SEGUNDO A VISTA QUE APPRESENTA.

A canna de Assucar, tem a apparencia das outras cannas destituidas de

medulla; he huma planta da familia das gramineas; como ellas, he cheia

de articulações, ou nós, que distão huns dos outros, de meia até quatro

pollegadas, segundo a bondade do terreno, produzindo huma folha em cada

articulação, ou nó, cercada de pequenas raizes, onde há hum botão, ou

olho, destinado a ser canna, se se deposita na terra. Estes espaços

entre cada articulação, a que se chama gomos, são cheios de huma medulla

esponjosa, elastica, succosa, doce, cuberta de huma casca pouco dura,

lenhosa, que se deixa penetrar pela unha; destinada a se extrahir della

hum sal essencial, que se chama Assucar. O seu comprimento, ou altura,

he de seis, a doze palmos, segundo o terreno, na Cappitania do Rio de

Janeiro, e de oito, a doze linhas de diametro. Succede adquirir algumas

braças de comprido, se cahe, e as raizes, que circundão os nós,

introduzindo-se na terra, fazem collos; porém só o que sobe ao ár depois

da ultima raiz, he que tem doçura, tudo o mais he perdido. A Natureza

tem destinado dezoito mezes a esta planta para chegar á sua perfeição;

se he colhida antes, ou depois deste termo, o rendimento he menor em

proporção que delle se afastão; porém com maior prejuizo depois, que

antes da madureza. Isto he relativo á Estação; grandes sêccas, ou

grandes chuvas, accelerão, ou retardão esta colheita.

Ainda que, como outra qualquer planta, a Canna de Assucar floreça, e dê

semente, a fórma de se multiplicar, he lançar na terra pequenas estacas

tiradas da parte superior da Canna, onde não tem doçura; porém isto só

póde fazer-se, quando a plantação he ao mesmo tempo, que a colheita,

fóra disto toda a Cana desde a raiz he empregada em estacas.

_Como se cultiva actualmente a Canna de Assucar._

Cada plantador de Canna, segundo as suas faculdades, vai com dez, vinte,

quarenta, ou mais escravos com enxadas, limpar de todas as hervas huma

certa porção de terra, onde quer fazer aquillo a que se chama partido.

As plantas, ervas, ou capins arrancados, ou cortados com a enxada, são

sacudidos da terra pelos mesmos escravos, que trabalhão enfileirados,

juntos em pequenos monticulos, para no caso de sobrevir chuva, não

pegarem as raizes na terra. Depois da terra capinada, ou limpa de

plantas, vão os escravos abrir covas com a mesma enxada; cujas covas são

huma especie de regos, de duas, a tres pollegadas de profundidade, na

distancia huns dos outros, de hum palmo, a palmo e meio; e se suppõem a

terra muito boa, chegão a dois palmos. São lançadas nestes regos duas

estacas de Canna, de palmo e meio de comprido, e se cobrem com a mesma

terra, que se tirou da cova. Faz-se esta plantação em dois tempos; hum

quando se moe para aproveitar os olhos da Canna, que he a parte superior

della, de Junho até Setembro; o outro em Março, que se tem pela melhor

plantação, a qual se faz então com as estacas tiradas de toda a Canna,

que se não moeo, com o fim mesmo de se plantar neste tempo. He de

costume a qualquer das duas plantações dar duas capinas, ou limpas. A

Canna plantada de Junho a Setembro, he moida no anno seguinte com doze a

quatorze mezes; a plantada em Março, de dezoito a vinte mezes; huma, e

outra se deixa ficar por não se poder moer, para Canna velha; planta-se,

ou moe-se na safra subsequente. Da Canna, que se cortou, colhe-se a

sócca no anno seguinte, e dahi todos os annos as ressócas, em quanto no

terreno brotão Cannas. Ainda que se conheça, que estas ressócas rendem

progressivamente ametade, as ultimas em respeito ás antecedentes, todos

as aproveitão quanto podem. Alguns lavradores, rarissimos, se tem

servido do arado para fazer os regos, e de algum estrume nas terras já

cançadas, porém o numero he tão diminuto, que não merece entrar em linha

de conta; o geral he limpar a terra a braço, ajuntar o capim, fazer

covas com a enxada sem alinhamento, plantar sem estercar, fazer toda a

plantação em hum, ou dois partidos, fugindo de terras virgens, porque,

assim como as muito estercadas, ou estrumadas, fazem a Canna, a que se

chama taioba, quero dizer, muito aquosa, muito oleosa, e pouco

assucarada.

_Notas sobre esta fórma de plantação._

Sendo a Canna de Assucar huma planta, destinada pela Natureza a alcançar

doze, dezaseis, vinte, e mais palmos de altura, segundo o terreno, e até

pollegada e meia de diametro, não he possivel que possa prosperar

plantando-se tão junta; porque rouba huma a substancia da outra. Tambem

as covas, ou regos, em que se planta, não tem bastante profundidade;

duas, ou tres pollegadas não bastão para a suster.

Plantando-se sem alinhamento, em confusão, nunca o sol, e o vento podem

aperfeiçoar o seu succo. Fazendo-se a plantação em hum, ou dois

partidos, póde pegar o fogo em ambos, o que succede algumas vezes, e

fica seu dono empobrecido. A experiencia tem feito conhecer, que todos

os fructos doces carecem do Sol, e ár para alcançar a sua perfeição, e

que o mesmo sol bata a nu sobre a terra, que cobre as suas raizes; não

se reunindo estas circumstancias, os fructos se deteriorão á proporção.

Em Portugal as uvas, a que chamão de forcado, são sempre imperfeitas,

porque as arvores, que as cobrem, lhes roubão a luz. As larangeiras no

Brasil, cubertas de erva de passarinho, dão, pela mesma causa, laranjas

pouco doces.

Ainda que estas larangeiras estejão limpas da mesma herva, ainda que

estejão n'hum campo solitarias; se a terra, por onde estão permeadas as

suas raizes, está cuberta de herva, ou capim, que impeça a luz de bater

sobre ella, os fructos são sempre azedos.

Nenhum author, que trate da Canna de Assucar, manda plantalla em menos

distancia, que a de tres pés, e alguns querem seis, e sete, que são

nove, e dez palmos e meio de cova a cova: isto ha de parecer hum

paradoxo aos nossos lavradores, que até tem hum ditado: quero canna mil,

e não gentil. Porém da perfeição, com que nas Colonias estrangeiras se

faz esta cultura, a mais preciosa d'America, he que tem procedido o gráo

de prosperidade, a que se tem elevado, e de que somos privados, por

seguirmos sómente hum trilho cégo, e sem reflexão.

_Theoria para a cultura da Canna de Assucar._

O Que vou dizer he hum extracto do que tenho visto sobre esta materia.

Os principios para a cultura da terra, segundo os Antigos, que suppunhão

as raizes das plantas, como os unicos orgãos para receber a sua

nutrição, consistião em lavrar a terra com diversos instrumentos para a

pôr bem movel, estrumalla, e depois de hum certo numero de colheitas,

dar-lhe descanço, quero dizer, conservalla limpa sem nutrir planta

alguma. Os estercos, e estrumes de que se servião, era toda a especie de

excrementos de animaes, e vegetaes podres. Os modernos adoptando os

mesmos principios, instão por mais lavras; dão o descanço nos grandes

intervallos, que deixão entre planta e planta; estes intervallos são

lavrados durante a vegetação; além dos estrumes de que se servião os

Antigos, accrescentárão o dos marnes, ou terras saponaceas, e o dos

rebanhos nas terras que se propõem cultivar; e alguns Authores não

querem esterco, que substituem com lavras, e mais lavras, origem da

immensidade de instrumentos, que se tem inventado a este fim. Estes

principios são certos em parte, e em parte diametralmente oppostos ao

fim que se busca. A quem ignorar os descobrimentos mais modernos, ha de

parecer paradoxo o dizer-se, que a terra natural não concorre para a

vegetação das plantas; que estas não tirão della alimento algum, e que

só serve de alicerce para suster a sua corporeïdade. Há terra

vitrescivel, terra calcarea, terra argillosa, ou barro, marne, e humus.

A terra vitrescivel absolutamente esteril, he aquella de que foi

composto, e faz a solidez do nosso Planeta. A terra calcarea he o

residuo da decomposição dos corpos animaes. A terra argillosa he o

residuo da decomposição dos vegetaes.

O marne, ou terra saponacea, he a combinação destas duas especies de

terra, variado a infinito com a arêa, ou terra vitrescivel, segundo as

proporções da sua mistura. O humus, materia tão preciosa para a

vegetação, he a combinação da decomposição dos corpos organisados,

vegetaes, e animaes de recente data, que tem a propriedade de

dissolver-se n'agua, pelo oleo animal, e sal do vegetal, e com este

liquido formar hum sabão, que se transforma em seiba, que he o sangue da

planta.

A argilla, ou barro de todas as especies, e as terras calcareas, são

humus envelhecido, a quem a decomposição dos animaes phlogisticou, e com

o seu gluten, fez tão tenazes as suas partes, que são impermeaveis ás

raizes das plantas; porém combinadas com a arêa, ou terra vitrescivel,

ficão terras proprias á vegetação. As plantas são viventes, que tem a

faculdade de se reproduzir pela semente, pelo tronco, e pela raiz. A

experiencia de Boyle, milhares de vezes repetida, e sempre confirmada,

prova com evidencia, que tirão a maior parte da sua nutrição do ár;

ellas tem vasos absorventes para receberem o alimento, e vasos

exhalantes para se alliviarem do superfluo; ainda que estes orgãos se

não percebão á simples vista, a existencia delles he huma verdade. Assim

como os animaes dão pasto a differentes especies de insectos, tambem os

vegetaes sustentão huma innumeridade delles; cada hum tem os seus. Huma

folha que cahe de qualquer planta, causa a morte a milhares de entes

invisiveis. O fogo, o ár, a agua, o humus, e a terra concorrem para a

vegetação. O fogo he o motor, o ár o agente, a agua o vehiculo, o humus

o que faz a seiba.

O fogo como calor, e como luz, faz subir os fluidos nas plantas desde a

raiz; a frescura da noite os faz descer, fazendo assim huma especie de

circulação, e desta sorte capazes de receber pelos vasos absorventes das

suas folhas, do seu tronco, da sua raiz, as partes que os meteoros

atmosphericos lhe communicão. A agua muito composta, como elemento, faz

com o gáz, ou ár fixo, a parte mais consideravel da planta. O ár como

atmospherico, e o receptaculo onde se combinão todas as emanações da

natureza, serve de todas as sortes á planta; e o humus faz as partes

fixas della. A terra he a matriz da semente, ou planta, que serve de

cadêa, ou alicerce para esta se desenvolver, e suster; e a fertilidade

que se lhe suppõem, he devida sómente ás partes do humus, que em si

contém, boa, ou má, segundo a maior, ou menor quantidade, que encerra

desta preciosa materia, segundo a planta; que deve nutrir; deve ser

trabalhada, dividida, ter toda a facilidade para receber as aguas das

chuvas, dos orvalhos, dos outros meteoros aquosos, todos os principios

fecundantes espalhados na atmosphera, e deixar-se penetrar das raizes,

que se vão estendendo á proporção que a planta cresce. A abundancia do

humus nos terrenos cubertos de mato virgem, quando este mato se derruba,

e se põem a terra em cultura, faz prosperar extraordinariamente os

vegetaes nella cultivados. Este humus, convertendo-se nas partes solidas

das plantas, vai diminuindo a pouco, e pouco; e passados annos fica a

terra exhaurida desta preciosa materia, e por consequencia esteril. A

experiencia fez conhecer em todos os tempos, que os estrumes, e materias

estercoraes reparavão de alguma sorte esta falta, e se usou delles com

bom successo; porém que não bastando, era preciso dar descanço a esta

terra, descobrindo-a de todas as plantas, lavrando-a muitas vezes,

esperando que a atmosphera a fecundasse. Isto he hum grande erro, porque

o calor do Sol batendo a nu sobre esta terra, a faz arida, e vindo

depois huma chuva, a pequena porção do humus, que em si contém, he

levado a outra parte, e por consequencia fica ainda mais empobrecido o

mesmo terreno, que com este methodo se quer enriquecer. He evidentemente

demonstrado, que para a terra não cançar, adquirir, e conservar o seu

humus, e fertilidade, he preciso que esteja sempre cuberta de plantas.

Devem cultivar-se aquellas de que se pertende utilidade; quando estas se

colherem, lançar a semente de outras de prompto crescimento, que tenhão

grandes, e brandas raizes, que cubrão bem a terra, taes como nabos,

rabãos, cenouras, batatas, aboboras, etc. e antes de chegarem ao seu

total crescimento, serem lavradas, enterradas; e quando tiverem

apodrecido, ou estiverem reduzidas a humus, plantarem-se, ou semearem-se

aquellas, de que se pertende redito.

Trabalhando-se continuada, e alternativamente desta sorte, podem

evitar-se todos os estrumes, e estercos; estes são inventados pelos

homens, e o humus he o da natureza. As vargens que estão cercadas de

serras, collinas, montes, se estas eminencias se conservão coroadas de

matto, são sempre ferteis, porque o humus, que estes mattos estão

continuadamente depositando na terra, dissolvido pelas chuvas, vai

enriquecer as vargens. As fraldas destas eminencias podem ser cultivadas

para pequenos vegetaes, se o angulo, que fizerem, não passar de

quarenta, e cinco gráos porque então só grandes arvores lhes convém.

Os proprietarios destas eminencias, que as descoroão de mattos,

empobrecem o Estado a perpetuidade; a coroa sendo descuberta, apresenta

huma superficie nua aos raios do Sol, e passados poucos tempos ficão

reduzidas a escalvados; porém a perda que não se repara mais, he a das

chuvas, que os grandes vegetaes tem a propriedade de chamar.

O humus não basta só para conduzir as plantas á sua perfeição; ellas

carecem ainda da luz, 3, do ár renovado, 4, de ter a superficie da terra

até onde podem extender-se as suas raizes, despida de plantas; esta

mesma terra revolvida, bem dividida, e haver entre planta, e planta huma

certa distancia, proporcionada aos succos, de que carecem, segundo a sua

natureza; haver huma escolha escrupulosa na semente, ou planta, e

conhecer qual he o tempo proprio para se lançar na terra, etc. etc.

_Como se deve cultivar a Cana de Assucar._

A Experiencia tem feito conhecer, que o melhor tempo de plantar a Canna

na Capitania do Rio de Janeiro, he de Dezembro a Março, para ser moida

de Junho a Septembro do anno subsequente, com dezoito mezes de idade.

Como nestes mezes não há olhos de Canna, usa-se cortar da Canna, que se

deixou para velha, pequenas estacas; porém esta Canna velha, que está

deteriorada por ter passado do ponto da sua madureza, tem sim bastante

doçura, porém os botões, ou olhos dos seus nós, ou articulações, que he

o que deve ser Canna, huns estão já murchos, outros podres, e por

consequencia perdidos; e só a parte superior da Canna, que sempre

conserva verdura, pouca doçura, e mesmo acidez, he o que nasce

facilmente.

Ainda que os botões estejão em bom estado, devem desprezar-se as Cannas

velhas, porque em quanto tem doçura, não nascem, e he preciso hum mez, e

mais tempo para a perderem. Para se fazer huma plantação perfeita, he

preciso fazer a planta. No principio da moagem, devem plantar-se os

olhos, ou parte superior da Canna, n'huma terra de muita substancia,

lodosa mesmo, em terreno virgem, que tenha bem humus, ou seja bem

estercado, para a Canna, que nascer, ser bem ataiobada, ou selvagem.

Desta Canna sem doçura, e bravia, he que se tirão as estacas para fazer

a plantação; cujas estacas devem ter o comprimento, que alcancem quatro

nós, que segundo a distancia de nó a nó, serão mais compridas, ou mais

curtas. Esta Canna plantada n'hum terreno tão pouco proprio para se lhe

extrahir o Assucar, não he perdida; além da utilidade da boa planta, no

fim de dois, ou tres cortes, póde servir para Assucar; porém deve haver

o cuidado de renovar a Canna para a planta. A Canna de Assucar cresce em

todas as especies de terra; porém as que são gordas, fortes, baixas,

lodosas, novamente roteadas, quero dizer, donde se derrubou matto

virgem, a pezar do comprimento, ou altura, que alcanção, tem o succo

aquoso, oleoso, pouco assucarado, difficil de cozer, de purificar, sem

rendimento. Hum terreno ligeiro, poroso, profundo, inclinado até quinze

gráos, he aquelle que a natureza tem destinado a este rico vegetal.

Deve-se dividir o terreno destinado para a Canna em tres partes, e cada

huma destas partes, subdividir-se em pequenos quadrados de doze braças

cada hum; qualquer que seja a exposição do terreno, sempre estes

pequenos quadrados hão de ser alinhados de Norte a Sul, de Leste a

Oeste. _Veja-se a Estampa I._ Cultivão-se estes pequenos quadrados,

deixando os lados de cada hum delles para todas as partes, livres da

planta da Canna; porém podem occupar-se em mandioca, carás, batatas,

feijão, milho, aboboras, ervilhas, etc. Cada hum dos quadrados, se tiver

doze braças de frente, e doze de fundo, deve conter quatrocentas covas,

na distancia humas das outras de seis palmos. Para se fazerem estas

còvas, não he preciso que todo o quadrado esteja descuberto de capim,

basta que seja limpo pouco mais que o tamanho dellas, que devem ter dois

palmos de comprido, hum palmo de largo, e seis pollegadas de fundo.

Comparadas estas covas com as que se fazem actualmente, hão de parecer

muito grandes, e muitos fundas; e na realidade o não são, respeito ás

que fazem os Colonos das Antilhas, e o mesmo digo sobre a distancia

dellas; pois elles chegão a afastallas humas das outras, até dez palmos

e meio, e a dar-lhe dezoito pollegadas de comprido, doze de largo, e

oito de fundo. O milho para prosperar de serra acima, para os seus

cultores colherem duzentos por hum, he preciso fazerem as covas na

distancia de cinco a seis palmos, nas quaes lanção quatro, ou cinco

grãos; ora este vegetal não tem o corpo da Canna de Assucar, nem como

ella carece de tanta substancia, e alimento; a cova de milho he para

quatro, ou cinco pés, a da Cana para oito, ou dez, que tantas são as que

devem nascer, dos olhos, os botões das duas pequenas estacas, que se

deitão nas covas, e se devem conservar, cortando todas as que demais

nascerem, porque como ladrões lhe roubão a substancia.

He certo que com a enxada, que se usa no Brasil, que he talvez a

primeira que se inventou, e onde não chegou ainda a enxada de Luca,

Franceza, ou Ingleza, he hum pouco difficil fazer esta especie de covas;

são precisas de vinte a trinta golpes, quando com qualquer das

mencionadas, bastão tres, ou quatro. A nossa enxada he fatigante, o

trabalhador anda curvado; e tendo o ferro de cinco a seis libras, elle

carrega com vinte, ou mais nas cadeiras; nesta especie de serviço o

homem baxo tem vantagem ao homem alto, a quem he preciso maior

curvatura, e por consequencia dobrado esforço. Na Republica de Luca, e

em algumas Provincias de França, não se usa de arado, nem de charrua,

porque a sua enxada equivale ao trabalho destes instrumentos, e fica a

terra mais bem trabalhada.

No Brasil onde os mesmos instrumentos pouco uso podem ter, he de huma

grande vantagem o adoptarmos a enxada Luqueza, ou outra com pouca

differença, que he huma especie de pá, com dez pollegadas de altura,

nove de largura em cima, oito em baxo, com a grossura de meia pollegada,

a acabar em huma linha, bem temperada de aço, com hum alvado de seis

pollegadas, quatro a meio ferro, e duas sobresahindo, e com a vacuidade

de pollegada e meia de diametro, que vai diminuindo insensivelmente, com

dois furos no alvado, para com huma cavilha se fazer firme o cabo, que

deve ter oito palmos de comprido. _Veja-se a Estampa II. Fig. I. e II._

O trabalhador com este instrumento tem o corpo direito, virado para o

Norte, os calcanhares afastados pouco mais de meio palmo; a enxada

afastada quasi hum palmo do pé esquerdo; a mão esquerda por todo o

comprimento do braço, pegando no cabo; e a mão direita pegando no mesmo

cabo, quasi no hombro direito _Fig. III._ A mão esquerda levanta a

enxada até onde póde hir, sem que o antebraço se desuna do corpo. _Fig.

IV._ A mão direita da altura, a que chegou, impelle a enxada com toda a

força, e a esquerda deixa escorregar o cabo, segundo a ferida que a

enxada fez na terra. Para se tirar esta terra, serve de apoio a mão

esquerda, e a direita carregando no cabo, levanta a pá, e ambas a guião

para lançar a terra a qualquer parte; porém deve ser regularmente para

Oeste, ou Leste. No segundo movimento, deve chegar-se o calcanhar do pé

esquerdo ao do direito, e este ladear para a direita tanto quanto a

enxada cava, e assim progressivamente.

Designados os quadrados para a plantação da Canna, vão a cada hum vinte

trabalhadores; o seu feitor os deve pôr enfileirados olhando para Oeste,

na distancia de seis palmos huns dos outros; manda-os andar á direita

para ficarem virados para o Norte; manda-lhe passar o pé direito a

perfilar com o esquerdo, na distancia pouco mais que meio palmo; e desta

sorte principião o trabalho, abrindo as covas de Oeste para Leste, de

manhã até ao meio dia, servindo de guia a sombra do corpo; e do meio dia

para a noite virados para o Sul fazem o mesmo; ou tambem podem trocar as

mãos, porque se trabalha para o lado direito, assim como para o

esquerdo; devendo buscar-se de qualquer sorte o alinhamento perfeito das

covas de Norte a Sul, e de Leste a Oeste, o que he essencial para a

perfeição da cultura deste rico vegetal.

Feitas as covas, devem lançar-se nellas duas estacas de Canna, que não

tenhão menos de quatro, nem mais de cinco botões, para quando nascerem,

fazerem huma soqueira de oito, ou dez Cannas. Cobrem-se estas estacas

com duas pollegadas de terra, e quando tem nascido a Canna, e alcançado

dois palmos pouco mais de altura, enchem-se as covas com o resto da

terra. Limpão-se as Cannas de todas as hervas que podem roubar-lhe a

substancia, á proporção que forem nascendo. Esta plantação deve fazer-se

de Janeiro até Março, e não antes, nem depois. Qualquer que seja a

qualidade da terra, não deve pretender-se mais, que dois cortes; o

primeiro dahi a dezoito mezes, o segundo a que se chama sóca, dahi a

quinze, ou dezaseis mezes. Depois deste segundo córte, deve occupar-se o

terreno em que esteve a Canna, com aboboras de todas as especies, que

tem a propriedade de cubrir bem a terra, para que as raizes da Canna

apodreção, e depois de convertidas em humus, ficar a terra apta para

receber nova Canna, que dahi a mais de hum anno se lhe póde confiar. De

Janeiro a Março do segundo anno, cultiva-se a segunda divisão, e no anno

seguinte a terceira. A quarta plantação faz-se nos mesmos quadrados da

primeira; a quinta, nos segundos, a sexta nos terceiros, a setima nos

primeiros da primeira, a oitava nos da segunda, a nona nos da terceira,

e assim alternativamente; de sorte que a Canna de cada quadrado tenha

intervallo bastante, que a livre de plantas, que lhe roubem a luz. Esta

fórma de plantação póde variar-se a infinito, segundo a quantidade de

terreno, e intelligencia do cultor.

Em lugar de quadrados perfeitos, podem ser quadrados longos etc., com

tanto que se busque sempre o dar á Canna, a maior quantidade de ár, e

luz possivel; porque a experiencia faz ver com evidencia, que só a dos

aceiros, que recebe continuadamente a influencia destes dois agentes, he

que alcança perfeição no seu succo; a que está para dentro, fica sempre

esverdeada, o seu succo mal digerido, difficil de cozer, e de purificar;

por consequencia o fim do lavrador deve ser quanto lhe for possivel,

fazer todo o Canaveal em aceiro.

_Vantagens desta fórma de plantação._

Se há fogos por accidente, he moralmente impossivel, que passem de huns

a outros partidos, tendo tão grande separação entre si. Nunca os carros,

nem animaes pizão o Cannaveal, quando se conduz a Canna á fábrica. Há

facilidade para se verem as Cannas de todos os pequenos partidos, para

se cortarem os filhos que brotão, que como ladrões lhe roubão a

substancia.

Quasi todo o Cannaveal está em aceiro, quero dizer, está apto para

receber a influencia, e nutrição, que lhe communica a atmosphera. A

renovação, e correnteza do ár impede a geração, e propagação de

insectos, taes como baratas, e outros, que a sua corrupção tem a

propriedade de chamar. Pelo alinhamento de Norte a Sul, de Leste a

Oeste, recebem as Cannas os raios da luz, que o Sol póde

communicar-lhes, e que lhes são tão precisos para a depuração do seu

succo.

Facilita o tarefar o trabalho, etc. etc.

_Córte das Cannas._

A Canna de Assucar gasta dezoito mezes a chegar ao seu ponto de

perfeição, porém se há seccas, anticipa-se; o gosto, e a vista he que

decidem a colheita; quando está bem doce, e tem a côr amarellada, he

tempo de cortar. He sabido de todos, que principia a ser doce do pé, e

que esta doçura vai diminuindo gradualmente para a parte superior, e que

junto á bandeira, ou olho, não só não tem doçura, porém mesmo tem

acidez, e he por consequencia hum erro, o aproveitalla até ás folhas.

Deve sim cortar-se bem rente á terra sem ferir as raizes, porém o palmo

junto ás folhas, deve-se desprezar. Segundo a sua grandeza, se ha de

cortar em huma, duas, e talvez tres partes, servindo de ballisa, o não

ter mais de cinco, ou seis palmos, para se appresentar á moenda. Usa-se,

quando se corta, fazer feixes de seis, ou oito Cannas, segundo a sua

grossura, cujos feixes são amarrados com os olhos das Cannas que se

cortárão. Esta especie de atilhos he tirada dos feixes de Canna, quando

se appresentão á moenda, porém escapão muitos, que se espremem com a

Canna; ora, tendo elles acidez, vão deteriorar o sumo, de que se ha de

fazer Assucar, gastar mais decoada, e lenha, além do tempo, e serviço

que se perde; porque no acto de cortar a Canna, são precisas quasi

tantas pessoas para amarrar, como para cortar; e para a conducção tanto

importa estar em feixes, como solta, e o mesmo para se meter na moenda,

onde o trabalhador póde regular o pegar em seis, ou oito, doze, ou

dezaseis, para as appresentar. Deve haver cuidado de não se cortar mais

Canna, que a que póde moer-se em vinte e quatro horas, principalmente se

o calor he intenso, porque o sumo fermenta na mesma Canna, o que arruina

a sua qualidade.

_Construcção dos engenhos actuaes._

Todos os engenhos de fazer Assucar na Capitania do Rio de Janeiro,

qualquer que seja a potencia, agua, bestas, ou bois, tem a mesma

construcção, á excepção de tres modernamente feitos, que reunem algumas

vantagens, todos os mais he hum grande pião, que faz fazer huma casa de

sessenta palmos livres, acabando em varandas á roda, algumas

subdivididas; cujas varandas são maiores, ou menores, segundo o destino,

que se lhes dá, de picadeiro, casa de caldeiras, casa de purgar, casa de

encaixe, casa de aguardente, fornalhas, e varandas de carros; com

algumas trapeiras para dar sahida ao fumo, e luz. No centro desta grande

casa de sessenta palmos, se o engenho he moido por animaes, está a meza

com as moendas; na moenda do meio, vulgarmente chamada a moenda grande,

que pela sua dentadura faz moer as dos lados, há quatro aspas, ou

almanjarras, a cada huma das quaes puxão dois animaes, formando hum

circulo á roda da meza, de cincoenta e seis palmos de diametro, vindo a

ter as almanjarras por onde puxão os oito animaes, vinte e oito palmos

de comprido; os dois palmos que faltão para os trinta, ou quatro para

sessenta da capacidade da casa, he folga para os animaes, que não devem

roçar pelas paredes.

Se o engenho he de agua, na moenda do meio há huma grande roda, de

trinta e seis a quarenta palmos de diametro, a qual está n'hum eixo

horisontal, e nelle huma roda vertical, de trinta a trinta e seis

palmos, que nos cubos da sua circumferencia recebe a agua, que he a

potencia. Há hum engenho de agua com rodizio, ou roda horisontal, que

reunindo a vantagem de tocar dois ternos de moendas, e ser obra tão

perfeita neste genero, não tem tido imitadores, por parecer á primeira

vista, ser a roda vertical de maior força que a horisontal, o que he

engano, como farei ver.

_Notas sobre esta fórma de construcção._

Para se fazer huma casa de sessenta palmos livres, são precisas vigas de

sessenta e quatro palmos de comprido, que ficão fracas, se não tiverem

dois palmos por cada face; he custoso achar estes madeiros, difficultosa

a sua conducção, perigoso o levallos acima do edificio, que fica

sobrecarregado com este desmarcado pêso, e por consequencia fraco. As

trapeiras, de que usão para dar sahida ao fumo, e entrada á luz, são

insufficientes, e há occasiões, em que quasi se he suffocado pela

fumaça, e sempre he precisa a candêa para se verem os objectos. Os

animaes no seu giro, circulando as moendas, estorvão a passagem, aos

conductores da Canna, que algumas vezes succede serem atropellados; os

picadeiros de sobrado, que se fizerão n'hum engenho, para evitar estes

accidentes, não tiverão imitadores; e o mesmo engenho os abolio por

incommodos. O sumo, que sahe das Cannas pela expressão das moendas, he

conduzido por huma calha ao parol, a que chamão de caldo frio; no

circulo, que fazem as bestas, atravessão esta calha, o que fórça pôlla

junto á terra, e o dormente dos moendas com pouca altura, e por

consequencia o não se poder moer Canna, como deve ser. Ainda que o

engenho seja de agua, como estas fábricas forão feitas por imitação de

humas a outras, o prospecto he o mesmo, e não tem os commodos, que se

devião buscar; multiplica-se serviço, por ser preciso usar de pótes, e

barris para levantarem os liquidos, que devião ser conduzidos por bicas,

ou calhas, até cahirem nos alambiques.

_Nova construcção de engenhos._

Em mechanica o ser senhor da potencia, para augmentar, diminuir, e

modificar a força ao seu arbitrio; ajuntar a estas vantagens a da

elegancia, commodo, e economia, parece que he tudo, quanto se póde

desejar.

O engenho, que se propõem para modello, não tem hum páo de maior

comprimento, que o de quarenta e quatro palmos, com huma face de palmo e

meio, e outra de hum palmo, e estes são os tirantes; todos os mais páos

são de hum palmo, tres quartos, meio palmo, com menos comprimento, á

excepção dos esteios, com palmo e meio de face, e de quarenta para cima

de comprido.

O edificio por dentro, debaxo de huma cumieira, tem cento e sessenta

palmos de comprido, quarenta e dois palmos de largura, e trinta e tres

de altura em pé direito.

Na altura de trinta palmos está hum segundo frechal, que cinge todo o

edificio, e serve sômente, para encabeçar os caibros das varandas, e

deixar hum claro de tres palmos, para dar luz, e sahida ao fumo.

Este engenho he para o trabalho de bestas, ou bois, porém a sua

construcção he, como se fosse para agua, girando tudo sobre pião. Na

moenda do meio tem huma roda com oito aspas, a que se chama bolandeira,

com trinta e seis palmos de diametro de centro de dente, a centro de

dente, e noventa e seis dentes na sua circumferencia, que ficão na

distancia de pouco mais de palmo huns dos outros; os dentes desta roda

são de coroa. Esta roda he movida por hum rodete estrellado de trinta e

dois dentes, cujo eixo em pião tem duas almanjarras; da ponta de cada

huma das quaes ao centro do eixo, são quatorze palmos. Os animaes

trabalhão nesta máquina, em huma especie de pôço calçado, com oito

palmos de profundidade (póde ser mais, ou menos) cercado com huma

varanda. Esta especie de pôço he formada pelo aterro da casa, onde gira

a máquina, e estão as moendas. Já se vê que, tendo o rodete a terça

parte da bolandeira, he preciso que dê tres voltas para a bolandeira dar

huma; e, como os animaes puxão na distancia de quatorze palmos do

centro, devem fazer tres circulos de vinte e oito palmos de diametro,

que fazem oitenta e quatro palmos, para as moendas darem huma volta, o

que faz puxar por huma almanjarra, ou alavanca de quarenta e dois

palmos. He certo que oitenta e quatro palmos de diametro fazem oitenta e

quatro passos de circumferencia; e, tendo os engenhos communs as suas

almanjarras em cincoenta e seis palmos de diametro, que fazem cincoenta

e seis passos de circumferencia, parece que farão em menos tempo virar

as moendas; porém não he assim; porque a pezar de serem oito os animaes,

que puxão estas almanjarras, e poderem só quatro, e menos puxar as

outras, por ter a sua alavanca mais quatorze palmos de comprido;

attendendo ás paradas, que os oito animaes fazem a cada passo, para

vencer a resistencia, e á suavidade, com que os quatro andaráõ, sem

nunca achar obstaculo, que faça retardar o seu passo natural, fica

igualado o serviço, e talvez superior o dos quatro: além disto, ainda

que eu não conheça no Rio de Janeiro, quem possa occupar sempre, e no

seu devido tempo, esta máquina trabalhando assim, mettendo Canna como

deve metter-se; quem quizer andar mais veloz, encurte as almanjarras, e

augmente o numero de bestas, e póde levar isto ao ponto, que lhe

parecer; vantagem de que são privados os engenhos actuaes, que hão de

restringir-se ao numero de oito sómente.

Por esta nova fórma cada hum póde trabalhar, segundo as suas forças: se

em lugar do rodete pela terça parte, o fizer pela quarta, conservando as

almanjarras no seu comprimento, faz puxar as bestas por huma alavanca de

cincoenta e seis palmos, e se ha de moer com quatro, póde fazello com

duas, e mesmo huma. Assim como póde diminuir; se fizer o rodete por

ametade, augmenta o movimento, e fica a almanjarra de vinte e oito

palmos, e tem a vantagem de meter oito, dez, doze, dezaseis bestas, o

que não póde fazer na construcção actual; porque então não terião

passagem os carregadores de Canna para as moendas, que estão sempre

desembaraçadas na construcção, que se propõem; porém a proporção da

terça parte, he, segundo o meu cálculo, a mais ajustada.

_Veja-se a Estampa III._

_Sobre o movimento das moendas._

Eu não tenho noticia de que houvesse ainda quem regulasse o movimento

das moendas, para fazerem o maior effeito possivel n'hum termo dado,

sendo isto hum objecto, que merece toda a ponderação. Vendo que em hum

engenho movido por bois, dão as moendas huma volta por minuto; n'hum por

bestas quasi volta e meia; nos de agua duas, tres, quatro, e mais

voltas; pensando todos geralmente, que quanto maior numero de voltas der

em menos tempo, mais moerá, fiz exame a este respeito, e achei que o

movimento de duas voltas por minuto, he o ponto de perfeição; e que

tanto menos se moerá, quanto se afastarem delle para mais, ou para

menos. Quando boas bestas, e descançadas, excitadas pelo açoite puxão

pelas almanjarras a trote, e fazem dar ás moendas duas voltas e meia por

minuto, a Canna fica esmagada, e não espremida; porque o sumo não tem

tempo da cahir, e passa em cima da Canna para a outra parte; e como ella

he hum corpo esponjoso, e elastico, logo que cessa o aperto, torna a

beber o mesmo sumo, do qual só numa pequena parte cahe na meza; e se em

duas voltas e meia succede isto, peior em tres, quatro, e mais. N'hum

engenho movido por bestas, não póde haver excesso no movimento, poderia

talvez prejudicar por defeito, se houvesse quem tivesse forças para

fazer de dez a doze mil arrobas de Assucar annualmente, o que nunca

succedeo; porém havendo quem possa fazellas, ou ainda mais, póde pôr

dois ternos de moendas, que o mesmo rodete faz moer, segundo o modello

que se propõem. Com a roda vertical dos engenhos de agua, he hum pouco

dificultoso regular o movimento das moendas; só se a agua he muito alta,

o que raras vezes succede; sendo baxa, e muita, que possa dar-se-lhe

toda a força que se precisa, o rodete he muito grande, e faz que a

bolandeira dê tres, e quatro voltas por minuto, o que retarda o serviço,

como acima se diz; só se a roda vertical tivesse de cincoenta a sessenta

palmos de diametro, o que não póde ser sem muito incommodo. Com a roda

horisontal, vulgarmente chamada rodizio, he facil graduar o movimento.

O maior, ou menor declivio na bica de ferir as pennas; maior, ou menor

diametro no rodete, ou no mesmo rodizio, faz conseguir o que se quer sem

custo.

_Comparação da roda vertical com a horisontal._

He sabido de todos, que em qualquer máquina, a agua obra sómente pelo

seu pêso. Supponho ter huma bolandeira com trinta e seis palmos de

diametro, movida por hum rodete de oito; a roda vertical de trinta e

seis; a agua na altura de vinte palmos, com quatro pollegadas cubicas,

que são sessenta e quatro, e pesão quasi tres libras. Onde a vertical

recebe o impulso com a maior força, he no semidiametro, e fim da linha

horisontal do eixo, em dezoito palmos; a agua cahe com dois palmos de

ferida, e doze libras de pêso no principal cubo; nos que se enchêrão,

pésa com tres libras em linhas mais curtas. Se os cubos tem capacidade

para receber mais agua, e o pêso desta nos mesmos he preciso para o

movimento, fica a máquina vagarosa, e sem o effeito que se quer. Tem

mais o defeito de ficarem as moendas baxas; não se poderem dar as

proporções que se precisão; estar tudo cheio de agua, e a roda afeiando

o edificio, estorvando passagens, etc. O mesmo diametro na bolandeira, e

na horisontal, quero dizer, trinta e seis palmos o diametro da

bolandeira, e trinta e seis o do rodizio, o rodete deve ter a oitava

parte, ou doze dentes estrelados, tendo a bolandeira noventa e seis de

coroa, e a agua na mesma quantidade, e altura. Vinte palmos que a agua

tem de altura, são quarenta vezes tres libras, ou cento e vinte libras,

que pésão sobre as pennas do rodizio com hum jacto de quasi vinte

palmos, se sahisse horisontalmente, porém como deve ter quinze gráos de

declivio para ferir as pennas, fica em dezaseis.

Este jacto de quinze gráos communica hum movimento mui veloz ao rodizio,

que póde ser moderado, segundo a necessidade, e o podemos levar até

quarenta e cinco gráos com toda a vantagem. Podemos augmentar o diametro

do rodizio; diminuir, ou accrescentar o do rodete; levantar, ou abaxar

as moendas á nossa vontade, fazendo mais curto, ou mais comprido o eixo

do rodizio; cujas pennas, sendo feitas de páos firmes, tudo cerne, com

tres palmos de comprido, e hum em quadro, as cavas em meia lua, para

receber a agua, com seis pollegadas pelo comprimento da penna, cinco na

largura, e cinco em profundidade, tem toda a solidez, e duração

possiveis; quando pelo contrario a roda vertical, composta de muitas

taboinhas, e pequenas juntas, em poucos tempos fica fóra de serviço.

O modello, que se propõem, para moerem bestas, serve para o de agua com

rodizio, só com a differença do rodete ser mais pequeno, e a especie de

pôço ser cuberta de sobrado, que dá passagem ao eixo; reunindo esta

fórma de máquina além das mais vantagens, a de poder ser movida por

animaes, se por accidente falta a agua, o que succede algumas vezes, e

causa prejuisos.

Não fallo nos engenhos de vento para moer Canna, porque a instabilidade,

e irregularidade deste agente no Brasil, o faz inutil. Ainda mesmo os de

agua, se esta for difficultosa, ou que faça precisar grandes despesas;

pondo-se em prática o modello, não causará muito pesar o moer sem ella.

_A Estampa III._ mostra o interior, o plano, e o exterior da casa do

engenho.

_Preciso sobre a dentadura das rodas._

A falta de conhecimento de mechanica nos mestres de engenhos do Rio de

Janeiro, aos quaes com mais propriedade se pódem chamar curiosos, á

excepção de alguns, e bem poucos, que tem merecimento, me faz dizer o

que sei a este respeito, por me parecer que será de alguma utilidade.

Quero fazer huma roda grande, que tenha trinta e seis palmos de

diametro, de centro de dente, a centro de dente; sabe-se que a devo

armar de oito curvas, ou cambótas, que tenhão de testa, a testa trinta e

sete palmos; porque a dentadura devendo estar no centro da cambóta, para

esta ficar com fortaleza, deve ter meio palmo para dentro, e meio para

fóra. Huma roda com este diametro não se póde fazer sem oito aspas. Devo

repartir o circulo em oito partes perfeitamente iguaes, que assignallo;

e como quero pôr neste circulo noventa e seis dentes, já se vê que

pertencem doze a cada oitavo.

O sintel tem feito descrever a linha onde devem ser postos; reparto em

doze partes o oitavo, e assignallo cada huma com seu ponto, que serve de

centro ao furo para o dente, cujos pontos ficão distando huns dos outros

nove pollegadas e meia com pouca differença.

Deve haver o maior cuidado, em que estes pontos fiquem perfeitamente

iguaes, e que não desmintão nem a grossura de hum cabello; e que os

furos, que se fizerem para os dentes, fiquem perpendiculares.

O circulo deve ser fixo nas aspas por cavilhas; quatro destas aspas o

sustem, e as outras quatro prendem-no.

Estas aspas devem assentar no circulo entre os dentes com huma medida

perfeitamente justa, para a roda não ficar com o que se chama peito. Se

quero fazer huma roda mais pequena, que não careça de oito aspas, e sim

de seis, reparto o circulo em seis partes iguaes, e procedo da mesma

sorte que para a antecedente; lembrando-me sempre de não fazer os pontos

para os dentes em menos de nove pollegadas, e podem hir a dez, que he

erro fazellos mais proximos, porque fica a cambóta fraca; e que nunca

deve haver dente, onde a aspa assentar. Regra geral, o numero das aspas,

he o das divisões, e em cada divisão hum numero certo de dentes, o que

faz ver que nenhuma roda, tomada no todo, tem os dentes impares. He

sabido de todos, que duas rodas, tendo huma de fazer mover a outra,

ainda que as dentaduras sejão certas, se forem perfeitamente iguaes, não

podem trabalhar; he preciso que aquella, que está unida á potencia,

tenha huma certa folga nos dentes, que devem ficar mais largos, que os

da outra, para trabalharem suavemente; a esta folga, ou maior distancia

dos dentes de huma, respeito aos dentes da outra, he ao que os mestres

chamão compasso. Ora para acharem este compasso nas medidas, que fazem,

usão das maiores extravagancias; e o que tem encontrado melhor, depois

de muitos erros, encobrem-no com mysterio até aos seus aprendizes.

Depois de ter feito a roda, e graduado os seus dentes, para compassar os

do rodete, ou roda que trabalha com a potencia, abro o compasso (cujas

pontas devem ser bem agudas) e com toda a certeza as assento nos pontos

de dois dentes, o que me dá a distancia de dente a dente. No centro de

huma regoa comprida traço huma linha, e por esta linha messo, ou conto

quinze compassos; a distancia destes quinze compassos deve ser signalada

por dois pontos. Abro agora o compasso mais, e a linha descripta dos

quinze divido em quatorze; esta pequena differença de quatorze a quinze

he o apartamento, ou folga, que devem ter de mais os dentes do rodete,

respeito aos da roda. Se tenho graduado o rodete primeiro, faço o mesmo

que na roda; mésso pelo compasso a distancia de hum dente a outro; na

linha traçada conto quatorze compassos, aperto o compasso hum tanto,

para que a distancia dos quatorze se reduza a quinze: esta pequena

diminuição he, o que devem ter de menos distancia, os dentes da roda aos

do rodete.

Devo lembrar, que estas medidas devem ser exactas, e que os pontos

signalão o centro dos dentes. Se as rodas, ou rodetes tem os dentes em

coroa, a medida, ou compasso deve ser tomado na cambóta; se os dentes

são em estrella, deve o compasso ser tomado no centro da ponta do dente.

Segundo o destino da máquina, que se quer fazer, póde o rodete ser

pequeno, e a roda grande; o rodete ser grande, e a roda pequena, ou

ambos de igual tamanho; porém he regra geral, que a roda, onde trabalha

a potencia, seja grande, ou pequena, he a que deve ter folga nos dentes,

quero dizer, serem mais apartados, o que vai de quatorze a quinze, que a

outra roda, qualquer que seja a grandeza.

Os dentes das rodas podem ser todos de coroa, e todos estrelados; em

humas, de coroa, e em outras estrelados; porém observando-se as regras

dadas, he facil fazellos de qualquer sorte. He indifferente, que os

dentes de qualquer roda sejão delgados, ou grossos, com tanto que sejão

iguaes em grossura. Hum terno de moendas com tres palmos de diametro, e

oito dentes cada huma, graduados estes dentes pelo centro da sua ponta,

regidos pela moenda do meio, que he a motora, e a que deve ter a folga,

podem ser os dentes de cada huma desiguaes, respeito ás outras, sem

defeito no trabalho; todos os dentes da moenda do meio podem ser muito

grossos; menos grossos os da de hum dos lados, e mais delgados os da

outra, e assim mesmo podem trabalhar com perfeição. Os dentes das rodas

de coroa devem ser redondos a torno; os em estrella tambem a sua ponta

deve ser redonda, acabando em semicirculo, segundo o seu diametro. O

aguilhão do eixo, onde anda o rodete, não deve ser fixo nelle, ha de

andar junto n'huma caixa de bronze; porque, como se ha de gastar pelo

movimento, para o recalçar, basta levantar com huma alçaprema o mesmo

eixo, e logo o aguilhão cahe, oppõem-se-lhe outro, que deve haver de

sobrecellente. As almanjarras hão de ficar n'huma altura tal, que os

tirantes, por onde puxão as bestas, corrão em linha horisontal ao seu

peito; puxão mais desta sorte, e fatigão-se menos. A besta puxa com o

seu pêso, e o esforço dos seus musculos serva para renovar este pêso, se

os tirantes estão muito baxos, o pêso, que devia empregar-se a puxar,

perde-se em levantar o eixo, e se estão muito altos, a besta he

levantada por diante, e as suas mãos não achão na terra hum apoio

sufficiente para renovar o seu movimento.

_Como se moe Canna actualmente._

As moendas, de que actualmente se usa na Capitania do Rio de Janeiro,

tem de tres a quatro palmos de diametro, e outro tanto, pouco mais de

altura.

A sua dentadura he no meio da moenda; alguns engenhos, rarissimos, tem

as moendas dentadas na parte superior, e aguilhões inteiros de ferro;

porém o commum he terem os dentes no meio do corpo da moenda, e meios

aguilhões de ferro, e na parte superior hum pescoço, que faz as vezes de

meio aguilhão, feito de hum páo solido. Saõ chapeadas de ferro meio

largo: estas chapas tem hum palmo de comprido, e são afastadas humas das

outras a quarta parte de huma pollegada, ou tres linhas; e pregadas no

madeiro da moenda com seis pregos curtos, e grossos. A meza, em que

estão assentadas estas moendas, não tem mais altura, que a de quatro a

cinco palmos. Qualquer que seja a potencia que as faça mover, a Canna he

sempre mettida nellas da mesma sorte. Hum Escravo appresenta hum feixe

de Canna pela sua ponta em linha horisontal, entre a moenda do meio, e

huma das dos lados; continua a metter segundo, terceiro, quarto, quinto,

e sexto e outro Escravo da parte opposta, á proporção que os feixes de

Canna passaõ, depois de espremidos na primeira, os appresenta da mesma

sorte á segunda: tornão a passar pela primeira, e repassar pela segunda,

o que faz que esta Canna seja espremida quatro vezes, sempre em linha

horisontal. Em alguns engenhos chegão a passar cinco, e seis vezes,

porém o commum são quatro. Sobre estas quatro passagens, e suppondõ tres

palmos de diametro nas moendas, he que eu faço o meu cálculo; e tambem

supponho, que hum carro de Canna contém cento e cincoenta feixes; de

seis Cannas, se são grossas, de oito, se saõ delgadas, e do comprimento

de seis palmos. Tres palmos de diametro são nove de circumferencia,

dando quatro voltas a moenda, tem passado, e repassado os seis feixes;

dando outras quatro voltas, tem feito passar os seis feixes reduzidos a

bagaço, por consequencia, para se espremerem seis feixes de Canna, he

preciso que as moendas dem oito voltas, as quaes n'hum engenho de bestas

bem corrente se não dão em menos de seis minutos, o que faz precisar

duas horas e meia para se moer hum carro de Canna, com o numero de

feixes, e comprimento acima ditos, e nove para dez carros, em vinte e

quatro horas.

_Notas sobre esta fórma de moer_

As moendas tem pouca altura da dentadura para baxo, onde anda a

chapeação, e póde metter-se Canna, que não deve chegar aos dentes; e

para isto se conseguir, he preciso que os feixes se appresentem á moenda

em linha horisontal. A meza he muito baxa, e como o Escravo, curvando-se

hum pouco, chega com as mãos á moenda, onde as costuma ter para amparar,

e empurrar as partes minimas da Canna, a que se chama bagaço, he causa

de accidentes, e de muitos Escravos ficarem sem mãos, o que todos os

annos succede em hum, ou outro engenho.

A chapeação das moendas he grande erro; huma moenda de tres palmos de

diametro, que fazem nove de circumferencia, precisa de vinte chapas; a

seis pregos, são cento e vinte pequenas cunhas, que mettidas com muita

força pelo comprimento do madeiro da moenda, a faz abrir em pequenas

raxas, onde póde introduzir-se alguma porçaõ de sumo de Canna, e não

póde chegar a lavagem; porque he agua simplesmente lançada, e a quem

falta o aperto, que soffre o sumo da Canna entre as moendas.

Esta pequena porção de sumo huma vez introduzida nestas raxas, azéda, e

serve de fermento para fazer desmerecer o sumo que se espreme; e todos

sabem, que huma mui pequena porção de acido impede o fazer Assucar, e

deteriora a sua qualidade. Ainda mesmo que o madeiro esteja perfeito,

sempre o sumo se introduz por baxo das chapas, e a agua da lavagem não

póde lá chegar.

Esta chapeação não impede que as moendas sejão torneadas todos os annos,

ou todos os dois annos; he preciso arrancar as chapas, e depois de

torneado o madeiro, repregallas em outro lugar, tapando com tornos, os

buracos, onde estiverão os pregos; por mais solido que elle seja, não

póde resistir a tres, ou quatro operações destas, sem que fique fóra de

serviço. Vinte chapas, de mais de duas linhas de grossura, são quarenta

angulos, ou cunhas, que cortão, ou mordem as Cannas, que á terceira

passagem ficão reduzidas a partes minimas, cujo bagaço, para passar a

quarta vez, he preciso que o Escravo o empurre, e ampare com as mãos

entre as moendas, para poder espremer-se, e ainda nesta quarta passagem

sahe humido. As ultimas vezes, que este bagaço passa nas moendas, faz

tanta resistencia, que se são de meios aguilhões, succede aluirem para

os lados, e se são inteiros, quebrarem. O bagaço, quasi reduzido a pó,

só serve para estrume depois de ter apodrecido na bagaceira, o que

infecta o ár, que se respira á roda da fábrica, e faz sempre sentir hum

máo cheiro.

_Nova fórma de moer._

As moendas devem ter tres palmos, e pouco mais de altura, até á

dentadura; devem ter tres palmos de diametro, ser feitas de hum páo bem

firme, e bem lisas, sem chapeação. A meza deve dar pelos peitos de hum

homem, e ter cinco palmos de largura, inclusos os taboleiros. A Canna ha

de ser appresentada á moenda em linha obliqua, fazendo hum angulo de

quarenta e cinco gráos, com pouca differença, e perto da dentadura.

Assim que esta Canna passou, o Escravo da parte opposta deve dobralla, e

appresentalla á moenda pela sua curvatura, tambem em linha obliqua. Com

estas duas passagens fica a Canna melhor espremida, que com as quatro,

ou mais, que actualmente se usão.

Para que este serviço continue sem interrupção, he preciso que o

Escravo, que mette Canna, appresente á moenda de doze a dezaseis de cada

vez, segundo a sua grossura; o Escravo, da parte opposta, pega em seis,

ou oito destas Cannas, dobra-as, e appresenta-as á moenda pela sua

curvatura, e faz o mesmo ás outras seis, ou oito, e assim continua o

serviço; porque tendo a Canna seis palmos de comprido, dobrada fica em

tres, e he preciso que as moendas estejão sempre cheias. Por mais molle

que seja hum páo proprio para moendas, sempre he muito mais duro que a

Canna, que, sendo hum corpo esponjoso, deprime-se facilmente; o muito

uso poderá gastallo, e será preciso torneallo, porém creio certamente,

que ha de precisar muito mais tarde deste beneficio, que as moendas

chapeadas, e ha de conservar mais annos a sua solidez. Conheço huma

fábrica de Estampas, que imprime de oito a dez mil todos os annos, e

trabalha há mais de vinte; que os dois cilindros, que fazem a fieira, e

apertão entre duas taboas a chapa da impressão, ainda não forão

torneados, nem o precisão; accrescendo ser isto hum trabalho de páo

contra páo, muito differente da Canna, que he hum corpo muito mais

molle. A Canna, appresentada em linha horisontal, faz aperto n'huma

parte da moenda sómente, e, appresentada em linha obliqua, trabalha com

todo o corpo. He certo que as moendas de páo são hum remedio; devião ser

tambores, ou cilindros de ferro, assim como se pratica nas Antilhas,

despesa que se faz por huma vez, porém em quanto se não põem em prática,

deve degradar-se a chapeação, por ser desnecessaria, e nociva.

_Comparação da moagem actual com a que se propõem._

Pelo methodo usado, dando a moenda quatro voltas; são trinta e seis

palmos de superficie; tendo os feixes seis palmos de comprido, e,

appresentando-se em linha recta, ou horisontal, passaõ, e repassão seis

feixes; dando outras quatro voltas, passão, e repassão em bagaço, são

precisas oito voltas para moer seis feixes de Canna, o que não póde

fazer-se em menos de seis minutos. He certo que estes feixes de Canna só

tem os seis palmos de comprido na primeira, e segunda passagem, ficando

reduzidos a pequenas partes para a terceira, e quarta, o que fará

parecer gastarem menos tempo nas duas ultimas; porém isto deve

considerar-se nullo, pelas paradas que nestas occasiões fazem as bestas,

por ser preciso redobrar o seu esforço para vencer a resistencia, que o

bagaço, ou Canna, reduzida a pequenas partes, lhe offerece. Pelo methodo

proposto, appresentando-se a Canna á moenda em linha obliqua, tendo seis

palmos de comprido, fica reduzida a quatro e meio, e he preciso nas

quatro voltas fazer oito entradas, para ganhar a superficie das moendas,

cujas entradas sendo de doze a dezaseis Cannas, que são dois feixes,

fazem dezaseis; e como passão, e repassao simplesmente, em quanto nos

seis minutos, pelo methodo usado se moem seis feixes; moem-se pelo

methodo proposto trinta e dois, e por consequencia hum carro de cento e

cincoenta feixes em menos de trinta minutos, que em vinte e quatro horas

faz mais de cincoenta carros. Pelo methodo usado, hum feixe de Canna,

appresentado á moenda em linha horisontal, o aperto que soffre faz, que

estas Cannas fiquem sobrepostas humas acima das outras; ellas, que tem

huma pollegada pouco menos de diametro, ficão bem espremidas, passando

por huma fieira de huma a duas linhas; porém do sumo que espremem, que

tem de circumdar a superficie de quasi todas as Cannas, sò huma pequena

parte cahe na meza, e a maior parte, fluctuando por cima dellas, logo

que cessárão de soffrer a compressão, sendo de natureza esponjosa, e

elastica, tornão a beber o sumo espremido. Na segunda passagem pouco

aperto percebem; porque passão por huma fieira igual á primeira, e por

consequencia he preciso que sejão reduzidas pela chapeação a partes

minimas, para se lhe aproveitar o sumo. Pelo methodo proposto,

appresentando-se a Canna em linha obliqua, quando recebe o aperto, dá

sahida ao sumo pela mesma Canna, e deposita na meza todo, o que espreme.

Quando acabou de passar a Canna, e o Escravo da parte opposta a dobra ao

meio, para a appresentar na mesma linha obliqua; pelo seu angulo, ou

curvatura, recebe na fieira da moenda hum aperto maior que o primeiro;

porque em igual ou superior volume, tem partes mais solidas que

comprimir, faz ficar o bagaço sècco, inteiro, apto para se fazer em

feixes, que podem servir para as fornalhas; o que he impossivel no

methodo usado, porque fica reduzido quasi a pó. A differença de hum a

outro methodo he de nove a cincoenta, vantagem inapreciavel em

semelhantes fábricas. Eu não sei que haja em todo o Brasil, quem reuna

forças para moer esta quantidade de Canna de Junho a Setembro, que he o

verdadeiro tempo, e são cem dias de serviço; talvez não haverá meia

duzia de fábricas, que possão fazer ametade, porque então farião de seis

a sette mil arrobas de Assucar. Vejo que há engenhos, que para tres, ou

quatro mil arrobas, principião em Maio, e acabão em Dezembro, por não

poderem mais, empregando dia, e noite neste trabalho, e assim mesmo

perdem Canna, que não podem moer. Trabalhando-se desta sorte, os homens,

e os animaes se estragão, o dia he para trabalhar, e a noite para

descançar, esta a ordem da natureza, que se não inverte impunemente.

Adoptando-se esta fórma de moer, póde a noite ficar salva. Principia-se

das quatro horas da manhã até ao meio dia, das duas horas da tarde até

ás dez da noite; nestas dezaseis horas de serviço, cada hum póde

trabalhar, segundo as suas forças. Suppondo que quer moer dezaseis

carros de Canna, faça appresentar á moenda só seis, ou oito Cannas (que

he hum feixe) continuadamente, na repassagem faça dobrar tres, ou

quatro, tudo como acima se diz, e desta sorte póde augmentar, e

diminuir, segundo as suas forças, e vontade. Nestas duas horas depois do

meio dia, e ás dez da noite, basta que sejão lavadas ás moendas, menos

que o calor não seja intenso, ou que haja trovoadas; porque então todas

as vezes que se enche o cocho, devem ser lavadas. _Veja-se a Estampa

IV._

_Descripção do que contém a casa de caldeiras actualmente._

A Casa de caldeiras, onde se fabrica o Assucar, he de cinco a oito

palmos, mais baxa que a do engenho, e contém o que se segue. Parois de

caldo frio, Parois de caldo quente, Rominhois, Espumadeiras, Batedeiras,

Repartideiras, Caldeira, e Coxinha, Bangué com suas tachas, Esfriadeira,

Fôrmas para lançar a calda, de que se faz o Assucar bruto, Carcanha,

Massa de Mamono, Espatulas, Tanque de preparar o barro, que ha de

clarificar o Assucar, Vasos com decoada, e Vasos com agua. Parol de

caldo frio, he hum cocho, ou especie de tanque, feito de taboas, e pelo

commum cavado n'hum grosso madeiro, com maior, ou menor comprimento, e

largura, e capacidade de conter tanto liquido, quanto encha a caldeira,

sem sobejar. Há alguns engenhos, que já os tem de cobre.

Parol de caldo quente, he o mesmo que de caldo frio, porém maior, por

ser destinado a receber o liquido depurado da caldeira, huma, e mais

vezes, donde passa para as tachas. Rominhol he huma especie de cassarola

de cobre, que pòde conter de quatro a seis libras de agua; quando tem

hum cabo comprido, e com elle se tira o liquido da caldeira para o parol

de caldo quente, toma o nome de pomba. Espumadeira, todos sabem o que

he, a que serve nos engenhos, tem hum cabo até dez palmos. Batedeïra, he

huma chapa de cobre circular, com pouco mais de hum palmo de diametro,

huma concavidade de duas pollegadas no centro, que vai diminuindo para a

circumferencia, com hum cabo comprido. Repartideira, he huma especie de

cassarola de cobre, que póde conter até dez libras de agua.

A Caldeira, he pelo commum de ferro, tem de cinco a seis palmos de

diametro na boca, outro tanto de altura, sendo menos larga no fundo; he

assentada de fórma, que fica a sua boca pouco mais alta que a superficie

do terreno, sendo este ladrilhado á roda della, com huma pequena

inclinação, que faz correr as espumas que a Caldeira lança a hum

receptaculo, a que se chama Cochinha. A Cochinha, he hum pequeno tanque

de taboas, que tem seu registo; o liquido que recebe, que não são

espumas, torna a passar para a Caldeira; as espumas por huma calha

coberta, vão depositar-se ao seu receptaculo na casa da aguardente.

Bangué, he huma fornalha comprida, com quatro palmos de altura, que

contém tres, quatro, e cinco tachas de ferro, de tres a quatro palmos de

diametro, da maior á menor, que se distinguem com os nomes, quando são

tres (o que he o mais commum) de tacha de receber, de cozer, e de bater.

No mesmo bangué está outra tacha encravada, que não recebe fogo, que se

distingue com o nome de bacia, ou esfriadeira, e he de cobre, para onde

passa a calda de Assucar em ponto, e desta bacia he que vai para as

fôrmas. As fôrmas são feitas de barro, de figura conica, de dois palmos

pouco mais de diametro na boca, acabando para o fundo quasi agudas, com

hum buraco de meia pollegada. A Espatula, he huma especie de pá de

taboa, que serve de mexer o Assucar nas fôrmas, e impedir a sua mui

prompta condensação. A Carcanha, he o aparelho de fazer a decoada, que

se faz com a cinza de toda a lenha, preferindo a de gorarema, ou páo de

alho, que se tem reconhecido ser rica em alcali; a esta cinza misturão

algumas hervas acres, para augmentar o que chamão queimo da decoada;

enchem com esta cinza, e hervas, doze a vinte fôrmas, que ficão

levantadas do chão alguns palmos, enfiadas em buracos proporcionados

feitos em taboas; lanção em cima destas fôrmas agua quente, que,

filtrando-se por entre as hervas acres, e a cinza, cahe pelo furo da

fôrma gotta a gotta, n'hum recipiente, donde se tira para o uso. A massa

de Mamono, são as sementes deste vegetal bem pizadas. O tanque de

preparar o barro, he hum cocho, no qual se deita muita agua, e barro,

que com hum rodo se faz dissolver, ficando n'huma especie de lodo, que

se lança em cima das fôrmas de Assucar bruto. Os vasos, onde está a

decoada, e agua para o uso, são fôrmas com algum defeito, a que se tapa

o buraco que tem no fundo.

_Como se trabalha na fàbrica do Assucar._

Cheio que seja o parol de caldo frio, do sumo das Cannas espremidas nas

moendas (o que actualmente se não faz em menos de quatro a seis horas)

corre por huma calha para a caldeira, que fica hum palmo por encher.

Esta caldeira, que tem sua fornalha particular, e hum Escravo, que a

serve com lenha, principia a receber hum fogo violento; á proporção que

o liquido aquece, sobe á sua superficie huma especie de gusmo, a que se

chama cachassa, que he tirada com a espumadeira pelo obreiro, que

governa a caldeira, e lançada na cochinha para por huma calha ser

conduzida á casa da aguardente. Esta operação, a que se chama

descachassar a caldeira, dura tanto tempo, quanto tarda o ferver o

liquido, o que pelo commum, segundo o grande calor que recebe, não chega

a meia hora. Logo que ferve, principia o uso da decoada; lanção-lhe

mais, ou menos rominhois della, segundo que o sumo da Canna contém mais,

ou menos partes oleosas, e tem maior, ou menor densidade; e se he muito

denso, e rico em sal, interpoladamente se lhe lança agua, e decoada.

Esta decoada, combinando-se com o oleo, faz hum sabão, que náda na

superficie do liquor em fórma de espuma, que he tirada á proporção, que

se ajunta.

Quando a violencia do fogo, dilatando o liquido, o faz sublevar acima

das bordas da caldeira, às vezes hum, e dois palmos; huma pitada de

massa de Mamono, lançada em cima, instantaneamente o faz abater, e reduz

a mais de hum palmo abaixo das bordas della. O signal, para se conhecer

se o liquor desta caldeira tem o cosimento preciso, a que chamão estar

limpa, ou ajudada, he hum segredo, de que fazem mysterio os Mestres de

Assucar; ora isto he huma gente, pretos, pardos, ou Indios, que pelo

commum não sabem lêr, e, em quanto a mim, não tem outro merito, e

sciencia, que a de serem fiéis, duros ao somno, e terem hum pouco de

cuidado, por ser preciso nestas fábricas trabalhar de dia, e de noite.

Quando se julga limpo o liquido da caldeira, passa ao parol de caldo

quente, onde he lançado a braço, pelo caldeireiro, com a pomba. Continua

o trabalho com mais caldo frio; estando prompto, passa ao parol de caldo

quente, e quando neste parol há quantidade sufficiente para passar ás

tachas, e, que depois destas trabalharem, não possão parar á falta

delle, enche-se a primeira tacha, chamada de receber, depois de ter aqui

engrossado alguma cousa, passa della a braço para a de coser, e desta

para a de bater. Assim que o liquido passou da tacha de receber para a

de coser, enche-se a de receber, e assim progressivamente, de sorte que

as tachas não fiquem paradas. Todas estas tachas são espumadas, e levão

massa de Mamono. A fórma de bater na ultima tacha, he levantar o

liquido, que já está em calda, com a batedeira, e virallo com inclinação

sobre huma parede alta, forrada de tijolo, que borda, e circumda, mais

que ao meio, a mesma tacha, e quando suppõem ter alcançado o ponto

necessario, he, desta tacha de bater, passado para a bacia de esfriar, e

daqui com a repartideira vai para as fôrmas, que estão no que se chama

tendal, que he huma especie de anteparo, cheio de bagaço de Canna, em

cima de cujo bagaço estão as fôrmas, que são no numero de sete, a que

chamão huma venda; não se enchem de huma vez, he repartida a calda por

todas; e como a quantidade, que se apurou, não chega para as encher,

completão-se com o segundo, e terceiro cosimento. Esta calda, lançada

nas fôrmas, he mexida com a espatula, para impedir a condensação, e

agregação mui prompta da gran do Assucar, a que chamão coalhar. Quando

as fôrmas ficão cheias, e o Assucar coalha, tira-se a rolha, que tapa o

buraco do fundo, para dar sahida ao mel, ou Assucar decomposto, cujo mel

he conduzido por huma calha ao seu receptaculo. O Assucar mui trigueiro,

que contém estas fôrmas, he o que se chama Assucar bruto. Passão agora

do tendal para a casa de purgar. Esta casa he assobradada, e nas taboas

do soalho há muitos buracos redondos, de seis pollegadas de diametro,

onde se firmão as fôrmas, para serem barreadas.

A coxia, ou casa, que fica por baxo deste sobrado, he ladrilhada com

inclinação das paredes ao centro, onde há hum canal, que recebe o mel,

que as fôrmas de si lanção, e o conduz a hum tanque, donde se tira para

o uso. Do tanque de preparar o barro, se tira em huma vasilha, a especie

de lodo, a que he reduzido, e se lança em cima das fôrmas: este lodo,

que conserva a agua em si, a vai largando a pouco, e pouco, a qual,

introduzindo-se por entre o Assucar, precipita o mel, para sahir pelo

buraco do fundo da fôrma. Sêcco que seja este barro, tira-se da fôrma,

lança-se segundo, e ainda terceiro. Com estes tres barros, se suppõem

ficar a fôrma, como chamão, lavada. Succede poucas vezes ser o Assucar

desta fôrma todo branco, o commum he ser branco da superficie, até huma

terça parte da fôrma, menos branco a segunda terça parte, trigueiro, dos

dois terços para o fundo. Estas tres especies de Assucar, se distinguem

com os nomes de fino, ou redondo, batido, e mascavado; este ultimo he

ainda subdividido em diversos mascavados, segundo, que he mais, ou menos

trigueiro.

O Assucar, assim trabalhado, diminue huma terça parte, pouco mais, ou

menos, em quantidade de sorte, que, se as fôrmas contém tres arrobas de

Assucar bruto, fica reduzido a duas de todas as qualidades. Depois que o

Assucar se suppõem purgado, passa da casa de purgar para o terreiro, ou

eira, onde he tirado das fôrmas, e com hum facão divididas as

qualidades; e depois de reduzido a pequenas partes, he lançado em

differentes toldos, ou lençoes de panno grosso, para que o calor do Sol

lhe faça evaporar a humidade, e desseque.

He dalli conduzido á casa do encaixe, onde se deita em caixas, que podem

conter de quarenta a cincoenta arrobas; e socado a pilões; e pregadas as

caixas, conduzidas ao armazem, ou trapiche, onde, depois de julgadas as

qualidades pela Meza da Inspecção, he vendido.

_Notas sobre esta fórma de fazer Assucar._

Memoria sobre a cultura, e productos da cana de assucar · 第 5 / 21 题