da madeira, que se encontra, o mesmo as
varas, amarradas a cipó, que antes de seis mezes apodrece. Se aparece
algum bocado de cêrca viva, he para fazer conhecer a facilidade de se
naturalisar em todas as partes, onde o seu uso póde ser util. Não há
paiz, como o Brasil com tantas arvores, e arbustos, de que se possão
fazer cêrcas vivas. As de limão, e cidra, são conhecidas, porém aparecem
como amostra. Todos os páos brancos de casca leitosa, e grande miolo,
pegão bem de estaca, e são de prompto crescimento. Todas as especies de
figueiras bravas, são excellentes; com ellas em dois, ou tres annos,
podem ficar as cêrcas impenetraveis, e o decóte annual, servir de lenha
para as fornalhas. Plantem-se as estacas alinhadas na distancia de dez
palmos, que fiquem na altura de seis. Cortem-se os pimpolhos, ou brotas,
que nascerem para a parte de fora, ou de dentro, conservando as dos
lados, ou comprimento da cêrca, nas quaes se prenderá algum pêso, para
as fazer dobrar brandamente; quando cruzarem, faz-se huma ferida na
casca das duas brotas, enxertão-se, e fazem-se firmes com hum pequeno
espeque, assim como mostra a _Figura I._ da _Estampa VIII._ Mergulhão-se
os galhos na terra, onde tomão raiz, e fazem a vista, que se mostra na
_Figura II._; haja hum pouco de cuidado, e em poucos tempos se verá o
effeito. As cêrcas assim feitas, hão de ser de arvores da mesma especie;
e de qualquer que sejão mesmo das fructiferas, podem servir, ainda que
com mais demora.
Como há partes, onde as cêrcas vivas se faráõ impraticaveis; para se
fazerem as cêrcas mortas com aceio, solidez, e sem perder muito tempo,
quando se fizer alguma derrubada, devem torrar-se os páos de madeira
firme, taes como de gorauna, ipé, e brasil, etc. no comprimento de doze
palmos para moirões; e os páos de boa qualidade proprios para varas, no
de onze. Quando os trabalhadores se recolhem do serviço, trazem estes
páos, que depositão n'hum armazem. Em tempo de chuva, parte dos escravos
falquejão estes moirões dos dois lados, ou os quadrejão; outros lhe
fazem buracos, distantes por huma bitola de dois palmos, que passem de
parte a parte, e cada moirão deve levar quatro, principiando de meio
palmo da cabeça para baxo; e outros escravos proporcionão as pontas das
varas, a caber nos buracos dos moirões até meio páo; cujos buracos não
devem ter menos de duas pollegadas em quadro. Depois de haver huma boa
provisão de moirões, e varas, querendo-se fazer qualquer cêrca,
mandão-se fazer os buracos na terra alinhados, e na distancia de dez
palmos livres, com dois e meio de fundo. Quando estiverem feitos, no
acto de hirem os trabalhadores para o serviço, carregão as varas, e
moirões, lançando estes cada hum em seu buraco; ficão só dois escravos
endireitando-os, e firmando-os na terra. He visivel, que desta sorte tem
as cêrcas outra duração. A _Figura III._ mostra os moirões, e varas.
_Lenhas._
He quasi geral a falta da lenha nos engenhos dos suburbios do Rio de
Janeiro; alguns já a comprão, e outros não tardaráõ a fazello. Nos
campos dos Goitacazes, antes de dez annos pararáõ mais de ametade das
fábricas á falta della. Se há paiz, onde isto se não devêra temer, he
todo o Brasil, pela immensidade de arvores, que pegão bem de estaca, e
em poucos annos alcanção a maior grandeza.
O cajá, o cabui, a mangueira, as figueiras, geralmente todos os páos
brancos pegão com a maior facilidade.
Os pinheiros, que são espontaneos de serra acima, nascem bem de serra
abaxo, semeando-se os pinhões de vez, e em poucos annos se fazem grandes
arvores, que podem servir a infinitos usos. O guandu, ou hervilha de
Angóla, arbusto, que tem a propriedade de nascer, e prosperar em toda a
qualidade de terreno, mesmo no que se suppõem peior; depois de colhido o
fructo, de Junho até Agosto, que he excellente legume, póde decotar-se
pelo pé, operação de que carece, para a reproducção de outro; de cujas
folhas são avidos todos os animaes herbivoros, e cujos troncos, e ramos,
podem servir para as fornalhas.
Deve haver o cuidado de tirar as estacas para plantar, de hum terreno
analogo áquelle, onde se devem plantar; se o terreno for sêcco, devem
ser tiradas de sequeiro, e o mesmo, se for humido.
Ainda que haja mattos virgens, sempre as lenhas se devem plantar; os
páos de matto virgem fazem só brazas, e para as caldeiras, onde se
precisa hum fogo activo, os ramos, os galhos são melhores; çapé mesmo
feito em feixes, o bagaço da Canna, dão hum calor mais forte, que
madeira dura, principalmente se he em grossos tóros, como se usa
commummente. Talvez parecerá isto paradoxo a quem não tem idéa do como
se queima em Portugal o tijolo, a telha, a cal, onde se emprega sómente
tojo, carqueja, rama de pinho, e mattos carrasqueiros. As estacas, para
plantar, tambem podem ser tiradas das raizes das arvores, fazendo-as de
hum palmo de comprido, havendo o cuïdado de não ferir a sua casca, e de
as plantar n'hum terreno bem estrumado; desta sorte não falhão.
_Carros._
Ainda não lembrou a ninguem na Capitania do Rio de Janeiro, o fazer uso
da carreta, em lugar do carro, sendo a vantagem tão visivel. As rodas do
carro, tem o trilho de huma a duas pollegadas, com cinco a seis palmos
de altura; o trilho das da Carreta, he de quatro a cinco pollegadas, com
nove a dez palmos de altura. Ora n'hum paiz de caminhos não calçados,
pantanosos, he infinitamente melhor a carreta, cujas dão tanta folga aos
animaes, além de não se enterrarem tanto, e facilitarem o virar de hum
para outro lado, sem forcejar no cabeçalho; custando menos na sua
construcção, por haver maior quantidade de madeiras que lhe sirvão, não
precisar tanto ferro, e mesmo se póde fazer sem elle; e onde dois bois
puxão mais sem tanta fadiga, que os seis do Carro. Devo lembrar, que os
raios da roda da Carreta, não devem ser inclinados para fóra, como os
das rodas de sege; hão de ser perpendiculares ao cubo, o que lhe
conserva toda a fortaleza.
_Capinas._
Hum dos objectos, que merece toda a atenção, e que dá grande trabalho
aos Lavradores do Brasil, são as capinas, ou limpas das hervas gulosas,
que pullulão extraordinariamente, e roubão a substancia destinada ás
plantas, de que pretendem utilidade. A fórma de fazer esta limpa, he
muito defeituosa; a enxada, de que se usa, não dá bastante expedição; o
seu ferro fere a terra, formando hum angulo de mais de sessenta gráos, e
não tem a propriedade de arrancar as pequenas raizes, sem a perda de
muito tempo.
Em lugar da enxada, deve-se adoptar hum raspador, cujo ferro tenha seis
pollegadas de alto, e doze de comprido, temperado de aço, e cortante;
que tenha o cabo reforçado, e encavado de sorte, que na mão do obreiro
faça formar ao corte hum angulo até quinze gráos. O trabalhador pega com
a mão esquerda na ponta do cabo, e com a direita na altura a que chega,
carrega sobre o mesmo; e tendo o corpo de perfil, com inclinação para a
direita, balancêa-o para a esquerda, forcejando sobre o raspador, e faz
arrastar o seu corte quasi dois palmos, e assim continua, sem nunca o
levantar; parece, que desta sorte cortará mais capim, que dez enxadas.
Para arrancar as pequenas raizes, se há precisão de o fazer, tem mais
propriedade hum ensinho, com seis dentes de ferro curvos, firmados n'hum
grosso madeiro, onde prenda hum cabo reforçado; cujos dentes devem
sobresahir até tres pollegadas, e serem afastados, huns dos outros,
duas; he visivel, que arrancará mais raizes, que muitas enxadas. A
_Figura II._ da _Estampa VI._ mostra o raspador. A _Figura III._, o
mesmo raspador visto de perfil com o seu cabo.
A _Figura IV._, he o ensinho com dentes de ferro curvos para arrancar
pequenas raizes.