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Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha
OPUSCULOS
TOMO IX
Proprietários e editores: José hastes & C.^a--Typographia da Antiga Casa
Bertrand, Rua du Alegria, 100--Lisboa, 1909.
Opusculos
POR
A. HERCULANO
TOMO IX
LITTERATURA
TOMO I
*Antiga Casa Berfrand--JOSÉ BASTOS & C.^a--Livraria Editora*
73, Rua Garrett, 75--LISBOA
Reservados todos os direitos de propriedade. Para o Brazil, nos termos
do ajuste feito entre Portugal e aquelle paiz em 9 de Setembro de 1889,
mandado cumprir pelo decreto do Governo Imperial de 14 de Setembro do
mesmo anno.
ADVERTENCIA
Na collecção dos tomos de opusculos de A. Herculano ainda até hoje não
estava representado um dos grupos em que elle a dividiu--o de
litteratura. O presente tomo vem remediar esta falta embora com a
probabilidade de ficar isolado na divisão a que pertence. Os avulsos
litterarios do nosso escriptor não são todos da mesma índole. Com alguns
d'elles, os de caracter poetico, resolvemos coordenar um volume appenso
ao grupo dos romances e lendas e que está prompto a entrar no prélo. Foi
depois d'esta selecção que passámos a apurar entre os demais os
adoptaveis para tomos de opusculos. Taes nos pareceu deverem ser os que
constassem de historia, theses, controversias e juizos litterarios.
Nestas condições a obra do escriptor era bastante para que elle tivesse
calculado formar com ella dois tomos pelo menos e por certo mais, se
aproveitasse interessantes cartas que no genero escrevera. Accresce que
sendo a maioria d'estes artigos dos primeiros tempos da vida litteraria
do auctor, elle proprio dizia tencionar acompanhá-los de um exame
retrospectivo e ampliar alguns como em parte nelles indicara. É também o
que se deduz do plano geral da publicação exposto na advertencia do tomo
I. Mas dos trabalhos complementares conducentes a esse fim, e que o
auctor de dia para dia adiava para horas de aprazivel remanso de
espirito, não achámos vestigios nos papeis d'elle. Apenas nalguns dos
artigos recolhidos neste tomo estavam indicadas breves correcções de
linguagem, das quaes introduzimos nas cópias enviadas para o prélo as de
immediata intelligencia. E ainda essas correcções, tão leves que hão-de
passar despercebidas, seriam apenas preparativos de revisão, segundo o
methodo adoptado pelo auctor,--meros signaes para marcar os logares e
lembrar o sentido em que teriam de ser feitas as definitivas. Estes os
motivos pelos quaes é provavel que tenhamos de limitar-nos ao presente
tomo em materia de litteratura, sem todavia podermos assegurar que aos
elementos que ficam de reserva, não venham de futuro junctar-se outros
que por novas pesquisas possam apurar-se, e tornem possivel o seguimento
do grupo.
Dada, porém, a abundancia de original de que dispunhamos para este tomo,
conseguimos organiza-lo de modo que os elementos que encerra quasi
constituem um todo homogeneo de doutrina, representando em globo, sem
embargo da falta de ampliações que haviam de enriquecê-lo; como que as
generalidades de um curso de litteratura moderna, prevalecendo a lição
sobre litteratura patria. E não admira que assim succeda attendendo á
relação íntima dos artigos escolhidos com o ideal da epocha em que foram
escriptos, e que dominava o espirito do auctor. Aspirava A. Herculano a
encaminhar por meio d'elles a revolução litteraria que nascera para nós
com a recente mudança de instituições politicas e que, sob o ponto de
vista poetico com intenso brilho fôra iniciada por Almeida Garrett, com
os dois poemas _D. Branca_ e _Camões_. D'ahi a feição doutrinal e
harmonica que o tomo apresenta. Sabem os leitores com que riqueza e
variedade de monumentos concorreu A. Herculano ao lado de tantos outros
privilegiados escriptores para engrandecer a imponente phase das nossas
letras que desde então se foi desenvolvendo. Juncto a esses monumentos
vem, pois, occupar agora o logar que lhe compete, a propaganda com que
elle os precedeu e os acompanhou, naquella esperançosa epocha de
revivencia nacional.
Nas paginas que precedem os artigos vão indicadas as datas em que estes
vieram a publico e as folhas de onde foram trasladados. Mas desde já
convém advertir que trouxemos os dois primeiros da folha quinzenal _O
Repositorio Litterario_, publicada durante alguns meses de 1834 a 1835
na cidade do Porto, contando o auctor vinte e quatro annos de edade. Nos
dois annos anteriores havia elle arriscado a vida em mais de vinte
combates do cêrco da cidade, em todos em que interviera o glorioso
batalhão a que pertencia de _Voluntarios da Rainha_. Segundo resam
formais attestados, e era proprio do altivo caracter que elle nunca
desmentiu, em todos esses combates dera aos companheiros de armas
exemplos de inexcedivel destemor, de arrojada bravura. Levantado o cêrco
despia os trajos de soldado e quando se lhe afigurou terminada a lucta
pelas armas, surgiu cheio de enthusiasmo, revelando inesperados
conhecimentos e como vulto dominante do Repositorio, a pelejar no campo
das idéas. Pela leitura dos dois artigos transcriptos d'essa folha, se
ajuizará da originalidade e vigor com que deu começo á propaganda
exposta no discorrer do tomo. O primeiro descreve o estado geral da
nossa litteratura naquelle periodo de transição, visando norteá-la á luz
das novas aspirações e exigencias sociaes, e nas varias fórmas em que
ella tinha de manifestar-se. O segundo trata da poesia em especial, e
como se o auctor já então quisesse dar medida do poderoso engenho
analytico de que era dotado, ao passo que vai explanando com
extraordinaria erudição e lucidez a famosa questão dos classicos e
romanticos, vai tambem deduzindo e conglobando as bases de uma alta
poetica de concepção propria, com o pensamento de afastar o genio
nascente das aberrações de uma e outra d'aquellas seitas, e de o guiar
para a fecunda desenvolução litteraria em que meditava.
A par d'estes artigos abria o novel escriptor nas columnas do
Repositorio, com a descripção das escholas de ensino elementar da
Prussia, a campanha em parte descripta no tomo VIII de opusculos, e que
não mais abandonou, em prol da instrucção popular. Provocando o
confronto da excellencia d'aquellas escholas com a obscuridade das
nossas, frisava por esse meio o alcance do grave assumpto, pondo em
relevo perante os homens cultos e aquelles a quem competisse dirigir os
destinos da nação, o maior dos obstaculos que tinham a vencer para
assegurar o bom exito das instituições liberaes. O absolutismo politico
fôra derrubado pelas armas e pelas geniaes concepções legislativas,
arremessadas contra elle em som de guerra. Chegava o momento de lançar
novas e grandes idéas, de suggestionar os espiritos para que sobre os
escombros do derrocado edificio se erguesse gradualmente o da liberdade
e da civilização. Era com o profundo sentimento, a nitida visão d'esta
imperiosa necessidade social, que A. Herculano se estreava como
propagandista no memoravel periodico portuense.
_Maio de 1907_.
O coordenador.
Qual é o estado da nossa litteratura?
Qual é o trilho que ella hoje tem a seguir?
*REPOSITORIO LITTERARIO*
1834
Qual e o estado da nossa litteratura?
Qual é o trilho que ella hoje tem a seguir?
Estas duas perguntas pedem nada menos do que a dolorosa confissão da
decadencia em que se acha em Portugal a poesia e a eloquencia, e o
encargo difficultoso de indicar os meios de melhoramento no ensino e no
estudo d'ellas. Sem pretender que sejam as unicas, nem as melhores,
exporemos a serie das nossas idéas sobre este duplicado objecto.
A convicção de uma verdade litteraria produziu nos seculos XVI e XVII um
erro na Italia, que, extendendo-se á Hespanha e a Portugal, transviou da
legitima direcção todos, ou quasi todos os escriptores da epocha chamada
do seiscentismo. Sentiu-se que a metaphora, a mais bella de todas as
figuras poeticas e oratorias, a mais repetida, a mais necessaria mesmo
nos discursos communs da vida, abundava por isso nos bons escriptores
classicos e modernos, que já nesse tempo illustravam a Europa: viu-se
que as passagens bellas ou sublimes de Horacio, Pindaro e Virgilio, de
Dante e Ariosto, deviam-lhe em grande parte a sua belleza e sublimidade,
e isto era certo; inferiu-se d'ahi que a metaphora era o principal e
talvez o unico meio da poesia e eloquencia, e que ella devia revestir
todas as imagens e sujeitar ao seu imperio todos os generos, todos os
estylos, e isto foi um erro: a vertigem metaphorica se apossou dos
poetas e oradores, e, por uma consequencia natural, o fundo das idéas
esqueceu e só se olhou para as fórmas: á sombra d'esta mania prosperavam
os conceitos e as agudezas, chegando as letras a caír numa barbarie, que
tanto mais irremediavel parecia por ser filha da civilização litteraria
já exaggerada. _O Zodiaco soberano_, _Os crystaes d'alma_, _A Fenix
renascida_ e outros muitos escriptos d'esse tempo, são lamentaveis
monumentos da corrupção de gosto a que chegou Portugal no principio do
decimo oitavo seculo.
Porém o mal não foi sem remedio, e os membros da Arcadia fizeram volver
as letras á severa singeleza das puras fórmas da Grecia. Muito ae deve a
Garção, Gomes e Quita; mas ninguem tanto como Dinis mostrou a
superioridade do genio e do gosto que caracterizaram a segunda metade do
seculo XVIII. Dando os seus principaes cuidados á poesia chamada
pindarica, genero difficil pelo audaz das figuras, pelo gigantesco das
imagens, elle soube escapar aos defeitos e frioleiras do seiscentissimo
que bebera na eschola, em composições nas quaes era mui facil
introduzir-se o mau gosto; e ainda que Quita e Garção tentaram o mesmo
genero, em nosso intender, Dinis não foi emulado. Capaz de todos os
tons, no burlesco, no pastoril, no dithyrambico, nos deixou apreciaveis
exemplos, e as suas dissertações sobre a poesia campestre são dictadas
por um grande conhecimento da arte, ainda que não excedam em merecimento
theorico as annotações de Gomes ás proprias poesias, nem os trabalhos de
Freire e posteriormente de Barbosa e Fonseca sobre as poeticas de
Aristoteles e Horacio.
Entretanto nenhum dos poetas e litteratos do seculo de José I olhou as
letras de um ponto de vista eminente. Similhantes aos escriptores do
seculo de Luiz XIV, foram muito eruditos, mas pouco philosophos, e assim
o caracter das duas litteraturas é a confusão dos principios absolutos
com os de convenção. Cingindo-se quasi cégamente á auctoridade dos
antigos, miudeada e explanada pelos commentadores, a sua obediencia
illimitada a alheias opiniões contribuiu muito para a posterior
decadencia. A impertinente questão dos archaismos e neologismos veiu
tomar o logar das discussões da Arcadia e essa occupação dos meios
talentos e da meia instrucção, influindo sobre objectos mais
importantes, viciou e acanhou toda a litteratura. Se as notas, que sobre
palavras e phrases Francisco Manuel ajunctou ás suas poesias, fossem
dedicadas a _coisas_, quão ricas messes nós colheriamos do saber d'este
homem! Mas infelizmente não foi assim, e a polemica suscitada sobre o
merito do immortal cantor dos Lusiadas, pelos insultos que contra elle
vomitou o orgulhoso auctor do gelado _Oriente_, mostraram a que
mesquinho estado tinha a critica chegado em Portugal. Parte dos reparos
que Macedo copiou dos criticos franceses ficaram sem cabal resposta,
porque os systemas estheticos mais liberaes e philosophicos que o dos
antigos, e o da eschola de Boileau, eram em geral desconhecidos entre
nós, e estamos persuadidos de que o juizo a respeito do tão grande
quanto infeliz Camões ainda resta a fazer, apesar da abundancia de
escriptos que sobre este objecto se publicaram.
Emquanto assim entre nós a critica se apoucava, um sentimento vago de
desgosto pelas antigas fórmas poeticas, a influencia da philosophia na
litteratura, a necessidade que sentia o genio de beber as suas
inspirações num mundo de idéas mais analogas ás dos nossos tempos, e
emfim, varias outras causas difficeis de enumerar, começaram a crear na
Europa uma poetica nova, ou, digamos antes, a fazer abandonar os canones
classicos. A Alemanha foi o foco da fermentação, e foi lá que os
principios revolucionarios em litteratura começaram a tomar desde a sua
origem uma consistencia, e a alcançar uma totalidade de doutrinas
methodicas e consequentes, não dada, ainda hoje, ao resto das nações. Lá
não havia a luctar com a gloria nacional para a introducção de novas
idéas, porque os monumentos da eschola afrancesada de Opitz não honravam
demasiadamente o dogmatismo intolerante do seculo de Luis XIV,
impropriamente chamado classico, e Bodmer e Breitinger deram começo á
revolução ousando preferir a poetica de Shakspeare e de Milton á de
Racine e de Boileau; comtudo as opiniões na Alemanha teem-se desviado,
em parte, d'esta direcção e as idéas de Schlegel já teem reagido na sua
tendencia um tanto nova, sobre a litteratura inglesa donde tiveram
origem. Na França o antigo systema, amparado pelo renome de muitas
producções immortaes, disputa ainda a campanha ás innovações que entre
esse povo, extremo em tudo, teem chegado a um deseafreamento barbaro e
monstruoso.
Mas a Portugal não coube o figurar nesta lide. A parte theorica da
litteratura ha vinte annos que é entre nós quasi nulla: o movimento
intellectual da Europa não passou a raia de um país onde todas as
attenções, todos os cuidados estavam applicados ás miserias publicas e
aos meios de as remover. Os poemas _D. Branca_ e _Camões_ appareceram um
dia nas paginas da nossa historia litteraria sem precedentes que os
annunciassem, um representando a poesia nacional, o _romantico_; outro a
moderna poesia sentimental do Norte, ainda que descobrindo ás vezes o
caracter meridional de seu auctor. Não é para este logar o exame dos
meritos e demeritos destes dois poemas; mas o que devemos lembrar é que
elles são para nós os primeiros e até agora os unicos monumentos de uma
poesia mais liberal do que a de nossos maiores.
Comtudo, não existindo ainda um só livro sobre as letras consideradas de
um modo mais geral e mais philosophico do que os que possuimos; sem uma
só voz se-ter levantado contra a auctoridade de Aristoleles e de seus
infieis commentadores, será impossivel emittir um juizo imparcial sobre
escriptos de similhante natureza. Julgá-los por fórmas que o poeta não
admittiu, será um absurdo, emquanto se não provar a necessidade d'essas
fórmas; e isto, mesmo que ellas sejam legitimas, só pode ser resultado
de um maduro exame ou de uma polemica sincera. Antes d'isso os velhos
eruditos, vendo offendida a _inviolabilidade_ de um tropel de preceitos
que julgavam imprescriptiveis, só darão ao genio nascente o sorriso do
desprezo; e os mancebos poetas, a quem o sentimento incerto das opiniões
contemporaneas dirige por estradas que muitas vezes não conhecem, farão
que as suas poesias corram brevemente parelhas com os desvarios que tem
ultimamente manchado a mais bella das artes na França e na Inglaterra.
Um curso de litteratura remediaria os clamnos que devemos temer, e
serviria ao mesmo tempo de dar impulso ás letras. Em Portugal ainda ha
homens cheios de vasta erudição, de philosophia e de genio. Tyrannias
mais ou menos longas, mais ou menos crueis, os teem conservado na
obscuridade de que devem saír, agora que se não receia a instrucção,
agora que os resguarda a egide da lei. Nós não desejariamos, porém, que
uma tal obra fosse puramente orgão d'esta ou d'aquella eschola; d'este
ou d'aquelle partido. Convem que os principios oppostos sejam examinados
de boa fé e sem acrimonia: a intolerancia em idéas politicas ou
religiosas é odiosa; em materias scientificas é ridicula. Se coubesse
nas nossas diminutas forças um trabalho de tanta magnitude, nós
começariamos por discutir qual é o objecto da poesia, e d'esta questão
nos parece que já se tirariam importantes resultados, e que as duas
caracteristicas--o _icastico_ e o _ideal_--que distinguem as tendencias
do antigo e do novo systema, surgiriam d'ella para nos servirem depois
na resolução de varios problemas que se nos apresentariam na serie das
nossas indagações. O exame das differentes theorias sobre o bello e o
sublime, e as consequencias, objecto immediato a que nos conduziriam os
primeiros raciocinios, dariam em resultado os principios necessarios e
universaes de todas as poeticas, e consequentemente aquelles sobre que
deveriamos emittir uma opinião absoluta e exclusiva: no resto
respeitariamos as opiniões de cada povo, de cada epocha, em tudo aquillo
em que ellas se não oppusessem aos principios geraes. Indagando a
historia da poesia nos diversos tempos e nações, vê-la-íamos depois da
queda da bella litteratura greco-latina, surgindo do norte com um
sublime de melancholia e mesmo de ferocidade, proprio dos povos que a
inventaram: veriamos esta poesia fundida com os restos da romana, e
posteriormente com a arabe, produzir as diversas especies do romantico,
d'essa poesia variada e verdadeiramente nacional, na França e nas duas
peninsulas, e termo medio entre a bella symetria classica e o sublime
gigantesco do septentrião: achariamos essa originalidade nascente da
litteratura da meia-edade destruida quasi no resurgimento das letras, e
substituida por theorias antigas, que, conservando sempre o mesmo nome,
foram sendo enxertadas em idéas, em preceitos modernos: encontrariamos,
finalmente, o espirito de liberdade e de nacionalidade da actual
litteratura. O quadro das novas opiniões nas suas variedades todas, as
vantagens ou damnos resultantes de cada uma comparada com os elementos
universaes da arte, nos poria em estado de formar um corpo de doutrina
que determinasse as proporções essenciaes da futura poesia portuguesa,
completando ao mesmo tempo uma serie de juizos imparciaes sobre as
producções das differentes eras e das differentes escholas, em relação
ao seu genio particular, e á philosophia geral das letras.
Todos sabem que os antigos dividiam a eloquencia em tres generos, que
muitas vezes se confundem: um destinado ao elogio ou á invectiva; outro
a fazer condemnar ou a absolver, a invocar a lei a favor do innocente, a
invocá-la contra o criminoso; outro, emfim, destinado a ventilar os
grandes interesses das nações nos congressos ou na tribuna popular. Foi
a estas três classes que elles reduziram a oratoria, divisão que ainda
hoje se conserva e que, apesar da sua arbitrariedade, nós respeitaremos
em nossas reflexões. Em Portugal, onde a representação nacional não
existia, onde os tribunaes eram fechados ás defesas oraes e aos juizos
publicos, e a arte de defender e accusar consistia geralmente em
conhecer os meios de oppor entre si a nossa ora mesquinha, ora
contradictoria, ora obscura legislação, e numa dialectica as mais das
vezes pueril, tanto o genero deliberativo como o judiciario não tinham
quasi applicação: ficava sómente a eloquencia dos panegyricos para o
orador profano, e uma mistura de todos os tres generos para o orador
sagrado; mas em nenhuma das duas classes temos de que nos gloriar neste
seculo. Por uma parte elogios de encommenda ou feitos com miras de
interesse pessoal não podiam sair da bocca do orador acompanhados das
inspirações do enthusiasmo; e sem convicção e persuasão propria não se
póde convencer nem persuadir os outros: por outro lado a eloquencia
sagrada nunca pôde preencher inteiramente o fim da arte, uma vez que não
divague do seu objecto--a moral religiosa. O fim da eloquencia é
persuadir; para isto não só é necessario mover os affectos, mas tambem
obrigar a razão. O usar d'este meio, nervo principal da oratoria entre
as nações civilizadas, seria ridiculo perante um auditorio christão. O
incrédulo não vai ouvir sermões, e o orador que empregasse uma logica
severa para provar a conveniencia da moral do christianismo, a quem
d'isso está de antemão convencido, obraria com tanta impropriedade, como
se o missionario diante de homens de diversa crença buscasse tão sómente
mover os affectos sem falar á razão.
O exemplo de dois grandes homens parece oppor-se ao que temos acabado de
dizer. São elles Bourdalone e Bossuet: o primeiro empregando a
severidade do raciocinio, o segundo tacteando todas as cordas do
sentimento, excitando todos os terrores, todas as esperanças da
imaginação, e ambos considerados como grandes modelos. Mas de que são
elles modelos? É, justamente, d'essa eloquencia imperfeita, cujo vicio
se contém na sua propria natureza. Com effeito, Bourdalone não
preencheu, nos discursos em que se lançou no abysmo dos mysterios, o
objecto da arte: esta dirige-se á vontade, pela acção; e a defesa
metaphysica bem que eloquente dos dogmas christãos não requer acção
alguma. Bossuet está no caso contrario: para que as suas orações tenham
effeito é necessaria a fé. O homem indifferente em materias de religião,
e que não possuir gosto bastante para avaliar seu merecimento, dormirá
tranquillamente á leitura de qualquer d'ellas, em quanto uma philippica
ou olynthia de Demosthenes fará sempre impressão em todo o homem que
tiver uma patria, uma fortuna a perder. Sabemos quanto nos pódem oppor
sobre estes dois oradores, e sobre a oratoria sagrada em geral; mas, não
sendo possivel o entrar aqui numa questão bastante vasta que estas
reflexões não comportam, lembraremos só aos leitores que nós
consideramos os panegyricos e os sermões de controversia como alheios do
pulpito; que Bourdalone, de todos os oradores sacros o que mais sentiu a
necessidade dos raciocinios como meio da eloquencia, nos seus
panegyricos fugia constantemente para a moral, o que nos faz crer que
elle a considerava o objecto da sua arte como acima dissemos. Em ultimo
logar transcreveremos uma cita da tentativa sobre a eloquencia do
pulpito pelo abbade Maury, obra a mais acreditada entre as d'esta
natureza: _J'avoue_, diz elle, _qu'il est très-rare de pouvoir suivre
cette marche didactique dans nos chaires, où les discussions morales ne
sont jamais problématiques, et où la conscience, qui ne ment jamais, ne
saurait contester la vérité à ses remords_. O que entra justamente na
ordem de nossas idéas, tanto sobre o objecto como sobre o defeito
constitutivo da eloquencia sagrada.
Voltando ao nosso país, na mesma eloquencia do pulpito, a unica em
Portugal cultivada, só um orador deixou pela estampa monumentos dignos
de exame, se attendermos á fama popular que para seu auctor grangearam:
já se vê que falamos do P. Macedo. Como orador sagrado, Macedo deveu a
popularidade de que gozou a um falso brilho no fundo das idéas, e sobre
tudo a essa instrucção perfunctoria que começa a invadir a capital e que
é mais damnosa ás letras do que a ignorancia. Sem vislumbres da
sublimidade de Bossuet, sem a uncção de Fenelon, sem a profundeza de
Bourdalone, sem a nobre e evangelica simplicidade de Paiva d'Andrade,
ganhou seu renome com os ouropeis de Seneca; mas tal renome, se ainda
soar na posteridade, não será para as suas cinzas um bafejo consolador
de gloria.
Porém não é a eloquencia sagrada que deve hoje chamar a nossa attenção:
ella tem sido o luxo da religião, e nós desejamos vê-la substituida por
meios mais conducentes a fazer prosperar esta. A bella e sublime moral
do evangelho não precisa dos soccorros da arte de Demosthenes e Cicero;
e a religião practica d'um clero virtuoso, seria a homilia mais
eloquente para insinuar a moral do Crucificado.
Antes de passar avante occorreremos a um reparo que farão os leitores: o
de não falarmos sobre a eloquéncia desenvolvida nas côrtes da nossa
primeira epocha de liberdade, que fórma uma excepção de quanto dissemos
sobre a eloquencia portuguesa do XIX.^o seculo. Tivemos para isso
razões, e talvez a principal seja o quão longe nos levaria o exame de
alguns discursos alli pronunciados; entretanto diremos por honra da
nossa patria que então appareceram mui grandes homens, e que
desejariamos ver publicar uma escolha das opiniões e relatorios então
ventilados, á maneira do que se fez em França das orações dos
representantes nacionaes desde o principio da revolução.
É, portanto, a educar homens que ventilem dignamente as questoes de
interesse publico nas camaras legislativas, ou que defendam a innocencia
e persigam o crime nos tribunaes já publicos, que o estudo e ensino
d'esta parte da litteratura se deve dedicar: é assim que nós fariamos da
essencia d'estes dois generos de oratoria o objecto da segunda parte de
um curso litterario, tocando apenas de leve quanto é formal na arte e
que sapientissimos rhetoricoes, copiando-se uns aos outros, de sobejo
explicaram; mas tractando com profundeza os principios applicaveis
principalmente aos generos judiciario e deliberativo em relação á nossa
situação politica. Para isto seria do exame da eloquencia nos
differentes tempos e logares, que nós partiriamos em nossas indagações:
veriamos Demosthenes, trovejando na tribuna, armado da razão e da
indignação, admiravelmente conciso e misturando com esta concisão os
sublimes movimentos do patriotismo, arrastar após si a opinião das
multidões; veriamos Cicero defender os seus clientes, tractar os mais
importantes negocios da republica quasi sempre com uma gravidade e
eloquencia estudadas: na historia da oratoria moderna achariamos a
vigorosa razão de Mirabeau acompanhada de um estylo raras vezes
rasteiro; achariamos nos discursos de Maury os mais bellos monumentos de
uma eloquencia mascula mas tranquilla; e, finalmente, o frenesi
inspirado pelo amor ás velhas fórmas do absolutismo nas orações de
Montlosier: passando á da Inglaterra exporiamos o genero de Pitt, genero
severo, renovado hoje por Makintosh e Burdett, a que succedeu o
igualmente nervoso, porém mais cheio de artificio, de Burke, Sheridan e
Caning, e o genero medio de Fox, terminando assim o exame das fontes
verdadeiras da eloquencia.
Seria a d'esta ultima nação que nós proporiamos como principal modelo
sem exceptuar comtudo as outras. Entre os gregos, romanos, e franceses
ha muito que aproveitar; mas, se é verdade que a litteratura em parte
depende de certa harmonia com as circunstancias de cada povo, nenhuma
eloquencia é mais digna para nós d'estudo do que a inglesa. Nem entre os
antigos, nem na republica francesa, ella estava na mesma relação com as
instituições sociaes que vai a estar na nossa patria. O orador, na
discussão de uma lei perante a plebe, que deve votar sobre ella ou
influir na votação, como acontece no calor das revoluções, tem de usar
de meios differentes dos que hade empregar para a impugnar ou defender
em uma camara, cujos membros são, ou devem ser, os mais conspicuos da
nação por suas luzes e virtudes. No primeiro caso os raciocinios convem
sejam acompanhados dos meios formais da arte para dirigir as paixões
populares; no segundo, expostos a homens que conhecem a arte tão bem
como o orador, sem alcançarem o seu effeito, os artificios só
attrahiriam sobre elle a suspeita de má fé: isto sem pretendemos dizer
que elle discuta com a secura de um geometra as questões do publico
interesse; porém os seus movimentos devem surgir sinceros de um coração
intimamente commovido e de nenhum modo dar a conhecer que foram
tranquillamente calculados pelos preceitos de Quintiliano.
Entre os romanos, a pequena porção de leis que havia ainda nos ultimos
tempos da republica e o espirito de generalidade a que se limitavam,
dava motivo a que nas causas particulares o advogado ou accusador de
qualquer réo buscasse despertar a compaixão ou a sanha dos juizes, de
quem muitas vezes era guia unica o senso commum e a moralidade, na falta
de disposições preceptivas, e apesar da similhança dos tribunaes civis e
criminaes de Roma com os nossos modernos jurados, existe entre nós e
elles uma differença enorme por causa das circunstancias legaes. Hoje,
entre os povos livres, ha, ou deve haver, um codigo que previne todos os
casos com clareza e exacção, e o mister do orador reduz-se a provar se o
seu cliente está ou não no caso da lei: então todo o pleito deverá ser
uma questão de factos provados ou provaveis, e vice-versa.
D'aqui se colhe quão sobrio elle deve ser empregando os meios que lhe
ministra a arte. Clareza, ordem de idéas, logica severa, eis os meios
principaes da eloquencia do fôro e das camaras legislativas.
Tal é o rápido quadro do nosso modo de pensar sobre a actual litteratura
portuguesa, e sobre os meios de a dirigir. As curtas reflexões que temos
feito sobre a poesia e a eloquencia são as bases em que julgamos
dever-se fundar um curso de litteratura, que serviria como de
introducção aos estudos mais profundos do poeta e do orador. Oxalá que
d'entre os nossos litteratos algum se encarregue d'esta util e
importante tarefa.
POESIA
Imitação--Bello--Unidade
*REPOSITORIO LITTERARIO*
1835
POESIA
Imitação--Bello--Unidade
Je donne mon avis non comme bon, mais comme mien.
Montaigne.
Na torrente de opiniões contrarias sobre a critica litteraria, que na
presente epocha combatem, morrem, ou nascem, tambem nós temos a nossa: e
vem a ser parecer-nos que da falta de exame dos principios em que se
fundam os differentes systemas, procedem essas questões que se teem
tornado interminaveis talvez por esse unico motivo. O genio, impellido a
produzir no meio de idéas vagas e controvertidas sobre as fórmas, as
condições da poesia, julga que todas ellas são indifferentes e
desvairado se despenha; o engenho, dominado pelos preceitos que muitos
seculos por assim dizer, sanctificaram, contrafaz e apouca as suas
producções temendo cair naquillo que julga monstruoso e absurdo. Tal é,
geralmente, o estado da litteratura: e emquanto se não estabelecer um
corpo de doutrina que, afiançando a liberdade do poeta, o circumscreva
aos limites da razão, a republica das letras similhará as associações
politicas no meio de uma revolução espontanea onde o despotismo extremo
e a extrema licença, os terrores e as esperanças, a felicidade e a
desventura, se cruzam, se arruinam e se anniquilam no meio de uma
confusão espantosa.
Os que conhecem o estado actual das letras fóra de Portugal, na França,
na Inglaterra, e ainda na Italia, sabem ao que alludimos. Trememos ao
pronunciar as denominações de _classicos_ e _romanticos_, palavras
indefinidas ou definidas erradamente, que sómente teem gerado sarcasmos,
insultos, miserias, e nenhuma instrucção verdadeira; e que tambem teriam
produzido estragos e mortes como as dos _nominaes_ e _reaes_, se
estivessemos no XVI seculo. Infelizmente em nossa patria a litteratura
ha já annos que adormeceu ao som dos gemidos da desgraça publica: mas
agora ella deve despertar, e despertar no meio de uma transição de
idéas. Esta situação é violenta, e muito mais para nós, que temos de
passar de salto sobre um longo prazo de progressão intellectual para
emparelharmos o nosso andamento com o do seculo. Se as opiniões
estivessem determinadas, o mal ainda não seria tão grande; mas é num
cháos que nos vamos mergulhar e do qual nos tiraremos talvez muito
depois de outras nações. A influencia da litteratura estrangeira torna
necessario este acontecimento, se aquelles a quem está encarregada esta
porção do ensino publico não tractarem de estabelecer uma theoria segura
que previna tanto o delirio d'uma licença absurda como a submissão
abjecta que exige certo bando litterario. Sabemos as difficuldades que
tal trabalho encerra; porém o amor da lilteratura vencerá todas quando
ajudado do estudo e do genio.
As reflexões que ora apresentamos são fructo de uma parte de nossas
meditações sobre tal objecto. Desejariamos tê-las podido coordenar todas
e estabelecer melhor algumas; mas trabalhos, posto que litterarios, de
differente especie, impostos por um dever, nos distrahiram do nosso
desenho. Offerecemo-las aos eruditos para que tendo alguma utilidade a
aproveitem e sendo damnosas acautelem d'ellas aquelles a quem podem ser
nocivas. Nós nos envergonhariamos mais de ter acertado com leveza do que
de ter errado pensando.
Talvez alguem as julgue em demasia abstrusas; mas, ou o bello, objecto
da poesia, seja inteiramente resultado das relações das nossas
faculdades intellectuaes entre si, ou das d'estas faculdades com o mundo
objectivo, ou, finalmente, resida neste, é sempre a alma do homem quem o
sente e goza. Para nós a sua existencia depende da nossa; e a
metaphysica influirá sempre em qualquer systema que sobre tal objecto
venhamos a adoptar. Tem-se dito, e mil vezes repetido, que é preciso
para que a litteratura floresça afastá-la d'esta sciencia: isto equivale
a dizer-se que para os ramos de uma arvore se conservarem virentes é
mister decepar-lhe o tronco principal. Na poesia ha essencia e fórmas:
estas devem convir áquella, ou, diremos melhor, d'ella devem partir. Sem
levar o facho da philosophia ao seio das artes, sem examinar a essencia
d'estas, as theorias formaes ficam sem fundamento; e é justamente o que
tem acontecido. Seguiu-se quanto a nós, methodo inverso ao que devera
seguir-se, e um grande mal d'ahi resultou: a fluctuação dos principios,
e consequentemente dos juizos criticos. Todos sabem das controversias de
Boileau e seus sectarios com Perrault, Lamotte, e ainda Fontenelle e
Huet; mas o que nem todos sabem é que muitas vezes os ultimos tinham
razão. E se é possivel entender uns e outros, veremos que o arruido
nascia da incerteza ou da contradicção dos preceitos, o que nunca
succederia se a poetica estivesse fundada em principios metaphysicos em
que ambos os bandos conviessem. Mas qual era a consequencia da
versatilidade das regras e das suas contradicções? O fazerem homens,
aliás engenhosos, os juizos mais contradictorios sobre a mesma coisa, e
haver uma falta de consciencia em todos esses juizos que salta aos
olhos. A critica tomou naquella epocha um caracter mesquinho e pedante.
Nem acreditemos que esse mesmo Boileau, tão gabado pelos seus franceses
como homem de summo gosto e fino tacto, sobrelevasse muito outros seus
contemporaneos. A falta d'esse gosto e d'esse tacto achamos nós numa
carta a Brossette acêrca do Telemacho. Esta grande creação de um dos
maiores genios do seculo (perdoem-nos os admiradores do inquisitorial e
raivoso Bossuet) foi comparada pelo autocrata litterario da França com o
romance de _Theagenes_ e _Chariclea_ de Heliodoro bispo de Tydea,
romance obscuro escripto na decadencia do imperio romano e da antiga
litteratura: bastava esta carta para sabermos o peso que deviamos dar ás
decisões de Despreaux, quando nas suas poesias não encontrassemos já
para isso erradas opiniões acêrca do Quinault e do Tasso.
A historia da critica em França no reinado de Luís XIV e de Luís XV, e
que tambem o é com pouca differença da que vogava em Inglaterra durante
o governo de Anna, se reduz a que, se um poeta ousava apartar-se das
fórmas imaginadas nos antigos monumentos, e se este poeta merecia a
estimação publica, os criticos se viam na necessidade ou de confessar,
se não a inutilidade, ao menos a instifficiencia de seus preceitos, ou a
votar ao desprezo as producções do genero moderno. A opção não era
duvidosa; as regras sempre tinham razão; mas como ante o tribunal da
opinião era preciso que ellas apresentassem algum titulo, ahi se corria
a pedir soccorro ao homem e ao mundo, e sempre lá se achava com que
contentar o povo litterario. Aquelles preceitos que factos oppostos não
controvertiam ficavam amparados por grandes nomes e pelo respeito dos
seculos sem dar razão da sua existencia, bem como em nossas cathedraes
os conegos á sombra do culto religioso.
A justiça pede que digamos que uma grande parte dos preceitos dos
antigos foram deduzidos do principio da unidade, d'esse principio que
reside em nossa alma e que, emquanto existirmos sobre a terra,
representa para nós o absoluto, ao qual nos faz constantemente tender a
consciencia da immortalidade; mas a applicação d'este principio foi em
nosso entender muitas vezes errada ou exaggerada. Metastasio refutou
excellentemente a regra da restricta unidade de logar e de tempo nos
poemas dramaticos, e nós veremos brevemente que nem só essa unidade
carecia de fundamento: porém, a fóra das regras nascidas d'este
principio, outras ha de tal maneira futeis que para as destruir basta
negar-lhes a validade. Que razão daria Horacio, tirada da essencia do
tirania, para uma tragedia ou comedia não ter nem mais nem menos de
cinco actos? Julgamos não teria outra melhor do que uma dada
engraçadamente pelo auctor do _Anno de 2440_ em nota a um dos seus
dramas.[1]
Nós devemos em grande parte aos antigos o que sabemos: seria uma
ingratidão negá-lo. Elles crearam as letras e as levaram a um ponto de
esplendor admiravel; mas por as crear e aperfeiçoar não se deve concluir
que acertaram em tudo ou tudo sabiam. Nós não dizemos com Mr. de
Chateaubriarid que em litteratura só devemos estudar os antigos: Camões,
Tasso, Klopstok não nasceram na Grecia ou em Roma, e entretanto achamos
tanto que estudar nos escriptos d'elles como nos de Homero e Virgilio. O
mesmo Mr. de Chateaubriand é uma prova de que o genio não é partilha
exclusiva de nenhuma epocha, de nenhum povo. No renascimento das letras
a admiração pelos auctores classicos não deixou ver seus defeitos e
erros, e julgou-se inviolavel a antiguidade. Venia mereciam os
descobridores dos preciosos manuscriptos que continham o thesouro de
idéas que nos herdaram os gregos e os romanos: laboriosas indagações,
largos annos de applicação davam jus aos Vallas e aos Philelfos, aos
Aldos e aos Stephanos, a não verem uma só macula nos objectos caros que
elles revelavam á Europa: mas que, passados dois seculos, ainda a
republica litteraria se conservasse deslumbrada pelo fulgor tios tempos
remotos, emquanto as sciencias começavam a fazer justiça e a dar o seu a
seu dono, é o que nos parece inexplicavel ou, para melhor dizer, o que
com repugnancia explicariamos.
Embora se apresentassem difficuldades insuperaveis, embora fosse preciso
recorrer ás razões mais frageis, aos argumentos mais illusorios, uma vez
que as regras fossem ou se cressem originaes, ou derivadas dos escriptos
de Aristoteles ou de Horacio, de Cicero, de Quintiliano ou de Longino,
era obrigatorio defendê-las sob pena de ser havido por ignorante ou por
homem de minguado criterio. Boileau disse em uma das suas satiras que só
a verdade era bella: o padre Castel profundo litterato que escreveu
sobre o bello e sublime e que jurava ante os numes defender esta
proposição (porque em fim era de Despreaux), sem mesmo se aproveitar da
vaga distincção do verdadeiro e verosimil, que tem salvado muita coisa e
muita gente, começou a applicá-la por esse mundo poetico; mas embicou
logo com Virgilio. O verso _Provehimur portu terraeque urbesque
recedunt_ recalcitrava, além de outros, contra a sentença do mestre. Que
fez o bom rio padre?--Zás--Uma razão digna de Fr. Gerundio: «O verso de
Virgilio exprime uma idéa verdadeira, porque ha ahi uns annos
descobriu-se a theoria do movimento; e voto a Apollo que a regra ha-de
passar inconcussa: o verso e bello porque é verdadeiro». Se fosse
possivel um padre grave ludibriar o publico, nós diriamos que elle
estava escarnecendo os leitores. Desejariamos que o padre Castel nos
tivesse explicado porque o verso era achado bello antes d'essa theoria e
porque o continuaria a ser mesmo se ella fosse destruida. Taes são as
miserias que teem resultado do modo porque durante muitos seculos foram
tractadas as letras. D'estas ninharias poderiamos dar muitos exemplos;
mas voltemos ao nosso objecto.
Depois de Aristoteles a poesia foi para os antigos a imitação do bello
da natureza, tendo por condições a unidade e a verdade, ou a
verosimilhança. É esta em nossa opinião a maneira mais simples de
exprimir a philosophia da arte entre elles, ou os elementos da sua
poetica, os quaes o continuaram a ser até nossos dias. É, pois, o valor
dos termos _imitação_, _bello_, _unidade_, _verdade_ ou _verosimil_, que
cumpre determinar para ver se as idéas que exprimem estão em harmonia
entre si, e se podem dar validade a uma poetica nellas fundada.
A imitação suppõe o bello em a natureza moral ou physica, e qualquer
d'ellas existente fóra de nós. Os actos humanos serão na primeira,
digamos assim, o _substractum_ da imitação: na segunda sê-lo-hão os
corpos, e o bello nos será communicado por meio das sensações: qualidade
dos corpos, fórma das acções, naquelles a sua impressão será universal,
nesta nunca necessaria. O europeu, o chim, o hottenlote sentirão
egualmente que o Apollo de Belvedere é bello: a acção dos templarios
cantando hymnos a Deus no meio das chammas, e cuja morte Mr. Rainouart
pintou divinamente num só verso:
«Il n'en etait plus tems, les chants avaient cessé.»
nunca será nessariamente bella: se elle a imitou de um acto humano
similhante, esse acto sendo contingente parece-nos não teria qualidade
dotada de caracter necessario: se applicarmos isto a uma acção épica ou
dramatica, ainda mais visivel é a falta de necessidade da sua existencia
e consequentemente a dos seus caracteres formaes.
Se dissermos que o bello é relativo e resultado do nosso modo de ver, da
relação particular dos objectos comnosco, da harmonia ou desharmonia dos
tactos com as nossas idéas moraes, nesse caso não poderemos affirmar que
os _Lusiadas_ ou a _Odyssea_ sejam absolutamente superiores ao _Affonso_
ou ao _Viriato Tragico_. Poderemos dizer que para nós não ha sequer
comparação; mas seria absurdo exigir dos outros o mesmo sentimento.
Boileau julgou esquivar-se a esta difficuldade asseverando que a opinião
geral devia ser a norma do nosso modo de sentir, e que a totalidade dos
homens não se engana numa crença duradoura. Desejariamos que Boileau nos
dissesse se era pela opinião geral que elle acharia frio o gelo e quente
o fogo. Que nos importa a opinião quando se tracta de sensações? Que
vale mesmo aos olhos dos homens cordatos o credito de uma opinião geral?
Cremos nós hoje na arte mágica, na alchymia, ou na virtude dos Jesuitas?
E foram estas crenças porventura pouco geraes e pouco duradouras? Quando
concedessemos o principio, elle nos seria inutil para julgar as
producções contemporaneas, e a critica não nos serviria para conservar
puras as letras, nem para gozar as creações do genio moderno: a gloria
ou o desprezo não encontraria já nem as cinzas do poeta. Seculos
haveriam passado para reformar a opinião, quando isso mesmo fosse
possivel.
Mas felizmente não é assim. Lamartine! com uma poesia celeste tu fazes
adorar a religião que saudaste em teus hymnos solitarios. Monti! tu nos
encheste de um terror delicioso conduzindo-nos aos umbraes do outro
mundo. Schiller! quem não sentiu bater mais fortemente o coração lendo a
despedida de Picolomini e Thecla? A infancia do seculo XIX já tem muitos
titulos com que faça passar sua memoria enobrecida deante dos outros
seculos. Elles julgarão como nós os genios que no meio das tempestades
politicas consolaram o genero humano com a harmonia de seus cantos.
Acêrca de Lamartine, de Monti, de Schiller, e não só d'elles, nós damos
seguro da posteridade.
Tal é o bello para quem o julgar em sua modalidade necessario e
absoluto: uma idéa opposta repugna e nos afflige: nós queremos que todos
os tempos, todos os homens o julguem e gozem como nós, e diremos sem
hesitar, o que não for de nosso sentir ou carecerá de gosto ou o terá
pervertido.
É esta circumstancia da necessidade do nosso juizo sobre o bello que
distingue inteiramente este do agradavel.--Do primeiro nós affirmamos a
existencia, do segundo a sua relação comnosco. O quadro da morte da
Clorinda na Jerusalem Libertada é bello, e que deixe os poetas aquelle
que tal não o julgar. Um pomo saboroso é para nós agradavel, talvez para
outrem o não seja, o que nos é indifferente. No primeiro caso julgamos;
no segundo exprimimos a idéa da relação particular entre nós e o
phenomeno.
A que reduzirião Burke e Delaunay a maxima parte do que escreveram sobre
o assumpto se tivessem reflectido nesta differença? Poria um porventura
os elementos do bello nas linhas curvas e no macio e tê-lo-ia outro
dividido geographicamente como se dividem as raças humanas? Estamos
persuadidos que não.
A incerteza acêrca do criterio do bello não é o unico resultado do
principio da imitação: elle tambem está em contradicção com o da
unidade: esta debalde se procuraria nos corpos: as partes do universo
coexistem; mas individualmente, e entre individuo e individuo medeia um
abysmo que rigorosamente falando nós não podemos eliminar: generos,
especies, familias, causas e effeitos necessarios são fórmulas do
entendimento; são como lhes chama Ancillon muletas da intelligencia. Se
procurassemos a fugitiva unidade do total do Universo lá mesmo ella
seria para nós a nuvem de Ixion. Com effeito, sendo impossivel á
imaginação acabar a synthese dos phenomenos, ella disse quando
cansou--isto é o universo--; mas teem acaso os objectos que produziram
essa idéa uma ligação absoluta e una entre si?--Não: a mente faz uma
abstracção similhante á que faz a historia natural deduzindo dos
individuos generos, especies, familias. O Universo não é senão a
repetição indefinida da individualidade.
Parece-nos, pois, que é forçoso ou abandonar a imitação do mundo
physico, ou não exigir a unidade nas imitações d'este genero. Outras
razões existem para provar que a mesma difficuldade apresenta a
conciliação dos dois principios no mundo moral; mas nós guardamos essas
reflexões mais complicadas para quando voltarmos a este assumpto,
temendo ser por agora tachados de prolixos.
Do que temos dicto concluimos que o bello das imagem, o bello chamado
physico não existe nos objectos porque a unidade e a necessidade da sua
existencia seriam destruidas; mas sem estas duas condições o espirito
não o admitte. É, pois, em nós, no mundo das idéas que o devemos buscar.
Um typo independente do que nos cérca, deve existir, com o qual a
faculdade de julgar possa comparar o bello de uma imagem particular.
_Eu_--_Não eu_, eis o circulo das existencias, os dois nomenos fóra os
quaes nada concebemos. Mas nós admittimos o necessario e o uno sem o
encontrarmos no que nos rodeia: cumpre, pois, que elles residam em nós
como fórmas da intelligencia.
É visivel que um typo é preciso para julgar o bello: sem elle as artes
plasticas seriam impossiveis. As comparações entre os objectos não podem
jámais estabelecer regras invariaveis de gosto, e ellas suppõem já uma
comparação anterior. Quando comparamos dois objectos, um bello outro
não, o unico resultado que tiramos d'ahi é ver que são desimilhantes:
mas por que modo agrada um, outro repugna? É sem duvida porque um
harmoniza com uma idéa, bem que indeterminada, e outro se oppõe a ella.
Será este typo resultado da experiencia? Cremos que não. Onde existe o
typo da Venus de Medicis, de Laocoonte, ou de Marco Sexto? Quem se póde
gabar de o ter encontrado na natureza? Elle existia na mente dos
artistas: as idéas d'estas creacões foram para elles antes de ser para
nós: unisonas com o seu typo, o genio as traduziu no marmore, no bronze
e na tela. Dir-se-ha, em ultimo caso, que o estatuario e o pintor
reuniram o bello parcial para formar o todo. Porém seria aggregado uno?
Além d'isso, não é claro que para essa escolha precisavam de um guia
existente na sua alma? Quem os moveu a escolher esta fronte, estes
labios, este collo com preferencia a outros? Parece-nos que estas
perguntas ficarão sem resposta emquanto os homens procurarem fóra de si
o principio vivificante das artes.