(Seculos XI até XIV)
O erudito arcebispo Cenaculo, Barbosa e outros modernos, na
investigação das antiguidades da pintura portugueza, conjecturaram
muito e com muita fadiga, mas pouco fructo. O desleixamento daquelles
seculos meio-barbaros em se lembrar da posteridade com a historia
de seu tempo, não deixa aos animos estudiosos, e amigos da gloria
patria, senão o desejo e infructuoso trabalho de vagar sem rumo por
um pelago de conjecturas, a qual mais vaga. Que Italia e Portugal
eram, nestas epochas remotas dos seculos XI, XII e XIII, as provincias
menos barbaras da Europa; seus monumentos publicos, templos, estatuas
e ainda livros o mestram. Alcobaça e Santa Cruz de Coimbra são, alem
d’outras, incontrastaveis provas da minha asserção. Vivia entre nós a
pintura; e vivia o melhor, que do gosto do tempo se podia esperar. Quem
exigir mais diffusão, póde ver os citados Barbosa, e Cenaculo, e todos
os allegados pelo moderno Taborda. O resultado philosophico de quanto
disseram é em poucas phrases:--Que esta arte antiquissima entre nós
remonta ao principio da monarchia.--Que barbara e gothica ao principio,
se foi pouco e pouco melhorando, já pelas viagens dos nossos mestres
á Italia, já pelas obras e pintores, que de lá vinham chamados pelo
bom acolhimento, que lhes nossos monarchas faziam.--Que existem ainda
deste tempo algumas pinturas, cujo auctor se ignora.--Que nos reinados
d’Affonso V, e João II ja tinhamos pintores de nome, como Gonsalo Nuno,
João Annes, e Alvaro de Pedro. Que o estylo da nossa pintura deste
tempo, era um mesclado de gothico e grego-moderno, similhante ao de
Cimabúe, Guido de Sienna, e Pedro Perugino.--O gôsto do _antigo_, que
então começava a prevalecer na Italia, e que de lá se communicou a
Portugal pela protecção, com que o amador das boas-artes, D. Manoel
especializou a pintura, assignala a segunda epocha, que se deve contar
do XV seculo.