EPOCHA III

(Seculo XVII)

Espiraram com D. Sebastião nas areias de Africa o valor e espirito

portuguez; cairam as sciencias, esmoreceram as artes; e, com quanto

os intrusos Philippes favoreciam alguma cousa o talento; a abundancia

e riquezas, em cujo seio se crearam sempre os grandes ingenhos tinham

desamparado o reino, e sepultado a nação no lethargo politico, na

miseria e na ignorancia. As cinzas das sciencias fumegavam com tudo;

e os ultimos vislumbres d’um clarão moribundo, mas ainda grande,

allumiaram ainda a Amaro do Valle, Estevão Gonsalves, José d’Avellar e

Bento Coelho.--Surgiu finalmente a independencia portugueza depois de

60 annos de escravidão; mas o genio da nação estava muito abatido; era

necessario ainda o decurso de muitos seculos para o levantar. Vem-se

com tudo desta quadra muitas pinturas, supposto não mereçam comparar-se

com as do bom tempo de Campello e Claudio. Bem como nos animos, reinava

na pintura por estes desgraçados tempos a servidão e mau gosto, que se

limitava a copiar e imitar com baixeza; e por ventura pela mesma razão,

que nos fez desprezar a materna lingua, para escrevermos na hespanhola:

lisonja vil e indigna do nome portuguez, eterno opprobrio e mancha de

escriptores, aliás benemeritos, como Faria e Sousa, que enxovalhou sua

fama com tal baixeza e vituperio,[29] e a marcou indelevelmente com o

ferrête da sordida adulação; perniciosa mania, que tanto estragou o

idioma de Camões e Barros, e a tal ponto, que os esforços e fadigas de

tantos sabios e philologos tem sido pouco para a restaurar.

O retrato de Venus e estudos de historia litterária · 第 98 / 133 题