(Seculos XV e XVI)
«Em quanto a França se occupava em justas e torneios, em discordias e
guerras civís, Portugal descobria novos mundos, fazia o commercio da
Europa, e produzia um sem numero de Camões, antes que em París houvesse
um só Malherbe» diz Mr. Voltaire (_Siècle de Louis XIV_), e devêra
accresentar que, antes que nascessem Le Brun e Poussin, ja Portugal
contava, na longa serie de seus pintores, Gran Vasco, Francisco de
Hollanda, Claudio Coelho, e mil outros. D. Manoel chamado o feliz,
foi o pae das sciencias e artes: e se João III contou no seu tempo
mais sabios, que seu illustre antecessor, fructos foram, que em seu
tempo amaduraram; mas devidos ás fadigas do semeador e cultor o grande
Manoel. Gran Vasco, Gonsalo Gomes, Fr. Carlos todos são deste tempo.
O commercio e conquistas da India tinham elevado o reino a um gráo
de opulencia, desconhecido então das outras nações. D. Manoel quiz
eternizar-se com a fabrica do mosteiro de Belem; conhecendo:
_Que d’acções immortaes se murcha a gloria,
Se a não regam as filhas da memoria._
(DINIZ od.)
Os mancebos de mais esperanças foram mandados á Italia a aperfeiçoar-se
na pintura. Affonso Sanches, Fernão Gomes, Manoel Campello, Christovão
Lopes e outros, voltaram approveitados, e enriqueceram não só Belem e
Lisboa, mas o reino e toda a Europa com suas primorosas obras. Veio
depois Francisco de Hollanda, Diogo Pereira e Claudio Coelho, que não
deixaram ao seculo de Manoel e João III[28] que invejar ao de Luiz
XIV. O estylo pomposo de Miguel Angelo, que tanto agradava ao genio
altivo d’uma nação conquistadora, prevalecia muito entre os pintores
portuguezes, que nem por isso menos presaram o desenho de Raphael,
e o colorido de Ticiano, que ainda hoje se admira, em suas bellas
composições.