Quanto ao verosimil e verdadeiro na imitação, nós faremos só alguns

leves reparos, porque de outro modo seria preciso examinar as mudanças

que se teem feito na intelligencia d'este principio para devidamente o

apreciar, e este trabalho exigiria longas paginas. Aristoteles

estabelece a differença entre a verosimilhança e a verdade, dizendo que

a primeira pertence á poesia, a segunda á historia: que a primeira

consiste nos actos consequentes de um caracter em geral, a segunda nos

actos practicados por um individuo existente e determinado. D'estas

expressões resulta que para a distincção do verdadeiro e do verosimil

physico o critico grego não nos deixou nenhuma regra, e que no moral

cessa com o verosimil a imitação: na natureza não ha senão caracteres

individuaes, os geraes existem por uma idéa. Confessamos nossa rudeza;

não entendemos como as paixões concebidas da maneira que as concebe o

genio e applicadas a um individuo, ou supposto ou historico, sejam uma

imitação. Quando quisessemos exprimir esse caracter por factos, dar-lhe

uma existencia real e individua, nada mais fariamos do que destruir uma

abstracção por nos servirmos da linguagem sensualista. Além d'isso,

suppondo que todas as nossas idéas sejam resultado de sensações, a idéa

geral e absoluta de um caracter é uma chimera dando-lhe validade

necessaria e imprescritivel. Circumstancias particulares, opiniões, em

fim as _côres locaes_ viriam introduzir a confusão e a anarchia no

imperio da critica. Supponhamos que os caracteres dos heroes da Hiada

foram traçados, segundo a opinião de Aristoteles, pela idéa geral do

valor, mas nós vemos esses heroes fugirem do inimigo que temem. Odoardo

e Gildippe, na Jerusalem, cáem sob o alfange de Saladino sem terem

voltado as costas, Sueno acaba sobre os cadaveres dos seus soldados no

meio dos infiéis sem depor a espada, apesar de ser impossivel vencer.

Quem imitou a idéa geral do valor? Foi Homero ou foi Tasso?

Provavelmente Homero porque é mais antigo. Algum futuro commentador de

Aristoteles no-lo explicará.

Não nos tendo este deixado a norma para julgar o verosimil physico,

vejamos se Horacio occorreu a esta falta. Foi por ahi que elle começou a

epistola aos Pisões. Descrevendo um monstro que imaginou, convida-os a

rir do quadro que lhes apresenta--e porque? Dá o poeta a razão--_vanae

fingentur species_,--Batteux paraphraseando accrescenta--_images vagues

qui n'ont point de modèle dans la nature_. E assim, o que for vão, o que

não tiver typo na natureza nunca será bello. Pobre Homero! Os teus

cyclopes, o teu Poliphemo, os monstros de Charybdis, emfim teus lindos

sonhos devem-nos arrancar uma gargalhada. Tu mesmo, crapulario Horacio,

quererás com o teu Pegaso fazer-nos estourar de riso? Com effeito, onde

existem as ficções dos antigos monstros da mythologia? Quem viu um homem

ou um cavallo alado como o Amor e o Pegaso? Nem se diga que a crença

popular lhes tinha dado a existencia: isto são palavras que soam mas sem

sentido.--Cremos que existir na intelligencia não é existir no mundo

real. Se a phantasia produziu estas creações ellas não foram imitadas,

logo não teem modelo, logo não são bellas; porque nos persuadimos que a

mais duradoura crença nunca poderá fazer que uma coisa seja o que não

é.--Vemos, portanto, que para a theoria do verosimil pouco se aproveita

a poetica do illustre adulador de Meçenas e de Octaviano.

Talvez Boileau nos satisfaça. Eis o que encontramos nas suas doutas

poesias a este respeito:

_Rien_ n'est beau que le vrai, le vrai seul est aimable.[2]

Le vrai peut quelque fois n'être pas vraisemblabe.[3]

Qual seria a conclusão que tirariamos d'estas duas proposições,

dispondo-as em fórma de syllogismo?--Quem respeitar Despreaux não ousará

fazê-lo.

Metastasio falando da imitação nos commentarios da poetica

d'Aristoteles, nos explica em que consiste o verosimil que o imitador é

obrigado a conservar na sua imitação: «O alvo do copista, diz elle, é

que a sua cópia possa substituir o original, o do imitador é conservar a

_similhança possivel_ do objecto sem alterar a materia sujeita da

imitação». Continua depois dizendo que o _admiravel_ d'esta consiste nas

difficuldades que venceu o artista: o que, em nosso entender, equivale a

dizer que o bello consiste em vencer as difficuldades da imitação:

lembremo-nos, porém, que por este mesmo tempo Batteux reduzia as artes a

um só principio--a imitação da _bella natureza_; e louvemos a Deus pela

unidade de doutrina de uma eschola que hoje com tanta arrogancia accusa

de barbarismo e incerteza todos os principios litterarios que não se

amoldam aos seus.

Tirou Metastasio da estatuaria um exemplo para nos dar a conhecer as

differenças que ha entre imitação e cópia, mas, tractando-se de poesia,

seria talvez bom que nesta o buscasse. Nós o faremos por elle comparando

o retrato de Gabriella de Estées por Voltaire, com o de Ignez Sorel por

Chapelain.--Para os nossos leitores poderem ajuizar transcreveremos

ambos:

CHAPELAIN

En la plus haute part d'un visage celeste,

...un front grand et modeste

Sur qui vers chaque temple á bouillons séparés

Tombent les riches flots de ses cheveux dorés

Sous lui...

Deux yeux étincelans... sereins...

Au dessous se tait voir en chaque joue éclose

Sur un fond de lis blanc une vermeille rose

Qui de son rouge centre épandue en largeur

Vers les extremités fait palir sa rougeur.

Plus bas s'offre et s'avance une bouche enfantine,

Q'une petite fosse a chaque angle termine,

Et dont les petits bords faits d'un corail riant

Couvrent deux blancs filets...

VOLTAIRE

Telle ne brillait point au bord de l'Eurotas

La coupable beauté qui trahit Ménélas.

Moins touchante et moins belle, á Tarse on vit-paraitre

Celle qui des Romains avoit dompté le maitre

* * * * *

Elle entrait dans cette age, hélas! trop redoutable,

Qui rend des passions le joug inevitable.

Son coeur né pour aimer, mais fier et généreux,

D'aucun amant encor n'avoit reçu les voeux.

Semblable en son prinptems á la rose nouvelle

Qui renferme en naissant sa beauté naturelle,

Cache aux vents amoureux les trésors de son sein

Et s'ouvre aux doux rayons d'un jour pur et serein.

Quem duvidará que Chapelain imita uma bella mulher com a _similhança

possivel_ e que no retrato de Gabriella a imaginação nada póde

affigurar-se que não seja vago e indeterminado? Quem duvidará tambem que

o primeiro retrato é obra de um borrador e o segundo digno de Albano?

Comtudo hoje é reputado barbaro e extravagante quem se ri das regras da

velha poetica!...

Desde Batteux, Sulzer, Jaucourt e outros, as artes em geral e a poesia

em particular foram definidas--a imitação do bello da natureza. Esse

principio se achava nos escriptos dos antigos, mas confundido com a idéa

de que do artificio da imitação tambem resultava um prazer similhante ao

produzido pelo bello. Muito devemos a estes criticos; aliás, fugindo

constantemente da natureza para a arte e d'esta para aquella, a velha

poetica salvaria uma grande parte dos seus canones dos olhos

investigadores da philosophia. Era isto misturar a noção do agradavel

com a do bello. Os modernos, reduzindo a poesia á imitação d'este,

cairam, em nosso entender, num erro analogo confundindo-o com o bom.

Diderot disse que no util consistia o bello--Watelet que o era tudo o

que preenchia o seu fim. Mr. Lemercier dá como causa final das letras a

utilidade. Mendelssohn creu-o a expressão sensivel da perfeição, e ao

seu systema similha o de Mr. Laurentie ácerca do bello intellectual.

Todos estes enunciados se podem reduzir ao de Mr. de Bonald--o bello

absoluto é synonimo de bom. Não sabemos o que Marmontel e Laharpe

opinaram, porque temos a infelicidade de não entender as suas

deffinições.

Os sensualistas do seculo passado, depois de um longo rodeio, voltaram á

confusão do agradavel e do bello; e os espiritualistas d'aquelle seculo

e do nosso foram progressivamente tirando o bello da natureza physica e

collocando-o sómente na moralidade, ou creando uma cousa chamada _bello

relativo_ que, ou não existe ou é o mesmo que o agradavel.

Mr. Laurentie escreveu um volume para mostrar aos barbaros innovadores

que o bom e o bello moral eram inseparaveis: neste livro toma o pobre

Kant para a sua alma, visto que, por culpa d'elle, foi enxovalhado o

rico e harmonioso idioma de Paschal e Bossuet com o _Eu_ e _Não-eu_. Até

aqui bem vamos. Se Kant fosse vivo, como causa primeira de se commetter

tão horroroso attentado, devia acabar numa fogueira: e nisto, cremos,

conviria Mr. Laurentie, porque nos seus escriptos alguma pena mostra de

ter visto findar as assaduras dominicanas. Mas no que não tem razão é em

insultar a memoria do veneravel professor de Konigsberg, que estabeleceu

antes d'elle a mesma verdade, como mostrariamos se este escripto

comportasse uma exposição da doutrina d'aquelle philosopho acêrca do

juizo esthetico. Não seria melhor que Mr. Laurentie, antes de decidir

com um tom tão dogmatico e magistral estudasse primeiramente as opiniões

que intentava impugnar? Similhante altivez não nos parece concordar com

a humildade evangelica propria de um bom christão como Mr. Laurentie![4]

Insistimos na differença do bom e do bello, porque o grande nome de

Mendelssohn se colloca naturalmente á frente dos que os declaram

identicos. Esta idéa se encontra já na philosophia néo-platonica e

talvez no Hippias maior do mesmo Platão, de cujas opiniões Mendelssohn

não estava mui longe. O que Mr. de Bonald e Alletz disseram sobre este

ponto funda-se inteiramente naquellas doutrinas.

Porém serão ellas verdadeiras? Nós cremos que não. A perfeição de

qualquer coisa é o complemento de seus fins, e estes devem ser bons,

aliás não se daria aquella. D'isto resulta sempre um interesse, quer no

moral quer no physico, o que suppõe uma existencia real: porém o

sentimento do bello é desinteressado e não carece de ser acompanhado do

de existencia. Os jardins de Alcinoo, a ilha de Venus, não seriam mais

bellos se os cressemos existentes fóra da Odyssea e dos Lusiadas. A

imaginação é quem nos presta a idéa de que resulta o juizo acêrca do

bello: o bom nasce de uma idéa determinada pela razão; porque, para

julgar uma coisa boa e perfeita, é preciso saber para que serve, qual

seu alvo, quaes suas relações: um edificio irregular, mas commodo e

reparado, será bom, porque satisfaz o seu alvo objectivo: a Venus de

Medicis chama-se bella, porque satisfaz, por uma idéa da imaginação, o

jogo das nossas faculdades quando a comparamos com o ideal do bello

humano.

Dissemos que o bello moral é sempre acompanhado do bom. Concordando

nisto com as opiniões actuaes dos litteratos puros, julgamos não ser

preciso prová-lo e portanto nos absteremos d'isso. O pouco que notámos

basta para se ver em que consiste a differença das duas idéas no mundo

da moralidade.

Cremos ter indicado, bem que mui de leve, as difficuldades e por ventura

contradicções que encerra uma poetica respeitada por tantos seculos. Mas

desde Aristoteles estava apontado, e por elle mesmo, o vicio da sua

construcção. Applicando á Iliada os canones que tinha estabelecido e que

julgou ter deduzido d'ella, achou que ás vezes elles falhavam, e viu-se

obrigado a dizer que as regras se podiam pôr de parte quando o bello

assim o exigisse. Não é d'este modo que nós concebemos a poesia. Seus

preceitos devem ser imprescriptiveis sendo deduzidos do bello e de suas

condições. De que modo o nosso criterio póde ser seguro, ter este

caracter de necessidade que a consciencia requer, sendo incertos os seus

meios? O jogo de arguições e replicas que constituem o capitulo 25 da

sua poetica seria digno de um sophista, não do maior philosopho da

antiguidade: ellas fariam luzir um estudante das nossas aulas de

rhetorica em uma sabatina; mas para o estudo da litteratura parece-nos

que de nada servem.

Tendo até aqui procurado derribar, cumpria edificar agora: mas não

escrevendo um livro, nem possuindo para isso o cabedal necessario,

apenas lançaremos os primeiros traços dos (quanto a nós) unicamente

verdadeiros fundamentos de uma poetica razoavel, para estabelecer a

theoria da unidade de um modo mais conforme a razão, e ao mesmo tempo

mais concorde com os grandes monumentos litterarios.

A poesia é a expressão sensivel do bello por meio de uma linguagem

harmoniosa.

O bello é o resultado da relação das nossas faculdades, manifestada como

jogo da sua actividade reciproca.

Esta relação consistirá na comparação da idéa do objecto com uma idéa

geral e indeterminada: a harmonia d'ella resultante produzirá o

sentimento do bello: esta harmonia será sujectiva, residirá em nós; e a

sua existencia _a priori_ necessaria e universal.

Como composta a idéa do objecto leva comsigo a variedade; como geral o

outro termo da comparação é puramente subjectivo e consequentemente uno.

A condição, pois, do bello é a concordancia da variedade da idéa

particular com a unidade geral: condição que é por tanto necessaria em

todos os juizos acêrca do bello.

Mas existindo essa harmonia no jogo das faculdades e requerendo-se para

ella a unidade, esta será subjectivamente absoluta, e tudo o que na idéa

particular do objecto não estiver em relação com ella nunca poderá ser

julgado bello.

Tanto nos basta da longa e difficil theoria do bello e sublime para o

nosso intento. Na sua applicação restringir-nos-hemos aos poemas

narrativos, porque os outros, sobretudo os dramaticos, exigiram um mais

amplo desenvolvimento que não comporta este escripto.

Dos principios que apresentámos e que em parte as antecedentes

observações pediam, se colhe o sempre imprescriptivel canon da unidade,

porém esta collocada mui longe d'onde os antigos a collocavam. É uma

idéa geral e indeterminada que a torna necessaria: a acção não é mais do

que a serie de variedades que devem, digamos assim, dar um som unisono

com a idéa geral e una. Será, pois, em nosso systema o primeiro passo a

dar no exame de qualquer poema o buscar qual foi essa idéa, esse _deus

in nobis_ que constrangeu o poeta a revelar-se ao mundo em cantos

harmoniosos. Nós a buscaremos nos cinco mais celebres poemas da

Europa--_a Iliada_,--_a Eneida_--o _Orlando furioso_--os _Lusiadas_--e a

_Jerusalem libertada_. Se a theoria for verdadeira acharemos essa idéa:

as partes que os constituem serão concordes com ella; aliás estes poemas

cessarão para nós de ser considerados como absolutamente bellos, e

ficaremos persuadidos de que a Europa inteira se enganou tendo-os por

modelos do gosto.

Antes, porém, de tudo convem sujeitá-los a um exame cujo norte seja o

que a antiga poetica exige para julgar similhantes producções. Seremos

severos neste exame, mas limitar-nos-hemos ao mais importante

principio--o da unidade de acção, a que nós temos a infelicidade de não

dar valor algum. Com este nos contentamos, que de outro modo fariamos em

vez de um artigo um volume.

Quem será nosso guia para vêr em que essa unidade consiste? Aristoteles:

ninguem o refusará. Elle é o unico escriptor original sobre taes

materias: os que vieram depois d'elle o copiaram, o commentaram e talvez

demudaram suas idéas. Diz Dacier que todas as poeticas se reduzem á do

Stagyrita, e por outra parte Mr. Lemercier nos assegura ser bastante

para constituir um perfeito critico em poesia o entender bem as poeticas

de Aristoteles, Horacio, Vida e Despreaux. Reunindo, pois, as opiniões

de dois tão illustres litteratos parece-nos que nesse escripto do velho

grego devemos buscar a norma de nossos juizos para avaliar os poetas.

Busquemos lá, com effeito, em que a unidade consiste. Achá-lo-hemos no

capitulo 8. _Serão_, diz elle, _as partes de uma acção de tal geito

ligadas entre si, que tirada ou transposta uma, fique tudo destruido ou

mudado_.

São os episodios que na epopêa constituem essas partes da acção,

rigorosamente falando. Assim o julga Dacier e a Encyclopedia: assim o

cria Voltaire dizendo que os episodios similham aos membros de um corpo

robusto e bem affigurado. Um episodio, pois, que sendo omittido deixa a

acção inteira, inserido nella destruirá a sua unidade. Mas ficará,

porventura, incompleta a acção da Iliada se lhe tirarmos o longo trecho

da descripção das naus gregas e o muito mais longo do funeral de

Patroclo? Cremos que não, e que portanto se, pela poetica de Aristoteles

julgarmos a Iliada, d'ella desapparecerá a unidade.

Diz mais o critico grego, no começo d'este capitulo, que a identidade do

heroe principal nunca estabelecerá a unidade, quando as acções forem

multiplices. Ora, quem é que une a primeira metade da Eneida á

segunda?--Apenas o heroe. Tudo é novo depois da sua chegada á Italia.

Novas são as aventuras, novas são as personagens secundarias. É o mesmo

Virgilio quem nos indica a duplicidade da acção do seu poema. A

exposição da Eneida estava plenamente desenvolvida no fim do sexto

livro, e assim, logo no principio do setimo, elle nos avisa que vai

contar uma nova ordem de coisas[5]. Podemos, pois, affirmar affoitamente

que na Eneida da falta a unidade.

Quanto aos Lusiadas nada é preciso dizer. Salta aos olhos que a historia

dos doze de Inglaterra, o assassinio de D. Ignez, teem tanto com a acção

do descobrimento da India como com a da Odyssea.

Todos acham bellissimo o Orlando furioso, ainda ninguem o achou uno. A

distincção de poema heroico, de poema romance, de Dubois, Fontenelle, e

de Mr. Lemercier nada mais é do que a impotencia absoluta de applicar a

certas producções as regras da antiga poetica.

A Jerusalem libertada é o poema que mais parece ageitar-se aos preceitos

classicos pelo que toca á unidade. Entretanto qual é a acção do poema? A

conquista de Jerusalem: e acaso conduziria o episodio de Olindo e

Sophronia para o seu exito? Certo não. Além d'isso, a acção da Jerusalem

conquistada é a mesma; o poeta mudou varios episodios e ella continuou a

ser a da Jerusalem libertada, apesar de Aristoteles.

Vejamos, segundo o nosso modo de julgar, se uma uma idéa geral e

indeterminada póde estabelecer a unidade na serie de acções, de quadros

e de descripções que constituem estes cinco poemas.

No tempo de Homero a historia grega apresentava só um grande feito, a

conquista e ruina de Troia. Uma grande idéa occupava a mente do poeta e

esta idéa era a gloria da Grecia. Foi, pois, á roda d'ella que Homero

agglomerou as variedades que lhe diziam respeito. Onde existiam ellas?

Unicamente na memoria das batalhas pelejadas juncto aos muros de Troia:

mas uma parte d'essa historia era vergonhosa para os gregos. Ou

admittamos qualquer das opiniões referidas por Herodoto acêrca da queda

d'aquella populosa cidade, ou as narrações de Triphyodoro e do supposto

Dictys, a nodoa de fraqueza, quando não de dolo, sempre parece vir

manchar os gregos. Neste caso o poeta repelliu todo o odioso da historia

e aproveitou ou inventou o que dava um som unisono com a idéa que o

dominava: assim, na Iliada tudo a ella tende; assim, o poema começa

quando a ialta de Achilles deixa fulgir o valor dos outros heroes e

acaba quando a morte de Heitor devia, bem pelo contrario da verdade

historica, fazer caír Troia e dar a victoria aos gregos. Da era a mais

gloriosa da semi-barbara Grecia, foram os successos de poucos dias que

Homero escolheu para objecto de seus cantos; mas estes dias eram os mais

bellos d'aquella epocha memoranda; nelles tiveram logar os mais

brilhantes feitos de guerra tão acintosa, e o poeta ainda os tornou mais

admiraveis com os traços vigorosos do seu pincel divino.

Os caracteres dos heroes da Iliada são todos agigantados e o valor

d'estes rude, como o podia conceber a mente de Homero; mas os valentes

de Troia são sempre homens, em quanto os da Grecia são muitas vezes

semi-deuses. O mesmo Heitor, que hoje (nós pelo menos) achamos a

personagem mais interessante da Iliada, e que parece vir destruir a

opinião de que a unidade exista neste poema por uma idea vaga da gloria

patria, é uma prova do principio que estabelecemos. Para julgar Homero é

preciso collocar-nos no seu tempo e no seu país. O amor paternal e

conjugal por que Heitor nos interessa, não era para os antigos,

sobretudo nos tempos primitivos, o mesmo que para nós. A robustez de

braço e de coração era a principal virtude, e os affectos moraes estavam

apenas esboçados nessas sociedades nascentes. Por isso elle devia

interessar, não despedindo-se de Andromacha, porém combatendo por uma

causa que reputava injusta, mas que se tinha tornado a da patria; não

por suas virtudes domesticas, mas pelas virtudes publicas e por seu

valor quasi egual ao de Achilles.

Foi por causa d'este que Homero desenhou tão amplamente o caracter de

Heitor. Com effeito, aquelle guerreiro que viu fugir ante si Diomedes, o

vencedor de um nume[6], cai vencido e morto aos pés de Achilles. Quanto

este devia parecer grande entre um povo que olhava o valor e a força

como o dote mais digno do homem, e qual seria a ufania e a gloria de um

país cujos filhos assim sobrelevavam os numes.

Alguem crê dever notar o haver-nos Homero pintado Achilles arrastando o

cadaver do seu inimigo á roda dos muros de Troia. Parece-nos tambem

nascer isto de se julgar os antigos por nossas actuaes idéas. Nós vemos

que para a maior parte das virtudes sociaes elles não tinham divindades

particulares; comtudo havia-as para a amizade. Certo é, pois, que esta

nobre paixão tinha preço e valia entre elles. Esqueçamo-nos das virtudes

que devemos unicamente ao Christianismo, constituamo-nos gregos, e

vejamos qual de nós não faria o mesmo no momento da vingança e da

colera. Sómente aquelle desgraçado que não possuisse um amigo.

Se assim examinarmos toda a Iliada, acharemos sempre a idéa de gloria

patria servindo de nó a este admiravel poema que hoje se despreza por

moda, crendo-se que nisso consiste o romantismo. Já lemos numa enfiada

de versos, de que não era possivel ler vinte sem bocejar, que Homero

fazia dormir. Ao menos quem assim calca aos pés o velho trovador da

Grecia não corre o risco de lhe acontecer o caso do soldado liliputiano

que metteu a lança pelo nariz de Gulliver. Homero já não espirra. Que

pensariam taes criticos poetas se lhes dissessemos que a Odyssea, quanto

ás imagens e mesmo ás fórmas, tem muitissimos caracteres proprios da

poesia romantica? Certamente não nos entendiam. Não é em chamar ridiculo

ao que é bello, nem em destemperos que deve consistir a ingenuidade das

modernas opiniões litterarias.[7] Mas passemos a Virgilio.

Foi na epocha d'este que Roma caíu em terra e que Cepias se assentou

sobre a campa da patria. Todos sabem a historia dos feitos romanos e a

gloria que os cerca: mas a gloria acaba onde a escravidão começa. Nesta

transição appareceu Virgilio que, talvez exemplo unico, sabia mendigar

as migalhas de um tyranno e nutrir idéas generosas. As recordações da

republica, as memorias de um povo que já não existia reclamavam as

canções do poeta. Esta idéa o agitava e ella gerou a Eneida. Porém o

cortesão não podia no palacio de Augusto, nos banquetes da prostituição,

ao som dos grilhões de Roma, entoar um hymno em que a lembrança da

liberdade se associaria a quasi todas as imagens, a quasi todos os

sentimentos. Por outro lado a grinalda dos louros romanos partia de uma

caverna de salteadores: nascia de um ponto negro como o em que findava.

Este podia illustrá-lo Virgilio; uma messeniana[8] e um punhal bastavam;

mas elle queria gozos e repouso: Augusto ameigava-o, e o manhoso Mecenas

dava-lhe os meios de satisfazer seus vergonhosos appetites. O mal

denominado epicurismo que dominava na cidade eterna e que tanto

contribuiu para ella deixar de o ser, o fazia olhar a vida feliz como um

bem que se devia conservar mesmo á custa da moralidade. Tudo contribuiu

para envilecer Virgilio, e notemos que até no seu estylo encontramos a

prova disso. Aquelle lavrado, aquelle _molle atque fecetum_ que Horacio

achava em seus versos não sabemos o que tem de analogo ás palavras

suaves e attractivas de um homem abjecto quando a dula o seu patrono.

Porque haverá tantas similhanças entre as pessoas do tempo de Luís XIV

que dava pensões aos poetas, e as do seculo de Augusto que lhes dava

tambem de comer? Porque serão elles nestas duas epochas modelos de

perfeição, pelo que toca ao bem obrado do estylo, sempre em proporção de

seus serviços e da sua frequencia nos passos dos Reis e dos grandes da

terra?

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 09 · 第 2 / 13 段