A revolução litteraria que a geração actual intentou e concluiu, não foi

instincto: foi resultado de largas e profundas cogitações; veio com as

revoluções sociaes, e explica-se pelo mesmo pensamento d'estas. Mas nem

Bocage, nem os poetas que o imitavam ou seguiam suas doctrinas, se

doctrinas havia nessa eschola, curavam d'averiguar theorias estheticas;

porque os tempos da grave discussão ainda não eram vindos. Poetas

inspirados deixavam-se ir ao som das suas inspirações, viviam numa

especie d'excitamento intellectual; o _estro_, em que tantas vezes

falam, era uma realidade, e o improviso a forma commum em que davam

vulto aos seus pensamentos e affectos. Esses ingenhos ardentes

respiravam numa atmosphera d'enthusiasmo, d'ebriedade poetica.

Similhantes á avesinha que solta o seu gorgeio como o aprendeu da

natureza e do gorgeio paterno, elles, no seu poetar espontaneo,

acceitavam sem exame as regras que lhe ensinara a Arcadia. E que podiam

fazer os pobres poetas peões senão curvar a cabeça ao voto dos mui

eruditos e cortesãos pastores do monte Menalo?

Por isso a eschola bocagiana preparou só metade da revolução artistica:

trouxe a poesia dos corrilhos e salões aristocraticos para a praça

publica; mas não a fez nacional. Esta difficultosa empresa estava em

grande parte guardada para um poeta tão romano em intenções e desejos,

quanto português na indole do seu ingenho. Francisco Manuel foi quem

acabou o que Bocage começara, completando pela nacionalidade o plebeismo

da arte. Feito isto, seguia-se a revolução--e um poeta mancebo,

desterrado como Francisco Manuel, rasgou a bandeira romana e hasteou a

portuguesa. Os poemas--D. Branca e Camões--foram o signal da revolta. As

tradições da Arcadia estavam irremissivelmente condemnadas.

Foi esse incompleto da eschola elmanista que impediu nascesse no meio

d'ella um theatro original. D'este houvera sido o fundador o Sr.

Sebastião Xavier Botelho, se as suas tendencias, o seu agudo ingenho, e

continua applicação a similhante genero de litteratura fossem ajudados e

acompanhados pelo espirito da épocha, e pelo caracter da eschola a que

pertencia. Debalde com a paciencia e tenacidade de poeta, que são as

maiores d'este mundo, não levantou elle mão de uma empresa que era

impossivel levar a cabo, e em que tinha ficado vencido o incansavel

Manuel de Figueiredo e Garção, o poeta da Arcadia. A nacionalidade não

existia ainda, e nacionalidade e theatro não ha separá-los. O theatro é

para as multidões, e o povo não intende senão quem lhe fala na sua

linguagem e sobre as suas coisas; das suas tradições e crenças, ou das

suas paixões e da sua vida actual.

Assim, com a logica do genio, o Sr. Botelho vira qual era a consequencia

da revolução litteraria para que elle contribuia; conhecera que feita

popular a poesia, e tirada dos aposentos de senhores e poderosos, ou do

seio das academias para ser lançada no mundo--porque ella é do mundo,

devia tomar a fórma mais adequada aos seus novos destinos; mas não viu,

porque não podia ultrapassar as idéas do seu tempo, que a transição era

incompleta. Foi por isso que se enganou nos meios, e pensou que trazendo

á nossa scena as sublimes poesias liricas, epicas, e elegiacas, chamadas

tragedias de Racine, e as dissertações dialogadas de philosophia

incredula, chamadas tragedias de Voltaire, o theatro resurgiria; mas o

theatro deixou-se ficar morto, porque não era a voz da individualidade

nacional, que o revocava á vida.

Eis aqui, Senhores, a luz a que eu vejo a eschola litteraria, a que

pertenceu o Sr. Botelho no primeiro periodo da sua vida intellectual, e

como me parece deve ser julgado elle proprio nas obras do seu ingenho. A

essa eschola cabe um honrado logar na historia do progresso humano, ao

Sr. Botelho toca especialmente o ter sentido, ou antes adivinhado, que,

tornada popular a poesia, devia o drama vir a ser a sua mais completa

expressão. Se não logrou seus desejos, segredo foi de cima. Não quis

Deus que essa mente gigante viesse ajudar-nos a evangelizar a nova

religião da arte com a eloquencia da palavra, e com a mais vehemente

ainda, de obras dignas da immortalidade.

Vistes, Senhores, o nosso fallecido consocio--lidando por honrar as

letras portuguesas, e restaurar o theatro; viste-lo consagrando á poesia

os annos proprios d'ella porque são os do imaginar; ve-lo-heis agora

applicando na edade madura a meditação, a energia do seu vigoroso

talento, e a experiencia alcançada no serviço da patria, a estudos

positivos, ao desenvolvimento das mais graves questões sociaes. O poeta

affectuoso, delicado, harmonioso, converteu esse ingenho de que a

natureza tão prodigamente o dotara, á philosophia politica, e nesta nova

carreira do mundo positivo, quasi posso dizer, escureceu a reputação que

anteriormente adquirira no mundo da idealidade.

Foi na sua demorada rezidencia na banda oriental das nossas desprezadas

colonias africanas, como governador de Moçambique e dos vastos

territorios adjacentes, que o Sr. Botelho colligiu os apontamentos e

noticias para a sua Memoria estatistica sobre os dominios portugueses na

Africa Oriental. Juiz incompetente, nada direi, Senhores, quanto á

materia do livro: escripto por um homem da capacidade do Sr. Botelho, e

talvez em grande parte naquellas mesmas provincias, facil é de suppôr

qual seja o seu valor intrinseco. Violentamente acommettida a obra em um

dos principaes periodicos litterarios d'Inglaterra, a Revista

d'Edimburgo, tal e tão cerrada de razões e provas foi a resposta do Sr.

Botelho, que não houve mais replicar, não sei se com quebra do orgulho

inglês. Acêrca da doutrina do livro, é esta em meu intender a mais cabal

defensão.

O que porém, naquelle precioso volume chega a causar uma d'essas invejas

que não deshonram, porque são nobres e honestas, é o estylo e a

linguagem d'elle. Tão sua tinha feito o Sr. Botelho esta formosa lingua

portuguesa, tão elegante e fluente é o seu descrever e narrar, que

difficultosamente lhe levarão vantagem os nossos principaes prosadores.

Ha no livro do Sr. Botelho uma circumstancia que muitos teem notado:

paginas inteiras das relações dos naufragios, principalmente das que

escreveu o celebre Diogo do Couto, se acham ahi reproduzidas

textualmente. Estas paginas, o mais exercitado leitor do Couto não será

capaz de as distinguir entre as do nosso illustre consocio, tão

irmão-gemeo é o seu estylo e linguagem com os d'aquelle admiravel

historiador. Ou esse apparente plagiato fosse uma prova incontestavel,

que o Sr. Botelho nos quisesse dar, de que o seu talento e saber o

egualavam com os nossos melhores classicos, ou fossem reminiscencias

involuntarias (que não precisava elle d'alheios haveres para ser

abastado) é indubitavel que tal circumstancia basta para caracterizar a

alteza a que chegara como prosador aquelle de quem como poeta dissera

Bocage:

O solemne idioma, o tom dos numes,

A voz que longe vai, que longe sobe,

Que sôa além do mundo, além dos tempos.

Esta importante Memoria foi coordenada e concluida no periodo que

discorreu desde 1828 até 1833, em que o Sr. Botelho esteve inteiramente

afastado dos negocios publicos. Precedeu pois a sua composição aos

opusculos politicos do nosso fallecido consocio, por isso a mencionei

primeiramente. Estes opusculos são, a Carta a S. M. I. o Duque de

Bragança, impressa em Londres em 1833, e as Reflexões Politicas

publicadas successivamente no seguinte anno. Escriptos com a singeleza e

sincera liberdade de homem que sentia bater dentro do peito um coração

português, esses opusculos são, litteralmente considerados, uma nova

corôa para o Sr. Botelho pela gravidade do estylo e pelo pensar profundo

que nelles transluz. Versam sobre importantes successos da época em que

foram publicados. Nesse tempo de paixões violentissimas, taes escriptos

pareceram talvez revelar em seu auctor demasiado apego ás coisas do

passado, e ainda hoje assim parecerão a muitos. Todavia, confesso-vos,

Senhores, que não vejo eu ahi senão novos motivos de venerar a memoria

do nosso illustre consocio, e de admirar a sua consummada prudencia, e o

seu amor de patria. É um filho extremoso que treme e desmaia vendo

applicar a seu pai velho e infermo, medicina violenta, que póde salvá-lo

ou arremessá-lo ao tumulo. E quem ousaria condemnar receios e hesitações

de um filho, nesse arriscado momento?

A epoca de 1833 foi a unica epocha revolucionaria porque tem passado

Portugal, neste seculo. Nem antes, nem depois, quadra tal epitheto aos

successos politicos do nosso país; porque só então foi substituida a

vida interina da sociedade por uma nova existencia. As fôrças sociaes

antigas desappareceram para dar logar a novas forças; destruiram-se

classes; crearam-se novos interesses, que substituiram os que se

anniquilaram: os elementos politicos mudaram de situação.--Podia esta

mudança fazer-se lentamente e sem convulsões dolorosas, ou cumpria que a

revolução fosse rapida e energica? Nem saber, nem vontade tenho eu para

o resolver. O Sr. Botelho julgou que o mais conveniente methodo era o

primeiro; disse-o sinceramente, e procurou prová-lo. Eis a substancia do

que nesses opusculos póde parecer menos progressivo a esses cujo

espirito vai após o futuro. Mas, na verdade, nem um só dos grandes

principios de reforma, que então se converteram em factos, foi combatido

pelo Sr. Botelho. A questão que elle tractou era a do tempo, e era a

prudencia quem movia a sua penna. As diligencias para conter o rapido

desabar das velhas instituições e costumes, era dever dos homens, cuja

edade grave e capacidade extraordinaria abonava d'experimentados.

Inquieto e ardente é por natureza o espirito da mocidade neste seculo de

grandes idéas e de grandes transformações. Aos velhos, aos que, melhor

que nós mancebos, conheceram a sociedade que expirou, incumbe

apontar-nos o que ella tinha respeitavel e bom, e o que ha em nossas

opiniões exaggerado ou perigoso, e a nós incumbe escutá-os com respeito.

Esses homens falam-nos com a mão sobre o coração, porque entre elles e o

julgamento de Deus, e da posteridade medeia só a grossura de uma loisa.

Elles nos admoestam encostados á borda da sepultura, e raro será que até

lá a hypocrisia ou a lembrança de mesquinhos proveitos acompanhem os que

viveram sem mancha uma larga vida. Solemnes e venerandas julgo eu as

palavras da velhice, porque a velhice é uma especie de sacerdocio, e

quando o ancião se ergue para soltar um brado de reprovação, se

escutarmos esse brado, elle poderá contribuir mais para o verdadeiro

progresso do que se os ultimos homens da sociedade extincta saudassem

covardemente a victoria das novas idéas; se caminhando para a morte,

imitassem os gladiadores de Roma, nos circenses do triumpho, que nesse

momento supremo saudavam os Cezares vencedores com aquellas horriveis

palavras: «Salve, Cezar! Os que vão morrer te saúdam!» Arriscar-se-ía

com isso a ser despenho o nosso progresso, e ao despenho segue-se ou o

perecer no abysmo, ou um doloroso retrogradar.

Considerados a esta luz, os opusculos politicos do Sr. Botelho não são

mais que o complemento de dilatados trabalhos encaminhados

constantemente ao aperfeiçoamento intellectual dos seus compatricios.

Poeta na mocidade, bem mereceu da arte: historiador e estadista na edade

grave, mais bem mereceu da patria por escriptos proprios d'essa épocha

da vida. Nós que o tractámos, que o vimos no meio de nós, que com

saudade nos lembramos do seu mérito, fazemos-lhe inteira justiça.

Far-lha-ha tambem a posteridade--e mais completa; porque se como homem

da arte e da sciencia tão honrado nome deixou entre nós, que será para o

mundo, que além d'essas razões de lhe venerar as cinzas, tem a rica

herança dos exemplos de virtudes domesticas, d'amor de patria, de

serviços ao estado, emfim de um nobre proceder--como homem, como pai de

familia, e como cidadão? Os vindouros, que não nós, porão o cimo e

remate ao formoso monumento da sua glória.--_Disse_.

*D. Maria Telles*

DRAMA. EM CINCO ACTOS

PARECER

Memorias do conservatorio

1842

*D. Maria Telles*

DRAMA EM CINCO ACTOS

PARECER

A Secção de Litteratura encarregada por vós de dar um parecer que sirva

de texto á discussão dos meritos ou demeritos do drama--_D. Maria

Telles_--que concorreu aos premios, offerecidos por este Conservatorio

para animar os nossos auctores dramaticos; vem apresentar-vos por minha

intervenção as reflexões que lhe occorrem sobre a materia, e que

rectificadas e ampliadas pelas dos outros membros d'esta Academia, devem

produzir a final um juizo prudente e acertado que sirva não só para em

especial determinar o valor litterario d'esta composição, mas para

illustrar os noveis que commettem tão difficil genero de litteratura.

_D. Maria Telles_--é um drama historico--historico ao menos na intenção,

de seu auctor.--A acção e a época escolhida pelo poeta, é bem conhecida.

A historia da formosa irmã da nossa Lucrecia Borgia--de D. Leonor

Telles--é uma d'aquellas biographias que encerram um só facto; mas que

por esse facto são perpetuamente celebres. Não ha ninguem que ignore com

que arte infernal a adultera D. Leonor sabia obter sempre a satisfação

das suas paixões: entre estas houve uma que era pura, o unico pensamento

sancto e suave que mora no coração d'essas hyenas com gesto humano

chamadas Telles ou Borgias, as quaes felizmente raro apparecem no mundo.

Este affecto era o amor materno. Devia ser vivo e profundo, se o

avaliarmos pelos crimes que D. Leonor commetteu para segurar na cabeça

de sua filha D. Beatriz a coroa de D. Fernando, que se cria seu pai e

que talvez o seria. O Infante D. João era um obstaculo que podia

oppor-se aos intentos d'aquella mulher diabolica. Como livrar se

d'elle?--Convertendo-o em um grande criminoso. Foi então que para o

perder lhe soprou na alma as duas paixões mais ferozes do coração

humano--a ambição e o ciume--e D. Maria Telles foi assassinada pelo

marido porque D. Leonor precisava do seu cadaver para calçar a estrada

por onde D. Beatriz devia subir ao throno. É este assassinio o desfeixo

a que nos conduz o drama: os acontecimentos que o prepararam são a tela

onde se desprega o lavor da imaginação do poeta.

Os caracteres introduzidos neste drama são o de D. Maria Telles; o do

Infante D. João: o de D. Lopo Dias de Sousa, filho de D. Maria e de seu

primeiro marido: o de Garcia Affonso, Commendador d'Elvas; o de João

Lourenço da Cunha, marido de D. Leonor Telles; o de D. Fernando I; o de

D. Leonor; o de Vasco, pagem de D. Leonor, e o de Fr. Soeiro, Director

espiritual, segundo parece, de D. Maria Telles. Um carcereiro, Damas,

Cavalleiros, povo, constituem isso a que se chama cheios, comparsas, ou

personagens mudos.

Não se póde na verdade negar ao auctor d'esta composição uma grande

ousadia litteraria em ajuntar no seu quadro tantos vultos difficultosos

de desenhar, e que por ventura seriam rebeldes aos pinceis de grandes

mestres. Vejamos como elle resolveu o seu problema dramatico

relativamente aos caracteres principaes.

D. Maria Telles era uma formosa viuva, de quem o Infante D. João se

enamorou. Os affectos do Principe só acharam correspondencia quando

prometteu casar com ella, e o casamento effectuou-se, porque a paixão do

Infante era ardente, mas d'esse ardor um tanto brutal proprio de uma

Côrte dissoluta como a de D. Fernando, e d'uma épocha em que o amor

demasiadamente metaphysico nos escriptos dos trovadores, era assás

grosseiro na realidade dos costumes. As probabilidades todas são que

similhante consorcio foi do lado de D. Maria Telles um calculo

d'ambição, e do lado do Infante um meio de satisfazer seus desejos. Isto

é o que resulta da historia. Mas o auctor podia substituir este

argumento historico pelo de um amor talvez mais lyrico, mas por ventura

não mais dramatico. O que não devia era dar a esse amor a fórma e

expressão que lhe deu. Expliquemo-nos.

D. Maria Telles não era uma donzella na primavera da vida: era uma dona

entrada já naquella edade a que se póde chamar o outono da formosura. O

auctor nesta parte acceitou o argumento da historia, introduzindo no seu

drama o Mestre de Christo, mancebo de dezoito ou vinte annos, filho de

D. Maria Telles. Forçosamente esta passara por isso o viço da mocidade.

O seu amor portanto devia ser intenso, mas grave: revelar-se

profundamente nos factos e muitissimo pouco em discursos. Devia ser um

amor que não tarda a transformar-se em amizade; que, por assim dizer,

começa a ter pudor do si mesmo, porque as illusões da juventude teem

quasi todas passado. Difficil é na verdade o pintar esse affecto severo

e intimo; mas se já deixou de ser um merito vencer difficuldades

inuteis, ainda é restricta obrigação do poeta o conhecer as phases do

coração humano, e não as desmentir jámais porque a natureza é immutavel.

O auctor sentiu ao que parece confusamente a verdade d'esta observação;

quis dar gravidade ao caracter de D. Maria Telles: não lhe deu senão

tristeza. Tristeza tanto quando se vai desposar com o Infante como

depois que elle começa a afastar-se d'ella, e a dar-lhe não equivocos

signaes de desamor. Porque está ella triste até á morte, segundo a

expressão de Job, quando se approxima aos altares? É por certos

presagios; é por sonhos; é por certo dizer do coração; é por vergonha

que tem de seu filho. Afora a ultima, nenhuma d'estas razões é

verdadeira, dramaticamente, e a tristeza fica inexplicavel, porque o

pudor não é melancolia. Sereno devia ser o seu contentamento; mas devia

ser contentamento. Não era nessa afflicção e lucto infundados que podia

revellar-se a gravidade do caracter de D. Maria Telles, quando por outra

parte todas as palavras d'esta mulher affectuosa, como o auctor a quis

pintar, só condizem com o amor dos vinte annos que se dilata impetuoso

até aos extremos horizontes da vida. Senão nos enganamos o caracter de

D. Maria Telles está falsificado em relação á historia, e o que mais é

em relação á natureza.

O caracter do Infante apenas se póde dizer que existe: no primeiro

apparece para dizer a D. Maria Telles que muito a ama. Das suas palavras

não resulta individualidade; repete o que em similhante materia se diz

desde o principio do mundo. No terceiro acto onde torna a apparecer, é

ameaçado e affrontado por João Lourenço da Cunha, e fica impassivel,

salvo quando este, provavelmente aborrecido de tanta tranquillidade,

volta as injurias e feros contra D. Leonor que está tambem presente. É

então que o Infante arranca da espada; mas el-rei acode: um dialogo se

trava entre este e João Lourenço. E o Infante? Não sabemos mais d'elle,

senão no V acto em que já quasi persuadido de que sua mulher é infiel,

encontra as provas suppostas d'essa infidelidade. Desde este momento não

é mais possivel o desenhar D. João; porque a furiosa cholera que o

domina o torna necessariamente similhante a qualquer outro homem em

situação analoga. A honra offendida pede sangue; é um pensamento

doloroso moralmente necessario á situação que depois d'isso actua no

drama, não a individualidade d'um homem. Onde está portanto o caracter

do infante?

E todavia esse caracter lá tinha os seus principaes lineamentos traçados

nos capitulos 98.^o e 99.^o da chronica de D. Fernando pelo grande

poeta-chronista Fernão Lopes. O genio aventuroso, folgazão e ousado, do

filho de D. Ignez de Castro, estudados nesses traços do grande mestre,

dariam facilmente a individualidade do personagem ao auctor de--_D.

Maria Telles_--e por certo que essa individualidade variando a monotonia

dos caracteres produziria maior contraste, e por consequencia maior

effeito no terrivel desfeixo do drama.

A monotonia dos caracteres dissemos nós. A monotonia na invenção é na

verdade o principal defeito d'esta composição. Ha ahi quatro ou cinco

vingativos, quatro ou cinco vinganças empastadas por toda ella. Vinga-se

o Infante de sua mulher, de quem tambem se vinga o Commendador d'Elvas,

cujo amor ella desprezara. João Lourenço quer vingar-se de D. Leonor: D.

Leonor de quasi toda a gente. D'esta identidade de situações moraes

forçosamente devia resultar esse capital defeito.

Os dois caracteres que nos parecem individuados são o de D. Leonor e o

do D. Lopo Dias. D. Leonor é a mulher successivamente hypocrita e

insolente: vil e orgulhosa; pobre de crenças moraes, rica de paixões

violentas. É a D. Leonor da historia, salvo em uma ou outra scena; é o

vulto principal do drama. D. Lopo é mancebo, poeta e triste como sua

mãi, mas sobram-lhe para isso razões. O mesquinho está phtysico, pelo

que se collige das suas palavras. Molestia é esta que tem levado muito

poeta imberbe á sepultura. Feliz ainda no meio de seus males, a

afflicção pulmonar que o consome é chronica e por isso lenta, por tal

arte que esperando elle morrer já no primeiro acto, ainda no quinto,

(cujos successos são posteriores mais d'um anno, aos do primeiro) D.

Lopo vive, e ao caír o panno fica de saude, não perfeita; mas da saude

que é compativel com a existencia de tuberculos pulmonares. Apesar de

que a phtysica não pareça coisa excessivamente dramatica e possa ter

algum perigo de ridiculo no theatro, é certo que essa vida cuja

distancia da morte a victima póde quasi exactamente medir: esse caminhar

para o sepulchro por uma estrada onde não ha de retroceder, e na qual

não passa hora ou momento em que a campa senão contemple erguida e

immovel no horizonte: esse oratorio peior que o do sentenciado, porque

dura meses emquanto este dura apenas tres dias; tudo isso é tremendo e

solemne, e o verdadeiro poeta poderá achar nas phases da longa e cruel

agonia do phtysico situações dolorosas e terribilissimas. Alexandre

Dumas as achou num dos seus melhores dramas. Seguiu-o de longe o nosso

auctor, mas nem por isso deixa este caracter de ser um dos mais bem

sustentados em--_D. Maria Telles_.--Os affectos de Lopo Dias são

generosos e puros: teem certa brandura de resignação, certa saudade de

quem pela esperança vive já num mundo melhor, mas que ainda pela

affeição filial está preso ás tristezas da terra. Este personagem é na

verdade possivel e poetico, absolutamente falando. O seu unico defeito é

o commum a todos; é não representar a épocha a que o poeta que o creou

quis que elle pertencesse.

Os outros caracteres do drama ou são nullos, ou reflexos mais ou menos

pallidos dos que ficam avaliados. Os sentimentos de vingança que

subjugam D. João Lourenço da Cunha e o Commendador d'Elvas, tornam

confusos os traços de um com os do outro, apesar das diligencias que o

auctor fez para lhes variar as situações; confusão esta que se augmenta

com a analogia que ha entre ambos e os de D. Leonor e do Infante. Fr.

Soeiro é perfeitamente nullo; e Vasco, seide de D. Leonor, é um caracter

que não pode fixar-se por demasiadamente transitorio, posto que

fortemente concebido. Se tivesse passado de um esboço seria talvez o

mais dramatico de todos elles. Isabel emfim é a eterna confidente do

theatro classico, cuja utilidade dramatica foi, é e será sempre passiva;

substituição impertinente do monologo; especie de titere que se deixa

mover á mercê do auctor, e que por mais que fale, se esforça ou chore,

por via de regra, serve tanto para o andamento da acção como as polés em

que se movem os bastidores.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 09 · 第 10 / 13 段