floresceu Simão Machado, auctor do _Cerco de Diu_ e da _Pastora Alfêa_.
Muitas composições d'este genero se perderam, ou não chegaram á nossa
noticia, como os Autos de Antonio Pires Gonge, de Sebastião Pires, e de
António Peres, que dizem que escrevera mais de cem dramas. O auto do
_Fidalgo de Florença_, composto por João de Escobar, no reinado de D.
Sebastião, teve nesse tempo grande celebridade, e se imprimiu repetidas
vezes: porém d'elle ainda não encontrámos um unico exemplar.
Emquanto assim a escola formada por Gil Vicente progredia, e, em nosso
entender, se aperfeiçoava, independente de estranha influencia, poetas
de grande nome trabalhavam por introduzir em nossa litteratura as fórmas
do theatro grego ou romano. Francisco de Sá de Miranda escreveu duas
comedias intituladas _Vilhalpandos_ e _Os Estrangeiros_, as quaes se
imprimiram, depois de sua morte, em 1560 a primeira, e a segunda em
1569. Nestas procurou elle seguir as pisadas de Planto e Terencio, como
o confessa no prologo dos _Estrangeiros_, e com effeito ellas se podem
comparar com as dos dois comicos latinos. Antonio Ferreira compôs quasi
pelos mesmos tempos as comedias _Bristo_ e _Cioso_ e a tragedia _D.
Ignez de Castro_, a segunda que appareceu na Europa conforme a todas as
regras classicas, sendo a primeira a _Sophonisba_ do poeta italiano
Trissino; mas a de Castro é superior; e nós a temos por um milagre
dramatico, attendendo á falta de modelos modernos e ao seculo em que foi
escripta. O illustre Camões tambem nos deixou, com o titulo de autos,
duas comedias--_Os Amphytrioens_ e _Filodemo_, das quaes a primeira é
quasi uma traducção de Plauto. Desde esta epocha o theatro português foi
caindo e podemos dizer que nunca mais tornou a restaurar-se.
*Novellas de cavallaria Portuguesas*
PANORAMA
1838-1840
*Novellas de Cavallaria Portuguesas*
I
Amadis de Gaula
As idéas de honra, de valentia e de amor, que occupavam quasi
exclusivamente os espiritos durante a edade média, reproduziram-se em
todas as fórmas sociaes e instituições d'aquella brilhante epocha: o
sentimento religioso traduzia-se em cruzadas ou em guerras de seitas: o
do prazer em justas, torneios e caçadas, que eram imagem da guerra, ou
em serões, onde os themas inexgotaveis dos trovadores eram ou amores ou
armas: as leis apesar de terem a sua principal origem no direito
canonico e depois no romano, lá abriam a liça aos combates judiciarios:
as habitações eram castellos, e os adornos dos aposentos corpos de armas
pendurados, lanças, e razes, onde as mãos das donzellas tinham lavrado a
historia de combates. Neste predominio exclusivo de certas idéas, como
escaparia a litteratura de ser dominada por ellas? Assim, depois das
cantigas dos trovadores, vieram os _rimances_ mais longos, os poemos e
as novellas de cavallaria. Era esta a litteratura d'aquelles seculos,
nem outra podia ser: a imaginação dos poetas e novelleiros não
alcançaria espraiar-se além das fórmas da sociedade de então; porque a
litteratura de todas as epochas sem exceptuar a nossa, não é mais do que
um echo harmonioso, ou um reflexo resplendente das idéas capitães, que
vogam em qualquer d'ellas. As aventuras, os amores, os feitos d'armas
dos heroes do Boiardo eram a imagem, vista através de um prisma, dos
homens do XV seculo: a ancia de liberdade descomedida, a misantropia, os
crimes, a incredulidade dos monstros de Byron são o transumpto medonho e
sublime d'este seculo de exaggerações e de renovação social.
O prazo durante o qual os portugueses tocaram a meta do espirito
cavalleiroso, e o conservaram em toda a pureza e vigor, prolongou-se por
obra de um seculo, desde os ultimos annos do reinado d'el-rei D.
Fernando até o d'el-rei D. Affonso V. Antes d'esse tempo nossos avós
eram demasiado rudes para conceberem e reduzirem a inteira practica a
concepção immensamente bella da cavallaria; depois d'elle, eram muito
cidadãos para serem cavalleiros. D. Alvaro Vaz d'Almada caindo morto na
batalha de Alfarrobeira era o symbolo da cavallaria expirando nas
paginas da ordenação affonsina. Nesta compilação indigesta e
essencialmente contradictoria da legislação de tres seculos, não bastava
o ser inserido o velho regimento de guerra português, emendado por
jurisconsultos, para salvar da morte a cavallaria, que outras
disposições d'esse codigo indirectamente assassinavam. Nisto como em
quasi tudo o mais, das actas das côrtes portuguesas anteriores a D. João
II e da ordenação affonsina, se póde extrahir toda a substancia
philosophica da historia dos primeiros tres seculos da monarchia.
Se o espirito puro de cavallaria dominou tão largo periodo, os
_cavalleiros-modelos_ (permitta-se-nos a expressão) foram só os que se
crearam na côrte de D. João I; e a poetica ficção dos Doze de Inglaterra
pinta a epocha em que se diz succedera essa aventura. Cavalleiros
andantes portugueses houve-os nos seculos anteriores; mas a cortesia, a
louçainha, e a galantaria que caracterizam a verdadeira cavallaria só as
amostra a nossa historia nos guerreiros indomaveis, que na batalha de
Aljubarrota formavam o esquadrão brilhante chamado a _Ala dos
Namorados_. Eram estes guerreiros que faziam aquelles _votos denodados_,
em demanda de cuja execução muitas vezes perdiam a vida: eram estes que,
discorrendo pelas terras estrangeiras, ahi deixavam perenne memoria de
seus esforçados feitos.
Foi na luzida côrte do mestre de Aviz onde achou a cavallaria de toda a
Europa o seu Homero em Vasco de Lobeira. Como antes d'aquella houve
poetas, assim antes d'este houve romancistas; como Homero eclypsou a
memoria dos cantos dos seus antecessores, assim Lobeira fez esquecer as
mal tecidas invenções dos mais antigos novelleiros, e o _Amadis de
Gaula_ é a primeira e a principal novella no extensissimo catalogo dos
contos de cavallaria.
Poucas memorias nos restam acêrca de Vasco de Lobeira. Sabe-se que foi
natural do Porto, e armado cavalleiro por D. João I antes de começar a
batalha de Aljubarrota. Viveu a maior parte da sua vida em Elvas, e
morreu em 1403.
Escripto muito antes da invenção da imprensa, o _Amadis_ correu
manuscripto até o tempo de D. João V; porque os nossos antepassados
nunca tiveram a curiosidade de o imprimir. Foram assim escasseando as
copias d'elle, e nos ultimos tempos se havia tornado tão raro que apenas
se lhe conhecia um ou dois exemplares. O conde da Ericeira, testemunha
acima de toda a excepção, o viu, e o abbade Barbosa diz que o proprio
original estava na livraria dos duques de Aveiro. O fatal terremoto de
1755 fez desapparecer este monumento precioso da nossa litteratura, e
tudo nos incita hoje a crêr que se perdeu para sempre.
Mas, se já não existe o original, existem as versões d'elle, ainda que
alteradas pelos traductores. Trasladado em hespanhol se publicou em
Sevilha em 1510. Vimos esta traducção, de que ha um exemplar na
bibliotheca publica da cidade do Porto; e bem sentimos não ter tomado
d'ella varias notas, que de grande utilidade nos foram para o que vamos
dizer. Lemos ultimamente a edição de Garciordonez de Montalvo, impressa
tambem em Sevilha, em 1526, da qual nenhum bibliographo, que nós
conheçamos, faz menção. Segundo o abbade Barbosa as edições do _Amadis_,
vertido em hespanhol, se repetiram em 1539, 1576 e 1588.
Esta novella tambem appareceu em 1540, traduzida em francês e
accrescentada por Nicolau de Herberay: em 1583 a publicaram os alemães
na sua lingua; e Bernarda Tasso, pai do grande Tasso, a reduziu em
italiano quasi por esse mesmo tempo, fazendo um poema riquissimo de
versos pomposos, e... de dormideiras. Esta acceitação unanime das
diversas nações é o maior elogio que se podia fazer á obra do nosso
Lobeira.
O _Amadis_, como hoje o conhecemos, na antiga versão hespanhola, consta
de quatro livros, o ultimo dos quaes foi grandemente alterado por
Garciordonez, segundo elle mesmo diz: "Corrigi (são palavras do prologo)
estes tres livros do Amadis, que por culpa dos máus escriptores ou
compositores mui corruptos e viciados se liam, e _trasladei_ e emmendei
o livro 4.^o". Estes quatro livros, traduzidos tambem em francês, foram
continuados por diversos auctores, constando hoje a obra de vinte e
quatro.
Sendo impossivel dar uma idéa do _Amadis de Gaula_, teia immensa de
aventuras, que ao modo das do Ariosto formam um labyrintho inextricavel,
buscaremos ao menos dar a conhecer o tempo e o logar da acção, e o seu
principal actor, com a brevidade a que nos constrangem os limites do
_Panorama_.
A epocha escolhida pelos romancistas de cavallarias para nella
collocarem os seus heroes fabulosos é indeterminada em todas as
novellas. A do _Amadis_, ainda que bastante incerta, é menos vaga. O
heroe viveu muito antes do celebre Arthur ou Artus, rei de Inglaterra:
mas já quando este país e o de França eram christãos. É o que se lê no
1.^o capitulo do _Amadis_, e sendo assim este guerreiro floresceu no VI
ou VII seculo; e como a maior parte dos romances de cavallaria, que
ainda existem, versam sobre a vida dos seus imaginarios descendentes,
podemos tambem para elles estabelecer, ainda que imperfeitamente, uma
especie de chronologia.
O theatro em que se passam as aventuras de _Amadis de Gaula_, é um
theatro quasi tamanho como o mundo conhecido no tempo de D. João I. O
heroe e os mais cavalleiros seus contemporaneos cruzavam mares extensos,
peregrinavam centenares de leguas, com a mesma rapidez e facilidade com
que nós fazemos visitas dentro de Lisboa. Esta commodidade
aproveitaram-na todos os novelleiros que vieram depois de Lobeira; e
para as distancias que seria incrivel fazer correr em curtissimo prazo a
um cavalleiro, lá estavam as magas e os encantadores, especie de espada
de Alexandre, que o escriptor sempre tinha á mão para cortar todos os
nós gordios que embaraçavam as narrações.
Não nos cabendo neste logar tudo o que temos de dizer acêrca do
_Amadis_, o deixaremos para segundo artigo, continuando nos subsequentes
com a historia das outras novellas de cavallaria portuguesas.
II
Amaclis de Gaula
(Continuação)
Promettemos no antedecente artigo dar uma brevissima idéa d'esta
primeira novella de cavallaria: cumpri-lo-hemos aqui, tocando depois um
ponto em que de proposito deixámos de falar, e vem a ser a célebre
questão acêrca de saber se esta novella é obra de um auctor português,
hespanhol, ou francês. Todas estas tres nações a pretendem para si; e na
contenda os portugueses parece estarem peior que os seus adversarios,
visto já não existir o original. Mas, ao cabo, são elles que teem razão,
segundo nosso entender; e por isso não duvidámos de attribuir o _Amadis_
a Vasco de Lobeira.
O rei Perion reinava na Gaula (França): o rei Garinter na Pequena
Bretanha, hoje a provincia de França d'este nome. Levado pelo desejo de
conhecer Garinter intenta Perion uma longa viagem[11]; e com efteito o
encontra numa caçada; dão-se a conhecer um ao outro, e Perion é
conduzido á corte do seu novo amigo. Tinha este uma filha chamada
Elisena, que se namora de Perion, o qual d'ahi a pouco parte para a
Gaula, deixando-a gravida. Ella para esquivar-se á infamia entrega o
fructo dos seus amores á mercê das ondas, encerrado em uma caixa. Foi
este Amadis. Encontrado por uma barca em que ía Gandales, cavalleiro
escocês, este o salva e cria com seu filho Gandalim, depois escudeiro de
Amadis. Os dois moços são levados á côrte de Languines, rei da Escocia.
Aqui viu a Amadis el-rei Lisuarte, que de Dinamarca vinha reinar em
Inglaterra, o qual deixou na côrte de Languines a sua filha Oriana. Foi
então que começaram os amores d'esta princeza com Amadis, que são o
principal objecto da novella. Amadis é reconhecido por seu pai Perion,
já casado com a filha de Garinter, e cresce em poder e renome. Mil
difficulclades se alevantam para elle chegar a possuir Oriana, as quaes
vence com repetidos actos de generosidade e valentia. Emfim o romance
acaba de um modo incompleto com os trabalhos que nos seus ultimos annos
cercaram a el-rei Lisuarte.
É esta, em summa, a materia que enche o volumoso romance de _Amadis_,
novella cheia de muitas paginas fastidiosas, mas tambem de muitas que
grandemente excitam a curiosidade. O estylo em que está escripto é o de
uma velha chronica do seculo XV, e notamos nelle uma grande similhança
com os escriptos do pai da nossa historia, o singelo chronista de João
I, Fernão Lopes, que tantas vezes se mostra mais poeta que muitos que se
arrogam este titulo.
Traçado um leve esboço da novella de _Amadis de Gaula_, segue-se tractar
a questão de saber se a devemos attribuir a um escriptor português.
Primeiro que tudo, é de notar que a tradição constante em Portugal foi
sempre que o _Amadis_ fôra composto por Lobeira. Antonio Ferreira e o
dr. João de Barros, que escreveram no seculo XVI, não duvidam dá-lo por
certo: o conde da Ericeira numa conta dada á academia de historia, de
certa colleção de livros que andava examinando, diz que ali se achava um
manuscripto do _Amadis_, sem que sobre isso faça admiração ou reparo; o
que parece provar que naquella academia nenhuma duvida havia acêrca da
existencia da novella, no original português. Mas não era só nossa esta
opinião: a maior parte dos escriptores hespanhoes convem em attribuir a
Lobeira o _Amadis de Gaula_.
Pretendem os franceses (não todos os que na materia teem escripto) que
esta novella fôra traduzida em hespanhol do idioma picardo, e Herberay
diz a vira nesta lingua: mas isto nada prova. Quem impedia que os
franceses traduzissem o original de Lobeira? A outra objecção contra nós
é ter feito o auctor os seus heroes franceses e ingleses; mas isto
tambem nada prova: por que prova de mais. Os ingleses teriam ainda mais
razão para pedirem a gloria d'esta obra, visto que, apesar de ser
francesa a personagem principal, a maior parte dos acontecimentos
põe-nos o auctor em Inglaterra, e quasi todos os cavalleiros notaveis
são d'este país, á excepção de Amadis e seu irmão Galaor. O certo é que
Lobeira, tendo vivido no tempo de el-rei D. Fernando I e de D. João I,
tinha visto as proezas que em Portugal obraram os cavalleiros ingleses,
a quem devemos os progressos que então fizemos na arte da guerra. Devia
elle fazer portanto alta idéa da cavallaria d'aquella nação. Nada havia
mais natural do que fazer da Inglaterra o theatro das façanhas dos seus
imaginarios heroes. Como, porém, o agente principal de todos os
successos devia ser o amor, naturalissimo era que o auctor buscasse um
principe estrangeiro que viesse tornar brilhante a côrte inglesa, com
seus amores pela dama principal, a filha de Lisuarte, que não poderia
aliás corresponder á affeição de um subdito de seu pai. Eis a razão
obvia porque Amadis é francês.
Alem d'estas observações ha uma principal, que ainda ninguem, que nós
saibamos, se lembrou de fazer: o examinar em si a novella, para ver se
das suas proprias entranhas se podia arrancar a certeza da sua origem.
Se isto se tivesse feito, a questão estaria de ha muito decidida.
Citámos mui de proposito no primeiro artigo as palavras de Garciordonez,
que diz emendara os tres livros de _Amadis_, que andavam viciados, e
_trasladara_ o quarto. Aqui o verbo _trasladar_, é claro que não póde
significar senão traduzir, o que mostra a olhos desapaixonados que a
obra não era originalmente hespanhola.
Seria francesa?--Dizemos, sem duvida alguma, que não. Perion encontrando
Garinter diz-lhe que viera de mui remotas terras para o vêr. Era
possivel acaso que um escriptor francês fizesse o rei da Pequena
Bretanhi desconhecido do da França, e pusesse na boca d'este um tão
descompassado erro geographico? Além d'isto Perion e Lisuarte reunem
_côrtes_, nos casos difficeis e circumstancias importantes: nestas
côrtes apparecem, não os barões das antigas assembleas feudaes da
Inglaterra e França, mas os _ricos-homens_ e _homens-bons_ das côrtes
portuguesas. Emfim o auctor descreve a passagem do canal de Inglaterra
como uma viagem de nove dias com vento favoravel. As frequentes relações
de guerra e de paz entre a Grã-Bretanha e a França permittiam porventura
que ignorasse um escriptor francês a distancia de um a outro país?
Nós poderiamos accrescentar muitos outros exemplos d'esta natureza; mas
cremos serem de sobejo os que apontamos, para que á nação portuguesa
seja cedida a palma de ter saído da penna de um escriptor seu a mais
antiga e mais celebre das novellas cavalheirescas.
III
Novellas do seculo XV
Quando escrevemos os dois primeiros artigos acêrca das novellas de
cavallaria portuguesas,[12] era nossa intenção continuar sem demora a
publicação do breve resumo, que encetámos d'esta parte da nossa historia
litteraria, por ser aquella sobre a qual menos se tem escripto. Mas por
isso mesmo era preciso fazer maiores indagações, que outros trabalhos
nos não permittiam. Abrimos pois, mão do intento que hoje continuamos a
pôr por obra: não porque julguemos sufficiente o que temos colligido,
desde então para cá, sobre a materia; mas porque mais valem poucas
noticias que absolutamente nenhumas.
Antes que passemos adiante cumpre-nos accrescentar aqui alguma coisa
acêrca do _Amadis_, de que largamente falámos nos artigos já publicados,
e vem a ser um testemunho que corta por uma vez a questão da sua
originalidade. Este testemunho é o de Gomes Eannes de Azurara,
historiador que os nossos leitores já conhecem[13], e que diz o seguinte
no capitulo 63 da chronica do conde D. Pedro de Menezes--«e assy o livro
d'Amadis, como quer que sómente este fosse feito a prazer de um homem,
que se chamava Vasco Lobeira em tempo d'el-rei D. Fernando, sendo
toda-las cousas do dito livro fingidas do auctor»--Este logar de um
escriptor, a bem dizer coevo, deve tirar a última sombra de duvida sobre
a nacionalidade do celebre _Amadis de Gaula_.
Assim como a côrte de D. João I foi a eschola dos mais famosos
cavalleiros de Portugal, assim a epocha do seu reinado se pode
considerar como a mais favoravel para as letras, que Portugal viu, até o
tempo de D. Manuel. D. Duarte, o bom e infeliz D. Duarte,
proporcionalmente o mais instruido dos nossos reis, não teve que ir
aprender, nem virtudes, nem cavallaria, nem sciencias nas côrtes
estrangeiras, porque as virtudes de que foi ornado, e os vastos
conhecimentos que possuiu, adquiriu-os na de seu illustre pai. O infante
D. Pedro, principe grande entre os maiores que Portugal tem gerado, se
correu o mundo foi para encher de assombro os sabios com sua sciencia,
os valorosos com seu valor.
O infante D. Henrique ha ahi quem não o conheça? Quem não conheça o
fundador da nossa gloria maritima? Certo que não. Nome é esse que nunca
esquecerá. E todavia de todos os quatro filhos de João I (contando o
infante D. Fernando) é elle quem occupa o logar mais baixo na escala das
virtudes, e porventura na sciencia apenas lhe caberá o terceiro depois
de D. Duarte e D. Pedro.
E ainda o infante D. Fernando, esse pobre cavalleiro da cruz a quem a
nação ousou negar o resgate, preferindo alguns palmos de terra cingidos
de muralhas, á liberdade e á vida de um homem leal, que bem a servira,
antepondo uma infamia a uma perda, talvez facil de remediar; ainda,
dizemos, o bom infante sancto, o martyr resignado da patria e da fé,
quão amigo e protector foi das letras e dos que as cultivavam! Fernão
Lopes e Fr. João Alvarez foram feitura sua; e, provavelmente, não nos
honrariamos hoje d'esses dois homens, dos quaes um deu o primeiro
impulso á nossa linguagem historica, e outro á nossa linguagem oratoria,
se a boa sombra de D. Fernando os não fizesse medrar. Leia-se o
testamento que fez quando mancebo partiu para a Africa, e ver-se-ha
quantos e quão notaveis livros possuia o infante; numa epocha em que,
não existindo a typographia, muitas vezes em países então semi-barbaros,
como por exemplo a Inglaterra, era necessario empenhar um castello ou um
solar inteiro para obter a copia de qualquer livro. E todavia, de todos
os quatro irmãos D. Fernando é o menos conhecido na nossa historia
litteraria.
Os vestigios da litteratura portuguesa do periodo que decorre desde os
principios do reinado de D. João I até o de D. Affonso V são
innumeraveis; mas são apenas vestigios. Das artes ahi está a Batalha, e
ainda apesar de conegos, S.^{ta} Maria de Guimarães, dizendo o que em
Portugal foi essa era de toda a casta de glorias, a que vertendo sangue,
se acolhem os corações que por ora não renegaram do nome português, hoje
vilipendiado e arrastado por tabernas e monturos d'estrangeiros. Dos
monumentos, porém, da nossa velha litteratura apenas restam alguns
nomes, e alguns titulos ou fragmentos d'obras, consumidas por incuria
propria, e por terremotos e incendios, ou roubadas por castelhanos,
franceses, ingleses, e, emfim, por todos aquelles que teem querido tomar
o leve trabalho de arrebatar, ou pôr em almoerla as preciosidades dos
nossos cartorios, bibliothecas e museus.
Do já citado testamento do infante D. Fernando, do de Diogo Affonso
Mangancha, do inventario de Vasco de Sousa, do catalogo da livraria
d'el-rei D. Duarte, e de muitos outros documentos publicados e ineditos,
bem como de varias passagens dos nossos chronistas, e ainda mais dos
historiadores monasticos, se vê quão grande era em Portugal o tracto dos
livros, numa epocha, que por ahi se chama barbara, porque era de grandes
virtudes. E não se creia que esses livros eram só latinos: pelo
contrario, a maior parte estava escripta nas linguas vulgares de
Hespanha, principalmente na portuguesa. As obras de Cicero foram
traduzidas pelo infante D. Pedro, e por sua ordem o livro do Regimento
dos Principes. Só a lista das obras d'el rei D. Duarte espanta pela
variedade de materias em que este rei philosopho empregou a sua penna
nada rude. Marco Paulo já estava traduzido no seu tempo. O livro da
côrte imperial prova que naquella epocha se tractavam em vulgar as
arduas materias de theologia polemica. Levantavam-se cartas
topographicas do reino, se é que os _Cadernos das cidades e villas de
Portugal_, que existiam na livraria d'el-rei D. Duarte, não eram antes
uma especie de estatistica, o que, em nosso entender, mais admiravel
fôra. Então, Diogo Affonso Mangancha, Fr. Gil Lobo, os dominicanos Fr.
Rodrigo e Fr. Fernando d'Arrotea, e tantos outros oradores, faziam
descer do alto dos pulpitos palavras de eloquencia e de uncção, que
chegavam ao fundo dos corações, como se viu nas exequias de D. João I.
Estudava-se a philosophia e a historia, de que dão testemunho os livros
philosophicos, e historiadores romanos e modernos da mesma livraria
d'el-rei D. Duarte. Emfim o ensino da jurisprudencia, trazido de Italia
por João das Regras, produziu uma multidão de jurisperitos, a quem
depois Portugal deveu grande parte da legislação, excellente para
aquelle tempo, que se encontra no codigo affonsino.
Que resta de tantos homens e coisas? Esse codigo, que serviu de base aos
que o substituiram. Dos livros que ajunctou D. Duarte apenas sabemos da
existencia do intitulado _Côrte Imperial_ e de um fragmento do
_Regimento de Principes_. Tudo o mais quasi com certeza se poderia
talvez dizer, que, ou o tempo o consumiu, ou jaz sepultado por
bibliothecas estrangeiras, como succede ás obras do mesmo monarcha.
Na sua já citada livraria existiam quatro obras que pelos titulos se vê
serem novellas de cavallaria. Eram estas o _Livro de Tristão_, _O
Merlim_, o _Livro de Galaz_, e o _Livro d'Hannibal_. O referido
catalogo, que apenas merece o nome de rol, só declara expressamente ser
em português o _Livro d'Hannibal_. Incrivel é quasi que o _Amadis_
ficasse sem imitadores, e poder-se-ia conjecturar que alguma das citadas
novellas fosse original portuguesa. De todas, porém, temos achado rastos
nas litteraturas estrangeiras, vindo por tanto, a serem provavelmente
todas ellas traducções do normando-saxonio (inglês), ou com mais
probabilidade da lingua d'Oil (francesa) ou da lingua d'Oc (provençal).
Para intelligencia d'esta nossa opinião poremos aqui resumidamente uma
idéa geral dos romances ou novellas de cavallaria.