dramatica um dos antigos proverbios populares, especie de formulas com
que o vulgo exprime muitas vezes idéas complexas. É este o que se
applica a qualquer casa mal governada e arruinada por toda a casta de
desvarios: _É a casa de Gonsalo_:--eis a expressão proverbial; eis o
pensamento que presidiu á composição do drama. Vejamos como o auctor o
tractou.
Um viuvo e uma viuva são casados em segundas nupcias: ella tem uma
filha. D. Farnacia é o nome da mulher: elle chama-se Gonsalo--pobre
homem que se deixa governar inteiramente por D. Farnacia prezada de
fidalga, caprichosa, e gastadora. Gonsalo instigado por D. Farnacia pôs
na rua seu filho Bernardo, moço tão sisudo e composto, quanto Leonor,
filha de D. Farnacia, é tola, namoradeira e desassisada.
A familia compõe-se, além dos tres, Gonsalo, D. Farnacia e Leonor, de um
irmão e de uma sobrinha de D. Farnacia, chamados Bonifacio e D.
Dorothea; aquelle é um peralvilho, frequentador de botequins, e que não
pensa senão em acceitar cartas d'amores; esta é uma presumida de sábia,
que em todos os seus discursos mistura palavras e phrazes francesas, e
que só lê novellas, citando a torto e a direito quantos destemperos tem
lido. Um creado e uma creada desobedientes, ladrões, e desavergonhados
completam aquella ninhada domestica.
Gonsalo tem um amigo, Florencio, a quem deve obrigações, e dinheiro,
homem prudente e sério, que pretende tirá-lo da vida de abjecção em que
vive, aconselhando-o sempre para que tome o logar de verdadeiro dono da
casa, e seguindo-se d'isto o ser cordealmente odiado por D. Farnacia.
Dois alindados frequentam esta casa, ou antes torre de Babel--Constando
e Carlos: o primeiro é o namorado de Leonor.
É com estas personagens, que o auctor conduz a comedia a seu fim, e a
Commissão seria demasiado prolixa se quisesse historiá-la por todos os
cinco actos em que elle a dividiu. Bastará dizer que á fôrça de gastos
loucos, Gonsalo se acha finalmente no maior apuro, do qual o livra o
expulso e maltractado Bernardo, obtendo uma provisão para administrar a
casa paterna, ajudado por Florencio, que sendo o principal credor exige
para seu filho a mão de Leonor, e faz casar Bernardo com Dorothea, a
qual tem um avultado dote, a que por isso era requestada por Carlos,
amigo de Constancio, e que juntamente com elle frequentava a casa de D.
Farnacia.
Á Commissão parece que o drama é em geral bem conduzido, o dialogo
excellentemente travado, a successão das scenas logica e natural, e a
linguagem accommodada ao assumpto, e com poucas excepções, limpa e
corrente. Estes são os meritos que julgou se davam no drama, e pelos
quaes seu auctor é digno de ser louvado.
Infelizmente partes e circumstancias são estas que não bastam.
Obte-las-ha para as suas composições todo aquelle que escrever
fortalecido de estudo: mas só o genio dá vida ás obras d'arte. As fórmas
exteriores póde-as traçar mão amestrada; vida só a infunde o alento do
poeta, que se assimelha ao sôpro vivificante de Deus.
Os caracteres, as situações, e os pensamentos das personagens de
qualquer comedia abrangem forçosamente toda a graça comica que nella se
póde dar; e nesta não ha nem um caracter, nem uma situação, nem um
pensamento verdadeiramente comico. D'isto ficarão persuadidos aquelles
que se derem ao trabalho de ler o drama; a Commissão está prompta a
mostrá-lo quando haja quem o conteste.
Do que fica ponderado se conclue naturalmente que este drama, falho dos
meios de attrahir a attenção dos espectadores, correrá grande risco em
ser posto ás provas públicas, e portanto a Commissão louvando o que ha
bom nelle, isto é, o que propriamente se póde chamar a sua parte
material, deixa ao Conservatorio o resolver o que mais justo e acertado
fôr quanto ao destino que se lhe deve dar.
Conservatorio Dramatico, 17 de Julho de 1840.--_A. Herculano_, Relator.
*Elogio historico*
de
SEBASTIÃO XAVIER BOTELHO
Memorias do Conservatorio
1842
*Elogio Historico*
de
SEBASTIÃO XAVIER BOTELHO
Senhores:
Honrado com o encargo de revocar hoje a memoria de um nosso illustre
consocio que a morte nos roubou, não posso deixar de sinceramente
lamentar que este Conservatorio quisesse que eu, intendimento humilde,
va bater á porta do sepulchro para através d'elle citar uma nobre
intelligencia, que repousa no seio de Deus, e dizer-lhe--Vem ouvir o
processo da tua gloria, o julgamento sobre o modo porque desempenhaste a
tua missão intellectual na terra.
Porque, Senhores, ou muito me engano, ou é esse o principal, diria quasi
o unico mister que nos incumbe, aos que fomos escolhidos para falar
neste dia e neste logar dos nossos fallecidos consocios. Em nome das
letras, d'essa revelação formosa e sancta do ingenho humano, nos
ajuntámos neste recinto: por ellas existimos como corporação: ellas nos
fizeram irmãos e eguaes. Pelas letras as differenças voluntarias e
incertas do mundo--as riquezas, o poder, os nomes d'avós, se convertem
em palavras sem sentido. A democracia absoluta, sonho impossivel,
talvez, de realizar na sociedade civil, torna-se entre nós uma condição
d'existencia. Nas associações litterarias a vida é de certo modo
immaterial, e as nossas distincções são unicamente as da superioridade
do ingenho. Mas a ultima instancia onde taes preferencias se julgam é o
tribunal da posteridade. Só a morte abre de par em par as portas d'este,
e é ahi que definitivamente se resolve se o nome do que passou será
lançado na herança dos seculos, na memoria perenne dos homens, ou se tal
nome deve esquecer como esquece o som derradeiro da loisa caindo sobre a
borda do sepulchro, onde foi repousar o que não pôde ou não soube
conquistar a immortalidade.
É por este caracter democratico, de todas as corporações como a nossa,
porque alheias inteiramente ás condições da sociedade civil, que me
parece não ser nos archivos d'esse pobre mundo das vaidades, a que
chamam realidade, onde hajamos de ir buscar documentos e testemunhos,
que provarão muito para outro genero de renome e gloria, mas que de
nenhum modo vem a ponto para as canonizações litterarias, no momento
solemne em que devemos preparar o processo pelo qual a posteridade tem
de julgar intelligencias ja livres d'este sudario da vida. Antepassados,
haveres, grandeza, cargos, que nos importam? Outra é a nossa missão:
temos de perguntar ao que traçou algumas palavras no livro eterno e
immenso da arte e sciencia humana--Que foi o que fizeste?--Que era o que
podias fazer? Isto é o que nos pertence, o resto á sociedade.
O nosso fallecido consocio, que passando na terra escreveu nesse livro
uma das suas formosas paginas, foi o sr. Sebastião Xavier Botelho. Para
se poder avaliar o merito d'esta escriptura de que preciso eu?--De
lê-la.
Difficultosa é similhante leitura; porque as palavras do homem de
ingenho são concisas e profundas: soletram-nas a custo os que não
possuem esse dom de cima; e, sem humildade hypocrita, eu sei que
pertenço a estes.
A culpa do máu desempenho será, pois, vossa, Senhores, que medistes
erradamente as minhas forças pelos meus e pelos vossos desejos.
A historia intellectual e intima do sr. Botelho divide-se em dois
grandes periodos: corre o primeiro desde a epoca em que concluiu os seus
estudos de jurisprudencia na Universidade de Coimbra até áquella em que
importantes e laboriosos cargos, que lhe foram confiados, o
constrangeram a dedicar-se inteiramente ao cumprimento de suas
obrigações, e a deixar os ocios litterarios da juventude: o segundo
abrange o tempo que discorreu desde esta epocha até á da sua morte. O
primeiro periodo foi para elle o do tracto e cultura das boas lettras: o
segundo o do estudo dos homens e das coisas, da sciencia, da historia e
do governo. No primeiro, o Sr. Botelho foi poeta: foi o homem do ideal:
no segundo foi historiador, economista, e politico; foi o homem do mundo
real. É nestes dois periodos que eu considerarei as obras da sua
intelligencia, e procurarei responder á pergunta--Que serviços fez o sr.
Botelho ao progresso do espirito humano?
As primeiras composições poeticas do nosso illustre consocio foram
escriptas nos fins do anterior ou nos comêços do presente seculo:
d'estas nenhuma viu a luz publica: as que se lhes seguiram, pertencendo
pela maior parte á litteratura dramatica, tiveram o seu primeiro modo de
publicação--o da scena: mas o unico penhor de duradoiras recordações e o
unico fiador da perpetuidade da gloria, essa fonte de toda a sciencia e
civilização modernas--a imprensa--faltou-lhes como ainda ha dez annos
faltava commumente ás obras dos nossos bons ingenhos que nasciam e
morriam sem a conhecerem; porque dois anjos máus a guardavam, os quaes
tinham por nome--censura e ignorancia.
Por esses archivos de theatros jazem sepultados os dramas do sr.
Botelho, dos quaes apenas é imperfeitissimamente conhecida a tragedia
_Ignez de Castro_, e um pouco melhor a _Zulmira_, melodrama de que
restam varias copias.
_Zulmira_ é, como todos os melodramas, uma composição hybrida,
monstruosa, e falsa á luz dramatica; mas considerada como um hymno aos
nobres affectos do coração humano ella nos revela quanto era poetica e
formosa a alma do Sr. Botelho. Poucos versos haverá da epoca em que foi
escripta, a não serem os do melhor metrificador português--Bocage--nos
quaes se encontre tanta suavidade, melodia e arte e ao mesmo tempo tão
generosas idéas, tão affectuoso sentir, expresso muitas vezes com
admiravel precizão. Não é um drama a _Zulmira_!--E que importa? _Esther_
é uma elegia; _Athalia_ uma epopea; mas elegia e epopéa sublimes de um
poeta divino!
Mais bem salvas para a historia das letras foram as numerosas versões
dramaticas do sr. Botelho--amparavam-nas, seus originaes, largamente
conhecidos no mundo. Alem de muitas operas de Metastasio e de quatro
tragedias de Racine, _Berenice_, _Mitridates_, _Phedra e Bajacéto_, elle
transportou para a scena portuguesa quasi todos os mais afamados dramas
de Voltaire, como _Mahomet_, _Zaíra_, _Bruto_, _Marianna_, _Édipo e
Semiramis_, aos quaes accresceram muitos outros de menos celebres
auctores dramaticos.
Já vedes, Senhores, quantas e quão largas vigilias o mancebo poeta
consagrou ao theatro; as suas poesias volantes sabe-se que foram muitas,
mas do naufragio do tempo apenas salvou a imprensa a epistola a Bocage,
a qual mereceu os extremados louvores que este grande poeta dá para me
servir da linguagem arcadica d'aquelles tempos, ao vate Salicio. Vate
Salicio era o Sr. Botelho, que ainda então os poetas, por obrigação de
seu officio, se desbaptizavam do nome christão, íam em espirito
pastorear á velha Grecia, e voltavam de lá não poetas, mas pastores e
vates.
Procurei, Senhores, lembrar-vos quão extensos foram os trabalhos
poeticos do Sr. Botelho. Resta-me, todavia, mais difficultosa tarefa, o
recordar-vos qual foi a significação litteraria d'elles--o averiguar
como e quanto o nosso fallecido consocio contribuiu para os progressos
da arte nesta tão poetica terra de Portugal.
Poeta elmanista, e um dos primeiros e mais distinctos sectarios d'esta
eschola, que rainha da poesia, e dispensadora de gloria regeu sem
partilha de imperio os dominios da arte, é no julgamento d'essa eschola
brilhante que está o seu julgamento. Os juizos individuaes em historia
litteraria são tão falsos como em historia social: o individuo que vai á
frente da sua epoca, não é mais que a idéa predominante d'ella encarnada
no homem. Julguemos a idéa, e teremos julgado o symbolo humano que a
representa. Se aquelle que passou não a comprehendeu, não o chamemos
tambem ao tribunal da posteridade, e deixemo-lo repousar na paz de seu
esquecido sepulchro.
Mas o pensamento progressivo que agitou uma geração ou um seculo não vem
só: vem com elle os pensamentos dominadores das gerações ou dos seculos
antecedentes que o produziram, e vem os que elle gerou. Sem isso o
processo será incompleto: errada provavelmente a sentença. Expressão de
uma serie contínua e eterna de idéas, grandes porque veem de Deus, o
progredir humano revela o elemento intellectual de cada uma das nossas
transformações successivas em todas as formulas da vida. Esse elemento,
essa idéa prolifica, busquemo-la em todos os aspectos da civilização,
que em todos a havemos de encontrar. Nas instituições, e nos costumes,
na sciencia, e na arte, lá está escripta--escripta pela mão do anjo do
Senhor, que deixa cair sobre a terra uma lagrima de dó, quando a mão
d'algum louco crê que póde apagá-la, ou a voz do insensato se ergue para
a desmentir, e nella desmentir o brado do genero humano.
É na arte, á qual foi completamente dedicado o primeiro periodo da vida
litteraria do Sr. Sebastião Xavier Botelho, que eu buscarei
principalmente o pensamento ou facto intellectual que caracteriza e
explica a sua epoca e a sua eschola, ligando esse facto com os que o
precederam e com os que d'elle vieram. Oxalá que para animar-me em
tractar um objecto acima de minhas forças me não desampare a vossa
indulgencia!
Vós sabeis, Senhores, que durante a primeira metade do decimo sexto
seculo uma grande revolução se operou e completou no Meio-Dia da Europa.
As sociedades feudaes e municipaes, estas, no seu crescer, aquellas na
sua declinação, deram o ultimo arranco aos pés da sociedade monarchica.
Toda a vida anterior das nações do occidente desabou após ellas. Entre
nós mudou tudo: socialismo, sciencia, arte, caracter religioso. Ninguem
curou d'isso. A robusta e intelligente monarchia d'esse tempo atirou á
espantosa actividade de nossos avós tres partes do mundo para esmagar:
cevou-a em poderío, e saciou-a de gloria. Compuseram-se então todos os
aspectos da sociedade a exemplo da unidade monarchica: o senhorio feudal
tornou-se dependencia completa: o municipio delegação: os parlamentos
letra morta. A chronica, essa fórma tão viva, tão dramatica, tão
nacional da historia, cedeu o campo aos Thucydedes e Livios modernos: o
platonismo christão e espiritual, fugiu, combatendo como os Parthos,
ante o aristotelismo argumentador e materialista: as artes plasticas
seguiram de longe os destinos de suas irmãs d'Italia, onde as
illuminuras aereas e incorrectas dos missaes e horas, desappareciam
deante do pincel terreno e correcto de Rafael e as cathedraes
mysteriosas e symbolicas se desmoronavam ao altear do templo de S.
Pedro, prostituido á luz por Miguel Angelo: todas as artes se
confessaram vencidas, na sua imperfeição e rudeza sublimes, pelos
monumentos da arte antiga. O proprio christianismo se fez intolerante e
sanguinario, como o polytheismo romano, o perseguidor dos martyres--e a
inquisição restaurou o pretório. Finalmente a poesia nacional,
balbuciante ainda, retrahiu-se ante o fulgor da litteratura latina. As
instituições de Roma, a Roma dos imperadores, annullaram as nossas
instituições primitivas, e a poesia romana mudou o caracter da poesia
moderna. A sociedade reproduzia o pensamento que guiava o seculo. Deixou
de ser christã e nacional, para ser pagã e peregrina. Roma que, viva e
possante, não alcançara subjugar inteiramente este cantinho da Europa,
cadaver já, profanado pelos pés de muitas raças barbaras, conquistou-nos
com o esplendor da sua civilização, que resurgira triumphante. Netos dos
celtas, dos godos, e dos arabes, esquecemo-nos de todas as tradições
d'avós para pedirmos ás cinzas de um imperio, morto e estranho, até o
genio da propria lingua!
Mas essa civilização violenta, enxertada em arvore de diverso genero,
devia tarde ou cedo ceder o logar a outra mais homogenea com as
tradições e costumes, com as crenças e habitos dos povos modernos. O
mundo antigo fôra condemnado por Deus: a sua condemnação era o
evangelho. O ingenho humano pôde vestir-lhe o trajo dos vivos; mas por
baixo d'este estava-lhe sobre o esqueleto mirrado o sudario dos mortos.
Mais tarde ou mais cedo, repito, elle devia voltar á sua jazida.
E a reacção não tardou os annos de tres gerações. O seiscentismo foi uma
reacção.
Ha ahi acaso quem duvide de que elle era uma revolta, senão contra a
essencia da arte romana, de certo contra as fórmas exteriores d'essa
arte? Bem sabeis, Senhores, que não é difficil prová-lo, e que entre a
poesia anterior ao renascimento e a dos seiscentistas ha alguns
caracteres analogos, e muitas tendencias similhantes. Não direi quaes,
porque melhor o conheceis que eu--e porque preciso de approximar-me
rapidamente á epocha em que viveu para honra das letras o Sr. Sebastião
Xavier Botelho.
Qual foi a origem do seiscentismo? A historia litteraria diz-nos que
foram Marino, Gongora, e não sei quem mais. É uma d'aquellas falsidades
historicas, que nascem do curto pensar. Nunca um ou alguns homens
puderam assim mudar nem a minima das fórmulas sociaes, em cujo numero a
arte de certo não é a ultima. São as gerações arrastadas e agitadas por
idéas que nasceram e se derramaram insensivelmente, que fazem
similhantes transformações. Esses cabeças d'eschola são o verbo da idéa,
são os interpretes do genero humano--e mais nada.
O seiscentismo foi uma resolução que falhou, uma tentativa de
restauração da nacionalidade em litteratura, que não sendo acompanhada
pela restauração social completa do modo d'existir português anterior ás
influencias romanas, ficou aleijada e rachytica, e substituiu a uma arte
antinacional, mas judiciosa e brilhante, outra falsa e além d'isso
ridicula.
A celebre Arcadia, e a influencia que esta corporação teve nas letras
foi uma nova reacção litteraria, e o dogmatismo em que se restauraram as
doutrinas romanas, posto que reflexas já d'Italia e de França, foi ainda
mais intolerante e absoluto que na epocha do renascimento. O
seiscentismo acabou ás mãos dos arcades, que restabeleciam o predominio
da arte antiga e revocavam o pensar e o estylo dos poetas do tempo de D.
João III e D. Sebastião, ao passo que o Marquez de Pombal procurava
restaurar a esquecida robustez da monarchia com a austeridade dos seus
principios administrativos, e com a acção vigorosa do seu governo de
ferro.
A monarchia do Marquez de Pombal era anachronica em politica: a
restauração da arte romana era anachronica em litteratura. Ambas deviam
necessariamente passar--e passar rapidas. Assim aconteceu. Além do
anachronismo havia em ambas ainda outro elemento de dissolução. A
fórmula politica nunca fôra tão absolutamente monarchica: a fórmula
litteraria nunca fôra tão mesquinhamente romana. Nunca o motu-proprio
fôra tão cabal explicação de todas as leis: nunca os nomes e exemplos de
Aristoteles e de Quintiliano, de Horacio e de Virgilio, substituiram tão
completamente o raciocinio na critica. Mas o Marquez de Pombal começava
por discutir com a aristocracia e com a theocracia, e a Arcadia com o
seiscentismo; os homens do futuro tinham portanto tambem o direito de
discutir com elles. É o que tem feito e fará o nosso seculo.
A Arcadia derrubara a poesia seiscentista: cumprira com sua missão.
Depois dogmatizou e morreu. Foi d'inanição. Esta sociedade, tão activa,
tão belligerante, tão ruidosa nos seus começos--expirou, e nem sequer o
mundo litterario deu tino d'isso. Era que a Arcadia nunca propriamente
vivera, porque nunca representara uma idéa progressiva.
Foi depois d'ella que floreceu Bocage e a sua eschola, um de cujos
luminares era o Sr. Sebastião Xavier Botelho. Resta-me trazer á vossa
memoria o logar d'esse poeta e d'essa eschola nos annaes da arte.
Bocage vinha depois de duas restaurações classicas, ou romanas;
assistira ao derradeiro clarão da segunda, e fora educado por ella. Os
seus primeiros poemas são moldados pelos dos arcades, mas já nesses
poemas ha mais inspiração, porque Bocage nascera e não se fizera poeta,
com se haviam feito aquelles, se exceptuarmos Garção. As variedades que
gradualmente appareceram no seu estylo e pensar foram mui pouco
distinctas, salvo na metrificação em que escureceu completamente os
arcades, e na tendencia, visivel nas suas melhores composições, para
substituir a mythologia pagã pela allegoria, o que deveu talvez á
influencia dos poemas descriptivos franceses, a que o materialismo e a
incredulidade do seculo XVIII tinham reduzido a poesia d'aquella nação.
Mas é, Senhores, sob outro aspecto que importa considerar este homem
extraordinario para avaliar a missão da sua eschola, e saber qual
transformação o apparecimento d'ella veio produzir na arte.
Na litteratura dos arcades, como nas litteraturas de epocha de D. João
III e da épocha d'Augusto; a poesia tinha sido essencialmente cortesã,
aristocratica, altiva. Os pastores da Arcadia nunca assistiram aos mais
sublimes espectaculos do universo, nunca sentiram no coração essas
paixões violentas que devoram as existencias. Que sabiam elles dos
campos de batalha, das sedições, dos grandes crimes e das grandes
virtudes? Elles ignoravam o que são lagrimas de desterro, o que são
contentamentos de tornar a ter patria. Odios, fanatismos politicos,
ancia de gloria popular, ambições, miserias humanas, não existiam para
elles. Os mares e os seus terrores, as solidões profundas das serranias,
o ruido das torrentes, o sibilar dos ventos por gandras bravias, não
imaginavam o que fosse. As procellas emfim da natureza, e as mais
terriveis ainda do espirito em que parece deleitar-se o poeta d'este
seculo grave e triste, porque o converteram á melancholia e ao cogitar
profundo os seus destinos solemnes--tudo isso era alheio á suave
existencia dos bons arcades. Sacerdotes, magistrados, e servidores do
estado, o seu monte Menalo era uma sala adornada de sedas e razes; a sua
lyra ou rabil uma penna muitas vezes dourada; as suas inspirações uma
vasta erudição. Assim os affectos e imagens dos seus poemas vacillavam
entre a frieza e trivialidade, e a exaggeração e mentira--porque para
elles as paixões e a natureza estavam nos livros. Os livros foram o seu
universo.
Bocage porém não era arcade. Era um homem do povo que alimentava no
espirito todas as paixões violentas, e muitas vezes freneticas e
desregradas do vulgo; e como o vulgo, ajunctava a feios vicios nobres e
generosas virtudes. Era o trovador que improvisava os seus mais
admiraveis versos no meio das multidões, á luz do sol ou dos astros da
noite, nas orgias das cidades, nas festas campestres--em todos os
logares, a todas as horas. Depois de Camões, Bocage foi o nosso primeiro
poeta popular; como Camões, foi pobre, foi criminoso, e foi malfadado;
adormeceu, como elle, muitas vezes no balouçar das vagas do oceano, e
como elle orvalhou de lagrimas o pão do desterro, e veio morrer na
patria sobre a enxerga da miseria. Similhante ao infermo do Evangelho
passou pela terra abandonado, pobre, nú; mas como os antigos romeiros
trovadores, alegrou ou commoveu os animos das classes não privilegiadas,
ás quaes tres seculos tinham feito esquecer que a poesia era tambem e
principalmente para ellas.
Bocage é o typo mais perfeito da sua eschola, e de feito devia sê-lo.
Ella popularizou a arte, porque poetou principalmente para o povo, e
emballou ao mesmo tempo com as melodias da linguagem, com o sonoro do
metro, essas almas rudes mais attentas á harmonia da fórma que ao
poetico do pensamento.
Feita assim a poesia plebea, duas consequencias deviam seguir-se d'esse
passo gigante--a liberdade litteraria e o apparecimento do theatro. A
poesia popular regeita como o povo, quando começa a pensar e deixa de
querer, todas as leis que se fundam em auctoridade ou tradição e não em
conveniencias; e o drama é a fórma mais completa da arte quando esta se
faz burguesa. Não aconteceu todavia assim: a razão d'isso é obvia.