Na impossibilidade de cantar os romanos, quando dignos d'este nome,

sómente restava a Virgilio um meio de satisfazer essa idéa de gloria

patria, d'esse Deus que o agitava, o collocar um monumento espantoso no

berço obscuro da sua nação: elle o fez, e a Eneida foi este monumento.

Não tendo como Homero ao menos um pequeno cabedal de realidade, elle

arrancou da phantasia todo o seu edificio, edificio o mais bem acabado

que neste genero conhecemos. Porém observemos que elle desenhou os

caracteres dos seus heroes mui differentes dos da Iliada. Os d'esta são

rudes mas sublimes, os da Eneida são macios e cuidados, mas geralmente

mesquinhos. No poema grego surgem, interessam individualmente os Aiaces,

Diómedes, Ulysses, Agamemnon e tantos outros; no latino os heroes

secundarios deslizam pelo poema, como as turbas de Roma deslizavam por

uma existencia sem significação debaixo dos pés do Cesar. De todos os

troianos, acabada a leitura da Eneida, apenas nos recordamos do filho de

Anchises: Achates, Gyas, Cloantho sumiram-se como sombras. O mesmo Eneas

tem um certo ar hypocrita que desagrada aos homens singellos e o colloca

a seus olhos bem longe de Achilles. Foi a influencia do seculo quem fez

Virgilio, nesta parte tão inferior a Homero: se o poeta tivesse vivido

no tempo dos velhos romanos, nós não possuiriamos hoje a mais agradavel

porção do 4.^o livro da Eneida. Dido não teria sido seduzida e

abandonada, embora isto contribua, e muito, para satisfazer a idéa

principal do poeta. Uma immoralidade tão vil, o ludibriar a

hospitalidade e a fraqueza só podia caber a um heroe inventado na epocha

dissoluta da queda da republica romana. Afóra isto nós não podemos

deixar de admirar Eneas; e apesar da corrupção do seculo e da propria,

Virgilio soube ainda dar um illustre fundador á sua patria. De todos os

restos de Troia só d'elle precisava o poeta, assim é que só elle

resplandece no meio dos seus troianos, emquanto os guerreiros da

Hesperia, Turno, Pallante, Lauso, Camilla, teem muitas vezes uma côr

homerica. Estes eram filhos da Italia e a Italia era o solo que viu

nascer Virgilio. Quando Voltaire, acabando de ler a Eneida, achou que

Turno interessava mais que Eneas, disse que apesar da falta da unidade

de interesse não ousava reprehender Virgilio. Nem havia de quê: a

unidade de interesse tem tanta validade como a de acção. Qualquer dos

dois que interessasse principalmente, a idéa geral estava preenchida.

Nos bellos dias de gloria de Roma, todos os povos do Lacio estavam

fundidos no romano e as suas recordações nas d'este. Escondesse o filho

de Venus o covil de Romulo com o seu escudo celeste, o fim de sua

existencia estava satisfeito, e o poeta podia na serie das variedades

buscar as que bem lhe parecessem para com ellas tirar um som accorde com

a idéa que o dominava. Segundo nosso modo de pensar em litteratura,

muitos defeitos que teem sido assacados á Eneida não existem nella. Em

nenhuma coisa offendeu Virgilio os principios eternos do bello, senão

quando o seculo com sua peçonha pôde mais do que o genio extraordinario

do poeta. Elle não teria egual se tivesse sido livre.

A ordem das idéas exige que desprezemos a rias datas. Circumstancias ha,

como o leitor verá, que nos obrigam a falar dos Lusiadas em seguimento

aos dois grandes poemas da antiguidade, e a unir as reflexões acerca do

Orlando ás que temos de fazer acêrca da Jerusalem. Os Lusiadas são o

poema onde mais apparece a necessidade de recorrer a uma idéa

independente da acção para achar a imprescriptivel unidade, e o seu

titulo nos revela logo a mente de Camões. Não foi, quanto a nós, o

descobrimento da India que produziu este poema: foi sim a gloria

nacional. Esta idéa bella, pura, immensa, como a alma de Camões, gerou

os Lusiadas. A unidade, que procurada de outro modo nào póde

encontrar-se neste poema, se encontra logo encarando-o por esta maneira.

Era o feito mais espantoso da historia portuguesa que servia de

frontispicio á longa collecção de maravilhas que ella offerecia; foi por

alli pois que rompeu a canção nacional que entoou Camões; mas todas as

recordações de Portugal, mesmo as suas debeis esperanças, estão

consignadas nos Lusiadas. Não é um facto que elle cantou; são mil

factos, mas unidos todos por um ponto, a idéa do renome português.

Camões lançou mão de nossos annaes, rasgou e maldisse suas paginas

negras, e arrojou o resto á eternidade. As differentes feições moraes

traçadas no seu poema teem uma individualidade que não cede, em nossa

opinião, á das personagens da Iliada ou da Jerusalem, mas todas com um

ideal eminente de bello ou de sublime. Poucos sentimentos houve de que o

poeta não revestisse algum de seus compatricios, e se Mr. de

Chateaubriand accusa Tasso de ter esquecido o mais puro de todos elles,

o da maternidade, não poderia dizer o mesmo do nosso Camões, que por

este lado, despindo-nos de qualquer prevenção nacional, não podemos

deixar de chamar divino. Se nisto ninguem o excede, talvez ninguem o

eguale em agglomerar num quadro selvas tão densas e variadas de imagens

e sentimentos. Diz Mr. J.B. Say que a descripção da partida dos

portugueses para o descobrimento da India é mais do que a narração de um

embarque. Nós dizemos que pouco achamos neste genero que assimilhar-lhe.

Chegando a este trecho dos Luziadas, cremos estar vendo ondear na praia

do Restello um tropel immenso de pessoas de todas as condições e edades;

cremos descobrir no gesto, nas expressões de cada uma d'ellas, a

multidão de idéas, de paixões que tal espectaculo devia excitar, e

quando ellas acabam de passar deante de nossos olhos, um velho lá surge

e fluem da sua bocca as palavras da sabedoria. Nós o escutamos: a vida

exterior nos esquece: o ancião nos fez pensar sobre a vaidade de nossas

paixões, sobre o nada de nossas esperanças; e o poeta terminando aqui e

com arte summa um canto do poema, é que nos vem despertar da nossa

meditação, abrindo o seguinte canto com estes versos, que exigem uma

expressão vagarosa, similhante ao modo por que um homem embebido em

reflexões as deixa, e começa a volver os olhos para os objectos que o

rodeiam:

Estas _sentenças_ taes o velho honrado

_Vociferando_ estava, quando abrimos

As azas ao _sereno e sooegado_

Vento, e do porto amado nos partimos.

Tal é sempre um poeta livre, celebrando as memorias de uma nação

illustre. Tal é Camões a quem não pôde envilecer nem a desventura, nem o

ar da côrte de D. João III e de seu illudido e absoluto neto, ar ja

apestado pela escravidão. Assim talvez o unico deleito dos Lusiadas seja

o seu absurdo maravilhoso, que elle deveu ao século, e de que mesmo

poderiamos tirar um argumento a favor da immensidade do genio de Camões,

se o espaço d'este artigo já demasiado longo no-lo permittisse.

A admiração e o respeito que lhe consagramos nos fez desviar um tanto do

nosso objecto: mas seja-nos isto desculpado. Só por Camões nós os

portugueses seriamos grandes. Opprobrio da Europa nos tempos modernos,

era debaixo da sua corôa de louro e das de antiga gloria, que já

começavam a desfolhar-se quando elle a cantou, que nós nos abrigavamos

para ainda entre os estranhos ousar dizer o nome de nossa patria. E esta

com que retribuiu ao poeta? Nem com um amigo. O seu Antonio era filho da

Asia. E em nossos dias levantou-se um verme da terra para insultar sua

memoria. Deshonra eterna áquelle que pretendia despedaçar-nos nosso

ultimo titulo de nobreza, nosso ultimo consolo no meio da infamia e das

desditas!

Ariosto e Tasso não tinham patria, porque é não tê-la o nascer numa

terra de servos. D'este modo as duas idéas que dão unidade a seus poemas

são duas idéas geraes, mas estranhas como taes á Italia,--a cavallaria e

as cruzadas. A segunda parece conter-se na primeira, mas considerada em

si é tão geral e tão indeterminada como ella. O que é a cavallaria? É o

espirito humano modificado de certo modo. O que são as cruzadas? A

resposta do Christianismo á terrivel pergunta que lhe fizera o islamismo

quando os sarracenos invadiram a Italia, a Hespanha e uma parte da

França. Qual de nós dominará a terra? Esta era a pergunta: a resposta

foi o som das armas nos plainos de Ascalon, o estrondo das portas de

Jerusalem estalando aos embates dos arietes de Godofredo. Incerta como a

pergunta do mahometismo foi a replica da cruz. Vagas como o seu

resultado, estas invasões longinquas teem uma certa magnificencia moral,

digamos assim, uma certa demasia de enthusiasmo religioso, de

generosidade e de valor que esses gélidos filhos do seculo XVIII, esses

compiladores e discipulos da Encyclopedia escarneceram, porque eram

incapazes de sentir profundamente o bello e sublime d'esse todo

historico das cruzadas. Foi, pois, a idéa geral de Ariosto uma epocha

brilhante; a de Tasso, a lucta e victoria da cruz contra o crescente. As

variedades relativas á primeira, eram em muitissimo maior numero do que

as relativas á segunda; assim o Orlando é mais variado do que a

Jerusalem. Multiforme, como a vida de um cavalleiro, a idade média se

apresentou a Ariosto ora sublime, ora bella, ora ridicula nas suas

variedades immensas, e se o Orlando tem muitas vezes um caracter de

verdade objectiva, isso, em vez de servir de argumento a favor da

imitação, unicamente prova haver-se muitas vezes quasi realizado o ideal

nesses tempos heróicos das nações modernas[9]. Faltam a Tasso a miudo as

côres locaes, a verdade dos costumes, porque a sua grande idéa tinha um

lado extremamente moral, e nos costumes e no historico das Cruzadas

havia muita cousa em desharmonia com ella. O poeta substituiu tudo isso

por ficções de côres muito mais bellas, e a Jerusalem ficou sendo um

canto admiravel elevado em honra do christianismo e do enthusiasmo dos

baixos tempos.

Tasso respeitava as regras: a Jerusalem _conquistada_ foi o fructo

d'esse respeito. Felizmente a _Libertada_ já era publica: aliás o poeta

perseguido pelos preceitos e pelos pedantes teria destruido a sua obra

prima para nos deixar um poema que ninguem hoje lê. Seria mais um mal

produzido pelo fanatismo litterario; e apesar de Galileo e de Dureau

Delamalle, nós folgamos que tal não acontecesse.[10]

Passámos de leve na applicação de uma parte de nossos principios aos

cinco mais celebres poemas da velha e nova Europa, porque não era

compativel com a brevidade o fazê-lo de outro modo; por essa razão fomos

talvez obscuros. Ser-nos-ha porventura dado algum dia tractar d'esta

materia, fóra de uma folha periodica: então mostraremos que esta nova

theoria não é tão horrivel como agora parecerá a muitos; nem se nos

levará tanto a mal a nossa impiedade litteraria, quando, mais

miudamente, fizermos surgir do cháos da antiga critica suas

contradicções e absurdos.

Mas, pertendendo destruir o systema da eschola classica, não somos nós

romanticos? Alguem nos terá como taes: cumpre por tanto que nos

expliquemos. Na verdadeira accepção do termo elle é o nosso symbolo;

porém este symbolo nada tem em rigor com aquillo acêrca de que havemos

falado. Tractámos das fórmas da poesia. As modernas opiniões dos

verdadeiros romanticos versam sobre a sua essencia. Verdade é que a

theoria do bello, que indicámos apenas, dá a razão da maior parte

d'essas mesmas opiniões, cujo exame nos absteremos de encetar. Diremos

sómente que somos romanticos, querendo que os portugueses voltem a uma

litteratura sua, sem comtudo deixar de admirar os monumentos da grega e

da romana: que amem a patria mesmo em poesia: que aproveitem os nossos

tempos historicos, os quaes o Christianismo com sua doçura, e com seu

enthusiasmo e o caracter generoso e valente desses homens livres do

norte, que esmagaram o vil imperio de Constantino, tornaram mais bellos

que os dos antigos: que desterrem de seus cantos esses numes dos gregos,

agradaveis para elles, mas ridiculos para nós e as mais das vezes

inharmonicos com as nossas idéas moraes: que os substituam por nossa

mythologia nacional na poesia narrativa; e pela religião, pela

philosophia e pela moral na lyrica. Isto queremos nós e neste sentido

somos romanticos; porém naquelle que a esta palavra se tem dado

impropriamente, com o fito de encobrir a falta de genio e de fazer amar

a irreligião, a immoralidade e quanto ha de negro e abjecto no coração

humano, nós declaramos que o não somos, nem esperamos sê-lo nunca. Nossa

theoria fôra a primeira a caír por terra deante da barbaria d'esta seita

miseravel que apenas entre os seus, conta um genio, e foi o que a creou:

genio sem duvida immenso e insondavel, mas similhante aos abysmos dos

mares tempestuosos que saudou em seus hymnos de desesperação: genio que

passou pela terra como um relampago infernal, e cujo fogo mirrou os

campos da poesia e os deixou aridos como o areal do deserto; genio emfim

que não tem com quem comparar-se, que nunca o terá talvez, e que seus

exaggerados admiradores apenas teem pretendido macaquear.

Falamos de Byron. Qual e, com effeito, a idéa dominante nos seus poemas?

Nenhuma ou, o que é o mesmo, um scepticismo absoluto, a negação de todas

as idéas positivas. Com um sorriso espantoso, elle escarneceu de tudo.

Religião, moral, affectos humanos, mesmo a liberdade e a esperança foram

seu ludibrio. A leitura dos seus poemas só produz, em geral,

descoroçoamento ou antes desesperação. Byron é o Mephistopheles de

Goethe lançado na vida real.--Virtude e crime, pudor e impudencia,

gloria e infamia, que montam em seus cantos sinistros? Mas o homem, ser

immortal, passageiro em um mundo transitorio, não nasceu para o

scepticismo, para um estado violento, porque elle precisa crêr, quando

mais não fosse ao menos na voz esperançosa ou ameaçadora da consciencia:

infeliz, pois, d'aquelle que ao acabar de ler Byron não sente no coração

um peso insupportavel: a sua alma será tão escura e tão vasia como a

d'este poeta sublimemente destruidor. De sua eschola apenas restará

elle; mas como um monumento espantoso dos pricipicios do genio quando

desacompanhado da virtude. Dos seus imitadores diremos só que elles

farão com seus dramas, poemas e canções em honra dos crimes, que a

Europa, volvendo a si, amaldiçoe um dia esta litteratura, que hoje tanto

applaude. Nossa prophecia se verificará, se, como cremos, o genero

humano tende á perfectibilidade, e se o homem não nasceu para correr na

vida um campo de lagrymas e despenhar-se pela morte nos abysmos do nada.

No meio das revoluções, na epocha em que os tyrannos, enfurecidos pela

perspectiva de uma queda eminente, se apressam a exgotar sobre os povos

os thesouros da sua barbaridade: emquanto dura o grande combate, o

combate dos seculos, os hymnos do desespero soam accordes com as dôres

moraes; mas quando algum dia a Europa jazer livre e tranquilla, ninguem

olhara sem compaixao ou horror os desvarios litterarios do nosso seculo.

Muitos mesmo não os entenderão.

*Origens do theatro moderno--Theatro português até aos fins do seculo

XVI*

PANORAMA

1837

*Origens do theatro moderno--Theatro português até aos fins do seculo

XVI

O país onde primeiro appareceu a arte dramatica moderna foi a

Inglaterra, se arte dramatica podemos chamar a espectaculos tirados de

passos historicos da Biblia, sem invenção ou enredo, e só copiados

litteralmente em discursos e acções. Estas primeiras tentativas

theatraes, a que depois os franceses e italianos chamaram _mysterios_,

appareceram na Grã-Bretanha durante o seculo XI. Os monges as compunham

e representavam, e ainda no fim do seculo XVI elles pediam a Ricardo II

embargasse os comediantes de exercerem uma profissão que julgavam ser um

privilegio seu, porque ordinariamente o objecto dos dramas se tirava do

velho e novo Testamento.

Pelas muitas relações que havia entre a Inglaterra e a França, parece

que os mysterios ingleses não tardaram em introduzir-se neste ultimo

país. A _Morte de Santa Catherina_, representada na abbadia de

Dunstaple, em mil cento e tantos, foi no seculo seguinte posta de novo

em scena no mosteiro de Sancto Albano em França, e é talvez esta a

memoria mais antiga que temos da arte dramatica francesa. Depois esta

continuou e cresceu, chamando se ás farças prophanas _jogos_ ou

_representações_, e aos dramas sacros _mysterios_.

A Italia começou mais tarde, com este genero de composições barbaras:

mas, tendo primeiro que nenhuma outra nação seguido o gosto da

litteratura grega e romana, brevemente o tomou tambem no theatro. Os

dramas de Mussato compostos no principio do seculo XIV, e em latim, são

_Ezzelino_ e _Achilles_, imitações de Seneca, escriptas com um tão falso

estylo como o do dramaturgo romano. Foi no XV seculo que appareceram na

Italia os primeiros dramas vulgares: Lourenço de Medicis publicou a

_Representação de S. João e S. Paulo_, e Angelo Policiano deu pouco

depois a sua tragedia intitulada _Orpheo_.

Desde o seculo XIV appareceram dramas na Alemanha; mas estes nada mais

eram do que imitações dos _mysterios_ franceses, e escriptos em latim

pelos monges. Em meado do seculo XV foi que verdadeiramente começou

neste país o theatro nacional. Hans-Folz e Rosemblut compuseram diversas

farças, que se representaram em Nuremberg e Calmar: estas farças, obra

de homens rudes, são um tecido de grossarias e indecencias apenas dignas

de se recitarem diante da plebe mais desfaçada. Depois de 1500 é que

appareceu _Hans-Sachs_, a quem podemos chamar o Gil Vicente da Alemanha.

Na Hespanha, ou porque os arabes o introduzissem, ou porque os

hespanhoes o inventassem, ou, emfim, porque muito cedo o imitassem dos

franceses, o drama remonta aos primeiros tempos da monarchia. Só, na

verdade, do principio do seculo XIV conhecemos a scena hespanhola; mas

restam memorias d'ella muitissimo mais remotas, e pouco depois de 1200,

dizem que appareceram dramas em Valenciano. Do seculo XV ainda existem

muitas composições neste genero de litteratura.

Essas primeiras tentativas dramaticas eram forçosamente um tecido sem

nexo, sem ordem, e ridiculo: os seus auctores se entregavam

desenfreadamente a todos os caprichos de uma imaginação fervente, e as

producções d'esse tempo são em geral monstruosas e absurdas. Rodrigo de

Cotta começou a dar alguma regularidade ao drama na comedia de _Calisto

e Melibea_; mas a licença de seus quadros e expressões mancha o

merecimento d'esta peça, que depois foi algum tanto corrigida e

accrescentada por Fernando de Roxas, auctor de outra comedia--_Progne e

Philomela_. Apesar de assim emendada a obra de Cotta ainda é monstruosa.

Uma serie de enredos amorosos e de crimes se encruzam e estendem ahi

através de vinte e cinco actos. Entretanto a verdade dos costumes e

caracteres e a verosimilhança dos episodios lhe deram celebridade; e com

o titulo de _Celestina_ ella foi muitas vezes reimpressa, traduzida em

diversas linguas e até na latina pelo celebre Barthius. A reputação da

_Celestina_ fez nascer os imitadores; e novas composições, com o mesmo

ou differente titulo, mas que estão longe de ter o merito da original,

surgiram brevemente em Hespanha.

Por este tempo floresceram mais outros dois auctores dramaticos, o

Marquez de Villena e João de la Enzina, que foi o principal modelo do

nosso Gil Vicente. Os dramas do primeiro foram representados em Saragoça

na côrte de D. João II, pelo meado do XV seculo; os do segundo o foram

tambem, na côrte de Fernando e Isabel nos fins d'aquella mesma era.

Resurgiam então as letras gregas e romanas, e a admiração do theatro

antigo despertou na Hespanha o genio da tragedia. Oliva publicou duas

composições trágicas--_Hécuba triste_ e _La venganza de Agamemnon_, as

primeiras que neste genero se escreveram na Peninsula. Restrictas e

acanhadas imitações dos gregos, ellas se podem considerar como

traducções livres da _Hécuba_ de Euripides e da _Electra_ de Sophocles.

Em Portugal é provavel começassem as representações scenicas pelo mesmo

tempo em que principiaram na Hespanha; mas nenhuns vestigios restam

d'esse theatro primitivo. O que é certo é que já nos fins do seculo XIV

havia em Portugal entremezes. Garcia de Rezende na chronica de D. João

II, narrando as festas que se fizeram em Evora no casamento do principe

D. Affonso com a infanta D. Isabel de Castella, fala, em varios

capitulos, dos _entremezes_ e _representaçoens_, que nessa occasião se

fizeram, dando a entender pelo modo porque acêrca d'elles se exprime,

que eram uma coisa bem conhecida e vulgar, e não é impossivel que ainda

se nos depare algum monumento d'esse nosso primitivo theatro.

Porém, o mais antigo drama que hoje conhecemos é um de Gil Vicente,

representado em 1502 na côrte de D. Manoel, e Gil Vicente é, no estado

actual da nossa historia litteraria, considerado como o fundador da

scena portuguesa, pela mesma razão porque o podemos ter por inventor dos

_rimances_, ou _xácaras_, dos quaes os mais antigos que existem são os

que elle entresachou pelos seus _Autos_, e o que elle dedicou á morte de

el-rei D. Manoel.

Gil Vicente dividiu em quatro livros as suas composições dramaticas,

incluindo no primeiro todos os autos a que chamou de _devoção_, por

versarem em geral sobre objectos biblicos e religiosos; mas estas _obras

de devoção_ parecem as menos devotas de todas, se das outras

exceptuarmos a comedia de _Rubena_ que pertence ao segundo livro. Taes

_autos_ são na essencia o mesmo que os mysterios franceses, como elles

cheios de indecencias, porém ao mesmo tempo ricos de sal e chistes. O

poeta abominava cordealmente o clero, sobretudo os frades, e não

desaproveitou occasião alguma de os presentear com chascos e epigrammas.

Os autos das _barcas_, que são como continuação uns dos outros, e formam

a _trilogia_, ou drama em tres quadros, mais antiga da Europa,

constituem com _Mofina Mendes_ e _Rubena_ a flôr do theatro de Gil

Vicente; porque talvez em nenhuma das scenas que os compõem deixa de

patentear-se em subido gráu o genio da comedia. Este poeta reunia á

qualidade de auctor a de actor; e com seus filhos representava os

proprios dramas na côrte de D. Manoel e de D. João III. Apesar de

cortesão, o poeta morreu pobre, em Evora, depois de 1550. As suas obras

se imprimiram em Lisboa em 1562, e muito mutiladas em 1586. Uma nova

edição completa se publicou ultimamente em Hamburgo em 1833.

Gil Vicente teve um filho do seu mesmo nome, que dizem desterrou para a

India, levado pelo ciume de este o exceder no genio dramatico. Ao moço

Gil Vicente se attribue a composição de um auto intitulado _D. Luiz de

los Turcos_.

Pelo meado do seculo XVI appareceram em Portugal varios poetas que mais

ou menos seguiram as pisadas do auctor de _Rubena_. Ao infante D. Luiz

se attribue o auto de _D. Duardos_, que anda impresso como de Gil

Vicente. Antonio Ribeiro Chiado, tão conhecido na côrte de D. João III e

de D. Sebastião, pelos seus gracejos e agudezas, e pela propriedade com

que remedava a voz e o gesto de todos, nos deixou dois autos assás

engraçados, o da _Natural Invenção_ e o de _Gonçalo Chambão_. Na

_Primeira parte dos Autos e Comedias Portuguezas_, publicada em 1587,

livro hoje bastante raro, se imprimiram sete autos de Antonio Prestes,

que revelam espirito comico não inferior porventura ao de Gil Vicente,

cuja escola Prestes seguiu, bem como Jorge Pinto, auctor de _Rodrigo_ e

_Mengo_, e Jeronymo Ribeiro Soares, auctor do _Auto do Fisico_, que vem

naquella collecção cuja segunda parte nunca se deu á estampa. O nosso

Jorge Ferreira de Vasconcellos, auctor dos dois romances da _Tavola

Redonda_, floresceu tambem por estes tempos. Tres composições suas nos

restam, _Aulegrafia_, _Euphrosina_ e _Ulyssipo_, a que elle chamou

comedias, e que, realmente, são antes dialogos do que dramas. Nellas

teve por alvo Jorge Ferreira reunir os proverbios e annexins da lingua

ou a philosophia popular do seu tempo, e por este lado são ellas, na

verdade, dignas da maior estimação; mas se as quisermos considerar como

dramas bem pequeno é o seu merito.

No reinado de D. Sebastião, o cego Balthasar Dias, poeta natural da

Madeira, publicou um grande numero de autos e outras obras, humildes

pelo estilo, mas com toques tão nacionaes e tão gostosos para o povo,

que ainda hoje são lidos por este com avidez. Correi as choupanas nas

aldeãs, as officinas e as lojas dos artifices nas cidades, e em quasi

todas achareis uma ou outra das multiplicadas edições dos _Autos de S.

Aleixo_, _de S. Catherina_ e da _Historia da Imperatriz Porcina_, tudo

obras d'aquelle poeta cego do seculo XVI.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 09 · 第 3 / 13 段