Tem-se escripto muito, e muito controvertido sobre a Pintura
portugueza, e sua historia; mas tanto nacionaes, como estrangeiros
(affoitamente o digo) sem critica. O exame de seus escriptos, das
obras dos nossos artistas me suscitou a ideia de entrar com o faxo
da philosophia neste cahos informe e desembaraçar, quanto em mim
fosse, com o fio da critica este inextricavel labyrinto. Não pretendo
adiantar ideias novas: pois donde as haveria? Menos ainda refutar as
poucas historicas que temos: pois que documentos poderia allegar? Mas
simplesmente examinar o que ha, e dar-lhe ordem e methodo. Eis aqui o
que é meu, o resto é dos escriptores, de quem o houve. Com estes dados
considerei em Portugal quatro epochas de pintura, umas mais, outras
menos brilhantes: por via destas divisões será por ventura mais facil o
formar um systema historico desta boa-arte entre nós.