[16] Os que sobre esta materia desejarem mais ampla instrucção consultem
as dissertações de Mr. Fauriel ácerca da origem da Epopeia Cavalleirosa,
no 8.^o vol. da _Revue des Deux-Mondes_ (anno se bem nos lembra, de
1832). A opinião de Mr. Fauriel, contraria á de Sismondi, põe o berço da
maior e melhor parte das novellas de cavallaria na Provença; mas antes
de abraçar essa opinião cumpre lêr e pesar maduramente as reflexões de
Sismondi, que o põe na Normandia, a pag. 273 e seg. do 1.^o vol. da sua
Historia Litteraria do Meio-dia da Europa.
[17] Não appareceu este novo artigo quer nos seguintes numeros do vol.
4.^o quer nos demais volumes, emquanto A. Herculano foi collaborador
permanente do Panorama. De outros mui variados assumptos litterarios o
auctor se occupou nesses volumes. A melhor conjectura sobre tal
interrupção não é a de um simples esquecimento, mas a de que o auctor,
certo de haver esclarecido a materia especial d'estes artigos onde mais
interessava, tencionasse porventura ligar o porseguimento d'ella a
certos pontos da nossa historia litteraria que demandavam vagarosa
meditação.
[18] Sem exceptuar a dos espectadores, que, bem como tudo o mais,
permitta-se-nos a expressão, é preciso crear de novo.
Sobre isso publicaremos brevemente um artigo que, dizendo respeito a um
objecto realtivo á civilização e moral publicas, entra naturalmente no
plano d'este jornal.
[19] E impressas em Napoles em 1517. Esta rara edição existe na
bibliotheca publica do Porto, e pertencia segundo nossa lembrança, á
livraria do Visconde Balsemão.
[20] O mesmo succedeu aos dramas portugueses contemporaneos: d'ahi
provém, principalmente, a extrema raridade das primeiras edições de
alguns d'elles, como de Jorge Ferreira, que só são conhecidos nas
edições mutiladas.
[21] Como hoje tanta gente faz criticas dramaticas--as mais difficeis de
todas--bom será que reparem nesta observação de Schlegel acêrca do
gracioso, personagem especial do drama peninsular. E ainda o grande
critico alemão não apontou o motivo principal d'este elemento dramatico:
o gracioso faz com que o drama seja em verdade a representação da vida,
onde sempre o terrivel e o lepido se cruzam e misturam
inextricavelmente. Não ser o gracioso elemento necessario do enredo tem
por motivo a natureza d'esse papel: o burlesco póde deixar de ser
necessidade da acção; mas nunca de ser essencivel á _fórma_ da acção: no
quadro dramatico o gracioso não é _desenho_, é _côr_; é a sombra do
clarão do bello e sublime. A tragedia classica, e a tragedia de Racine
morreu, porque não havia ahi o contraste: a comedia de Moliere vive, e
viverá para sempre, porque nella as lagrymas tolhem ás vezes o riso: na
comedia antiga apparecia o drama; na tragedia apenas havia poesia.
[22] Julgamos dever notar aqui que os nossos modernos actores ainda não
chamam geralmente qualquer drama, senão _comedia_, embora elle seja
tragico. Porventura é isto uma _tradição de bastidores_, conservada
desde o seculo XVII, em que entre nós eram tão vulgares as
representações dos dramas de Lope e Calderon, como na propria Hespanha.
[23] Para prova de quanto se podem aproveitar as leis como fontes da
historia, não dos reis ou dos soldados, mas do _progresso das nações_,
deixando as leis civis de que poderiamos apontar circumstancias de
extraordinaria curiosidade, limitar-nos-hemos a dizer que d'estas mesmas
constituições d'Evora se deprehende o uso antiquissimo das
representações nas igrejas, e de outras indecencias semelhantes que o
povo julgava então ou licitas ou piedosas. «Deffendemos, diz a
constituição 10 do titulo 15, a todas as pessoas ecclesiasticas e
seculares, de qualquer estado e condição que sejam, que não _comam nas
egrejas, nem bebam, em mezas_, nem sem mezas; nem cantem, nem bailem, em
ellas, nem em seus adros: nem os leigos façam ajuntamentos dentro dellas
sobre cousas profanas; nem se façam nas ditas igrejas, ou adros dellas,
jogos alguns, posto que seja em vigilia de sanctos ou d'alguma festa;
nem _representações, ainda que sejam da paixão de nosso Senhor J. C., ou
da sita resurreição ou nascença; de dia, nem de noite_, sem nossa
especial licença; porque _dos taes autos_ se seguem muitos
inconvenientes que muitas vezes trazem escandalo nos corações d'aquelles
que não estão muito firmes na nossa sancta fé catholica, _vendo as
desordens e excessos que nisto se fazem_.» D'esta passagem se póde
concluir que o uso de fazer autos nas igrejas data pelo menos do decimo
sexto seculo, sendo, além d'isso, provavel, que semelhante usança
remonte a epocha muito mais remota; porque os costumes populares levam
muitos annos, tanto a estabelecer-se como a destruir-se; e com effeito,
ainda no fim do seculo XVII o bispo do Porto, D. Fernando Corrêa de
Lacerda, fulminava censuras contra taes comedias, como se vê de uma sua
ordenança que lemos, ainda mais curiosa que a antecedente constituição;
mas que por brevidade não apontaremos aqui.
[24] Nasceu em 31 de Outubro de 1750. Falleceu em 11 de Outubro de 1839.
[25] Na capa d'este artigo se omittiram por esquecimento em seguida ao
titulo as palavras _Panorama_--1844.