--Fica para traz--aconselhou o marido á mulher quando entraram na

cosinha, eu vou matal-o com o machado, mas se o não matar d'um só golpe,

tu abres-lhe a barriga!

João-Pequenino--ao conhecer a voz do pae--pôz-se a gritar:

--Sou eu, meu pae, sou eu que estou na barriga do lobo!

--Graças!--exclamou o pae louco de contente.--Ora até que emfim que o

nosso filho foi encontrado!...

E disse logo á mulher que puzesse de parte a fouce não fosse ferir o

João-Pequenino. Em seguida com faca e tesoura abriu a barriga do lobo

d'onde saltou lesto o nosso sympathico João-Pequenino.

--Não pódes calcular, filho,--exclamou o pae--os sustos que temos tido

com a tua sorte!

--Acredito, pae... mas olhe, eu fartei-me de correr mundo;

felizmente que já vejo a luz do dia!

--Onde tens tu estado?

--Ora, onde tenho estado! Estive n'uma toca de rato, na cavidade de uma

arvore, no feno, na barriga de uma vacca, no estrume e por fim na

barriga de um lobo! Agora estou com os meus queridos paes!

--E nós não te tornariamos a vender por dinheiro algum d'este

mundo!--disseram os paes abraçando-o e apertando-o contra o coração.

Deram-lhe de comer e vestiram-lhe outro fato, pois o primitivo vinha em

estado lastimoso, o que é natural, attendendo aos sitios pouco limpos

por onde viajára o nosso João-Pequenino.

Os tres cabellos d'oiro do Diabo

Era uma vez uma pobre mulherzinha que deu á luz um filho, e como elle

tivesse nascido n'um folle, não tinha ainda visto a luz do dia, e já

prediziam que aos quatorze annos casaria com a princeza. Pouco tempo

depois appareceu na aldeia, vindo incognito, o rei, que, perguntando que

novas havia, ouvira dizer:

--Não ha muitos dias nasceu um rapazinho n'um folle, o que indica vir a

ser muito feliz, demais que já lhe auguraram casamento com a princeza,

quando chegasse aos quatorze annos.

O rei--que não tinha bom fundo--ficára agastado com a previdencia; pediu

para lhe indicarem a morada dos paes do rapaz, para onde se dirigiu com

sorrisos. Em seguida falou assim:

--Sois pobres, por isso peço que me confieis o rapaz, a quem arranjarei

um bom futuro.

Os paes, a principio, recusaram similhante proposta; mas o desconhecido

offereceu-lhes uma grossa maquia em ouro; lembrando-se elles da

predicção de que, tendo nascido n'um folle, nada de mau lhe podia

acontecer, resolveram acceitar, separando-se do filho.

Assim que d'alli saíu, o monarcha metteu o rapazinho n'uma caixa, que

amarrou á sella do cavallo e continuou sua derrota. Não tardou a

encontrar um ribeiro, com certa fundura, para onde atirou a caixa,

exclamando:

--E assim livro minha filha de casar com tão desgraçado pretendente!

Mas o mais curioso é que a caixa não naufragou, bem pelo contrario

singrou o rio ao sabor da corrente como se fôra um barquinho, sem que

uma só gotta d'agua lhe entrasse dentro. A caixa correu á tona d'agua a

uma distancia de duas milhas da cidade; ahi encontrou um obstaculo: as

rodas de um moinho, onde encalhou. Um moço de moleiro, que por

casualidade se encontrava a curtos passos d'alli, viu-a e rebocou-a com

uma fateixa, crente de que encontraria uma riqueza. Abriu-a, pressuroso,

mas a riqueza appareceu-lhe na figura de um menino esperto e risonho.

Levou-o aos amos que, como não tinham filhos, bem contentes ficaram com

o achado, e disseram em côro:

--É Deus que nol-o envia!

Por conseguinte, tomaram-n'o á sua conta e educaram na practica das

boas acções o orphãosinho. Passados annos, o soberano, fugindo a um

temporal, refugiou-se certa tarde em casa do moleiro, a quem perguntou

se o rapaz que tinha alli era seu filho.

--Não--responderam o moleiro e a mulher.--É um menino abandonado, que ha

quatorze annos veiu trazido pela corrente dentro d'uma caixa até á calha

do moinho; o moço, que estava perto, puxou-a e trouxe-a para terra.

A estas declarações, o rei percebeu logo que o rapaz não podia ser outro

senão o menino que nascêra n'um folle, e tanto que perguntou:

--Digam-me: este rapaz não podia ir fazer-me um recado, levar uma carta

á rainha minha mulher? Dou-lhe duas moedas de ouro por este pequeno

trabalho.

--Quando vossa magestade quizer!--redarguiram de prompto moleiro e

moleira.

Em seguida mandaram pôr a postos o rapaz.

O rei, entretanto, dirigia esta carta á rainha:

«Apenas o rapaz, portador d'esta, ahi chegue, dá-te pressa em mandal-o

matar e enterral-o em seguida; o resto será resolvido no meu regresso.»

O mocinho partiu com a carta e chegou pela noite a uma grande matta; por

entre a escuridão avistou uma luzinha. Seguiu n'essa direcção e depressa

parou perto de uma cabana. Entrou e viu sentada uma velha, sózinha, ao

pé de uma lareira. Ao vêr o rapaz ficou tranzida de medo, e gritou:

--D'onde vens e para onde vaes?

--Venho do moinho--respondeu--e vou ao palacio levar uma carta á rainha;

como, porêm, me perdi na matta, muito grato me seria passar aqui a

noite.

--Infeliz creatura!--redarguiu a velha.--Vieste ter a uma caverna de

salteadores, que, se aqui te encontram, são muito capazes de te darem

cabo da pelle!

--Venha quem vier, de nada me arreceio; estou bastante fatigado para que

possa continuar a jornada.

Dictas estas palavras, sentou-se n'um banco e adormeceu.

D'ahi a pouco appareceram os salteadores que perguntaram irritados quem

era aquelle intruso.

--Ora--retorquiu a velha--é um pobre moço que se perdeu na matta e a

quem recolhi por dó; foi encarregado de levar uma carta á rainha.

Os salteadores apoderaram-se da carta, partiram-lhe o sinete e leram,

vendo pelo conteudo que, apenas chegasse, o portador seria executado.

Esta circumstancia tão mal os impressionou que o capitão da

quadrilha rasgou-a e escreveu outra em que dizia que apenas o portador

chegasse lhe fizessem o casamento com a princeza.

Feito isto, deixaram-n'o dormir socegadamente no banco até o dia

seguinte; quando acordou, restituiram-lhe a carta e indicaram-lhe a

estrada real.

Entretanto, a rainha apenas leu a carta, que passára como escripta pelo

rei, ordenou grandes festas para o casamento da filha com o rapaz

nascido n'um folle. Como este era perfeito, amoravel e dotado de bom

coração, a princeza vivia feliz e satisfeita.

Passado tempo, o soberano regressou ao palacio, e, com grande espanto

seu, viu que a predicção se realizára do rapaz nascido n'um folle, casar

com a princeza.

--Como foi isto arranjado?--perguntou á rainha.--Havia dado outra ordem

na minha carta!

A rainha apressou-se a mostrar-lhe a carta afim de se certificar do que

havia escripto. O rei leu-a, e viu que fôra trocada. Perguntou ao rapaz

o que havia feito da carta que lhe confiára, e como é que havia trazido

outra.

--Não sei!--respondeu o rapaz. Só se me foi roubada na noite que passei

na matta; aproveitando-se do meu somno.

O rei tornou irritado:

--Não me serve essa desculpa, e tanto que minha filha não te pertence,

emquanto me não trouxeres do inferno tres cabellos d'ouro da cabeça do

diabo; satisfeita esta condição, restituo-te a princeza.

O soberano, falando assim, cuidava que ficaria livre d'elle de uma vez

para sempre. Como resposta, o rapaz nascido n'um folle disse ao rei:

--De boa vontade acceito a sua proposta de trazer os tres cabellos

d'ouro, tanto mais que não me arreceio do diabo!

Dictas que foram estas palavras, despediu-se e pôz-se a caminho.

Esta estrada ia ter a uma cidade, ás portas da qual estava uma

sentinella que lhe perguntou em que elle poderia ser-lhe util e o que é

que sabia.

--Sei tudo--respondeu o rapaz nascido n'um folle.

--N'esse caso, pódes-nos indicar com facilidade a razão porque a fonte

do mercado d'onde corria vinho, hoje não deita nem uma gotta d'agua?

--Depois o direi--respondeu o nosso viandante.--Espere que eu volte.

Em seguida, continuou o seu caminho até chegar ás portas d'outra cidade.

A sentinella, que estava no seu posto, perguntou-lhe egualmente em que é

que elle podia tornar-se util e o que é que sabia.

--Sei tudo...

--Por conseguinte, só tu nos podes prestar um grande serviço em nos

dizer qual o motivo porque a arvore da praça, que antigamente nos dava

maçãs d'ouro, hoje nem sequer folhas apresenta.

--Quando voltar darei explicação--respondeu.

E lá foi andando, andando até que chegou a um largo rio que precisava

atravessar. O barqueiro, que estava proximo, perguntou-lhe tambem em que

é que elle lhe poderia ser prestavel e o que é que sabia.

--Sei tudo!--retorquiu o viajeiro nosso conhecido.

--Pois tu é que estás nas melhores condições para me dizer qual a causa

porque é que ando a remar n'este barquinho de um lado para o outro sem

que possa livrar-me d'este encargo.

--Dir-t'o-hei á volta--respondeu.

Assim que se viu na margem opposta, reparou logo na bocca do inferno.

Estava escuro, e chegava-lhe ao nariz o cheiro da fuligem. O diabo não

estava em casa. Só lá estava a mãe, sentada n'uma larga poltrona que

perguntou ao arrojado mocinho:

--Que queres tu d'aqui?--e olhava-o com certo ar de sympathia.

--Queria possuir tres cabellos d'ouro da cabeça do diabo, pois que se

não os consigo, fico sem a minha noiva.

--É querer muito--retorquiu a velha--porque se o diabo entra e te vê

aqui, não ganhas para o susto; mas tenho pena de ti e por isso te auxilío.

Quando acabou de falar, transformou-o n'uma formiga e aconselhou-o:

--Mette-te n'uma das prégas da saia, pois estás seguro do perigo.

--Está bem, mas eu desejava tres respostas a tres perguntas: qual a razão

porque uma fonte que antigamente deitava vinho, agora nem uma gotta d'agua

deita; porque é que uma arvore que d'antes dava maçãs d'ouro, agora nem

folhas tem; e, finalmente, qual o motivo porque um pobre barqueiro tem de

remar d'uma banda para a outra, sem que se substitua.

--São problemas com certa difficuldade de solução, mas ouve com attenção

e não dês palavra; escuta com cuidado as respostas que hão de coincidir

com o arranque dos tres cabellos de ouro.

Ao anoitecer, voltou o diabo. Ainda bem não tinha posto o seu

pé-de-cabra dentro do inferno, e já notava um certo cheiro que lhe era

estranho.

--Cheira-me a carne humana--dizia elle fungando.--Alguma cousa ha aqui

que não é costume!

E poz-se a esquadrinhar por todos os cantos, mas nada encontrou. A mãe,

então, ralhando-lhe, disse:

--Ainda agora arrumei a casa e andas tu a pôr tudo em polvorosa; não

tens outro cheiro que não seja o de carne humana! Anda d'ahi, senta-te e

come, que o teu mal é fome!

Depois de ter comido e bebido bem, sentiu-se cançado, collocou a cabeça

no regaço da mãe, a quem pediu para o embalar. Não tardou a adormecer,

roncando que nem um porco e assobiando como uma locomotiva. A velha

aproveitou esse ensejo para lhe arrancar um cabello d'ouro.

--Ai!--fez o diabo--que faz mãe?

--Ora, deixa-me cá: tive um sonho terrivel, e por isso é que te arrepellei.

--Com que sonhou então?

--Sonhei que uma fonte que antigamente dava vinho, agora nem agua

deita. Porque será?

--Se soubesse!--respondeu o demo.--Debaixo d'uma pedra vive um sapo;

assim que o matem, a fonte continuará a deitar vinho.

A velha tornou a embalál-o e d'ahi a pouco Satan resonava e assobiava em

alto ruido, e com tal força que até as vidraças estremeciam. A velha,

vendo-o assim, arrancou-lhe o segundo cabello.

--Ui!--gritou sobresaltado o rei dos infernos--que pezadello foi esse mãe?

--Não te apoquentes, filho, foi um outro sonho que tive.

--E de que constava elle?--interrogou Belzebuth.

--De uma arvore que antes produzia maçãs d'ouro e que actualmente está

despida de folhas. Qual a rasão do caso?

--Ora, é bem simples! tornou o demonio. É um rato que roe a raiz.

Matem-n'o que a arvore continuará a dar maçãs d'ouro; do contrario, o

rato continuará na sua obra de destruição e a arvore definhará. Mas

deixe-me socegado com sonhos; se me torna a acordar, não tenho outro

remedio senão faltar-lhe ao respeito.

A velhota ameigou-o com boas palavras, e continuou acalentando-o, até

que o viu de novo ferrado no somno; então, arrancou-lhe o terceiro

cabello. O diabo deu um pulo, soltou um grito e ia-se zangando devéras

com a mãe, mas esta cortou-lhe os impetos, dizendo:

--Oh, filho, quem é que é superior aos sonhos!

--Que sonho foi esse para assim me despertar! Decerto é muito curioso!

--Sonhei que um barqueiro se lastima bastante em andar de uma banda para

outra sem que seja substituido.

--Porque é um asno chapado!--exclamou Satanaz--Ao primeiro passageiro

que lhe peça para atravessar a margem, não tem mais do que entregar-lhe

os remos e pirar-se!...

Agora a velha, que já tinha arrancado os tres cabellos d'ouro e que

tinha na mão a chave dos tres enigmas propostos, deixou em paz o diabo,

que dormiu a somno solto até madrugada.

Logo que o demonio saíu dos lares, a velha pegou na formiga, deu de novo

figura de gente ao rapaz nascido n'um folle, e disse-lhe:

--Aqui tens os tres cabellos de ouro; quanto ás respostas dadas pelo

diabo ás perguntas que formulaste, creio que as ouviste.

--Certamente que as ouvi e não me esquecem.

--E assim alcançaste o que querias--continuou a boa velha.--Agora pódes

tornar para d'onde vieste.

O mocinho agradeceu muito o auxilio que a velha lhe havia prestado e

saíu do inferno bem contente por haver conseguido os seus fins. Assim

que chegou perto do barqueiro, este lembrou-lhe logo o cumprimento da

promessa que lhe fizera.

Mas o rapazito, que era bastante sagaz, respondeu:

--Conduze-me á outra margem, que então te direi o que has de fazer para

te vêres livre d'aqui.

Logo que pôz o pé na outra margem, o rapaz cumpriu a palavra:

--Apenas se apresente um novo passageiro para que o ponhas na outra

margem, entrega-lhe os remos e sáfa-te.

Seguiu a sua róta, e depressa chegou ás portas da cidade, onde existia a

arvore esteril; a sentinella aguardava o rapaz para que não se

esquecesse do promettimento.

--Matem o rato que róe a raiz da arvore, se querem vêr a arvore

carregadinha de maçãs de ouro--aconselhou o moço.

A sentinella, grata com a resposta, compensou-o com dois burros

carregados d'ouro. Para encurtarmos razões, o rapaz nascido n'um folle

depressa alcançou as portas da cidade, onde havia a fonte que

estava sequinha. Aqui, repetiu tambem á sentinella as palavras do diabo:

--Debaixo de uma pedra está um sapo; assim que o matarem, continuará a

fonte a dar vinho abundantemente.

A sentinella agradeceu muito e, em paga, deu-lhe tambem dois burros

carregados d'ouro.

O rapaz nascido n'um folle estava, d'alli a pouco, em presença da noiva,

a quem abraçou, e que ficou contente em tornar a vêl-o. Foi levar ao rei

os tres cabellos d'ouro do diabo; e o soberano, ao vêr os quatro burros

carregados de ouro, demonstrou claramente a sua alegria, dizendo:

--Agora que satisfizeste todas as condições, tens minha filha por tua

mulher. Mas dize-me, meu caro genro, como é que arranjaste todo esse

ouro?

--Atravessei um rio, cuja margem é de ouro, em vez de areia. Foi ahi que

o apanhei.

--É muito difficil fazer egual colheita?--perguntou o monarcha, cujos

olhos scintillavam de cubiça.

--É facilimo tomar tanto quanto se deseje--continuou o rapaz nascido

n'um folle.--Ha um barqueiro proximo; peça-lhe que o conduza á outra

margem, e d'esta maneira póde trazer os saccos que quizer cheios de ouro.

O monarcha, mordido pela ambição, depressa se pôz em marcha. Chegado á

margem do rio pediu ao barqueiro para o levar á outra margem. O

barqueiro apressadamente disse ao rei para entrar no barco, e assim que

chegaram ao outro lado do rio, o barqueiro entregou-lhe os remos e

saltou lesto para terra.

--E ainda lá está o rei feito barqueiro?--perguntarão os meus

amaveis e gentis leitorzinhos.

--Está e estará até que expie, por completo todas as suas culpas.

O sapateiro e os gnomos

Era uma vez um sapateiro que, por vicissitudes da vida, empobreceu tanto

que só conseguira comprar material sufficiente para um par de sapatos.

De noite talhou a pelle para no dia seguinte os concluir; como era bom,

deitou-se tranquillamente, orou e adormeceu.

No dia immediato, ao erguer-se, ia pegar na tarefa, mas achou em cima da

mesa o par já feito. Ficou altamente surprehendido, mas não comprehendia

o que o facto queria dizer. Pegou nos sapatos e viu-os, examinou-os de

todas as fórmas e feitios, mas defeito algum lhes encontrou, tão

bem acabados estavam; eram o que se chama uma obra prima, um encanto.

Entrou-lhe em casa um freguez, a quem agradaram tanto os sapatos que os

comprou mais caros do que costumava, e com este dinheiro o sapateiro

arranjou material para outros dois pares. N'essa mesma noite os talhou

para no dia seguinte os concluir, quando, ao despertar, os viu já

promptos; d'esta vez, ainda, não faltaram compradores e, com o producto

da venda, pôde conseguir material para quatro pares.

No dia seguinte os quatro pares estavam promptos; finalmente, tudo o que

talhava de vespera lhe apparecia feito de manhã, ao acordar; de modo

que, sem grande trabalho, se achou remediado.

Uma noite, porém, pelas proximidades do Natal, quando acabára de

talhar os sapatos e se ia deitar, disse para a mulher:

--E se nós velassemos esta noite para vêr quem é que nos ajuda?

A mulher approvou a ideia, e, deixando a candeia accêsa, escondêram-se

n'um armario onde havia roupa e na qual se occultaram á espera dos

acontecimentos. Ao dar a meia noite, dois bonitos gnomos entraram no

quarto, sentaram-se na tripeça do sapateiro e, pegando na pelle talhada,

com as pequeninas mãos ajustaram, coseram e bateram sola, com tanta

agilidade e presteza que era um gôsto vêl-os.

Trabalharam sem descanço até que deram fim á tarefa, e desapparecêram

n'um ai!

Na manhã immediata alvitrou a mulher:

--Estes gnomosinhos enriquecêram-nos, e nós devemos mostrar-lhes a nossa

gratidão; elles devem sentir frio, sem nada que os tape. Sabes do

que me lembrei? Fazer-lhes três camisinhas, calças, collete e casaco

para elles vestirem e umas meiasinhas para calçarem; e para completar o

brinde, tu fazias-lhes uns sapatinhos.

O marido concordou com a mulher, e deram logo principio á obra, e,

decorridas bem poucas horas sobre tão sympathica resolução, á tarde,

estava tudo prompto; collocaram, pois, marido e mulher, as suas prendas

em cima da mesa, justamente no sitio em que era costume pôrem nos outros

dias a obra talhada, e escondêram-se para verificarem o que os gnomos

faziam. Meia noite a dar e elles a apparecerem para dar começo á tarefa;

mas em vez dos sapatos cortados para elles fazerem, como tinha succedido

nos dias antecedentes, encontraram essas vestimentas, o que lhes causou

admiração, que d'ahi a pouco cedeu o logar a uma grande alegria.

Vestiram os fatos com presteza, viram que lhes ajustavam como uma luva e

começaram a dançar, a saltar por cima das cadeiras e dos bancos, e a

cantar saíram.

Desde então, nunca mais os viram. O sapateiro, porém, continuou a ser

feliz emquanto viveu, tendo tudo quanto ambicionava.

As tres pennas

Era uma vez um rei que tinha tres filhos; os dois mais velhos eram

alegres e palradores, e o mais moço de poucas falas e muito acanhado,

razão por que o tinham na conta de simples.

Quando o monarcha chegou a velho, quiz fazer testamento; mas viu-se

bastante embaraçado por não saber a qual dos tres filhos legar a corôa.

Certo dia, porêm, chamou-os e disse-lhes:

--Ponham-se a caminho, e aquelle que trouxer o tapete mais

finamente tecido é que ficará sendo rei por minha morte.

Dizendo isto, para evitar qualquer má vontade dos irmãos, andou alguns

passos além do palacio e, fazendo voar tres pennas, indicou-lhes:

--Cada um de vocês deve encaminhar-se na direcção que estas pennas levarem.

A primeira penna voou para o oriente, a segunda para o occidente e a

ultima volitou uns segundos e foi caír a alguns passos de distancia.

Por, isso, o mais velho tomou o caminho da direita, o do meio voltou á

esquerda e o mais novinho--troçado pelos mais velhos--encaminhou-se para

o sitio onde caíra a terceira penna.

O pobre moço, apoquentado e triste, deitou-se no relvado. De repente

notou uma porta subterranea no logar em que a penna caíra. Abriu-a

e reparou n'uma escada, que se aventurou a descer. Uma vez em baixo, deu

de rosto com outra porta, em que bateu. Então ouviu uma voz que--em

phrase cabalistica--a mandou abrir.

Quando a porta girou nos gonzos viu-se um enorme sapo, de envolta com

uma porção de sapinhos. O sapão perguntou ao rapazito o que é que

desejava, ao que o interpellado retorquiu:

--Não seria facil arranjar-se um tapete bonito e finamente tecido?

Palavras não eram dictas e já o sapão gritava a um dos sapinhos, que,

n'um pulo, lhe trouxesse um cofre.

O sapinho assim fez; o sapão abriu-o e tirou de dentro um tapete tão

ricamente tecido como nunca no mundo se havia visto egual, com o que

presenteou o rapazinho, que agradeceu muito e se pôz em marcha.

Ora, os dois irmãos reflectiram de si para si que o irmão era tão

palerma, que se escusavam de cançar muito para toparem com um tapete

decerto superior ao que elle conseguisse.

Assim deitaram a mão ao primeiro panno de lã grosseira que uma

guardadora de porcos trazia, e vieram entregál-o ao rei. Pouco depois,

appareceu o irmão mais novo com o magnifico tapete.

O regio personagem, no auge da surpreza, exclamou:

--O reino pertence ao mais moço!

Os irmãos é que não estiveram pelo ajuste e observaram ao velho pae, que

tal resolução era impracticavel, pois o irmão não passava de um pateta;

taes rodeios arranjaram, taes razões, que o monarcha, já fatigado de

tanta loquella, não teve remedio senão tentar segunda experiencia.

--Será rei por minha morte aquelle que me trouxer o mais valioso annel.

Conduziu novamente os tres filhos a alguns passos distantes, do palacio

e fez voar tres pennas, cuja direcção deviam tomar. Como da primeira

vez, os dois mais velhos partiram para o oriente e occidente; quanto á

penna do mais moço volitou tambem por segundos e foi caír d'alli a

poucos passos.

Ao contrario da vez passada, o rapaz não entristeceu, mas apressou-se a

descer a escada pela porta subterranea, em direcção á casa do sapão que,

de chofre, lhe perguntou o que queria, respondendo em seguida:

--Não será facil arranjar-se um bonito e valioso annel?

O disforme batrachio mandou buscar o cofre e tirou-lhe de dentro um

annel riquissimo, e tão artisticamente cinzelado, que ourives algum

do mundo seria capaz de apresentar outro do mesmo gôsto.

Ora os dois irmãos, rindo-se ao pensar que o simples mocinho havia de

conseguir um annel precioso, não se deram a grandes trabalhos, certos de

que se sairiam melhor do encargo do que aquelle, e assim arrancaram a

primeira argola que viram presa n'uma parede e que servia para segurar

os animaes, e foram ter ao palacio dál-a ao rei. O velho monarcha nem

sequer teve que comparar, exclamou:

--É ao terceiro que faço rei!

Entretanto, os dois mais velhos convenceram tão bem o velho rei da

nullidade do irmão que o monarcha consentiu em fazer terceira tentativa,

a ultima. Decidiu-se que herdava o throno o que trouxesse a mulher mais

formosa. Como das vezes passadas, as tres pennas foram deitadas ao ar e

tomaram as mesmas direcções.

O moço-simples desceu pela terceira vez a casa do sapão.

--Não seria desejar muito, pedir uma formosa mulher?

--Caspité!--exclamou o grande batrachio.--Uma formosa mulher?! E porque

não has-de têl-a?!

Dictas que foram estas palavras, o sapão deu-lhe uma beterraba ôca

puxada a seis ratos brancos.

Ao ver tão curiosa carruagem, o pobre rapaz perguntou com certa tristeza:

--Que faço a isto?

--Agarra um de meus filhos--respondeu o sapo--e mette-o dentro d'esse

carro.

A esta indicação, pegou ao acaso n'um dos sapinhos e metteu-o na

beterraba; mal ahi foi collocado, o bicharôco ficou transformado n'uma

menina de formosura maravilhosa, a beterraba n'uma luxuosa equipagem e

os seis ratos em tres parelhas de cavallos brancos de neve. Em

seguida, o mocinho subiu para a boléa, abraçou a moça e depressa seguiu

para o palacio. Os dois irmãos mais velhos chegaram d'ahi a pouco, mas

faziam tão mau juizo da escolha que o mais moço faria, que ficaram

satisfeitos com a primeira camponia que lhes appareceu e que levaram a

palacio. D'esta vez ainda--o que não é para assombros--o monarcha disse:

--É ao mais moço de meus filhos que pertencem as rédeas do governo apoz

minha morte!

Perolas e Diamantes: Contos Infantis · 第 2 / 3 段