Lope de Vega tinha o grandissimo e principal dote para primar na

carreira que seguia: era este dote o conhecer profundamente o gosto e

paixões do povo para quem escrevia: porém do que nunca elle deu mostras,

foi do mais importante e nobre merito de estimar a arte e cultivá-la com

enthusiasmo. O effeito, segundo a vulgarissima accepção d'este vocabulo,

não era só o seu principal objecto, como cumpre que seja para todo o

verdadeiro escriptor dramatico, mas unico--as miras todas pô-las

unicamente em bater neste alvo--e em verdade ninguem o alcançou como

elle; deixando-nos assim o mais notavel exemplo de sacrificio de alta e

duradoura reputação a troco de inegualavel mas temporaria popularidade.

Na grande porção que nos resta das suas innumeraveis composições, o que

mais admira é a inexhaurivel invenção de incidentes, a variedade de

caracteres, o jogo das paixões, e o mimoso e subtil do dialogo; mas

todas estas brilhantes circumstancias estão como que affogadas na

espantosa exuberancia com que pullulam, em cada scena, em cada fala, e

até em cada verso.

Cumpre, porém, que digamos que nem no seu país nem fóra d'elle, teve

Lope de Vega modelo que imitasse, ou rival que excitasse a sua emulação.

A Italia não tinha ainda passado da _Mandragola_ de Machiavello; nem a

França saído das informes imitações dos antigos: em Portugal só havia os

esboços dramaticos de Gil Vicente, os dramas-novellas de Jorge Ferreira,

e as imitações classicas de Sá de Miranda e Ferreira; a Alemanha não

tinha saído ainda dos _mysterios_; e a Inglaterra, onde já apparecera o

divino Shakspeare, era, excepto pelo lado politico, uma terra incognita

para os escriptores hespanhoes.

Em 1621, dôze annos antes da morte de Lope da Vega, sobreveiu a do

triste e devoto Philippe III, a quem succedeu um principe mancebo

inclinado aos passatempos, e mui addicto ao theatro. Philippe IV gostava

do tracto dos homens de letras, recebia-os na côrte, e se divertia em

compor com elles essa especie de improvisos que então, andavam muito em

moda na Italia: até se lhe attribuem algumas composições dramaticas que

appareceram anonymas; e tal affeição tinha aos dramas nacionaes, que não

consentiu que em Hespanha entrasse a opera italiana, que então era muito

estimada em todas as côrtes da Europa. Estas circumstancias augmentaram

nova força ao impulso já dado por Lope de Vega, e trouxeram o mais

brilhante periodo do drama hespanhol. Durante a vida de Lope, grande

numero de escriptores seguiram as suas pisadas: taes foram os doutores

Ramon, e Mira de Mescua; os licenciados Mexia e Miguel Sanchez; o conego

Tarraga, Guillen de Castro, Aguilar, Luiz Velez de Guevara, Antonio de

Galarza, Gaspar d'Avila, Damian Salustrio del Poyo, e varios outros; mas

todos eram meros imitadores de Lope de Vega, e muito inferiores a elle;

no fim d'este dramatico reinado é que devia apparecer um rival, que lhe

disputasse a primazia.

Foi este Calderon de la Barca, que, não menos conhecedor do genio e

gosto do vulgo, do que o proprio Lope, unia a isso o amor pela sua arte,

que ao outro faltava. Como as composições d'este grande escriptor teem a

primazia entre os dramas hespanhoes verdadeiramente nacionaes; como

ellas em nada são inferiores ás de Lope, em variedade, e o seu numero

mais que o das de nenhum outro, se approxima do numero das d'elle; e

como, por consequencia, nos dão os mais perfeitos monumentos de cada uma

das differentes especies de producções dramaticas peculiarmente

hespanholas; não ha meio nenhum de dar uma idéa clara das fómas e genio

do theatro hespanhol na epocha do seu maior esplendor, senão

caracterizando breve mas distinctamente, as varias classes das peças de

Calderon. A mais corrente classificação dos dramas profanos, é para os

mesmos hespanhoes, a de _comedias heroicas_, _comedias de capa y espada_

e _comedias de figuron_. As da primeira d'estas classes tinham o mesmo

logar na litteratura dramatica, que nas ficções narrativas tiveram as

novellas de cavallaria que, expulsas da prosa pelo D. Quixote, se

acolheram ao theatro, onde por muito tempo foram bem acceitas do

publico. As da segunda classe, cujo nome vinha do vestuario que se usava

na epocha em que foram escriptas, representavam os costumes hespanhoes

d'esse mesmo tempo; mas, em consequencia do grande sabor de novella que

esses costumes ainda conservavam, tinham um aspecto, que a homens

modernos e de outras nações parece ideal. «Isto (observa Schlegel) não

fóra possivel, se Calderon nos introduzisse no interior da vida

domestica... Estas peças acabam, como as comedias dos antigos, por

casamentos; mas quão differente é tudo o que precede a este desfecho!...

traça, na verdade os seus principaes caracteres de ambos os sexos no

primeiro fervor da mocidade; mas o alvo a que elles miram, e diante do

qual tudo abate bandeiras, nunca em seus animos se confunde com outro

qualquer desejo. A honra, o amor e o ciume, são sempre os motivos da

peça, e o enredo nasce da impetuosa mas nobre lucta d'estas paixões...

Nos caracteres mulheris o sentimento da honra não é menos poderoso do

que nos dos homens: este sentimento rege o do amor, que tem logar a par

d'elle, porém não acima d'elle. A honra das mulheres, segundo o modo de

pensar que transluz nos dramas de Calderon, consiste em amar um homem de

reputação sem macula, e em amá-lo com perfeita pureza. O amor requer ahi

inviolavel segredo, até que uma legitima união permitia declará-lo

publicamente: este segredo o salva dos effeitos da vaidade, que poderia

misturar nelle gabos de favores concedidos, ou pretensões a elles, e lhe

dá a apparencia de um voto, que, por isso que é mysterioso, é mais

pontualmente observado. No meio d'esta moralidade dramatica, são, em

verdade, admittidas manhas e dissimulações, para fins amorosos, e a

ponto de parecer que recebe quebra a honra: mas, quando essas manhas vão

de encontro a deveres, como, por exemplo, os da amizade, o respeito mais

pundonoroso é constantemente guardado a esses deveres. O poder do ciume,

sempre vivo, e revelado ás vezes de terrivel maneira; ciume não como o

dos povos do oriente, de posse, ou de gozos materiaes, mas dos

sentimentos suavissimos do coração, serve para ennobrecer o amor. A

perplexidade, que nasce d'estes differentes motivos moraes, acaba muitas

vezes em nada, e então o desfecho é grandemente comico: ás vezes, porém,

a catastrophe é trágica, e a honra se converte em uma especie de destino

avesso, para aquelle que com ella não póde cumprir sem anniquilar a

propria felicidade, ou tornar-se para sempre criminoso. Grande numero

d'estas peças não teem senão um papel burlesco, o do creado ou gracioso,

que serve principalmente para parodiar os motivos sublimes das acções de

seus amos, o que, por via de regra, faz com muita graça, servindo raras

vezes para instrumento do enredo.»[21].

As comedias de _figuron_, ou de caracter, distinguem-se da classe de que

tractámos no antecedente paragrapho, em o interesse da acção não ser

dividido pelas personagens de um enredo variadissimo, mas concentrado em

um individuo, no qual é personalizado caracteristicamente algum vicio ou

absurdo.

Alguns dos dramas de Calderon, historicos ou mythologicos, não podem

estrictamente ser classificados em nenhuma das tres especies

antecedentes. Com a maior verdade aproveitou elle algumas epochas da

antiga historia hespanhola; mas parece ter tido tamanho aferro ao genio

da sua nação, que não pôde produzir facilmente o caracter das outras. A

antiguidade classica era inintelligivel para elle, e por isso, o já

citado Schlegel observa que a mythologia grega se converte, nas suas

mãos, em uma deleitosa novella, e a historia romana em uma hiperbole

magestosa. Outra classe de peças tem Calderon a que elle chama

_fiestas_: eram estas destinadas para serem representadas na côrte em

occasiões solemnes. Posto que taes peças requeressem pompa theatral,

frequentes mudanças de scenario, e até musica, todavia podemos

chamar-lhes _operas poeticas_, isto é, dramas, que pelo mero esplendor

da poesia, produziam o mesmo effeito que na opera moderna produzem as

vistas, a musica e a dança. Foi nestas composições que Calderon se

entregou inteiramente aos vôos da sua imaginação, podendo dizer-se que

nellas as personagens apenas pertencem a este mundo.

Mas é na classe dos _autos sacramentales_, ou dramas religiosos, que o

genio e o espirito de Calderon se desenvolveram com mais força e

formosura. As cerimonias religiosas dos gregos tinham gerado o theatro

grego: as cerimonias do christianismo deram origem ao theatro moderno. O

principio fundamental dos espectaculos dramaticos, introduzido ou

sanccionado pelo clero, consistia em apresentar ante os olhos dos fiéis,

em todas as festividades ecclesiasticas, e dias de commemoração de

certos sanctos, a representação ao vivo da passagem do Testamento Novo

ou do Catalogo dos Sanctos, que tinha connexão com essa festividade.

Estas representações, que no resto da Europa se denominavam mysterios,

chamaram-se em Hespanha, desde o principio, _divinas comedias_ e _autos

sacramentales_. Faziam-se com grande pompa, não só nas praças e nas

procissões, mas tambem nos theatros publicos. Taes dramas, representados

em dias solemnes, debaixo da protecção das auctoridades civis e

ecclesiasticas, e em presença de todo o povo, não só davam ao auctor

mais proveito, mas tambem mór gloria. Lope de Vega escreveu alguns

centenares d'estas peças: mas Calderon tanta vantagem levou aos seus

predecessores e contemporaneos, nisto como no mais, que lhe foi

concedido um privilegio exclusivo de compor os autos que se haviam de

representar na capital, monopolio de que gozou durante trinta e sete

annos.

Temos sido talvez mais technicos e extensos do que cumpria sobre o

espirito e execução dos dramas hespanhoes dos fins do seculo XVI e

principios do XVII, porque as regras dos rhetoricos e pedantes, regras

que se desfazem em pó diante de um _porquê_,--persuadem o vulgo da

republica das letras de que qualquer drama, a não ser grego ou romano,

ou não trazendo, pelo menos, pós, casaca de seda e espadim, á moda de

Luís XIV, é forçosamente barbaro, rude ou absurdo. Este pensar acanhado,

emquanto se não derrocar de todo, torna impossivel uma verdadeira

regeneração dramatica: os portugueses devem ser em litteratura uma só

nação com os hespanhoes: se quisermos ter originalidade, nacionalidade,

e o que mais é, verdade, estudemos Lope, Calderon e os seus

contemporaneos; não nos envergonhemos de folhear livros por onde

constantemente estudam os mais illustres escriptores dramaticos da

Alemanha e da Inglaterra, apesar de não poderem tirar d'elles todo o

proveito, que nós por certo tiraremos. Mas voltemos ao nosso assumpto.

É digno de notar-se, que, durante o mais bello periodo do theatro

hespanhol, o conselho de Castella se atrevesse a propôr como condição

para se reabrirem os theatros que tinham estado fechados por causa de

varios luctos da côrte, desde 1644 até 1649, que os dramas que se

houvessem de representar se limitassem a objectos edificativos, sem

mistura das profanidades do amor; e que, por consequencia, todos

aquelles que até então se tinham representado fossem prohibidos,

nomeadamente os de Lope de Vega, que tão prejudiciaes tinham sido á sã

moral. Felizmente o bom gosto do monarcha, concorde com o do publico,

fez com que fosse regeitada a proposta dos austeros conselheiros.

Durante a longa carreira de Calderon, appareceu Moreto, que dotado de

menos força inventiva e menos fervor de imaginação, se distinguiu

principalmente por aperfeiçoar melhor as comedias de _figuron_ ou de

caracter. Como exemplo, taes são os seus dramas--_O lindo D. Diogo_, e

_O marquez de Cigarral_, especie de D. Quixote, endoudecido á força de

ler e reler, sem descanso, os pergaminhos de sua casa, e os costados da

sua arvore genealogica. Por este lado, póde-se crer que Moreto foi um

dos modelos de Molière, entre cujas peças, com effeito, se encontra uma

fraca imitação do _marquez de Cigarral_. Nesta mesma epocha viveu outro

poeta dramatico, cuja fama emquanto vivo não egualou a celebridade de

que goza depois de morto e que, por um acaso extraordinario foi

desconhecido aos mais eminentes criticos, como Signorelli, Sismondi e

Schlegel: era este um frade da Trindade, chamado Fr. Gabriel Telles,

que, com o supposto nome de Tirso de Molina, pôs em scena um grande

numero de dramas, que depois foram colligidos e publicados por um

sobrinho seu. Menos engenhoso do que Calderon, e menos delicado, excede,

todavia, os outros poetas do seu país em certa agudeza maledica. Pouco

lhe importam as regras, ou a verosimilhança, com tanto que lhe venham a

pello gracejos pungentes e maliciosos, usando de uma linguagem, ás vezes

licenciosa, e de pensamentos que mostram tão pouco respeito ás potencias

da terra como ás do céu. Nada poupa, uma vez que esse objecto lhe

desagrade ou possa mover a riso. Ha só um escriptor a quem elle deva com

exacção ser comparado, e com quem, com effeito, tem muitissima

parecença: é este o moderno dramaturgo francês Beaumarchais. E assim

como este auctor foi o verdadeiro pai de Figaro, do mesmo modo (facto

certamente curioso) Fr. Gabriel foi o primeiro que pôs em scena a famosa

historia de D. João e a Estatua (_El combidado de Piedra_)

aproveitando-se da lenda inventada, segundo dizem, pelos franciscanos de

Sevilha para explicarem o desapparecimento do verdadeiro D. João

Tenorio, que, conforme tambem alguns querem, fôra por elles assassinado

em vingança dos muitos vexames que lhes fazia.

No proximo artigo mencionaremos mais alguns dramaturgos hespanhoes

d'esta epocha, e concluiremos a historia do theatro hespanhol com a

noticia dos escriptores mais modernos.

III

O periodo brilhante do theatro hespanhol encerra-se na primeira metade

do seculo XVII. O gosto do monarcha, da côrte e da nação, tinha lançado

um grande numero de homens de letras nesta carreira, que então era a

mais honrosa e lucrativa. Assim, além dos eminentes escriptores

mencionados no antecedente artigo, appareceu um enxame de dramaturgos de

segunda ordem, a cuja frente devemos collocar Francisco de Rojas, que

tinha todos os dotes de Moreto, mas que o excedia nos defeitos.

Seguiam-se a este Guillen de Castro, Ruis de Alarcon, La-Hoz, Diamante,

Mendoza, Belmonte, os irmãos Figueroas (que escreviam conjunctamente,

como os modernos auctores de farças francesas), Cancer, Enciso, Salazar

e Candamo, os quaes, posto que nenhum creasse uma eschola sua,

produziram ao menos importantes composições theatraes.

Os desastres que sobrevieram á monarchia hespanhola nos ultimos annos do

reinado de Filippe IV, junctos com uns poucos de luctos publicos, que

fizeram fechar por muito tempo os theatros, deram o primeiro golpe na

arte dramatica hespanhola. Em 1665 a morte d'aquelle principe, que tinha

sido o seu mais zeloso protector, foi o signal da queda rapida e inteira

do theatro. O successor de Filippe IV, o parvo Carlos II, era ainda

creança; e a rainha regente assignalou o principio da sua administração

com um decreto, dictado, sem duvida, pelo seu director espiritual o

jesuita Nitar, e, por certo, unico nos annaes dramaticos. Ordenava a

rainha no citado decreto, que todas as representações cessassem até seu

filho ter idade de se entreter com ellas. Posto que esta extravagante

ordem não pudesse ser executada á risca, todavia é claro quão grande

effeito devia produzir numa epocha, em que a litteratura só podia

progredir debaixo do patrocinio dos grandes, e em que o theatro, só com

a especial protecção do monarcha podia resistir aos repetidos ataques do

conselho de Castella. Para vermos o que d'aqui resultou poremos em

contraste dois factos notaveis. De um memorial, dirigido a Filippe IV em

1632, pelo actor Ortiz, se vê que havia então em Hespanha mais de

quarenta companhias de comicos, e que estas companhias davam a somma de

mil actores; e que se tinham edificado tantos theatros, que poucas

cidades ou villas notaveis havia que não tivessem o seu. No anno, porém,

de 1679, quando Carlos II casou com uma infanta de França, na festa do

casamento, não foi possivel reunir mais de tres companhias para virem

representar na côrte.

Neste periodo de decadencia e desprezo um unico escriptor trabalhou por

amparar o vacillante theatro: Solis, o eloquente historiador da

conquista do Mexico, dedicou tambem ao theatro a sua brilhante

imaginação, polida agudeza, e vigoroso estilo. Deixou-nos varios dramas

dignos do periodo a que sobreviveu; especialmente um d'elles que

intitulou--_Amor al uso_, tem grandissimo merito.

Com Solis póde-se dizer que expirou o theatro verdadeiramente hespanhol.

A subida ao throno de Filippe V, tendo dado valia ao gosto francês, e

introduzido (ao menos na côrte) os habitos e costumes da côrte de Luís

XIV, fez que os hespanhoes, depois de terem sido os mestres e

precursores dramaticos dos franceses, se contentassem de se converter em

humildes imitadores e copistas d'elles. É verdade que, durante o seculo

XVII, algumas tentativas fizeram para restabelecer o drama nacional,

Zamora, Canizares, Luzan e Jovellanos; mas estas honrosas tentativas só

alcançaram transitorio applauso; e para achar uma obra original

(mencionando, todavia, os _sainetes_ de Ramon de la Cruz) cumpre chegar,

no principio do seculo actual, a Moratin, o engraçado e elegante auctor

do _Caffé_, do _Barão_, etc., e ao sr. Martinez de la Rosa, auctor

de--_A mãe no baile, e a filha em casa_.

A descripção que fizemos das varias especies de composições dramaticas

do tempo de Calderon, mostra que no antigo drama hespanhol a tragedia

classica, posto que menos que a comedia classica, podia ter amplo e

effectivo logar. Todavia, enganados, segundo parece, pela palavra

_comedia_, que na lingua hespanhola teve sempre uma significação tão

geral como a palavra alemã _spiel_ ou a inglesa _play_[22], muitos

criticos de nota, principalmente franceses, falaram da total falta de

tragedias no theatro hespanhol, como de um phenomeno singular e

inexplicavel. Tão enraizadas estavam nos animos de taes criticos as

distincções _classicas_, com que os haviam educado, que assim o

affirmavam com toda a gravidade, embora admittindo ao mesmo tempo, que

«o elemento tragico predominava em grande numero das mais afamadas peças

do theatro hespanhol». Mas que é este predominio senão o unico meio de

destinguir a tragedia da comedia, unico que existe na essencia da

natureza humana e da arte dramatica? Segundo este systema mais racional

de classificação, o antigo theatro hespanhol, pela propria confissão dos

criticos de que falamos é grandemente abundante na tragedia. Noticiemos

agora brevemente as poucas amostras de obras dramaticas, que na Hespanha

appareceram mesmo com a _denominação_ de tragedias.

Boscan, que primeiro introduziu na Hespanha o estilo italiano de

versificação, dizem que traduzira uma das tragedias d'Euripedes,

traducção que se perdeu. Tambem pelos annos de 1520 Fernão Peres

d'Oliva, voltando da côrte de Leão X, onde vira representar a

_Sophonisba_ de Trissino, escreveu duas imitações do theatro grego,--a

_Vingança d'Agamemnon_, tirada da _Electra de Sophocles_, e a _Hecuba_,

imitação de Euripedes. Estas tragedias, escriptas em elegante prosa,

ficaram desconhecidas fóra das universidades, e até ha razão para crer

que nem ahi foram representadas. Em 1570, João de Malara deu ao theatro

de Sevilha varias tragedias, de objectos biblicos, como _Absalão_,

_Saul_, etc; e em Madrid, que então fôra escolhida para capital do

reino, um frade, chamado Jeronymo Bermudez, tomando o nome supposto de

Antonio da Silva, publicou duas tragedias, que merecem fazer-se d'ellas

especial menção. São ambas fundadas na celebre historia de D. Ignez de

Castro. A primeira, intitulada _Nise Lastimosa_, é uma imitação da

Castro do nosso Antonio Ferreira: a segunda, intitulada _Nise Laureada_,

que tem por acção a vingança, que o infante D. Pedro, quando subiu ao

throno, tomou dos assassinos da sua amada, e a coroação do cadaver

d'Ignez, é mais original que a primeira, mas inferior a ella no enredo e

desenlace. Estas duas peças, dividida cada uma d'ellas em cinco actos,

entresachados de coros, são as primeiras tragedias regulares, que em

verso castelhano se escreveram. Por este mesmo tempo, em Valencia, onde

o primeiro theatro, edificado em 1526, era pertença de um hospital,

foram representados varios dramas, ainda mais notaveis, compostos por

Christovam de Virues, de quem já falámos, e por Andres Rey d'Artieda.

Virues official militar, era um dos cabeças da grande eschola que, desde

o seu principio se gloriara de menoscabar as restricções aristotelicas.

Foi a sua primeira producção _La Gran Semiramis_, acção que ao mesmo

tempo tractava, em Italia, Murio Manfredi. Todavia, Virues, em vez de

fazer a peça em cinco actos ao modo grego, dividiu-a em tres _jornadas_,

nas quaes metteu toda a vida de Semiramis, passando-se o primeiro acto

na Bactriana, o segundo em Ninive e o terceiro em Babilonia. Compôs

depois, sempre com o mesmo desprezo das unidades, as tragedias da _Cruel

Cassandra_, _Atila Furioso_, _Infeliz Marcella_, etc. A que intitulou

_Elisa-Dido_, e que elle annunciou como escripta _conforme al arte

antigua_, é com effeito, a unica, em que as regras são inteiramente

respeitadas. O consocio de Virues na antiga guerra contra os preceitos

classicos, Juan de la Cueva, depois de traduzir o _Ajax_ de Sophocles,

publicou em Sevilha duas tragedias originaes; uma fundada em certa

tradição popular, e intitulada--_Los Siette Infantes de Lara_, a outra

tirada da historia romana e reunindo dois objectos tragicos, a morte de

Virginia e a de Appio Caudio, sendo La Cueva o primeiro que pôs em scena

estes successos, tantas vezes aproveitados depois. Entretanto no theatro

de Madrid as tragedias de Bermudez eram substituidas pelas de Lupercio

d'Argensola, as quaes Cervantes louva mais do que ellas merecem. O

proprio auctor do D. _Quixote_ escreveu então a sua _Numancia_, tragedia

a mais classica que, porventura, tem o theatro hespanhol, porque é

aquella em que mais transluz a simplicidade e pureza do drama grego,

posto que o espirito cavalleiroso de Cervantes appareça quasi sempre

debaixo d'essas fórmas antigas.

É claro que o espirito romantico predomina sobre o classico, até nas

producções declaradamente tragicas do theatro hespanhol antigo. Todavia,

quando a subida de Filippe V ao throno submetteu o gosto nacional á

influencia do de Paris, não só os poetas tragicos franceses foram

traduzidos em lingua castelhana, mas tambem os poetas hespanhoes fizeram

varias tentativas para os imitar. No numero d'estas se devem contar a

_Virginia_ e o _Ataulfo_ de Montiano.

Subsequentemente, durante o alumiado ministerio do marquez d'Arauda,

Fernandez Moratin, Cadalso e Garcia de la Huerta renovaram essas

tentativas: o primeiro escreveu _Hormesinda_, o segundo _D. Sancho

Garcia_ e o terceiro _Rachel_, mas estas obras, posto que valiosas,

principalmente a ultima, não eram sufficientemente notaveis para haverem

de naturalizar uma casta de dramas tão nova em Hespanha. No principio

d'este seculo tentou o mesmo genero, com melhor successo, D. Nicasio

Alvarez de Cienfuegos, habilmente ajudado pelo talento do celebre actor

Isidoro Mayquez, de algum modo discipulo de Talma, e não indigno de seu

mestre, posto que mais se approximasse da versatilidade maravilhosa do

actor inglês Garrick, porque não só era feliz nos papeis tragicos, mas

tambem em quaesquer outros, sem exceptuar os de truão e bobo.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 09 · 第 6 / 13 段