abusões nos animos das pessoas sensatas, e os leiticeiros e bruxas, e
adivinhões viram-se obrigados a refugiar-se entre a plebe ignorante das
cidades, e entre a gente boa e simples dos campos. É ahi onde, ha mais
de cincoenta annos, apenas restam usanças que revelam a existencia das
chamadas artes diabolicas.
O conflicto entre o progresso intellectual e as antigas superstições
acarretou por vezes desgostos e perseguições áquelles que trabalhavam em
allumiar as nações; mas tambem deu aso a acontecimentos mui graciosos,
dos quaes re'ataremos aqui um, succedido em Evora no reinado de D. José.
Um frade de certa ordem tinha sido nomeado mestre de philosophia
naquella cidade. Querendo dar uma vez a seus discipulos idéa da
electricidade, pôde obter emprestada uma machina electrica, com a qual
fez algumas experiencias diante de varios padres graves do seu convento,
que ficaram pasmados de coisa tão extraordinaria, e suppuseram lá
comsigo andar nisto obra de feitiçaria. Esperaram, portanto, um dia em
que o mestre de philosophia saísse fóra do convento, e mandando o
prelado tocar á communidade, revestido, e de cruz alçada, seguido dos
demais frades, foi ao aposento, onde estava a machina para a exorcismar.
Começados os exorcismes tanta agua benta lhe deitaram que dentro em
pouco ficou completamente estragada. Quando d'ahi a dias o professor
quis trabalhar com ella, nunca o pôde alcançar; e os padres graves,
rindo uns com os outros, escarneciam do pobre philosopho, a quem, com
esconjuros, tinham inutilizado aquelle diabolico feitiço.
Concluiremos este artigo dando uma noticia do que temos alcançado acerca
das feitiçarias, bruxas, e lubis-homens, na opinião do vulgo, cuja
imaginação ainda dá existencia a estes sonhos ridiculos conservados nas
tradições populares.
O povo faz distincção entre feiticeiras, bruxas, e lubis-homens. São as
feiticeiras e bruxas, por via de regra, mulheres velhas, pobres, feias,
immundas, e de genio melancholico, ou colerico. Estes motivos bastam
para o vulgo as aborrecer, e para justificar a seus olhos qualquer
accusação que lhes façam de feitiçaria ou bruxedo. O mister das
feiticeiras é fazer maleficios a todo o genero de pessoas de qualquer
idade que sejam: estas acompanham ordinariamente o diabo em todas as
suas funcções neste mundo. As bruxas teem poder limitado, estando apenas
auctorizadas para chupar de noite o sangue ou a substancia das creanças,
matando-as pouco a pouco d'inanição, ou de repente, se chupam
desarrazoadamente.
Os lubis-homens são aquelles que teem o _fado_ ou _sina_, de se despirem
de noite no meio de qualquer caminho, principalmente encruzilhada, darem
cinco voltas, espoujando-se no chão em logar onde se esponjasse algum
animal, e em virtude d'isso transformarem-se na figura do animal
_pre-espoujado_. Esta pobre gente não faz mal a ninguem, e só anda
cumprindo a sua _sina_, no que teem uma cenreira mui galante, porque não
passam por caminho ou rua, onde haja luxes, senão dando grandes assopros
e assobios para que lh'as apaguem, de modo que seria a coisa mais facil
d'este mundo apanhar em flagrante um lubis-homem, accendendo luzes por
todos os lados por onde elle pudesse saír do sitio em que fosse
presentido. É verdade que nenhum dos que conta similhantes historias fez
a experiencia.
A instituição de qualquer feiticeira ou bruxa é pela seguinte maneira. A
adepta é levada alta noite pelas feiticeïras professas a um logar ermo,
onde o diabo apparece transformado em bode negro. Começa a ceremonia,
como é de razão, pela matricula, e a noviça escreve o termo da vencia da
sua alma com o proprio sangue: então o diabo lhe entrega um novello e um
pandeirinho que são os symbolos da nova dignidade que recebe, e pelo que
fica habil para fazer os seus maleficios, e para se transformar no que
quiser, quer sejam corpos animados, quer inanimados. Depois d'isto o
demonio _bodificado_ se assenta no seu throno cercado de candeinhas, e
por baixo d'este throno passa a noviça tres vezes; acabado o que, a nova
feiticeira dá um beijo na proximidade da cauda ao transformado rei do
inferno.
Feita esta ceremonia as circumstantes (que são todas as feiticeiras da
provincia, chamadas alli para assistir áquelle auto) tocam os seus
pandeirinhos, e com dansas mysteriosas levam a nova socia a casa, onde
lhe mostram os respectivos novellos de fiado, que são maiores ou
menores, conforme a importancia ou estimação em que as tem o diabo.
Estes novellos diabolicos em que principalmente reside a força e poderio
das feiticeiras são compostos de uma especie de linha fiada _pela mão do
diabo_, e cuja materia prima é o pello do bode, em que o cão tinhoso
costuma transformar-se. Tambem as bruxas teem por apanagio uma maçaroca
preta; mas a demonologia popular não declara de que maneira, ou de que
materia seja feita, bem como as dos lubis-homens, que tambem possuem
este adminiculo, do qual apenas sabemos uma circumstancia, que é o ser
de fio pardo.
Quando alguma d'estas importantes personagens, que tem pacto, ou fado,
está para morrer, chama a pessoa que mais estima, e a esta entrega o
fatal novello. Se lh'o não aceitam, não pode expirar, ainda que esteja
em agonias mortaes; mas apenas essa, ou alguma das circumstantes lh'o
recebe, a pobre creatura entrega logo descansadamente a sua alma a
satanaz. Parece que a posse de tal herança dá um direito na secretaria
d'estado infernal, para o herdeiro ser preterido no prehenchimento do
logar que ficou vago.
Tem a feiticeira obrigação, cada vez que quer infeitiçar alguem, de
invocar primeiramente o diabo, e de lhe pedir licença para exercer seu
officio, o que prova que não só na terra ha maus systemas de legislação.
A formula usada em taes casos, segundo alguns gravissimos auctores, é:
_Tenato, ferrata, andato, passe por baixo_, o que se repete tres vezes.
Acode o démo ao reclamo, e a professora de feitiços póde então ter a
certeza de tirar a sua a limpo.
Se, porém, se não tracta de um feitiço de segunda ordem; mas sim d'algum
que deva produzir a morte do individuo enfeitiçado, é preciso mais
trabalho, e pelas leis infernaes não é licito a qualquer feiticeira
tomar sobre si só tamanha responsabilidade, d'onde se póde concluir qual
seja a prudencia, gravidade e consciencia do diabo, que por certo não é
tão feio como o pintam. Quando, pois, alguma d'estas boas creaturas quer
dar cabo de qualquer individuo, toca o seu pandeirinho e chama duas suas
companheiras para d'ellas se ajudar naquella boa obra. Então as taes
fazem uma figura da pessoa condemnada a morrer, e compostos certos
unguentos liquidos vão com elles unctando aquelle vulto, e á proporção
que o trabalho se vai adiantando, vai o enfeitiçado adoecendo, até que
chega ás ultimas. Neste ponto a feiticeira mais velha tira o seu
novello, põe-se a dobá-lo, e quando o doente deve morrer uma das outras
corta o fio com uma tesoura, e no mesmo instante expira o enfeitiçado.
Depois invocam todas tres o demonio, que vem, e solda de novo o fio que
ficou cortado.
Limitamo-nos neste artigo a tractar com mais alguma individuação a mais
notavel das superstições populares, o imaginario pacto com o demonio.
Deixamos para outra occasião o falar de muitas outras crenças e costumes
que poderiamos ajunctar a estes incompletos apontamentos, e então
daremos especial noticia das _mulheres de virtude_, especie de
contraveneno com que o povo de algum modo quis destruir os terrores que
lhe causava o poderio das feiticeiras que elle proprio creara.
*A Casa de Gonsalo*
COMEDIA EM CINCO ACTOS
PARECER
Memorias do Conservatorio
1840
*A Casa de Gonsalo*
COMEDIA EM CINCO ACTOS
PARECER
A commissão encarregada de dar o seu parecer sobre a comedia
intitulada--_A Casa de Gonsalo_--que concorreu aos premios destinados
para os dramas originaes portugueses, que mais se avantajarem entre os
outros no concurso aberto por este Conservatorio para o corrente anno de
1840, vem apresentar a sua opinião a este Jury, desempenhando assim o
encargo que lhe coube em sorte.
A comedia sobre que versa este parecer é precedida por um prologo, ou,
como seu auctor lhe chama, por um endereço aos censores.
A Commissão hesitou se devia ou não fazer algumas observações sobre a
materia nelle contida: grave e importante é esta; ridicula e talvez
chula a fórma porque o auctor a tractou; mas a Commissão intendeu por
fim que tocando-se nesse prologo a grande questão das condições da arte,
que hoje agita o mundo litterario, era da sua obrigação, entrar no exame
das idéas contidas nelle. Pospondo, por tanto, os gracejos do auctor, e
considerando somente as suas opiniões e proposições, até porque elle
parece apresentá-las, como norma por onde os censores houvessem de
guiar-se, antes de julgar o drama dirá algumas palavras sobre o
mencionado prologo.
Começa o auctor esse prologo pela sua biographia litteraria referindo
como tem composto um bom numero de _comedias comicas_, e outras
lamentosas ou patheticas, de que, segundo elle diz, são muito
apaixonados os alemães. Deixando de parte as noticias
biographico-litterarias, importantissimas para uma nova edição da
Bibliotheca Lusitana, ou do Diccionario dos homens illustres, mas que no
caso presente nada montam para o Conservatorio, a Commissão apenas se
faz cargo das duas circumstancias que deixa apontadas: a 1.^a de ter o
auctor composto comedias lamentosas, ou como, com Voltaire, elle lhes
chama, _larmoyantes_: 2.^a a de affirmar que d'este genero são muito
apaixonados os alemães. Admira com effeito, que o auctor tão afferrado
aos sãos principios dos antigos, tão desprezador dos desvarios modernos,
gastasse o seu tempo com um genero dramatico bastardo, em que os antigos
nem sonharam, porque só conheceram a tragedia e a comedia, vendo-se
daqui que houve uma epoca em que o illustre auctor da _Casa de Gonsalo_
sacrificou ao Moloch revolucionario: não admira menos, que um escriptor
tão versado em materias litterarias ignore que o drama lamentoso nasceu
em França, e que a Alemanha só conta um auctor notavel neste
genero--Kotzebue--que não teve successores, e que hoje está quasi
completamente esquecido naquelle país, onde exclusivamente apparecem
poucas comedias, bastantes tragedias, e infindos dramas da eschola
moderna que está bem longe de ser a de Diderot, ou dos dramaturgos
chorões, lamentosos ou patheticos.
Continua o illustre auctor da _Casa de Gonsalo_ dizendo que sabe que a
sua comedia não hade agradar porque tem aquelle mau gôsto de composição
que recommenda Aristoteles e Horacio que eram uns rançosos e d'esse
ranço é Menandro, Aristophanos e Terencio etc.; fala nos freios da arte
da eschola classica, unidade de acção, consistencia de caracteres;
paixões e affectos naturaes, verdade de costumes, (!) estabilidade de
logar, unidade de tempo; fala no Sales que tinha a habilidade de fazer
velhos os rapazes que iam ouvir-lhe as licções de poetica e rhetorica
(!); diz que todas as regras acabaram com Hugo e Delavigne, e que os
modernos destruiram a unidade d'acção, de caracter, de tempo, e de
logar. Do que tudo conclue o auctor que a sua comedia não hade agradar,
e que por isso a apresentou sem a mandar copiar.
Se a letra em que a comedia está escripta, e a historia litteraria do
illustre auctor inserida neste prologo, não revelassem, aquella a mão
trémula de um velho, esta uma larga vida cheia de recordações do
sapientissimo Sales, que, bem differente das magas das novellas de
cavallaria, as quaes transformavam as rugas de velhice em viço de
mocidade, convertia a mocidade em velhice: se a Commissão, digo, não
inferisse de tudo isso que este prologo encerrava um pensamento de
Sansão, classico, o qual vendo morta a sua nação quer morrer tambem
levando comsigo os philisteus da nova arte, e se este pensamento não
fosse generoso, ella se teria abstido de fazer observações algumas
acêrca das idéas do auctor, que em um homem moço e que não tivesse essas
razões d'amor ás coisas com que se creou, seriam apenas dignas de
compaixão muda. A Commissão, porém, pertence infelizmente ao presente, e
quando vê um campeão do passado, de quem se póde dizer como Virgilio:
_Et dulces moriens reminiscitur Argos.
Do caro Sales lembra-se morrendo_.
não pode deixar de lhe dar o extremo _vale_, nem é licito que responda
com um silencio que se poderia tomar pelo silencio do desprezo a quem
vem lançar na estacada a luva do combate, por uma causa talvez bella,
mas nestes tempos irreverentes e dissolutos, bem mal-aventurada.
Senhores! A guerra que os homens do passado fazem ás opiniões do
presente é um phenomeno trivialissimo, e repetido todas as vezes, que,
ou as meditações ou as inspirações do genio, ou finalmente a accumulação
das idéas e das observações de muitos homens, tem produzido uma
revolução, seja ella de que natureza fôr. A razão d'isto dá-se neste
prologo. Quem encanecendo no estudo de qualquer ramo de sciencia nunca
pôde passar além de comprehender o que os outros pensaram, intende que a
isto se deve reduzir todo o poderio intellectual do genero humano. Taes
individuos são por via de regra os representantes da immobilidade. Bem
longe da theoria do progresso indefinido, crêem que a civilização é como
a praia do mar, os homens como as ondas d'elle, que ora se aproximam ora
se afastam em continuados éstos. São taes individuos que nunca se
persuadiriam de que as chamadas trevas da edade média não eram mais que
a chrisalida de uma civilização maior e melhor que a grega e romana, de
uma civilização cuja aura vital era a grande transformação religiosa
chamada o christianismo. São taes individuos para quem fôra baldada a
demonstração de que no objecto de que neste logar se tracta--o
drama--uma nova epoca e por consequencia uma nova fórma tinha começado
com o berço das nações modernas, e de que entre o nosso theatro e o dos
antigos devia haver a mesma differença que ha entre a civilização
christã e a pagã, entre o christianismo e o polytheismo; emfim que nas
respectivas litteraturas dramaticas devia haver uma diversidade
parallela á que ha entre aparte material do theatro antigo e a do
theatro moderno.
Era licito, pois, a estes homens morrerem abraçados com as poeticas e
rhetoricas sobre que encaneceram; era-lhes licito desprezarem os fructos
das cogitações dos modernos; era-lhes licito terem commentado as regras,
na impossibilidade de fazerem dramas. Tudo isso lhes era licito menos
ignorarem a historia da arte antiga, desconhecerem os principios da
moderna, mentirem acêrca d'aquella, e calumniarem esta. Isto é o que tem
feito os admiradores dos rhetoricos de todas as nações, isto é o que se
reproduz no prologo do erudito discipulo do eruditissimo Sales.
A Commissão não entrará aqui no exame do valor relativo dos principios
da eschola antiga, e da eschola moderna que tambem os tem mais profundos
e por ventara mais creadores de difficuldades que os da antiga. A
comparação d'esses principios seria materia de um livro, de um curso de
litteratura dramatica, e nunca de um parecer que deve servir de base á
discussão especial do merito de um drama. Mas a Commissão se mostraria
pouco attenta á dignidade, e á honra litteraria do Conservatorio se
deixasse passar como exactas affirmativas contrarias á historia do
theatro e á critica, sem que rectificasse inexactidões que se lhe vem
apresentar como verdades.
O auctor diz que sabe que a comedia não ha de agradar por se verem nella
cumpridos os decretos de Aristoteles e de Horacio. Desejaria a Commissão
que elle tivesse declarado cujo era o desagrado em que tinha a certeza
d'incorrer. Se era o do publico, como tendo essa certeza concorre ás
provas publicas?--Neste procedimento ha pelo menos um pleonasmo tão
flagrante como ha no titulo de _comedia comica_ que elle dá a esta. Se é
o do Conservatorio, parece fazer com isso grave injúria a este.
O Conservatorio possue no seu seio homens de convicções differentes, e
até certo ponto oppostas, em materias litterarias: uns pertencem, como o
auctor, ás idéas antigas, outros ás opiniões modernas. Para os primeiros
a execução d'essas regras é um merito; para os segundos se as suas
opiniões assentam sobre uma theoria completa da arte--e a Commissão crê
que sim--o desempenho d'essas regras é indifferente, porque não é nem na
falta, nem na existencia d'ellas que consiste a arte. O auctor devia
saber que a eschola moderna colloca quasi a par de Shakespeare e acima
talvez de Calderon e Lopo da Vega, dois escriptores da arte dos
preceitos--Moliere e Corneille: devia saber que ella rejeita d'esses
preceitos aquelles que não teem uma sancção esthetica; aquelles que, ou
o capricho, ou um exame superficial das materias litterarias, admittiu
como canones imprescriptiveis; aquelles que são mui proximos parentes
dos achrosticos, dos echos, e dos versos leoninos--mas devia tambem
saber, que a eschola moderna nunca desprezou o dramaturgo, cujo genio,
apesar d'essas peias escholasticas, se remontasse a altura da verdadeira
arte, e que, por tanto os membros do Conservatorio cujas opiniões são
modernas não rejeitariam o drama só porque se assujeitava ás andadeiras
rethoricas da eschola antiga. Se um pensamento unico tivesse precedido á
composição d'esta comedia: se o ideal de um ou muitos caracteres comicos
tivessem nella revestido as fórmas da vida real, embora o drama
estivesse arrebicado de cem regras e duzentos preceitos, os sectarios da
nova eschola teriam dicto com os da antiga; _equites romani plaudant_!
O digno auctor da _Casa de Gonsalo_, seguindo as pisadas dos homens da
sua eschola parece querer tornar solidaria a arte dos gregos e romanos
com a arte do renascimento; essa arte bella, pura, e nacional dos
antigos com a arte caprichosa, polvilhada, cortesã e regreira do seculo
de Luis XVI. Hoje não é licito ignorar as differenças que ha d'aquella a
esta: ignorar que além de outras coisas duas regras essenciaes para os
modernos faltam entre os antigos as unidades de logar e de tempo, e que
vice-versa entre os antigos havia no theatro os coros que os classicos
modernos deixaram, bem como a musica tanto dos coros como da scena, a
qual fazia que o drama fosse então o que é hoje a opera italiana, ou a
vulgar, onde esta existe.
Senhores: o drama moderno nasceu dos mysterios ou representações
religiosas da edade média: o caracter essencial dos mysterios era o
vestir o ideal christão--e o nome o está dizendo--com as fórmas da vida
real, e a vida real era então como hoje, como sempre, uma indistincta
mistura de lagrimas e riso, de paixões vis e nobres, d'infamias e de
grandezas. Nos mosteiros onde o drama começou, se reuniam os extremos
oppostos da sociedade: o monge era a um tempo sacerdote e jogral: a
ignorancia vejetava ahi ao lado da sciencia, a crapula ao lado da
modestia e da virtude, o folguedo e o bom humor ao lado da penitencia,
os grandes crimes ao lado da pura innocencia. Então o monge a quem a
natureza fizera poeta, tendo quasi por unicos estudos a historia
symbolica dos hebreus, as sublimes invenções da sua poesia, e esse
evangelho tão ideal desde a primeira até a ultima pagina, não conhecendo
o drama antigo, fazia, sem o saber, uma transformação na arte dramatica
e começava essa eschola moderna, salva apenas na Hespanha e na
Inglaterra no seculo XVII e restaurada hoje em toda a Europa com mais
brilho, e aperfeiçoada pela philosophia. O caracter d'esta eschola é na
essencia um contraste completo com a antiga: esta tomava o mundo real,
positivo e até trivial e vestia-o de fórmas ideaes: os caracteres, as
paixões, as situações procurava-as na vida quotidiana: nas expressões,
na fraze é que estava a poesia, e é por isso que o poeta antigo carecia
dos coros para ahi principalmente derramar as harmonias da sua alma; é
por isso, que Sophócles, ou Euripides não comprehenderiam o drama em
prosa; é por isso que o theatro dos antigos não separava a musica da
letra, porque a tragedia não era senão uma larga elegia sobre as
amarguras da existencia ordinaria; a comedia não era senão uma satyra,
um escarneo contra os vicios e as ridicularias da vida commum. Pelo
contrario o theatro da edade média buscava no ideal paixões, caracteres,
situações. Onde achamos nós essas martyres tão suaves, tão aereas, tão
amorosas de um objecto sumido nas profundezas do céu? Onde achamos esses
demonios chocarreiros e perversos, cujos motejos e risadas infernaes nos
fazem ao mesmo tempo rir e tremer? Onde esses corações, ao mesmo tempo
tão robustos e tão delicados, dos cavalleiros do romance e do drama da
edade média?--Nos mysterios e nos autos; e os mysterios e os autos são
ascendentes do drama actual: as Angelas, os Myphistopheles, e os
Hernanis não refusam a sua arvore genealogica.
Esta familia, nobre, porque, como as familias humanas, vai entroncar-se
na edade média, teve um tempo em que caíu na abjecção: foi quando os
paços a rejeitaram; quando appareceu outra, que se chamava mais
illustre; outra que se dizia de mais antiga ascendencia, aparentando-se
com gregos e romanos: mas a critica mostrou que isto era falso, a
philosophia que, ainda sendo verdade, não era tal razão bastante para a
preferencia. Esta é em resumo a historia das vicissitudes da arte.
Ha ainda duas proposições no prologo da _Casa de Gonsalo_ as quaes a
Commissão intendeu que não devia deixar passar sem fazer sobre ellas
alguns reparos. Consiste a primeira em dizer que os modernos destruiram
o principio do desenvolvimento logico dos caracteres, ou como o auctor e
a sua eschola lhe chamam--a unidade de caracter. De todas as accusações
que se podiam fazer á eschola moderna esta é a mais infundada. Condição
absoluta da arte actual é essa unidade dos caracteres, e neste ponto a
Commissão não recearia d'eslabelecer parallelos entre os melhores dramas
classicos e os dramas de segunda ordem, escriptos debaixo da influencia
dos novos principios, certa de que a vantagem ficaria sempre ou quasi
sempre aos ultimos. Consiste a segunda proposição em affirmar o auctor
que todas as regras acabaram com Hugo e Delavigne: nisto ha uma
falsidade e um êrro de historia litteraria. Falsidade porque não é
preciso ter lido senão os prologos de Victor Hugo ao _Cromwel_, e ao
_Ruy-Blas_ para se ver que ainda o dramaturgo mais exaggeradamente
liberal da eschola moderna estabelece regras, que a Commissão não avalia
aqui, mas que incontestavelmente o são, boas ou más. Accresce que, sem
falar numa grande multidão d'escriptos sobre a arte dramatica publicados
ha vinte annos, basta ler as revistas litterarias francesas, alemãs, e
inglesas, para ver que a critica tem já assentado muitos principios
incontestaveis para julgar as producções do theatro, e que se em outros
ha diversidade de opiniões, não é isso de admirar numa eschola que conta
apenas vinte annos como theoria, e que é obrigada a provar a justiça da
sua causa com razões e ao mesmo tempo com obras, ao passo que os
defensores da antiga, firmados em monumentos e glorias seculares,
desobrigados, e por ventura incapazes de crear obras de arte, não tem
outro trabalho senão defender e amparar seus principios, principios que
apesar d'esses monumentos, d'essas glorias, d'essas defensões, e sobre
tudo de sua antiguidade, não deixam muitas vezes de ser incertos e até
contradictorios. Agora quanto ao êrro de historia litteraria a Commissão
julga escusado dizer mais nada, senão que quem pôe em parallelo
Delavigne e Hugo, como egualmente destructores da arte antiga, mostra
que nem os comparou, nem os leu, e por certo nem um nem outro lhe deve
ficar obrigado. Delavigne, o academico Delavigne, que treme a cada passo
de pertencer ao seu seculo, não se julgaria em decente companhia
vendo-se ao lado de Victor Hugo, e este, que vai por ventura mais longe
do que devera, crer-se-ia sujo de todo o pó dos bacamartões pedantes dos
commentadores d'Aristoteles, achando-se collocado a par do classico
auctor da _Princesa Aurelia_, do bucolico auctor do _Pariá_.
Entremos no exame da comedia.