dividem todos os romances em três classes ou cyclos, conhecidos pelos
nomes das primeiras personagens d'essas series de novellas, que partindo
da historia de cada um d'aquelles heroes, continuavam pela de seus
filhos e netos, alliados, ou inimigos indefinitamente. Estas tres
classes são a das novellas de Amadis, a das de Artus, ou Arthur
d'Inglaterra, e a das de Carlos-Magno. Todavia parece-nos que esta
classificação é imperteita. Dividiriamos antes essa multidão de romances
em cinco cyclos ou classes: a de _Artus_, a do _Sancto-Brial_, a de
_Carlos-Magno_, a de _Amadis_, e a dos romances a que podemos chamar
greco-romanos, porque eram as vidas dos heroes antigos, que davam
materia ás invenções dos novelleiros. Não esconderemos que a do
_Sancto-Brial_ está tão ligada á de _Artus_, que se confunde com esta;
mas logo diremos porque nos parece dever-se d'ella separar.
Os romances de _Artus_ ou da _Tavola-redonda_ são a historia fabulizada
do famoso Arthur, ultimo rei d'Inglaterra, da raça dos bretões, e que
defendeu valorosamente o seu país da invasão dos anglo-saxonios. Esta
serie de novellas começa no romance de Bruto, composto por micer Gasse
em 1155; a ella pertence o romance de Merlin, filho de uma dama bretã e
do diabo, no qual se contam as guerras de Uter e de Pandragon, o
nascimento de Artus, e a instituição da Tavola-redonda, isto é, de uma
especie de doze pares ingleses, que costumavam comer como _eguaes_ em
uma _mesa redonda_ nos paços d'el-rei Artus: a historia de Tristão de
Leonis tambem pertence a este cyclo, sendo Tristão um dos cavalleiros da
Tavola-redonda; e estes dois romances cremos nós que eram os que
existiam traduzidos na livraria de D. Duarte: no mesmo cyclo entram as
novellas de Meliot de Logres, Melinus de Dinamarca, Micer Galvão,
Lancelote do Lago, Vigalois, Vigamor, e Daniel de Valdeflores, e muitas
outras que fôra longo enumerar.
Os romances do Sancto-Greal, Gral, ou Graal (que os nossos escriptores
chamam erradamente Santo Brial) formam um cyclo bastante ligado com o
antecedente, mas distincto pelo pensamento que presidiu á sua invenção.
O Sancto-Greal (derivado de _Sang-réal_, ou _Sanguis-réalis_) era o vaso
ou copa em que Jesu-Christo tinha comido com os seus discipulos na noite
da cêa, e em que José d'Arimathea tinha, segundo a tradição dos
novelleiros, recolhido o sangue derramado pelo Senhor na cruz; vinha
assim esta copa imaginaria a ser o mesmo que o Sancto-Catino que os
genovezes se gabaram de ter trazido da terra sancta. Este precioso vaso
estava guardado, segundo os romancistas, em um templo na Hespanha, num
sitio desconhecido, e só os cavalleiros escolhidos por Deus podiam
atinar com elle. Para isto era necessario que se alevantassem á maior
alteza, não só de feitos de armas, mas de virtudes moraes. Vê-se,
portanto, que o pensamento d'estes romances era uma allegoria religiosa,
um typo do alvo em que devia cada cavalleiro pôr a mira do seu
procedimento para merecer tal nome, ou para ser _escolhido_ de Deus[14].
A este cyclo pertencem o Perceval, Lohengrin, Titurel, e uma parte dos
romances da Tavola-redonda, porque muitos dos cavalleiros de Artus
trabalhavam por conquistar o Sancto-Greal, que, segundo escrevem alguns
dos novelleiros d'esse cyclo, tinha sido levado para Inglaterra. O
primeiro e principal romance do Sancto-Greal foi escripto por Christiano
de Troyes no seculo XII, e existe manuscripto na bibliotheca real de
Paris, na sua fórma original, que é em verso.
O cyclo dos romances de Carlos Magno começa com a chronica fabulosa do
arcebispo Turpin, publicada em 1566, por Echardt, mas escripta, segundo
a opinião mais seguida, no undecimo ou duodecimo seculo. Este livro
passou muito tempo por historico, e as fabulas nelle contidas foram
inseridas como authenticas nas chronicas de S. Dinis, recopiladas por
ordem do celebre abbade Sugerio, nos fins do seculo XII:[15] mas depois
das cruzadas, a obra attribuida a Turpin não serviu mais senão como de
éllo de uma multidão de novellas relativas aos suppostos pares de
França, ou paladinos de Carlos-Magno. O romance de Bertha, o de Ogeiro
de Dacia, e de Cleomadis, o de Reinaldos de Montalvão, o dos quatro
filhos d'Aymão, o de Flora e Brancaflor, o do gigante Morgante, e varios
outros, de que se aproveitaram Boiardo, Ariosto, Pulci, e os mais poetas
romancistas d'Italia pertencem a este cyclo.
O cyclo dos romances do Amadis começa por o d'aquelle nome, e
pertencem-lhe todas as emitações que d'ellese fizeram, e das quaes, a
mais notavel é o Amadis de Grecia. Florismarte d'Hircania, Galaos,
Florestam, as Sergas de Esplandiam, o D. Duardos, os Palmeirins d'Oliva
e d'Inglaterra, e muitissimos outros entram nesta divisão. É esta
especie de novellas de cavallaria propriamente hespanhola. A maior parte
d'ellas foram compostas nos idiomas da Peninsula, e muitas nem d'aqui
saíram. Desgraçadamente os continuadores e emitadores de Lobeira foram,
por via de regra, faltos de talento e cheios de máu gosto. D'ahi veio a
graciosa justiça que d'elles fez Cervantes por mãos do cura, no seu
inimitavel D. Quixote.
A ultima classe de romances de cavallaria é aquella em que as
personagens e successos da historia antiga, conhecidos imperfeitamente,
davam largueza á imaginação dos novelleiros, que revestiam essas
personagens dos costumes, crenças e opiniões da edade-média, e
affeiçoavam esses successos pelas instituições da cavallaria, enxerindo
até os heroes da Grecia e de Roma, nas familias fabulosas dos Artus e de
Amadis. Pertencem a este cyclo os romances d'Alexandre, descendente
d'el-rei Artus, o d'Eneas, o da guerra de Troia (do qual segundo parece,
tambem existia uma traducção em aragonês na livraria de D. Duarte) e
outros, com os titulos dos quaes escusado é encher papel.[16] Em alguma
d'estas cinco classes entram naturalmente todas as novellas de cuja
existencia em Portugal, no principio do seculo XV, temos noticia. O
_Merlim_ e o _Livro de Tristão_ indicam pelo seu simples titulo, serem,
quando muito, versões dos dois romances do cyclo da Tavola-redonda,
conhecidos por aquelles nomes. O livro de _Galaaz_ com toda a
probalidade não era mais que a historia de _Galaad_, filho de Lancelote
do Lago, pertencente ao mesmo cyclo. E finalmente o livro d'_Hannibal_
seria uma traducção de alguns dos numerosos romances do cyclo
greco-romano.
Nem nos admiremos de que na livraria d'el-rei D. Duarte predominassem os
romances da Tavola-redonda. Todos sabem que sua mãi, a rainha D.
Philippa, era inglesa, e nada mais natural do que ella e as pessoas da
sua nação, que com ella vieram a Portugal, fizessem conhecer essa classe
de novellas que, mais que nenhumas, lisongeavam o amor proprio dos
ingleses.
De outras obras se faz menção no indice d'aquella livraria, que
vehementemente suspeitamos serem novellas de cavallaria; mas não
passando esta opinião de mera suspeita, guardaremos sobre isso silencio.
Desde a epocha de D. Duarte até o principio do reinado de D. Manuel
nenhum rasto temos encontrado d'este genero de litteratura. Foi em 1496
que se publicou a _Estoria do muy nobre Vespasiano emperador de Roma_,
livro de que démos noticia a pag. 164 do 1.^o volume d'este jornal.
Esta _Historia de Vespasiano_, que examinámos por permissão do nosso
erudito collega o sr. Vasco Pinto de Balsemão, e da qual o unico
exemplar que existe pertence á bibliotheca publica da côrte, não é senão
uma novella de cavallaria, pertencente ao cyclo greco-romano. Ha ahi, na
verdade, alguns factos historicos, mas os costumes, e as
particularidades da narração não passam de meras ficções. Que a obra
seja uma traducção, não nos parece duvidoso. Na subscripção d'ella se
diz que fôra ordenada «por Jacob e Josep abaramatia, que a todas
aquellas cousas foram presentes». Isto indica bastantemente a origem
estrangeira do livro. Se, porém, nos lembrarmos de que José de
Arimathea, figura nos romances do Santo-Greal, como tendo recebido o
sangue de Christo nesse celebre vaso, é naturalissimo que o novelleiro,
auctor da historia de Vespasiano, se lembrasse de lhe attribuir a
propria composição, tanto mais que era quasi como lei entre os
romancistas dar uma origem mysteriosa, ou ao menos remota, ao fructo das
suas imaginações.
Accresce, para mais fundamentar a nossa opinião, que Mr. Fauriel
menciona uma _historia romance_ da destruição de Jerusalem por
Vespasiano, escripta em provençal, e que elle classifica como livro
connexo com o cyclo das novellas do Santo-Greal. Este romance, que,
segundo nossa lembrança, existe manuscripto na Bibliotheca Nacional de
Paris, é com toda a probabilidade, o original da novella portuguesa.
Eis o que temos podido alcançar acêrca dos romances de cavallaria em
Portugal, durante o seculo XV. Outros mais habeis e mais felizes terão
chegado a maior profundidade com as suas indagações. Trouxemos á praça,
em proveito commum, a nossa pobreza. Não eramos a mais obrigados.
No artigo subsequente falaremos dos romances de cavallaria portugueses,
no seculo XVI.[17]
*Historia do Theatro Moderno Theatro Hespanhol*
PANORAMA
1839
*Historia do theatro moderno Theatro hespanhol*
I
Ha um anno a esta parte que o theatro começa a ter entre nós a
importancia que ha muito tinha entre as outras nações da Europa.
Acontecimentos, vulgarmente sabidos e que não veem ao nosso proposito,
contribuiram para que a reforma do theatro, em todas as suas partes, que
em todas d'ella carecia[18], excitasse o espirito publico: os periodicos
falam já das actuaes representações, e julgam, bem ou mal, não só as
novas tentativas litterarias que se teem feito, mas o modo porque são
levadas á scena e executadas pelos actores: e não são, por certo, esses
artigos os que se lêem com menos avidez.
No segundo numero do Panorama démos nós uma noticia do nosso theatro,
precedida de alguns breves paragraphos acerca do theatro das outras
nações: na conjunctura actual parece-nos que não será fóra de propósito
o continuar aquelle artigo com mais alguns sobre a arte dramatica dos
demais povos, cuja litteratura tem relação com a nossa, e como do
theatro hespanhol veiu o português, conforme o que dissémos falando das
origens d'este, será da origem e progresso do drama hespanhol, que
tractaremos em primeiro logar.
Em Hespanha, como nos outros países, foi a egreja que fez nascer o
drama: todavia a primeira representação, a que estrictamente se póde
chamar theatral, e de que ha menção nos annaes de Hespanha, é a que se
fez em 1414, na festa da coroação de Fernando o bom, rei de Aragão. Foi
composta pelo marquez de Vilhena, e só sabemos que era uma peça
allegorica, em que figuravam a Justiça, a Paz, a Verdade, e a Clemencia,
de modo que pertencia á classe das _moralidades_, que tiveram voga por
algum tempo, na infancia da arte dramatica hespanhola, e que depois
Cervantes fez reviver. Pouco depois d'esta tentativa de Vilhena, o seu
amigo, o marquez de Santilhana, homem, como elle, de grande saber e de
idéas claras, reduziu a drama, com o titulo de _Comedieta de Ponza_, os
incidentes de uma batalha naval, dada em 1435, juncto á ilha de Ponza,
entre os aragoneses e genoveses, em que estes ficaram vencedores. O
drama nunca foi representado nem impresso com as demais obras d'este
auctor, e só se sabia da sua existencia pelas cartas do marquez, até que
o sr. Martinez de-la-Rosa, o grande poeta hespanhol nosso contemporaneo,
o descobriu entre os manuscriptos da bibliotheca real de Paris. Esta
curiosa reliquia das primeiras tentativas do genio dramatico hespanhol é
notavel pela habilidade que nella apparece, não só no modo de tractar um
facto historico, mas tambem no enredo, dialogo, e versificação.
Foi pelos fins do seculo XV que em Castella se estabeleceu uma especie
de theatro. Os primeiros ensaios dramaticos nesta parte da peninsula,
fê-los João de la Encina, mui conhecido pelas suas poesias soltas, e
cujas obras formam por si só um cancioneiro. Depois de alargar os
limites das representações religiosas, compondo varios autos, onde não
sómente se acham paraphrases da biblia, mas tambem invenções do poeta,
formou o projecto de fazer saír o drama dos objectos religiosos, para o
que compôs pequenas peças pastoraes, que denominou eclogas. Estas peças,
em que elle proprio fazia os principaes papeis, se representaram
primeiramente em casa do almirante de Castella, e da duqueza do
Infantado. Como a denominação o indica, ellas de nada mais constavam do
que de um dialogo entre dois ou mais pastores. O auctor, á imitação de
Virgilio, usou a primeira vez d'esta invenção para celebrar, por via de
allusões, algum acontecimento notavel, como a conclusão de pazes ou a
volta de algum principe; e depois inventou uma acção curta e simples, na
qual reduziu a drama as paixões das suas personagens. Estas pequenas
peças, cortadas por danças, e acabando com vilhancicos ou cantigas,
continham tambem alguma scena truanesca ou graciosa; de modo que nellas
entravam juntamente os elementos da tragedia, comedia e opera. Teem
estas primeiras tentativas bastante sal e agudeza, e ao mesmo tempo
naturalidade e viveza. A primeira representação d'estas comedias
pastoris fez-se em 1492, anno memoravel nos annaes de Hespanha, por ser
o da conquista de Granada e do descubrimento do Mundo Novo. Foi tambem
por este tempo que appareceu a famosa _Celestina_ de Rodrigo de Cota, de
que já falámos no primeiro artigo.
Os primeiros dramas regulares hespanhoes nasceram no principio do Seculo
XVI, e, o que é mais notavel, fóra de Hespanha. Um certo Torres Naharro,
residente em Roma, compôs alli varias comedias, que foram representadas
perante Leão X.[19] Nellas a invenção é feliz, os caracteres bem
traçados e o dialogo vivo, e contém algumas ousadias que neste auctor
não eram de admirar, porque, apesar de ser clerigo e de viver na côrte
pontificia, compôs satyras contra os ecclesiasticos, taes que Luthero
não estimaria pouco ser auctor d'ellas. Naharro compôs tambem uma arte
dramatica, a primeira que appareceu em castelhano: nella faz a
distincção da tragedia e da comedia, e divide esta em duas especies,
comedia de _noticia_, isto é, historica, e comedia de _phantasia_, isto
é, de imaginação: foi tambem elle que inventou os _introitos_ ou
prólogos e que deu aos actos a denominação de _jornadas_, seguida depois
constantemente pelos auctores hespanhoes nas divisões dos seus dramas.
As peças de Naharro, apenas appareceram em Hespanha, foram, prohibidas
pela inquisição, como succedeu ás pouco mais recentes de Christovam de
Castillego, secretario dos imperadores Maximiliano e Fernando.[20]
Estas, quando se imprimiram as obras de Castillejo, passados annos,
foram supprimidas e perderam-se de todo. Apresenta assim o theatro
hespanhol o phenomeno singular de ter tido duas infancias. Havendo sido
prohibidas, as primeiras tentativas de composições dramaticas regulares
não acharam imitadores, e até parece que inteiramente esqueceram, porque
no casamento de uma infanta de Castella, em 1548, foi uma peça de
Ariosto que se representou. Entretanto alguns eruditos, como Villalobos,
Oliva e outros, trabalhavam por apresentar os antigos como modelos
dramaticos, traduzindo as comedias de Plauto, Terencio e Aristophanes;
mas estas antigas composições casavam-se mal com o genio hespanhol, de
maneira que, emquanto as producções theatraes que a Hespanha possuia,
jaziam sepultadas nas livrarias dos curiosos, ou nos archivos da
inquisição, o povo se entretinha com as grosseiras caturrices dos
jograes truões. D'aqui nasceu que Schlegel, Bouterweek, Sismondi, e
quasi todos os criticos estrangeiros, ignorando até os nomes dos
primeiros escriptores dramaticos hespanhoes, não só d'elles não falam,
mas põem a origem do drama castelhano no meiado do seculo XVI.
O fundador do theatro hespanhol a que verdadeiramente se póde chamar
nacional e popular, foi Lopes de Rueda de Sevilha, que deixou o seu
officio de bátefolha para se ajunctar a uma companhia de comicos
ambulantes dos quaes foi brevemente o cabeça, ou, segunda a expressão
hespanhola, o _autor_. Este titulo, derivado, não do latim, _auctor_,
mas de _auto_, dava-se naquelle tempo ao que compunha e recitava peças;
e também lhe chamavam _maestro de hacer comedias_. Lope de Rueda tinha
ambas as castas de talento necessarias para ser um _autor_ d'aquella
épocha; ganhou por isso grande reputação, e foi unanimemente julgado
grande poeta e grande actor; e tão completamente esqueceram as
tentativas dramaticas feitas antes d'elle que o tiveram em conta de
inventor da divisão em jornadas ou actos, e dos prologos chamados
introitos, e depois loas. Durante uns poucos de annos discorreu Lope de
cidade em cidade; mas por fim a sua grande reputação fez com que fosse
chamado á côrte de Philipe II. Os poucos dramas, dialogos pastoris,
etc., que d'elle restam, se destinguem por certa graça e viveza
naturaes; e posto que sejam todos em prosa, elle os escrevia em verso
com a mesma facilidade.
Ha um facto curioso, que prova a indulgencia com que os ecclesiasticos
olhavam, naquelle tempo, até para os dramas profanos; facto que se lê na
historia de Segovia, de Colmenares: na occasião da grande festividade da
abertura da cathedral d'aquella cidade, a companhia de Lope de Rueda
representou em um tablado, erecto no meio da egreja, depois de vesperas
solemnes, _una gostosa comedia_. O proprio Lope, morrendo em Cordova no
anno de 1567, foi alli enterrado com grande pompa, no côro da cathedral.
Por este tempo (1561) a côrte hespanhola, que até então tinha andado
vagueando pelas capitães das differentes provincias, fez assento fixo em
Madrid, circumstancia que foi favoravel para a arte dramatica, porque
d'ella nasceu o haver um theatro fixo. Documentos authenticos provam que
um anno depois da morte de Lope de Rueda havia theatros em Madrid.
Existiam então, tanto na capital como nas provincias, varias companhias
de actores, distinctas umas das outras por nomes extravagantes e
burlescos, e tão numerosas, que um escriptor moderno hespanhol as
distingue em oito especies differentes.
Os progressos materiaes acompanharam d'ahi ávante os litterarios e
moraes. Por 1570 estabeleceram-se os dois theatros _de la cruz e del
principe_, que ainda existem, e alguns engenhos summos começaram a
trabalhar em composições dramaticas, o que até então se tinha deixado
aos directores das companhias ambulantes. Cervantes, tendo chegado do
seu captiveiro de Argel, foi um dos primeiros que encetaram esta
carreira; mas, apesar dos seus muitos meritos como escriptor dramatico,
era mais inclinado ao genero narrativo, o que não se compadecia, por
certo, com o estylo proprio do drama.
Emquanto o auctor de D. _Quixote_ escrevia em Madrid, João de la Cueva
fazia representar alguns dramas no theatro de Sevilha, reduzindo a
quatro o numero de actos ou jornadas, que até então eram cinco ou seis.
A representação de cada noite constava da peça principal, e, além
d'isso, de tres entremezes e um baile. Tambem Valencia, que nas artes e
boas letras era a rival de Sevilha, deu alguns passos na carreira
dramatica. Foi um poeta valenciano Christovam de Virues, que ainda
reduziu o numero de actos a que se limitaram d'ahi ávante todos os
escriptores dramaticos hespanhoes. Até então o drama, segundo o
engraçado conceito de Lope de Vega, tinha andado com as mãos pelo chão
(a quatro pés) como uma creança, porque estava na idade infantil.
A pompa scenica do theatro hespanhol tinha já feito grandes progressos.
Rojas diz que no tempo de Lope de Rueda toda a vestiaria e mais aprestos
de qualquer companhia dramatica se podia carregar ás costas de uma
aranha, mas que no tempo de Cueva e Virues as actrizes representavam os
seus papeis com vestuarios de seda e veludo, e com fios de pérolas e
cadeias de ouro; que nos entremezes se cantavam tercettos e quartetos; e
que até appareciam no tablado cavallos, quando assim era necessario para
ser completa a illusão.
Digno é de notar-se que já no seculo XVI se acha em Hespanha travada a
guerra entre os escriptores dramaticos, que pugnavam pela sua liberdade,
e os criticos, que os queriam sujeitar aos preceitos d'Aristoteles. Era
assim que emquanto o _rhetorico_ Pinciano clamava que respeitassem as
tres unidades, de que nenhum caso se fazia, João de la Cueva tomava
despejadamente a seu cargo deffender as liberdades dramaticas no seu
_Exemplar Poetico_. Pugnava por ellas porque eram o fructo de uma serie
de seculos que tinham abolido todos os antigos costumes;--porque eram
mais favoraveis aos vôos atrevidos da imaginação;--e porque, emfim, eram
o mais adaptado meio de agradar ao publico. Mas, apresentando tão
judiciosa opinião, estabelecia maximas para regular as composições
dramaticas, taes que serão sempre approvadas pelo bom juizo e bom gosto,
posto que os seus compatriotas nem d'estas mesmas fizeram caso, no seu
ardor contra toda a casta de restricções litterarias.
Este desregrado fervor de imaginação era o resultado necessario das
particulares circumstancias que por muitos seculos tinham concorrido
para formar o caracter nacional em Hespanha. «Os hespanhoes, diz
Schlegel, tiveram um quinhão glorioso na historia da idade média,
quinhão muito esquecido pela ingratidão dos tempos modernos. Elles foram
então como uns atalaias soltos nas fronteiras da Europa: a Peninsula era
como um arraial exposto aos incessantes commettimentos dos arabes, e
desamparado de alheio soccorro. Acostumado a combater ao mesmo tempo
pela liberdade e pela religião, o hespanhol era afferrado a esta com o
zêlo fervoroso de quem a tinha comprado á custa do mais puro sangue.
Cada solemnidade do culto divino era para elle como um premio de suas
acções heroicas; cada templo um monumento das façanhas dos seus
antepassados. Em mais recentes epochas nunca importou aos hespanhoes
examinar os actos de seus superiores, mas continuaram nas guerras de
aggressão ou ambição com a mesma fidelidade e valentia que tinham
mostrado nas guerras de defensão. A fama individual, e o zêlo falso da
religião os cegava acêrca da justiça das causas que os moviam. Empresas
sem egual, levaram-nas felizmente a cabo; e o Mundo-Novo, descuberto por
elles, foi conquistado por um punhado de valorosos aventureiros: casos
particulares de crueza e rapina mancharam o brilho do mais acabado
heroismo, mas estas corrupções não chegaram ao amago da nação. Em parte
nenhuma como em Hespanha, sobreviveu o espirito de cavallaria á sua
existencia politica por tanto tempo, por isso que ainda brilhou depois
de ter passado o predominio de Hespanha e de ter soffrido grande
diminuição a opulencia interna do país, em virtude dos ruinosos erros de
Philippe II. Propagou-se o espirito cavalleiroso até o periodo mais
florente da sua litteratura, e nella estampou o seu cunho, de não
duvidosa maneira. A imaginação dos hespanhoes era audaz, como as suas
acções: nenhuma aventura intellectual lhe parecia perigosa. A
predilecção do povo por maravilhas extravagantes já se havia mostrado
nas novellas de cavallaria. Desejavam vêr tambem o maravilhoso no
theatro; e quando os seus poetas, eminentes na cultura litteraria, e na
situação da vida, lhes representavam esta na fórma requerida,
introduziam nella uma especie de harmonia, e purificavam-na da sua
grossaria real, resultando do contraste entre o objecto e a sua fórma
uma fascinação irresistivel. Imaginavam os espectadores que viam certo
fulgor da omnipotente grandeza da sua nação, já muito abatida, quando
toda a harmonia dos mais variados metros, toda a elegancia de agudas
allusões, todo aquelle esplendor de imagens e comparações que só na sua
lingua se acha, se derramavam por enredos dramaticos, sempre novos, e
quasi sempre grandemente engenhosos. Buscavam-se na imaginação os mais
ricos thesouros de passados tempos para contentar o povo, como se
realmente existissem: pode-se dizer que nos dominios de tal poesia, como
nos de Carlos V, nunca se punha o sol.
Foi quando os animos mostravam similhante tendencia, que surgiu Lope de
Vega, para exercitar a sua protentosa fertilidade de invenção dramatica,
e facilidade metrica. D'este illustre dramaturgo falaremos no proximo
artigo.
II