que historicamente pertencem: é este depois do uniforme, e confuso dos
caracteres o maximo defeito d'elle. Nesta parte accrescentaremos algumas
considerações que não parecerão inteiramente inuteis para os cultores
principiantes d'este genero de litteratura. A epocha dos reinados de D.
Fernando e D. João I é incontestavelmente a mais dramatica da historia
portuguesa. São-no os factos politicos e a vida civil d'esse tempo: as
pessoas e as coisas. A nobreza era chegada ao apogeu da sua grandeza,
porque as instituições feudaes que se haviam misturado com a nossa
primitiva indole social, tinham tocado então a méta do seu predominio:
quando já a sua dilatada agonia começava no resto da Europa: o povo dava
signaes exteriores de que existia, e existia robusto; a monarchia
exgotava a sua generosidade e os testemunhos do seu temor para com a
aristocracia na vespera de dar principio ao duello de morte para que ia
reptá-la, e que devia durar cem annos. Nestes dois reinados operou-se
uma transformação nacional: o fim do seculo XIV foi um periodo
revolucionario: revolucionario não tanto para as pessoas como para as
coisas; os elementos da vida social foram então chamados a uma grande
lucta, e, como acontece sempre em similhantes situações, tanto os que
deviam ser vencidos como os que haviam de ficar vencedores combateram
energicamente. Os grandes vultos historicos d'esse tempo--os personagens
extraordinarios, diriamos quasi homericos, que então surgiram--os
caracteres profundamente distinctos, e altamente poeticos, quer pela
negrura, quer pela formusura moral:--todos nasceram da situação social
do país: foram o resultado e o resumo d'esta, e por ella sómente se
podem comprehender, avaliar e explicar. Se porém essas imagens tão
aproveitaveis para a arte, forem arrancadas do quadro em cujo chão e luz
appropriados a ellas, unicamente se devem contemplar, ficarão
convertidas em desenhos de morte-côr, e o que mais é, perderão os seus
lineamentos caracteristicos; serão abstracções; serão quando muito
objectos d'estudo para a physiologia das paixões: serão representantes
do genero humano em geral, mas nunca de uma geração, de uma época, e
d'um país: darão materia para o drama metaphysico, para o drama como o
conceberam Goethe em _Ferv_ e _Betly_ ou na _Filha Natural_, e Byron no
_Manfredo_; porém não para o drama historico, para o drama que se
incarna na realidade, para o drama que não é um poema lyrico como a
_Athalia_ ou uma amplificação brilhante como _Mahomet_, mas uma obra
d'arte que toma por expressão a vida humana, e que é destinada para a
scena.
O titulo do drama historico dado ás composições mais notaveis neste
genero, que no seculo passado e no presente tem apparecido na Europa,
como _Goetz_, _Wallensteim_, _Hernani_, e tantos outros, não foi uma
phantasia ou capricho dos eminentes poetas que as produziram ou dos
criticos que as julgaram. Este titulo corresponde a uma realidade:
representa uma theoria litteraria verdadeira e nova substituida a outra
velha e falsa. O theatro antigo por via de regra era uma abstracção: os
seus personagens são vultos por assim dizer desenhados na atmosphera, e
que se movem nos raios do sol; não pisam a terra; não choram nem folgam
humanamente; não descendem como nós de Adão; não estão sugeitos senão a
certas condições da vida real. O dramaturgo antigo creava o caracter de
um tyranno, chamava-lhe Nero; de um voluptuario, chamava-lhe
Sardanapalo; de uma incestuosa chamava-lhe Phedra; de um hypocrita
feroz, chamava-lhe Mahomet. Podia chamar-lhes outra qualquer coisa;
buscar na historia ou fóra d'ella outros quaesquer nomes. _Constei
sibi_: eis o que exigia d'esses caracteres a philosophia da arte.
Satisfeita esta condição bem pouco importava se o personagem era romano,
syro, grego, ou arabe. _Constet sibi_.--Pouco importava se as suas
dimensões eram humanas. _Constet sibi_. Pouco importava quaes haviam
sido as crenças, as condições da vida civil, os varios aspectos emfim da
sociedade e da época em que o individuo que se arrastava para o theatro
tinha vivido, e que forçosamente deviam modificar-lhe de certo ou certo
modo as paixões ou os affectos, o pensar intimo ou o porte exterior.
_Constet sibi_: era o que lhe pedia a arte antiga. E na verdade não era
pedir muito. A arte moderna que os ingenuos e innocentes defensores do
passado accusam de licenciosa põe apenas mil vezes mais duras condições
aos seus sacerdotes; porque alem da constancia dos caracteres
dramaticos, exige nestes circumstancias, que só o muito estudo e um
ingenho profundamente synthetico póde fazer que se liguem ás obras
filhas da imaginação do poeta.
Se tão leves de soffrer foram outr'ora as condições dramaticas quanto
aos caracteres, escusado parece dizer que foram nullas quanto á
phisiologia intima do drama. Malbaratou-se toda a esthetica dos antigos
nas fórmas materiaes e externas d'elle, na anatomia dos ossos e
cartilagens. Os escriptores _licenciosos_ do seculo presente sentiram
não tanto que esta anatomia era erronea, apesar de o ser muito, quanto
sentiram que era incompletissima. Posto o principio incontestavel de que
o drama não é mais do que a arte vasada no molde da vida social, tiraram
o corollario forçoso de que era preciso primeiro que tudo estudar esta,
e exclusivamente esta. A arte não se estuda; porque a arte é o ideal, e
o ideal vem de Deus; é uma inspiração: o que se estuda são as formulas
materiaes em que ella se revela, os typos em que se resume; para que
estes possam ser claros e definidos como meios de communicação entre o
poeta e o mundo. No drama a historia é a expressão da arte, é a voz
articulada do homem inspirado. Elle deve por isso saber perfundamente a
historia da épocha e do povo que vai alevantar do sepulchro, para servir
d'interprete entre elle e as gerações que hão de escutar as suas
revelações de poeta.
Se os antigos pudessem ter adivinhado e seguido esta _licenciosa_
theoria, os seus estudos não houveram sido apesar d'isso nem largos nem
custosos. A historia era falsa como a arte. Reduzia-se a biographias
soltas e incompletas; era tambem um aggregado d'abstracções; resumia-se
nos factos politicos. A vida social passava desconhecida: o povo
desapparecia nas sombras gigantes que derramavam em volta de si os
homens eminentes. Ao passo, porém, que a arte se reconstruia,
reconstruia-se a historia. Ao lado de Goethe e Schiller apparecia Herder
e Muleer; ao lado d'Hugo, Guizot e Thierry. Ambas as refórmas se viram e
vêem obrigadas a refutar o passado com as razões e com o exemplo. Mas o
poeta é constrangido a encerrar-se na época e no país cuja historia se
acha escripta por um systema racional, ou a ser ao mesmo tempo
historiador e poeta, tarefa difficil debaixo da qual poucos hombros
deixarão de vergar; mas que é indispensavel leve a cabo aquelle que
quiser incarnar a sua obra dramatica na historia do passado, sob pena de
cair no convencional e incompleto do antigo theatro, porque não basta
sacudir o jugo dos preceitos pueris das poeticas para escrever o drama
historico: importa redigir-lhe a formula, e esta não está em achar
quatro datas, e seis nomes illustres, mas na resurreição completa da
epoca escolhida para nella se delinear a concepção dramatica. Primeiro
que tudo, importa que essa epoca se alevante, como Lazaro á voz ele
Jesus, cheia de vigor e de vida.
É de lamentar que os nossos mancebos, esperanças da litteratura patria,
prefiram ordinariamente as epocas historicas que passaram para nellas
traduzirem ao mundo os fructos do seu ingenho dramatico, tendo aliás
para isso a vida presente que tambem é sociedade e historia. Não seria
melhor que estudassem o mundo que os rodeia, e que vestissem os filhos
da sua imaginação com os trages da actualidade? Não lhes era mais facil,
mais agradavel até, este estudo feito no meio dos banquetes, dos bailes,
das conversações, do ruido, do presente, no qual os leva
irresistivelmente a lançarem-se a superabundancia de vida, o fogo da
mocidade? Muito se enganam elles, crendo que acham a historia em alguns
pobres livros historicos que por ahi existem. Não: a historia não está
lá! Não, vós não achastes a formula material para a vossa idealidade; o
vosso drama é a visão infernal mas ridicula de Perrault; é a sombra do
cocheiro que alimpava a sombra de uma carruagem com a sombra de uma
escova. Na vossa obra não ha drama porque na sua forma externa não ha
realidade, e a expressão é o real. Para achar este cumpre ter o estamago
e os braços robustos, os orgãos do olfacto endurecidos, a paciencia de
ferro, porque é preciso revolver a grande lagem que cobre o cadaver do
passado; é preciso aspirar o pó do sepulchro, deslizar prega por prega o
sudario apodrecido das gerações extinctas: é preciso contemplar as
formosuras das sociedades que se transformaram ou pereceram mas tambem
apalpares cancros que as devoraram: é preciso contemplar seus monumentos
sublimes de marmore; mas tambem ler lentamente os quasi apagados e
barbaros caracteres dos seus pergaminhos, e as obscuras, tediosas e
incertas sentenças da sua legislação; é preciso viver com os grandes
d'outr'ora em seus paços esplendidos, mas assistir tambem ás miserias e
agonias dos peões, cuja desventura faria hoje recuar de horror o maior
malaventurado. Tudo isto é necessario, sem contar o grande e fatal risco
de perderdes neste rude trabalho o que vale mais do que elle--a
imaginação e a poesia. Deixai que outros a quem alguma vocação fatal
leva para este genero de estudo, o mais tedioso talvez de todos, vos
reconstruam os tempos que se dissolveram em pedaços. Então podereis
livremente escolher a urdidura da vossa têa, e bordá-la com os ricos
matizes das vossas inspirações.
Que resulta de se escolherem para objectos de composições dramaticas
successos e individuos pertencentes a uma geração e a uma sociedade cuja
indole e modo de existir se ignora? Resulta cair-se no vicio do theatro
antigo; fazer abstracções, e desmentir a verdadeira arte. É o que
succede em--_D. Maria Telles_.--Ponham-se ahi em vez d'esses nomes tão
conhecidos do fim do decimo quarto seculo, signaes algebricos: cortem-se
todas as allusões aos acontecimentos politicos ou pessoas notaveis
d'então, e o drama pertencerá á epoca e ao país que nos approuver. E
porque? Porque falta ahi a individualidade portuguesa d'então: faltam o
crer, os costumes, as relações sociaes d'essas eras. E sendo isto assim
poder-se-ha dar a--_D. Maria Telles_--o titulo de um drama historico,
que evidentemente quis seu auctor se lhe désse?
Julgámos ser nossa obrigação dilatar-mo-nos nestas considerações sobre
duas partes importantissimas de qualquer drama--os caracteres, e a côr e
verdade historica e local, porque é preciso confessar que depois da
restauração do nosso theatro, é sobre estes dois pontos que a critica
litteraria attenta em demasia a averiguações, sobre a correcção de
lingua, tem sido assás negligente e escaça. Resta agora examinarmos com
a brevidade possivel a disposição ou enredo do drama, a propriedade do
seu estylo, e a pureza da sua linguagem. A traça do drama é a seguinte.
Primeiro acto.--O Infante D. João está a ponto de desposar-se com D.
Maria Telles. Esta o espera no castello de Barcellos, onde a ceremonia
do casamento deve celebrar-se a occultas, e alta noite, a despeito dos
sagrados canones. A boa dona possuida de uma tristeza inexplicavel está
acompanhada da sua confidente e ora na capella, onde se vê o tumulo do
seu primeiro marido. Por Isabel manda chamar Fr. Soeiro para que venha
animá-la e consolá-la, e fica sozinha. Chega seu filho D. Lopo Dias, D.
Maria Telles lhe escondera o negocio do casamento, mas elle o aventara
não sabemos como, nem o auctor o diz. Queixas do filho porque fica
desamparado; razão tinha, attento o seu estado de phtysico. Promessas da
mãi, de que toda a familia ficará junta, por que elle Lopo Dias e o
Infante são os seus unicos amigos. _Ainda tendes outro_, lhe brada um
cavalleiro de armadura negra e viseira callada que apparece á porta da
capella. Dizendo e fazendo, ei-lo que entra. D. Lopo pergunta-lhe quem
é: resposta; _sou um defensor de vossa mãi_. D. Lopo diz que lhe fica
muito obrigado mas que ella não precisa de defensores. Insiste o
desconhecido porque D. Leonor ha de persegui-la. Isso é a mim que
toca:--acode D. Lopo. Com bom fundamento o affirmava, e por isso o
cavalleiro não acertando a replicar-lhe vai-se ao tropheu d'armas que
está sobre o tumulo de Alvaro Dias, pega na espada do defuncto e
entrega-a ao mancebo recommendando-lhe que se mostre digno d'ella. A tão
bom conselho não havia fazer reparos. D. Lopo promette dar-lhe o devido
uso. Então o cavalleiro sai, não sem offerecer a D. Lopo o seu braço e
espada para qualquer lanço apertado; já se sabe sem dizer quem é ou onde
mora. Ido o cavalleiro, D. Maria pergunta ao filho quem seria aquelle
homem, era melhor ter-lho perguntado a elle. Se o conhecesse como as
suas mãos D. Lopo não responderia mais confiado: _É um homem que vos
ama, e que vigia sobre vós_. Não diz isto porque o conheça: mas porque o
sabe ab alto, a proposito do que vem uma dissertação sobre o dom
d'adivinhar que teem os phtysicos. Saindo Lopo, volta Isabel com Fr.
Soeiro: scena inutil.--Chega então o Infante, acompanhado do Commendador
d'Elvas; colloquios amorosos. O Commendador Garcia Affonso nas visagens
que faz, nos á partes que murmura mostra a raiva que lhe accende na alma
o affecto dos dois conjuges, que finalizam o acto ajoelhando junto ao
altar provavelmente para receberem a benção matrimonial de Fr. Soeiro.
Este acto, afora a inutilidade da scena VI, involve grave falta de
probabilidade. Como pôde um cavalleiro desconhecido entrar de viseira
callada e depois da meia noite na capella de um castello do seculo XIV?
Como rodou a ponte levadiça para lhe dar passagem? Que fazia o madraço
do alcaide; que faziam os vigias das quadrellas, roldas e sobre roldas,
que assim deixavam devassar a boa fortaleza d'el-rei de Portugal? Como
entrou esse homem? Eis o que o auctor não diz, nem lhe fôra facil
dizê-lo. Depois, é acaso natural que D. Maria Telles nem sequer deseje
conhecer quem elle é? Homem que fosse, não descansaria sem o saber,
quanto mais sendo mulher! D. Lopo indaga na verdade quem elle seja; mas
contenta-se com uma resposta evasiva, e consente que o incognito lhe vá
buscar a espada de seu pai, e lh'a entregue com a comminação de que ha
de fazer bom uso d'ella. O melhor uso que D. Lopo naquelle momento podia
fazer d'esse ferro era pôr-lho aos peitos para o obrigar a erguer a
viseira. Sua mãi vai celebrar um casamento occulto, e é quasi na hora
prefixa para a ceremonia que elle tolera venha um desconhecido devassar
a capella, sem o obrigar a descobrir-se? A theoria de que os phtysicos
adivinham será muito boa e verdadeira; mas a palhologia ainda não chegou
a atinar com essa circumstancia nas affecções pulmonares, e os
espectadores não poderão admittir a razão com que o auctor por bocca de
D. Lopo pretende desculpar a inverosimilhança de tal procedimento, isto
é, que elle já tem o que quer que seja d'alma do outro mundo, e que por
isso sabe que o desconhecido é pessoa de confiança. O antigo theatro só
consentia milagres em casos apertadissimos. _Nec Deus interrit nisi
dignos vindice nodus_. A licenciosa eschola moderna em nenhum admitte
taes meios, quer seja para conduzir o drama, quer para desfeixo d'elle.
Natureza e verdade são os seus unicos elementos.
Segundo acto.--Tem passado um anno. D. Maria Telles está em Coimbra com
seu filho, e o Infante que já começa a esquecer-se de sua mulher anda na
côrte. D. Lopo faz versos e carpe-se: D. Maria carpe-se e ouve-lh'os
declamar. Mas como lagrimas e versos continuados são duas grandes
canseiras, a pobre dama abandonada convida seu filho para irem
espairecer suas maguas pelas margens do Mondego. A isto acode D. Lopo,
que é melhor irem ao monte visitar a caverna do solitario.--Qual
solitario? Logo o sabereis. D. Maria Telles faz suas objecções: a
caverna do referido solitario ou _homem dos mysterios_ tem má nomeada:
ninguem se atreve a chegar perto d'ella: a isto acode o poeta, com dizer
que todos esses medos são sandices do vulgo, e que lá por certos
barruntos que elle tem, adivinha que o solitario é pessoa de porte e de
bondade. Desassombrada de seus temores D. Maria está a ponto de sair eis
senão quando chega o Commendador d'Elvas com uma carta do Infante. Roto
o fecho da carta com o punhal de Garcia Affonso, D. Maria lê o contheudo
d'ella em voz baixa. A boa da carta era fria, fria como gêlo: nem uma
palavra affectuosa! Apenas lhe diz sua mercê o Infante que não pode ir a
Coimbra, demorado na côrte por negocios d'alta monta. Desesperação de D.
Maria que sente por isto que vai morrer. Porque? Porque D. João, marido
já de um anno, e preoccupado por graves negocios, não lhe escreve uma
carta de amores, e não lhe declara que negocios são esses que lhe
embargam os passos. Vêr a morte diante dos olhos; ficar desesperada por
tal motivo seria loucura d'uma rapariga de vinte annos, mas em uma dona
de trinta e seis é uma inverosimilhança inadmissivel. Se todas as
mulheres casadas de mais de um anno morressem por não serem as cartas de
seus maridos ausentes adubadas de amores e requebros: a proporção das
viuvas com o resto da população seria mais descommunal e espantosa do
que em Inglaterra a dos que morrem de fome com os que teem que comer.
Quanto ao segredo que o Infante guarda sobre os negocios que o reteem,
razão tinha D. Maria Telles, porque mencioná-los sem os particularizar,
era fazer nascer desejos vãos á insaciavel curiosidade feminina, e
todavia não podiam ser materias d'estado esses negocios?--não podiam ser
coisas que nada importassem a D. Maria? Para um desmaio ainda a carta
teria substancia se a dama fosse uma rapariguinha; mas para agonias
mortaes em uma dona sisuda, como lhe chama Fernão Lopes, não havia ahi
motivo. Por uns longes que se enxergam em dois á partes do Commendador
vê-se que foi elle quem armou esta negregada invenção da carta, e que
folga com o effeito d'ella. Se o auctor do drama tivesse concedido a D.
Maria Telles mais uma mealha de senso commum, Garcia Affonso não teria
mostrado ser na tal invenção da carta, senão um solemnissimo mentecapto,
se a sua intenção era, como elle diz num monologo, vingar-se d'ella e do
Infante.
Lida a carta, D. Maria chama o filho para irem visitar o solitario,
porque só nelle poderá achar consolações. Pois que tem o solitario (de
quem ella ha um instante tremia de medo) com o desamor de D. João? O
poeta, que fôra o movedor d'esta ida está prestes, e lá vão ambos por
montes e valles em cata do mysterioso anachoreta.
Não tardam muito a encontrá-lo. É apenas o tempo necessario para a
mutação da scena, cair e levantar-se o panno; não para mudança de acto,
mas de quadro. O solitario está na caverna falando a sós comsigo. De seu
dizer consta que havendo amado D. Maria Telles, e não podendo obtê-la
por ser já casada com Alvaro Dias de Sousa, casara com sua irmã D.
Leonor, que o deixou para subir ao throno. É, portanto, o eremita--João
Lourenço da Cunha, que lida com suas maguas, e que depois de invocar a
morte e sonhar vinganças, o que não é a mais approvada disposição moral
para esse transe tremendo, cai desfallecido sobre um rochedo. É neste
ponto que chegam Lopo Dias e sua mãi. lista apenas entra, diz-lhe que
vem trazer-lhe consolações. Impertinencia de mulher! Quem lhe disse a
ella que o anachoreta de cuja caverna ninguem ousa approximar-se, entrou
na vida eremitica por desventuras e não pelo arrependimento de seus
peccados? Quem lhe dá a certeza de que poderá consolá-lo, ella que não o
conhece, e que não sabe provavelmente o que lhe ha de dizer? Dar-lhe
consolações?! De que genero e de que modo? Que affirmou ella ao sair de
casa? Que vinha pedir e não offerecer consolo. Disse uma coisa sem
sentido, sem verdade, e agora diz outra. O solitario offende-se da
offerta e com razão. Affirmando-se porém na recem chegada, reconhece-a,
e ella reconhece-o a elle.--Explicações mutuas. João Lourenço refere
então como foi elle o cavalleiro d'armas negras que lhe appareceu na
capella, e explica-lhe o proceder do Infante. Este occultou na côrte o
seu casamento, e a mão da Infante D. Beatriz acaba de lhe ser
offerecida. Cheia d'angustia, neste logar, justa e bem fundada, D. Maria
Telles pergunta: e _acceitou-a_?--Uma voz que sôa na bocca da caverna
responde--_Acceitou_!--É o Commendador d'Elvas que assoma involto numa
capa, já se sabe, negra. D. Maria desmaia e cai o panno.
Este desfeixo do acto é natural e dramatico, e a melhor coisa de todo
elle. O Commendador vendo-a sair seguia-lhe os passos; escutou a
conversação, e em seus pensamentos de vingança não consentiu que outrem
desse a punhalada mortal nessa mulher de quem queria vingar-se. Aqui o
efleito dramatico vem naturalmente da situação e caracter dos
personagens. Quanto ás scenas anteriores parece-nos que estão abaixo de
toda a critica.
Acto terceiro.--D. Leonor está só debatendo-se com os remordimentos de
sua consciencia; entra o Commendador d'Elvas. Vem trazer-lhe a noticia
de que fez ao Infante a proposta do casamento com D. Beatriz, e que
achando-o mau de resolver lhe dera suspeitas de que sua mulher o
trahira. D. Leonor relucta contra esta nova calumnia: martyrizam-na os
remorsos porque viu em sonhos os castigos que lhes estavam reservados no
outro mundo a elle Commendador e a ella Rainha; nesses tormentos,
conforme o direito, e em vista da nossa moderna jurisprudencia
dramatica, ha pontas de rochedos em braza para arrastar o miseravel
Commendador. O triplicado da punição; as pontas, os rochedos e as
brazas, aterram-no, mas finge-se resoluto. Não assim a rainha a quem os
sonhos pavorosos não podem esquecer. Segue-se uma lucta moral em que os
insultos refervem entre os dois. O Commendador sai ameaçando a rainha.
Apenas esta se acha só, entra João Lourenço da Cunha: scena violenta
entre os dois em que a rainha successivamente treme, humilha-se,
amaldiçoa e ameaça, e em que elle fala constantemente a linguagem do
odio profundo. No meio da altercação sobrevem o Infante que tendo João
Lourenço por morto, crê que é a sua alma em pena. Este o ameaça tambem
por querer dissolver o matrimonio contrahido com D. Maria Telles. A
rainha nega o casamento: João Lourenço injuria-a de novo, e o Infante
arranca da espada. A ponto já de brigarem acode el-rei aos brados de D.
Leonor. João Lourenço que enfiou a ladainha dos doestos affronta tambem
D. Fernando que chega a levar a mão á espada, mas que lembrando-se de
quem é, manda-o como era de razão, metter na cadêa. Partindo, o antigo
marido da rainha, pergunta a si mesmo, quem, preso elle, defenderá D.
Maria Telles. D. Lopo Dias apparecendo no fundo responde-lhe;--_Seu
filho_!--E cai o panno.
Este acto, tem entre todos como é evidente, a primazia no desalinhavado
e absurdo do desenho, posto que não lhe falta merito ás vezes na
execução das scenas. Primeiramente como é crivel que tendo Garcia
Affonso sido encarregado pela Rainha de propôr ao Infante o novo
casamento, e estando este na côrte, o Commendador antes de dar parte a
D. Leonor do desempenho da commissão, fosse a Coimbra levar a celebre
carta do acto 2.^o, o que podia fazer qualquer pagem ou correio? Em
segundo logar, não estaria doido João Lourenço, tendo tomado a peito
defender D. Maria Telles, em vir metter-se nas garras da rainha, só para
a injuriar e aos outros seus inimigos, porque não consta do drama que
viesse fazer outra coisa? Que esperava elle lhe succedesse, entrando no
paço, onde todos o conheciam, para practicar aquellas gentilezas, senão
ir jazer na cadêa? Depois como entrou elle sem licença até o quarto de
D. Leonor? É a mesma inverosimilhança do primeiro acto. O paço real no
seculo XIV era menos vedado que hoje: permittia-o a differença dos
tempos; mas nem por isso era uma taberna, onde qualquer entrasse quando
e como lhe approuvesse; e todavia é sobre estes argumentos que assentam
os dois ultimos actos. Quanto a este abster-nos-hemos de dizer mais nada
contentando-nos com observar que termina por um effeito dramatico
perfeitamente analogo ao desfeixo do segundo, isto é pelo apparecimento
de um personagem inesperado.