imprudencia o lançou. Ahi se dóe e queixa de Deus, em vez de se queixar
de si. No meio de suas lástimas passa uma barca pelo Téjo, e ouve-se
nella uma voz que se approxima da prisão. A unica prisão em que podia
estar João Lourenço era a dos paços do Castello e como de lá se ouvia
uma voz no rio e esta se approximava da masmorra não será facil dizer:
todavia deixemos bagatellas. Provavelmente quem cantava era D. Lopo que
d'ahi a pouco entra no calaboiço, aliás, não intendemos que pudesse
trazer-se a proposito tal cantiga que nada tem com o drama. D. Lopo vem
livrá-lo, acompanhado do carcereiro que provavelmente para isso peitou.
Isto de carcereiros comprados como meio dramatico, é coisa quasi tão
velha e gasta quanto o estão os confidentes classicos. O prêso recusa a
liberdade porque quer morrer. Aqui fica evidente a doidice de João
Lourenço. Não podem ter passado cinco minutos desde que elle dizia: _Oh
Senhor Deus deixar-me-heis morrer sem ter salvado a innocente Maria?...
Oh, nem uma esperança me dais_?--e agora que o querem soltar responde
com vehemencia; _deixai-me morrer; deixai-me morrer_!?--Pois se quer
morrer para que estava apoquentando os céus com seus queixumes? Isto era
capaz d'impacientar até o sancto dos sanctos. Em fim depois de varias
ponderações do poeta phtysico o homem resolve-se a sair. D. Lopo diz-lhe
que espere que vai arranjar os meios da fuga, e parte com o carcereiro.
Fica só o prêso, porém não tarda companhia. Uma porta secreta se abre e
D. Leonor entra, tira a chave e encaminha-se para seu primeiro marido.
Vem dizer-lhe que elle ha de morrer alli mesmo: vem saciar o seu odio:
João Lourenço depois de ameaças mutuas tira-lhe repentinamente a chave
da porta secreta, e diz-lhe que vai salvar D. Maria Telles; a isto acode
a Rainha que não lhe achará senão o cadaver. Desesperação de João
Lourenço da Cunha, que supplica de joelhos, e que achando D. Leonor
inabalavel, ergue-se furioso e quer matá-la com um punhal que traz
escondido: é então que ella supplica; é então que elle se torna
inexoravel. Aponto de a apunhalar chega D. Lopo; a esperança amortece a
cholera no coração do marido da Rainha; o punhal cai-lhe das mãos. D.
Leonor continua todavia a ficar de joelhos, a pedir não que lhe deixem a
vida, porque esta já ella sabe que está salva; mas que a soltem: que lhe
permitiam sair d'aquelle logar d'horror. Sublime hypocrisia que encubriu
o animo damnado com a mascara do susto. Recusam-lho: então a cholera
trasborda do peito d'essa mulher que é um abysmo de maldade. Nem a
demora d'uma hora a que elles a condemnam saindo, soffre a rainha.
Apenas se acha só a régia hyena corre, e lança raivosa as garras ás
grades da masmorra; depois ajoelha e quer orar, mas alevanta-se logo, e
sorri. Pensa um momento, e com gesto ameaçador exclama: _D'aqui a uma
hora serei outra vez rainha_. Um pensamento atroz e medonho reluziu por
certo á luz sanguinea que bruxulea nessa alma? Qual foi elle?
Sabe-lo-hemos no sexto e derradeiro quadro.
Nas tres ultimas scenas d'este curtissimo acto, tão curto que talvez a
representação d'elle não occupe quinze minutos a scena, revela-se um
poeta. Não mencionaremos defeitos porque o que tem excellente no-los
varreu da memoria: o auctor comprehendeu perfeitamente o caracter de D.
Leonor: ha aqui o talento profundo de um verdadeiro escriptor dramatico.
Oxalá poderamos dar de tudo e de todo o drama os mesmos testemunhos de
louvor e admiração! Com magua temos feito o contrario, porque é o nosso
penoso dever distribuir recta e severa justiça, e corresponder á
confiança que em nós depositou esta assemblêa.
Quinto acto.--Estamos em Coimbra nos paços do Infante. Ao correr do
panno D. Leonor e Garcia Affonso falam a sós. A rainha, segundo parece,
saíu da prisão e chegou a Coimbra antes que João Lourenço e D. Lopo. Não
6 isto provavel mas é possivel; porque o odio entranhavel costuma ser ás
vezes mais diligente que todas as affeições. A scena da prisão, uma
vingança falha, uma humilhação necessaria mas cruel, espertaram toda a
violencia do caracter da rainha: os remorsos desappareceram, e ella
precisa de sangue. Incita por isso o Commendador para que positivamente
accuse sua irmã~ de adultera: conhecera pelo terror de João Lourenço que
este a amava, e é de bom-grado fratricida para começar pela vingança que
mais deve doer a seu antigo marido. É este o verdadeiro retrato de D.
Leonor, mas o que é falso, o que não condiz com o caracter profundamente
dissimulado que lhe attribue a historia, e o auctor tão bem pintou no
fim do 4.^o acto, é o injuriar gratuitamente o mesmo homem que está
incitando para que seja instrumento da sua vingança. Embora ambos se
conhecessem bem mutuamente: embora estas duas almas negrissimas
estivessem sem máscara; mas ainda os maiores malvados não ouzam recordar
uns aos outros os seus crimes, e injuriarem-se com elles senão nos
extremos de cholera. Vemos que do aspecto que toma esta scena e do seu
desfeixo, depende a existencia de duas ou tres scenas seguintes: a
inverosimilhança porém da origem diminue-lhes grande parte do merito que
possam ter. As affrontas da rainha são correspondidas por Garcia
Affonso, que acceitando a infame commissão, e um bracellete que deve
servir de prova á calumnia, sai praguejando e ameaçando D. Leonor, e
ameaçado e praguejado por ella. Esta scena é evidentemente desarrazoada,
ou antes impossivel. D. Leonor fica só, e num monologo resolve a morte
do Commendador: foi para isto que se delineou a scena antecedente. Por
assim dizer, o auctor fez num drama o que se diz fazia Boileau nos seus
alexandrinos, sugeitou a rima do primeiro verso á do segundo. Resolvido
o assassinio do seu antigo cumplice, a rainha dá um signal e apparece
Vasco seu pagem. D. Leonor diz-lhe que um homem a ultrajava: responde o
pagem que lhe diga seu nome e elle morrerá: esta scena está felizmente
imaginada e o caracter de um official d'assassino dado ao pagem é rapida
e profundamente traçado. Vasco sai e a rainha esconde-se em uma camara
para d'alli ver morrer Garcia Affonso. Apenas ella se retira o Infante
entra com o Commendador d'Elvas que pretende persuadi-lo da infidelidade
de D. Maria Telles e que por fim o convence com a prova do bracellete, o
qual, diz elle, João Lourenço perdera. Fraquissima é a prova, mas
acceitemo-la, visto que o Infante a acceita. Este arranca a adaga,
arromba a porta da camara de Maria Telles e arroja-se para lá furioso.
Garcia Affonso fica só e tirando um frasco de veneno, declara em um
monologo que envenenará o Infante logo que tenha assassinado sua mulher.
Vasco entra então, e gracejando com Garcia Affonso, diz-lhe que precisa
de lhe communicar um segredo, mas que antes d'isso beberá com elle um
trago de vinho. O aspecto de Vasco assustou o Commendador lembrado do
que passou com a rainha, e de que este pagem é o executor das suas
vinganças secretas. Emquanto Vasco vai buscar o vinho, elle lança á
cautella veneno em uma das taças que alli estão, e quando o pagem volta
enche-a e offerece-lh'a, tomando para si outra. Ambos levam as taças á
bocca, mas nenhum bebe. Garcia Affonso põe a sua sobre a mesa e pergunta
ao pagem qual é o segredo; rindo atrozmente este lhe pergunta se quer
sabê-lo; Garcia Affonso responde que sim, e que o diga depressa porque
lhe resta pouco tempo para o revelar por estar envenenado: o pagem
continua a rir e replica que é elle que o está, e que esse era o
segredo. Garcia Affonso despejando a taça mostra que lhe não tocara: o
pagem faz o mesmo. O Commendador então lhe diz: _Pois bem! nem um nem
outro morreremos_.--_Enganaes-vos_!--torna Vasco soltando uma risada
terrivel e dando-lhe uma punhalada. Garcia Affonso, amaldiçoa-se a si e
ao pagem, procurando tambem feri-lo. Neste momento ouve-se dentro a voz
de D. Maria Telles que implora piedade. O horror appossa-se do
Commendador agonizante, os gritos de D. Maria redobram, e o Infante sai
da camara com a adaga na mão tinta em sangue. Os remorsos fazem que o
Commendador moribundo confesse a innocencia de D. Maria Telles. O
infante furioso quer cravar-lhe a adaga, mas antes d'isso cai morto.
Garcia Affonso João Lourenço chega já tarde seguido de cavalleiros e
povo: o Infante desesperado pede que o matem, e João Lourenço quer
cumprir-lhe os desejos, quando D. Maria Telles saindo da camara o retem
e vai cair nos braços do Infante a quem perdoa morrendo. Apparece então
D. Leonor, e apontando para os cadaveres da irmã e de Commendador diz
para o marido--que veja como se vingou uma rainha. D. Lopo apparecendo
subitamente com a espada na mão, abre uma janella e mostrando a praça
atulhada de povo armado, diz-lhe:--_Senhora rainha, o filho vingará
tambem a morte de sua mãi, e o povo as injurias recebidas_. Assim se
conclue o drama.
Este acto é incontestavelmente o melhor, e o seu effeito scenico deve
ser grande. Apesar das imperfeições que n'elle se pódem e com razão
reprehender, o auctor procurou resgatar aqui os defeitos que pullulam
nos antecedentes, como successivamente notamos em cada um d'elles.
Restam algumas observações sobre estylo e linguagem: assim completaremos
o exame d'este drama visto a todas as luzes a que se deve considerar.
O estylo para dizer tudo em poucas palavras é o da moda: isto é, a maior
parte das vezes falso: comparações frequentes, que a situação moral dos
personagens que as fazem não comporta: certa poesia na dicção impropria
do dialogo: fartura d'essas exaggerações com que embasbacam os parvos da
platéa, e que os homens de juizo não podem soffrer. Ás mãos cheias estão
por ahi derramadas as maldições, os anjos de azas brancas, os rochedos
em braza, os infernos, os demonios, e toda a mais ferramenta dramatica,
usada hoje no theatro, e que não sabemos d'onde veio, porque sendo
evidente que os nossos escriptores principiantes buscam imitar os
grandes dramaturgos franceses, é certo que raramente acharão lá essa
linguagem ôca e falsa, que só póde servir para disfarçar a falta de
affectos e pensamentos: Victor Hugo e Dumas não precisam nem usam de
taes meios, e para citarmos de casa, já que temos cá o exemplo, que
esses noveis vejam se nos dramas do nosso primeiro escriptor dramatico,
se no _Aucto de Gil Vicente_ ou no _Alfageme_ ha essa linguagem de
cortiça e ouropel, ha essas expressões turgidas e descommunaes que fazem
arripiar o senso commum, e que offendem a verdade e a natureza. O estylo
é tudo, dizia Voltaire. Não somos da sua opinião absolutamente, mas é
incontestavel que uma obra litteraria excellente em todas as demais
partes, se lhe falecer a propriedade do estylo nunca poderá obter para
seu auctor uma reputação duradoira. Não faltam na historia litteraria de
todas as nações exemplos d'esta exactissima observação.
Quanto aos erros de lingua e construcção, faceis são elles de emendar:
assim o fossem os de estylo, e ainda mais os de contextura!
Intoleraveis, mais que nenhuns, nos parecem o vicio constante do
introduzir um _i_ nas segundas pessoas do plural dos preteritos como
_fizesteis_, _tivesteis_, etc.--por fizestes, tivestes; _soffrer_ por
_padecer_, sendo a significação portuguesa de _soffrer_ a de _padecer
com paciencia ou constancia_: o uso demasiado dos possessivos que tanto
afrancezam o nosso mui illiptico idioma: a substituição escusada de
preteritos simples pelos compostos do participio e dos auxiliares:
tautologias indisculpaveis, como--_abysmo immenso e sem fim_; _caverna
que parece zombar e escarnecer, etc._;--gradações ás avessas, como:
_cheio de desesperação e pesar_. A estes e outros defeitos poderia o
auctor dar remedio revendo attentamente o manuscripto, que talvez o
limite de tempo para o concurso lhe não deixou aperfeiçoar e pulir, e
por isso intendemos dever nessa parte ser indulgente a censura do
Conservatorio.
Temos feito longa e severamente a critica do drama--_D. Maria
Telles_.--Fizemo-lo assim por muitas e mui urgentes razões. Tem soado
queixas contra a fórma demasiado simples com que se costumam exarar os
pareceres sobre os dramas que annualmente concorrem a premios: conselhos
sinceramente dados tem-se tomado pela expressão do orgulho; imaginou-se
uma aristocracia litteraria, contraria a todos os ingenhos que surgem de
novo. É preciso confessar que pelo que toca ao não motivado, e á
brevidade dos pareceres, sobre tudo d'aquelles que condemnam, é justa a
queixa. Todas as mais são infundadas. Os factos de quatro annos ahi
estão provando o contrario. Se alguma culpa se pode lançar ao
Conservatorio é a nimia indulgencia; já algumas das suas sentenças
favoraveis tem sido reformadas pelo supremo tribunal do publico, ao
passo que ainda nenhum drama condemnado por elle toi levado por
appellação ao grande jury da opinião da platea: todavia se os auctores
d'esses dramas tinham a consciencia da injustiça no julgamento, para lá
deviam aggravar-se. Esta é a nossa defensão completa contra as vãs
accusações de parcialidade; contra os sonhos de uma imaginaria
aristocracia litteraria com que a mediocridade pretende passar aos olhos
de parvos e ignorantes, pelo ingenho perseguido ou menoscabado.
A Secção da Litteratura pensa por tanto, que importa ao bom nome do
Conservatorio o fazer sempre miuda e inexoravelmente o exame dos dramas
que concorrem aos premios, e motivar largamente as suas sentenças. Tanto
os concorrentes como a nação teem direito de assim o exigirem. O tempo
da censura inquisitorial, que muitas vezes só serve de capa á
incapacidade, passou. É nossa obrigação restricta fundamentar as
opiniões que assentamos: julgadores aqui, seremos lá fóra réos, e o
commum juiz que é o publico não está adstricto a julgar por nossas
palavras. Por outra parte esta miudeza e severidade de critica servirá
de correcção aos auctores, para cuja emenda é inutil um parecer
superficial e vazio de doutrina, ao passo que lhes habilita o amor
proprio para crer que não foram elles, mas fomos nós os que errámos.
Além d'isso, a Secção da Litteratura intende que é necessario ser
finalmente severa a censura do Conservatorio, para o verdadeiro
progresso dramatico. Durante quatro annos este progresso tem sido
unicamente em extensão: falta a profundidade. O numero dos dramas
augmenta, mas o merito d'elles é o mesmo, senão é menor. A principio
convinha affagar todas as tentativas: hoje é preciso afastar as não
vocações dramaticas que a facilidade das recompensas tem tornado em
demasia ousadas, e é preciso constranger aquelles que podem e sabem
produzir fructos de verdadeiro ingenho a darem ao theatro obras que os
honrem e honrem a patria.
Pelo que respeita em especial ao drama--_D. Maria Telles_--a Secção de
Litteratura ainda pede para elle a indulgencia do Conservatorio. A
leitura d'esta composição revéla a verdura d'annos e inexperiencia do
seu auctor. O desconnexo e inverosimil da contextura, a ignorancia quasi
absoluta dos costumes e instituições da epoca escolhida, e ainda mais a
falta de conhecimento da logica das paixões e affectos, e por isso da
consistencia dos caracteres estão dizendo que o mundo e a sociedade é em
grande parte um mysterio para elle, mysterio que ainda mal as
tempestades politicas e a vida demasiado energica do nosso seculo lhe
revelarão em breve. Se o auctor quiser acceitar os conselhos prudentes
que para melhorar o seu escripto lhe não recusarão, por certo, os
membros d'este Conservatorio, o drama--_D. Maria Telles_--poderá subir á
scena, não com a certeza de obter a approvação de summo juiz
o--publico--mas de apparecer ante elle sem deshonra sua, e sem que nós
sejamos accusados de desleixo no cumprimento dos nossos deveres. O
parecer da Secção da Litteratura é portanto, que a Mesa convide o auctor
do drama a dirigir-se a ella para o fim apontado. O Conservatorio
resolverá o que fôr mais justo e conveniente.--_Alexandre Herculano_.
*D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna*
*D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna*[24]
Por grande que deva ser a gratidão que se associa ás recordações
d'aquelles que nos geraram, por funda que vá a saudade inseparavel da
memoria paterna, no coração do bom filho ha um affecto não menos puro, e
não menos indestructivel para o homem cujo espirito allumiado pela
cultura intellectual tem a consciencia de que o seu logar e os seus
destinos no mundo são mais elevados e nobres que os d'esses tantos que
nasceram para viverem uma vida toda material e externa, e depois
morrerem sem deixar vestigio. Este affecto é uma especie de amor filial
para com aquelles que nos revelaram os thesouros da sciencia; que nos
regeneraram pelo baptismo das letras; que nos disseram: «caminha!» e nos
apontaram para a senda do estudo e da illustração, caminho tão povoado
de espinhos como de flores, e em cujo primeiro marco milliario muitos se
teem assentado, não para repousarem e seguirem ávante, mas para
retrocederem desalentados, quando sózinhos não sentem mão amiga apertar
a sua e conduzi-los após si. Tirai á paternidade os exemplos de um
proceder honesto, as inspirações da dignidade humana, a severidade para
com os erros dos filhos, os cuidados da sua educação, e dizei-nos o que
fica? Fica um certo instincto, ficam os laços do habito, e para impedir
que tão frageis prisões se partam, fica o preceito de cima que nos
ordena acatemos e amemos os que nos geraram, ainda que a elles não nos
prenda senão a dadiva da existencia, esse tão contestavel beneficio.
Pelo contrario aquelles que foram nossos mestres; que nos attrahiram com
a persuação e com o proprio exemplo para o bom e para o bello; que nos
abriram as portas da vida interior; que nos iniciaram nos contentamentos
supremos que ella encerra; para esses não é preciso que a lei de
agradecimentos e de amor esteja escripta por Deus: a razão e a
consciencia estamparam-na no coração: cada gozo intellectual do poeta,
do erudito, do sabio, lh'a recorda, e quando elles se comparam com o
vulgo das intelligencias, reconhecem plenamente a justiça do sentimento
de gratidão que os domina.
Estas reflexões occorreram-me ao abrir o primeiro volume das obras da
senhora marqueza de Alorna, condessa de Oeinhausen e Assumar, D. Leonor
d'Almeida, que actualmente se publicam e de que já dois volumes se acham
nitidamente impressos. E foi para mim um prazer verdadeiro escrever
estas cogitações d'um momento. Aquella mulher extraordinária, a quem só
faltou outra patria, que não fosse esta pobre e esquecida terra de
Portugal, para ser uma das mais brilhantes provas contra as vãs
pretensões de superioridade excessiva do nosso sexo, é que eu devi
incitamento e protecção litteraria, quando ainda no verdor dos annos
dava os primeiros passos na estrada das letras. Apraz-me confessá-lo
aqui, como outros muitos o fariam se a occasião se lhes offerecesse;
porque o menor vislumbre d'engenho, a menor tentativa d'arte ou de
sciencia achavam nella tal favor, que ainda os mais apoucados e timidos
se alentavam; e d'isso eu proprio sou bem claro argumento. A critica da
senhora marqueza de Alorna não affectava jamais o tom pedagogico e quasi
insolente de certos litteratos que ás vezes nem sequer entendem o que
condemnam, e que tomam a brancura das proprias cãs por titulo de
sciencia, de gosto, e de tudo. A sua critica era modesta e tinha não sei
o que de natural e affectuoso que se recebia com tão bom animo como os
louvores, de que não se mostrava escaça quando merecidos. Uma virtude
rara nos homens de letras, mais rara talvez entre as mulheres que se
teem distinguido pelo seu talento e saber, é a de não alardearem
escusadamente erudição, e essa virtude tinha-a a senhora marqueza em
grau eminente. A sua conversação variada e instructiva era ao mesmo
tempo facil e amena. E todavia dos seus contemporaneos quem conheceu tão
bem, não dizemos a litteratura grega e romana, em que egualava os
melhores, mas a moderna de quasi todas as nações da Europa, no que
nenhum dos nossos portugueses por ventura a egualou? Como madame de
Stael ella fazia voltar a attenção da mocidade para a arte de Alemanha,
a qual veio dar nova seiva á arte meridional que vegetava na imitação
servil das chamadas letras classicas, e ainda estas estudadas no
transumpto infiel da litteratura francesa da epocha de Luís XIV. Foi por
isso, e pelo seu profundo engenho, que, com sobeja razão, se lhe
attribuiu o nome de Stael portuguesa.
A vida d'esta nossa celebre compatricia acha-se á frente da edição das
suas obras: para lá remetto o leitor. Ahi verá como em todas as phases
da sua larga e não pouco tempestuosa carreira, ella soube dar perenne
testemunho do seu nobre caracter de independencia e generosidade: verá
que emquanto na terra natal primeiro a tyrannia e depois a ignorancia e
a inveja a perseguiam, ella ia encontrar entre estranhos a justa
estimação de principes e de illustres personagens da republica das
letras. Ahi verá como nascida no seculo do materialismo, vivendo largos
annos no foco das idéas anti-religiosas, acostumada a ouvir todos os
dias repetir essas idéas por homens de incontestavel talento, ella soube
conservar pura a crença da sua infancia, e expirar no seio do
christianismo. Ahi finalmente verá como as ausencias, por vezes
involuntarias, da sua terra natal, não puderam fazer-lhe esquecer o amor
que devemos a esta, ainda no meio das injustiças e violencias de todo o
genero.
O primeiro volume das obras poeticas da senhora marqueza de Alorna
contém, afóra a vida da auctora, e uma noticia biographica do conde de
Oeynhausen seu marido, as poesias compostas na mocidade. Boa parte
d'estas foram escriptas no mosteiro de Chellas, para onde entrou de oito
annos de idade com sua mãi, occorrendo a prisão do marquez de Alorna D.
João. Encerrada naquelle mosteiro passou D. Leonor d'Almeida os annos
mais viçosos da juventude, tendo para alegrar as tristezas de tão longo
captiveiro que excedeu desoito annos, unicamente o linitivo do estudo, e
os conselhos e affagos maternos. Quisera alguem que tivesse havido mais
severidade na escolha das composições d'aquella epocha, algumas das
quaes desdizem do primor que noutras posteriores se encontra. Eu lamento
só que senão pudesse ajunctar a cada uma a sua data. Assim, bem longe de
ter sido um inconveniente essa desigualdade innegavel, houvera ella sido
um meio para se avaliarem bem os rapidos progressos da joven auctora,
que nas obras de tão verdes annos annunciava já o seu brilhante futuro
nos rasgos frequentes de um engenho ao mesmo tempo solido, delicado e
vivo.
O resto do primeiro volume e o segundo contém as poesias da senhora
marqueza posteriores á sua saída do mosteiro. Na disposição d'ellas
tambem não se guarda o methodo chronologico: a natureza dos poemas
determina a ordem d'elles. Julgar essa grande variedade de composições
não cabia nos estreitos limites d'este jornal. Os que as teem lido, e
que sabem entendê-las appreciam-nas devidamente. Ellas são um illustre
monumento para a historia da poesia portuguesa, um nobre testemunho da
piedade filial que as trouxe á luz publica, e para em tudo esta
publicação ser apreciada, a sua nitidez typographica é uma prova dos
progressos que a arte de imprimir tem feito entre nós[25].
FIM DO TOMO
Índice
Advertência
Qual é o estado da nossa litteratura? Qual é o
trilho que ella hoje tem a seguir?
Poesia: Imitação--Bello--Unidade
Origens do theatro moderno--Theatro português
até aos fins do seculo XVI
Novellas de cavallaria portuguesas
Historia do theatro moderno--Theatro hespanhol
Crenças populares portuguesas ou superstições
populares
_A Casa de Gonsalo_, comedia em cinco actos:--Parecer
Elogio historico de Sebastião Xavier Botelho
_D. Maria Telles_, drama em cinco actos:--Parecer
D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna
Notas:
[1] Diz Mercier em uma annotação, que segundo nossa lembrança vem no
1.^o tomo de suas obras dramaticas, que a divisão de cinco actos é
fundada em ser preciso atiçar cinco vezes as luzes do theatro em quanto
dura uma recita.
[2] Epist. 9--v. 43.
[3] Art. poet. C. 3--v. 48.
[4] Talvez alguns dos nossos leitores extranhem o modo por que tractamos
um escriptor accreditado e ainda vivo. Nós sabemos que a urbanidade é o
principal dever de quem impugna qualquer opinião: mas confessamos que
não pudemos resistir á tentação. Mr. Laurentie é um defensor do
absolutismo, e muito mal tractou a causa da nossa patria no seu exame da
Carta portuguesa. É uma pequena vingança litteraria que se nos deve
perdoar.
[5] Major mihi rerum nascitur ordo:
Majus opus moveo--7, 4 4.
[6] Iliad, 5.^o.
[7] O nosso socio o Sr. Castilho teve tambem o seu _quinhom_ de critica
na referida moxinifada romantica. Cremos piamente que elle riu tanto
como teria rido o bom do Homero se fosse nosso contemporaneo.
[8] Alludimos ás Messenianas de Barthelemy e ás de Mr. Delavigne, de que
talvez as primeiras deram a idéa. Das ultimas lembrámo-nos
principalmente da de Waterloo.
[9] Em um curso de litteratura como nós o concebemos daria materia esta
idea, aqui apenas ennunciada, a dois capitulos interessantíssimos, o da
theoria do agradavel e o da poesia nacional, ou dos objectos da poesia
moderna.
[10] É curioso ver as observações de Galileo acêrca da Jerusalem
libertada, as quaes jaziam ineditas e foram publicadas em 1793, assim
como o é ler a dissertação de Dureau Delamalle comparando as duas
Jerusalens, a qual vem no fim do 1.^o tomo da Historia das Cruzadas de
Mr. Michaud.
[11] Livro 1.^o, capitulo 1.^o.
[12] Publicados no vol. de 1838, e o terceiro no vol. de 1840.
[13] Opusculos, tomo V, pag. 10.
[14] Herzog-Geschichte der deutschen Nat-Litt.--pg. 99 (Jen. 1831.)