Notámos acima que os personagens d'este drama não representam a época a

que historicamente pertencem: é este depois do uniforme, e confuso dos

caracteres o maximo defeito d'elle. Nesta parte accrescentaremos algumas

considerações que não parecerão inteiramente inuteis para os cultores

principiantes d'este genero de litteratura. A epocha dos reinados de D.

Fernando e D. João I é incontestavelmente a mais dramatica da historia

portuguesa. São-no os factos politicos e a vida civil d'esse tempo: as

pessoas e as coisas. A nobreza era chegada ao apogeu da sua grandeza,

porque as instituições feudaes que se haviam misturado com a nossa

primitiva indole social, tinham tocado então a méta do seu predominio:

quando já a sua dilatada agonia começava no resto da Europa: o povo dava

signaes exteriores de que existia, e existia robusto; a monarchia

exgotava a sua generosidade e os testemunhos do seu temor para com a

aristocracia na vespera de dar principio ao duello de morte para que ia

reptá-la, e que devia durar cem annos. Nestes dois reinados operou-se

uma transformação nacional: o fim do seculo XIV foi um periodo

revolucionario: revolucionario não tanto para as pessoas como para as

coisas; os elementos da vida social foram então chamados a uma grande

lucta, e, como acontece sempre em similhantes situações, tanto os que

deviam ser vencidos como os que haviam de ficar vencedores combateram

energicamente. Os grandes vultos historicos d'esse tempo--os personagens

extraordinarios, diriamos quasi homericos, que então surgiram--os

caracteres profundamente distinctos, e altamente poeticos, quer pela

negrura, quer pela formusura moral:--todos nasceram da situação social

do país: foram o resultado e o resumo d'esta, e por ella sómente se

podem comprehender, avaliar e explicar. Se porém essas imagens tão

aproveitaveis para a arte, forem arrancadas do quadro em cujo chão e luz

appropriados a ellas, unicamente se devem contemplar, ficarão

convertidas em desenhos de morte-côr, e o que mais é, perderão os seus

lineamentos caracteristicos; serão abstracções; serão quando muito

objectos d'estudo para a physiologia das paixões: serão representantes

do genero humano em geral, mas nunca de uma geração, de uma época, e

d'um país: darão materia para o drama metaphysico, para o drama como o

conceberam Goethe em _Ferv_ e _Betly_ ou na _Filha Natural_, e Byron no

_Manfredo_; porém não para o drama historico, para o drama que se

incarna na realidade, para o drama que não é um poema lyrico como a

_Athalia_ ou uma amplificação brilhante como _Mahomet_, mas uma obra

d'arte que toma por expressão a vida humana, e que é destinada para a

scena.

O titulo do drama historico dado ás composições mais notaveis neste

genero, que no seculo passado e no presente tem apparecido na Europa,

como _Goetz_, _Wallensteim_, _Hernani_, e tantos outros, não foi uma

phantasia ou capricho dos eminentes poetas que as produziram ou dos

criticos que as julgaram. Este titulo corresponde a uma realidade:

representa uma theoria litteraria verdadeira e nova substituida a outra

velha e falsa. O theatro antigo por via de regra era uma abstracção: os

seus personagens são vultos por assim dizer desenhados na atmosphera, e

que se movem nos raios do sol; não pisam a terra; não choram nem folgam

humanamente; não descendem como nós de Adão; não estão sugeitos senão a

certas condições da vida real. O dramaturgo antigo creava o caracter de

um tyranno, chamava-lhe Nero; de um voluptuario, chamava-lhe

Sardanapalo; de uma incestuosa chamava-lhe Phedra; de um hypocrita

feroz, chamava-lhe Mahomet. Podia chamar-lhes outra qualquer coisa;

buscar na historia ou fóra d'ella outros quaesquer nomes. _Constei

sibi_: eis o que exigia d'esses caracteres a philosophia da arte.

Satisfeita esta condição bem pouco importava se o personagem era romano,

syro, grego, ou arabe. _Constet sibi_.--Pouco importava se as suas

dimensões eram humanas. _Constet sibi_. Pouco importava quaes haviam

sido as crenças, as condições da vida civil, os varios aspectos emfim da

sociedade e da época em que o individuo que se arrastava para o theatro

tinha vivido, e que forçosamente deviam modificar-lhe de certo ou certo

modo as paixões ou os affectos, o pensar intimo ou o porte exterior.

_Constet sibi_: era o que lhe pedia a arte antiga. E na verdade não era

pedir muito. A arte moderna que os ingenuos e innocentes defensores do

passado accusam de licenciosa põe apenas mil vezes mais duras condições

aos seus sacerdotes; porque alem da constancia dos caracteres

dramaticos, exige nestes circumstancias, que só o muito estudo e um

ingenho profundamente synthetico póde fazer que se liguem ás obras

filhas da imaginação do poeta.

Se tão leves de soffrer foram outr'ora as condições dramaticas quanto

aos caracteres, escusado parece dizer que foram nullas quanto á

phisiologia intima do drama. Malbaratou-se toda a esthetica dos antigos

nas fórmas materiaes e externas d'elle, na anatomia dos ossos e

cartilagens. Os escriptores _licenciosos_ do seculo presente sentiram

não tanto que esta anatomia era erronea, apesar de o ser muito, quanto

sentiram que era incompletissima. Posto o principio incontestavel de que

o drama não é mais do que a arte vasada no molde da vida social, tiraram

o corollario forçoso de que era preciso primeiro que tudo estudar esta,

e exclusivamente esta. A arte não se estuda; porque a arte é o ideal, e

o ideal vem de Deus; é uma inspiração: o que se estuda são as formulas

materiaes em que ella se revela, os typos em que se resume; para que

estes possam ser claros e definidos como meios de communicação entre o

poeta e o mundo. No drama a historia é a expressão da arte, é a voz

articulada do homem inspirado. Elle deve por isso saber perfundamente a

historia da épocha e do povo que vai alevantar do sepulchro, para servir

d'interprete entre elle e as gerações que hão de escutar as suas

revelações de poeta.

Se os antigos pudessem ter adivinhado e seguido esta _licenciosa_

theoria, os seus estudos não houveram sido apesar d'isso nem largos nem

custosos. A historia era falsa como a arte. Reduzia-se a biographias

soltas e incompletas; era tambem um aggregado d'abstracções; resumia-se

nos factos politicos. A vida social passava desconhecida: o povo

desapparecia nas sombras gigantes que derramavam em volta de si os

homens eminentes. Ao passo, porém, que a arte se reconstruia,

reconstruia-se a historia. Ao lado de Goethe e Schiller apparecia Herder

e Muleer; ao lado d'Hugo, Guizot e Thierry. Ambas as refórmas se viram e

vêem obrigadas a refutar o passado com as razões e com o exemplo. Mas o

poeta é constrangido a encerrar-se na época e no país cuja historia se

acha escripta por um systema racional, ou a ser ao mesmo tempo

historiador e poeta, tarefa difficil debaixo da qual poucos hombros

deixarão de vergar; mas que é indispensavel leve a cabo aquelle que

quiser incarnar a sua obra dramatica na historia do passado, sob pena de

cair no convencional e incompleto do antigo theatro, porque não basta

sacudir o jugo dos preceitos pueris das poeticas para escrever o drama

historico: importa redigir-lhe a formula, e esta não está em achar

quatro datas, e seis nomes illustres, mas na resurreição completa da

epoca escolhida para nella se delinear a concepção dramatica. Primeiro

que tudo, importa que essa epoca se alevante, como Lazaro á voz ele

Jesus, cheia de vigor e de vida.

É de lamentar que os nossos mancebos, esperanças da litteratura patria,

prefiram ordinariamente as epocas historicas que passaram para nellas

traduzirem ao mundo os fructos do seu ingenho dramatico, tendo aliás

para isso a vida presente que tambem é sociedade e historia. Não seria

melhor que estudassem o mundo que os rodeia, e que vestissem os filhos

da sua imaginação com os trages da actualidade? Não lhes era mais facil,

mais agradavel até, este estudo feito no meio dos banquetes, dos bailes,

das conversações, do ruido, do presente, no qual os leva

irresistivelmente a lançarem-se a superabundancia de vida, o fogo da

mocidade? Muito se enganam elles, crendo que acham a historia em alguns

pobres livros historicos que por ahi existem. Não: a historia não está

lá! Não, vós não achastes a formula material para a vossa idealidade; o

vosso drama é a visão infernal mas ridicula de Perrault; é a sombra do

cocheiro que alimpava a sombra de uma carruagem com a sombra de uma

escova. Na vossa obra não ha drama porque na sua forma externa não ha

realidade, e a expressão é o real. Para achar este cumpre ter o estamago

e os braços robustos, os orgãos do olfacto endurecidos, a paciencia de

ferro, porque é preciso revolver a grande lagem que cobre o cadaver do

passado; é preciso aspirar o pó do sepulchro, deslizar prega por prega o

sudario apodrecido das gerações extinctas: é preciso contemplar as

formosuras das sociedades que se transformaram ou pereceram mas tambem

apalpares cancros que as devoraram: é preciso contemplar seus monumentos

sublimes de marmore; mas tambem ler lentamente os quasi apagados e

barbaros caracteres dos seus pergaminhos, e as obscuras, tediosas e

incertas sentenças da sua legislação; é preciso viver com os grandes

d'outr'ora em seus paços esplendidos, mas assistir tambem ás miserias e

agonias dos peões, cuja desventura faria hoje recuar de horror o maior

malaventurado. Tudo isto é necessario, sem contar o grande e fatal risco

de perderdes neste rude trabalho o que vale mais do que elle--a

imaginação e a poesia. Deixai que outros a quem alguma vocação fatal

leva para este genero de estudo, o mais tedioso talvez de todos, vos

reconstruam os tempos que se dissolveram em pedaços. Então podereis

livremente escolher a urdidura da vossa têa, e bordá-la com os ricos

matizes das vossas inspirações.

Que resulta de se escolherem para objectos de composições dramaticas

successos e individuos pertencentes a uma geração e a uma sociedade cuja

indole e modo de existir se ignora? Resulta cair-se no vicio do theatro

antigo; fazer abstracções, e desmentir a verdadeira arte. É o que

succede em--_D. Maria Telles_.--Ponham-se ahi em vez d'esses nomes tão

conhecidos do fim do decimo quarto seculo, signaes algebricos: cortem-se

todas as allusões aos acontecimentos politicos ou pessoas notaveis

d'então, e o drama pertencerá á epoca e ao país que nos approuver. E

porque? Porque falta ahi a individualidade portuguesa d'então: faltam o

crer, os costumes, as relações sociaes d'essas eras. E sendo isto assim

poder-se-ha dar a--_D. Maria Telles_--o titulo de um drama historico,

que evidentemente quis seu auctor se lhe désse?

Julgámos ser nossa obrigação dilatar-mo-nos nestas considerações sobre

duas partes importantissimas de qualquer drama--os caracteres, e a côr e

verdade historica e local, porque é preciso confessar que depois da

restauração do nosso theatro, é sobre estes dois pontos que a critica

litteraria attenta em demasia a averiguações, sobre a correcção de

lingua, tem sido assás negligente e escaça. Resta agora examinarmos com

a brevidade possivel a disposição ou enredo do drama, a propriedade do

seu estylo, e a pureza da sua linguagem. A traça do drama é a seguinte.

Primeiro acto.--O Infante D. João está a ponto de desposar-se com D.

Maria Telles. Esta o espera no castello de Barcellos, onde a ceremonia

do casamento deve celebrar-se a occultas, e alta noite, a despeito dos

sagrados canones. A boa dona possuida de uma tristeza inexplicavel está

acompanhada da sua confidente e ora na capella, onde se vê o tumulo do

seu primeiro marido. Por Isabel manda chamar Fr. Soeiro para que venha

animá-la e consolá-la, e fica sozinha. Chega seu filho D. Lopo Dias, D.

Maria Telles lhe escondera o negocio do casamento, mas elle o aventara

não sabemos como, nem o auctor o diz. Queixas do filho porque fica

desamparado; razão tinha, attento o seu estado de phtysico. Promessas da

mãi, de que toda a familia ficará junta, por que elle Lopo Dias e o

Infante são os seus unicos amigos. _Ainda tendes outro_, lhe brada um

cavalleiro de armadura negra e viseira callada que apparece á porta da

capella. Dizendo e fazendo, ei-lo que entra. D. Lopo pergunta-lhe quem

é: resposta; _sou um defensor de vossa mãi_. D. Lopo diz que lhe fica

muito obrigado mas que ella não precisa de defensores. Insiste o

desconhecido porque D. Leonor ha de persegui-la. Isso é a mim que

toca:--acode D. Lopo. Com bom fundamento o affirmava, e por isso o

cavalleiro não acertando a replicar-lhe vai-se ao tropheu d'armas que

está sobre o tumulo de Alvaro Dias, pega na espada do defuncto e

entrega-a ao mancebo recommendando-lhe que se mostre digno d'ella. A tão

bom conselho não havia fazer reparos. D. Lopo promette dar-lhe o devido

uso. Então o cavalleiro sai, não sem offerecer a D. Lopo o seu braço e

espada para qualquer lanço apertado; já se sabe sem dizer quem é ou onde

mora. Ido o cavalleiro, D. Maria pergunta ao filho quem seria aquelle

homem, era melhor ter-lho perguntado a elle. Se o conhecesse como as

suas mãos D. Lopo não responderia mais confiado: _É um homem que vos

ama, e que vigia sobre vós_. Não diz isto porque o conheça: mas porque o

sabe ab alto, a proposito do que vem uma dissertação sobre o dom

d'adivinhar que teem os phtysicos. Saindo Lopo, volta Isabel com Fr.

Soeiro: scena inutil.--Chega então o Infante, acompanhado do Commendador

d'Elvas; colloquios amorosos. O Commendador Garcia Affonso nas visagens

que faz, nos á partes que murmura mostra a raiva que lhe accende na alma

o affecto dos dois conjuges, que finalizam o acto ajoelhando junto ao

altar provavelmente para receberem a benção matrimonial de Fr. Soeiro.

Este acto, afora a inutilidade da scena VI, involve grave falta de

probabilidade. Como pôde um cavalleiro desconhecido entrar de viseira

callada e depois da meia noite na capella de um castello do seculo XIV?

Como rodou a ponte levadiça para lhe dar passagem? Que fazia o madraço

do alcaide; que faziam os vigias das quadrellas, roldas e sobre roldas,

que assim deixavam devassar a boa fortaleza d'el-rei de Portugal? Como

entrou esse homem? Eis o que o auctor não diz, nem lhe fôra facil

dizê-lo. Depois, é acaso natural que D. Maria Telles nem sequer deseje

conhecer quem elle é? Homem que fosse, não descansaria sem o saber,

quanto mais sendo mulher! D. Lopo indaga na verdade quem elle seja; mas

contenta-se com uma resposta evasiva, e consente que o incognito lhe vá

buscar a espada de seu pai, e lh'a entregue com a comminação de que ha

de fazer bom uso d'ella. O melhor uso que D. Lopo naquelle momento podia

fazer d'esse ferro era pôr-lho aos peitos para o obrigar a erguer a

viseira. Sua mãi vai celebrar um casamento occulto, e é quasi na hora

prefixa para a ceremonia que elle tolera venha um desconhecido devassar

a capella, sem o obrigar a descobrir-se? A theoria de que os phtysicos

adivinham será muito boa e verdadeira; mas a palhologia ainda não chegou

a atinar com essa circumstancia nas affecções pulmonares, e os

espectadores não poderão admittir a razão com que o auctor por bocca de

D. Lopo pretende desculpar a inverosimilhança de tal procedimento, isto

é, que elle já tem o que quer que seja d'alma do outro mundo, e que por

isso sabe que o desconhecido é pessoa de confiança. O antigo theatro só

consentia milagres em casos apertadissimos. _Nec Deus interrit nisi

dignos vindice nodus_. A licenciosa eschola moderna em nenhum admitte

taes meios, quer seja para conduzir o drama, quer para desfeixo d'elle.

Natureza e verdade são os seus unicos elementos.

Segundo acto.--Tem passado um anno. D. Maria Telles está em Coimbra com

seu filho, e o Infante que já começa a esquecer-se de sua mulher anda na

côrte. D. Lopo faz versos e carpe-se: D. Maria carpe-se e ouve-lh'os

declamar. Mas como lagrimas e versos continuados são duas grandes

canseiras, a pobre dama abandonada convida seu filho para irem

espairecer suas maguas pelas margens do Mondego. A isto acode D. Lopo,

que é melhor irem ao monte visitar a caverna do solitario.--Qual

solitario? Logo o sabereis. D. Maria Telles faz suas objecções: a

caverna do referido solitario ou _homem dos mysterios_ tem má nomeada:

ninguem se atreve a chegar perto d'ella: a isto acode o poeta, com dizer

que todos esses medos são sandices do vulgo, e que lá por certos

barruntos que elle tem, adivinha que o solitario é pessoa de porte e de

bondade. Desassombrada de seus temores D. Maria está a ponto de sair eis

senão quando chega o Commendador d'Elvas com uma carta do Infante. Roto

o fecho da carta com o punhal de Garcia Affonso, D. Maria lê o contheudo

d'ella em voz baixa. A boa da carta era fria, fria como gêlo: nem uma

palavra affectuosa! Apenas lhe diz sua mercê o Infante que não pode ir a

Coimbra, demorado na côrte por negocios d'alta monta. Desesperação de D.

Maria que sente por isto que vai morrer. Porque? Porque D. João, marido

já de um anno, e preoccupado por graves negocios, não lhe escreve uma

carta de amores, e não lhe declara que negocios são esses que lhe

embargam os passos. Vêr a morte diante dos olhos; ficar desesperada por

tal motivo seria loucura d'uma rapariga de vinte annos, mas em uma dona

de trinta e seis é uma inverosimilhança inadmissivel. Se todas as

mulheres casadas de mais de um anno morressem por não serem as cartas de

seus maridos ausentes adubadas de amores e requebros: a proporção das

viuvas com o resto da população seria mais descommunal e espantosa do

que em Inglaterra a dos que morrem de fome com os que teem que comer.

Quanto ao segredo que o Infante guarda sobre os negocios que o reteem,

razão tinha D. Maria Telles, porque mencioná-los sem os particularizar,

era fazer nascer desejos vãos á insaciavel curiosidade feminina, e

todavia não podiam ser materias d'estado esses negocios?--não podiam ser

coisas que nada importassem a D. Maria? Para um desmaio ainda a carta

teria substancia se a dama fosse uma rapariguinha; mas para agonias

mortaes em uma dona sisuda, como lhe chama Fernão Lopes, não havia ahi

motivo. Por uns longes que se enxergam em dois á partes do Commendador

vê-se que foi elle quem armou esta negregada invenção da carta, e que

folga com o effeito d'ella. Se o auctor do drama tivesse concedido a D.

Maria Telles mais uma mealha de senso commum, Garcia Affonso não teria

mostrado ser na tal invenção da carta, senão um solemnissimo mentecapto,

se a sua intenção era, como elle diz num monologo, vingar-se d'ella e do

Infante.

Lida a carta, D. Maria chama o filho para irem visitar o solitario,

porque só nelle poderá achar consolações. Pois que tem o solitario (de

quem ella ha um instante tremia de medo) com o desamor de D. João? O

poeta, que fôra o movedor d'esta ida está prestes, e lá vão ambos por

montes e valles em cata do mysterioso anachoreta.

Não tardam muito a encontrá-lo. É apenas o tempo necessario para a

mutação da scena, cair e levantar-se o panno; não para mudança de acto,

mas de quadro. O solitario está na caverna falando a sós comsigo. De seu

dizer consta que havendo amado D. Maria Telles, e não podendo obtê-la

por ser já casada com Alvaro Dias de Sousa, casara com sua irmã D.

Leonor, que o deixou para subir ao throno. É, portanto, o eremita--João

Lourenço da Cunha, que lida com suas maguas, e que depois de invocar a

morte e sonhar vinganças, o que não é a mais approvada disposição moral

para esse transe tremendo, cai desfallecido sobre um rochedo. É neste

ponto que chegam Lopo Dias e sua mãi. lista apenas entra, diz-lhe que

vem trazer-lhe consolações. Impertinencia de mulher! Quem lhe disse a

ella que o anachoreta de cuja caverna ninguem ousa approximar-se, entrou

na vida eremitica por desventuras e não pelo arrependimento de seus

peccados? Quem lhe dá a certeza de que poderá consolá-lo, ella que não o

conhece, e que não sabe provavelmente o que lhe ha de dizer? Dar-lhe

consolações?! De que genero e de que modo? Que affirmou ella ao sair de

casa? Que vinha pedir e não offerecer consolo. Disse uma coisa sem

sentido, sem verdade, e agora diz outra. O solitario offende-se da

offerta e com razão. Affirmando-se porém na recem chegada, reconhece-a,

e ella reconhece-o a elle.--Explicações mutuas. João Lourenço refere

então como foi elle o cavalleiro d'armas negras que lhe appareceu na

capella, e explica-lhe o proceder do Infante. Este occultou na côrte o

seu casamento, e a mão da Infante D. Beatriz acaba de lhe ser

offerecida. Cheia d'angustia, neste logar, justa e bem fundada, D. Maria

Telles pergunta: e _acceitou-a_?--Uma voz que sôa na bocca da caverna

responde--_Acceitou_!--É o Commendador d'Elvas que assoma involto numa

capa, já se sabe, negra. D. Maria desmaia e cai o panno.

Este desfeixo do acto é natural e dramatico, e a melhor coisa de todo

elle. O Commendador vendo-a sair seguia-lhe os passos; escutou a

conversação, e em seus pensamentos de vingança não consentiu que outrem

desse a punhalada mortal nessa mulher de quem queria vingar-se. Aqui o

efleito dramatico vem naturalmente da situação e caracter dos

personagens. Quanto ás scenas anteriores parece-nos que estão abaixo de

toda a critica.

Acto terceiro.--D. Leonor está só debatendo-se com os remordimentos de

sua consciencia; entra o Commendador d'Elvas. Vem trazer-lhe a noticia

de que fez ao Infante a proposta do casamento com D. Beatriz, e que

achando-o mau de resolver lhe dera suspeitas de que sua mulher o

trahira. D. Leonor relucta contra esta nova calumnia: martyrizam-na os

remorsos porque viu em sonhos os castigos que lhes estavam reservados no

outro mundo a elle Commendador e a ella Rainha; nesses tormentos,

conforme o direito, e em vista da nossa moderna jurisprudencia

dramatica, ha pontas de rochedos em braza para arrastar o miseravel

Commendador. O triplicado da punição; as pontas, os rochedos e as

brazas, aterram-no, mas finge-se resoluto. Não assim a rainha a quem os

sonhos pavorosos não podem esquecer. Segue-se uma lucta moral em que os

insultos refervem entre os dois. O Commendador sai ameaçando a rainha.

Apenas esta se acha só, entra João Lourenço da Cunha: scena violenta

entre os dois em que a rainha successivamente treme, humilha-se,

amaldiçoa e ameaça, e em que elle fala constantemente a linguagem do

odio profundo. No meio da altercação sobrevem o Infante que tendo João

Lourenço por morto, crê que é a sua alma em pena. Este o ameaça tambem

por querer dissolver o matrimonio contrahido com D. Maria Telles. A

rainha nega o casamento: João Lourenço injuria-a de novo, e o Infante

arranca da espada. A ponto já de brigarem acode el-rei aos brados de D.

Leonor. João Lourenço que enfiou a ladainha dos doestos affronta tambem

D. Fernando que chega a levar a mão á espada, mas que lembrando-se de

quem é, manda-o como era de razão, metter na cadêa. Partindo, o antigo

marido da rainha, pergunta a si mesmo, quem, preso elle, defenderá D.

Maria Telles. D. Lopo Dias apparecendo no fundo responde-lhe;--_Seu

filho_!--E cai o panno.

Este acto, tem entre todos como é evidente, a primazia no desalinhavado

e absurdo do desenho, posto que não lhe falta merito ás vezes na

execução das scenas. Primeiramente como é crivel que tendo Garcia

Affonso sido encarregado pela Rainha de propôr ao Infante o novo

casamento, e estando este na côrte, o Commendador antes de dar parte a

D. Leonor do desempenho da commissão, fosse a Coimbra levar a celebre

carta do acto 2.^o, o que podia fazer qualquer pagem ou correio? Em

segundo logar, não estaria doido João Lourenço, tendo tomado a peito

defender D. Maria Telles, em vir metter-se nas garras da rainha, só para

a injuriar e aos outros seus inimigos, porque não consta do drama que

viesse fazer outra coisa? Que esperava elle lhe succedesse, entrando no

paço, onde todos o conheciam, para practicar aquellas gentilezas, senão

ir jazer na cadêa? Depois como entrou elle sem licença até o quarto de

D. Leonor? É a mesma inverosimilhança do primeiro acto. O paço real no

seculo XIV era menos vedado que hoje: permittia-o a differença dos

tempos; mas nem por isso era uma taberna, onde qualquer entrasse quando

e como lhe approuvesse; e todavia é sobre estes argumentos que assentam

os dois ultimos actos. Quanto a este abster-nos-hemos de dizer mais nada

contentando-nos com observar que termina por um effeito dramatico

perfeitamente analogo ao desfeixo do segundo, isto é pelo apparecimento

de um personagem inesperado.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 09 · 第 11 / 13 段